sábado, 9 de maio de 2026

Mãe: onde a vida começa e o amor nunca acaba

 

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Luiz Thadeu Nunes e Silva(*)

Antes de aqui aportar, foi no ventre de uma mulher, minha mãe, Maria da Conceição Aragão Nunes e Silva, que morei por nove meses. Foi o primeiro e mais seguro endereço que já ocupei na Terra. Não tinha preocupação com nada; sem pagar aluguel, ali morei de graça. Nem contas tinha. Lugar de pouco espaço, mas de imenso amor e cuidado. Lá tinha tudo que precisava: amor, afeto, atenção, proteção. Gostava tanto da barriga de minha mãe, que para sair dei trabalho. Nasci de parto complicado, minha mãe teve eclampsia, e fui arrancado à força, ou melhor, à fórceps. Talvez sabendo o que me esperava cá fora. Vim ao mundo em uma manhã de sexta-feira chuvosa, em dezembro de 1958.

No outono da vida, é no colo de minha mãe que gostaria de me refugiar em tempos nebulosos. Não há porto seguro melhor que o colo de mãe.

Sou primogênito em seis irmãos. Fui filho amado, desejado, planejado. Sei o que é amor desde muito cedo.

Há algo no desejo de ser mãe que não se confunde com o desejo de ter um filho. Talvez porque a maternidade não se inaugure apenas no acontecimento concreto, mas em um movimento interno, íntimo, onde a mulher revisita sua própria história como filha. Como lembra Sigmund Freud, “tornar-se mãe exige um retorno, um acerto de contas silencioso com aquela que veio antes, com a mãe que se teve, com a mãe que faltou, com a mãe que se sonhou”.

É desse lugar de filha que se esboça a mãe que a mulher deseja ser. Uma construção que não é só biológica, mas simbólica, afetiva, atravessada por identificações, rupturas e escolhas. Ser mãe, então, pode acontecer antes, além ou mesmo sem o filho: acontece quando algo dentro se reorganiza, quando se cria um espaço de cuidado, de acolhimento, de responsabilidade pelo outro e por si. Tenho o maior respeito pelas mães cujos filhos brotaram do coração. Não saíram de seus ventres, mas do amor, do desejo de serem mães.

Não há nada mais sublime do que uma mãe. As mães são as guardiãs da vida. São elas, com seus ventres, que povoam a Terra. Quando Deus quis enviar seu único filho ao mundo, -Jesus Cristo- foi o ventre de uma mulher que ele escolheu. Isso prova que o amor de mãe é o mais sublime que existe. Se o mundo fosse governado por mulheres, não haveria guerra, pois uma mãe não suportaria enviar seus filhos para um campo de batalha. Essa bestialidade é coisa dos homens.

Mãe é território de amor e cuidado. Ter mãe é ter cobertor para o frio, capa para a chuva, pão para a fome, água para a sede.

Mãe é abrigo. Todos podem abandoná-lo, mas uma mãe nunca abandona sua cria. Isso é instinto, isso é cuidar, isso é amar.

Maria da Conceição, minha saudosa mãe era firme, forte e braba. Com seis filhos, em idades próximas, tinha que ser energética para manter a ordem. Professora primária, com três turnos de trabalho, foi guerreira. Partiu cedo, aos 43 anos, enquanto dormia, após jornadas sobrenaturais. Sou do tempo dos corretivos, com cinto. Quando não existia drone, vi muito chinelo voar em minha direção. Frustração? Nenhuma. Complexo? Nenhum. Nunca precisei fazer terapia para entender que aquilo também era demonstração de cuidado e amor.

Ao mesmo tempo que era firme, forte e braba, era amorosa, zelosa e cuidadosa. Nunca passamos necessidade, tínhamos atenção e amor. Com cuidado de leoa, instinto próprio das mães, ela soube nos proteger e nos ensinar a seguir em frente sem sua presença. Minha mãe foi a mãe que precisávamos para ser o que somos hoje.

Somente uma mulher te amará antes mesmo de te conhecer. Ela vai sofrer por ti, vai secar tuas lágrimas, vai te defender como a própria vida, vai te aconselhar, te incentivar, te cuidar.  Ela nunca irá te abandonar, sempre irá te perdoar, e você, será o amor maior da vida dela.  Um dia você poderá magoá-la, pode não a escutar, vai preocupá-la, vai fazê-la passar noites acordada, mas ainda assim, ela estará presente, onde e quando você precisar. Só existe uma mulher capaz disso: a mãe.

