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| Cais da Sagração, de onde partiu o vapor "Carlos Coelho" - São Luís |
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| Vapor típico que navegava pelos rios maranhenses |
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| Porto de Codó em 1903 |
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| Cais da Sagração, de onde partiu o vapor "Carlos Coelho" - São Luís |
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| Vapor típico que navegava pelos rios maranhenses |
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| Porto de Codó em 1903 |
| Desenho gerado através de IA |
Luiz Thadeu Nunes e
Silva (*)
Domingo, 16 de agosto. Final de
tarde. Após dia quente, normal na Ilha do Amor, recebi mensagem de Rodrigo, meu
filho, dizendo que estava a caminho, para nos encontrarmos na praça. Na praça
da Lagoa da Jansen, que fica em frente ao meu condomínio.
Desço e encontro: Ana Paula,
Rodrigo e Heitor, neto querido de um ano e meio, que está começando a andar e
precisa de espaço. A praça é território da alegria. Quando arrefece o calor, é
na praça que país levam filhos e tutores seus pets. Algazarra garantida.
Crianças e adolescentes com suas bicicletas, patinetes motorizados, patins,
skates. Cuidado redobrado com Heitor, que corre ziguezagueado, sem medo do seu
entorno. Em uma cidade carente de praças e áreas verdes, tenho o privilégio de
morar em frente a um espaço razoavelmente bem cuidado pelo poder público. Não
conheço nenhuma praça em São Luís que seja lavada regularmente pela prefeitura
como a da Lagoa da Jansen. Além de policiada.
Acomodado no banco, eis que de
repente um garoto, de no máximo 12 anos, passa em alta velocidade em sua
bicicleta. Um aparelho celular cai. Ana Paula apanha o aparelho e chama o
menino, para informá-lo que deixara o celular para trás. O garoto acelerou; perdemo-lo
de vista.
Logo em seguida, outro garoto,
agora mais devagar, se aproxima. Pergunto se ele conhecia o garoto que havia
deixado o celular que caiu. “Sim”, respondeu ele. Ana Paula entrega-lhe o
aparelho.
Não demorou muito, o primeiro
garoto retornou com o celular em mãos. “Vocês passaram no teste”, diz ele. “Que
teste?”, pergunto.
“Nós estamos fazendo um
experimento, deixamos o celular cair de propósito para saber se vão nos
devolver”, diz ele, e completa: “O celular é só a carcaça, não funciona”. E sai
em nova disparada.
Fiquei surpreso e intrigado. Não
sei o nome do garoto. Não sei se o teste é para um estudo sobre honestidade ou
para fazer uma estatística sobre quem devolve ou não o aparelho de celular.
Quem sabe um trabalho para a escola.
Testes de honestidade em praças
públicas são experimentos sociais comuns na internet e nas TVs. Neles,
criadores de conteúdo deixam objetos de valor (como celulares, carteiras ou
notebooks) sozinhos em bancos de praças e calçadões para gravar a reação dos
pedestres com câmeras escondidas. A maioria das pessoas costuma ignorar o
objeto ou devolvê-lo.
Geralmente alguém finge deixar
cair dinheiro ou uma carteira no chão da praça.
Um item caro, como um notebook ou
celular, fica sobre um banco sem vigilância aparente. Uma equipe grava de longe
para ver se quem passa devolve o item ou tenta furtar. Em muitos vídeos,
pessoas devolvem o item perdido ou avisam o dono, surpreendendo quem duvidava
da bondade alheia.
A honestidade mora nas pequenas
coisas do dia a dia, como devolver um troco errado na padaria ou falar a
verdade quando ninguém está olhando. Ela parece fora de moda, mas é o fio
invisível que segura a vida em paz. Ser honesto dá leveza à vida. São exemplos
de civilidade, tão fora de moda atualmente.
