quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Viajando pelo rio Itapecuru em 1905 - Parte 2).

 

Vapor navegando as águas do rio Itapecuru (imagem do Google)

Nesta segunda parte continuaremos a navegar pelas águas do rio Itapecuru com o piauiense Dr. Araújo Costa, advogado e político radicado em São Luís do Maranhão, em uma viagem empreendida por ele entre São Luís e Caxias, lá pelo ano de 1905. Iniciaremos, agora, o primeiro capítulo do diário saído da sua própria pena, no qual aquele viajante notícia suas percepções e sentimentos a respeito da viagem que ele empreendeu por aquele icônico e deslumbrante rio.

IMPRESSÕES DE VIAGEM (Parte 2)

Carlos Augusto de Araújo Costa (*)

Dia 20 - Acordei as 5 horas da manhã. O vapor amanheceu cheio de ramos verdes, devido ao contato constante com os arbustos e arvoredos marginais. Dir-se-ia o convés um campo aberto em que travaram luta hercúlea dois nédios touros. À meia noite o barco não podia ser bem governado, metendo muitas vezes a proa pela ribanceira. Seu governo transformava-se em uma verdadeira ditadura, e não científica, sem ofensa à sua pilotagem.

                Meu ilustre companheiro, Coronel Aristides de Lobão, houve por bem mudar a sua rede do local em que a tinha colocado. E andou muito acertado, porque podia ser atirado ao rio, sendo ele infenso a esses banhos noturnos.

Tudo neste dia, correu às mil maravilhas, descontando apenas o que se deu com as vacas do Coronel Luiz Rego, que não nos forneceram bastante leite. Fiz-lhe, por isto, as minhas reclamações, dizendo que ou essas vacas davam leite ou, na minha qualidade de advogado, moveria contra uma ação de despejo, no intuito de removê-las do vapor para uma das barcas.

No lugar Maracajá, onde o vapor recebeu lenha, fui à terra, passando justamente com o Aristides, alguns instantes com um camponês jovial, que nos deu ovos e café. Bom homem! Soube que ele é irmão do professor de Coroatá, e, como tal, é afeiçoado à situação dominante do Estado. Além da afeição particular, mais esta ligação política.

Dia 21 – O “Carlos Coelho” encalhou às três horas da madrugada, já em Coroatá, se bem que fora do ancoradouro.  

Às 4 horas, passei do meu dormitório para o camarote do 2º maquinista, que o cedeu mui generosamente. Ali dormi até às 6 horas, aquecido pelo calor da máquina que lhe fica próxima.

Tomei muito leite, pois as vacas corrigiram o erro da véspera. E ai delas se assim não fosse!

Desembarquei-me às 8 horas a fim de percorrer a vila. A bem da verdade devo declarar que ela me causou má impressão, mesmo inferior ao que esperava.

O primeiro ponto de partida que tomo, para o ajuizar de um povoado, é a sua edificação. Se há prédios em construção ou pelo menos de há pouco construídos, entendo que o lugar é bafejado pelo sopro da fortuna ou tende a se desenvolver. Se o contrário disto se dá, é porque é decadente ou estacionário.

Ora, o Coroatá que é uma vila assaz grande, se me afigurou antes um vasto organismo desarticulado, começando a diluição de seus membros. Tudo ali é maldisposto, sem ordem, sem simetria. Não tem edificações novas, nem projetos de construção, mas, ao contrário, prédios em ruína e na sua totalidade mal-acabados. As casas são de palha em sua maior parte, no perímetro como no centro da vila, e, não raro, separadas umas das outras por meio de cercas de estacas que traem o mal gosto de seus habitantes. E tão feias que parecem desafiar a falta de educação artística dos mais rudes habitantes da selva. Disseram-me, entretanto, que o lugar é de muita vida e bastante movimento comercial.

Contesto-o em absoluto, pois, não pode haver causa eficiente de progresso, sem que este se manifeste como fenômeno imediato. E se o município é demasiado fértil, como dizem os munícipes, e eu creio, sua força natural criadora é qual tesouro que, muito escondido, nenhuma utilidade tem para o bem geral da agremiação.

Tirassem-lhe essas grossas artérias do progresso – o rio Itapecuru – e a vila desapareceria. Isso mesmo disse eu a alguns dos seus maiorais que, como era de se esperar, combateram a minha opinião. Não sou tão teimoso que a outrance queira fazê-la desaparecer. Estimo mesmo estar em erro e que a verdade esteja com eles.

