sábado, 18 de julho de 2026

Tio Bazu e o seu jardim do Édem.

Tio Bazu com a esposa, tia Adalgiza

 


José Pedro Araújo (*)

Quando criança, um dos meus maiores divertimentos era passear na casa do tio Bazu, irmão de minha mãe, que distava pouco mais de uma centena de metros da nossa casa. Ao chegar lá, já encontrava alguns dos nossos primos que acorriam para o local com o mesmo propósito que eu: desfrutar daquele paraíso.

Naquele tempo, vovó Zezé ainda morava naquela casa enorme situada dentro de um sítio paradisíaco. Ir para lá era sinônimo de muito divertimento e alegria. A casa, construída pelo nosso tio em estilo casa-grande de fazenda, possuía uma varanda alta que dava para um sublime pomar e terminava em um extenso baixão que o riacho Firmino, nos invernos chuvosos, inundava completamente, transformando-o em um espelho d’água de mar calmo e belo; este foi o primeiro oceano que eu conheci nos tempos da minha meninice.

Vista atual da morada - foto Jônatas Araújo

Naquele sítio, repleto de árvores frutescentes, o paladar era sempre desafiado pelo néctar das inúmeras espécies daquele imenso pomar. Laranja, lima (limão doce), banana, caju, mangas de várias espécies, maracujá, coco da praia, goiaba, ata e condessa, tínhamos à larga para desfrutar o quanto aguentássemos. Até alguns pés de guabiraba eu descobri por lá em uma das minhas aventuras em uma parte do terreno em que eu não costumava ir. Naquele instante, estava à cata de frutos dos buritizeiros situados próximos à rodovia. Depois de me deliciar com tantas e deliciosas frutas ainda debaixo dos pés, ficava difícil comer mais alguma coisa nas refeições de costume. E isto preocupava a minha mãe.

Da casa dos meus pais para o sítio, era um pulo. Tomava-se um beco frontal que passava ao lado da casa onde mais tarde a minha avô, tia Felicinha e tio Barrinho passaram a residir, e seguia-se por entre árvores por uma extensão não muito maior do que oitenta metros, para chegarmos ao paraíso onde o prazer e o divertimento nos aguardava. Uma única atividade, naquele seu recanto sublime, tio Bazu não nos permitia realizar: a caça aos pássaros que ocupavam as copas das árvores, aproveitando-se das iguarias maduras para se alimentarem, pagando depois a dádiva com seus trinados melódicos que inundavam o ar, tornando o lugar ainda mais alegre e festivo. Deste modo, entrar no sítio com uma baladeira nas mãos, nem pensar, era um ato terminante proibido.  Nosso tio entendia que o assédio aos pássaros que tornavam o seu recanto tão festivo era, na verdade, uma quebra de contrato, um abuso de confiança. E terminava sendo, de fato.

Sabiás, pipiras, xexéus, periquitos, pombas, vim vins, corrupiões, chorós, jaçanãs e socós, entre tantos outros pássaros, conviviam por ali tranquilamente, pois sabiam que a sua segurança não seria ameaçada pelos garotos caçadores. Recordo-me que, em certos finais de tardes, ouvíamos ao longe o canto do jaó. Era tão bonito ouvir aquele pássaro se despedindo do dia, como se emitisse um lamento saudoso. Tudo isso transformava aquele local em nosso Shangrilá. Um recanto de paz e alegria diária.

Descendo a ladeira desde a casa, por uma alameda de cajueiros, cujas copas se tocavam lá no alto, estabelecendo uma passagem sombreada até chegarmos a um poço minador cuja água chegava-lhe ao topo, escorrendo depois para um brejo próximo embelezado com alguns buritizeiros plantados pelo titio. Naquele momento, havíamos chegado ao Pocinho, ponto inicial das nossas brincadeiras. Aquele manancial emitia um líquido tão limpo e claro que era possível se avistar o seu leito de areias muito brancas. Era também de uma água tão fresca, que após um banho tomado, debelava-se o calor que nos afetava duramente em dias mais aquecidos. Muitas pessoas captavam água dali para beber, abastecendo os potes e moringas das suas casas, mesmo depois do estabelecimento da Companhia de Águas e Esgotos da cidade, a CAEMA. Dizia-se que a água que lhes chegava às torneiras de suas casas, ofertada por aquela empresa, era de qualidade ruim. Enquanto isso, as mulheres, sempre cuidadosas com seus madeixas, gostavam de lavá-los com aquele fluido sublime apanhado do Pocinho, como era conhecida aquela nascente.

Tio Bazu criança,
ao lado da avó materna
A estrutura da casa, as fruteiras existentes no sítio, o Pocinho e tudo o mais, era obra das mãos do nosso tio Basiliano Nunes Barros. A morada, depois de muitas reformas, mudou um pouco a sua estrutura. Mas ainda apresenta todos aqueles aspectos de uma espaçosa casa de campo.

Estamos falando de um local com cerca de oito hectares que quase faz limite ao sul com a praça central da cidade, de quem dista pouco menos de uma centena de metros. A cidade quase abraçou aquele oásis de paz, mas o homem que cuida dele ainda é o mesmo. Com a força das suas mãos, desde quando era ainda um rapaz de pouca idade, ele foi erguendo tudo para deixar o ambiente ao seu gosto. Daqui a poucas horas, tio Bazu completará 102 anos de existência, mantendo a sua mente extremamente aguçada, a ponto de conseguir recitar de memória, capítulos inteiros da Bíblia Sagrada, livro objeto de suas leituras diárias. É ele também, com a ajuda da dedicada esposa Adalgisa, e de dois de seus filhos, quem administra todo aquele paraíso, sem descuidar do seu longevo bananal, arriscando-se ainda a plantar algumas linhas de milho no vale que se estende até a margem do riacho Firmino.