Mãe é a presença dos anjos na terra. Ela tem a capacidade de ouvir o silêncio.

Adivinhar sentimentos. Encontrar a palavra certa nos momentos incertos.

Mãe é onde a vida começa e o amor nunca acaba.

Sabedoria emprestada de Deus para nos proteger e amparar.

Sua existência é em si um ato de amor. Gerar, cuidar, nutrir. Amar, amar, amar...

Amar com um amor incondicional que nada espera em troca.

Afeto desmedido e incontido, mãe é um ser infinito.

Feliz Dia das Mães a todas as mamães do mundo.

(*) Luiz Thadeu Nunes e Silva, Jornalista, escritor e Globetrotter, é Autor do livro: “Das muletas fiz asas”.

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domingo, 26 de abril de 2026

Guns n’ Roses na Ilha do Amor: histórico e apoteótico.

 




Luiz Thadeu Nunes e Silva(*)

 

21 de abril, feriado nacional, em homenagem a Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746–1792): militar, dentista e ativista político brasileiro, líder da Inconfidência Mineira, que defendia a independência da Capitania de Minas Gerais e o fim da dominação portuguesa. Condenado à morte, enforcado e esquartejado em 21 de abril de 1792, em protesto contra a Coroa que cobrava tributos de 20%; hoje o Fisco confisca quase o dobro, 37%. Ninguém mais se lembra do martírio de Tiradentes, a não ser pelo feriado.

Terça-feira, chuva forte na Ilha do Amor. “É tempo de chuva”, dizia meu saudoso avô paterno, Joaquim Cavalcanti Silva, homem do campo.

Gosto de rock, cresci ouvindo bandas inglesas - as melhores, e as americanas. Com o avanço da idade migrei para algo suave: bossa nova, jazz, new wave, um rock mais calmo e meloso.

Sair de casa, no final da tarde chuvosa, para assistir ao vivo, a apresentação da banda americana Guns N’ Roses, foi fenomenal. Entrou para a coleção de boas memórias.

Ouvir a voz potente de Axl Rose, 64 anos, sua presença eletrizante e voz potente, encher o estádio do Castelão, juntamente com Slash, 60 anos, guitarrista; Duff McKagan, 62 anos, baixista; Richard Fortus, 62 anos, guitarrista; Dizzy Reed, 63 anos (teclados); Frank Ferrer, 62 anos, baterista, e Melissa Reese, 62 anos, nos teclados, é algo que entrou para a história. Todos sessentões e NOLTs, ainda têm capacidade de hipnotizar enormes plateias, com um show frenético e orgástico. Durante quase três horas, o show acabou às 23:11 h, estavam exaustos e entregaram o melhor da banda. Foram 17 músicas do repertório, dessa que é uma das melhores bandas de rock do mundo. O público cantou, dançou e se esbaldou ao som de Paradise City, Since I Don’t Have You, You Could Be Mine, Yesterdays, Used To Love Her, November Rain e muitas outras.

Fundada em 1985, em Los Angeles, Califórnia, resultado da fusão entre as bandas locais L.A. Guns e Hollywood Rose, Guns N’ Roses é atemporal. A formação original do grupo era composta pelo vocalista Axl Rose, o baixista Ole Beich, o baterista Rob Gardner e os guitarristas Tracii Guns e Izzy Stradlin. Meses depois, após assinarem com a Geffen Records, a formação "clássica" do grupo contava com Rose, Stradlin, o guitarrista Slash, o baixista Duff McKagan e o baterista Steven Adler. A formação atual inclui Rose, Slash, McKagan, o guitarrista Richard Fortus, os tecladistas Dizzy Reed e Melissa Reese e o baterista Isaac Carpenter.

Ouvir e assistir ao melhor do rock mundial na minha Ilha do Amor, terra do Bum-meu-boi, na Jamaica brasileira, foi uma oportunidade única e inesquecível.

Após os últimos acordes das guitarras, um fato inusitado para os americanos, aconteceu. Uma calcinha preta, sim, a vestimenta de debaixo da indumentária feminina, voou ao palco. O guitarrista Slash apegou-a, passou para Axl Rose, que em sorrisos, rodopiou no dedo e colocou no suporte do microfone. Os Guns N’ Roses, que já tocaram, cantaram e encantaram os cinco continentes da Terra, certamente vão se lembrar da Ilha do Amor pela acolhida de seu povo e pela irreverência de uma lingerie voadora.

Pelas redes sociais fiquei sabendo que a calcinha foi ideia de uma jovem, dona de Sex Shop, que colocou o nome da banda na peça íntima e arremessou ao palco. Puro marketing.

