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| Foto gravura de Ângela Rego |
José Pedro Araújo (*)
Os
83 anos de história, que comemoramos agora, diz respeito apenas ao tempo
decorrido desde a emancipação de Presidente Dutra do território barra-cordense,
tempo em que começamos a nossa caminhada sozinho, desligando-nos completamente
do nosso município mãe. De fato, a história de vida daquela pequena povoação
batizada com o nome de Curador, vem de muito antes, desde quando um aventureiro
construiu a sua cabana em meio àquela mata desconhecida, e logo passou a
oferecer as suas “mezinhas” para o tratamento de alguns transeuntes portadores
de moléstias adquiridas naquele sertão insalubre. Desde aqueles tempos, já teria
decorrido muito mais do que um século. Talvez, prováveis cento e setenta e seis
anos.
Desde o começo,
aquele local, perdido no seio da floresta densa, passou a ser conhecido pelo
apelido do velho pioneiro: Curador. Não somente
a região, mas também a lagoa às margens da qual o curandeiro estabeleceu a sua
morada, e até mesmo o riacho piscoso que corria manso, logo próximo, todos foram
batizados como o nome do primeiro habitante pelos indivíduos que por ali
passavam. A lagoa então passou a ser conhecida como Lagoa do Curador; e o veio
de água cristalina, como Riacho Curador. É assim que esses dois mananciais
estão registrados nos mapas da época à qual estamos nos referindo. Mais à frente,
em data imprecisa, os moradores locais passaram a se referir ao riacho Curador,
como riacho Firmino, numa referência ao fundador do povoado que se formava próximo
às nascentes do afluente do riacho Preguiça, logo ali perto. A Lagoa do
Curador, permaneceu com o nome do Curandeiro que deu origem ao local. Quanto à
povoação, anos depois, teve o seu nome alterado também, igual o que aconteceria
com o designativo que primeiro batizara o citado riacho.
Anos
atrás, em uma monografia, o IBGE registrou que o Curador teria sido fundado por
dois homens vindos desde o município de Codó, abrindo uma picada na mata até
chegarem à região onde se situaria a povoação. Não sabemos de onde aquela
instituição de pesquisa tirou essa informação, pois não nos deu conta de nenhum
registro histórico que ateste essa versão da nossa história. Por sua vez, em um
vídeo preparado com o uso da Inteligência Artificial (AI), que tomou conta da
internet por esses dias, o seu criador envereda pelo mesmo caminho, mas cita o
nome de três pessoas, e não duas, como sendo os fundadores da povoação: Antônio
Baldoíno, Antônio Pereira Machado e Cazuza da Rocha. O resto da história continuava
idêntica à apresentada pelo IBGE. Afirmava ela que esses três homens teriam
partido de Caxias, no ano de 1884, José de Sousa Carvalhêdo e José de Sousa Albuquerque,
etc e etc.
Chamou-me a
atenção o nome do primeiro individuo citado no vídeo recente, pois a
denominação Baldoíno pertence à família de meu pai, e parece ser esta uma
família única surgida no Piauí, mais precisamente na região de Floriano, tendo
como seu precursor o senhor Baldoíno José de Barros, nascido no ano de 1852. Esse
nome familiar é de descendência italiana. Estudando, pois, a sua linhagem
familiar, vi que ele não possuía nenhum filho com o nome do indivíduo citado no
vídeo. O vídeo também não traz qualquer informação sobre a fonte da qual eles retiraram
essa informação, a nosso ver, sem qualificação. De qualquer forma, esse tipo de
informação tem tumultuado a história do nosso município, fazendo com que muita
gente a acredite como verdadeira.