Recentemente ao abri a porta do
apartamento, e deparei-me com Josi, empregada dos vizinhos. Ela contava para a
zeladora do prédio, Nilde, a angústia que passou até devolver uma quantia que
depositaram indevidamente em sua conta, através de um pix. “Enquanto não
devolvi o dinheiro, não sosseguei”, disse Josi aliviada. “O dinheiro não era
meu”.
São exemplos como o de Josi que
provam que nem tudo está perdido. Certamente esse dinheiro seria útil a Josi,
mas ela preferiu devolver.
Fico feliz que o mundo em que
Heitor está conhecendo tenha gente honesta e ética.
(*)
Instagram: @luiz.thadeu
Facebook: Luiz Thadeu Silva
| Imagem do Google |
(*) Luiz Thadeu Nunes e
Silva
O tempo é precioso e
gratuito. Você não pode possuí-lo, mas pode usá-lo.
Você pode gastá-lo. Mas você não
pode mantê-lo, mesmo não sabendo quanto tempo você tem.
Uma vez que você o perdeu, nunca
poderá recuperá-lo.
Saber gerenciar a passagem do
tempo é ter sabedoria para saber que tudo tem seu tempo.
Em tempos que estamos vivendo
mais, a coisa mais moderna que existe hoje é saber envelhecer. E não estamos
falando apenas da passagem do tempo.
Estou falando da capacidade de
continuar aprendendo. De ter fome e sede pelo novo. Da desconstrução do que não
serve mais para a construção do que precisamos para se adaptar ao novo.
De rever certezas. De descobrir
novos interesses.
De aceitar que ainda existem
ideias capazes de ampliar o nosso olhar.
Durante muito tempo, associamos o
novo apenas à tecnologia.
Talvez o verdadeiro avanço seja
outro. Continuar disponível para o conhecimento. Aguçar o olhar para algo que
embase um novo propósito, uma nova caminhada.
Porque envelhecer não significa
viver preso ao que já sabemos.
Significa permitir que a
experiência caminhe ao lado da curiosidade. Da necessidade de aprender.
“Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.
O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida”, cito o
mineiro Carlos Drummond de Andrade.
No outono da vida, descobri que o
futuro não pertence apenas aos mais jovens.
Pertence também àqueles que nunca
deixaram de aprender. Que nunca deixam de sonhar.
O tempo acrescenta anos, e
também: experiências, vivências, conhecimentos, lembranças e memórias.
O conhecimento continua
atualizando a maneira de compreender a vida.
“Mas é preciso escolher. Porque o
tempo foge. Não há tempo para tudo. Não poderei escutar todas as músicas que
desejo, não poderei ler todos os livros que desejo, não poderei abraçar todas
as pessoas que desejo. É necessário aprender a arte de “abrir mão” – a fim de
nos dedicarmos àquilo que é essencial”, escreveu o paulista Rubem Alves.
Falando sobre o tempo, escrevi na
semana passada: “A vida é mistério. Nunca saberemos de onde viemos, por que
viemos. Quando vamos, para onde vamos”.
Viver, nada mais é do que
administrar perdas. Perdemos colágeno, cabelo, viço e, também, pessoas.
Perdemos tempo com coisas inócuas. Olho para trás e vejo quanto tempo perdi
fazendo papel de besta. Se reciclasse todo esse papel, arrecadaria alguns
tostões.
“Você acorda todo dia com um
roteiro que não escreveu. Segue regras que não escolheu. E chama isso de vida”,
escreveu o franco-argelino Albert Camus. Presente de um amigo, estou lendo “O
Estrangeiro”, de Camus, publicado em Paris em 1942 pela editora Gallimard.
Toda vida também é escrita em
capítulos. Alguns trazem alegria, outros deixam marcas; mas cada página
acrescenta algo à pessoa que estamos nos tornando”.
O tempo não mora nos ponteiros do
relógio; ele habita o vão entre o que a gente planeja e o que a vida entrega. É
um sopro leve que desorganiza gavetas, pinta fios de prata nos cabelos e
transforma em saudade aquilo que ontem era apenas um dia comum.