Parabéns aos organizadores do evento, tudo saiu melhor que o planejado.

Viva o rock, viva os Guns N’ Roses, viva a Ilha do Amor, viva a irreverência de nossas meninas.

(*)

Luiz Thadeu Nunes e Silva é Engenheiro Agrônomo, jornalista, palestrante e Globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”.

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sábado, 11 de abril de 2026

Rio de Janeiro, um estado de espírito

 

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Luiz Thadeu Nunes e Silva(*)

 

Estou no Rio. Desembarquei no início da semana na Cidade maravilhosa. Da janela do avião avistei o sol nascendo, irradiando a paisagem deslumbrante das montanhas; logo depois o oceano Atlântico, com seu azul deslumbrante. Natureza em estado puro. Conheço um pouco do mundo - em andanças, visitei 162 países em todos os continentes. Poucas cidades são tão bonitas quanto o Rio. Mais bela, nenhuma.

O Rio, antes de mais nada, é um estado de espírito. Tem que sentir a atmosfera de sua gente despojada. A irreverência, o gingado de sua malandragem, o modo descompromissado de viver. O sotaque chiado. As moças com seus derrières, marca registrada da cidade, magistralmente mostradas nos cartuns de Lan.

Há tempos me hospedo em hotéis do centro da cidade. Hotéis com histórias. Estou hospedado no Itajubá, rua Álvaro Alvim, Cinelândia.  Fundado em 1º de junho de 1928, o Hotel Itajubá, foi um dos primeiros "arranha-céus" do Rio, com 12 andares. Originalmente um edifício de luxo, tornou-se hotel em 1950. Localizado no coração cultural do Rio, cercado de teatros, cinemas, da Câmara Municipal, do belíssimo Theatro Municipal, da Biblioteca Nacional. Em andanças por praças e ruas cobertas por pedras portuguesas, na companhia do amigo Pedro Henrique Fonseca, é um mergulho no Rio dos séculos XIII e XIX. Pedro Henrique, natural de Cururupu, médico e escritor, um ourives, arguto garimpeiro da história da cidade que tão bem abraçou-o. Dele ganhei o livro, “Rio de Janeiro, a urbe oitocentista”. Ótima leitura, em que o autor retrata o apague da cidade.

Do hotel, ando um pouco e estou na praça Floriano, palco de manifestação culturais. O Rio, em priscas eras, foi o tambor cultural do Brasil. Tudo que aqui acontecia, ressonava em todo o país. Ditou moda. As novelas da TV Globo monopolizavam e hipnotizaram esse imenso país. Trouxeram as praias, costumes e linguajar carioca para nossas casas.

Hoje, o Rio que a TV mostra, é o Rio das drogas, da violência, das comunidades, com suas facções e milícias. Além do caos na política. Com cinco ex-governadores que visitaram o xilindró: Moreira Franco, Sérgio Cabral, Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Luiz Fernando Pesão, além de dois afastados: Wilson Witzel e Cláudio Castro; atualmente é governado por um interino, aguardando o fim de mais um imbróglio. O Rio é o único lugar em que bandidos são chamados no diminutivo. Maneira carinhosa de convivência com a bandidagem. No carnaval, autoridades, malandros e bandidos comungam na Marquês de Sapucaí. Todos dividindo acepipes, espaços e poderes. Surreal.

Mas o Rio continua lindo, como cantou o baiano Gilberto Gil, que aos 84 anos, residente de frente para o mar de Copacabana, encerrou a turnê “Tempo rei”.

Em minhas idas ao Rio é quase sagrado encontrar com a amiga Teresa Teles. Bela e plena. Nesta viagem, reunimos para um almoço no prédio da FIRJAN, junto com Pedro Henrique. Boa comida, ótimas conversas que se estenderam pela tarde toda. Como somos memórias e projetos de futuro, foi uma viagem no tempo.

No sábado, como sempre faço, visitei a feira de antiguidades da praça XV. Garimpei quadros, louças e livros. Adquiri “Poeira de estrelas”, escrito por Luiz Carlos Miele, um paulista que adotou o Rio. Radiografia do meio artístico das décadas de 60 e 70.

Leitura apetitosa e divertida sobre quem fez a vida acontecer na vida cultural do Rio.

Escrevo de uma mesa do Amarelinho. Fundado em 1921, na Cinelândia, que na época, por abrigar teatros, cinemas que recebiam a elite carioca, era considerada “Broadway Brasileira”.  Sentado na parte de fora, sob o toldo amarelo, observo os transeuntes e desvalidos que ali habitam. Momento mágico, quando o sol se recolhe deixando a lua brilhar.