Já houve tempo que ele implantou uma casa de farinhada ao lado da sua morada. Ela fazia enorme sucesso entre nós, especialmente nos serões que eram constantes. Ele também trabalhou com hortas enormes, cultivou grandes áreas de tomate, arroz, criou suínos, apascentou algumas cabeças de gado, laborou com peixes em tanques, fez tudo o que um dedicado e ativo produtor rural faria. Isso tudo em uma área urbana, situada no centro da cidade.

Ainda hoje, é possível encontrá-lo, especialmente nas manhãs, quando a temperatura do ambiente se mostra mais favorável, com uma enxada nas mãos capinando o seu bananal, ou organizando o seu jardim, sempre com o seu chapéu de legionário na cabeça, cujo protetor de nuca se derramava nas suas costas. Quem não aprova, nem um pouco, essa atividade constante do marido, é a tia Ziza, a sua companheira de jornada. Preocupa-se, com razão, pois para se chegar até a área do seu bananal ele tem que descer uma íngreme ladeira repleta de pedras. Ele, então, como argumento, construiu uma escada de muitos degraus, em alguns pontos da descida, e fixou nela um corrimão, tudo para não deixar de lutar contra o imobilismo e a ociosidade.

Tio Bazu é o último dos filhos do meu avô Diolindo Luiz de Barros, e da minha avó materna, Maria José Nunes Barros. Uma família que costuma desafiar o tempo, chegando, alguns deles, a completar o seu centenário de vida. Ele, também, com seus 102 anos bem vividos, é o recordista da família nesse campo da existência humana.  Parabéns, tio Bazu! Suplicamos ao nosso bondoso Deus que nos dê a Graça de vê-lo ainda por um bom tempo entre nós, para que possamos continuar bebendo na sua inesgotável fonte de sabedoria, aprendendo com o seu exemplo de vida, e depois distribuindo tudo o que assimilamos entre nossos filhos e netos.  Felicidades, saúde e paz!  

(*) 


José Pedro de Araújo Filho é presidutrense, engenheiro agrônomo, autor do livro Viajando do Curador a Presidente Dutra – história, personalidades e fatos, e coordenador do blog Folhas Avulsas.             

    


sábado, 4 de julho de 2026

Saúde - nosso bem maior

 

Imagem do Google


Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

 

Por onde ando, vivo repetindo, como um mantra, que estou gostando de envelhecer. Já escrevi crônicas, palestrei para diferentes plateias, em conversa com amigos em mesa de bar, sempre falo que no outono da vida estou mais confortável comigo. Que gostaria de ser esse Luiz Thadeu que sou hoje. Tenho mais segurança e estou mais à vontade com a versão atual. Muitos me questionaram sobre isso, outros me olham de soslaio, como a dizer: “inocente, não sabe de nada”.

Mas faço questão de fazer uma ressalva: que estou gostando de envelhecer pois a outra opção é a finitude; o encontro com a libitina.

Como envelhecer implica em uma série de mudanças no corpo, comigo não seria diferente. “Quem passou dos 50 anos e não tem dores, morreu”, li em um cartaz no balcão da drogaria. Aliás, drogaria, juntamente com supermercado, são os lugares que mais visito. Como só vou ao mesmo supermercado, já tenho até uma afilhada, que todas as vezes que me avista, levanta-se do caixa e me pede a benção. Mas essa é uma história que cabe em outra crônica.

Esses dias apareceu uma dor nova, concorrendo com as já existentes. Há dias que um desconforto nas costas, próximo aos rins, me tirava do sério. Se sento, dói; se ando, dói; se deito, dói. Com as dores antigas já tinha feito um pacto de boa convivência, com essa a coisa era diferente.

Após um dia de trabalho exaustivo, liguei para Rodrigo, o primogênito, se ele poderia acompanhar-me à emergência do hospital. Marcamos para irmos na manhã seguinte. Conforme combinado, apanhei-o no trabalho e fomos. Hospital cheio. Passei pela triagem, falei para a enfermeira de minha mazela: aferiu pressão, perguntou quais fármacos faço uso. Tudo registrado, me encaminhou para o balcão onde apresentei carteira de identidade e do plano de saúde. Colocaram pulseira com nome completo, CPF, data de nascimento. Sou encaminhado para outro setor, seguindo a linha verde no piso. Aguardo minha vez de ser atendido.

“Sr. Luiz Thadeu, sala 04”, ouço a voz que me conduz até a médica.

Entro e encontro uma jovem médica.

-Bom dia, doutora, gosto de ser atendido por médicas, acho as mulheres mais minuciosas, mais atentas.

-Obrigado. O que lhe traz até aqui, seu Luiz Thadeu?

-Dores intermitentes nas costas na altura dos rins.

-Quando começaram as dores?

-Três ou quatro dias.

-Deite aqui, deixe examiná-lo.

Ela aperta minha barriga

-Dói quando aperto ou quando deixo de pressionar?

-Quando deixa de pressionar.

-Pode ser apendicite.

-Vou lhe requisitar exames de sangue e tomografia para ver o que descobrimos.

Sou encaminhado para o setor de observação. Logo vem a técnica e pulsa minha veia, colhendo sangue para exames. Tempos depois o técnico em imagens chama meu nome, levando-me para a sala da tomografia.

No período de minha convalescência, após o grave acidente automobilístico que sofri em julho de 2003, todas as vezes que entro em um hospital, como paciente, as lembranças de minha via crucis voltam.

Feito a tomografia, volto para sala de observação.

Aguardo os resultados e sou encaminhado novamente para a sala da médica.

