Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

sábado, 14 de fevereiro de 2026

TIBÚRCIO - O Anjo Negro

Imagem do Google

 

José Pedro Araújo (*)

- É isso mesmo que o senhor está ouvindo. Tô nessa vida por gosto e por desgosto. Por gosto porque gosto da minha profissão como gostaria de qualquer outra. Por desgosto, porque comecei ela para vingar a morte do meu pai. Hoje não sinto nem uma coisa, nem outra. Pra mim tanto faz matar um cachorro rabugento, como atirar num prefeito, por contrato. Aliás, quer saber? Talvez sinta mais pena do cachorro. Não sinto alegria, nem tristeza, somente um leve sentimento do dever cumprido.

- ...!

- Só fico aqui matutando como seria minha vida se meu pai não tivesse morrido daquela forma. Talvez ainda estivesse vivendo naquele pedaço de chão seco de caatinga, plantando, plantando, e pouco colhendo. No fundo, devo agradecer ao desinfeliz que acertou um tiro de lazarina nele. Usou um pé de panela em lugar de chumbo e quase arranca a cabeça lá dele. É isso, meu dotô. Fui forçado a procurar outra profissão. E me dei bem. O senhor não concorda? Hoje não importa pra mim se o inverno foi bom, se a mandioca pegou bem, ou se a seca devorou o meu roçado. Trabalho é o que não me falta. Faça bom inverno ou que não caia uma gota d’água no chão. 

- ...!

- É o que eu digo sempre: o sujeito pode ganhar dinheiro até mesmo na profissão de coveiro. É só inventar uma maneira de melhorar a vida dos que vão deixar lá seus defuntos. Hoje têm uns cemitérios tão arrumados que mais parece um jardim. E o pessoal ainda paga um bom dinheiro pra manter o lugar bem bonito. Todo mês. Especialista, dotô! Tem que ser especialista na profissão que você escolhe. Eu até posso dizer que sou um dotô também de tão especializado que sou. Nunca deixei um contratante meu em má situação. Pagamento feito, mercadoria entregue. Esse é um de meus lema. Por isso não me falta contrato.

- ...?

- Claro que pra chegar aonde cheguei, precisei abater muito pé-de-chinelo. Gentinha, tá compreendendo? Comecei assim, de baixo. Como todo mundo começa na vida, se não herdar. E no começo era dinheiro miúdo pelo contrato, couro de rato, merreca, que às vezes não dava pra chegar no fim do mês. Depois fui melhorando o meu prestígio, fazendo defunto de elite. Até mesmo uns políticos conhecidos passaram pela alça da mira do meu papo-amarelo. E quando você consegue cumprir bem um desses contratos, aí a fama aumenta muito. E fama aumentando, aumenta os ganhos da gente! Cheguei tão longe nesse meu negócio, que tive que abandonar o sertão do Seridó. Lá não tinha mais cliente pra mim. E eu não posso voltar atrás nos valores cobrados, senão todo mundo vai querer me pagar pouco, chorar miséria, essas coisas. Olha, apareceu até mulher querendo se livrar do marido e propondo me pagar com o apurado dela. Imagina! Não trabalho em consignação. Isso não! Não trabalho mais também só com meiúca. Metade no ato do contrato, metade depois do serviço terminado. Isso é pra principiante. Quero tudo na minha mão. Pois, como já sou muito famoso, não podem me ver na região onde o trabalho aconteceu. Tenho que desaparecer por uns tempos, aparecer rapidamente em outros lugares. Forjar o meu álibi. Não posso voltar pra cobrar a outra metade. Por isso todo mundo sabe que eu vivo disso, mas ninguém tem provas pra me botar na cadeia.

- ...?

Sou muito profissional. Nem pra irmão eu trabalho de graça. Aliás, o último que matei de graça foi por vingança. Foi o caso que já lhe contei; o caso do meu pai. Coisa de menino afobado. Hoje posso dizer que sou da paz. É! Um defensor da não violência. Prefiro os argumentos, seu dotô! Os argumentos, tá entendendo? Outro dia mesmo, caboclinho queria fazer fama comigo e andou me dando uns tabefes pra ver minha reação. Puxei o tresoitão somente pra botar ele pra correr dali. Mas, não acho certo matar por uma discussão à toa, um tabefezinho qualquer. Sou pela paz, como disse. Morte mesmo, só com contrato.

- ...?

- Não! Ninguém reluta mais. Quando vem alguém me procurar já tá ciente de só trabalho assim, dotô. Outra coisa que não admito é refazer o contrato. Contrato feito, temos que cumprir tudo direitinho. Você me paga, eu te dou um cadáver em troca. Simples assim. Ninguém pode voltar atrás.

- ...!

