sexta-feira, 24 de julho de 2026
sábado, 18 de julho de 2026
Tio Bazu e o seu jardim do Édem.
| Tio Bazu com a esposa, tia Adalgiza |
José Pedro Araújo (*)
Quando criança, um dos meus maiores
divertimentos era passear na casa do tio Bazu, irmão de minha mãe, que distava
pouco mais de uma centena de metros da nossa casa. Ao chegar lá, já encontrava alguns
dos nossos primos que acorriam para o local com o mesmo propósito que eu:
desfrutar daquele paraíso.
Naquele tempo, vovó Zezé ainda
morava naquela casa enorme situada dentro de um sítio paradisíaco. Ir para lá
era sinônimo de muito divertimento e alegria. A casa, construída pelo nosso tio
em estilo casa-grande de fazenda, possuía uma varanda alta que dava para um sublime
pomar e terminava em um extenso baixão que o riacho Firmino, nos invernos
chuvosos, inundava completamente, transformando-o em um espelho d’água de mar
calmo e belo; este foi o primeiro oceano que eu conheci nos tempos da minha
meninice. Vista atual da morada - foto Jônatas Araújo
Naquele sítio, repleto de árvores
frutescentes, o paladar era sempre desafiado pelo néctar das inúmeras espécies daquele
imenso pomar. Laranja, lima (limão doce), banana, caju, mangas de várias
espécies, maracujá, coco da praia, goiaba, ata e condessa, tínhamos à larga
para desfrutar o quanto aguentássemos. Até alguns pés de guabiraba eu descobri
por lá em uma das minhas aventuras em uma parte do terreno em que eu não
costumava ir. Naquele instante, estava à cata de frutos dos buritizeiros
situados próximos à rodovia. Depois de me deliciar com tantas e deliciosas frutas
ainda debaixo dos pés, ficava difícil comer mais alguma coisa nas refeições de
costume. E isto preocupava a minha mãe.
Da casa dos meus pais para o
sítio, era um pulo. Tomava-se um beco frontal que passava ao lado da casa onde
mais tarde a minha avô, tia Felicinha e tio Barrinho passaram a residir, e
seguia-se por entre árvores por uma extensão não muito maior do que oitenta
metros, para chegarmos ao paraíso onde o prazer e o divertimento nos aguardava.
Uma única atividade, naquele seu recanto sublime, tio Bazu não nos permitia realizar:
a caça aos pássaros que ocupavam as copas das árvores, aproveitando-se das iguarias
maduras para se alimentarem, pagando depois a dádiva com seus trinados
melódicos que inundavam o ar, tornando o lugar ainda mais alegre e festivo. Deste
modo, entrar no sítio com uma baladeira nas mãos, nem pensar, era um ato terminante
proibido. Nosso tio entendia que o
assédio aos pássaros que tornavam o seu recanto tão festivo era, na verdade,
uma quebra de contrato, um abuso de confiança. E terminava sendo, de fato.
Sabiás, pipiras, xexéus,
periquitos, pombas, vim vins, corrupiões, chorós, jaçanãs e socós, entre tantos
outros pássaros, conviviam por ali tranquilamente, pois sabiam que a sua
segurança não seria ameaçada pelos garotos caçadores. Recordo-me que, em certos
finais de tardes, ouvíamos ao longe o canto do jaó. Era tão bonito ouvir aquele
pássaro se despedindo do dia, como se emitisse um lamento saudoso. Tudo isso
transformava aquele local em nosso Shangrilá. Um recanto de paz e alegria
diária.
Descendo a ladeira desde a casa,
por uma alameda de cajueiros, cujas copas se tocavam lá no alto, estabelecendo
uma passagem sombreada até chegarmos a um poço minador cuja água chegava-lhe ao
topo, escorrendo depois para um brejo próximo embelezado com alguns
buritizeiros plantados pelo titio. Naquele momento, havíamos chegado ao Pocinho,
ponto inicial das nossas brincadeiras. Aquele manancial emitia um líquido tão
limpo e claro que era possível se avistar o seu leito de areias muito brancas.