Passamos os dias correndo atrás
do vento, tentando encaixar a vida em planilhas, alarmes e agendas. O relógio
dita a hora de acordar. O calendário marca os anos que voam. A pressa rouba o
gosto do café.
Mas o tempo ri dessa nossa mania
de querer controlá-lo. Ele é teimoso e não obedece a botões de avanço
rápido.
Caro leitor, amiga leitora,
lembre-se de que o tempo é nosso maior ativo. Gaste-o da melhor maneira
possível, pois ele é finito.
Feliz Dia dos Pais!
(*)
Instagram: @luiz.thadeu
Facebook: Luiz Thadeu Silva
| Tio Bazu com a esposa, tia Adalgiza |
José Pedro Araújo (*)
Quando criança, um dos meus maiores
divertimentos era passear na casa do tio Bazu, irmão de minha mãe, que distava
pouco mais de uma centena de metros da nossa casa. Ao chegar lá, já encontrava alguns
dos nossos primos que acorriam para o local com o mesmo propósito que eu:
desfrutar daquele paraíso.
Naquele tempo, vovó Zezé ainda
morava naquela casa enorme situada dentro de um sítio paradisíaco. Ir para lá
era sinônimo de muito divertimento e alegria. A casa, construída pelo nosso tio
em estilo casa-grande de fazenda, possuía uma varanda alta que dava para um sublime
pomar e terminava em um extenso baixão que o riacho Firmino, nos invernos
chuvosos, inundava completamente, transformando-o em um espelho d’água de mar
calmo e belo; este foi o primeiro oceano que eu conheci nos tempos da minha
meninice. Vista atual da morada - foto Jônatas Araújo
Naquele sítio, repleto de árvores
frutescentes, o paladar era sempre desafiado pelo néctar das inúmeras espécies daquele
imenso pomar. Laranja, lima (limão doce), banana, caju, mangas de várias
espécies, maracujá, coco da praia, goiaba, ata e condessa, tínhamos à larga
para desfrutar o quanto aguentássemos. Até alguns pés de guabiraba eu descobri
por lá em uma das minhas aventuras em uma parte do terreno em que eu não
costumava ir. Naquele instante, estava à cata de frutos dos buritizeiros
situados próximos à rodovia. Depois de me deliciar com tantas e deliciosas frutas
ainda debaixo dos pés, ficava difícil comer mais alguma coisa nas refeições de
costume. E isto preocupava a minha mãe.
Da casa dos meus pais para o
sítio, era um pulo. Tomava-se um beco frontal que passava ao lado da casa onde
mais tarde a minha avô, tia Felicinha e tio Barrinho passaram a residir, e
seguia-se por entre árvores por uma extensão não muito maior do que oitenta
metros, para chegarmos ao paraíso onde o prazer e o divertimento nos aguardava.
Uma única atividade, naquele seu recanto sublime, tio Bazu não nos permitia realizar:
a caça aos pássaros que ocupavam as copas das árvores, aproveitando-se das iguarias
maduras para se alimentarem, pagando depois a dádiva com seus trinados
melódicos que inundavam o ar, tornando o lugar ainda mais alegre e festivo. Deste
modo, entrar no sítio com uma baladeira nas mãos, nem pensar, era um ato terminante
proibido. Nosso tio entendia que o
assédio aos pássaros que tornavam o seu recanto tão festivo era, na verdade,
uma quebra de contrato, um abuso de confiança. E terminava sendo, de fato.
Sabiás, pipiras, xexéus,
periquitos, pombas, vim vins, corrupiões, chorós, jaçanãs e socós, entre tantos
outros pássaros, conviviam por ali tranquilamente, pois sabiam que a sua
segurança não seria ameaçada pelos garotos caçadores. Recordo-me que, em certos
finais de tardes, ouvíamos ao longe o canto do jaó. Era tão bonito ouvir aquele
pássaro se despedindo do dia, como se emitisse um lamento saudoso. Tudo isso
transformava aquele local em nosso Shangrilá. Um recanto de paz e alegria
diária.
