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| Vapor idêntico aos que navegavam naquela época pelas águas do rio Itapecuru |
IMPRESSÕES
DE VIAGEM (Parte 6)
Carlos
Augusto de Araújo Costa (*)
O nosso
viajante aproveitou os seus últimos momentos em Caxias para conhecer suas
principais atrações históricas e desenvolvimentistas, como o famoso Morro do
Alecrim, local onde ocorreu o famoso combate entre as tropas brasileiras e a portuguesa
liderada por Fidié, por ocasião da Balaiada. Em seguida, depois de se despedir
dos amigos, embarcou no trem com destino a Teresina. Por aquele tempo, essa
rede ferroviária se resumia ao trecho entre Caxias e a vila de Flores, mais tarde,
Timon, cidade situada ao lado esquerdo do portentoso rio Parnaíba, em frente a
capital do Piauí, Teresina. A viagem, entre Caxias e a vila de Flores, ponto
final da ferrovia, durou cerca de duas horas apenas, explicitando a diferença formidável
entre um meio de transporte e outro, se nos lembramos que a viagem de barco à
vapor durou cerca de oito dias. A seguir, mais informações sobre a extraordinária
viagem, extraídas do diário de viagem de Araújo Costa, no qual o viajante discorre
sobre a cidade de Teresina naquele distante ano de 1905 (editor).
Dia 30
– Ainda passei sem tomar banhos. Que horror! Se passar mais um dia assim, não
terei coragem de me apresentar em público. À tarde sai a cavalo com o Enéias
Frasão e outros. Cavalgando um bonito russo, castiguei-o bastante de esporas.
Bom japonês, trato bem o inimigo, mas provando sempre poder mais que ele.
Percorri
diversos trechos da cidade, que ainda não conhecia, e certifiquei-me ainda mais
que ela é bem populosa. Vi os lugares que, segundo me afirmaram, se postaram as
forças combatentes de um e outro lado ao tempo da guerra da balaiada, que se
originou em Caxias. Aproximei-me também do grande prédio da fábrica manufatora,
obra do eminente engenheiro Palmério Cantanhede, residente me São Luís. É um
bonito e bem trabalhado edifício, cuja construção, à primeira vista, revela a
mão do artista.
À noite fui
assistir a uma sessão da sociedade de Harmonia Caxiense, que se transformou em
uma homenagem à minha pessoa. Os senhores Alcebíades Vilhena, Daniel e Leôncio
Filho dirigiram-me palavras tão honrosas que deixo de mencioná-las com a minha
letra para não parecer vaidade. Em todo caso, conservarei a cópia da ata da
sessão na parte que me diz respeito.
Despedi-me de
todos os amigos, declarando partir no dia seguinte para Teresina e pondo a
disposição de todos os meus serviços. Nomeou-se então uma comissão para
acompanhar-me até a estação da via férrea.
Dia 31
– O coronel Leôncio Machado que é como uma ave da minha terra, que está sempre
alerta, acordou-me às 5 horas da manhã. Aproximava-se a hora da partida do
trem, ou locomotiva, como chamam em São Luís. Que trem aborrecido!
Tomei café e pus-me
a caminho, passando pela casa onde se achava o Aristides, que como os demais
companheiros, sem mais incômodos de saúde, se aprestava para à cavalo seguir
viagem para o Mirador. Às 6 horas, estava eu embarcado.
Decorridos uns
trinta quilômetros, mais ou menos, desenrolou-se-me à vista o adorável panorama
dos campos cultivados do Engenho D’água. Enormes tratos de terra sob a imediata
ação do homem, cortados pelo arado, são ali o que há de mais importante na
agricultura maranhense. Aquela lavoura intensiva honra aos industriais que lhe
dedicam os seus esforços patrióticos. É em todo o maranhão a melhor tenda do
trabalho consagrado à cultura dos campos, sendo ao mesmo tempo uma escola em
que se aprende a ter amor à terra que nos fornece os seus preciosos frutos e se
adquire estímulo ao trabalho que nos proporciona o bem-estar.
Vivemos no país
mais rico do mundo quanto às forças criadoras da natureza. A avaliar pela
fertilidade e pelas condições habitáveis, o nosso Brasil é maior mesmo do que a
Rússia, e China, pois não temos desertos, nem regiões frígidas, onde não medre
a planta humana e a terra negue os seus frutos. Entretanto, até palito nós
importamos.