Era também de uma água tão fresca, que após um banho tomado, debelava-se o
calor que nos afetava duramente em dias mais aquecidos. Muitas pessoas captavam
água dali para beber, abastecendo os potes e moringas das suas casas, mesmo
depois do estabelecimento da Companhia de Águas e Esgotos da cidade, a CAEMA.
Dizia-se que a água que lhes chegava às torneiras de suas casas, ofertada por
aquela empresa, era de qualidade ruim. Enquanto isso, as mulheres, sempre
cuidadosas com seus madeixas, gostavam de lavá-los com aquele fluido sublime
apanhado do Pocinho, como era conhecida aquela nascente.
| Tio Bazu criança, ao lado da avó materna |
Estamos falando de um local com
cerca de oito hectares que quase faz limite ao sul com a praça central da
cidade, de quem dista pouco menos de uma centena de metros. A cidade quase
abraçou aquele oásis de paz, mas o homem que cuida dele ainda é o mesmo. Com a
força das suas mãos, desde quando era ainda um rapaz de pouca idade, ele foi
erguendo tudo para deixar o ambiente ao seu gosto. Daqui a poucas horas, tio
Bazu completará 102 anos de existência, mantendo a sua mente extremamente
aguçada, a ponto de conseguir recitar de memória, capítulos inteiros da Bíblia
Sagrada, livro objeto de suas leituras diárias. É ele também, com a ajuda da dedicada
esposa Adalgisa, e de dois de seus filhos, quem administra todo aquele paraíso,
sem descuidar do seu longevo bananal, arriscando-se ainda a plantar algumas
linhas de milho no vale que se estende até a margem do riacho Firmino.
Já houve tempo que ele implantou uma
casa de farinhada ao lado da sua morada. Ela fazia enorme sucesso entre nós,
especialmente nos serões que eram constantes. Ele também trabalhou com hortas
enormes, cultivou grandes áreas de tomate, arroz, criou suínos, apascentou algumas
cabeças de gado, laborou com peixes em tanques, fez tudo o que um dedicado e
ativo produtor rural faria. Isso tudo em uma área urbana, situada no centro da
cidade.
Ainda hoje, é possível encontrá-lo,
especialmente nas manhãs, quando a temperatura do ambiente se mostra mais
favorável, com uma enxada nas mãos capinando o seu bananal, ou organizando o
seu jardim, sempre com o seu chapéu de legionário na cabeça, cujo protetor de
nuca se derramava nas suas costas. Quem não aprova, nem um pouco, essa atividade
constante do marido, é a tia Ziza, a sua companheira de jornada. Preocupa-se,
com razão, pois para se chegar até a área do seu bananal ele tem que descer uma
íngreme ladeira repleta de pedras. Ele, então, como argumento, construiu uma
escada de muitos degraus, em alguns pontos da descida, e fixou nela um
corrimão, tudo para não deixar de lutar contra o imobilismo e a ociosidade.
Tio Bazu é o último dos filhos do meu avô Diolindo Luiz de Barros, e da minha avó materna, Maria José Nunes Barros. Uma família que costuma desafiar o tempo, chegando, alguns deles, a completar o seu centenário de vida. Ele, também, com seus 102 anos bem vividos, é o recordista da família nesse campo da existência humana. Parabéns, tio Bazu! Suplicamos ao nosso bondoso Deus que nos dê a Graça de vê-lo ainda por um bom tempo entre nós, para que possamos continuar bebendo na sua inesgotável fonte de sabedoria, aprendendo com o seu exemplo de vida, e depois distribuindo tudo o que assimilamos entre nossos filhos e netos. Felicidades, saúde e paz!
