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| Foto gravura de Ângela Rego |
José Pedro Araújo (*)
Os
83 anos de história, que comemoramos agora, diz respeito apenas ao tempo
decorrido desde a emancipação de Presidente Dutra do território barra-cordense,
tempo em que começamos a nossa caminhada sozinho, desligando-nos completamente
do nosso município mãe. De fato, a história de vida daquela pequena povoação
batizada com o nome de Curador, vem de muito antes, desde quando um aventureiro
construiu a sua cabana em meio àquela mata desconhecida, e logo passou a
oferecer as suas “mezinhas” para o tratamento de alguns transeuntes portadores
de moléstias adquiridas naquele sertão insalubre. Desde aqueles tempos, já teria
decorrido muito mais do que um século. Talvez, prováveis cento e setenta e seis
anos.
Desde o começo,
aquele local, perdido no seio da floresta densa, passou a ser conhecido pelo
apelido do velho pioneiro: Curador. Não somente
a região, mas também a lagoa às margens da qual o curandeiro estabeleceu a sua
morada, e até mesmo o riacho piscoso que corria manso, logo próximo, todos foram
batizados como o nome do primeiro habitante pelos indivíduos que por ali
passavam. A lagoa então passou a ser conhecida como Lagoa do Curador; e o veio
de água cristalina, como Riacho Curador. É assim que esses dois mananciais
estão registrados nos mapas da época à qual estamos nos referindo. Mais à frente,
em data imprecisa, os moradores locais passaram a se referir ao riacho Curador,
como riacho Firmino, numa referência ao fundador do povoado que se formava próximo
às nascentes do afluente do riacho Preguiça, logo ali perto. A Lagoa do
Curador, permaneceu com o nome do Curandeiro que deu origem ao local. Quanto à
povoação, anos depois, teve o seu nome alterado também, igual o que aconteceria
com o designativo que primeiro batizara o citado riacho.
Anos
atrás, em uma monografia, o IBGE registrou que o Curador teria sido fundado por
dois homens vindos desde o município de Codó, abrindo uma picada na mata até
chegarem à região onde se situaria a povoação. Não sabemos de onde aquela
instituição de pesquisa tirou essa informação, pois não nos deu conta de nenhum
registro histórico que ateste essa versão da nossa história. Por sua vez, em um
vídeo preparado com o uso da Inteligência Artificial (AI), que tomou conta da
internet por esses dias, o seu criador envereda pelo mesmo caminho, mas cita o
nome de três pessoas, e não duas, como sendo os fundadores da povoação: Antônio
Baldoíno, Antônio Pereira Machado e Cazuza da Rocha. O resto da história continuava
idêntica à apresentada pelo IBGE. Afirmava ela que esses três homens teriam
partido de Caxias, no ano de 1884, José de Sousa Carvalhêdo e José de Sousa Albuquerque,
etc e etc.
Chamou-me a
atenção o nome do primeiro individuo citado no vídeo recente, pois a
denominação Baldoíno pertence à família de meu pai, e parece ser esta uma
família única surgida no Piauí, mais precisamente na região de Floriano, tendo
como seu precursor o senhor Baldoíno José de Barros, nascido no ano de 1852. Esse
nome familiar é de descendência italiana. Estudando, pois, a sua linhagem
familiar, vi que ele não possuía nenhum filho com o nome do indivíduo citado no
vídeo. O vídeo também não traz qualquer informação sobre a fonte da qual eles retiraram
essa informação, a nosso ver, sem qualificação. De qualquer forma, esse tipo de
informação tem tumultuado a história do nosso município, fazendo com que muita
gente a acredite como verdadeira.
