sábado, 11 de abril de 2026

Rio de Janeiro, um estado de espírito

 

Imagem extraída do Google


Luiz Thadeu Nunes e Silva(*)

 

Estou no Rio. Desembarquei no início da semana na Cidade maravilhosa. Da janela do avião avistei o sol nascendo, irradiando a paisagem deslumbrante das montanhas; logo depois o oceano Atlântico, com seu azul deslumbrante. Natureza em estado puro. Conheço um pouco do mundo - em andanças, visitei 162 países em todos os continentes. Poucas cidades são tão bonitas quanto o Rio. Mais bela, nenhuma.

O Rio, antes de mais nada, é um estado de espírito. Tem que sentir a atmosfera de sua gente despojada. A irreverência, o gingado de sua malandragem, o modo descompromissado de viver. O sotaque chiado. As moças com seus derrières, marca registrada da cidade, magistralmente mostradas nos cartuns de Lan.

Há tempos me hospedo em hotéis do centro da cidade. Hotéis com histórias. Estou hospedado no Itajubá, rua Álvaro Alvim, Cinelândia.  Fundado em 1º de junho de 1928, o Hotel Itajubá, foi um dos primeiros "arranha-céus" do Rio, com 12 andares. Originalmente um edifício de luxo, tornou-se hotel em 1950. Localizado no coração cultural do Rio, cercado de teatros, cinemas, da Câmara Municipal, do belíssimo Theatro Municipal, da Biblioteca Nacional. Em andanças por praças e ruas cobertas por pedras portuguesas, na companhia do amigo Pedro Henrique Fonseca, é um mergulho no Rio dos séculos XIII e XIX. Pedro Henrique, natural de Cururupu, médico e escritor, um ourives, arguto garimpeiro da história da cidade que tão bem abraçou-o. Dele ganhei o livro, “Rio de Janeiro, a urbe oitocentista”. Ótima leitura, em que o autor retrata o apague da cidade.

Do hotel, ando um pouco e estou na praça Floriano, palco de manifestação culturais. O Rio, em priscas eras, foi o tambor cultural do Brasil. Tudo que aqui acontecia, ressonava em todo o país. Ditou moda. As novelas da TV Globo monopolizavam e hipnotizaram esse imenso país. Trouxeram as praias, costumes e linguajar carioca para nossas casas.

Hoje, o Rio que a TV mostra, é o Rio das drogas, da violência, das comunidades, com suas facções e milícias. Além do caos na política. Com cinco ex-governadores que visitaram o xilindró: Moreira Franco, Sérgio Cabral, Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Luiz Fernando Pesão, além de dois afastados: Wilson Witzel e Cláudio Castro; atualmente é governado por um interino, aguardando o fim de mais um imbróglio. O Rio é o único lugar em que bandidos são chamados no diminutivo. Maneira carinhosa de convivência com a bandidagem. No carnaval, autoridades, malandros e bandidos comungam na Marquês de Sapucaí. Todos dividindo acepipes, espaços e poderes. Surreal.

Mas o Rio continua lindo, como cantou o baiano Gilberto Gil, que aos 84 anos, residente de frente para o mar de Copacabana, encerrou a turnê “Tempo rei”.

Em minhas idas ao Rio é quase sagrado encontrar com a amiga Teresa Teles. Bela e plena. Nesta viagem, reunimos para um almoço no prédio da FIRJAN, junto com Pedro Henrique. Boa comida, ótimas conversas que se estenderam pela tarde toda. Como somos memórias e projetos de futuro, foi uma viagem no tempo.

No sábado, como sempre faço, visitei a feira de antiguidades da praça XV. Garimpei quadros, louças e livros. Adquiri “Poeira de estrelas”, escrito por Luiz Carlos Miele, um paulista que adotou o Rio. Radiografia do meio artístico das décadas de 60 e 70.

Leitura apetitosa e divertida sobre quem fez a vida acontecer na vida cultural do Rio.

Escrevo de uma mesa do Amarelinho. Fundado em 1921, na Cinelândia, que na época, por abrigar teatros, cinemas que recebiam a elite carioca, era considerada “Broadway Brasileira”.  Sentado na parte de fora, sob o toldo amarelo, observo os transeuntes e desvalidos que ali habitam. Momento mágico, quando o sol se recolhe deixando a lua brilhar.

"Gosto das cores, das flores, das estrelas, do verde das árvores, gosto de observar. A beleza da vida se esconde por ali, e por mais uma infinidade de lugares, basta saber e, principalmente, basta querer enxergar”, cito Clarice Lispector, ucraniana de nascimento, que adotou o Rio como seu. Observar o entardecer, na lentidão sem pressa, é criar boas memórias para o futuro.

Em tempo: Deve-se ao escritor maranhense Coelho Neto (1864-1934), chamar o Rio de Janeiro de Cidade maravilhosa.

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Luiz Thadeu Nunes e Silva  é Jornalista, escritor e Globetrotter, autor do livro “Das muletas fiz asas”

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