(*)
José Pedro de Araújo Filho é presidutrense, engenheiro agrônomo, autor do livro Viajando do Curador a Presidente Dutra – história, personalidades e fatos, e coordenador do blog Folhas Avulsas.
sábado, 4 de julho de 2026
Saúde - nosso bem maior
| Imagem do Google |
domingo, 28 de junho de 2026
PRESIDENTE DUTRA, 83 ANOS - UMA VIDA, MUITAS HISTÓRIAS
![]() |
| Foto gravura de Ângela Rego |
José Pedro Araújo (*)
Os
83 anos de história, que comemoramos agora, diz respeito apenas ao tempo
decorrido desde a emancipação de Presidente Dutra do território barra-cordense,
tempo em que começamos a nossa caminhada sozinho, desligando-nos completamente
do nosso município mãe. De fato, a história de vida daquela pequena povoação
batizada com o nome de Curador, vem de muito antes, desde quando um aventureiro
construiu a sua cabana em meio àquela mata desconhecida, e logo passou a
oferecer as suas “mezinhas” para o tratamento de alguns transeuntes portadores
de moléstias adquiridas naquele sertão insalubre. Desde aqueles tempos, já teria
decorrido muito mais do que um século. Talvez, prováveis cento e setenta e seis
anos.
Desde o começo,
aquele local, perdido no seio da floresta densa, passou a ser conhecido pelo
apelido do velho pioneiro: Curador. Não somente
a região, mas também a lagoa às margens da qual o curandeiro estabeleceu a sua
morada, e até mesmo o riacho piscoso que corria manso, logo próximo, todos foram
batizados como o nome do primeiro habitante pelos indivíduos que por ali
passavam. A lagoa então passou a ser conhecida como Lagoa do Curador; e o veio
de água cristalina, como Riacho Curador. É assim que esses dois mananciais
estão registrados nos mapas da época à qual estamos nos referindo. Mais à frente,
em data imprecisa, os moradores locais passaram a se referir ao riacho Curador,
como riacho Firmino, numa referência ao fundador do povoado que se formava próximo
às nascentes do afluente do riacho Preguiça, logo ali perto. A Lagoa do
Curador, permaneceu com o nome do Curandeiro que deu origem ao local. Quanto à
povoação, anos depois, teve o seu nome alterado também, igual o que aconteceria
com o designativo que primeiro batizara o citado riacho.
Anos
atrás, em uma monografia, o IBGE registrou que o Curador teria sido fundado por
dois homens vindos desde o município de Codó, abrindo uma picada na mata até
chegarem à região onde se situaria a povoação. Não sabemos de onde aquela
instituição de pesquisa tirou essa informação, pois não nos deu conta de nenhum
registro histórico que ateste essa versão da nossa história. Por sua vez, em um
vídeo preparado com o uso da Inteligência Artificial (AI), que tomou conta da
internet por esses dias, o seu criador envereda pelo mesmo caminho, mas cita o
nome de três pessoas, e não duas, como sendo os fundadores da povoação: Antônio
Baldoíno, Antônio Pereira Machado e Cazuza da Rocha. O resto da história continuava
idêntica à apresentada pelo IBGE. Afirmava ela que esses três homens teriam
partido de Caxias, no ano de 1884, José de Sousa Carvalhêdo e José de Sousa Albuquerque,
etc e etc.
Chamou-me a
atenção o nome do primeiro individuo citado no vídeo recente, pois a
denominação Baldoíno pertence à família de meu pai, e parece ser esta uma
família única surgida no Piauí, mais precisamente na região de Floriano, tendo
como seu precursor o senhor Baldoíno José de Barros, nascido no ano de 1852. Esse
nome familiar é de descendência italiana. Estudando, pois, a sua linhagem
familiar, vi que ele não possuía nenhum filho com o nome do indivíduo citado no
vídeo. O vídeo também não traz qualquer informação sobre a fonte da qual eles retiraram
essa informação, a nosso ver, sem qualificação. De qualquer forma, esse tipo de
informação tem tumultuado a história do nosso município, fazendo com que muita
gente a acredite como verdadeira.