- Pense bem antes de fazer o contrato comigo. Dinheiro bateu no meu bolso é meu. Não devolvo. Por outro lado, sempre cumpri o acordo. Não pode dizer que se arrependeu, que não quer mais o defunto. Eu sempre faço o que o patrão me pagou pra fazer, dotô. Depois, já passei dias estudando o sujeito, zangando com ele, opilando o meu fígado. E depois de criar ódio pelo cabra, pode encomendar o paletó dele. Outro dia um político me contratou para mandar mais cedo um adversário dele pro andar de cima. Contrato firmado, dinheiro entregue, passei a fazer o meu ritual. Cuspi na foto do miserável, amassei, desamassei a bicha, passei noites sem dormir dado o ódio que comecei a sentir por ele. Aí veio o miserável do contratante e disse que não queria mais a morte do sujeito, que já tinham feito uma parceria muito vantajosa pra ele. Eu respondi que não tinha mais jeito. Podia ir se acostumando com a ideia que a coisa era questão de dias. Ora vê se pode! Não tem palavra não, cabra! Eu tenho. E por isso meu nome está limpo na praça. 

- ...?

- Prefiro no campo. Lá você fica tranquilo. Procuro uma boa posição atrás de um pau ou de uma pedra. É só fazer a coisa de modo a ninguém te ver. Na cidade isso é impossível. Sempre vai aparecer alguém pra te denunciar. Depois, fico ali esperando, tranquilo. Uma hora a caça passa na frente do meu trabuco. Também é mais fácil pra fugir do local. 

- ...?

- Não! Fico tranquilo, esperando. Aproveito pra cortar as unhas, pensar na vida. Planejar a fuga pra voltar logo pro meu canto aqui. Aqui é o meu escritório. Aqui recebo meus clientes. Tenho que voltar logo.

- ...?

- Tenho um lema sim! “Esse não morre mais!” Passou na frente do meu rifle, não vai ter outra chance pra morrer. Tô é fazendo favor pro cabra! Todo mundo vai morrer um dia mesmo! E a maioria das pessoas sofre que nem o diabo antes de partir dessa pra melhor. Uma vítima minha não sofre nadinha de nada. O pau quebrou, em segundos ele já está viajando pro além. Os outros, não! Sofrem dias, às vezes meses, gastando tudo o que tinha pra diminuir as dores. E depois morre do mesmo jeito! É por isso que me chamam de anjo negro. Me orgulho desse nome. Anjo, seu dotô. Me chamam de anjo. Então devem estar felizes com o meu trabalho. Se não, era fii da peste pra cá, incompetente pra lá! Essas coisas. Sou um anjo vingador, meu dotô! Já me disseram isso! Abro os caminhos pros meus clientes. Sou, com muita honra, Tibúrcio, o anjo negro. Aquele que foi enviado para te afastar das tristezas da vida. Morto não sente dor, não paga dívida. Pra que melhor, ingrato!

- ...?

- Não preciso me oferecer pra ninguém. Nem fazer propaganda preciso fazer. Cada contrato bem cumprido é que é a minha propaganda. E quem quiser me contratar, que venha até aqui! Olha lá aquele homem bem apessoado que acabou de dobrar na curva. Tá vindo atrás dos meus serviços. Pode ter certeza. Só dois tipos de gente passam por aqui: os clientes, ou algum incompetente que se perdeu no caminho. É! O pessoal que me contrata é gente de bem, bem-vestido, como aquele que vem lá. Pé rapado não tem dinheiro pra contratar um homem famoso como eu! Se aparecer outro tipo de gente por aqui, vai ter que se explicar direitinho pra mim.

- ...?

- Se tenho medo de ser alguém contratado pra me matar? Meu faro é meu guia, seu dotô! Por isso estou nessa lida há tanto tempo. Conheço um da minha classe de longe, e só pelo cheiro. Aquele lá é um molóide, monta mal, se segura na sela como se fosse cair a qualquer instante. Um da minha iguala tem que saber se comportar em cima de uma montaria. Se não, como vai conseguir escapar rapidamente?  Oi! de lá! Pode se chegar. Se sou Tibúrcio, o anjo negro? Pode apostar que sim! Por que o patrão aí quer saber?

- ...?

- Se tô disponível pra fazer um serviço? Uma coisa que nunca fiz foi tirar férias, meu dotô! No meu ramo temos que aproveitar o momento bom. E o preço é esse mesmo. Tá com o faz-me rir aí no alforje? Isso é bom! Deixe-me ver.

- ...!