O
que a história registra, de fato, é que em 1849 o coronel Diogo Lopes de Araújo
Salles foi aquinhoado com algumas Datas de Sesmaria na região onde, no futuro,
seria erguido o povoado do Curador. E que, entre essas Datas de terra, estaria
a Data Santa Maria, local onde aquele desbravador situaria a sede das suas
fazendas. Isso se deu trinta e cinco anos antes que esses cidadãos citados na
monografia, e no vídeo acima citado, aparecessem na região. Mas é a história
oral, tantas vezes citada pelos nossos pioneiros, quem nos diz qual indivíduo emprestou
o seu nome ao aglomerado de casebres que daria origem ao Curador; que registra ainda
que os escombros da humilde choupana do Curandeiro, o pioneiro, ainda chegou a
ser identificado no local em que a sua morada foi erguida, nas margens da
citada lagoa do Curador. Eu mesmo ouvi essa informação proferida pela minha vó
materna, Maria José Nunes Barros, que acompanharia o soerguimento da vila desde
o final do século XIX, quando veio habitar nela. D. Zezé, como era conhecida, que
viveu até a idade de cem anos, tinha uma memória prodigiosa e se deleitava
apreciando o progresso vivido pela cidade que praticamente viu nascer. Nessas ocasiões,
para completar a sua informação, dizia-nos que existiam apenas vinte e sete
casas quando ela chegou ao Curador, acompanhando a sua família. Todas edificadas
com palhas de babaçu.
O
que aconteceu com o fundador da vila, o tal Curandeiro, ninguém sabe ao certo.
Talvez tenha sido expulso da região pelo Coronel Diogo Salles quando aquele
donatário veio estabelecer a sede das suas fazendas na região da Santa Maria, é
o mais provável. Portanto, se querem dar o título de fundador a alguém, cuja
biografia seja conhecida, e não ao nosso Curandeiro, que deem a primazia ao
Coronel cearense, cuja história é bastante conhecida. Aliás, no nosso livro,
“Viajando do Curador a Presidente Dutra – histórias, personalidades e fatos”,
existem informações detalhadas sobre a verdadeira história da povoação
conhecida anteriormente por Curador. Toda ela baseada em documentos de época. Entretanto,
concordamos plenamente com uma parte do vídeo, aquela em que o seu autor afirma
ter sido injusta a substituição do topônimo Curador, colocando em seu lugar, o
do Presidente da República. Pois, de fato, o tal cidadão homenageado, Eurico
Gaspar Dutra, que ocupava o cargo de Presidente da República quando tal mudança
ocorreu, nunca pôs os pés no solo sagrado do nosso Curador.
Agora,
os tempos são outros. A cidade se desenvolveu e ganhou importância, e hoje é
reconhecida como polo regional de desenvolvimento. Crescida e bem desenvolvida,
conta hoje com cinco agências bancárias, três importantes hospitais, além de um
avultado número de clínicas, médicas, odontológicas e de análise laboratorial,
tendo se tornado também um importante polo regional de saúde. Nele também é
possível encontrarmos vários educandários importantes, e até mesmo algumas
faculdades, e o seu comércio é um dos mais importantes e pujantes de todo o
interior maranhense.
Presidente
Dutra, aquele Curador de outrora, chegou ao seu octogésimo terceiro aniversário
de emancipação política com pompas de cidade influente. Contudo, nunca nos esqueçamos
de que foram pessoas simples, nordestinos detentores de orçamentos mirrados
quem a ergueu e a povoou, às custas de muito suor e sofrimento. Aquela vila que
recebeu o nome de Curador, não nasceu à sombra de uma casa-grande poderosa ou
de um templo religioso influente. Nasceu, sim, do esforço de um povo destemido,
e demorou muitas décadas para contar com a ajuda e o reconhecimento de governos
situados na ilha de São Luís, sede do governo, situado a mais de trezentos e
cinquenta quilômetros de distância. Esta viva na nossa memória ainda, que,
devido à nossa localização geográfica, os nativos da ilha chamavam-na
pejorativamente de Mata do Japão, em razão da sua distância e dificuldades de
acesso. Parabéns, Presidente Dutra!
(*)
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| Imagem do próprio autor |
Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)
Após longo tempo sem férias,
tirei dez dias. Foram dias para respirar novos ares, conhecer novas paragens,
novas pessoas. Criar novas memórias. Sim, viajar é guardar na memória momentos
únicos, indeléveis. Às vezes nem sempre agradáveis.