"Gosto das cores, das flores, das estrelas, do verde das árvores, gosto de observar. A beleza da vida se esconde por ali, e por mais uma infinidade de lugares, basta saber e, principalmente, basta querer enxergar”, cito Clarice Lispector, ucraniana de nascimento, que adotou o Rio como seu. Observar o entardecer, na lentidão sem pressa, é criar boas memórias para o futuro.

Em tempo: Deve-se ao escritor maranhense Coelho Neto (1864-1934), chamar o Rio de Janeiro de Cidade maravilhosa.

(*)

Luiz Thadeu Nunes e Silva  é Jornalista, escritor e Globetrotter, autor do livro “Das muletas fiz asas”

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sábado, 21 de março de 2026

Quando o marketing educa

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Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

Em andanças pelo mundo, tive a oportunidade de conhecer os maiores aeroportos em todos os continentes. Gosto do frenesi dos aeroportos, verdadeiras cidades, sempre com grande movimento. Gente de todas as partes, raças, costumes e línguas.

Todas as vezes que desembarquei no aeroporto de Schiphol, um dos mais belos do mundo, um pequeno detalhe me chamou atenção. Nos mictórios, tinha o desenho de uma pequena mosca na louça. Achei que fosse mais uma intervenção artística, já que a Holanda, onde fica o aeroporto, é um país cheio de obras de arte. Terra de Vincent Van Gogh, Rembrandt, Johannes, Frans Hals e muitos outros, de inúmeros museus, esbarra-se facilmente em obras de arte por toda parte. Recentemente li a razão da pintura das moscas nos mictórios.

A administração do Aeroporto de Schiphol tinha um problema caro e irritante: os banheiros masculinos. Não importava quanto gastassem em limpeza, sinalização ou avisos educados. O “desperdício” fora do lugar era constante. O custo de manutenção estava fora de controle. Tentaram tudo. Cartazes pedindo colaboração. Regras mais duras. Produtos químicos mais fortes. Nada funcionava.

Até que um economista, chamado Richard Thaler, sugeriu algo radical. Ele não propôs uma regra. Nem uma punição. Propôs um alvo. A solução custava centavos. Eles colaram uma pequena mosca preta, realista, dentro de cada mictório. Bem perto do ralo. Só isso. O resultado foi quase absurdo. Os custos com limpeza caíram 80% em poucos meses. O “erro de mira” despencou. Sem campanhas. Sem ordens. Sem fiscalização.

Por quê? Porque o ser humano tem um impulso automático de jogar. Dê um alvo e ele tenta acertar. Sem pensar. Sem perceber. Thaler chamou isso de Nudge - o empurrãozinho. A ideia é simples e poderosa: você não precisa proibir nada, nem mudar incentivos financeiros para mudar comportamento. Basta redesenhar a escolha.

Outro exemplo clássico, que virou case, é a disposição dos produtos nas gôndolas dos supermercados. Apenas com um arranjo, ao colocar frutas na altura dos olhos e doces em prateleiras mais altas, o consumo de comida saudável subiu 25%. Ninguém proibiu o açúcar. Apenas tornou a maçã mais fácil. Tudo tem uma logística por trás, que funciona.

A lição para negócios e para a vida. As pessoas raramente fazem o certo porque você pediu. Elas fazem o que é mais fácil ou mais divertido no momento. Se o cliente não compra, talvez o site seja confuso. Se o funcionário não segue o processo, talvez o processo seja chato. Se a criança não guarda os brinquedos, talvez a caixa seja difícil de abrir. Esses exemplos mostram a criatividade e poder de transformação do marketing. Marketing genial não manda. Ele desenha a mosca, troca os produtos de lugar, e os resultados aparecem. Sabemos que o mundo é movido por impulsos invisíveis.

Recentemente vi, no YouTube, uma campanha publicitária em que alunos de arquitetura ficavam em estacionamento de um grande Shopping Center, observando motoristas que estacionavam nas vagas destinadas por lei a PcD, pessoa com deficiência. Grande parte dos que ali estacionavam não eram pessoas com mobilidade reduzida. Após o motorista estacionar, os alunos apareciam com uma cadeira de rodas. O motorista atônico se recusava a usar a cadeira, ao que os estudantes mostravam a mensagem: “Se usou a vaga do deficiente, também deve usar a cadeira”. Muitos se retiraram envergonhados.

