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Luiz Thadeu Nunes e
Silva(*)
Estou no Rio. Desembarquei no
início da semana na Cidade maravilhosa. Da janela do avião avistei o sol
nascendo, irradiando a paisagem deslumbrante das montanhas; logo depois o
oceano Atlântico, com seu azul deslumbrante. Natureza em estado puro. Conheço
um pouco do mundo - em andanças, visitei 162 países em todos os continentes.
Poucas cidades são tão bonitas quanto o Rio. Mais bela, nenhuma.
O Rio, antes de mais nada, é um
estado de espírito. Tem que sentir a atmosfera de sua gente despojada. A
irreverência, o gingado de sua malandragem, o modo descompromissado de viver. O
sotaque chiado. As moças com seus derrières, marca registrada da cidade,
magistralmente mostradas nos cartuns de Lan.
Há tempos me hospedo em hotéis do
centro da cidade. Hotéis com histórias. Estou hospedado no Itajubá, rua Álvaro
Alvim, Cinelândia. Fundado em 1º de
junho de 1928, o Hotel Itajubá, foi um dos primeiros "arranha-céus"
do Rio, com 12 andares. Originalmente um edifício de luxo, tornou-se hotel em
1950. Localizado no coração cultural do Rio, cercado de teatros, cinemas, da Câmara
Municipal, do belíssimo Theatro Municipal, da Biblioteca Nacional. Em andanças
por praças e ruas cobertas por pedras portuguesas, na companhia do amigo Pedro
Henrique Fonseca, é um mergulho no Rio dos séculos XIII e XIX. Pedro Henrique,
natural de Cururupu, médico e escritor, um ourives, arguto garimpeiro da
história da cidade que tão bem abraçou-o. Dele ganhei o livro, “Rio de Janeiro,
a urbe oitocentista”. Ótima leitura, em que o autor retrata o apague da cidade.
Do hotel, ando um pouco e estou
na praça Floriano, palco de manifestação culturais. O Rio, em priscas eras, foi
o tambor cultural do Brasil. Tudo que aqui acontecia, ressonava em todo o país.
Ditou moda. As novelas da TV Globo monopolizavam e hipnotizaram esse imenso
país. Trouxeram as praias, costumes e linguajar carioca para nossas casas.
Hoje, o Rio que a TV mostra, é o
Rio das drogas, da violência, das comunidades, com suas facções e milícias.
Além do caos na política. Com cinco ex-governadores que visitaram o xilindró:
Moreira Franco, Sérgio Cabral, Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Luiz
Fernando Pesão, além de dois afastados: Wilson Witzel e Cláudio Castro;
atualmente é governado por um interino, aguardando o fim de mais um imbróglio.
O Rio é o único lugar em que bandidos são chamados no diminutivo. Maneira
carinhosa de convivência com a bandidagem. No carnaval, autoridades, malandros
e bandidos comungam na Marquês de Sapucaí. Todos dividindo acepipes, espaços e
poderes. Surreal.
Mas o Rio continua lindo, como
cantou o baiano Gilberto Gil, que aos 84 anos, residente de frente para o mar
de Copacabana, encerrou a turnê “Tempo rei”.
Em minhas idas ao Rio é quase
sagrado encontrar com a amiga Teresa Teles. Bela e plena. Nesta viagem,
reunimos para um almoço no prédio da FIRJAN, junto com Pedro Henrique. Boa
comida, ótimas conversas que se estenderam pela tarde toda. Como somos memórias
e projetos de futuro, foi uma viagem no tempo.
No sábado, como sempre faço,
visitei a feira de antiguidades da praça XV. Garimpei quadros, louças e livros.
Adquiri “Poeira de estrelas”, escrito por Luiz Carlos Miele, um paulista que
adotou o Rio. Radiografia do meio artístico das décadas de 60 e 70.
Leitura apetitosa e divertida
sobre quem fez a vida acontecer na vida cultural do Rio.
Escrevo de uma mesa do
Amarelinho. Fundado em 1921, na Cinelândia, que na época, por abrigar teatros,
cinemas que recebiam a elite carioca, era considerada “Broadway
Brasileira”. Sentado na parte de fora,
sob o toldo amarelo, observo os transeuntes e desvalidos que ali habitam.
Momento mágico, quando o sol se recolhe deixando a lua brilhar.
"Gosto das cores, das
flores, das estrelas, do verde das árvores, gosto de observar. A beleza da vida
se esconde por ali, e por mais uma infinidade de lugares, basta saber e,
principalmente, basta querer enxergar”, cito Clarice Lispector, ucraniana de
nascimento, que adotou o Rio como seu. Observar o entardecer, na lentidão sem
pressa, é criar boas memórias para o futuro.
Em tempo: Deve-se ao escritor
maranhense Coelho Neto (1864-1934), chamar o Rio de Janeiro de Cidade
maravilhosa.
(*)
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