- Mas o que é isso? Não! Não faça isso! ... Miserável! Como fui me deixar surpreender por um novato desengonçado desse? Só pode ser crime de vingança! Não precisava atirar na minha barriga, infeliz! Isso é morte dolorosa e demorada! Por isso deve ser crime de vingança! Crime por encomenda tem que ser rápido. É preciso levar notícia pro patrão que contratou o serviço. Mas que coisa! Morto por um amarelo desse! Meu primeiro e último erro. Peço perdão a todos os santos! Meu Padim Padre Cícero, me receba no seu reino no céu! Como dói essas pestes encravada aqui na minha barriga! Foi bala Dundum, senti a droga rasgando tudo. Dói e queima! Morrer de tiro de Rossi 22! A bala nem consegue me atravessar! Ô vida! Tá chorando por que, amarelo? Para de tremer, siô! É verdade, você acaba de matar o maior matador do agreste! Poder espalhar a história e se aproveitar da fama, chorão de uma figa!

- ...!?

- ...!

(*) 


José Pedro Araújo é engenheiro agrônomo, funcionário público federal aposentado, historiador, cronista, romancista, e coordenador do blog Folhas Avulsas.

 

sábado, 4 de novembro de 2023

A REVANCHE DOS PÁSSAROS


 

Raimundo de S. Lima(*)

Vou contar-lhes uma história difícil de acreditar. É sobre o comportamento dos pássaros que, na minha opinião, nunca poderia ser semelhante à conduta humana, permeada de sentimentos hostis, como raiva, revolta, vingança e tantos outros. Reconheço, todavia, que eu estava equivocado, pois tenho presenciado e ouvido muitos relatos sobre pássaros revoltados, e até mesmo vingativos.

Pensando bem, quando ocorreu a queda do homem, devido ao pecado de Adão e Eva, as consequências de tal transgressão recaíram sobre toda a criação.

Alguém pode se insurgir contra essa verdade, mas quem é o homem para julgar a Deus? Quem é a criatura para duvidar do Criador? O que nos conforta é o fato de sabermos que um dia Deus cumprirá a sua promessa e restaurará a terra, momento em que nos concederá uma nova terra e um novo céu, ou seja, retornaremos ao estado de inocência, que imperava antes do surgimento do pecado.

Não há, entretanto, como se falar sobre os problemas que envolvem essas criaturas de Deus sem se adentrar no estudo das soluções apresentadas pelo próprio Deus, em sua Santa Palavra, mas isso é tema para outra narrativa.

Voltemo-nos, portanto, para o assunto que nos propomos a tratar. Contaremos, em primeiro lugar, a história de

O TUCANO

Todos nós sabemos que o Tucano é um dos pássaros mais bonitos da fauna brasileira. Ele é majestoso e possui bico longo e cores fortes, o que chama a atenção de todos. O Tucano de nossa história, além de preencher todos esses predicados, também se poderia dizer que tinha outro encanto, ou seja, uma personalidade mansa e irresistível, que cativava todos que o conheciam. O seu tutor, um amigo nosso, tratava-o como a um hóspede merecedor de toda atenção. O seu viveiro era espaçoso e havia sido construído pelas mãos de um mestre carpinteiro, o que lhe emprestava um ar de austera beleza. Sempre que alguém se aproximava dele, encontrava-o repousando em seu poleiro, com ar solene, que transmitia uma certa paz. E assim, passavam-se os anos sem que o nosso personagem apresentasse qualquer mudança de comportamento. Mas, num certo dia, ele percebeu a presença de um bando de pardais que, como quem nada quer, circulava pela varanda da casa onde fora construído o viveiro, porém sem se aproximar muito do grande pássaro. No dia seguinte, o tucano recebeu nova visita, mas não demonstrava ter percebido a aproximação dos intrusos, permanecendo acomodado em seu trono, e aparentando estar totalmente desinteressado sobre o que ocorria nas proximidades de seu “lar doce lar”. Os pardais, a cada investida que faziam, aproximavam-se mais e mais do viveiro, até que começaram a se alimentar das migalhas da ração que escapavam do comedouro do tucano, o que o deixara em estado de alerta, sem que, no entanto, tenha demonstrado qualquer reação. Face à aparente inércia do tucano, os pardais continuaram vasculhando tudo em redor do viveiro até que encontraram uma brecha na tela e adentraram no local proibido, mantendo, por cautela, uma certa distância do dono da casa, que permanecia contemplativo como um monge tibetano. Diante desse quadro, os pardais perderam totalmente o medo e, com a barulheira que lhes é peculiar, resolveram apoderar-se do comedouro do Tucano que, inesperadamente, reagiu de forma truculenta, batendo violentamente com as asas sobre o poleiro, o que deixou os pardais totalmente atordoados, momento em que tocou o alarme “salve-se quem puder”. No desespero, a maioria dos pardais não conseguia encontrar o lugar da saída. O Tucano permaneceu pousado no lugar de costume e, sempre que um dos pardais passava próximo, ele abria e logo fechava o grande bico, estraçalhando a pequena ave, em questão de segundos. Os poucos pardais que conseguiram escapar do viveiro, fugiram dali para nunca mais voltar. Por sua vez, o tutor do Tucano, que não tinha conhecimento desse seu lado obscuro de predador de pequenos animais, dali em diante passou a vê-lo com outro olhar, em face da quebra de confiança!