Uma viagem nunca termina. A
viagem começa quando se escolhe o lugar ou lugares a visitar, os roteiros a
serem percorridos. O que se deseja conhecer, que sabores queremos provar.
Depois vem a viagem propriamente dia. Fazer
check-in, se acomodar em uma aeronave, afivelar o cinto, desembarcar do outro
lado. E, finalmente, quando retornamos para casa e tudo se transforma em
lembranças, memórias. As boas, são recordações. As ruins, aprendizado.
Durante dez dias viajei pelos
EUA: primeiro Seattle, depois Orlando, meu lugar preferido no mundo, depois de
São Luís do Maranhão, minha ilha do Amor.
Cruzar a soleira de casa e cair
no mundo foi a maneira que encontrei para compensar os cinco anos que passei
preso a leitos hospitalares ou recolhido em casa por causa do grave acidente
que sofri em julho de 2003 e que mudou minha trajetória para sempre.
Como o imponderável acontece sem
planejamento prévio, pois é algo que ocorre sem ser previsto, medido ou
avaliado, algo novo aconteceu comigo nesta viagem.
Ainda em Seattle, no hotel onde
me hospedei, ao escorar a porta do banheiro, cortei o calcanhar da perna
direita. Sangue jorrou longe, que contive com a ajuda dos funcionários do
hotel. Não dei a devida atenção à gravidade que o fato necessitava.
Fiz pequenos curativos durante o
período que lá estive. Como todo bom andarilho, andei por todas as partes da
bela Seattle. Incursionei por sítios turísticos; fiz tour caminhando, com grupo
que estava hospedado no mesmo lugar que eu.
No aeroporto de Seattle, no
retorno, no longo trajeto dos saguões, as dores aumentaram. Desembarquei em
Orlando, onde o amigo José Leônidas esperava-me, com dores lancinantes. Passei
menos de doze horas na cidade. Seu José Leônidas me deu spray que apliquei no
local; alívio momentâneo.
Voo longo até Guarulhos, SP.
Acomodado em assento minúsculo, as dores voltaram ainda mais forte.
Outro voo até o destino final. Em
São Luís ainda fiquei três dias adiando a ida ao médico. Coisa de homem
teimoso. Como as dores não diminuíam, marquei consulta com o ortopedista, já
que não conseguia colocar o pé no chão. Desconfiava que tivesse fraturado algum
osso.
Raio X em mãos, dr. Gregório
Ribeiro, constatou pequena fissura no calcâneo. Devidamente medicado, as dores
arrefeceram. Já consigo pisar sem medo. Mas não deixa de ser irônico, que a
porta tenha atingido logo o calcanhar, que sustenta todo o corpo, ou seja, o
responsável por me permitir caminhar por esse mundão.
Com o problema ortopédico,
aumentou a quantidade de medicamentos que ingiro diariamente. Além dos remédios
de uso contínuo, por causa da idade, e das comodidades adquiridas, agora são
mais dois: antibiótico e anti-inflamatório.
Lembrei do meu velho e saudoso
pai, Luiz Magno Gomes e Silva, que no outono da vida, repetia: “O homem está no
lucro quando bebe mais cerveja que remédio”.
No estaleiro, a cada seis horas
ingiro um comprimido. As cervejas estão gelando para quando puder bebê-las.
Ando pelo mundo, já pisei, com
minhas inseparáveis muletas, em mais de uma centena e meia de países, em todos
os continentes, e nunca tinha acontecido algo parecido. O improvável não avisa
quando vai acontecer.
Como uma viagem nunca acaba,
ficaram as lembranças do hotel em Seattle, a imprudência de escorar uma porta
pesada com o calcanhar e, principalmente a demora em procurar o médico. “Coisas
de homem teimoso”, como diria a ex.
Toda viagem começa com o primeiro
passo, vamos em frente, muito a caminhar, a desbravar, a conhecer. De
preferência com mais responsabilidade.