O
que a história registra, de fato, é que em 1849 o coronel Diogo Lopes de Araújo
Salles foi aquinhoado com algumas Datas de Sesmaria na região onde, no futuro,
seria erguido o povoado do Curador. E que, entre essas Datas de terra, estaria
a Data Santa Maria, local onde aquele desbravador situaria a sede das suas
fazendas. Isso se deu trinta e cinco anos antes que esses cidadãos citados na
monografia, e no vídeo acima citado, aparecessem na região. Mas é a história
oral, tantas vezes citada pelos nossos pioneiros, quem nos diz qual indivíduo emprestou
o seu nome ao aglomerado de casebres que daria origem ao Curador; que registra ainda
que os escombros da humilde choupana do Curandeiro, o pioneiro, ainda chegou a
ser identificado no local em que a sua morada foi erguida, nas margens da
citada lagoa do Curador. Eu mesmo ouvi essa informação proferida pela minha vó
materna, Maria José Nunes Barros, que acompanharia o soerguimento da vila desde
o final do século XIX, quando veio habitar nela. D. Zezé, como era conhecida, que
viveu até a idade de cem anos, tinha uma memória prodigiosa e se deleitava
apreciando o progresso vivido pela cidade que praticamente viu nascer. Nessas ocasiões,
para completar a sua informação, dizia-nos que existiam apenas vinte e sete
casas quando ela chegou ao Curador, acompanhando a sua família. Todas edificadas
com palhas de babaçu.
O
que aconteceu com o fundador da vila, o tal Curandeiro, ninguém sabe ao certo.
Talvez tenha sido expulso da região pelo Coronel Diogo Salles quando aquele
donatário veio estabelecer a sede das suas fazendas na região da Santa Maria, é
o mais provável. Portanto, se querem dar o título de fundador a alguém, cuja
biografia seja conhecida, e não ao nosso Curandeiro, que deem a primazia ao
Coronel cearense, cuja história é bastante conhecida. Aliás, no nosso livro,
“Viajando do Curador a Presidente Dutra – histórias, personalidades e fatos”,
existem informações detalhadas sobre a verdadeira história da povoação
conhecida anteriormente por Curador. Toda ela baseada em documentos de época. Entretanto,
concordamos plenamente com uma parte do vídeo, aquela em que o seu autor afirma
ter sido injusta a substituição do topônimo Curador, colocando em seu lugar, o
do Presidente da República. Pois, de fato, o tal cidadão homenageado, Eurico
Gaspar Dutra, que ocupava o cargo de Presidente da República quando tal mudança
ocorreu, nunca pôs os pés no solo sagrado do nosso Curador.
Agora,
os tempos são outros. A cidade se desenvolveu e ganhou importância, e hoje é
reconhecida como polo regional de desenvolvimento. Crescida e bem desenvolvida,
conta hoje com cinco agências bancárias, três importantes hospitais, além de um
avultado número de clínicas, médicas, odontológicas e de análise laboratorial,
tendo se tornado também um importante polo regional de saúde. Nele também é
possível encontrarmos vários educandários importantes, e até mesmo algumas
faculdades, e o seu comércio é um dos mais importantes e pujantes de todo o
interior maranhense.
Presidente
Dutra, aquele Curador de outrora, chegou ao seu octogésimo terceiro aniversário
de emancipação política com pompas de cidade influente. Contudo, nunca nos esqueçamos
de que foram pessoas simples, nordestinos detentores de orçamentos mirrados
quem a ergueu e a povoou, às custas de muito suor e sofrimento. Aquela vila que
recebeu o nome de Curador, não nasceu à sombra de uma casa-grande poderosa ou
de um templo religioso influente. Nasceu, sim, do esforço de um povo destemido,
e demorou muitas décadas para contar com a ajuda e o reconhecimento de governos
situados na ilha de São Luís, sede do governo, situado a mais de trezentos e
cinquenta quilômetros de distância. Esta viva na nossa memória ainda, que,
devido à nossa localização geográfica, os nativos da ilha chamavam-na
pejorativamente de Mata do Japão, em razão da sua distância e dificuldades de
acesso. Parabéns, Presidente Dutra!