O segundo episódio de nossa história se deu entre

BEM-TE-VIS X CORRUPIÕES

Pouco tempo depois da crise de selvageria sofrida pelo nosso protagonista maior, o belo tucano, proibiu-se, em todo o território nacional, a criação de pássaros silvestres em gaiolas ou outras prisões, salvo raríssimas exceções, e mediante a competente autorização dos órgãos ambientais. Porém, mesmo vivendo em liberdade, em seu habitat natural, os pássaros não estão livres de apresentarem comportamentos reprováveis, prova disso foi o que aconteceu com os nossos novos personagens. A história se deu em um lindo sítio situado no litoral piauiense que, por coincidência, pertence ao antigo tutor do tucano. Em um belo dia, o referido senhor percebeu um comportamento atípico do casal de bem-te-vis que vivia em torno de sua casa, e logo descobriu que ambos estavam empenhados em frenético trabalho de construção de um ninho. Quando um chegava com um garrancho no bico, o outro partia em direção ao bosque à procura de novos materiais, como capim seco, crina de cavalo e até mesmo penas de galinha. Qualquer objeto era bem-vindo para a construção do novo lar, onde depositariam seus ovos e os chocariam até que eclodissem, anunciando a chegada de seus lindos filhotes. Tudo transcorreu bem até o término da construção. A beleza do ninho saltava aos olhos dos visitantes do sítio, mas o sonho durou pouco, pois antes que os bem-te-vis pusessem os ovos, receberam a indesejável visita de um casal de Corrupiões que, sem qualquer aviso, partiram para cima deles com ferozes bicadas e unhadas, até que lhes tomaram o ninho. Derrotados, os infelizes pássaros se afastaram para longe da vista de todos, mantendo-se escondidos por algum tempo. Nesse ínterim, os Corrupiões se regozijaram pela aquisição da casa, que nada lhes custara. Após a invasão da propriedade alheia, eles sentiram a necessidade de fazer um passeio pelo sítio à procura de uma saborosa fruta para matar a fome. Os bem-te-vis, que estavam à espreita, não perderam nenhum segundo, e lançaram-se em direção ao ninho, destruindo-o totalmente, graveto por graveto, em um trabalho inverso ao realizado quando de sua construção. Grande foi a decepção dos Corrupiões ao retornarem e não encontrarem mais o ninho, pois os bem-te-vis deixaram o local totalmente limpo. O proprietário do sítio assistiu, perplexo, ao desenrolar dos acontecimentos, perguntando de si para si como pudera se surpreender, mais uma vez, com o comportamento dos pássaros.

Por último, vamos relatar o acontecimento relacionado aos

ANUS-BRANCOS

O Anu-branco, também conhecido no Piauí como Pipiriguá, é uma ave bonita e sociável, geralmente encontrada em bandos familiares. Os Anus possuem voz forte e estridente e estão sempre cantando, quando pousados, e gritando, quando em pleno voo. Então, é quase impossível se contar a história de um único Anu-branco, visto que eles agem sempre em grupo. Feitas estas considerações, vou narrar o que uma família de Anus-brancos aprontou em nossa casa de praia. Devo esclarecer que o nosso relacionamento com os Pipiriguás já vem de longa data, pois sempre que viajamos, e isso fazemos com frequência, eles se encarregam de fazer a limpeza externa da casa, alimentando-se de ratos, rãs, pequenas cobras, baratas e outros insetos, uma vez que são excelentes predadores. Porém, de algum tempo para cá, eles vinham dando sinais de que queriam cobrar a conta, uma vez que passaram a dormir sobre o sofá que fica num dos terraços do segundo pavimento de nossa residência. Teríamos concordado com eles, não fosse a grande bagunça que faziam e a sujeira que deixavam para limparmos no dia seguinte. Exigimos, então, que eles não mais usassem o referido terraço, mas continuamos a permitir que desfrutassem das lindas carnaubeiras que temos na frente de nossa casa. Tudo parecia bem até que, quando retornamos da última viagem, encontramos entre as palhas de uma de nossas árvores um ninho, relativamente grande, onde já haviam colocado um lindo ovo. Ao perceberem a nossa presença, eles logo voaram, com grande algazarra. Diante de tal quadro, dirigimo-nos ao terraço de baixo e discutimos sobre a dificuldade de continuarmos a convivência amigável com os nossos novos vizinhos, e deliberamos que seria melhor pedirmos que eles se retirassem dali.  Assim, subimos novamente para comunicar-lhes a decisão e, para nossa surpresa, percebemos que não havia mais nenhum Pipiriguá ali. O ovo também tinha desaparecido, e o ninho encontrava-se parcialmente destruído. Até o presente momento, não sabemos o que fazer para reatarmos a amizade com os nossos antigos visitantes. Mas há uma esperança, pois hoje de manhã percebemos que eles pousaram e ficaram por um curto período sobre as palhas de nossas carnaubeiras. Compreendemos, contudo, que desta vez precisaremos ser bem claros com os Pipiriguás, delimitando as áreas de nossa casa e o uso que eles podem fazer delas, prevenindo-se, desta forma, futuros desentendimentos. Assim, não obstante sua aparente inocência, não há como negar que, como habitantes da terra, os pássaros também tenham sido afetados pelo fogo do pecado original, o que os leva a agir, em determinados momentos, impulsionados por uma certa dose de maldade. Como descendente de Adão, aproveito a oportunidade para pedir perdão a todos os seres vivos por terem sido atingidos pelo castigo resultante de nossa falta de obediência a Deus!