Descendo a ladeira desde a casa,
por uma alameda de cajueiros, cujas copas se tocavam lá no alto, estabelecendo
uma passagem sombreada até chegarmos a um poço minador cuja água chegava-lhe ao
topo, escorrendo depois para um brejo próximo embelezado com alguns
buritizeiros plantados pelo titio. Naquele momento, havíamos chegado ao Pocinho,
ponto inicial das nossas brincadeiras. Aquele manancial emitia um líquido tão
limpo e claro que era possível se avistar o seu leito de areias muito brancas.
Era também de uma água tão fresca, que após um banho tomado, debelava-se o
calor que nos afetava duramente em dias mais aquecidos. Muitas pessoas captavam
água dali para beber, abastecendo os potes e moringas das suas casas, mesmo
depois do estabelecimento da Companhia de Águas e Esgotos da cidade, a CAEMA.
Dizia-se que a água que lhes chegava às torneiras de suas casas, ofertada por
aquela empresa, era de qualidade ruim. Enquanto isso, as mulheres, sempre
cuidadosas com seus madeixas, gostavam de lavá-los com aquele fluido sublime
apanhado do Pocinho, como era conhecida aquela nascente.
| Tio Bazu criança, ao lado da avó materna |
Estamos falando de um local com
cerca de oito hectares que quase faz limite ao sul com a praça central da
cidade, de quem dista pouco menos de uma centena de metros. A cidade quase
abraçou aquele oásis de paz, mas o homem que cuida dele ainda é o mesmo. Com a
força das suas mãos, desde quando era ainda um rapaz de pouca idade, ele foi
erguendo tudo para deixar o ambiente ao seu gosto. Daqui a poucas horas, tio
Bazu completará 102 anos de existência, mantendo a sua mente extremamente
aguçada, a ponto de conseguir recitar de memória, capítulos inteiros da Bíblia
Sagrada, livro objeto de suas leituras diárias. É ele também, com a ajuda da dedicada
esposa Adalgisa, e de dois de seus filhos, quem administra todo aquele paraíso,
sem descuidar do seu longevo bananal, arriscando-se ainda a plantar algumas
linhas de milho no vale que se estende até a margem do riacho Firmino.
Já houve tempo que ele implantou uma
casa de farinhada ao lado da sua morada. Ela fazia enorme sucesso entre nós,
especialmente nos serões que eram constantes. Ele também trabalhou com hortas
enormes, cultivou grandes áreas de tomate, arroz, criou suínos, apascentou algumas
cabeças de gado, laborou com peixes em tanques, fez tudo o que um dedicado e
ativo produtor rural faria. Isso tudo em uma área urbana, situada no centro da
cidade.
Ainda hoje, é possível encontrá-lo,
especialmente nas manhãs, quando a temperatura do ambiente se mostra mais
favorável, com uma enxada nas mãos capinando o seu bananal, ou organizando o
seu jardim, sempre com o seu chapéu de legionário na cabeça, cujo protetor de
nuca se derramava nas suas costas. Quem não aprova, nem um pouco, essa atividade
constante do marido, é a tia Ziza, a sua companheira de jornada. Preocupa-se,
com razão, pois para se chegar até a área do seu bananal ele tem que descer uma
íngreme ladeira repleta de pedras. Ele, então, como argumento, construiu uma
escada de muitos degraus, em alguns pontos da descida, e fixou nela um
corrimão, tudo para não deixar de lutar contra o imobilismo e a ociosidade.
Tio Bazu é o último dos filhos do meu avô Diolindo Luiz de Barros, e da minha avó materna, Maria José Nunes Barros. Uma família que costuma desafiar o tempo, chegando, alguns deles, a completar o seu centenário de vida. Ele, também, com seus 102 anos bem vividos, é o recordista da família nesse campo da existência humana. Parabéns, tio Bazu! Suplicamos ao nosso bondoso Deus que nos dê a Graça de vê-lo ainda por um bom tempo entre nós, para que possamos continuar bebendo na sua inesgotável fonte de sabedoria, aprendendo com o seu exemplo de vida, e depois distribuindo tudo o que assimilamos entre nossos filhos e netos. Felicidades, saúde e paz!