-Graças a Deus os resultados dos exames foram bons, não era nada demais. Sua coluna está desgastada por causa da idade. No mais, os seus exames estão ótimos.

Agradeci a atenção diferenciada da Dra. Geyse Aquino, que se mostrou humana, gentil e acolhedora. Quão bom encontrar profissionais da saúde com esse perfil.

Após cinco horas sem me alimentar, perguntei se poderia comer sem restrição.

-Sim, disse a médica.

Como não existe peça de reposição dos órgãos, o melhor é preservar os existentes.

Envelhecer é bom, mas dá trabalho.

Voltei para casa livre, leve e solto. Saúde é nosso bem maior.

(*)

Luiz Thadeu Nunes e Silva  é Jornalista, escritor, Globetrotter e Autor do livro “Das muletas fiz asas”.

Instagram: @luiz.thadeu

Facebook: Luiz Thadeu Silva


domingo, 28 de junho de 2026

PRESIDENTE DUTRA, 83 ANOS - UMA VIDA, MUITAS HISTÓRIAS

Foto gravura de Ângela Rego

 

José Pedro Araújo (*)

                Os 83 anos de história, que comemoramos agora, diz respeito apenas ao tempo decorrido desde a emancipação de Presidente Dutra do território barra-cordense, tempo em que começamos a nossa caminhada sozinho, desligando-nos completamente do nosso município mãe. De fato, a história de vida daquela pequena povoação batizada com o nome de Curador, vem de muito antes, desde quando um aventureiro construiu a sua cabana em meio àquela mata desconhecida, e logo passou a oferecer as suas “mezinhas” para o tratamento de alguns transeuntes portadores de moléstias adquiridas naquele sertão insalubre. Desde aqueles tempos, já teria decorrido muito mais do que um século. Talvez, prováveis cento e setenta e seis anos.

Desde o começo, aquele local, perdido no seio da floresta densa, passou a ser conhecido pelo apelido do velho pioneiro: Curador.  Não somente a região, mas também a lagoa às margens da qual o curandeiro estabeleceu a sua morada, e até mesmo o riacho piscoso que corria manso, logo próximo, todos foram batizados como o nome do primeiro habitante pelos indivíduos que por ali passavam. A lagoa então passou a ser conhecida como Lagoa do Curador; e o veio de água cristalina, como Riacho Curador. É assim que esses dois mananciais estão registrados nos mapas da época à qual estamos nos referindo. Mais à frente, em data imprecisa, os moradores locais passaram a se referir ao riacho Curador, como riacho Firmino, numa referência ao fundador do povoado que se formava próximo às nascentes do afluente do riacho Preguiça, logo ali perto. A Lagoa do Curador, permaneceu com o nome do Curandeiro que deu origem ao local. Quanto à povoação, anos depois, teve o seu nome alterado também, igual o que aconteceria com o designativo que primeiro batizara o citado riacho.

                Anos atrás, em uma monografia, o IBGE registrou que o Curador teria sido fundado por dois homens vindos desde o município de Codó, abrindo uma picada na mata até chegarem à região onde se situaria a povoação. Não sabemos de onde aquela instituição de pesquisa tirou essa informação, pois não nos deu conta de nenhum registro histórico que ateste essa versão da nossa história. Por sua vez, em um vídeo preparado com o uso da Inteligência Artificial (AI), que tomou conta da internet por esses dias, o seu criador envereda pelo mesmo caminho, mas cita o nome de três pessoas, e não duas, como sendo os fundadores da povoação: Antônio Baldoíno, Antônio Pereira Machado e Cazuza da Rocha. O resto da história continuava idêntica à apresentada pelo IBGE. Afirmava ela que esses três homens teriam partido de Caxias, no ano de 1884, José de Sousa Carvalhêdo e José de Sousa Albuquerque, etc e etc.  

Chamou-me a atenção o nome do primeiro individuo citado no vídeo recente, pois a denominação Baldoíno pertence à família de meu pai, e parece ser esta uma família única surgida no Piauí, mais precisamente na região de Floriano, tendo como seu precursor o senhor Baldoíno José de Barros, nascido no ano de 1852. Esse nome familiar é de descendência italiana. Estudando, pois, a sua linhagem familiar, vi que ele não possuía nenhum filho com o nome do indivíduo citado no vídeo. O vídeo também não traz qualquer informação sobre a fonte da qual eles retiraram essa informação, a nosso ver, sem qualificação. De qualquer forma, esse tipo de informação tem tumultuado a história do nosso município, fazendo com que muita gente a acredite como verdadeira.

                O que a história registra, de fato, é que em 1849 o coronel Diogo Lopes de Araújo Salles foi aquinhoado com algumas Datas de Sesmaria na região onde, no futuro, seria erguido o povoado do Curador. E que, entre essas Datas de terra, estaria a Data Santa Maria, local onde aquele desbravador situaria a sede das suas fazendas. Isso se deu trinta e cinco anos antes que esses cidadãos citados na monografia, e no vídeo acima citado, aparecessem na região. Mas é a história oral, tantas vezes citada pelos nossos pioneiros, quem nos diz qual indivíduo emprestou o seu nome ao aglomerado de casebres que daria origem ao Curador; que registra ainda que os escombros da humilde choupana do Curandeiro, o pioneiro, ainda chegou a ser identificado no local em que a sua morada foi erguida, nas margens da citada lagoa do Curador. Eu mesmo ouvi essa informação proferida pela minha vó materna, Maria José Nunes Barros, que acompanharia o soerguimento da vila desde o final do século XIX, quando veio habitar nela. D. Zezé, como era conhecida, que viveu até a idade de cem anos, tinha uma memória prodigiosa e se deleitava apreciando o progresso vivido pela cidade que praticamente viu nascer. Nessas ocasiões, para completar a sua informação, dizia-nos que existiam apenas vinte e sete casas quando ela chegou ao Curador, acompanhando a sua família. Todas edificadas com palhas de babaçu.

