sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Viajando pelo rio Itapecuru em 1905.

 

Vapor navegando pelo Itapecuru, no trecho São Luís - Caxias (foto Google)

 

A partir deste instante navegaremos pelas águas do rio Itapecuru com o piauiense Dr. Araújo Costa, advogado e político radicado em São Luís do Maranhão, em uma viagem empreendida por ele entre São Luís e Caxias, lá pelo ano de 1905. Iniciaremos, agora, o primeiro capítulo do diário saído da sua própria pena, no qual aquele viajante noticia suas percepções e sentimentos a respeito da viagem que ele empreendeu por aquele icônico e deslumbrante rio.

IMPRESSÕES DE VIAGEM (Parte 1)

Carlos Augusto de Araújo Costa (*)

17 de Julho – Embarquei-me às 8 horas da noite em São Luís do Maranhão, no vapor “Carlos Coelho”, e demanda de Caxias (MA), para dali seguir até ao Piauí, em visita a minha família. Foi festivo o meu embarque. Acompanharam-me até a rampa do Palácio muitos amigos, tendo todos nós partidos do Hotel Central, onde jantei. Diversos de entre eles tomaram comigo diversos escaleres, acompanhando-me até a bordo do vapor. Aqui fizeram discursos que muito me cativaram e voltaram saudando ainda ao amigo que partia.

                À meia noite, mais ou menos, o vapor levantou ferro, levando duas barcas a reboque. Não sei precisamente a hora, mas acordei logo depois. Prateava a superfície das águas uma brilhante lua cheia, à semelhança do luar de agosto no meu estado natal; e, no líquido elemento singrava o barco, deixando após bela esteira fosforescente.

Dia 18 – Acordei cedo, apesar de tarde ter começado a dormir. Com os companheiros, tomei café com leite às 7 horas, pois até leite, temos a bordo com abundância. O coronel Luís Rego, capitalistas de Oeiras, conduz seis vacas turinas para o Piaui. Às 9 hora da manhã chegamos à vila do Rosário. Desembarquei-me, indo primeiramente à casa do Fenelon, Juiz de Direito da Comarca e, em seguida, à casa do coronel Caetano Brandão de Souza.

                Rosário é uma excelente vila que já devia ter foros de cidade. Tem bastante desenvolvida a vida mercantil e é o centro de um município que produz e exporta muitos cereais, artefatos diversos, e onde se come muito bom peixe. Por um triz os seus preciosos mandubés ainda não figuram nas crônicas dos nossos historiadores que, com isto, não lhes faria favor.

Decorrida uma hora, apitou o vapor, indo os amigos a quem visitei, e também o venerando capitão Oliveira Brito, que encontrei flanando, em minha companhia, até a rampa, onde os abracei e me despedi. Nesta ocasião, embarcou-se também um padre destinado à vigaria do Itapecuru. Disseram os companheiros ser um mau prenúncio; mas o clérigo me pareceu ser um homem bom.

                O vapor levantou ancora depois da 11 horas. Fez-se de vela, e de então em diante, comecei a apreciar em todo o seu esplendor a natureza agreste dos terrenos marginais do rio Itapecuru. As margens não são muito habitadas. De longe em longe veem-se grosseiras choças, tão rústicas que até desaparecem entre o espesso matagal que as cerca. Dir-se-ia que os seus habitantes preferem morar com animais selvagens que evitar-lhes a companhia. São a negação absoluta do trabalho. Como explicar isto? É simples. O homem deste Eldorado, não precisa pensar no dia de amanhã. Tem peixe sob as plantas – do rio – e frutas em cima das cabeças, bastando mover os braços para apanhá-las.

Fossem eles menos favorecidos pelos dons naturais, sofressem pelos aguilhões da necessidade, e não se mostraria tão indolente. Sua indolência, de resto, é mais aparente que real, e isto porque julga inoportuno exercer atividade, tendo, como tem, o indispensável para o seu sustento e o de sua modesta família.

                O contrário se observa nos lugares onde a natureza é menos pródiga. O cearense, por exemplo, é sempre um homem trabalhador, porque sabe que, não trabalhando hoje, não terá amanhã o pão alimentício. E é justamente por isso que o Norte do Brasil, cuja fertilidade é espantosa e que oferece mais chances para o combate da vida, é muito menos próspero que o sul. A grande riqueza natural não é condição para prosperidade de um país.