(*)
terça-feira, 23 de junho de 2026
Parada no estaleiro
![]() |
| Imagem do próprio autor |
Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)
Após longo tempo sem férias,
tirei dez dias. Foram dias para respirar novos ares, conhecer novas paragens,
novas pessoas. Criar novas memórias. Sim, viajar é guardar na memória momentos
únicos, indeléveis. Às vezes nem sempre agradáveis.
Uma viagem nunca termina. A
viagem começa quando se escolhe o lugar ou lugares a visitar, os roteiros a
serem percorridos. O que se deseja conhecer, que sabores queremos provar.
Depois vem a viagem propriamente dia. Fazer
check-in, se acomodar em uma aeronave, afivelar o cinto, desembarcar do outro
lado. E, finalmente, quando retornamos para casa e tudo se transforma em
lembranças, memórias. As boas, são recordações. As ruins, aprendizado.
Durante dez dias viajei pelos
EUA: primeiro Seattle, depois Orlando, meu lugar preferido no mundo, depois de
São Luís do Maranhão, minha ilha do Amor.
Cruzar a soleira de casa e cair
no mundo foi a maneira que encontrei para compensar os cinco anos que passei
preso a leitos hospitalares ou recolhido em casa por causa do grave acidente
que sofri em julho de 2003 e que mudou minha trajetória para sempre.
Como o imponderável acontece sem
planejamento prévio, pois é algo que ocorre sem ser previsto, medido ou
avaliado, algo novo aconteceu comigo nesta viagem.
Ainda em Seattle, no hotel onde
me hospedei, ao escorar a porta do banheiro, cortei o calcanhar da perna
direita. Sangue jorrou longe, que contive com a ajuda dos funcionários do
hotel. Não dei a devida atenção à gravidade que o fato necessitava.
Fiz pequenos curativos durante o
período que lá estive. Como todo bom andarilho, andei por todas as partes da
bela Seattle. Incursionei por sítios turísticos; fiz tour caminhando, com grupo
que estava hospedado no mesmo lugar que eu.
No aeroporto de Seattle, no
retorno, no longo trajeto dos saguões, as dores aumentaram. Desembarquei em
Orlando, onde o amigo José Leônidas esperava-me, com dores lancinantes. Passei
menos de doze horas na cidade. Seu José Leônidas me deu spray que apliquei no
local; alívio momentâneo.
Voo longo até Guarulhos, SP.
Acomodado em assento minúsculo, as dores voltaram ainda mais forte.
Outro voo até o destino final. Em
São Luís ainda fiquei três dias adiando a ida ao médico. Coisa de homem
teimoso. Como as dores não diminuíam, marquei consulta com o ortopedista, já
que não conseguia colocar o pé no chão. Desconfiava que tivesse fraturado algum
osso.
Raio X em mãos, dr. Gregório
Ribeiro, constatou pequena fissura no calcâneo. Devidamente medicado, as dores
arrefeceram. Já consigo pisar sem medo. Mas não deixa de ser irônico, que a
porta tenha atingido logo o calcanhar, que sustenta todo o corpo, ou seja, o
responsável por me permitir caminhar por esse mundão.
Com o problema ortopédico,
aumentou a quantidade de medicamentos que ingiro diariamente. Além dos remédios
de uso contínuo, por causa da idade, e das comodidades adquiridas, agora são
mais dois: antibiótico e anti-inflamatório.
Lembrei do meu velho e saudoso
pai, Luiz Magno Gomes e Silva, que no outono da vida, repetia: “O homem está no
lucro quando bebe mais cerveja que remédio”.