(*)
Instagram: @luiz.thadeu
Facebook: Luiz Thadeu Silva
| Fonte: OpenStreetMap |
Darlann Weskley Sousa
Silva(*)
Presidente Dutra não se tornou
economicamente atrativa por causa de um único fato isolado, nem por obra
repentina do acaso. Como acontece com quase todas as cidades que assumem
importância regional, seu fortalecimento econômico foi resultado de um processo
histórico gradual, construído ao longo do tempo, a partir da combinação entre
localização geográfica, consolidação urbana, circulação de pessoas e expansão
das atividades comerciais e de serviços.
Antes de ser Presidente Dutra,
era Curador. E, antes de se afirmar como cidade-polo, era um núcleo urbano em
formação, marcado pelas dificuldades do sertão, pela lentidão dos deslocamentos
e pelas limitações naturais de uma época em que o território ainda se
organizava de forma mais dispersa. Mas havia ali uma vantagem silenciosa, que
com o tempo se tornaria decisiva: sua posição geográfica.
Situado em uma área estratégica
do centro maranhense, o antigo Curador foi deixando para trás a condição de
povoado interiorano para assumir, aos poucos, a função de ponto de passagem,
parada, abastecimento, encontro e comércio. Essa transformação não ocorreu de
um dia para o outro. Foi sendo moldada pela própria dinâmica dos caminhos, pela
circulação de viajantes, pelo trânsito de mercadorias e pela necessidade que
outras localidades tinham de encontrar, ali, uma referência urbana mais
estruturada.
As estradas tiveram papel
fundamental nesse processo. Foram elas que encurtaram distâncias relativas,
aproximaram regiões, trouxeram movimento e fizeram com que a cidade passasse a
receber mais gente, mais produtos, mais trocas e mais possibilidades. Onde
havia caminho, surgia deslocamento. Onde havia deslocamento, surgia procura. E
onde a procura se tornava constante, o comércio criava raízes.
Não se tratava apenas da venda de
mercadorias. Tratava-se do nascimento de uma centralidade. Presidente Dutra
começou a concentrar funções urbanas que extrapolavam seus próprios limites
municipais. Gente de fora vinha comprar, vender, estudar, buscar atendimento
médico, resolver questões bancárias, acessar serviços públicos, frequentar
feiras, abastecer veículos, encontrar conhecidos, negociar produtos ou
simplesmente passar pela cidade a caminho de outros destinos.
Foi assim que o antigo Curador,
gradualmente, foi se transformando em Presidente Dutra: não apenas uma cidade
existente no mapa, mas uma cidade com influência concreta sobre o território ao
seu redor. A força dessa centralidade não se explica apenas por estatísticas,
embora elas também sejam importantes. Explica-se, sobretudo, pela vida
cotidiana, pela prática espacial, pela memória regional e pelo papel que a
cidade passou a desempenhar para milhares de pessoas.
Essa função regional, aliás,
encontra respaldo na própria leitura contemporânea do território brasileiro.
Segundo a divisão regional do IBGE de 2017, Presidente Dutra integra uma Região
Geográfica Imediata formada por 13 municípios, além de dar nome a uma Região
Geográfica Intermediária, categoria criada para compreender de forma mais
precisa as relações entre cidades, fluxos populacionais, circulação de
serviços, conexões econômicas e articulações territoriais.
Esse reconhecimento técnico e
institucional apenas confirma algo que o povo da região já sabia pela
experiência: Presidente Dutra se tornou, com o passar do tempo, uma referência
urbana no centro do Maranhão. Sua importância aparece nos bancos, nas escolas,
no comércio, nos atendimentos de saúde, nas repartições, nas feiras, nos
serviços e no costume, tão presente na memória popular, de “ir resolver as
coisas em Presidente Dutra”.