                O que aconteceu com o fundador da vila, o tal Curandeiro, ninguém sabe ao certo. Talvez tenha sido expulso da região pelo Coronel Diogo Salles quando aquele donatário veio estabelecer a sede das suas fazendas na região da Santa Maria, é o mais provável. Portanto, se querem dar o título de fundador a alguém, cuja biografia seja conhecida, e não ao nosso Curandeiro, que deem a primazia ao Coronel cearense, cuja história é bastante conhecida. Aliás, no nosso livro, “Viajando do Curador a Presidente Dutra – histórias, personalidades e fatos”, existem informações detalhadas sobre a verdadeira história da povoação conhecida anteriormente por Curador. Toda ela baseada em documentos de época. Entretanto, concordamos plenamente com uma parte do vídeo, aquela em que o seu autor afirma ter sido injusta a substituição do topônimo Curador, colocando em seu lugar, o do Presidente da República. Pois, de fato, o tal cidadão homenageado, Eurico Gaspar Dutra, que ocupava o cargo de Presidente da República quando tal mudança ocorreu, nunca pôs os pés no solo sagrado do nosso Curador.

                Agora, os tempos são outros. A cidade se desenvolveu e ganhou importância, e hoje é reconhecida como polo regional de desenvolvimento. Crescida e bem desenvolvida, conta hoje com cinco agências bancárias, três importantes hospitais, além de um avultado número de clínicas, médicas, odontológicas e de análise laboratorial, tendo se tornado também um importante polo regional de saúde. Nele também é possível encontrarmos vários educandários importantes, e até mesmo algumas faculdades, e o seu comércio é um dos mais importantes e pujantes de todo o interior maranhense.

                Presidente Dutra, aquele Curador de outrora, chegou ao seu octogésimo terceiro aniversário de emancipação política com pompas de cidade influente. Contudo, nunca nos esqueçamos de que foram pessoas simples, nordestinos detentores de orçamentos mirrados quem a ergueu e a povoou, às custas de muito suor e sofrimento. Aquela vila que recebeu o nome de Curador, não nasceu à sombra de uma casa-grande poderosa ou de um templo religioso influente. Nasceu, sim, do esforço de um povo destemido, e demorou muitas décadas para contar com a ajuda e o reconhecimento de governos situados na ilha de São Luís, sede do governo, situado a mais de trezentos e cinquenta quilômetros de distância. Esta viva na nossa memória ainda, que, devido à nossa localização geográfica, os nativos da ilha chamavam-na pejorativamente de Mata do Japão, em razão da sua distância e dificuldades de acesso.  Parabéns, Presidente Dutra!

(*) 

José Pedro de Araújo Filho é presidutrense, engenheiro agrônomo, autor do livro Viajando do Curador a Presidente Dutra – história, personalidades e fatos, e coordenador do blog Folhas Avulsas.     

 

terça-feira, 23 de junho de 2026

Parada no estaleiro

 

Imagem do próprio autor


Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

Após longo tempo sem férias, tirei dez dias. Foram dias para respirar novos ares, conhecer novas paragens, novas pessoas. Criar novas memórias. Sim, viajar é guardar na memória momentos únicos, indeléveis. Às vezes nem sempre agradáveis.

Uma viagem nunca termina. A viagem começa quando se escolhe o lugar ou lugares a visitar, os roteiros a serem percorridos. O que se deseja conhecer, que sabores queremos provar.

 Depois vem a viagem propriamente dia. Fazer check-in, se acomodar em uma aeronave, afivelar o cinto, desembarcar do outro lado. E, finalmente, quando retornamos para casa e tudo se transforma em lembranças, memórias. As boas, são recordações. As ruins, aprendizado.

Durante dez dias viajei pelos EUA: primeiro Seattle, depois Orlando, meu lugar preferido no mundo, depois de São Luís do Maranhão, minha ilha do Amor.

Cruzar a soleira de casa e cair no mundo foi a maneira que encontrei para compensar os cinco anos que passei preso a leitos hospitalares ou recolhido em casa por causa do grave acidente que sofri em julho de 2003 e que mudou minha trajetória para sempre.

Como o imponderável acontece sem planejamento prévio, pois é algo que ocorre sem ser previsto, medido ou avaliado, algo novo aconteceu comigo nesta viagem.

Ainda em Seattle, no hotel onde me hospedei, ao escorar a porta do banheiro, cortei o calcanhar da perna direita. Sangue jorrou longe, que contive com a ajuda dos funcionários do hotel. Não dei a devida atenção à gravidade que o fato necessitava.

Fiz pequenos curativos durante o período que lá estive. Como todo bom andarilho, andei por todas as partes da bela Seattle. Incursionei por sítios turísticos; fiz tour caminhando, com grupo que estava hospedado no mesmo lugar que eu.

No aeroporto de Seattle, no retorno, no longo trajeto dos saguões, as dores aumentaram. Desembarquei em Orlando, onde o amigo José Leônidas esperava-me, com dores lancinantes. Passei menos de doze horas na cidade. Seu José Leônidas me deu spray que apliquei no local; alívio momentâneo.

Voo longo até Guarulhos, SP. Acomodado em assento minúsculo, as dores voltaram ainda mais forte.

Outro voo até o destino final. Em São Luís ainda fiquei três dias adiando a ida ao médico. Coisa de homem teimoso. Como as dores não diminuíam, marquei consulta com o ortopedista, já que não conseguia colocar o pé no chão. Desconfiava que tivesse fraturado algum osso.