No estaleiro, a cada seis horas
ingiro um comprimido. As cervejas estão gelando para quando puder bebê-las.
Ando pelo mundo, já pisei, com
minhas inseparáveis muletas, em mais de uma centena e meia de países, em todos
os continentes, e nunca tinha acontecido algo parecido. O improvável não avisa
quando vai acontecer.
Como uma viagem nunca acaba,
ficaram as lembranças do hotel em Seattle, a imprudência de escorar uma porta
pesada com o calcanhar e, principalmente a demora em procurar o médico. “Coisas
de homem teimoso”, como diria a ex.
Toda viagem começa com o primeiro
passo, vamos em frente, muito a caminhar, a desbravar, a conhecer. De
preferência com mais responsabilidade.
(*)
Instagram: @luiz.thadeu
Facebook: Luiz Thadeu Silva
domingo, 14 de junho de 2026
Presidente Dutra e a formação de sua centralidade econômica
| Fonte: OpenStreetMap |
Darlann Weskley Sousa
Silva(*)
Presidente Dutra não se tornou
economicamente atrativa por causa de um único fato isolado, nem por obra
repentina do acaso. Como acontece com quase todas as cidades que assumem
importância regional, seu fortalecimento econômico foi resultado de um processo
histórico gradual, construído ao longo do tempo, a partir da combinação entre
localização geográfica, consolidação urbana, circulação de pessoas e expansão
das atividades comerciais e de serviços.
Antes de ser Presidente Dutra,
era Curador. E, antes de se afirmar como cidade-polo, era um núcleo urbano em
formação, marcado pelas dificuldades do sertão, pela lentidão dos deslocamentos
e pelas limitações naturais de uma época em que o território ainda se
organizava de forma mais dispersa. Mas havia ali uma vantagem silenciosa, que
com o tempo se tornaria decisiva: sua posição geográfica.
Situado em uma área estratégica
do centro maranhense, o antigo Curador foi deixando para trás a condição de
povoado interiorano para assumir, aos poucos, a função de ponto de passagem,
parada, abastecimento, encontro e comércio. Essa transformação não ocorreu de
um dia para o outro. Foi sendo moldada pela própria dinâmica dos caminhos, pela
circulação de viajantes, pelo trânsito de mercadorias e pela necessidade que
outras localidades tinham de encontrar, ali, uma referência urbana mais
estruturada.
As estradas tiveram papel
fundamental nesse processo. Foram elas que encurtaram distâncias relativas,
aproximaram regiões, trouxeram movimento e fizeram com que a cidade passasse a
receber mais gente, mais produtos, mais trocas e mais possibilidades. Onde
havia caminho, surgia deslocamento. Onde havia deslocamento, surgia procura. E
onde a procura se tornava constante, o comércio criava raízes.
Não se tratava apenas da venda de
mercadorias. Tratava-se do nascimento de uma centralidade. Presidente Dutra
começou a concentrar funções urbanas que extrapolavam seus próprios limites
municipais. Gente de fora vinha comprar, vender, estudar, buscar atendimento
médico, resolver questões bancárias, acessar serviços públicos, frequentar
feiras, abastecer veículos, encontrar conhecidos, negociar produtos ou
simplesmente passar pela cidade a caminho de outros destinos.
Foi assim que o antigo Curador,
gradualmente, foi se transformando em Presidente Dutra: não apenas uma cidade
existente no mapa, mas uma cidade com influência concreta sobre o território ao
seu redor. A força dessa centralidade não se explica apenas por estatísticas,
embora elas também sejam importantes. Explica-se, sobretudo, pela vida
cotidiana, pela prática espacial, pela memória regional e pelo papel que a
cidade passou a desempenhar para milhares de pessoas.
Essa função regional, aliás,
encontra respaldo na própria leitura contemporânea do território brasileiro.