(*) Raimundo de Sousa Lima é Juiz de Direito aposentado, contista e ficcionista.

sábado, 18 de fevereiro de 2023

Nabucodonosor e a Invasão do Reino.

Imagem do Google


José Pedro Araújo(*)

Em Wonderfulworld, Nabucodonosor reinava com sabedoria e inteligência, preparando o país para o futuro. Havia construído, com a ajuda de toda a comunidade do reino, belas casas para as famílias que iam se formando à medida que outros habitantes chegavam à nova nação que ia despontando como a mais moderna e democrática do continente. Determinou a construção de escolas e equipou com o que de melhor existia em materiais e professores; hospitais bem estruturados em todos os lugares e modernas estradas interligando as várias comunidades que iam se formando. E, por fim, edificou o palácio real. Ficou uma maravilha, com torres nos quatro cantos, mas sem fosso de proteção que o mantivesse afastado do seu povo, e também sem a tradicional ponte levadiça para protegê-lo, pois confiava no processo de absoluta paz que reinava por lá e no relacionamento de amizade que havia estabelecido com seus felizes súditos e com países vizinhos. Ainda mandou construir, na parte superior frontal do palácio real, uma espécie de parlatório, local elevado de onde pudesse falar ao seu povo e ser visto por eles, para discutir os assuntos de interesse coletivo. Em pouco tempo todos estavam acostumados e acorriam ao palácio quando os arautos tocavam as trombetas em todas as direções, do alto da torre de menagem, conclamando a população para ouvir o que rei tinha para anunciar.

Diante do ambiente de harmonia vivido, até mesmo os antigos nobres da corte eram tratados com respeito e tiveram seus títulos de nobreza devolvidos, pois haviam perdido os mesmos em uma revolução ocorridas tempos atrás, antes da chegada de Nabucodonosor. Diante de tão nobre gesto real, mudaram todos eles o velho hábito, deixando de lado a exploração e a rigidez com que tratavam os moradores de seus antigos feudos, e buscaram no trabalho honesto seu próprio sustento, prática adotada por todos, até mesmo pela nova família real. Tirar o sustento através do próprio esforço era, portanto, a norma principal a ser seguida por todos os habitantes de Wonderfulworld. E o país cresceu e prosperou como nunca, e logo se transformou no mais importante reino existente naquela parte da terra.

Como vivia em completa paz com seus súditos e também com os reinos vizinhos, Nabucodonosor abriu mão de criar o seu próprio exército. Achava desnecessário usar os recursos do povo para comprar armas ou capacitar os jovens do reino para a guerra e para morte, em vez de treiná-los para a vida e para o trabalho. Em seu lugar, criou brigadas voluntárias junto à população para prestar ajuda à população no caso de ocorrência de catástrofes ou sinistros.

Viveram assim por longos e longos anos, na mais absoluta paz e respeito aos vizinhos. Wonderfulworld era um país neutro, pacifista. O estilo de governar baseado na confiança e união do povo, logo virou notícia, ganhou o mundo. Vizinhos, e povos mais distantes, visitavam Wonderfulworld para conhecer o sistema ali implantado baseado no respeito ao próximo e na dedicação absoluta ao trabalho. Não havia cadeias no reino, em seu lugar, foram criadas escolas para a recuperação daqueles súditos que porventura desrespeitassem as normas e costumes locais. As aulas eram ministradas pelos mais hábeis cidadãos em suas respectivas áreas. Agricultores, artesãos, construtores, industriais, entre outros, dedicavam parte do seu tempo a repassar suas experiências aos mais novos.