                Tendo eu dormido mal a noite passada, deitei-me de dia e dormi bastante, não em minha rede, porque esta ficou armada na popa do navio, onde passo bem as noites, porém, mal os dias. O 1º maquinista, Guilherme Berniz, que é muito gentil, agasalhou-me bem em um local da proa, onde, dormindo, desafiava qualquer reboliço. Pode-se dizer, sem ofensa a mim ou a quem quer que seja, que neste dia levei uma vida de frade em gordo retiro espiritual. Comi, bebi, dormi como um franciscano, e tive mais um passatempo: atirei aos pássaros.

                À meia noite, fui despertado por um estranho movimento. O vapor encalhava nas proximidades da cidade do Itapecuru, e os paroquianos desta cidade soltavam foguetes em alegria pela chegada do seu novo pároco. Levaram o padre em uma canoa, e o vapor logo depois se pôs em marcha, livre de qualquer tropeço.

Dia 19 - Logo que chegamos ao Itapecuru, em tão avançada hora, fui à terra com um dos companheiros. Percorri diversos trechos do povoado, e achei-o muito superior à minha expectativa. Tem ruas dispostas em simetria, formando quarteirões mais ou menos regulares. 

                O companheiro procurava cerveja preta, que, para disfarçar a vontade de beber, dizia ser um ótimo remédio para o fígado. Bateu debalde na casa do Gaspar, que, dizem todos no Itapecuru, com certo orgulho, ser o grande comerciante da localidade, talvez, por instinto de imitação, por causa do Gaspar da praça João Lisboa. O bom do Gaspar nem cerveja tinha.

                 Fizemo-nos de vela duas horas depois, deixando o Itapecuru mergulhado nos braços de Morfeu, e pela manhã cedo demos em um “seco”, safou-se o vapor a pulso e com o auxílio de grossos cabos, que por mais de uma vez conseguiu quebrar. Ficou vingado o padre, que então já não nos honrava com a sua companhia.

                E logo depois, outro “seco”, e outro mais; porém, esses ligeiros embaraços da viagem, a mim não incomodavam: eram antes uma diversão para o meu coração, eu gemia saudades lancinantes. O que me aborrecia solenemente, eram raios de um sol abrasador, que, projetando-se sobre a embarcação, faziam um calor de rachar. As noites, porém, são aqui acompanhadas de intenso frio. Ninguém pode avaliar de longe essa variedade de temperatura na travessia do rio Itapecuru nesta quadra de estio calamitoso.

                O que vale ao pobre viandante, é que, nas horas de calor, tem água fria para o banho. E nas de frio uma máquina que fabrica muito calor. E por falar nisso, que delícia o calor artificial para um organismo regelado. Bem entendido, usando-se a precaução devida. A ninguém quero aconselhar que se atire no fogo.

Um dos companheiros tirou “vistas”, com uma máquina fotográfica prometendo remetê-las à “Revista do Norte”.  Se o não fizer, não será isto por falta de lembrança, pois, mais de uma vez lhe pedi que as remetesse.

Uma vez por outra parávamos em dado local para receber lenha. Umas considerações aqui merecem ser desenvolvidas. Enquanto os lugares, onde não tocam as embarcações a vapor, permanecem em sua quase totalidade, em selvática bruteza, os que lhes recebem as visitas, apresentam sempre o cunho da civilização.

Desembarquei-me hoje em um destes – o lugar denominado Cantanhede, que já vai sendo um arremedo da obra do progresso. Nesse lugares que tomam nova feição, não devido ao espírito mais ou menos cultivado ou traquejado dos seus habitantes, como os há no interior, mas devido a sua situação, já se conhecem os movimentos mais importantes mais importantes da cidade, falam-se em política e discutem as condições de bem-estar das populações. 

Em Cantanhede vi duas casas de telha e diversas de palha, sendo uma daquelas um estabelecimento comercial. Vi também um estabelecimento destinado a descaroçar algodão e pilar arroz, ao redor do qual muitas plantações. E aí se diz com certo desvanecimento: já importamos diretamente da capital. O que tem uma dupla significação: que se pede negócio à principal praça do Estado, sendo eles transportados nas próprias embarcações, que são, em regra, pequenas embarcações ou canoas. 

Em todo o caso, tudo isso é devido principalmente à navegação à vapor, que em seu bojo tem transportado aos habitante do lugar o bafejo benéfico do progresso, cuja lei fatal é transformar tudo o que está debaixo da sua esfera de ação.

Continua!

