sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Viajando pelo rio Itapecuru em 1905 - Parte 4).

 

Vapor típico navegando na mesma época sobre as águas do rio Itapecuru

IMPRESSÕES DE VIAGEM (Parte 4)

Carlos Augusto de Araújo Costa (*)

 

A quarta parte deste diário se inicia quando o vapor se aproxima da cidade de Caxias, ponto final da viagem iniciada em São Luís do Maranhão. Em seguida, o viajante discorre sobre a recepção da sua população, e depois discorre sobre o que achou da cidade, fazendo observações sobre seus locais mais atraentes. Voltamos a relembrar, que são relatos emitidos no ano de 1905 a respeito de uma cidade que já se tornara, naquela época, o centro mais importante e desenvolvido de todo o interior maranhense.

Dia 25 – Oitavo dia de viagem! Correram-me agradavelmente as primeiras horas do dia, não me causando nenhum mal o banho frio que tomei pela manhã. Alguns achavam que este banho seria uma temeridade, podendo prejudicar-me a saúde. Dei-lhes, porém ouvido de mercador. Não sou muito amigo da medicina, ponho sempre à margem os seus preceitos, e devido a isto tenho vivido muito bem, sem gastar dinheiro com médico e botica.

                Sendo o último dia de viagem no “Carlos Coelho”, chamei a contas o empregado de bordo que talvez deva ser chamado de caixeiro de bordo do Carlos Gonçalves. Soube então que o Paulo Amaral, negou-se peremptoriamente a pagar o vinho que em seu nome pedi para fazer-lhe a manifestação de apreço. Tive que pagá-lo, mas declaro desde já que fica sem efeito quaisquer referências lisonjeiras que por ventura lhe tenha feito. E vou escrever ao Antonio Lobo para que as retire das minhas primeiras notas que lhe enviei.

                Adquiri importantes conhecimentos sobre a individualidade do falecido Monsenhor João Tolentino Guedelha Mourão, notável sacerdote e político que faleceu há pouco na Bahia, deixando uma vaga na representação maranhense. Como já disse, vinha no vapor a família, também homem público e muito estimado entre nós. D. Eufrasina, sua sogra, era a irmã mais velha do falecido sacerdote e, por isso, bem no caso de saber onde ele nasceu.

Um primo do padre, cearense, e creio que residente em Fortaleza, combatendo a opinião da imprensa carioca, que o dava natural do Maranhão, afirmou ter ele nascido no sítio Buracos, no município do Ipu. Ficou esta sendo a opinião corrente. O Ceará ficou com a glória de servir-lhe de berço. Engano manifesto!

Disse-me a sogra do Aristides que, entre os irmãos, apenas ela nascera no sítio da fazenda Buraco, no município do Ipu, e que Monsenhor Mourão nascera na fazenda Gruta, município de Principe Imperial, da então Província do Piauí, onde lhe nasceram outros irmãos. Os três mais moços, nasceram em Passagem Franca, neste Estado.

Explicou-me mais a veneranda senhora a razão por que o seu irmão dizia ter aqui nascido. Precisando ele fazer prova de idade, que não tinha, aconselho-lhe um advogado que a fizesse por meio de justificação de que se encarregou; declarando as testemunhas que ele nascera em Passagem Franca.

Com efeito, ele me pereceu um tanto contrafeito uma vez que lhe perguntei qual o seu estado natal. Não se sentia bem negando-o, mas se sentia pior contestando um documento que, por necessidade de homem público, teve que exibir. De resto, não era desairoso dizer-se ele maranhense, que o era de coração, pois veio muito criança para este Estado e a ele tudo devia. Mas, isto não é motivo para que deixemos de restaurar a verdade – missão que não compete somente ao historiador, mas a todos que escrevem.

O meio-dia correu-me desagradavelmente, devido ao asfixiante calor que fazia. Associei-me aos atiradores para espairecer e dei bons e certeiros tiros. Só ao escurecer desprezamos as armas, com pesar de não mais manejá-las. Éramos uns verdadeiros japoneses, e tínhamos como russos os jacarés e camaleões que, se não caiam na arena do combate, é porque fugiam à nossa presença.