As únicas disputas permitidas eram as esportivas. Estimuladas pelo rei, anualmente eram praticadas por uma semana inteira nos quatro cantos da nação. Atletismo, lutas Greco-Romanas, Corridas de Pedestres, Corrida de Barcos, entre outros, faziam a festa dos jovens atletas, e os mais versáteis eram escolhidos para repassar aos mais novos seus conhecimentos e habilidades.

Outra coisa que Nabucodonosor dava muita importância, era a construção de paióis reais espalhados estrategicamente pelo reino, onde ficava armazenado uma pequena parcela dos cereais colhidos pela população para protegê-la nos momentos de escassez de alimento quando o país fosse assolado por forte estiagem ou outra calamidade qualquer. Por conta desses cuidados, nenhum habitante ficava sem se alimentar convenientemente quando algum tipo de problema acontecia.

Por fim, o povo de Wonderfulworld, tratava com religioso cuidado de suas matas e de seus bichos. Até mesmos os insetos, muito apreciados pela população local em pratos de muito prestígio, só eram usados na exata medida de suas necessidades diárias. Esses cuidados, e o respeito às florestas, mantinham o equilíbrio do meio ambiente de maneira que sua principal fonte de proteínas e vitaminas se mantinha sempre à disposição de todos.

Perguntado, certo dia, de onde retirava tanta sabedoria para transmitir aos seus felizes súditos, Nabucodonosor respondeu:

- Observando o que os humanos faziam quando vivi no meio deles.

- Os humanos são tão sábios assim? – perguntaram incrédulos.

- Até que são. Mas, as coisas que eu ponho em prática aqui, faço exatamente ao contrário do que eles fazem lá. Até que eles são criativos, mas grande parte do que criam, fazem no sentido de obterem benefícios imediatos, sem pensar em suas consequências futuras. Vejam só o caso das florestas, que eles derrubam para produzir cada vez mais alimento. Só que com isso, prejudicam o equilíbrio da natureza causando a diminuição das chuvas, provocando a diminuição da quantidade de águas disponíveis, e, por consequência, a redução no futuro da própria produção de alimentos que dependem de chuva para crescer e produzir.

- Oh!, agora entendemos o cuidado em não provocar desmatamento nas margens dos rios e lagos – admiravam-se as outras aves com a sabedoria do seu rei.

- Outro exemplo, as queimadas, que aqui evitamos tanto quanto podemos. Os gases provocados pelas chamas vão direto para a atmosfera e provocam o aquecimento da terra. Mais problemas para o futuro.

Assim, toda semana Nabucodonosor e os sábios do reino repassavam à população embevecida suas experiências que eram adotadas como se fossem decretos reais. Aliás, esse era outro dos costumes do reino. As leis que eram postas em práticas, não eram postas no papel. Eram, isso sim, guardadas na mente de cada um dos súditos que sabiam de cor todos os seus direitos e deveres. Tudo era aprendido nos debates e discussões em que elas eram submetidas até que a maioria absoluta do povo desse o seu aprovo.

Mas, se haviam povos vizinhos que admiravam a forma como viviam, havia também um povo que vivia num país não muito distante cujo rei devotava-lhe um profundo ódio originado da inveja que nutria crescentemente pelo modo de vida e tranquilidade em que o povo de Wonderfulworld vivia. Tratava-se de uma nação belicosa, cujo rei se chamava Dario, o sanguinário, e que vivia a guerrear com os outros povos vizinhos, sempre em busca de roubar-lhes as riquezas. Esse país era conhecido como o amedrontador reino de Avilã. Lá preferiam a guerra, a pilhagem e a morte, aos resultados obtidos através do trabalho honesto. Estranhamente, seu povo continuava a passar pelas maiores privações e maus-tratos, pois quase todo o produto obtido através dos saques era usado para rechear os armazéns do próprio rei e de seus generais, e para a prática de novas guerras.

Deste modo, certo dia, uma belíssima manhã de primavera, Wonderfulworld foi atacada pelos exércitos inimigos. E o rei Nabucodonosor, apesar de reagir com bravura, foi aprisionado no seu próprio castelo, após presenciar que seus súditos estavam sendo massacrados brutalmente, posto que, desarmados como estavam, eram presas fáceis diante do inimigo numeroso e fortemente armado. Negociou então a sua rendição colocando como condição o respeito à vida do seu povo, e que levassem todos os bens que pudessem, mas que deixasse o seu povo e o seu país em paz e voltassem para a terra deles.