(*) Araújo Costa, piauiense, advogado, jornalista, ex-presidente da Câmara de Vereadores de São Luís, foi também um dos participantes da Junta Governativa Provisória, que governou o Maranhão por volta do ano 1922.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Viajando no Passado pelo rio Itapecuru

 

Cais da Sagração, de onde partiu o vapor "Carlos Coelho" - São Luís





José Pedro Araújo (*)

Sempre tive curiosidade de saber como se davam os deslocamentos realizados no passado pelas águas dos rios Mearim e Itapecuru nas viagens de barco. Qual o seu grau de dificuldade, o seu desconforto e, principalmente, o tempo empregado em trechos, como o de São Luís a Barra do Corda, por exemplo, pelas águas do rio Mearim. Quantos dias se levava para ir de São Luís a Caxias, quando ainda não haviam as rodovias, navegando-se pelas águas do estreito Itapecuru? Pois, outro dia matei a minha curiosidade ao ler uma espécie de diário de bordo escrito pelo piauiense Dr. Araújo Costa, advogado e político radicado em São Luís do Maranhão por volta do ano de 1905.

Vapor típico que navegava pelos rios maranhenses
Para quem costuma reclamar do tempo empregado para ir-se de Teresina a São Luís, seria muito interessante ler o relato do insigne cidadão publicado na Revista do Norte em 1905, e disponível no site da Biblioteca Bendito Leite. Garanto que se surpreenderia com a dificuldade de SE cobrir esse trecho que hoje gastamos pouco mais de oito horas, mesmo com toda a dificuldade de trânsito que possamos encontrar hoje.

O Dr. Araújo Costa embarcou no Vapor “Carlos Coelho”, ao cair da noite, no Cais da Sagração, antigo porto situado nas proximidades do Palácio dos Leões.  Acompanharam o seu embarque um numeroso grupo de amigos e familiares, como era praxe naquela época. Pela descrição, dava para ver que não havia conforto nenhum naquele tipo de embarcação. Além disso, o calor e as muriçocas importunavam os viajantes durante o dia e a noite. Dormiam-se em redes, alimentavam-se a bordo da embarcação, e, vez por outra, passavam-se por contratempos enormes, como quando o vapor encalhava em algum banco de areia e permanecia parado por longas horas naquela situação.

Porto de Codó em 1903
Outra dificuldade encontrada a bordo era na hora de se fazer as necessidades fisiológicas. Ele não fala nem de longe nisto, mas foi a primeira pergunta que me veio à mente. Em uma outra viagem, descrita por um outro aventureiro, quando se deslocava pelo mesmo rio em um barco idêntico ao que viajava o dr. Costa Araújo, o viajante contou as proezas realizadas a bordo da embarcação para se conseguir fazer algo assim tão corriqueiro. Dizia ele que se fazia uma verdadeira ginástica para se realizar essa necessidade tão comum, e tão desconfortável, quando não se tem um banheiro por perto. O viajante aqui citado, por exemplo, relatou que as mulheres usavam uma espécie de empanada com um tecido grosso para protegerem-se dos olhares dos outros embarcadiços, enquanto se aproximavam da amurada da embarcação e faziam a operação ali mesmo. Nesse instante, jogavam as fezes diretamente nas águas do rio. Era assim ou não era. Não havia banheiro a bordo.

Como já afirmei, o autor da descrição da viagem a bordo do vapor “Carlos Coelho”, não desceu a esse tipo de detalhamento, mas relatou que quando chegava em uma cidade ribeirinha, como Rosário, Cantanhede, Coroatá e Codó, por exemplo, aproveitava a parada do barco e visitava a casa de alguns amigos. Disse ainda, que ali aproveitava para tomar banho e trocar de roupas. Que aproveitavam também para comprar mantimentos e, principalmente bebidas. Nesse momento a embarcação se mantinha parada no cais para receber mercadorias e novos passageiros. Os passageiros, então, como forma de matar o tempo, empreendiam passeios de reconhecimento pela cidade. Até que o vapor apitava, chamando a todos para voltarem à bordo.

Em outros locais, quando das paradas do vapor para apanhar lenha em pontos previamente acertados, os passageiros aproveitavam para ir em busca de alguma moita para se aliviarem, e até mesmo tomar banho, ou simplesmente desciam para movimentar as pernas.