Raio X em mãos, dr. Gregório Ribeiro, constatou pequena fissura no calcâneo. Devidamente medicado, as dores arrefeceram. Já consigo pisar sem medo. Mas não deixa de ser irônico, que a porta tenha atingido logo o calcanhar, que sustenta todo o corpo, ou seja, o responsável por me permitir caminhar por esse mundão.

Com o problema ortopédico, aumentou a quantidade de medicamentos que ingiro diariamente. Além dos remédios de uso contínuo, por causa da idade, e das comodidades adquiridas, agora são mais dois: antibiótico e anti-inflamatório.

Lembrei do meu velho e saudoso pai, Luiz Magno Gomes e Silva, que no outono da vida, repetia: “O homem está no lucro quando bebe mais cerveja que remédio”.

No estaleiro, a cada seis horas ingiro um comprimido. As cervejas estão gelando para quando puder bebê-las.

Ando pelo mundo, já pisei, com minhas inseparáveis muletas, em mais de uma centena e meia de países, em todos os continentes, e nunca tinha acontecido algo parecido. O improvável não avisa quando vai acontecer.

Como uma viagem nunca acaba, ficaram as lembranças do hotel em Seattle, a imprudência de escorar uma porta pesada com o calcanhar e, principalmente a demora em procurar o médico. “Coisas de homem teimoso”, como diria a ex.

Toda viagem começa com o primeiro passo, vamos em frente, muito a caminhar, a desbravar, a conhecer. De preferência com mais responsabilidade.

(*)

Luiz Thadeu Nunes e Silva é Jornalista, escritor e Globetrotter e Autor do livro “Das muletas fiz asas”

Instagram: @luiz.thadeu

Facebook: Luiz Thadeu Silva


domingo, 14 de junho de 2026

Presidente Dutra e a formação de sua centralidade econômica

 

Fonte: OpenStreetMap


Darlann Weskley Sousa Silva(*)

Presidente Dutra não se tornou economicamente atrativa por causa de um único fato isolado, nem por obra repentina do acaso. Como acontece com quase todas as cidades que assumem importância regional, seu fortalecimento econômico foi resultado de um processo histórico gradual, construído ao longo do tempo, a partir da combinação entre localização geográfica, consolidação urbana, circulação de pessoas e expansão das atividades comerciais e de serviços.

Antes de ser Presidente Dutra, era Curador. E, antes de se afirmar como cidade-polo, era um núcleo urbano em formação, marcado pelas dificuldades do sertão, pela lentidão dos deslocamentos e pelas limitações naturais de uma época em que o território ainda se organizava de forma mais dispersa. Mas havia ali uma vantagem silenciosa, que com o tempo se tornaria decisiva: sua posição geográfica.

Situado em uma área estratégica do centro maranhense, o antigo Curador foi deixando para trás a condição de povoado interiorano para assumir, aos poucos, a função de ponto de passagem, parada, abastecimento, encontro e comércio. Essa transformação não ocorreu de um dia para o outro. Foi sendo moldada pela própria dinâmica dos caminhos, pela circulação de viajantes, pelo trânsito de mercadorias e pela necessidade que outras localidades tinham de encontrar, ali, uma referência urbana mais estruturada.

As estradas tiveram papel fundamental nesse processo. Foram elas que encurtaram distâncias relativas, aproximaram regiões, trouxeram movimento e fizeram com que a cidade passasse a receber mais gente, mais produtos, mais trocas e mais possibilidades. Onde havia caminho, surgia deslocamento. Onde havia deslocamento, surgia procura. E onde a procura se tornava constante, o comércio criava raízes.

Não se tratava apenas da venda de mercadorias. Tratava-se do nascimento de uma centralidade. Presidente Dutra começou a concentrar funções urbanas que extrapolavam seus próprios limites municipais. Gente de fora vinha comprar, vender, estudar, buscar atendimento médico, resolver questões bancárias, acessar serviços públicos, frequentar feiras, abastecer veículos, encontrar conhecidos, negociar produtos ou simplesmente passar pela cidade a caminho de outros destinos.

Foi assim que o antigo Curador, gradualmente, foi se transformando em Presidente Dutra: não apenas uma cidade existente no mapa, mas uma cidade com influência concreta sobre o território ao seu redor. A força dessa centralidade não se explica apenas por estatísticas, embora elas também sejam importantes. Explica-se, sobretudo, pela vida cotidiana, pela prática espacial, pela memória regional e pelo papel que a cidade passou a desempenhar para milhares de pessoas.

Essa função regional, aliás, encontra respaldo na própria leitura contemporânea do território brasileiro. Segundo a divisão regional do IBGE de 2017, Presidente Dutra integra uma Região Geográfica Imediata formada por 13 municípios, além de dar nome a uma Região Geográfica Intermediária, categoria criada para compreender de forma mais precisa as relações entre cidades, fluxos populacionais, circulação de serviços, conexões econômicas e articulações territoriais.

Esse reconhecimento técnico e institucional apenas confirma algo que o povo da região já sabia pela experiência: Presidente Dutra se tornou, com o passar do tempo, uma referência urbana no centro do Maranhão. Sua importância aparece nos bancos, nas escolas, no comércio, nos atendimentos de saúde, nas repartições, nas feiras, nos serviços e no costume, tão presente na memória popular, de “ir resolver as coisas em Presidente Dutra”.

Essa expressão, tão simples e tão comum, diz muito. Ela revela que a cidade passou a ser vista não apenas como lugar de moradia, mas como centro de resolução da vida regional. Em outras palavras, Presidente Dutra tornou-se um espaço onde se cruzam necessidades, interesses, deslocamentos e relações sociais que ultrapassam o município em si.