Percorrendo a vila, fui ter primeiramente ao telegrafo, de onde segui até a casa do meu particular amigo Tenente Coronel Antonio Napoleão da Silva Sodré, um bom e honrado mestiço, de quem fui advogado em um processo crime.

Devo acrescentar que este Napoleão, não sei de por influência do nome, é bastante belicoso. Tanto assim, que diversas vezes tem sido processado, sendo uma vez recolhido à prisão.

Daí vem, talvez, a sua popularidade, pois o público em geral, máxime entre os povos da raça latina, inclina as suas simpatias em favor dos que adquirem a coroa do martírio, se este não indica perversão moral.

O Tenente Coronel recebeu-me com a fidalguia generosa de um grande coração agradecido, embora um tanto contrariado por não lhe terem comunicado a minha partida, missão que confiara a um amigo.

Almocei em sua companhia, tendo antes tomado um banho de água fria, que me agradou imenso.

Só depois do meio-dia voltei ao vapor, que então já estava desencalhado. Trouxe para bordo, alguma provisão de fumo e charutos. O fumo dado e bom, os charutos comprados e ruins. Se não fosse desatenção com o vendedor, que é pessoa qualificada, lhes devolveria de presente ao chegar amanhã ao Codó.

Ao jantar, o Paulo Amaral, juiz de direito do Mirador, e bom discípulo de Economia, deu-nos vinho de mesa. Por isso, resolvemos fazer-lhe uma manifestação de apreço, que só não se efetuou por força maior superveniente. Amanhã haveremos de realizá-la. Como orador aclamado, já tenho engatilhado o meu improviso.

Dia 22 - Acordei tarde. A bordo, ainda não tinha dormido tão bem.

      Em Setuba, o vapor tomou lenha, demorando quase uma hora. É o serviço mais aborrecido nestas viagens. Se fosse possível viajar aqui sem esse combustível, jurava de mim para mim mesmo que uma vez por outra estaria embarcado.

Visto nos aproximarmos de Caxias, pedi ao comandante Carlos Gonçalves que me cedesse o seu camarote, para aí copiar as minhas notas, e remetê-las ao Antonio Lobo, na capital. O requerimento foi deferido e, por isto, porei mais tarde mãos à obra, pouco importando que o orador popular dê às minhas impressões boa ou má cotação. Se as reputar mal, usarei do direito de legítima defesa: darei a Carteira de um neurastênico ao meu boçal vaqueiro do Piauí.

É preciso que essa gente se convença de que um advogado merece todo o respeito e acatamento. Não se deve menoscabar da prosa, mesmo desalinhavada, de um discípulo de Papiniano.

Passamos em Monte Alegre, outrora Urubu, nome que lhe fica mais adequado. Saltei. Em pouco minutos percorri a maior parte do lugarejo, e voltei correndo para bordo, devido ao apito do vapor, quando mais precisava estar em terra. É preciso acabar-se com o apito dos vapores.

Almoçamos logo depois e a fartar. Até então não tinha comido tão bem e com tão devorador apetite.

Por ocasião do almoço devíamos efetuar a homenagem ao Paulo, devendo eu deitar falação quando a refeição terminasse. A orquestra viria em seguida.

Para isso, pedi vinho, mas o juiz do Mirador declarou que não servia de pato, que não pagaria o vinho, e retirou-se da mesa. Pregou-me talvez, uma lição de mestre, obrigando a sair da minha pobre bolsa o vinho que pedi. Sinto da minha parte. Em condições tais, não vale a pena tributar homenagem.

Ficamos encalhados no Gentio, perto do Codó. O vapor martelava sobre as margens do estreito Itapecuru em pancadas ciclópicas. Era luta do homem contra a natureza, esta coartando-lhe os movimentos, aquele batendo-se pela liberdade da locomoção. Por fim, o primeiro como soe acontecer ao espírito de liberdade que sempre quer voar, voar, saiu vitorioso do porfiado combate, fazendo a nave deslizar sobre as águas.

Mas, isto custou bastante. Os secos aqui são perigosos e vem uns sobre os outros.  Como quer que seja, à meia noite o vapor tomava o porto, embora desesperançado o comandante de apressar a saída, por quanto uma das barcas fora invadida pela água, havendo, por isto necessidade de protesto para ressalva de direitos.

(*) Araújo Costa, piauiense, advogado, jornalista, ex-presidente da Câmara de Vereadores de São Luís, foi também um dos participantes da Junta Governativa Provisória, que governou o Maranhão por volta do ano 1922.

 


sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Viajando pelo rio Itapecuru em 1905.