Substituímos então a caçada pelas histórias do Othon Franco de Sá, inteligente e espirituoso companheiro que, como o Saló da máquina fotográfica e o bom e o bom e ingênuo Othon Braga, vai ao interior do Estado inspecionar coletorias.

Depois das 8 horas da noite o vapor começou a dar apitos, anunciando a sua chegada ao nosso muito desejado porto de Caxias. Todos nos sentimos de alma nova.

Passadas as 9 horas, chegamos finalmente. Antes do vapor aportar, notamos esquisito movimento. Foguetes estrugiam no ar, e duas afinadas bandas de música tocavam excelentes peças. Indagando, soube que alguns bons caxienses moviam aquele alegrão em sinal de apreço à minha humilde pessoa.

Mas, perguntava de mim para mim mesmo, o que fiz a esta boa gente para merecer tão festiva recepção. Imaginei que, embora a medida de minhas pequenas forças, e como o permite a minha posição, já tenha dispendido alguns esforços pelo bem comum; e só isto repercutindo naqueles corações generosos, podia justificar tamanho aparato. Festejava-se, de fato, a minha chegada à rainha destes sertões.

Abraçados os amigos, segui com eles para uma das casas do Coronel Leôncio Machado pois, devo dizer que entre o coração bondoso do velho Leôncio, a alma espartana do Leôncio Filho, me sinto feliz e satisfeito. Com eles, a quem me prendem velhas relações de família, me hospedei. Ai fui tratado gentilmente, sendo, ao chegar, alvo de penhorante manifestação. Houve muitos discursos, que agradeci.

Dia 26 - Foi-me oferecido um excelente almoço em casa da família do Coronel Leôncio Machado. Ergueram-se muitos brindes, correndo tudo com a maior animação. À tarde, com o ilustrado clínico. Bento Urbano, fui percorrer a cidade.

Caxias pode-se dizer, desde muitos anos, a rainha do sertão maranhense; e orgulhosa do seu trono, ela manterá ainda por muito tempo a realeza, que é uma conquista de sua excelente posição geográfica, e do espírito culto, altivo e nobre de seus habitantes, que tem alguma coisa dos velhos hábitos cavalheirescos. Situada à margem do Itapecuru, a mais importante artéria fluvial do Estado, pouco distante do caudaloso rio Parnaíba, que   separa o Piauí do Maranhão, onde mais irradia a vida maranhense entrelaçada com o espírito piauiense.

Demais duas circunstâncias cooperam no seu progresso: é o ponto terminal da navegação à vapor no Itapecuru e um ponto de trânsito dos piauienses que por mar se destinam a outros pontos da república, porquanto ao porto marítimo da Amarração, preferem-se o embarque no porto de S. Luís.

Devido a isto, é ela um importante centro comercial. Os produtos do interior, em busca dos melhores mercados consumidores, e não somente estes, mas também muitos produtos da indústria piauiense. Ela tem também brilhante tradição histórica. O morro do Alecrim que fica a leste da cidade, foi o ponto estratégico onde se acastelou o português Fidié, que, atacado no Piauí em 1822, para se dirigiu no intuito de se reforçar, e poder investir contra hostes libertadoras, ao tempo da nossa independência.

Estas hostes, vindas do Piauí, com um contingente que lhes mandaram do Ceará, com o entusiasmo do santo amor às liberdades pátrias, ali deram ao fiel soldado de D. João VI, que batido de todos os lados, teve afinal que depor as armas. Foi então menos feliz que em Campo Maior, onde, tripudiando sobre o espírito liberal dos nossos antepassados, deixou o campo juncado de cadáveres.

Apreciei muito o Morro do Alecrim, em cuja conquista, naquela época heroica, figuraram alguns membros da minha família. Dele se descortina a cidade em magnífico panorama, salvo uma parte dos seus arrabaldes pitorescos. Aos primeiros albores da manhã, Caxias apresenta o belo espetáculo de uma oficina de trabalho, cujos operários se movimentam ao grito da voz do progresso saindo pelos volumosos canos das máquinas, que os convidam ao labor diurno. Em quatro fábricas de tecidos, e outras diferentes empresas concretiza esta atividade industrial de que há pouquíssimos exemplos entre as nossas cidades distantes do litoral. Teresina, cidade nova e florescente que lhe suga grande parte das forças, e outras cidades do centro, mesmo capitais, não lhe levam a palma no tocante às indústrias.