No fundo, a história econômica de PK também é a história dos seus caminhos. Caminhos de barro, de poeira, de asfalto, de chegada e de partida. Caminhos que trouxeram gente e levaram mercadorias. Caminhos que ligaram o interior ao centro urbano. Caminhos que ajudaram a transformar a posição geográfica em vocação econômica.

Não por acaso, o crescimento da cidade esteve intimamente associado à sua capacidade de atrair movimento. Porque cidades economicamente relevantes não são apenas aquelas que produzem muito, mas também aquelas que articulam, distribuem, conectam e organizam a vida de uma região. E Presidente Dutra, ao longo do tempo, soube assumir esse papel.

O que começou como Curador, lugar de passagem e encontro, tornou-se Presidente Dutra: cidade-polo, referência regional e coração urbano do centro maranhense. Sua força não nasceu de um instante, mas de uma construção histórica feita por muitas mãos, por muitos deslocamentos e por uma centralidade que foi se consolidando no ritmo da própria vida regional.

E talvez seja justamente por isso que Presidente Dutra ocupa, até hoje, um lugar tão importante na memória de quem vive nela e de quem sempre precisou dela. Porque há cidades que crescem em população. Outras, em extensão. E há aquelas que crescem em significado. Presidente Dutra cresceu também assim: tornando-se necessária.

E você? Quando percebeu que Presidente Dutra já era uma cidade que atraía gente de toda a região?

Sobre o autor:

(*)


Darlann Weskley Sousa Silva é presidutrense, geógrafo, professor e servidor público. Especialista em Docência, Educação Profissional e Geoprocessamento, dedica-se à pesquisa em geotecnologias, ordenamento territorial, memória urbana e leitura do espaço geográfico. Atualmente, é Superintendente de Pesquisa e Geoprocessamento na SAGRIMA, onde atua com estudos técnicos voltados ao território, ao planejamento e à organização espacial.

Referências:

 • IBGE. Divisão Regional do Brasil em Regiões Geográficas Imediatas e Regiões Geográficas Intermediárias, 2017.

• IBGE. Regionalização oficial aplicada à compreensão das relações urbanas, dos fluxos e da centralidade territorial no Brasil.

• OpenStreetMap. Base cartográfica do município de Presidente Dutra/MA, utilizada em imagem de apoio.

sábado, 30 de maio de 2026

Sou caminhante; ando no traçado do tempo

 

Imagem extraída do Google


Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

 

Os dias seguem no varal do tempo, sem dar satisfação. Maio se foi, junho está à porta. Sigo observando meu entorno, sem compreender muito. O tempo não precisa que eu entenda nada.

Sou apenas um caminhante, que anda no traçado do tempo, em busca de mim mesmo. Sem saber nada e, muito a aprender. Mesmo curioso com a vida, “todas as vezes que penso que sei as respostas, ela embaralha tudo”, cito Luiz Fernando Veríssimo.

A vida não acontece em linha reta; ela dá voltas. E nas voltas que dá, todo mundo tem sua vez de ficar de cabeça para baixo.

Me nutro de Clarice Lispector: “Depois do medo, vem o mundo”. Sigo com medo, empurrado pelo tempo. Às vezes tenho medo de seguir em frente, de ir sozinho, em busca do melhor. Depois, com calma, percebo que seguir em frente é a opção certa.

“Se a vida não for fácil pra você, trate de ficar forte”, ecoa o conselho de minha saudosa mãe, Maria da Conceição, para quem a vida nunca foi mamão com açúcar.

Diante de inúmeras situações que não posso mudar, tento acionar o botão do silêncio. Em um mundo cada vez mais barulhento, o silêncio é um luxo reservado a poucos.

Silêncio, essa presença tão mal compreendida pela modernidade tagarela, não é ausência, é potência em repouso. Nele habita uma forma de linguagem mais sutil do que qualquer gramática, mais honesta do que qualquer retórica. Ao saber distinguir entre o silêncio autêntico e o simples mutismo, há algo decisivo: que o ser genuíno da fala se preserva frequentemente na contenção, e que o discurso mais pleno é aquele que sabe o que não deve dizer. O silêncio, quando verdadeiro, é um templo, e sua arquitetura se ergue sobre o não dito, sobre o intervalo entre o impulso de falar e a escolha de calar, intervalo em que o pensamento, não domesticado pelo signo, permanece vivo em toda a sua ambiguidade fecunda. Se falar é prata, o silêncio é ouro. Observo no meu entorno, todos corridos, apressados; não entendo aonde querem chegar.

Bestialmente aceleramos o tempo; parece que estamos constantemente em busca de um senso de propósito e realização. É comum ouvir amigos dizerem que precisam estar sempre ocupados com alguma atividade importante, seja ela no trabalho ou em seus hobbies e/ou projetos pessoais. Isso me leva a pensar que, a todo momento, estamos fazendo algo importante e que, na busca em ressignificar nossa existência. Ledo engano. Além de assoberbados, estamos exaustos.  Ando enfadado de mim.

Na terça-feira, 26/05, a convite do escritor carioca, Paulo Panesi, participei de uma live, com Vera Costa, colega da faculdade de Agronomia e amiga de jornada, moradora de Barreirinhas, santuário ecológico. Falamos do tempo como um ativo a nosso favor. E como aproveitar os dias, sem pressa, pois a vida acontece durante nossas tempestades diárias.

Bem-abençoado todo aquele que tem tempo para realizar pequenos desejos.

É tempo de sair do trilho e entrar na trilha. O trilho é seguro, mas alguém já trilhou por ali. O trilho são padrões, cresças herdadas. Comportamentos repetidos. Tudo previsível. Tudo conhecido. A trilha exige presença, coragem e decisão. Na trilha não há garantia. Nela você precisa ouvir a si mesmo. Talvez seja por isso que na trilha a vida ganha profundidade.