Ainda precisamos evoluir muito para melhor convivência em sociedade. É de grande importância campanhas publicitárias para despertar na população noções de civilidade. O marketing educa.

(*)

Luiz Thadeu Nunes e Silva é Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e Globetrotter. Autor do livro: “Das muletas fiz asas”.

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domingo, 8 de março de 2026

Viva as mulheres!

 

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                                                                                                         Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

Quando Deus criou o mundo, primeiro criou o homem, para depois criar a mulher. Ensinam as Sagradas Escrituras. Isso, para os que creem. Colocou-os em um imenso jardim, que recebeu o nome de Éden. Depois veio a desobediência, e a história por ser demais conhecida e repetida, deixo para o amigo leitor, a querida leitora a conclusão.

O certo é, que Deus, com imensa sabedoria criou, uma companheira para compor com o homem um casal, e, assim, suavizar sua caminhada terrena. Sabia Deus que um homem só não iria a lugar nenhum.

Desde que Deus os criou, uma coisa é certa. Quem mais evoluiu foi a mulher. Depois de séculos sendo subjugadas, menosprezadas, proibidas, foram eles mais evoluíram, ocupando espaços em todas as áreas. Tenho inúmeras amigas mulheres. Como é bom ouvi-las. Não sou nenhum Chico Buarque de Holanda, que segundo relatos, tem alma feminina, e colocou sua sensibilidade em belas canções. Mas, também aprendi a ouvi-las.

Nascido de uma mulher forte, decidida, atemporal, empoderada, vindo de um tempo em que esse termo nem existia; minha mãe, Maria da Conceição, era professora primária, tocava uma casa e tomava conta de seis filhos. Tudo ao mesmo tempo. Após suas batalhas diárias, bastava-lhe um banho, um vestido limpo e cheiroso, batom nos lábios para haver a transformação. Sim, as mulheres têm o poder de se reinventarem após um batom, um lápis ao redor dos olhos, um rímel, e/ou pintarem as unhas. Isso, sem falar no cabelo. Mulher quando não tem o que mudar, muda o corte ou a cor do cabelo, e, assim, seguem em frente. Poderosa.

São as mulheres que, com seus ventres povoam a mundo. Você, caro leitor, amiga leitora, já parou para pensar que não há nenhuma guerra comandada por uma mulher. Sabe por quê? Nenhuma mulher enviaria seu filho para um campo de batalha, sabendo que poderia perdê-lo. Basta observar a bestialidade e sandice das guerras atuais. São os senhores inescrupulosos que enviam saldados para o front, para morrerem, enquanto ficam em casa, sãos e salvos.

São as mulheres, que vão visitar seus filhos na cadeia, após seus delitos. Com o coração apertado, estão lá, para dar amor, carinho e apoio. Geralmente, quando nasce uma criança nasce com problema, muitos pais abandonam-nas. As mães jamais. O que salva o mundo é amor de mãe.

As mulheres são mais resistentes, vivem mais, pois se cuidam mais. Vão mais ao médico. Isso explica por que há mais viúvas que viúvos. As mulheres se protegem mais, têm uma rede de amizade que as sustentam. Mulher: cozinha, lava, passa e arruma a casa para outra. Desconheço algum homem que cozinhe, lave, passe, ou arrume a casa para outro.

Triste ver a epidemia de feminicídio que assola o Brasil. A mentalidade machista de que homem é dono de mulher, tem que mudar urgentemente. Homem não é dono de coisa alguma. Homem saiu de dentro de uma mulher, embora desconfie que muitos são filhos de chocadeira, tamanha atrocidade que fazem, e desrespeito com mulher.

Homem é dependente de mulher, isso, sim. Tem que endurecer as leis para colocar esses mentecaptos na cadeia.

Mulheres, vocês são o sal da terra; são vocês que dão cor, sabor e perfume por onde passam. Imaginem um mundo sem mulheres. Inimaginável: seria punk, dark, feio e malcheiroso. Um caos. Mulheres iluminam o mundo com seu sorriso, seu jeito de ser. As mulheres fazem o diferencial por onde passam. Se uma mulher, executiva de uma empresa multinacional, olhar algo que não lhe agrada, é capaz de descer do salto, pegar uma vassoura, limpar da forma adequada. Homem não faz isso. Não é conosco.

Em andanças por diversos países, especialmente árabes, vejo a corja de homens juntos, sem mulheres. Talvez esteja aí a explicação para tantos conflitos.

Sou dos tais que acho que o carinho e o cuidado de uma mulher salvam o mundo, pelo menos o meu. Sou dependente de vocês, mulheres.