Segundo a divisão regional do IBGE de 2017, Presidente Dutra integra uma Região
Geográfica Imediata formada por 13 municípios, além de dar nome a uma Região
Geográfica Intermediária, categoria criada para compreender de forma mais
precisa as relações entre cidades, fluxos populacionais, circulação de
serviços, conexões econômicas e articulações territoriais.
Esse reconhecimento técnico e
institucional apenas confirma algo que o povo da região já sabia pela
experiência: Presidente Dutra se tornou, com o passar do tempo, uma referência
urbana no centro do Maranhão. Sua importância aparece nos bancos, nas escolas,
no comércio, nos atendimentos de saúde, nas repartições, nas feiras, nos
serviços e no costume, tão presente na memória popular, de “ir resolver as
coisas em Presidente Dutra”.
Essa expressão, tão simples e tão
comum, diz muito. Ela revela que a cidade passou a ser vista não apenas como
lugar de moradia, mas como centro de resolução da vida regional. Em outras
palavras, Presidente Dutra tornou-se um espaço onde se cruzam necessidades,
interesses, deslocamentos e relações sociais que ultrapassam o município em si.
No fundo, a história econômica de
PK também é a história dos seus caminhos. Caminhos de barro, de poeira, de
asfalto, de chegada e de partida. Caminhos que trouxeram gente e levaram
mercadorias. Caminhos que ligaram o interior ao centro urbano. Caminhos que
ajudaram a transformar a posição geográfica em vocação econômica.
Não por acaso, o crescimento da
cidade esteve intimamente associado à sua capacidade de atrair movimento.
Porque cidades economicamente relevantes não são apenas aquelas que produzem
muito, mas também aquelas que articulam, distribuem, conectam e organizam a
vida de uma região. E Presidente Dutra, ao longo do tempo, soube assumir esse
papel.
O que começou como Curador, lugar
de passagem e encontro, tornou-se Presidente Dutra: cidade-polo, referência
regional e coração urbano do centro maranhense. Sua força não nasceu de um
instante, mas de uma construção histórica feita por muitas mãos, por muitos
deslocamentos e por uma centralidade que foi se consolidando no ritmo da
própria vida regional.
E talvez seja justamente por isso
que Presidente Dutra ocupa, até hoje, um lugar tão importante na memória de
quem vive nela e de quem sempre precisou dela. Porque há cidades que crescem em
população. Outras, em extensão. E há aquelas que crescem em significado.
Presidente Dutra cresceu também assim: tornando-se necessária.
E você? Quando percebeu que
Presidente Dutra já era uma cidade que atraía gente de toda a região?
Sobre o autor:
(*)
Referências:
• IBGE. Divisão Regional do Brasil em Regiões
Geográficas Imediatas e Regiões Geográficas Intermediárias, 2017.
• IBGE. Regionalização oficial
aplicada à compreensão das relações urbanas, dos fluxos e da centralidade
territorial no Brasil.
• OpenStreetMap. Base
cartográfica do município de Presidente Dutra/MA, utilizada em imagem de apoio.
sábado, 30 de maio de 2026
Sou caminhante; ando no traçado do tempo
| Imagem extraída do Google |
Luiz Thadeu Nunes e
Silva (*)
Os dias seguem no varal do tempo,
sem dar satisfação. Maio se foi, junho está à porta. Sigo observando meu
entorno, sem compreender muito. O tempo não precisa que eu entenda nada.
Sou apenas um caminhante, que
anda no traçado do tempo, em busca de mim mesmo. Sem saber nada e, muito a
aprender. Mesmo curioso com a vida, “todas as vezes que penso que sei as
respostas, ela embaralha tudo”, cito Luiz Fernando Veríssimo.
A vida não acontece em linha
reta; ela dá voltas. E nas voltas que dá, todo mundo tem sua vez de ficar de
cabeça para baixo.