Mas, Dario, o sanguinário, além de malvado, era também um descumpridor de acordos. Ao ter Nabucodonosor em suas mãos, aprisionou-o em uma das torres do palácio, pois ali não existiam masmorras, e expulsou todos os seus súditos jovens com idade para organizar uma resistência para fora do país, ficando com os mais velhos e com as mulheres como escravos; Apropriou-se também de suas casas e riquezas. Do alto da torre, pelas janelas agora gradeadas e transformadas em prisão, Nabucodonosor sofria terrivelmente vendo o seu povo ser expulso da sua própria terra, e os que ficavam, serem tratados com desprezo e brutalidade. E chorou desconsoladamente por dias e dias o triste fim de um reino de sonhos que durara tão pouco tempo. Até mesmo sua numerosa família fora expulsa para terras distante, ficando apenas ele aprisionado para evitar que organizasse um exército e retomasse o seu país de volta. Foi o que ouviu da boca do próprio invasor, Dario, o sanguinário.

Dario era um galo grandalhão, originário do cruzamento entre um guerreiro Malaio e uma fêmea Shamo, raças devotadas aos grandes combates. Trajava-se sempre para a guerra, com armaduras militares, um capacete de metal e couro negro para proteger a cabeça de algum ataque inimigo, e uma vestimenta de couro cravejado de botões prateados que lhe descia pelo pescoço até ao peito, transformando-o em algo com um aspecto aterrador; um ser cruel mesmo. As pernas, tão peladas quanto o pescoço, estavam envoltas em protetores de prata e ouro, parecendo tubos longilíneos e os esporões apresentavam-se cingidos por cones metálicos pontiagudos, prontos para ferir mortalmente a carne de quem lhe enfrentasse. E não foram poucos os que tombaram aos seus pés. Poder-se-ia dizer que se tratava de um elemento feio, com um aspecto animalesco e que causava arrepios nas aves que tinham o desprazer de confrontarem-se com ele. Os olhos vermelhos e empapuçados emitiam um brilho intenso somente visto nos loucos, e o bico retorcido estava também protegido por placas de metal muito afiadas que acompanhavam o formato do mesmo, e era uma arma mortal quando aplicada em algum adversário. Geralmente, uma só bicada era o suficiente para a derrota de seu opositor. 

Passaram-se os dias, dias tenebrosos e de sofrimento para o povo de Wonderfulworld, e nada de Dario voltar para a sua terra. Dizia-se mesmo, que ele governaria a partir dali, por uma questão de estratégia, pois pleiteava invadir e anexar novas terras aos seus domínios. Pretendia organizar um grande império, o maior já visto por ali.

Dizia-se, também, que não faria mais como os antigos Vikings, que segundo ouvira falar, atacavam os povos apenas para saqueá-los. Depois, entravam novamente em seus barcos e voltavam para sua terra com o produto das pilhagens. Agora, não. Ele faria diferente. A partir de Wonderfulworld, lançaria-se sobre as outras nações em redor e as anexaria até formar o maior reino já visto na terra. O império de Dario, o grande conquistador. Durante muitos e muitos anos todos haveriam de falar dele como o maior rei entre todos os que viveram naquela parte do mundo. O reino eterno de Avilã.

Estava muito satisfeito também, porque os habitantes que mantivera como escravos trabalhavam incansavelmente como se estivessem perfeitamente adaptados à nova situação. Orgulhoso, não entendia que esse era um hábito por ali, e que eles trabalhavam assim para ocupar o tempo e esperar pela volta do rei verdadeiro, o amado Nabucodonosor. Trabalhavam para manterem o seu reino de pé. Esperavam e sabiam com certeza que ele um dia voltaria para ocupar o seu trono usurpado. Por isso, queriam que tudo estivesse como sempre quando ele voltasse a governá-los.

Enquanto isto, do outro lado das fronteiras, povos vizinhos achavam-se preocupados com as notícias de lhes chegavam de Wonderfulworld. A possibilidade de invasão de suas terras também era uma certeza.

Por sua vez, penalizados com a situação de Nabucodonosor e de seu povo, quase todos dispersos pelas outras nações, começaram a organizar uma reação para retomar Wonderfulworld das mãos do sanguinário invasor. Salomão, rei de um dos povos vizinhos que nutria grande admiração e amizade com Nabucodonosor, contactou com os outros reis das vizinhanças e agrupou grande parte dos habitantes dispersos e expulsos de Wonderfulworld em um exército muito bem treinado, municiando-o com as mais modernas armas de guerra que existiam. Até que foi relativamente fácil prepará-los para a arte da guerra, pois eram atletas competentes e aguerridos, formados nas saudáveis competições em seu país.

Assim, logo se formou um grande exército com os jovens galos da terra invadida e com muitos outros originários de outros países que, quando ficaram sabendo da intenção do invasor, cerraram fileiras com eles e formaram um poderoso exército de defensores da paz para a ameaçada região. Com táticas de ataque bem planejadas e definidas, e com os suprimentos devidamente arrumados em carros cedidos também pelos reis vizinhos, partiu o poderoso exército aliado para retomar a terra de Wonderfulworld das mãos de Dario.