Aqui fazem-se tecidos de diferentes qualidades, jornais que levam às portas as novidades do mundo culto, faz-se bom sabão, o excelente açúcar do Engenho d’Água, e produtos e artefatos outros, que por si sós recomendam bem a inteligência dos caxienses. A cidade tem importantes estabelecimentos comerciais, ruas calçadas, boas pontes e outros serviços que indicam a iniciativa dos habitantes e o zelo dos poderes públicos, a despeito da opinião popular, atualmente, contra a edilidade, no que diz respeito à limpeza das ruas e praças.

Dir-se-á que quem vem de um importante foco de civilização, ávido para saborear os esplendores da natureza, não poderá saciar aqui seus desejos. Perfeito engano!

Em um dos arrabaldes de Caxias, na Ponte, a natureza americana, sorridente dos seus dons inefáveis, ostenta-se em toda a sua beleza virginal. Semeado esse trecho da cidade de pequenas casas, umas aliás graciosas, mas que lhe não tiram sua naturais atrativos, uma alma de filósofo aí se sente inebriada ante os belos descampados, as árvores verdejantes e o doce sussurrar das águas cristalinas.

O riacho ponte, cuja linfa é a melhor que tenho bebido no Estado, qual grande cobra serpenteando, ora deslizando suavemente, ora dando saltos sobre a rocha e formando cascatas, é o ponto pitoresco onde vai refestelar-se a cidade civilizada, cansada dos artifícios do progresso, para se abeberar da poesia campesina.

Continua!

(*) Araújo Costa, piauiense, advogado, jornalista, ex-presidente da Câmara de Vereadores de São Luís, foi também um dos participantes da Junta Governativa Provisória, que governou o Maranhão por volta do ano 1922.


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Viajando pelo rio Itapecuru em 1905 - Parte 3).

 

Um típico vapor dos que navegavam pelo Itapecuru (Google)


IMPRESSÕES DE VIAGEM (Parte 3)

Carlos Augusto de Araújo Costa (*)

Nesta terceira parte do diário continuaremos a navegar pelas águas do rio Itapecuru com o piauiense Dr. Araújo Costa, advogado e político radicado em São Luís do Maranhão, em uma viagem empreendida por ele entre São Luís e Caxias, lá pelo ano de 1905. Já estamos iniciando o sétimo dia da viagem com o vapor aportando no cais do Itapecuru na cidade de Codó. Naquele porto embarcaria um passageiro que iria chamar a atenção de todos, como veremos a seguir.

Dia 23 – Dormia a bom dormir, quando se deu no vapor uma verdadeira invasão de bárbaros, que é incontestavelmente uma barbaridade, privarem-nos de um sono reparador. Acordei com a vozeria dos alegres visitantes, e, como adormeci logo após, perdoou-lhes de coração o mal que me fizeram.

                Foram logo à terra e para terra levaram duas famílias: a do Aristides que continua a viagem, e uma outra domiciliada no Codó.

As nove horas fui também visitar a cidade, que me impressionou agradavelmente.  Ela não é pequena e se estende de um a outro lado do rio, sendo, porém, mais apreciável à esquerda. É nesta margem que se concentra quase toda a vida local e onde reside a elite da população. Tem prédios bem construídos, alguns à moderna; habitações muito espaçosas e confortáveis; o que denota o bom gosto dos habitantes.

A municipalidade parece cogitar do bem público. Logo ao chegar observei uma singela rampa, e mais tarde, um grande prédio pertencente à Câmara Municipal, e onde esta funciona, assim como um começo de arborização na Praça do Cruzeiro. O cais, que é também modesto, foi feito, segundo me disseram, a expensas da União.

A iniciativa particular é bem sensível. Existe na cidade uma fábrica de tecidos, cuja manufatura, sendo exibida, foi premiada na exposição de São Luís, sendo bastante conhecidos os produtos da sua lavoura, que produz muito bom fumo e exporta bastante algodão.