 

Vapor navegando pelo Itapecuru, no trecho São Luís - Caxias (foto Google)

 

A partir deste instante navegaremos pelas águas do rio Itapecuru com o piauiense Dr. Araújo Costa, advogado e político radicado em São Luís do Maranhão, em uma viagem empreendida por ele entre São Luís e Caxias, lá pelo ano de 1905. Iniciaremos, agora, o primeiro capítulo do diário saído da sua própria pena, no qual aquele viajante noticia suas percepções e sentimentos a respeito da viagem que ele empreendeu por aquele icônico e deslumbrante rio.

IMPRESSÕES DE VIAGEM (Parte 1)

Carlos Augusto de Araújo Costa (*)

17 de Julho – Embarquei-me às 8 horas da noite em São Luís do Maranhão, no vapor “Carlos Coelho”, e demanda de Caxias (MA), para dali seguir até ao Piauí, em visita a minha família. Foi festivo o meu embarque. Acompanharam-me até a rampa do Palácio muitos amigos, tendo todos nós partidos do Hotel Central, onde jantei. Diversos de entre eles tomaram comigo diversos escaleres, acompanhando-me até a bordo do vapor. Aqui fizeram discursos que muito me cativaram e voltaram saudando ainda ao amigo que partia.

                À meia noite, mais ou menos, o vapor levantou ferro, levando duas barcas a reboque. Não sei precisamente a hora, mas acordei logo depois. Prateava a superfície das águas uma brilhante lua cheia, à semelhança do luar de agosto no meu estado natal; e, no líquido elemento singrava o barco, deixando após bela esteira fosforescente.

Dia 18 – Acordei cedo, apesar de tarde ter começado a dormir. Com os companheiros, tomei café com leite às 7 horas, pois até leite, temos a bordo com abundância. O coronel Luís Rego, capitalistas de Oeiras, conduz seis vacas turinas para o Piaui. Às 9 hora da manhã chegamos à vila do Rosário. Desembarquei-me, indo primeiramente à casa do Fenelon, Juiz de Direito da Comarca e, em seguida, à casa do coronel Caetano Brandão de Souza.

                Rosário é uma excelente vila que já devia ter foros de cidade. Tem bastante desenvolvida a vida mercantil e é o centro de um município que produz e exporta muitos cereais, artefatos diversos, e onde se come muito bom peixe. Por um triz os seus preciosos mandubés ainda não figuram nas crônicas dos nossos historiadores que, com isto, não lhes faria favor.

Decorrida uma hora, apitou o vapor, indo os amigos a quem visitei, e também o venerando capitão Oliveira Brito, que encontrei flanando, em minha companhia, até a rampa, onde os abracei e me despedi. Nesta ocasião, embarcou-se também um padre destinado à vigaria do Itapecuru. Disseram os companheiros ser um mau prenúncio; mas o clérigo me pareceu ser um homem bom.

                O vapor levantou ancora depois da 11 horas. Fez-se de vela, e de então em diante, comecei a apreciar em todo o seu esplendor a natureza agreste dos terrenos marginais do rio Itapecuru. As margens não são muito habitadas. De longe em longe veem-se grosseiras choças, tão rústicas que até desaparecem entre o espesso matagal que as cerca. Dir-se-ia que os seus habitantes preferem morar com animais selvagens que evitar-lhes a companhia. São a negação absoluta do trabalho. Como explicar isto? É simples. O homem deste Eldorado, não precisa pensar no dia de amanhã. Tem peixe sob as plantas – do rio – e frutas em cima das cabeças, bastando mover os braços para apanhá-las.

Fossem eles menos favorecidos pelos dons naturais, sofressem pelos aguilhões da necessidade, e não se mostraria tão indolente. Sua indolência, de resto, é mais aparente que real, e isto porque julga inoportuno exercer atividade, tendo, como tem, o indispensável para o seu sustento e o de sua modesta família.

                O contrário se observa nos lugares onde a natureza é menos pródiga. O cearense, por exemplo, é sempre um homem trabalhador, porque sabe que, não trabalhando hoje, não terá amanhã o pão alimentício. E é justamente por isso que o Norte do Brasil, cuja fertilidade é espantosa e que oferece mais chances para o combate da vida, é muito menos próspero que o sul. A grande riqueza natural não é condição para prosperidade de um país.

                Tendo eu dormido mal a noite passada, deitei-me de dia e dormi bastante, não em minha rede, porque esta ficou armada na popa do navio, onde passo bem as noites, porém, mal os dias. O 1º maquinista, Guilherme Berniz, que é muito gentil, agasalhou-me bem em um local da proa, onde, dormindo, desafiava qualquer reboliço. Pode-se dizer, sem ofensa a mim ou a quem quer que seja, que neste dia levei uma vida de frade em gordo retiro espiritual. Comi, bebi, dormi como um franciscano, e tive mais um passatempo: atirei aos pássaros.