Essa expressão, tão simples e tão
comum, diz muito. Ela revela que a cidade passou a ser vista não apenas como
lugar de moradia, mas como centro de resolução da vida regional. Em outras
palavras, Presidente Dutra tornou-se um espaço onde se cruzam necessidades,
interesses, deslocamentos e relações sociais que ultrapassam o município em si.
No fundo, a história econômica de
PK também é a história dos seus caminhos. Caminhos de barro, de poeira, de
asfalto, de chegada e de partida. Caminhos que trouxeram gente e levaram
mercadorias. Caminhos que ligaram o interior ao centro urbano. Caminhos que
ajudaram a transformar a posição geográfica em vocação econômica.
Não por acaso, o crescimento da
cidade esteve intimamente associado à sua capacidade de atrair movimento.
Porque cidades economicamente relevantes não são apenas aquelas que produzem
muito, mas também aquelas que articulam, distribuem, conectam e organizam a
vida de uma região. E Presidente Dutra, ao longo do tempo, soube assumir esse
papel.
O que começou como Curador, lugar
de passagem e encontro, tornou-se Presidente Dutra: cidade-polo, referência
regional e coração urbano do centro maranhense. Sua força não nasceu de um
instante, mas de uma construção histórica feita por muitas mãos, por muitos
deslocamentos e por uma centralidade que foi se consolidando no ritmo da
própria vida regional.
E talvez seja justamente por isso
que Presidente Dutra ocupa, até hoje, um lugar tão importante na memória de
quem vive nela e de quem sempre precisou dela. Porque há cidades que crescem em
população. Outras, em extensão. E há aquelas que crescem em significado.
Presidente Dutra cresceu também assim: tornando-se necessária.
E você? Quando percebeu que
Presidente Dutra já era uma cidade que atraía gente de toda a região?
Sobre o autor:
(*)
Referências:
• IBGE. Divisão Regional do Brasil em Regiões
Geográficas Imediatas e Regiões Geográficas Intermediárias, 2017.
• IBGE. Regionalização oficial
aplicada à compreensão das relações urbanas, dos fluxos e da centralidade
territorial no Brasil.
• OpenStreetMap. Base
cartográfica do município de Presidente Dutra/MA, utilizada em imagem de apoio.
| Imagem extraída do Google |
Luiz Thadeu Nunes e
Silva (*)
Os dias seguem no varal do tempo,
sem dar satisfação. Maio se foi, junho está à porta. Sigo observando meu
entorno, sem compreender muito. O tempo não precisa que eu entenda nada.
Sou apenas um caminhante, que
anda no traçado do tempo, em busca de mim mesmo. Sem saber nada e, muito a
aprender. Mesmo curioso com a vida, “todas as vezes que penso que sei as
respostas, ela embaralha tudo”, cito Luiz Fernando Veríssimo.
A vida não acontece em linha
reta; ela dá voltas. E nas voltas que dá, todo mundo tem sua vez de ficar de
cabeça para baixo.
Me nutro de Clarice Lispector:
“Depois do medo, vem o mundo”. Sigo com medo, empurrado pelo tempo. Às vezes
tenho medo de seguir em frente, de ir sozinho, em busca do melhor. Depois, com
calma, percebo que seguir em frente é a opção certa.
“Se a vida não for fácil pra
você, trate de ficar forte”, ecoa o conselho de minha saudosa mãe, Maria da
Conceição, para quem a vida nunca foi mamão com açúcar.
Diante de inúmeras situações que
não posso mudar, tento acionar o botão do silêncio. Em um mundo cada vez mais
barulhento, o silêncio é um luxo reservado a poucos.
Silêncio, essa presença tão mal
compreendida pela modernidade tagarela, não é ausência, é potência em repouso.
Nele habita uma forma de linguagem mais sutil do que qualquer gramática, mais
honesta do que qualquer retórica. Ao saber distinguir entre o silêncio
autêntico e o simples mutismo, há algo decisivo: que o ser genuíno da fala se
preserva frequentemente na contenção, e que o discurso mais pleno é aquele que
sabe o que não deve dizer. O silêncio, quando verdadeiro, é um templo, e sua
arquitetura se ergue sobre o não dito, sobre o intervalo entre o impulso de
falar e a escolha de calar, intervalo em que o pensamento, não domesticado pelo
signo, permanece vivo em toda a sua ambiguidade fecunda. Se falar é prata, o
silêncio é ouro. Observo no meu entorno, todos corridos, apressados; não
entendo aonde querem chegar.