Tem também a sua imprensa reunida no pequeno jornal “Comarca”, o que indica que o movimento intelectual encontra certa animação.

Infelizmente notei muitas cercas de vara no centro da cidade. Mas, consta-me ser assim que fabricam as quintas, em todo o interior do Estado, não sendo possível ou pelo menos fácil, substituir a matéria prima da sua confecção.

Não tive tempo, e muito a meu pesar, de visitar o terceiro bairro, onde está a fábrica de tecidos.

Embora incompletas as minhas observações, creio, entretanto, poder afirmar que o Codó é uma das maiores localidades do Maranhão.

Mesmo pela tradição familiar, pouco ou nada tem a invejar aos demais centros populosos. Aí tomaram vulto importantes família do Maranhão, tais como as famílias Viana, Bayma, Moreira e Palhano, que são bastante ramificadas, e tem produzido figuras salientes.

Almocei em terra, em casa do Dico Bayma, onde encontrei o meu velho amigo Comendador Bento Raposo, tendo antes visitado ao Maneco, chefe, no lugar, da política situacionista. Boa gente, muito agrado e tratamento cordial.

Teve razão o Paulo, quando, depois de ter comido muito, saudou aos que nos deram almoço.

Voltei ao barco ao meio-dia, mais ou menos, saindo o vapor poucas horas depois.

Tomei um banho, e em seguida, senti-me com defluxo. Mal agouro! Quero crer, porém, que este importuno companheiro não me perseguirá por muito tempo.

A viagem de ótima, que ia sendo, vai se tornando má. Não andamos três léguas sequer depois da saída do Codó, tal é o estado do rio.

Deito-me sem consultar o médico de bordo sobre o meu estado de saúde, pois até em medicina o Codó nos fez uma revelação, que não devo esquecer.

A bordo do “Carlos Coelho” vem um passageiro de proa, cuja especialidade até agora desconhecíamos e que ao saltar na cidade reunia logo um grande número de admiradores, dizendo curar qualquer moléstia ao simples contato da mão na parte afetada.

Chama-se Homem Bom Alves do Nascimento o nosso esculápio, que diz ser paraibano, e é um tipo bem parecido.

Porque há tolos em toda parte, o doutor fez a sua figura; e tanto se elevou no conceito da plebe que era cercado de máxima consideração e teve um embarque pomposo, como qualquer grande personalidade.

Dia 24 – Sete dias de viagem! E eu não supunha ser preciso tanto!

                Acordando cedo, tomei logo um banho frio. Em seguida, fiquei com aspecto macilento, ar macambuzio, sentindo certa indisposição, acreditei estar com febre.  Felizmente, melhorei; e suponho voltar aos primeiros bons dias da viagem, quando comia bem, dormia melhor e sentia o organismo adquirir mais força e vigor.

Devido ao abatimento físico resultante do resfriamento de que fui vítima, tenho hoje poucas impressões a registrar. Mens sana in corpore sano. Quando o corpo se sente mal, o espírito não é o mesmo: acompanha o seu mal-estar.

E digam lá os espiritualistas que o espírito é tudo e a matéria é nada! Tenham eles uma formidável indigestão, à semelhança de uma que teve gente boa, quando andou por este Estado o Nuncio Apostólico, Don Júlio Tonti, e me digam depois se reproduzem com a mesma facilidade um pensamento de João Lisboa ou decoram um soneto de Olavo Bilac. Duvido!

O vapor tem andado a passos de caranguejo. Ora adiante, ora atrás. Já uma das vezes em que ele recuava tive vontade de perguntar ao Carlos Gonçalves se nos pretendia levar à capital.

Os companheiros matavam o tempo a dar tiros. O farmacêutico Odorico Kós matou quatro camaleões, o Aristides dois jacarés, e o Barjonas, filho do mesmo Aristides e um menino inteligente, matou também um camaleão. Quanto a mim, deixei de atirar, pois só queria dar o pano de amostra, que foi bem dado.