 Enfim, não era propriamente uma viagem cercada de confortos, mas afiançou o nosso viajante que o tempo a bordo era aproveitado para conversas com alguns amigos que também viajavam na mesma embarcação, e nessas ocasiões tomavam vinhos e outros tipos de bebida qualquer. Havia até mesmo um passageiro, o empresário oeirense Coronel Luís Rego, que transportava seis vacas leiteiras de raça na embarcação. E essas vacas forneciam diariamente leite à gosto para os passageiros . No café da manhã podiam contar, portanto, com leite fresco retirado das tetas das vacas momentos antes.

Finalizo o presente texto dizendo que o Dr. Costa Araújo iniciou a sua viagem, como já afirmei algumas linhas acima, dia 17 de julho, e somente chegou a Caxias, onde pretendia tomar o trem para Timon, à margem do rio Parnaíba, no dia 25 de julho, às 21:00 horas. Convenhamos que uma viagem dessas era coisa para se pensar bem antes de realizar. Arremato, a presente arenga, dizendo que havia um continuo trabalho de limpeza do rio, em especial para remover os troncos das árvores que caiam e entupiam o seu leito, dificultando a passagem dos vapores. E que as viagens somente eram realizadas no período da estação invernosa, quando as águas do rio se elevavam e permitia o trânsito de embarcações. De janeiro a julho, portanto. No restante do ano era impossível transitar pelo rio, a não ser em canoas ou afins. Por fim, informo que, durante alguns dias, farei da publicação deste relatório de viagem sem qual qualquer alteração, respeitando o texto publicado pelo seu autor na "A Revista do Norte", para deleite daqueles que gostam de saborear uma boa aventura.

(*) Crônica original publicada em12.10.2019

(*) 
José Pedro de Araújo Filho é presidutrense, engenheiro agrônomo, autor do livro Viajando do Curador a Presidente Dutra – história, personalidades e fatos, e coordenador do blog Folhas Avulsas.             

      
  

sábado, 22 de agosto de 2026

Nem tudo está perdido

 

Desenho gerado através de IA 


Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

Domingo, 16 de agosto. Final de tarde. Após dia quente, normal na Ilha do Amor, recebi mensagem de Rodrigo, meu filho, dizendo que estava a caminho, para nos encontrarmos na praça. Na praça da Lagoa da Jansen, que fica em frente ao meu condomínio.

Desço e encontro: Ana Paula, Rodrigo e Heitor, neto querido de um ano e meio, que está começando a andar e precisa de espaço. A praça é território da alegria. Quando arrefece o calor, é na praça que país levam filhos e tutores seus pets. Algazarra garantida. Crianças e adolescentes com suas bicicletas, patinetes motorizados, patins, skates. Cuidado redobrado com Heitor, que corre ziguezagueado, sem medo do seu entorno. Em uma cidade carente de praças e áreas verdes, tenho o privilégio de morar em frente a um espaço razoavelmente bem cuidado pelo poder público. Não conheço nenhuma praça em São Luís que seja lavada regularmente pela prefeitura como a da Lagoa da Jansen. Além de policiada.

Acomodado no banco, eis que de repente um garoto, de no máximo 12 anos, passa em alta velocidade em sua bicicleta. Um aparelho celular cai. Ana Paula apanha o aparelho e chama o menino, para informá-lo que deixara o celular para trás. O garoto acelerou; perdemo-lo de vista.

Logo em seguida, outro garoto, agora mais devagar, se aproxima. Pergunto se ele conhecia o garoto que havia deixado o celular que caiu. “Sim”, respondeu ele. Ana Paula entrega-lhe o aparelho.

Não demorou muito, o primeiro garoto retornou com o celular em mãos. “Vocês passaram no teste”, diz ele. “Que teste?”, pergunto.

“Nós estamos fazendo um experimento, deixamos o celular cair de propósito para saber se vão nos devolver”, diz ele, e completa: “O celular é só a carcaça, não funciona”. E sai em nova disparada.

Fiquei surpreso e intrigado. Não sei o nome do garoto. Não sei se o teste é para um estudo sobre honestidade ou para fazer uma estatística sobre quem devolve ou não o aparelho de celular. Quem sabe um trabalho para a escola.

Testes de honestidade em praças públicas são experimentos sociais comuns na internet e nas TVs. Neles, criadores de conteúdo deixam objetos de valor (como celulares, carteiras ou notebooks) sozinhos em bancos de praças e calçadões para gravar a reação dos pedestres com câmeras escondidas. A maioria das pessoas costuma ignorar o objeto ou devolvê-lo.

Geralmente alguém finge deixar cair dinheiro ou uma carteira no chão da praça.

