| Um típico vapor dos que navegavam pelo Itapecuru (Google) |
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IMPRESSÕES
DE VIAGEM (Parte 3) Carlos
Augusto de Araújo Costa (*) Nesta terceira
parte do diário continuaremos a navegar pelas águas do rio Itapecuru com o
piauiense Dr. Araújo Costa, advogado e político radicado em São Luís do
Maranhão, em uma viagem empreendida por ele entre São Luís e Caxias, lá pelo
ano de 1905. Já estamos iniciando o sétimo dia da viagem com o vapor aportando
no cais do Itapecuru na cidade de Codó. Naquele porto embarcaria um passageiro
que iria chamar a atenção de todos, como veremos a seguir. Dia 23 –
Dormia a bom dormir, quando se deu no vapor uma verdadeira invasão de bárbaros,
que é incontestavelmente uma barbaridade, privarem-nos de um sono reparador.
Acordei com a vozeria dos alegres visitantes, e, como adormeci logo após, perdoou-lhes
de coração o mal que me fizeram. Foram
logo à terra e para terra levaram duas famílias: a do Aristides que continua a
viagem, e uma outra domiciliada no Codó. As nove horas
fui também visitar a cidade, que me impressionou agradavelmente. Ela não é pequena e se estende de um a outro
lado do rio, sendo, porém, mais apreciável à esquerda. É nesta margem que se
concentra quase toda a vida local e onde reside a elite da população. Tem
prédios bem construídos, alguns à moderna; habitações muito espaçosas e
confortáveis; o que denota o bom gosto dos habitantes. A
municipalidade parece cogitar do bem público. Logo ao chegar observei uma
singela rampa, e mais tarde, um grande prédio pertencente à Câmara Municipal, e
onde esta funciona, assim como um começo de arborização na Praça do Cruzeiro. O
cais, que é também modesto, foi feito, segundo me disseram, a expensas da
União. A iniciativa
particular é bem sensível. Existe na cidade uma fábrica de tecidos, cuja
manufatura, sendo exibida, foi premiada na exposição de São Luís, sendo
bastante conhecidos os produtos da sua lavoura, que produz muito bom fumo e
exporta bastante algodão. Tem também a
sua imprensa reunida no pequeno jornal “Comarca”, o que indica que o movimento
intelectual encontra certa animação. Infelizmente
notei muitas cercas de vara no centro da cidade. Mas, consta-me ser assim que
fabricam as quintas, em todo o interior do Estado, não sendo possível ou pelo
menos fácil, substituir a matéria prima da sua confecção. Não tive
tempo, e muito a meu pesar, de visitar o terceiro bairro, onde está a fábrica
de tecidos. Embora
incompletas as minhas observações, creio, entretanto, poder afirmar que o Codó
é uma das maiores localidades do Maranhão. Mesmo pela
tradição familiar, pouco ou nada tem a invejar aos demais centros populosos. Aí
tomaram vulto importantes família do Maranhão, tais como as famílias Viana, Bayma,
Moreira e Palhano, que são bastante ramificadas, e tem produzido figuras
salientes. Almocei em
terra, em casa do Dico Bayma, onde encontrei o meu velho amigo Comendador Bento
Raposo, tendo antes visitado ao Maneco, chefe, no lugar, da política situacionista.