Me nutro de Clarice Lispector:
“Depois do medo, vem o mundo”. Sigo com medo, empurrado pelo tempo. Às vezes
tenho medo de seguir em frente, de ir sozinho, em busca do melhor. Depois, com
calma, percebo que seguir em frente é a opção certa.
“Se a vida não for fácil pra
você, trate de ficar forte”, ecoa o conselho de minha saudosa mãe, Maria da
Conceição, para quem a vida nunca foi mamão com açúcar.
Diante de inúmeras situações que
não posso mudar, tento acionar o botão do silêncio. Em um mundo cada vez mais
barulhento, o silêncio é um luxo reservado a poucos.
Silêncio, essa presença tão mal
compreendida pela modernidade tagarela, não é ausência, é potência em repouso.
Nele habita uma forma de linguagem mais sutil do que qualquer gramática, mais
honesta do que qualquer retórica. Ao saber distinguir entre o silêncio
autêntico e o simples mutismo, há algo decisivo: que o ser genuíno da fala se
preserva frequentemente na contenção, e que o discurso mais pleno é aquele que
sabe o que não deve dizer. O silêncio, quando verdadeiro, é um templo, e sua
arquitetura se ergue sobre o não dito, sobre o intervalo entre o impulso de
falar e a escolha de calar, intervalo em que o pensamento, não domesticado pelo
signo, permanece vivo em toda a sua ambiguidade fecunda. Se falar é prata, o
silêncio é ouro. Observo no meu entorno, todos corridos, apressados; não
entendo aonde querem chegar.
Bestialmente aceleramos o tempo;
parece que estamos constantemente em busca de um senso de propósito e
realização. É comum ouvir amigos dizerem que precisam estar sempre ocupados com
alguma atividade importante, seja ela no trabalho ou em seus hobbies e/ou
projetos pessoais. Isso me leva a pensar que, a todo momento, estamos fazendo
algo importante e que, na busca em ressignificar nossa existência. Ledo engano.
Além de assoberbados, estamos exaustos.
Ando enfadado de mim.
Na terça-feira, 26/05, a convite
do escritor carioca, Paulo Panesi, participei de uma live, com Vera Costa,
colega da faculdade de Agronomia e amiga de jornada, moradora de Barreirinhas,
santuário ecológico. Falamos do tempo como um ativo a nosso favor. E como
aproveitar os dias, sem pressa, pois a vida acontece durante nossas tempestades
diárias.
Bem-abençoado todo aquele que tem
tempo para realizar pequenos desejos.
É tempo de sair do trilho e
entrar na trilha. O trilho é seguro, mas alguém já trilhou por ali. O trilho
são padrões, cresças herdadas. Comportamentos repetidos. Tudo previsível. Tudo
conhecido. A trilha exige presença, coragem e decisão. Na trilha não há
garantia. Nela você precisa ouvir a si mesmo. Talvez seja por isso que na
trilha a vida ganha profundidade.
Existem momentos em que o trilho
é necessário, mas a vida perde sentido quando não temos coragem de sair dele. É
neste momento que a trilha chama.
Porque chega uma hora em que a
trilha chama, é quando a vida acontece.
"Não tenho pressa. Pressa de
quê? Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente
passa adiante das pernas, ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra. Não;
não sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego exatamente
aonde o meu braço chega - nem um centímetro mais longe. Toco só onde toco, não
aonde penso.
Só me posso sentar onde estou. E
isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras, mas o que faz
rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa, e vivemos vadios da nossa
realidade. “E estamos sempre fora dela porque estamos aqui”, Alberto Caeiro.
“O caminho se faz caminhando”,
cito Antônio Machado, poeta espanhol.
Avante! Sempre em frente.
(*)
Luiz Thadeu Nunes e Silva é Jornalista, escritor e Globetrotter, autor do livro “Das muletas fiz asas”
Instagram: @luiz.thadeu
Facebook: Luiz Thadeu Silva