                À meia noite, fui despertado por um estranho movimento. O vapor encalhava nas proximidades da cidade do Itapecuru, e os paroquianos desta cidade soltavam foguetes em alegria pela chegada do seu novo pároco. Levaram o padre em uma canoa, e o vapor logo depois se pôs em marcha, livre de qualquer tropeço.

Dia 19 - Logo que chegamos ao Itapecuru, em tão avançada hora, fui à terra com um dos companheiros. Percorri diversos trechos do povoado, e achei-o muito superior à minha expectativa. Tem ruas dispostas em simetria, formando quarteirões mais ou menos regulares. 

                O companheiro procurava cerveja preta, que, para disfarçar a vontade de beber, dizia ser um ótimo remédio para o fígado. Bateu debalde na casa do Gaspar, que, dizem todos no Itapecuru, com certo orgulho, ser o grande comerciante da localidade, talvez, por instinto de imitação, por causa do Gaspar da praça João Lisboa. O bom do Gaspar nem cerveja tinha.

                 Fizemo-nos de vela duas horas depois, deixando o Itapecuru mergulhado nos braços de Morfeu, e pela manhã cedo demos em um “seco”, safou-se o vapor a pulso e com o auxílio de grossos cabos, que por mais de uma vez conseguiu quebrar. Ficou vingado o padre, que então já não nos honrava com a sua companhia.

                E logo depois, outro “seco”, e outro mais; porém, esses ligeiros embaraços da viagem, a mim não incomodavam: eram antes uma diversão para o meu coração, eu gemia saudades lancinantes. O que me aborrecia solenemente, eram raios de um sol abrasador, que, projetando-se sobre a embarcação, faziam um calor de rachar. As noites, porém, são aqui acompanhadas de intenso frio. Ninguém pode avaliar de longe essa variedade de temperatura na travessia do rio Itapecuru nesta quadra de estio calamitoso.

                O que vale ao pobre viandante, é que, nas horas de calor, tem água fria para o banho. E nas de frio uma máquina que fabrica muito calor. E por falar nisso, que delícia o calor artificial para um organismo regelado. Bem entendido, usando-se a precaução devida. A ninguém quero aconselhar que se atire no fogo.

Um dos companheiros tirou “vistas”, com uma máquina fotográfica prometendo remetê-las à “Revista do Norte”.  Se o não fizer, não será isto por falta de lembrança, pois, mais de uma vez lhe pedi que as remetesse.

Uma vez por outra parávamos em dado local para receber lenha. Umas considerações aqui merecem ser desenvolvidas. Enquanto os lugares, onde não tocam as embarcações a vapor, permanecem em sua quase totalidade, em selvática bruteza, os que lhes recebem as visitas, apresentam sempre o cunho da civilização.

Desembarquei-me hoje em um destes – o lugar denominado Cantanhede, que já vai sendo um arremedo da obra do progresso. Nesse lugares que tomam nova feição, não devido ao espírito mais ou menos cultivado ou traquejado dos seus habitantes, como os há no interior, mas devido a sua situação, já se conhecem os movimentos mais importantes mais importantes da cidade, falam-se em política e discutem as condições de bem-estar das populações. 

Em Cantanhede vi duas casas de telha e diversas de palha, sendo uma daquelas um estabelecimento comercial. Vi também um estabelecimento destinado a descaroçar algodão e pilar arroz, ao redor do qual muitas plantações. E aí se diz com certo desvanecimento: já importamos diretamente da capital. O que tem uma dupla significação: que se pede negócio à principal praça do Estado, sendo eles transportados nas próprias embarcações, que são, em regra, pequenas embarcações ou canoas. 

Em todo o caso, tudo isso é devido principalmente à navegação à vapor, que em seu bojo tem transportado aos habitante do lugar o bafejo benéfico do progresso, cuja lei fatal é transformar tudo o que está debaixo da sua esfera de ação.

Continua!