Bestialmente aceleramos o tempo;
parece que estamos constantemente em busca de um senso de propósito e
realização. É comum ouvir amigos dizerem que precisam estar sempre ocupados com
alguma atividade importante, seja ela no trabalho ou em seus hobbies e/ou
projetos pessoais. Isso me leva a pensar que, a todo momento, estamos fazendo
algo importante e que, na busca em ressignificar nossa existência. Ledo engano.
Além de assoberbados, estamos exaustos.
Ando enfadado de mim.
Na terça-feira, 26/05, a convite
do escritor carioca, Paulo Panesi, participei de uma live, com Vera Costa,
colega da faculdade de Agronomia e amiga de jornada, moradora de Barreirinhas,
santuário ecológico. Falamos do tempo como um ativo a nosso favor. E como
aproveitar os dias, sem pressa, pois a vida acontece durante nossas tempestades
diárias.
Bem-abençoado todo aquele que tem
tempo para realizar pequenos desejos.
É tempo de sair do trilho e
entrar na trilha. O trilho é seguro, mas alguém já trilhou por ali. O trilho
são padrões, cresças herdadas. Comportamentos repetidos. Tudo previsível. Tudo
conhecido. A trilha exige presença, coragem e decisão. Na trilha não há
garantia. Nela você precisa ouvir a si mesmo. Talvez seja por isso que na
trilha a vida ganha profundidade.
Existem momentos em que o trilho
é necessário, mas a vida perde sentido quando não temos coragem de sair dele. É
neste momento que a trilha chama.
Porque chega uma hora em que a
trilha chama, é quando a vida acontece.
"Não tenho pressa. Pressa de
quê? Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente
passa adiante das pernas, ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra. Não;
não sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego exatamente
aonde o meu braço chega - nem um centímetro mais longe. Toco só onde toco, não
aonde penso.
Só me posso sentar onde estou. E
isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras, mas o que faz
rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa, e vivemos vadios da nossa
realidade. “E estamos sempre fora dela porque estamos aqui”, Alberto Caeiro.
“O caminho se faz caminhando”,
cito Antônio Machado, poeta espanhol.
Avante! Sempre em frente.
(*)
Instagram: @luiz.thadeu
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| Mercado Central de P. Dutra(C. Postal de C.W. Marinho Sereno) |
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Luiz Thadeu Nunes e Silva(*)
|
Antes de aqui aportar, foi no
ventre de uma mulher, minha mãe, Maria da Conceição Aragão Nunes e Silva, que
morei por nove meses. Foi o primeiro e mais seguro endereço que já ocupei na
Terra. Não tinha preocupação com nada; sem pagar aluguel, ali morei de graça.
Nem contas tinha. Lugar de pouco espaço, mas de imenso amor e cuidado. Lá tinha
tudo que precisava: amor, afeto, atenção, proteção. Gostava tanto da barriga de
minha mãe, que para sair dei trabalho. Nasci de parto complicado, minha mãe
teve eclampsia, e fui arrancado à força, ou melhor, à fórceps. Talvez sabendo o
que me esperava cá fora. Vim ao mundo em uma manhã de sexta-feira chuvosa, em
dezembro de 1958. No outono da vida, é no colo de
minha mãe que gostaria de me refugiar em tempos nebulosos. Não há porto seguro
melhor que o colo de mãe. Sou primogênito em seis irmãos.