Mulher é um algo tão maravilhoso, que: Homem gosta de Mulher, Mulher tá pegando mulher, e tem homem querendo ser Mulher.

Meu respeito, carinho e admiração a todas as mulheres que fazem meu mundo mais feliz, perfumado, colorido e prazeroso.

Um brinde à todas as mulheres que com seus ventres povoam o mundo, com seu amor nos salvam todos os dia.

Neste dia 08 de março e em todos os dias do ano, Viva as Mulheres.

(*)


Luiz Thadeu Nunes e Silva
Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e Globetrotter é Autor do livro “Das muletas fiz asas”

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quinta-feira, 5 de março de 2026

O RELÓGIO DA MATRIZ DE SÃO SEBASTIÃO DO CURADOR

 

Fotografia de autoria da Paróquia de São Sebastião - Presidente Dutra (MA) 


                                                                                    José Pedro Araújo(*)

Ainda reverbera nos campos verdejantes da minha memória o som doce e saudoso dos sinos de São Sebastião. Tanto que as marteladas do velho relógio lá no alto me trazem de volta a um tempo que não me pertence mais: é tudo coisa do passado. A despeito disto, assim como eles continuam ainda lá, impassíveis em meio às nuvens que se movimentam constantemente, também vivem e resistem bravamente nas minhas lembranças.  

A igreja é das mais belas do interior maranhense, construída em intenção a São Sebastião, o santo guerreiro dos católicos. Erigida em lugar da velha capela de adobe cru, teve a nova igreja o lançamento da sua pedra fundamental no dia 04 de outubro de 1948, em meados do século passado. Construída em estilo Lombardo evoluído, é quase uma cópia melhorada de alguma outra igreja da região da Lombardia, quem sabe de Trucazzano ou de outra cidade qualquer de onde eram originários os frades Capuchinhos que projetaram a sua construção.

Assentada para sempre no alto de uma colina no centro do nascente município do Curador (Presidente Dutra, depois), tomava lugar ao templo simples que já não comportava mais o número de fiéis que aumentava rapidamente. Da antiga capela demolida restou, talvez, a primeira fotografia tirada na povoação, uma das poucas que ainda existem. A cena registrada se deu quando da passagem do Comandante Magalhães de Almeida e sua comitiva pela região, lá pelos idos de 1927. Naquele instante a comunidade do Curador se juntou para vê-lo em frente à capela de São Bento em construção, que mais tarde seria demolida para lugar à nova e bela Igreja Matriz de São Sebastião. Naquele dia, quase um século atrás, o governador fez um breve discurso de inauguração da estrada recentemente aberta na mata virgem, que nos tirava do isolamento completo da capital do estado. A foto também traz a figura do Frei Heliodoro de Inzago, um dos primeiros párocos a ministrar seus sermões em terras do Curador.

Aquela capela, naquele momento em construção, substituindo a anterior, construída anteriormente com paredes de taipa e cobertura de palha, deu lugar, quase vinte anos depois, como já afirmamos, ao novo templo. Além disto, os religiosos trocaram também o seu padroeiro. E passaram ao atual, São Sebastião, a obrigação de zelar pelos cristãos do lugar em substituição a São Bento, chamado anteriormente para espantar para bem distante a grande quantidade de cobras que existia no local. Assim, construído o belo templo, foi entronizado no altar-mor São Sebastião, imagem trazida do Rio de Janeiro por meios de transportes precaríssimos. E no alto de uma torre de esplendida beleza que aponta em direção ao céu de um azul estonteante, inseriram potente relógio com mostradores nas suas quatro faces: uma virada para o nascente, outra para o poente, a terceira para o norte e a quarta face direcionada para o sul. Para completar o quadro de extremo bom gosto, carrilhões enormes foram assentados no alto, prontos para repicarem de hora em hora, avisando ao povo da cidade sobre a contagem do tempo que segue célere rumo ao futuro.

O relógio continua lá, mas já não informa as horas passadas. Aquela maravilha tecnológica está hoje em completo estado de paralisação e se mantem mudo, calado, não informa a contagem do tempo para os fiéis e para os não iniciados na fé católica.

Já teve a sua utilidade impar, contudo. Atestando a sua importância, basta dizer que a maioria das pessoas da minha época aprenderam a ler as horas em um dos mostradores do relógio da matriz de São Sebastião.

Eu me incluo entre estas.