Dizendo-me médico consegui conversar hoje com o nosso doutor. É um megalomaníaco. Disse-me ser médico sem estudos acadêmicos, bastando a sua inteligência para o bom resultado de suas curas. Estas, ele as efetua sem remédio de espécie alguma, e sim com as suas mãos, tocando uma, duas e mais vezes no doente.

Declarou que todo seu interesse é chegar a Teresina, e tanto assim que, vindo de Pernambuco, não saltou no Ceará, para mais depressa chegar à capital do Piauí. No rio Grande do Norte, ele esteve com os doutores Segundo Wanderley e Calistrato, que são testemunhas do bom resultado de sua terapêutica, que, segundo afirma, é a última palavra na ciência.

Mostra-se meu amigo e quer que eu lhe deva grande prova de atenção: - disse ao 1º maquinista Guilherme Berniz que pretendia demorar-se no Piauí, mas, por saber que também me destino àquele Estado, retirar-se-á logo, a fim de não prejudicar a minha clínica.

Nesta marcha vai bem o doutor Homem Bom. Acabará sem dúvida, em algum hospício de Alienados, dizendo-se seu diretor por nomeação do governo federal. É o caminho que muitos de seus companheiros tem trilhado para alcançar as mais brilhantes posições, como um de que me falaram que galgou a elevadíssima categoria de Jesus Cristo, filho do Pai Eterno.

Continua!

(*) Araújo Costa, piauiense, advogado, jornalista, ex-presidente da Câmara de Vereadores de São Luís, foi também um dos participantes da Junta Governativa Provisória, que governou o Maranhão por volta do ano 1922.

     


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Viajando pelo rio Itapecuru em 1905 - Parte 2).

 

Vapor navegando nas águas do rio Itapecuru (imagem do Google)

Nesta segunda parte continuaremos a navegar pelas águas do rio Itapecuru com o piauiense Dr. Araújo Costa, advogado e político radicado em São Luís do Maranhão, em uma viagem empreendida por ele entre São Luís e Caxias, lá pelo ano de 1905. Iniciaremos, agora, o primeiro capítulo do diário saído da sua própria pena, no qual aquele viajante notícia suas percepções e sentimentos a respeito da viagem que ele empreendeu por aquele icônico e deslumbrante rio.

IMPRESSÕES DE VIAGEM (Parte 2)

Carlos Augusto de Araújo Costa (*)

Dia 20 - Acordei as 5 horas da manhã. O vapor amanheceu cheio de ramos verdes, devido ao contato constante com os arbustos e arvoredos marginais. Dir-se-ia o convés um campo aberto em que travaram luta hercúlea dois nédios touros. À meia noite o barco não podia ser bem governado, metendo muitas vezes a proa pela ribanceira. Seu governo transformava-se em uma verdadeira ditadura, e não científica, sem ofensa à sua pilotagem.

                Meu ilustre companheiro, Coronel Aristides de Lobão, houve por bem mudar a sua rede do local em que a tinha colocado. E andou muito acertado, porque podia ser atirado ao rio, sendo ele infenso a esses banhos noturnos.

Tudo neste dia, correu às mil maravilhas, descontando apenas o que se deu com as vacas do Coronel Luiz Rego, que não nos forneceram bastante leite. Fiz-lhe, por isto, as minhas reclamações, dizendo que ou essas vacas davam leite ou, na minha qualidade de advogado, moveria contra uma ação de despejo, no intuito de removê-las do vapor para uma das barcas.

No lugar Maracajá, onde o vapor recebeu lenha, fui à terra, passando justamente com o Aristides, alguns instantes com um camponês jovial, que nos deu ovos e café. Bom homem! Soube que ele é irmão do professor de Coroatá, e, como tal, é afeiçoado à situação dominante do Estado. Além da afeição particular, mais esta ligação política.

Dia 21 – O “Carlos Coelho” encalhou às três horas da madrugada, já em Coroatá, se bem que fora do ancoradouro.  

Às 4 horas, passei do meu dormitório para o camarote do 2º maquinista, que o cedeu mui generosamente. Ali dormi até às 6 horas, aquecido pelo calor da máquina que lhe fica próxima.

Tomei muito leite, pois as vacas corrigiram o erro da véspera. E ai delas se assim não fosse!