Na estação do
Engenho D’água o cidadão Pedro Neves oferece-me uma ligeira refeição, na qual
tomaram parte o João Bastos e sua digna mãe, meus companheiros de viagem. Tendo
o trem partido às 8 horas, só às 10 chegou a Flores, estação terminal da via férrea
que fica ao lado esquerdo do rio Parnaíba. Os piauienses receberam-me com
festas e agasalho. Uma comissão composta dos jornalistas Drs. Clodoaldo Freitas
e Miguel Rosa, e diversos outros patrícios nossos recebeu-me na gare ao
som de uma banda de música.
Transportamo-nos
para o outro lado, atravessando o rio em uma pequena embarcação. Que triste,
que doloroso impressão me causou o pátrio Parnaíba! Está hoje, no máximo, com
duas larguras do Itapecuru, o que significa dizer que está reduzido a muito
menos de metade da sua grande largura na época invernosa. Mas, a grande
corrente o rio natal terá, em breve, ao contrário dos homens, restabelecidas as
suas forças, voltando sempre às alegrias da quadra primaveril.
“Lá virá
então a fresca primavera!
“tu
voltarás a ser quem eras dantes
E eu não
sei se serei quem dantes era!”
“Fermoso Tejo meu” – Francisco Rodrigues
Lobo, poeta português.
À
margem direita estavam também muitos patrícios à minha espera. Abracei-os, e, com
todos eles segui para o edifício da Sociedade Caridade 2ª, onde fui saudado
pelo Dr. Miguel Rosa e meu velho amigo José de Castro.
Dali fui para
a rua Grande, hospedando-me com o Luís Rego, parente e amigo e companheiro de
viagem até Caxias. Ele foi com o Júlio Nogueira, seu genro e também parente
nosso, residente na capital do Estado, esperar-me na vila das Flores,
proporcionando-nos bondosamente todas as comodidades em Teresina. Aceitei-lhes
o convite, não obstante já me ter reservado um aposento no Hotel do Comércio.
Almocei,
recebi muitas visitas e tomei banho à tarde, reservando-me para, no dia
seguinte, percorrer a cidade.
Dia 1º de
Agosto – Saí com Dr. Luiz Nogueira, chefe de polícia, em visita à cidade. Achei
Teresina com alguma diferença do estado em que a deixei. Pouca diferença, sim,
mas em todo caso digna de atenção.
Percorri o
edifício do Fórum, há pouco construído, tendo uma impressão tristíssima. O
ninho da justiça é o que há de mais imundo, admirando-me muito ainda não ter
ela se embriagado com o mau cheiro de tanto morcego morto e tanta matéria
excrementícia daquele viveiro de andorinhas. A bem deste Estado, a quem muito
amo, devo consignar aqui e divulgar a contrariedade que tive ao penetrar
naquele santuário. Mudem o tempo consagrado à sabedoria, se não podem mudar os
seus empregados.
Na mesma
praça, estão sendo construídos dois grandes edifícios: um para a Delegacia Fiscal,
que está prestes a ser concluído, e outro ainda em começo, destinado ao
Congresso ou Assembleia Legislativa do Estado.
Vi o majestoso
templo de São Benedito, dominando toda a cidade, em cuja parte posterior tem
ela aumentado de ricas construções. Os terrenos no centro que deixei
desocupados, e que no Maranhão chamamos - chãos vazios – acham-se todos ou
quase todos transformados em boas vivendas. Por aí se vê que a capital do meu
Estado não se encontra estacionária. Vai cada vez mais se desenvolvendo.
Quanto ao
serviço público, nota-se muito acentuada a tendência do governo em dar-lhe
incremento. O governo do Dr. Arlindo Nogueira deixou iniciada a empresa de
canalização das águas do Parnaíba para abastecimento da população; e este
serviço vai progredindo.
Fui a Palácio
onde estive com o governador Dr. Álvaro Mendes de quem sou parente e amigo, e o
primeiro assunto da nossa palestra foi o prolongamento da estrada de ferro de
Sobral a Teresina com um ramal para a Amarração. Mostrou-me ele um pedaço do
“Jornal do Comércio”, noticiando a sanção da lei neste sentido, e que censura
com indizível satisfação. Disse-me ainda o governador que conta iluminar a
cidade à luz elétrica, e que, para isto, já foram apresentadas algumas
propostas.
Almocei com o
chefe ou antes Secretário de Polícia, deixando-o logo depois. Anda ele bastante
ocupado com um roubo que se deu na Delegacia Fiscal, fazendo investigações
policiais.
Continua!
Araújo
Costa.