Um item caro, como um notebook ou celular, fica sobre um banco sem vigilância aparente. Uma equipe grava de longe para ver se quem passa devolve o item ou tenta furtar. Em muitos vídeos, pessoas devolvem o item perdido ou avisam o dono, surpreendendo quem duvidava da bondade alheia.

A honestidade mora nas pequenas coisas do dia a dia, como devolver um troco errado na padaria ou falar a verdade quando ninguém está olhando. Ela parece fora de moda, mas é o fio invisível que segura a vida em paz. Ser honesto dá leveza à vida. São exemplos de civilidade, tão fora de moda atualmente.

Recentemente ao abri a porta do apartamento, e deparei-me com Josi, empregada dos vizinhos. Ela contava para a zeladora do prédio, Nilde, a angústia que passou até devolver uma quantia que depositaram indevidamente em sua conta, através de um pix. “Enquanto não devolvi o dinheiro, não sosseguei”, disse Josi aliviada. “O dinheiro não era meu”.

São exemplos como o de Josi que provam que nem tudo está perdido. Certamente esse dinheiro seria útil a Josi, mas ela preferiu devolver.

Fico feliz que o mundo em que Heitor está conhecendo tenha gente honesta e ética.

(*)

Luiz Thadeu Nunes e Silva é escritor e Globetrotter, visitou 162 países em todos os continentes. Autor do livro “Das muletas fiz asas”.

Instagram: @luiz.thadeu

Facebook: Luiz Thadeu Silva

sábado, 8 de agosto de 2026

"Ah! O tempo!

 

Imagem do Google

(*) Luiz Thadeu Nunes e Silva

 

O tempo é precioso e gratuito.  Você não pode possuí-lo, mas pode usá-lo. 

Você pode gastá-lo. Mas você não pode mantê-lo, mesmo não sabendo quanto tempo você tem.

Uma vez que você o perdeu, nunca poderá recuperá-lo. 

Saber gerenciar a passagem do tempo é ter sabedoria para saber que tudo tem seu tempo.

Em tempos que estamos vivendo mais, a coisa mais moderna que existe hoje é saber envelhecer. E não estamos falando apenas da passagem do tempo.

Estou falando da capacidade de continuar aprendendo. De ter fome e sede pelo novo. Da desconstrução do que não serve mais para a construção do que precisamos para se adaptar ao novo. 

De rever certezas. De descobrir novos interesses.

De aceitar que ainda existem ideias capazes de ampliar o nosso olhar.

Durante muito tempo, associamos o novo apenas à tecnologia.

Talvez o verdadeiro avanço seja outro. Continuar disponível para o conhecimento. Aguçar o olhar para algo que embase um novo propósito, uma nova caminhada. 

Porque envelhecer não significa viver preso ao que já sabemos.

Significa permitir que a experiência caminhe ao lado da curiosidade. Da necessidade de aprender. 

“Não há tempo consumido

nem tempo a economizar.

O tempo é todo vestido

de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,

transcendem qualquer medida.

Além do amor, não há nada,

amar é o sumo da vida”, cito o mineiro Carlos Drummond de Andrade. 

No outono da vida, descobri que o futuro não pertence apenas aos mais jovens.

Pertence também àqueles que nunca deixaram de aprender. Que nunca deixam de sonhar. 

O tempo acrescenta anos, e também: experiências, vivências, conhecimentos, lembranças e memórias. 

O conhecimento continua atualizando a maneira de compreender a vida.

“Mas é preciso escolher. Porque o tempo foge. Não há tempo para tudo. Não poderei escutar todas as músicas que desejo, não poderei ler todos os livros que desejo, não poderei abraçar todas as pessoas que desejo. É necessário aprender a arte de “abrir mão” – a fim de nos dedicarmos àquilo que é essencial”, escreveu o paulista Rubem Alves. 

Falando sobre o tempo, escrevi na semana passada: “A vida é mistério. Nunca saberemos de onde viemos, por que viemos. Quando vamos, para onde vamos”. 

Viver, nada mais é do que administrar perdas. Perdemos colágeno, cabelo, viço e, também, pessoas. Perdemos tempo com coisas inócuas. Olho para trás e vejo quanto tempo perdi fazendo papel de besta. Se reciclasse todo esse papel, arrecadaria alguns tostões. 