Boa gente, muito agrado e tratamento cordial. Teve razão o
Paulo, quando, depois de ter comido muito, saudou aos que nos deram almoço. Voltei ao
barco ao meio-dia, mais ou menos, saindo o vapor poucas horas depois. Tomei um
banho, e em seguida, senti-me com defluxo. Mal agouro! Quero crer, porém, que
este importuno companheiro não me perseguirá por muito tempo. A viagem de
ótima, que ia sendo, vai se tornando má. Não andamos três léguas sequer depois
da saída do Codó, tal é o estado do rio. Deito-me sem
consultar o médico de bordo sobre o meu estado de saúde, pois até em medicina o
Codó nos fez uma revelação, que não devo esquecer. A bordo do
“Carlos Coelho” vem um passageiro de proa, cuja especialidade até agora
desconhecíamos e que ao saltar na cidade reunia logo um grande número de admiradores,
dizendo curar qualquer moléstia ao simples contato da mão na parte afetada. Chama-se Homem
Bom Alves do Nascimento o nosso esculápio, que diz ser paraibano, e é um tipo
bem parecido. Porque há
tolos em toda parte, o doutor fez a sua figura; e tanto se elevou no
conceito da plebe que era cercado de máxima consideração e teve um embarque
pomposo, como qualquer grande personalidade. Dia 24 –
Sete dias de viagem! E eu não supunha ser preciso tanto! Acordando
cedo, tomei logo um banho frio. Em seguida, fiquei com aspecto macilento, ar
macambuzio, sentindo certa indisposição, acreditei estar com febre. Felizmente, melhorei; e suponho voltar aos
primeiros bons dias da viagem, quando comia bem, dormia melhor e sentia o
organismo adquirir mais força e vigor. Devido ao
abatimento físico resultante do resfriamento de que fui vítima, tenho hoje
poucas impressões a registrar. Mens sana in corpore sano. Quando o corpo
se sente mal, o espírito não é o mesmo: acompanha o seu mal-estar. E digam lá os
espiritualistas que o espírito é tudo e a matéria é nada! Tenham eles uma
formidável indigestão, à semelhança de uma que teve gente boa, quando andou por
este Estado o Nuncio Apostólico, Don Júlio Tonti, e me digam depois se
reproduzem com a mesma facilidade um pensamento de João Lisboa ou decoram um soneto
de Olavo Bilac. Duvido! O vapor tem
andado a passos de caranguejo. Ora adiante, ora atrás. Já uma das vezes em que
ele recuava tive vontade de perguntar ao Carlos Gonçalves se nos pretendia
levar à capital. Os
companheiros matavam o tempo a dar tiros. O farmacêutico Odorico Kós matou
quatro camaleões, o Aristides dois jacarés, e o Barjonas, filho do mesmo
Aristides e um menino inteligente, matou também um camaleão. Quanto a mim,
deixei de atirar, pois só queria dar o pano de amostra, que foi bem
dado. Dizendo-me
médico consegui conversar hoje com o nosso doutor. É um megalomaníaco.
Disse-me ser médico sem estudos acadêmicos, bastando a sua inteligência para o
bom resultado de suas curas. Estas, ele as efetua sem remédio de espécie
alguma, e sim com as suas mãos, tocando uma, duas e mais vezes no doente. Declarou que
todo seu interesse é chegar a Teresina, e tanto assim que, vindo de Pernambuco,
não saltou no Ceará, para mais depressa chegar à capital do Piauí. No rio
Grande do Norte, ele esteve com os doutores Segundo Wanderley e Calistrato, que
são testemunhas do bom resultado de sua terapêutica, que, segundo afirma, é a
última palavra na ciência. Mostra-se meu
amigo e quer que eu lhe deva grande prova de atenção: - disse ao 1º maquinista Guilherme
Berniz que pretendia demorar-se no Piauí, mas, por saber que também me destino àquele
Estado, retirar-se-á logo, a fim de não prejudicar a minha clínica. Nesta marcha
vai bem o doutor Homem Bom. Acabará sem dúvida, em algum hospício de Alienados,
dizendo-se seu diretor por nomeação do governo federal. É o caminho que muitos
de seus companheiros tem trilhado para alcançar as mais brilhantes posições,
como um de que me falaram que galgou a elevadíssima categoria de Jesus Cristo,
filho do Pai Eterno. Continua! (*) Araújo Costa, piauiense, advogado, jornalista,
ex-presidente da Câmara de Vereadores de São Luís, foi também um dos
participantes da Junta Governativa Provisória, que governou o Maranhão por
volta do ano 1922. |