Não sabiam ainda, mas estavam partindo pouco tempo antes que ele levasse seu exército para invadir o vizinho país de New Freedom que ficava mais ao norte, e que era governado por um jovem rei também amigo de Nabucodonosor, e também participante do grupo de aliados que objetivava salvá-lo do cativeiro em que se encontrava. Seu exército também recebeu grande reforço das nações amigas e se preparou para rechaçar o ataque inimigo que se avizinhava.

O exército aliado entrou em Wonderfulworld pelo Sul, no dia em que o povo deveria comemorar a sua independência. Nabucodonosor, que não se sabe como havia recebido a notícia da data da invasão e a estratégia empregada, já havia mandado notícia aos seus velhos generais amigos de outras campanhas, ainda do tempo em que ele também tivera que guerrear para organizar o seu reino. Estes providenciaram a sua fuga e ele foi se juntar aos seu povo para preparar a expulsão dos inimigos do seu povo.

Quando o exército da liberdade entrou em Wonderfulworld, mais e mais habitantes do próprio país iam se juntado e engrossando suas fileiras, ao ponto de quando já se encontravam nas imediações da capital do reino, e os invasores tomaram conhecimento do numeroso contingente que avançava sobre eles, fugiram em debandada, desorganizados e amedrontados, deixando Dario com uma parte diminuta de suas tropas, pois parte dele também já havia sido debelado no momento em que tentavam invadir New Freedom.

As bandeiras e os estandartes coloridos das nações amigas se juntavam em um mar de cores aos símbolos de Wonderfulworld, tremulando agitadas pelas estradas e caminhos que davam acesso a capital, sede do reino usurpado. Pareciam festejar algo, em vez de estarem indo para a guerra.

Os primeiros combates foram travados nas proximidades da sede do reino e as vitórias aconteceram rápidas sobre o exército invasor. E Dario, vendo que a derrota era coisa certa, apressou-se em fugir deixando seus comandados sozinhos e ao desamparo.

Nabucodonosor, que já se encontrava com um batalhão de seus melhores guerreiros nas imediações do palácio, viu quando Dario tentava fugir pelos fundos do mesmo, e organizou uma perseguição encarniçada ao fujão e, antes que ele pudesse sair do país, enfrentou-o em uma luta renhida e que durou um bom tempo, horas de batalha sangrenta mesmo. Contudo, ao final, teve o seu opositor desarmado e caído aos seus pés. Por sua vez, apesar dos gritos de estímulo, preferiu poupar-lhe a vida, cortando-lhe os esporões e retirando-lhe as armaduras, e deixou que se fosse, desmoralizado, cabisbaixo e sozinho.

Dario não teve coragem de voltar para o seu povo, pois sabia que já deveriam ter escolhido um novo líder, um novo rei. Se voltasse para lá, correria o risco de ser feito prisioneiro, ou submetido a coisa muito pior. Pagaria talvez com a própria vida pelo seu gesto de covardia e falta de patriotismo. Amedrontado, sumiu e nunca mais se ouviu falar dele.

Quanto a Nabucodonosor, festejou por uma semana com seus súditos e amigos a retomada do país das mãos dos invasores. Estavam junto com ele todos os reis das vizinhanças que o haviam ajudado na vitória e festejaram felizes os novos tempos.

Difícil foi convencer o povo de que não precisavam organizar um exército formal para defendê-los de eventuais invasões. Mas Nabucodonosor terminou por convencê-los de que Wonderfulworld era um país neutro, não precisava de um exército mobilizado em tempo integral quando tinha tantos amigos ao redor para ajudá-los a se defender. Firmaram então um pacto de união, combinando que qualquer daquelas nações que recebesse a agressão de alguma outra, seria prontamente defendida pelas demais. E que Wonderfulworld não teria um exército organizado, com quartel e tudo o mais. Mas, as brigadas de defesa civil seriam treinadas também para ajudar na defesa do país contra inimigos virtuais. E que, nessas ocasiões, se organizariam como um exército em pouco tempo para defenderem a pátria se usurpada fosse.

Assim, a normalidade voltou a Wonderfulworld. O povo voltou à velha rotina de trabalho e festividades. Contudo, mais experientes nas questões de defesa da sua pátria de possíveis agressões externas.


FIM  

OBS: O presente conto, tem a pretenção de ser a continuidade de um outro aqui publicado e intitulado "A Vingança de Nabucodonosor".

 

(*) José Pedro Araújo é engenheiro agrônomo, funcionário público federal aposentado, historiador, cronista, romancista, e coordenador do blog Folhas Avulsas.