O ensinamento tinha um quê de pedagogismo, pois, a cada hora informada, seguia-se igual número de badaladas. Era só decorar a posição dos ponteiros do relógio. Ficava fácil aprender a ler as horas através dos belos e grandiosos mostradores do relógio encarapitado lá no alto da torre sineira.

Frei Metódio de Nembro descreveu a igreja de São Sebastião em 1955 como uma das mais espetaculares de todo o interior: Nas palavras do religioso, o templo era “Belo e imponente, com três naves divididas por uma fileira de colunas e de arcos mourescos, com transepto bem proporcionado e a ampla perspectiva de abside, propositalmente distanciada para dar lugar ao coro. A robusta estrutura - continuou o bispo capuchinho - todo o externo da fachada ornada de traços, enfeites, florões e pilares e o corpo da igreja, podem ser considerado uma forma de Lombardo evoluído; no conjunto o estilo é um harmônico eclético, interpretado com alma moderna”.  

O relógio de pendulo encrustado no alto da bela torre deve ser alemão ou inglês, como a maioria dos que enfeitam as torres das igrejas brasileiras. Quanto ao carrilhão, com os seus dois sinos que dobram alegres lá no alto do campanário da matriz e São Sebastião, é arte de uma fundição italiana famosíssima fundada em 1806 pela família Manfredini, e depois adquirida pela família Barigozzi. Atestando a importância dessa fundição, basta dizer que ela foi responsável pela confecção dos sinos de muitas igrejas históricas na Itália, algumas delas eu tive a felicidade de conhecer quando por lá passei. Por exemplo, no alto do campanário da histórica igreja Santa Maria del Fiori, Catedral de Florença, construída pelo incensado Giotto, batem sinos fabricados pela mesma fundição Barigozzi. Do mesmo modo, somente para citar mais um exemplo da importância dessa fundição, após um colapso nos sinos da Basílica de San Marco em 1902, em Veneza, a fundição Fratelli- Barigozzi foi chamada para substituí-los por outros. Hoje, os cinco sinos que dobram lá no alto do campanário mais visitado do mundo, tem a mesma autoria da sua fabricação que os históricos sinos da Matriz de São Sebastião do Curador.  E custou também para transportá-los até nós. Não menos difícil também, foi içá-los até o alto e fixá-los definitivamente à vista de toda a cidade, para que pudéssemos contar as horas das nossas existências ou para nunca chegarmos atrasados aos encontros marcados.

Os sinos continuam a repicar, mas o relógio não traduz as horas em rápidas batidas, pois dorme docilmente um sono que incomoda àqueles que presenciaram a sua luta diuturna para registrar com fidedignidade a passagem do tempo. Por conta disto, certa vez, um grupo de amigos fraternos estavam degustando prazerosamente algumas cervejas geladas, quando o assunto relativo ao relógio da matriz veio à tona. Vou omitir o nome dos comensais por não me lembrar de todos e, assim, não cometer nenhum engano. Mas, voltando ao assunto, estavam os amigos alegremente entornando alguns copos de uma deliciosa e gelada cerveja, quando veio à pauta a lembrança de dias passados quando o velho contador do tempo serviu de instrumento para que todos aprendessem a ler as horas através de um mostrador de relógio.

Conversa vai, cerveja vem, chegaram os amigos àquela fase de meia embriaguez e grande euforia, ocasião em que alguém lançou o desafio: por que não nos juntamos e mandamos consertar o relógio da matriz?

Naquele estado de elevação em que se encontravam aqueles espíritos alegres, quando do bolso de todos os homens jorra dinheiro mesmo sem existir, chegaram a um rápido acordo para colocar novamente o relógio da torre em funcionamento.

No dia seguinte, saiu o proponente à cata dos outros três amigos para confirmar o acordo. Foi uma enorme surpresa, pois, na maioria das vezes, os assuntos tratados por ocasião de alguma bebedeira, caem depois no esquecimento. Mas, malgrado alguém não se lembrar o que haviam combinado, todos confirmaram o acerto. Afinal, eram homens de palavra, não uns pés inchados quaisquer!  Palavra confirmada partiram à procura de alguém para realizar o difícil serviço.

A tarefa caiu nas mãos do relojoeiro Albuquerque, que logo se dedicou à tarefa. Na verdade, o antigo relógio não apresentava grandes defeitos, estava apenas precisando de limpeza e de alguns ajustes para voltar a funcionar com precisão. A tarefa mais difícil era ajustar os ponteiros dos quatro mostradores na mesma posição, para marcarem a mesma hora, o mesmo minuto e o mesmo centésimo de segundo. O técnico resolveu o problema através de uma tecnologia nova: o telefone celular. Explico. Enquanto o relojoeiro trabalhava no acerto dos ponteiros lá no alto da torre, seu filho continuava no solo para avisar-lhe, através de um aparelho de telefone celular, quando os ponteiros estivessem na mesma posição dos outros. E assim voltou a funcionar lá no alto do campanário o querido relógio cujos mostradores se acham encrustados nas suas quatro faces.