“Você acorda todo dia com um roteiro que não escreveu. Segue regras que não escolheu. E chama isso de vida”, escreveu o franco-argelino Albert Camus. Presente de um amigo, estou lendo “O Estrangeiro”, de Camus, publicado em Paris em 1942 pela editora Gallimard.

Toda vida também é escrita em capítulos. Alguns trazem alegria, outros deixam marcas; mas cada página acrescenta algo à pessoa que estamos nos tornando”. 

O tempo não mora nos ponteiros do relógio; ele habita o vão entre o que a gente planeja e o que a vida entrega. É um sopro leve que desorganiza gavetas, pinta fios de prata nos cabelos e transforma em saudade aquilo que ontem era apenas um dia comum. 

Passamos os dias correndo atrás do vento, tentando encaixar a vida em planilhas, alarmes e agendas. O relógio dita a hora de acordar. O calendário marca os anos que voam. A pressa rouba o gosto do café.

Mas o tempo ri dessa nossa mania de querer controlá-lo. Ele é teimoso e não obedece a botões de avanço rápido. 

Caro leitor, amiga leitora, lembre-se de que o tempo é nosso maior ativo. Gaste-o da melhor maneira possível, pois ele é finito. 

Feliz Dia dos Pais! 

(*) 

Luiz Thadeu Nunes e Silva é escritor e Globetrotter, visitou 162 países em todos os continentes. É autor do livro “Das muletas fiz asas”.

Instagram: @luiz.thadeu

Facebook: Luiz Thadeu Silva 


sexta-feira, 24 de julho de 2026

Somos viajantes da mesma travessia

Viajante (Imagem AI)

Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

Em andanças pelo mundo chama minha atenção a quantidade de pessoas com quem cruzo em aeroportos. Em cidades que já visitei nos 162 países visitados.

Vejo sempre tanta gente a caminhar. Nas mais diferentes direções. Rostos que nunca vi e que, talvez, nunca mais volte a ver. Em lugares que provavelmente nunca mais pisarei. Em visita aos cinco continentes, em todos cruzei pessoas das mais diferentes matizes. Exemplares únicos de um universo em permanente mutação.

Cada transeunte leva um destino no olhar, uma saudade escondida no peito, um sonho ainda à espera de acontecer. Quantos universos em movimento. Quantas alegrias ambulantes, quantos medos dentro de si. Quantos infernos a administrar.

Fico a imaginar: há quem caminhe como se fugisse do tempo. Há quem abrande, como se procurasse alguma coisa que perdeu pelo caminho. Há sorrisos que parecem inteiros e olhos onde mora uma tristeza que ninguém adivinha.

Por onde passo, sentado em cafeterias, viro observador. Enquanto as palavras vão nascendo no papel e o café esfria lentamente na xícara, dou por mim a pensar que cada pessoa é um livro desconhecido. Fechado para mim. Passamos uns pelos outros sem conhecer os capítulos de coragem, de amor, de perda e de esperança que cada coração escreveu em silêncio.

Talvez seja isso que me leve a escrever. Na ilusão de descrever imagens. De entender olhares. Em decifrar andares. De perscrutar pensamentos. 

Porque escrever é parar no meio da pressa do mundo, olhar para quem passa com ternura e lembrar-me de que, por trás de cada rosto, existe uma história que merecia ser escutada. Quantas boas histórias têm a contar aquelas pessoas. Quantos universos tangenciaram-me sem saber quem eram. Cada olhar é um caldeirão de vidas. E, eu a observá-los sem ser notado. Invisível.

Hoje, sentado, no cair de mais uma tarde, lembro da jovem mãe, sentada com duas filhas pequenas, com olhar perdido, que vi no aeroporto em Liubliana, Eslovênia, em uma conexão para Moscou. Ou do senhor taciturno, com terno surrado e chapéu de feltro, no café em Varsóvia, Polônia. Ou da garotinha cega em um parque em Helsinque, Finlândia, em um final de tarde frio. Do homem solitário com seu cachorro em um bosque em Anchorage, Alasca.

Rebobino a memória e vejo a senhora de São Paulo, que conheci no café da manhã em um hotel no centro de Buenos Aires. Muito viajada, estava em processo adiantado de demência. Solteira, sem filhos, duas sobrinhas lhe proporcionavam uma derradeira viagem, como despedida de um mundo que ficaria cada vez mais apagado. Tenho na mente seu semblante sereno, perdido.

Uma viagem é algo que nunca termina. Cá estou sentado, na tranquilidade de casa, observando a passagem do tempo, viajando em memórias. E, por um instante, sinto que todos nós, desconhecidos à primeira vista, somos apenas viajantes da mesma travessia, à procura de um lugar onde o coração possa, finalmente, descansar.