Desembarquei-me às 8 horas a fim de percorrer a vila. A bem da verdade devo declarar que ela me causou má impressão, mesmo inferior ao que esperava.

O primeiro ponto de partida que tomo, para o ajuizar de um povoado, é a sua edificação. Se há prédios em construção ou pelo menos de há pouco construídos, entendo que o lugar é bafejado pelo sopro da fortuna ou tende a se desenvolver. Se o contrário disto se dá, é porque é decadente ou estacionário.

Ora, o Coroatá que é uma vila assaz grande, se me afigurou antes um vasto organismo desarticulado, começando a diluição de seus membros. Tudo ali é maldisposto, sem ordem, sem simetria. Não tem edificações novas, nem projetos de construção, mas, ao contrário, prédios em ruína e na sua totalidade mal-acabados. As casas são de palha em sua maior parte, no perímetro como no centro da vila, e, não raro, separadas umas das outras por meio de cercas de estacas que traem o mal gosto de seus habitantes. E tão feias que parecem desafiar a falta de educação artística dos mais rudes habitantes da selva. Disseram-me, entretanto, que o lugar é de muita vida e bastante movimento comercial.

Contesto-o em absoluto, pois, não pode haver causa eficiente de progresso, sem que este se manifeste como fenômeno imediato. E se o município é demasiado fértil, como dizem os munícipes, e eu creio, sua força natural criadora é qual tesouro que, muito escondido, nenhuma utilidade tem para o bem geral da agremiação.

Tirassem-lhe essas grossas artérias do progresso – o rio Itapecuru – e a vila desapareceria. Isso mesmo disse eu a alguns dos seus maiorais que, como era de se esperar, combateram a minha opinião. Não sou tão teimoso que a outrance queira fazê-la desaparecer. Estimo mesmo estar em erro e que a verdade esteja com eles.

Percorrendo a vila, fui ter primeiramente ao telegrafo, de onde segui até a casa do meu particular amigo Tenente Coronel Antonio Napoleão da Silva Sodré, um bom e honrado mestiço, de quem fui advogado em um processo crime.

Devo acrescentar que este Napoleão, não sei de por influência do nome, é bastante belicoso. Tanto assim, que diversas vezes tem sido processado, sendo uma vez recolhido à prisão.

Daí vem, talvez, a sua popularidade, pois o público em geral, máxime entre os povos da raça latina, inclina as suas simpatias em favor dos que adquirem a coroa do martírio, se este não indica perversão moral.

O Tenente Coronel recebeu-me com a fidalguia generosa de um grande coração agradecido, embora um tanto contrariado por não lhe terem comunicado a minha partida, missão que confiara a um amigo.

Almocei em sua companhia, tendo antes tomado um banho de água fria, que me agradou imenso.

Só depois do meio-dia voltei ao vapor, que então já estava desencalhado. Trouxe para bordo, alguma provisão de fumo e charutos. O fumo dado e bom, os charutos comprados e ruins. Se não fosse desatenção com o vendedor, que é pessoa qualificada, lhes devolveria de presente ao chegar amanhã ao Codó.

Ao jantar, o Paulo Amaral, juiz de direito do Mirador, e bom discípulo de Economia, deu-nos vinho de mesa. Por isso, resolvemos fazer-lhe uma manifestação de apreço, que só não se efetuou por força maior superveniente. Amanhã haveremos de realizá-la. Como orador aclamado, já tenho engatilhado o meu improviso.

Dia 22 - Acordei tarde. A bordo, ainda não tinha dormido tão bem.

      Em Setuba, o vapor tomou lenha, demorando quase uma hora. É o serviço mais aborrecido nestas viagens. Se fosse possível viajar aqui sem esse combustível, jurava de mim para mim mesmo que uma vez por outra estaria embarcado.

Visto nos aproximarmos de Caxias, pedi ao comandante Carlos Gonçalves que me cedesse o seu camarote, para aí copiar as minhas notas, e remetê-las ao Antonio Lobo, na capital. O requerimento foi deferido e, por isto, porei mais tarde mãos à obra, pouco importando que o orador popular dê às minhas impressões boa ou má cotação. Se as reputar mal, usarei do direito de legítima defesa: darei a Carteira de um neurastênico ao meu boçal vaqueiro do Piauí.