Existem momentos em que o trilho é necessário, mas a vida perde sentido quando não temos coragem de sair dele. É neste momento que a trilha chama.

Porque chega uma hora em que a trilha chama, é quando a vida acontece.

"Não tenho pressa. Pressa de quê? Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.

Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas, ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra. Não; não sei ter pressa.

Se estendo o braço, chego exatamente aonde o meu braço chega - nem um centímetro mais longe. Toco só onde toco, não aonde penso.

Só me posso sentar onde estou. E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras, mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa, e vivemos vadios da nossa realidade. “E estamos sempre fora dela porque estamos aqui”,  Alberto Caeiro.

“O caminho se faz caminhando”, cito Antônio Machado, poeta espanhol.

Avante! Sempre em frente.

(*)


Luiz Thadeu Nunes e Silva é 
Jornalista, escritor e Globetrotter, autor do livro “Das muletas fiz asas”

Instagram: @luiz.thadeu

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sexta-feira, 15 de maio de 2026

O MERCADO PÚBLICO MUNICIPAL DE PRESIDENTE DUTRA: MEMÓRIA, TRABALHO E PATRIMÔNIO NO CORAÇÃO DA CIDADE

Mercado Central de P. Dutra(C. Postal de C.W. Marinho Sereno)



Darlann Weskley Sousa Silva(*)

Ainda ressoa, nas lembranças dos mais antigos, o burburinho das manhãs em torno do velho Mercado Público Municipal de Presidente Dutra. Não era apenas o rumor das compras, nem somente o vai e vem dos fregueses em busca da carne, da farinha, do arroz, do cheiro-verde, do toucinho, do feijão ou de alguma novidade trazida da zona rural. Era, sobretudo, o som da cidade acordando para o trabalho.

O mercado foi, durante décadas, um dos pontos mais vivos do centro urbano da Nossa querida Presidente Dutra. Ali, homens e mulheres chegavam cedo, muitas vezes antes mesmo de o sol vencer completamente a madrugada. Vinham lavradores, feirantes, carregadores, pequenos comerciantes, vendedores ambulantes, donas de casa, marchantes, curiosos e proseadores. Cada um trazia consigo uma parte da vida econômica e social do município.

Naquele tempo, o mercado não era somente um lugar de compra e venda. Era também uma espécie de jornal falado da cidade. As no cias chegavam pela boca do povo, corriam de banca em banca, atravessavam os corredores, paravam nas portas dos comércios e, em pouco tempo, já estavam espalhadas pelo centro. Uma viagem, uma doença, uma eleição, uma festa, uma enchente, uma seca, uma chegada inesperada, tudo podia virar assunto nas redondezas do velho mercado.

Imagem do Mercado Público de Presidente Dutra(1964)

Situado na Praça Senador Vitorino Freire, no centro comercial da cidade, o Mercado Público Municipal aparece em documento oficial do próprio município como bem de interesse histórico-cultural. Em 2021, o Projeto de Lei do Legislativo nº 019/2021, apresentado no âmbito da Câmara Municipal de Presidente Dutra, propôs o tombamento do Mercado Público Municipal como patrimônio histórico-cultural do município. O texto registrava expressamente que o mercado estava localizado na Praça Senador Vitorino Freire, no centro comercial da cidade, e defendia a preservação do seu “aspecto histórico-social”, bem como da sua estrutura original.

Ainda que o documento publicado no Diário Oficial não traga, no trecho disponível, o nome individual do vereador autor da proposição, a matéria revela uma preocupação institucional importante: a de reconhecer o Mercado Público como um bem de memória coletiva. Não se tratava apenas de proteger paredes, portas e telhado, mas de preservar um espaço onde a história cotidiana da cidade se desenrolou durante décadas.

Não se tratava, portanto, de um prédio qualquer. Era o reconhecimento formal de que aquele espaço, gasto pelo tempo e marcado pelo uso cotidiano, guardava uma parte importante da história da cidade. Afinal, há construções que valem menos pela imponência arquitetônica e mais pelo que testemunharam. E o Mercado Público testemunhou muita coisa: o crescimento do comércio, a ampliação da zona urbana, a circulação de moradores da sede e do interior, os encontros casuais, as conversas de balcão e as no cias que chegavam primeiro pela boca do povo, antes de alcançar qualquer jornal ou rádio.

O projeto buscava, em essência, impedir que obras, reformas ou intervenções futuras viessem a descaracterizar o imóvel. Ao falar em preservação do “aspecto histórico-social”, a proposta reconhecia que o valor do mercado não estava somente na sua estrutura física, mas também no papel que ele desempenhou na vida econômica, social e afetiva de Presidente Dutra.

O projeto de tombamento, entretanto, foi vetado integralmente pelo prefeito Raimundo Alves Carvalho. A razão apresentada foi de natureza jurídica: segundo o veto, o tombamento específico de um bem seria ato administrativo de competência do Poder Executivo, e não uma atribuição direta do Poder Legislativo por meio de lei específica. Ainda assim, o próprio texto do veto reconhecia que a proposta tinha por objetivo tombar, por interesse histórico e cultural, o Mercado Público de Presidente Dutra.

Esse ponto merece atenção. O veto não negou a importância histórica do mercado. O que se discutiu foi o caminho jurídico escolhido para protegê-lo. Em outras palavras, a proposição legislativa foi barrada por vício de competência, mas deixou registrado oficialmente que o Mercado Público Municipal era visto como um bem digno de preservação.