No meio de tanta pressa, eu aprendi que nem tudo que é urgente é importante.

O mundo grita; a paz sussurra. E eu escolho prestar atenção no que sussurra.

Não é sobre ter tudo, é sobre estar inteiro. Não é sobre ir longe, é sobre saber onde pousar. Porque no fim do dia, o que realmente cura não é o aplauso, é o silêncio.

Não é a conquista, é o descanso. E quando o coração encontra esse lugar simples e verdadeiro, ele entende que já tem o suficiente.

(*) 


Luiz Thadeu Nunes e Silva, jornalista, escritor e Globetrotter é autor do livro “Das muletas fiz asas”.

Instagram: @luiz.thadeu

                            Facebook: Luiz Thadeu Silva


sábado, 18 de julho de 2026

Tio Bazu e o seu jardim do Édem.

Tio Bazu com a esposa, tia Adalgiza

 


José Pedro Araújo (*)

Quando criança, um dos meus maiores divertimentos era passear na casa do tio Bazu, irmão de minha mãe, que distava pouco mais de uma centena de metros da nossa casa. Ao chegar lá, já encontrava alguns dos nossos primos que acorriam para o local com o mesmo propósito que eu: desfrutar daquele paraíso.

Naquele tempo, vovó Zezé ainda morava naquela casa enorme situada dentro de um sítio paradisíaco. Ir para lá era sinônimo de muito divertimento e alegria. A casa, construída pelo nosso tio em estilo casa-grande de fazenda, possuía uma varanda alta que dava para um sublime pomar e terminava em um extenso baixão que o riacho Firmino, nos invernos chuvosos, inundava completamente, transformando-o em um espelho d’água de mar calmo e belo; este foi o primeiro oceano que eu conheci nos tempos da minha meninice.

Vista atual da morada - foto Jônatas Araújo

Naquele sítio, repleto de árvores frutescentes, o paladar era sempre desafiado pelo néctar das inúmeras espécies daquele imenso pomar. Laranja, lima (limão doce), banana, caju, mangas de várias espécies, maracujá, coco da praia, goiaba, ata e condessa, tínhamos à larga para desfrutar o quanto aguentássemos. Até alguns pés de guabiraba eu descobri por lá em uma das minhas aventuras em uma parte do terreno em que eu não costumava ir. Naquele instante, estava à cata de frutos dos buritizeiros situados próximos à rodovia. Depois de me deliciar com tantas e deliciosas frutas ainda debaixo dos pés, ficava difícil comer mais alguma coisa nas refeições de costume. E isto preocupava a minha mãe.

Da casa dos meus pais para o sítio, era um pulo. Tomava-se um beco frontal que passava ao lado da casa onde mais tarde a minha avô, tia Felicinha e tio Barrinho passaram a residir, e seguia-se por entre árvores por uma extensão não muito maior do que oitenta metros, para chegarmos ao paraíso onde o prazer e o divertimento nos aguardava. Uma única atividade, naquele seu recanto sublime, tio Bazu não nos permitia realizar: a caça aos pássaros que ocupavam as copas das árvores, aproveitando-se das iguarias maduras para se alimentarem, pagando depois a dádiva com seus trinados melódicos que inundavam o ar, tornando o lugar ainda mais alegre e festivo. Deste modo, entrar no sítio com uma baladeira nas mãos, nem pensar, era um ato terminante proibido.  Nosso tio entendia que o assédio aos pássaros que tornavam o seu recanto tão festivo era, na verdade, uma quebra de contrato, um abuso de confiança. E terminava sendo, de fato.

Sabiás, pipiras, xexéus, periquitos, pombas, vim vins, corrupiões, chorós, jaçanãs e socós, entre tantos outros pássaros, conviviam por ali tranquilamente, pois sabiam que a sua segurança não seria ameaçada pelos garotos caçadores. Recordo-me que, em certos finais de tardes, ouvíamos ao longe o canto do jaó. Era tão bonito ouvir aquele pássaro se despedindo do dia, como se emitisse um lamento saudoso. Tudo isso transformava aquele local em nosso Shangrilá. Um recanto de paz e alegria diária.