(*)
| Imagem do Google |
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| Foto gravura de Ângela Rego |
José Pedro Araújo (*)
Os
83 anos de história, que comemoramos agora, diz respeito apenas ao tempo
decorrido desde a emancipação de Presidente Dutra do território barra-cordense,
tempo em que começamos a nossa caminhada sozinho, desligando-nos completamente
do nosso município mãe. De fato, a história de vida daquela pequena povoação
batizada com o nome de Curador, vem de muito antes, desde quando um aventureiro
construiu a sua cabana em meio àquela mata desconhecida, e logo passou a
oferecer as suas “mezinhas” para o tratamento de alguns transeuntes portadores
de moléstias adquiridas naquele sertão insalubre. Desde aqueles tempos, já teria
decorrido muito mais do que um século. Talvez, prováveis cento e setenta e seis
anos.
Desde o começo,
aquele local, perdido no seio da floresta densa, passou a ser conhecido pelo
apelido do velho pioneiro: Curador. Não somente
a região, mas também a lagoa às margens da qual o curandeiro estabeleceu a sua
morada, e até mesmo o riacho piscoso que corria manso, logo próximo, todos foram
batizados como o nome do primeiro habitante pelos indivíduos que por ali
passavam. A lagoa então passou a ser conhecida como Lagoa do Curador; e o veio
de água cristalina, como Riacho Curador. É assim que esses dois mananciais
estão registrados nos mapas da época à qual estamos nos referindo. Mais à frente,
em data imprecisa, os moradores locais passaram a se referir ao riacho Curador,
como riacho Firmino, numa referência ao fundador do povoado que se formava próximo
às nascentes do afluente do riacho Preguiça, logo ali perto. A Lagoa do
Curador, permaneceu com o nome do Curandeiro que deu origem ao local. Quanto à
povoação, anos depois, teve o seu nome alterado também, igual o que aconteceria
com o designativo que primeiro batizara o citado riacho.
Anos
atrás, em uma monografia, o IBGE registrou que o Curador teria sido fundado por
dois homens vindos desde o município de Codó, abrindo uma picada na mata até
chegarem à região onde se situaria a povoação. Não sabemos de onde aquela
instituição de pesquisa tirou essa informação, pois não nos deu conta de nenhum
registro histórico que ateste essa versão da nossa história. Por sua vez, em um
vídeo preparado com o uso da Inteligência Artificial (AI), que tomou conta da
internet por esses dias, o seu criador envereda pelo mesmo caminho, mas cita o
nome de três pessoas, e não duas, como sendo os fundadores da povoação: Antônio
Baldoíno, Antônio Pereira Machado e Cazuza da Rocha. O resto da história continuava
idêntica à apresentada pelo IBGE. Afirmava ela que esses três homens teriam
partido de Caxias, no ano de 1884, José de Sousa Carvalhêdo e José de Sousa Albuquerque,
etc e etc.
Chamou-me a
atenção o nome do primeiro individuo citado no vídeo recente, pois a
denominação Baldoíno pertence à família de meu pai, e parece ser esta uma
família única surgida no Piauí, mais precisamente na região de Floriano, tendo
como seu precursor o senhor Baldoíno José de Barros, nascido no ano de 1852. Esse
nome familiar é de descendência italiana. Estudando, pois, a sua linhagem
familiar, vi que ele não possuía nenhum filho com o nome do indivíduo citado no
vídeo. O vídeo também não traz qualquer informação sobre a fonte da qual eles retiraram
essa informação, a nosso ver, sem qualificação. De qualquer forma, esse tipo de
informação tem tumultuado a história do nosso município, fazendo com que muita
gente a acredite como verdadeira.