(*) Araújo Costa, piauiense, advogado, jornalista, ex-presidente da Câmara de Vereadores de São Luís, foi também um dos participantes da Junta Governativa Provisória, que governou o Maranhão por volta do ano 1922.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Viajando no Passado pelo rio Itapecuru

 

Cais da Sagração, de onde partiu o vapor "Carlos Coelho" - São Luís





José Pedro Araújo (*)

Sempre tive curiosidade de saber como se davam os deslocamentos realizados no passado pelas águas dos rios Mearim e Itapecuru nas viagens de barco. Qual o seu grau de dificuldade, o seu desconforto e, principalmente, o tempo empregado em trechos, como o de São Luís a Barra do Corda, por exemplo, pelas águas do rio Mearim. Quantos dias se levava para ir de São Luís a Caxias, quando ainda não haviam as rodovias, navegando-se pelas águas do estreito Itapecuru? Pois, outro dia matei a minha curiosidade ao ler uma espécie de diário de bordo escrito pelo piauiense Dr. Araújo Costa, advogado e político radicado em São Luís do Maranhão por volta do ano de 1905.

Vapor típico que navegava pelos rios maranhenses
Para quem costuma reclamar do tempo empregado para ir-se de Teresina a São Luís, seria muito interessante ler o relato do insigne cidadão publicado na Revista do Norte em 1905, e disponível no site da Biblioteca Bendito Leite. Garanto que se surpreenderia com a dificuldade de SE cobrir esse trecho que hoje gastamos pouco mais de oito horas, mesmo com toda a dificuldade de trânsito que possamos encontrar hoje.

O Dr. Araújo Costa embarcou no Vapor “Carlos Coelho”, ao cair da noite, no Cais da Sagração, antigo porto situado nas proximidades do Palácio dos Leões.  Acompanharam o seu embarque um numeroso grupo de amigos e familiares, como era praxe naquela época. Pela descrição, dava para ver que não havia conforto nenhum naquele tipo de embarcação. Além disso, o calor e as muriçocas importunavam os viajantes durante o dia e a noite. Dormiam-se em redes, alimentavam-se a bordo da embarcação, e, vez por outra, passavam-se por contratempos enormes, como quando o vapor encalhava em algum banco de areia e permanecia parado por longas horas naquela situação.

Porto de Codó em 1903
Outra dificuldade encontrada a bordo era na hora de se fazer as necessidades fisiológicas. Ele não fala nem de longe nisto, mas foi a primeira pergunta que me veio à mente. Em uma outra viagem, descrita por um outro aventureiro, quando se deslocava pelo mesmo rio em um barco idêntico ao que viajava o dr. Costa Araújo, o viajante contou as proezas realizadas a bordo da embarcação para se conseguir fazer algo assim tão corriqueiro. Dizia ele que se fazia uma verdadeira ginástica para se realizar essa necessidade tão comum, e tão desconfortável, quando não se tem um banheiro por perto. O viajante aqui citado, por exemplo, relatou que as mulheres usavam uma espécie de empanada com um tecido grosso para protegerem-se dos olhares dos outros embarcadiços, enquanto se aproximavam da amurada da embarcação e faziam a operação ali mesmo. Nesse instante, jogavam as fezes diretamente nas águas do rio. Era assim ou não era. Não havia banheiro a bordo.

Como já afirmei, o autor da descrição da viagem a bordo do vapor “Carlos Coelho”, não desceu a esse tipo de detalhamento, mas relatou que quando chegava em uma cidade ribeirinha, como Rosário, Cantanhede, Coroatá e Codó, por exemplo, aproveitava a parada do barco e visitava a casa de alguns amigos. Disse ainda, que ali aproveitava para tomar banho e trocar de roupas. Que aproveitavam também para comprar mantimentos e, principalmente bebidas. Nesse momento a embarcação se mantinha parada no cais para receber mercadorias e novos passageiros. Os passageiros, então, como forma de matar o tempo, empreendiam passeios de reconhecimento pela cidade. Até que o vapor apitava, chamando a todos para voltarem à bordo.

Em outros locais, quando das paradas do vapor para apanhar lenha em pontos previamente acertados, os passageiros aproveitavam para ir em busca de alguma moita para se aliviarem, e até mesmo tomar banho, ou simplesmente desciam para movimentar as pernas.

 Enfim, não era propriamente uma viagem cercada de confortos, mas afiançou o nosso viajante que o tempo a bordo era aproveitado para conversas com alguns amigos que também viajavam na mesma embarcação, e nessas ocasiões tomavam vinhos e outros tipos de bebida qualquer. Havia até mesmo um passageiro, o empresário oeirense Coronel Luís Rego, que transportava seis vacas leiteiras de raça na embarcação. E essas vacas forneciam diariamente leite à gosto para os passageiros . No café da manhã podiam contar, portanto, com leite fresco retirado das tetas das vacas momentos antes.