Descendo a ladeira desde a casa, por uma alameda de cajueiros, cujas copas se tocavam lá no alto, estabelecendo uma passagem sombreada até chegarmos a um poço minador cuja água chegava-lhe ao topo, escorrendo depois para um brejo próximo embelezado com alguns buritizeiros plantados pelo titio. Naquele momento, havíamos chegado ao Pocinho, ponto inicial das nossas brincadeiras. Aquele manancial emitia um líquido tão limpo e claro que era possível se avistar o seu leito de areias muito brancas. Era também de uma água tão fresca, que após um banho tomado, debelava-se o calor que nos afetava duramente em dias mais aquecidos. Muitas pessoas captavam água dali para beber, abastecendo os potes e moringas das suas casas, mesmo depois do estabelecimento da Companhia de Águas e Esgotos da cidade, a CAEMA. Dizia-se que a água que lhes chegava às torneiras de suas casas, ofertada por aquela empresa, era de qualidade ruim. Enquanto isso, as mulheres, sempre cuidadosas com seus madeixas, gostavam de lavá-los com aquele fluido sublime apanhado do Pocinho, como era conhecida aquela nascente.

Tio Bazu criança,
ao lado da avó materna
A estrutura da casa, as fruteiras existentes no sítio, o Pocinho e tudo o mais, era obra das mãos do nosso tio Basiliano Nunes Barros. A morada, depois de muitas reformas, mudou um pouco a sua estrutura. Mas ainda apresenta todos aqueles aspectos de uma espaçosa casa de campo.

Estamos falando de um local com cerca de oito hectares que quase faz limite ao sul com a praça central da cidade, de quem dista pouco menos de uma centena de metros. A cidade quase abraçou aquele oásis de paz, mas o homem que cuida dele ainda é o mesmo. Com a força das suas mãos, desde quando era ainda um rapaz de pouca idade, ele foi erguendo tudo para deixar o ambiente ao seu gosto. Daqui a poucas horas, tio Bazu completará 102 anos de existência, mantendo a sua mente extremamente aguçada, a ponto de conseguir recitar de memória, capítulos inteiros da Bíblia Sagrada, livro objeto de suas leituras diárias. É ele também, com a ajuda da dedicada esposa Adalgisa, e de dois de seus filhos, quem administra todo aquele paraíso, sem descuidar do seu longevo bananal, arriscando-se ainda a plantar algumas linhas de milho no vale que se estende até a margem do riacho Firmino.

Já houve tempo que ele implantou uma casa de farinhada ao lado da sua morada. Ela fazia enorme sucesso entre nós, especialmente nos serões que eram constantes. Ele também trabalhou com hortas enormes, cultivou grandes áreas de tomate, arroz, criou suínos, apascentou algumas cabeças de gado, laborou com peixes em tanques, fez tudo o que um dedicado e ativo produtor rural faria. Isso tudo em uma área urbana, situada no centro da cidade.

Ainda hoje, é possível encontrá-lo, especialmente nas manhãs, quando a temperatura do ambiente se mostra mais favorável, com uma enxada nas mãos capinando o seu bananal, ou organizando o seu jardim, sempre com o seu chapéu de legionário na cabeça, cujo protetor de nuca se derramava nas suas costas. Quem não aprova, nem um pouco, essa atividade constante do marido, é a tia Ziza, a sua companheira de jornada. Preocupa-se, com razão, pois para se chegar até a área do seu bananal ele tem que descer uma íngreme ladeira repleta de pedras. Ele, então, como argumento, construiu uma escada de muitos degraus, em alguns pontos da descida, e fixou nela um corrimão, tudo para não deixar de lutar contra o imobilismo e a ociosidade.

Tio Bazu é o último dos filhos do meu avô Diolindo Luiz de Barros, e da minha avó materna, Maria José Nunes Barros. Uma família que costuma desafiar o tempo, chegando, alguns deles, a completar o seu centenário de vida. Ele, também, com seus 102 anos bem vividos, é o recordista da família nesse campo da existência humana.  Parabéns, tio Bazu! Suplicamos ao nosso bondoso Deus que nos dê a Graça de vê-lo ainda por um bom tempo entre nós, para que possamos continuar bebendo na sua inesgotável fonte de sabedoria, aprendendo com o seu exemplo de vida, e depois distribuindo tudo o que assimilamos entre nossos filhos e netos.  Felicidades, saúde e paz!  

(*) 


José Pedro de Araújo Filho é presidutrense, engenheiro agrônomo, autor do livro Viajando do Curador a Presidente Dutra – história, personalidades e fatos, e coordenador do blog Folhas Avulsas.