O
que a história registra, de fato, é que em 1849 o coronel Diogo Lopes de Araújo
Salles foi aquinhoado com algumas Datas de Sesmaria na região onde, no futuro,
seria erguido o povoado do Curador. E que, entre essas Datas de terra, estaria
a Data Santa Maria, local onde aquele desbravador situaria a sede das suas
fazendas. Isso se deu trinta e cinco anos antes que esses cidadãos citados na
monografia, e no vídeo acima citado, aparecessem na região. Mas é a história
oral, tantas vezes citada pelos nossos pioneiros, quem nos diz qual indivíduo emprestou
o seu nome ao aglomerado de casebres que daria origem ao Curador; que registra ainda
que os escombros da humilde choupana do Curandeiro, o pioneiro, ainda chegou a
ser identificado no local em que a sua morada foi erguida, nas margens da
citada lagoa do Curador. Eu mesmo ouvi essa informação proferida pela minha vó
materna, Maria José Nunes Barros, que acompanharia o soerguimento da vila desde
o final do século XIX, quando veio habitar nela. D. Zezé, como era conhecida, que
viveu até a idade de cem anos, tinha uma memória prodigiosa e se deleitava
apreciando o progresso vivido pela cidade que praticamente viu nascer. Nessas ocasiões,
para completar a sua informação, dizia-nos que existiam apenas vinte e sete
casas quando ela chegou ao Curador, acompanhando a sua família. Todas edificadas
com palhas de babaçu.
O
que aconteceu com o fundador da vila, o tal Curandeiro, ninguém sabe ao certo.
Talvez tenha sido expulso da região pelo Coronel Diogo Salles quando aquele
donatário veio estabelecer a sede das suas fazendas na região da Santa Maria, é
o mais provável. Portanto, se querem dar o título de fundador a alguém, cuja
biografia seja conhecida, e não ao nosso Curandeiro, que deem a primazia ao
Coronel cearense, cuja história é bastante conhecida. Aliás, no nosso livro,
“Viajando do Curador a Presidente Dutra – histórias, personalidades e fatos”,
existem informações detalhadas sobre a verdadeira história da povoação
conhecida anteriormente por Curador. Toda ela baseada em documentos de época. Entretanto,
concordamos plenamente com uma parte do vídeo, aquela em que o seu autor afirma
ter sido injusta a substituição do topônimo Curador, colocando em seu lugar, o
do Presidente da República. Pois, de fato, o tal cidadão homenageado, Eurico
Gaspar Dutra, que ocupava o cargo de Presidente da República quando tal mudança
ocorreu, nunca pôs os pés no solo sagrado do nosso Curador.
Agora,
os tempos são outros. A cidade se desenvolveu e ganhou importância, e hoje é
reconhecida como polo regional de desenvolvimento. Crescida e bem desenvolvida,
conta hoje com cinco agências bancárias, três importantes hospitais, além de um
avultado número de clínicas, médicas, odontológicas e de análise laboratorial,
tendo se tornado também um importante polo regional de saúde. Nele também é
possível encontrarmos vários educandários importantes, e até mesmo algumas
faculdades, e o seu comércio é um dos mais importantes e pujantes de todo o
interior maranhense.
Presidente
Dutra, aquele Curador de outrora, chegou ao seu octogésimo terceiro aniversário
de emancipação política com pompas de cidade influente. Contudo, nunca nos esqueçamos
de que foram pessoas simples, nordestinos detentores de orçamentos mirrados
quem a ergueu e a povoou, às custas de muito suor e sofrimento. Aquela vila que
recebeu o nome de Curador, não nasceu à sombra de uma casa-grande poderosa ou
de um templo religioso influente. Nasceu, sim, do esforço de um povo destemido,
e demorou muitas décadas para contar com a ajuda e o reconhecimento de governos
situados na ilha de São Luís, sede do governo, situado a mais de trezentos e
cinquenta quilômetros de distância. Esta viva na nossa memória ainda, que,
devido à nossa localização geográfica, os nativos da ilha chamavam-na
pejorativamente de Mata do Japão, em razão da sua distância e dificuldades de
acesso. Parabéns, Presidente Dutra!
(*)