Fui filho amado, desejado, planejado. Sei o que é amor desde muito cedo. Há algo no desejo de ser mãe que
não se confunde com o desejo de ter um filho. Talvez porque a maternidade não
se inaugure apenas no acontecimento concreto, mas em um movimento interno,
íntimo, onde a mulher revisita sua própria história como filha. Como lembra
Sigmund Freud, “tornar-se mãe exige um retorno, um acerto de contas silencioso
com aquela que veio antes, com a mãe que se teve, com a mãe que faltou, com a
mãe que se sonhou”. É desse lugar de filha que se
esboça a mãe que a mulher deseja ser. Uma construção que não é só biológica,
mas simbólica, afetiva, atravessada por identificações, rupturas e escolhas.
Ser mãe, então, pode acontecer antes, além ou mesmo sem o filho: acontece
quando algo dentro se reorganiza, quando se cria um espaço de cuidado, de
acolhimento, de responsabilidade pelo outro e por si. Tenho o maior respeito
pelas mães cujos filhos brotaram do coração. Não saíram de seus ventres, mas do
amor, do desejo de serem mães. Não há nada mais sublime do que
uma mãe. As mães são as guardiãs da vida. São elas, com seus ventres, que
povoam a Terra. Quando Deus quis enviar seu único filho ao mundo, -Jesus
Cristo- foi o ventre de uma mulher que ele escolheu. Isso prova que o amor de
mãe é o mais sublime que existe. Se o mundo fosse governado por mulheres, não
haveria guerra, pois uma mãe não suportaria enviar seus filhos para um campo de
batalha. Essa bestialidade é coisa dos homens. Mãe é território de amor e
cuidado. Ter mãe é ter cobertor para o frio, capa para a chuva, pão para a
fome, água para a sede. Mãe é abrigo. Todos podem
abandoná-lo, mas uma mãe nunca abandona sua cria. Isso é instinto, isso é
cuidar, isso é amar. Maria da Conceição, minha saudosa
mãe era firme, forte e braba. Com seis filhos, em idades próximas, tinha que
ser energética para manter a ordem. Professora primária, com três turnos de
trabalho, foi guerreira. Partiu cedo, aos 43 anos, enquanto dormia, após
jornadas sobrenaturais. Sou do tempo dos corretivos, com cinto. Quando não
existia drone, vi muito chinelo voar em minha direção. Frustração? Nenhuma.
Complexo? Nenhum. Nunca precisei fazer terapia para entender que aquilo também
era demonstração de cuidado e amor. Ao mesmo tempo que era firme,
forte e braba, era amorosa, zelosa e cuidadosa. Nunca passamos necessidade,
tínhamos atenção e amor. Com cuidado de leoa, instinto próprio das mães, ela
soube nos proteger e nos ensinar a seguir em frente sem sua presença. Minha mãe
foi a mãe que precisávamos para ser o que somos hoje. Somente uma mulher te amará antes
mesmo de te conhecer. Ela vai sofrer por ti, vai secar tuas lágrimas, vai te
defender como a própria vida, vai te aconselhar, te incentivar, te cuidar. Ela nunca irá te abandonar, sempre irá te
perdoar, e você, será o amor maior da vida dela. Um dia você poderá magoá-la, pode não a
escutar, vai preocupá-la, vai fazê-la passar noites acordada, mas ainda assim,
ela estará presente, onde e quando você precisar. Só existe uma mulher capaz
disso: a mãe. Mãe é a presença dos anjos na
terra. Ela tem a capacidade de ouvir o silêncio. Adivinhar sentimentos. Encontrar
a palavra certa nos momentos incertos. Mãe é onde a vida começa e o amor
nunca acaba. Sabedoria emprestada de Deus para
nos proteger e amparar. Sua existência é em si um ato de
amor. Gerar, cuidar, nutrir. Amar, amar, amar... Amar com um amor incondicional
que nada espera em troca. Afeto desmedido e incontido, mãe
é um ser infinito. Feliz Dia das Mães a todas as
mamães do mundo. (*) Luiz Thadeu Nunes e Silva, Jornalista, escritor e Globetrotter, é Autor do livro: “Das muletas fiz asas”. Instagram: @luiz.thadeu Facebook: Luiz Thadeu Silva |