Finalizo o presente texto dizendo que o Dr. Costa Araújo iniciou a sua viagem, como já afirmei algumas linhas acima, dia 17 de julho, e somente chegou a Caxias, onde pretendia tomar o trem para Timon, à margem do rio Parnaíba, no dia 25 de julho, às 21:00 horas. Convenhamos que uma viagem dessas era coisa para se pensar bem antes de realizar. Arremato, a presente arenga, dizendo que havia um continuo trabalho de limpeza do rio, em especial para remover os troncos das árvores que caiam e entupiam o seu leito, dificultando a passagem dos vapores. E que as viagens somente eram realizadas no período da estação invernosa, quando as águas do rio se elevavam e permitia o trânsito de embarcações. De janeiro a julho, portanto. No restante do ano era impossível transitar pelo rio, a não ser em canoas ou afins. Por fim, informo que, durante alguns dias, farei da publicação deste relatório de viagem sem qual qualquer alteração, respeitando o texto publicado pelo seu autor na "A Revista do Norte", para deleite daqueles que gostam de saborear uma boa aventura.

(*) Crônica original publicada em12.10.2019

(*) 
José Pedro de Araújo Filho é presidutrense, engenheiro agrônomo, autor do livro Viajando do Curador a Presidente Dutra – história, personalidades e fatos, e coordenador do blog Folhas Avulsas.             

      
  

sábado, 22 de agosto de 2026

Nem tudo está perdido

 

Desenho gerado através de IA 


Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

Domingo, 16 de agosto. Final de tarde. Após dia quente, normal na Ilha do Amor, recebi mensagem de Rodrigo, meu filho, dizendo que estava a caminho, para nos encontrarmos na praça. Na praça da Lagoa da Jansen, que fica em frente ao meu condomínio.

Desço e encontro: Ana Paula, Rodrigo e Heitor, neto querido de um ano e meio, que está começando a andar e precisa de espaço. A praça é território da alegria. Quando arrefece o calor, é na praça que país levam filhos e tutores seus pets. Algazarra garantida. Crianças e adolescentes com suas bicicletas, patinetes motorizados, patins, skates. Cuidado redobrado com Heitor, que corre ziguezagueado, sem medo do seu entorno. Em uma cidade carente de praças e áreas verdes, tenho o privilégio de morar em frente a um espaço razoavelmente bem cuidado pelo poder público. Não conheço nenhuma praça em São Luís que seja lavada regularmente pela prefeitura como a da Lagoa da Jansen. Além de policiada.

Acomodado no banco, eis que de repente um garoto, de no máximo 12 anos, passa em alta velocidade em sua bicicleta. Um aparelho celular cai. Ana Paula apanha o aparelho e chama o menino, para informá-lo que deixara o celular para trás. O garoto acelerou; perdemo-lo de vista.

Logo em seguida, outro garoto, agora mais devagar, se aproxima. Pergunto se ele conhecia o garoto que havia deixado o celular que caiu. “Sim”, respondeu ele. Ana Paula entrega-lhe o aparelho.

Não demorou muito, o primeiro garoto retornou com o celular em mãos. “Vocês passaram no teste”, diz ele. “Que teste?”, pergunto.

“Nós estamos fazendo um experimento, deixamos o celular cair de propósito para saber se vão nos devolver”, diz ele, e completa: “O celular é só a carcaça, não funciona”. E sai em nova disparada.

Fiquei surpreso e intrigado. Não sei o nome do garoto. Não sei se o teste é para um estudo sobre honestidade ou para fazer uma estatística sobre quem devolve ou não o aparelho de celular. Quem sabe um trabalho para a escola.

Testes de honestidade em praças públicas são experimentos sociais comuns na internet e nas TVs. Neles, criadores de conteúdo deixam objetos de valor (como celulares, carteiras ou notebooks) sozinhos em bancos de praças e calçadões para gravar a reação dos pedestres com câmeras escondidas. A maioria das pessoas costuma ignorar o objeto ou devolvê-lo.

Geralmente alguém finge deixar cair dinheiro ou uma carteira no chão da praça.

Um item caro, como um notebook ou celular, fica sobre um banco sem vigilância aparente. Uma equipe grava de longe para ver se quem passa devolve o item ou tenta furtar. Em muitos vídeos, pessoas devolvem o item perdido ou avisam o dono, surpreendendo quem duvidava da bondade alheia.

A honestidade mora nas pequenas coisas do dia a dia, como devolver um troco errado na padaria ou falar a verdade quando ninguém está olhando. Ela parece fora de moda, mas é o fio invisível que segura a vida em paz. Ser honesto dá leveza à vida. São exemplos de civilidade, tão fora de moda atualmente.