Por isso, a menção ao Projeto de Lei nº 019/2021 continua sendo relevante. Ele funciona como uma espécie de marco documental na história recente do Mercado Municipal: prova que, em algum momento, o poder público municipal discutiu formalmente a necessidade de reconhecer aquele espaço como patrimônio histórico-cultural de Presidente Dutra.

Esse detalhe é importante. O veto não apagou o valor histórico do mercado. Apenas interrompeu, naquele momento, a forma jurídica escolhida para protegê-lo. A discussão, contudo, permaneceu registrada no Diário Oficial e deixou para as gerações futuras uma pergunta incômoda: se o Mercado Público é reconhecido como parte da memória urbana, por que ainda não recebeu o cuidado patrimonial, urbanístico e turístico que merece?

O próprio Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, possui em seu acervo uma fotografia catalogada como “Mercado municipal: Presidente Dutra, MA”, pertencente à série Acervo dos Municípios Brasileiros. O registro identifica o município de Presidente Dutra, no Maranhão, e classifica a imagem sob os assuntos “Maranhão; Mercados; Presidente Dutra (MA)”. Embora a data apareça apenas como [19--], sem ano preciso, a existência dessa fotografia em acervo nacional confirma que o mercado integra também a memória visual documentada do município.

Pela tradição memorialística local, há referências indicando que a construção do Mercado Público Municipal teria sido iniciada na gestão de Gerson Sereno, prefeito entre 31 de outubro de 1951 e 31 de janeiro de 1956. Como se trata de informação preservada em registros de memória local, convém tratá-la com a prudência devida: não como sentença definitiva, mas como forte indicação oral e memorialística da origem do prédio.

Ainda assim, essa informação dialoga bem com a própria formação urbana de Presidente Dutra no século XX. Naquele período, o antigo Curador já deixava para trás a condição de povoado isolado e se afirmava como ponto de passagem, comércio e articulação regional. O mercado, nesse contexto, não era apenas uma obra física: era um sinal de modernização, de organização da vida comercial e de centralidade urbana.

Havia, naquele espaço, uma pedagogia própria da vida simples. O menino aprendia a negociar vendo o pai pechinchar. A dona de casa conhecia o preço das coisas pelo olhar acostumado. O comerciante sabia quem comprava fiado, quem pagava em dia, quem vinha da roça, quem vinha apenas para conversar. O mercado ensinava economia sem quadro-negro, sociologia sem universidade e geografia sem mapa: bastava observar de onde vinham as pessoas, os produtos e as histórias.

Por isso, falar hoje em revitalização do Mercado Público Municipal não significa apagar o passado. Significa justamente o contrário. Revitalizar é devolver dignidade ao espaço sem arrancar dele a alma. É cuidar da estrutura, melhorar a iluminação, organizar a circulação, valorizar os trabalhadores, preservar elementos históricos, criar sinalização patrimonial, estimular a fotografia, o turismo, a gastronomia popular e a visitação.

Cidades que cuidam dos seus mercados cuidam também da sua memória. Basta observar que, em muitos lugares do Brasil, os mercados públicos se transformaram em cartões-postais, pontos turísticos e centros de cultura popular. São lugares onde se come, se compra, se conversa, se ouve música, se encontra gente e se reconhece a identidade de um povo.

Presidente Dutra tem no seu Mercado Municipal uma oportunidade parecida. Ali não está apenas um prédio antigo. Está uma paisagem da memória. Está a lembrança dos trabalhadores que ajudaram a movimentar a economia local. Está o cheiro da feira, a conversa de balcão, o barulho das manhãs, a presença dos que vinham da zona rural vender seus produtos e comprar o necessário para a semana.

A imagem histórica do mercado, hoje melhorada visualmente por inteligência artificial para fins de valorização da memória local, nos permite enxergar com mais nitidez não apenas as paredes do prédio, mas aquilo que elas representam. A tecnologia melhora a fotografia; a memória melhora o olhar.

E talvez seja esse o grande desafio: fazer com que o povo da nossa Presidente Dutra volte a olhar para o Mercado Público Municipal não como uma construção envelhecida no centro da cidade, mas como um patrimônio vivo, capaz de unir passado e futuro.

Porque um mercado não é feito apenas de bancas, portas e telhados. É feito de gente. De trabalho. De suor. De vozes. De lembranças. De cidade. E quando uma cidade preserva os lugares onde o povo trabalhou, comprou, vendeu, conversou e viveu, ela não está apenas restaurando paredes. Está restaurando a si mesma.

(*)


Weskley Sousa Silva
é presidutrense, geógrafo, professor e servidor público. Especialista em Docência, Educação Profissional e Geoprocessamento, dedica-se à pesquisa em geotecnologias, ordenamento territorial, memória urbana e leitura do espaço geográfico. Atualmente, é Superintendente de Pesquisa e Geoprocessamento na SAGRIMA, onde atua com estudos técnicos voltados ao território, ao planejamento e à organização espacial.

Referências:

 ARAÚJO, José Pedro. O Relógio da Matriz de São Sebastião do Curador. Blog Folhas Avulsas, publicado em 5 de março de 2026. Usado como referência de estilo narrativo e composição memorialística. PRESIDENTE DUTRA.

Diário Oficial do Município de Presidente Dutra-MA, edição de 08 de julho de 2021. Projeto de Lei do Legislativo nº 019/2021 e razões do veto ao tombamento do Mercado Público Municipal.

IBGE. Mercado municipal: Presidente Dutra, MA. Biblioteca IBGE, Acervo dos Municípios Brasileiros. Fotografia em preto e branco, ano [19--].

MEMORIAL PRESIDENTE DUTRA-MA / registros memorialísticos locais. Referências sobre o Mercado Público Municipal de Presidente Dutra, localização na Praça Senador Vitorino Freire e indicação memorialística de construção iniciada na gestão de Gerson Sereno.