O
que a história registra, de fato, é que em 1849 o coronel Diogo Lopes de Araújo
Salles foi aquinhoado com algumas Datas de Sesmaria na região onde, no futuro,
seria erguido o povoado do Curador. E que, entre essas Datas de terra, estaria
a Data Santa Maria, local onde aquele desbravador situaria a sede das suas
fazendas. Isso se deu trinta e cinco anos antes que esses cidadãos citados na
monografia, e no vídeo acima citado, aparecessem na região. Mas é a história
oral, tantas vezes citada pelos nossos pioneiros, quem nos diz qual indivíduo emprestou
o seu nome ao aglomerado de casebres que daria origem ao Curador; que registra ainda
que os escombros da humilde choupana do Curandeiro, o pioneiro, ainda chegou a
ser identificado no local em que a sua morada foi erguida, nas margens da
citada lagoa do Curador. Eu mesmo ouvi essa informação proferida pela minha vó
materna, Maria José Nunes Barros, que acompanharia o soerguimento da vila desde
o final do século XIX, quando veio habitar nela. D. Zezé, como era conhecida, que
viveu até a idade de cem anos, tinha uma memória prodigiosa e se deleitava
apreciando o progresso vivido pela cidade que praticamente viu nascer. Nessas ocasiões,
para completar a sua informação, dizia-nos que existiam apenas vinte e sete
casas quando ela chegou ao Curador, acompanhando a sua família. Todas edificadas
com palhas de babaçu.
O
que aconteceu com o fundador da vila, o tal Curandeiro, ninguém sabe ao certo.
Talvez tenha sido expulso da região pelo Coronel Diogo Salles quando aquele
donatário veio estabelecer a sede das suas fazendas na região da Santa Maria, é
o mais provável. Portanto, se querem dar o título de fundador a alguém, cuja
biografia seja conhecida, e não ao nosso Curandeiro, que deem a primazia ao
Coronel cearense, cuja história é bastante conhecida. Aliás, no nosso livro,
“Viajando do Curador a Presidente Dutra – histórias, personalidades e fatos”,
existem informações detalhadas sobre a verdadeira história da povoação
conhecida anteriormente por Curador. Toda ela baseada em documentos de época. Entretanto,
concordamos plenamente com uma parte do vídeo, aquela em que o seu autor afirma
ter sido injusta a substituição do topônimo Curador, colocando em seu lugar, o
do Presidente da República. Pois, de fato, o tal cidadão homenageado, Eurico
Gaspar Dutra, que ocupava o cargo de Presidente da República quando tal mudança
ocorreu, nunca pôs os pés no solo sagrado do nosso Curador.
Agora,
os tempos são outros. A cidade se desenvolveu e ganhou importância, e hoje é
reconhecida como polo regional de desenvolvimento. Crescida e bem desenvolvida,
conta hoje com cinco agências bancárias, três importantes hospitais, além de um
avultado número de clínicas, médicas, odontológicas e de análise laboratorial,
tendo se tornado também um importante polo regional de saúde. Nele também é
possível encontrarmos vários educandários importantes, e até mesmo algumas
faculdades, e o seu comércio é um dos mais importantes e pujantes de todo o
interior maranhense.
Presidente
Dutra, aquele Curador de outrora, chegou ao seu octogésimo terceiro aniversário
de emancipação política com pompas de cidade influente. Contudo, nunca nos esqueçamos
de que foram pessoas simples, nordestinos detentores de orçamentos mirrados
quem a ergueu e a povoou, às custas de muito suor e sofrimento. Aquela vila que
recebeu o nome de Curador, não nasceu à sombra de uma casa-grande poderosa ou
de um templo religioso influente. Nasceu, sim, do esforço de um povo destemido,
e demorou muitas décadas para contar com a ajuda e o reconhecimento de governos
situados na ilha de São Luís, sede do governo, situado a mais de trezentos e
cinquenta quilômetros de distância. Esta viva na nossa memória ainda, que,
devido à nossa localização geográfica, os nativos da ilha chamavam-na
pejorativamente de Mata do Japão, em razão da sua distância e dificuldades de
acesso. Parabéns, Presidente Dutra!
(*)


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