Recentemente ao abri a porta do apartamento, e deparei-me com Josi, empregada dos vizinhos. Ela contava para a zeladora do prédio, Nilde, a angústia que passou até devolver uma quantia que depositaram indevidamente em sua conta, através de um pix. “Enquanto não devolvi o dinheiro, não sosseguei”, disse Josi aliviada. “O dinheiro não era meu”.

São exemplos como o de Josi que provam que nem tudo está perdido. Certamente esse dinheiro seria útil a Josi, mas ela preferiu devolver.

Fico feliz que o mundo em que Heitor está conhecendo tenha gente honesta e ética.

(*)

Luiz Thadeu Nunes e Silva é escritor e Globetrotter, visitou 162 países em todos os continentes. Autor do livro “Das muletas fiz asas”.

Instagram: @luiz.thadeu

Facebook: Luiz Thadeu Silva

sábado, 8 de agosto de 2026

"Ah! O tempo!

 

Imagem do Google

(*) Luiz Thadeu Nunes e Silva

 

O tempo é precioso e gratuito.  Você não pode possuí-lo, mas pode usá-lo. 

Você pode gastá-lo. Mas você não pode mantê-lo, mesmo não sabendo quanto tempo você tem.

Uma vez que você o perdeu, nunca poderá recuperá-lo. 

Saber gerenciar a passagem do tempo é ter sabedoria para saber que tudo tem seu tempo.

Em tempos que estamos vivendo mais, a coisa mais moderna que existe hoje é saber envelhecer. E não estamos falando apenas da passagem do tempo.

Estou falando da capacidade de continuar aprendendo. De ter fome e sede pelo novo. Da desconstrução do que não serve mais para a construção do que precisamos para se adaptar ao novo. 

De rever certezas. De descobrir novos interesses.

De aceitar que ainda existem ideias capazes de ampliar o nosso olhar.

Durante muito tempo, associamos o novo apenas à tecnologia.

Talvez o verdadeiro avanço seja outro. Continuar disponível para o conhecimento. Aguçar o olhar para algo que embase um novo propósito, uma nova caminhada. 

Porque envelhecer não significa viver preso ao que já sabemos.

Significa permitir que a experiência caminhe ao lado da curiosidade. Da necessidade de aprender. 

“Não há tempo consumido

nem tempo a economizar.

O tempo é todo vestido

de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,

transcendem qualquer medida.

Além do amor, não há nada,

amar é o sumo da vida”, cito o mineiro Carlos Drummond de Andrade. 

No outono da vida, descobri que o futuro não pertence apenas aos mais jovens.

Pertence também àqueles que nunca deixaram de aprender. Que nunca deixam de sonhar. 

O tempo acrescenta anos, e também: experiências, vivências, conhecimentos, lembranças e memórias. 

O conhecimento continua atualizando a maneira de compreender a vida.

“Mas é preciso escolher. Porque o tempo foge. Não há tempo para tudo. Não poderei escutar todas as músicas que desejo, não poderei ler todos os livros que desejo, não poderei abraçar todas as pessoas que desejo. É necessário aprender a arte de “abrir mão” – a fim de nos dedicarmos àquilo que é essencial”, escreveu o paulista Rubem Alves. 

Falando sobre o tempo, escrevi na semana passada: “A vida é mistério. Nunca saberemos de onde viemos, por que viemos. Quando vamos, para onde vamos”. 

Viver, nada mais é do que administrar perdas. Perdemos colágeno, cabelo, viço e, também, pessoas. Perdemos tempo com coisas inócuas. Olho para trás e vejo quanto tempo perdi fazendo papel de besta. Se reciclasse todo esse papel, arrecadaria alguns tostões. 

“Você acorda todo dia com um roteiro que não escreveu. Segue regras que não escolheu. E chama isso de vida”, escreveu o franco-argelino Albert Camus. Presente de um amigo, estou lendo “O Estrangeiro”, de Camus, publicado em Paris em 1942 pela editora Gallimard.

Toda vida também é escrita em capítulos. Alguns trazem alegria, outros deixam marcas; mas cada página acrescenta algo à pessoa que estamos nos tornando”. 

O tempo não mora nos ponteiros do relógio; ele habita o vão entre o que a gente planeja e o que a vida entrega. É um sopro leve que desorganiza gavetas, pinta fios de prata nos cabelos e transforma em saudade aquilo que ontem era apenas um dia comum. 