Tarefa concluída foram os amigos novamente ao pároco local para avisar-lhe do cumprimento do desafio: o relógio já estava em pleno funcionamento. Mas, qual não foi a surpresa de todos. Ao invés de se mostrar feliz com o sucesso da operação, o religioso tentou repassar aos quatro amigos uma nova responsabilidade: eles deveriam contratar alguém para realizar a tarefa diária de dar corda ao relógio da matriz. Às expensas deles, é claro.

O que aconteceu depois, todos são testemunha: o importante relógio da matriz voltou ao seu estado anterior de completa mudez. Sobrou para nós apenas as lembranças das suas badaladas chamando a população para o cumprimento das suas obrigações. (Publicada originalmente em 2015).  

(*)


José Pedro Araújo é engenheiro agrônomo, funcionário público federal aposentado, historiador, cronista, romancista, e coordenador do blog Folhas Avulsas.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Não posso amarrar o tempo no poste

 

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Luiz Thadeu Nunes e Silva(*)  

 

Sexta-feira, 20/02. Acordei sorumbático, com preguiça pelo corpo todo. Tenho resistência a sair da cama. O corpo pede calma, pede silêncio, pede sossego. Olho para a parede, o relógio me mostra o tempo seguindo seu curso.

“O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família", escreveu, com singeleza contumaz, o poeta de Alegrete, RS, Mário Quintana.

Não posso “amarrar o tempo no poste”, lembro o poeta cuiabano, Manoel de Barros, “o poeta das infâncias”.

“A infância não é um tempo, não é uma idade, uma coleção de memórias. A infância é quando ainda não é demasiado tarde. É quando estamos disponíveis para nos surpreendermos, para nos deixarmos encantar. Quase tudo se adquire nesse tempo em que aprendemos o próprio sentimento do Tempo”, cito o escritor moçambicano, Mia Couto, com quem tomei café da manhã, em uma manhã de abril de um ano que o tempo se encarregou de levar.

Os passarinhos veem me desejar feliz dia, ao cantarem na janela do quarto, no bebedouro que ali coloquei. Felizes não sabem o que são as horas.

Reluto um pouco mais em colocar-me em pé. O telefone toca, vejo um número que desconheço, não atendo. Quiçá fosse notícia boa. Provavelmente não seria. Passo o dia recebendo ligações de bancos, onde não tenho conta, muito menos dinheiro, e de operadoras de telefonia móvel. A tecnologia, que tanto otimiza a vida, também atrapalha.

Penso mais um pouco. Vejo que não tenho que terminar minhas tarefas em um só dia.

Que a vida está passando e absolutamente nada a impede.

Que tudo pode acabar num piscar de olhos.

Entendi que o material nunca foi importante.

O mais importante é o tempo que nos resta pela frente.

Se eu não estiver no trabalho, me substituem. Não tenho importância alguma.

Mas minha saúde emocional é insubstituível e importa.

Entendi que não preciso ajoelhar-me ao dar uma caminhada e ver a paisagem.

Entendi que a comida pode preencher o vazio do estômago, mas não o da alma.

Que eu tenho direito a desfrutar cada segundo o que eu tenho.

Que o dinheiro pode comprar viagens, mas não tempo. Sei quanto tenho de dinheiro, mas nunca saberei quanto tempo terei pela frente.

Que quando eu preciso de espaço, me retiro.

Que quando quero gritar, grito.

Que quando quero ficar na cama, fico.

Que quando eu quero dançar, eu danço.

E quando quero chorar, choro.

Aprendi a me ouvir atentamente e dar prioridade às minhas necessidades.

Desde que o faço, já meu café não sabe a pressa. Não bebo café frio.

O interfone toca, não posso mais ficar refastelado na cama; tenho que levantar.

Atendo, o porteiro ligou errado, pede desculpa. Agradeço, pois graças ao erro da ligação, consegui levantar e começar o dia. O tempo não espera por mim. Tenho muita coisa para resolver.

O tempo segue seu rumo. Tenho que engrenar para seguir o meu.

(*)

Luiz Thadeu Nunes e Silva é Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e Globetrotter. É também autor do livro “Das muletas fiz asas”

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