Passamos os dias correndo atrás do vento, tentando encaixar a vida em planilhas, alarmes e agendas. O relógio dita a hora de acordar. O calendário marca os anos que voam. A pressa rouba o gosto do café.

Mas o tempo ri dessa nossa mania de querer controlá-lo. Ele é teimoso e não obedece a botões de avanço rápido. 

Caro leitor, amiga leitora, lembre-se de que o tempo é nosso maior ativo. Gaste-o da melhor maneira possível, pois ele é finito. 

Feliz Dia dos Pais! 

(*) 

Luiz Thadeu Nunes e Silva é escritor e Globetrotter, visitou 162 países em todos os continentes. É autor do livro “Das muletas fiz asas”.

Instagram: @luiz.thadeu

Facebook: Luiz Thadeu Silva 


sexta-feira, 24 de julho de 2026

Somos viajantes da mesma travessia

Viajante (Imagem AI)

Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

Em andanças pelo mundo chama minha atenção a quantidade de pessoas com quem cruzo em aeroportos. Em cidades que já visitei nos 162 países visitados.

Vejo sempre tanta gente a caminhar. Nas mais diferentes direções. Rostos que nunca vi e que, talvez, nunca mais volte a ver. Em lugares que provavelmente nunca mais pisarei. Em visita aos cinco continentes, em todos cruzei pessoas das mais diferentes matizes. Exemplares únicos de um universo em permanente mutação.

Cada transeunte leva um destino no olhar, uma saudade escondida no peito, um sonho ainda à espera de acontecer. Quantos universos em movimento. Quantas alegrias ambulantes, quantos medos dentro de si. Quantos infernos a administrar.

Fico a imaginar: há quem caminhe como se fugisse do tempo. Há quem abrande, como se procurasse alguma coisa que perdeu pelo caminho. Há sorrisos que parecem inteiros e olhos onde mora uma tristeza que ninguém adivinha.

Por onde passo, sentado em cafeterias, viro observador. Enquanto as palavras vão nascendo no papel e o café esfria lentamente na xícara, dou por mim a pensar que cada pessoa é um livro desconhecido. Fechado para mim. Passamos uns pelos outros sem conhecer os capítulos de coragem, de amor, de perda e de esperança que cada coração escreveu em silêncio.

Talvez seja isso que me leve a escrever. Na ilusão de descrever imagens. De entender olhares. Em decifrar andares. De perscrutar pensamentos. 

Porque escrever é parar no meio da pressa do mundo, olhar para quem passa com ternura e lembrar-me de que, por trás de cada rosto, existe uma história que merecia ser escutada. Quantas boas histórias têm a contar aquelas pessoas. Quantos universos tangenciaram-me sem saber quem eram. Cada olhar é um caldeirão de vidas. E, eu a observá-los sem ser notado. Invisível.

Hoje, sentado, no cair de mais uma tarde, lembro da jovem mãe, sentada com duas filhas pequenas, com olhar perdido, que vi no aeroporto em Liubliana, Eslovênia, em uma conexão para Moscou. Ou do senhor taciturno, com terno surrado e chapéu de feltro, no café em Varsóvia, Polônia. Ou da garotinha cega em um parque em Helsinque, Finlândia, em um final de tarde frio. Do homem solitário com seu cachorro em um bosque em Anchorage, Alasca.

Rebobino a memória e vejo a senhora de São Paulo, que conheci no café da manhã em um hotel no centro de Buenos Aires. Muito viajada, estava em processo adiantado de demência. Solteira, sem filhos, duas sobrinhas lhe proporcionavam uma derradeira viagem, como despedida de um mundo que ficaria cada vez mais apagado. Tenho na mente seu semblante sereno, perdido.

Uma viagem é algo que nunca termina. Cá estou sentado, na tranquilidade de casa, observando a passagem do tempo, viajando em memórias. E, por um instante, sinto que todos nós, desconhecidos à primeira vista, somos apenas viajantes da mesma travessia, à procura de um lugar onde o coração possa, finalmente, descansar.

No meio de tanta pressa, eu aprendi que nem tudo que é urgente é importante.

O mundo grita; a paz sussurra. E eu escolho prestar atenção no que sussurra.

Não é sobre ter tudo, é sobre estar inteiro. Não é sobre ir longe, é sobre saber onde pousar. Porque no fim do dia, o que realmente cura não é o aplauso, é o silêncio.

Não é a conquista, é o descanso. E quando o coração encontra esse lugar simples e verdadeiro, ele entende que já tem o suficiente.

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Luiz Thadeu Nunes e Silva, jornalista, escritor e Globetrotter é autor do livro “Das muletas fiz asas”.

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