É preciso que essa gente se convença de que um advogado merece todo o respeito e acatamento. Não se deve menoscabar da prosa, mesmo desalinhavada, de um discípulo de Papiniano.

Passamos em Monte Alegre, outrora Urubu, nome que lhe fica mais adequado. Saltei. Em pouco minutos percorri a maior parte do lugarejo, e voltei correndo para bordo, devido ao apito do vapor, quando mais precisava estar em terra. É preciso acabar-se com o apito dos vapores.

Almoçamos logo depois e a fartar. Até então não tinha comido tão bem e com tão devorador apetite.

Por ocasião do almoço devíamos efetuar a homenagem ao Paulo, devendo eu deitar falação quando a refeição terminasse. A orquestra viria em seguida.

Para isso, pedi vinho, mas o juiz do Mirador declarou que não servia de pato, que não pagaria o vinho, e retirou-se da mesa. Pregou-me talvez, uma lição de mestre, obrigando a sair da minha pobre bolsa o vinho que pedi. Sinto da minha parte. Em condições tais, não vale a pena tributar homenagem.

Ficamos encalhados no Gentio, perto do Codó. O vapor martelava sobre as margens do estreito Itapecuru em pancadas ciclópicas. Era luta do homem contra a natureza, esta coartando-lhe os movimentos, aquele batendo-se pela liberdade da locomoção. Por fim, o primeiro como soe acontecer ao espírito de liberdade que sempre quer voar, voar, saiu vitorioso do porfiado combate, fazendo a nave deslizar sobre as águas.

Mas, isto custou bastante. Os secos aqui são perigosos e vem uns sobre os outros.  Como quer que seja, à meia noite o vapor tomava o porto, embora desesperançado o comandante de apressar a saída, por quanto uma das barcas fora invadida pela água, havendo, por isto necessidade de protesto para ressalva de direitos.

(*) Araújo Costa, piauiense, advogado, jornalista, ex-presidente da Câmara de Vereadores de São Luís, foi também um dos participantes da Junta Governativa Provisória, que governou o Maranhão por volta do ano 1922.

 


sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Viajando pelo rio Itapecuru em 1905.

 

Vapor navegando pelo Itapecuru, no trecho São Luís - Caxias (foto Google)

 

A partir deste instante navegaremos pelas águas do rio Itapecuru com o piauiense Dr. Araújo Costa, advogado e político radicado em São Luís do Maranhão, em uma viagem empreendida por ele entre São Luís e Caxias, lá pelo ano de 1905. Iniciaremos, agora, o primeiro capítulo do diário saído da sua própria pena, no qual aquele viajante noticia suas percepções e sentimentos a respeito da viagem que ele empreendeu por aquele icônico e deslumbrante rio.

IMPRESSÕES DE VIAGEM (Parte 1)

Carlos Augusto de Araújo Costa (*)

17 de Julho – Embarquei-me às 8 horas da noite em São Luís do Maranhão, no vapor “Carlos Coelho”, e demanda de Caxias (MA), para dali seguir até ao Piauí, em visita a minha família. Foi festivo o meu embarque. Acompanharam-me até a rampa do Palácio muitos amigos, tendo todos nós partidos do Hotel Central, onde jantei. Diversos de entre eles tomaram comigo diversos escaleres, acompanhando-me até a bordo do vapor. Aqui fizeram discursos que muito me cativaram e voltaram saudando ainda ao amigo que partia.

                À meia noite, mais ou menos, o vapor levantou ferro, levando duas barcas a reboque. Não sei precisamente a hora, mas acordei logo depois. Prateava a superfície das águas uma brilhante lua cheia, à semelhança do luar de agosto no meu estado natal; e, no líquido elemento singrava o barco, deixando após bela esteira fosforescente.

Dia 18 – Acordei cedo, apesar de tarde ter começado a dormir. Com os companheiros, tomei café com leite às 7 horas, pois até leite, temos a bordo com abundância. O coronel Luís Rego, capitalistas de Oeiras, conduz seis vacas turinas para o Piaui. Às 9 hora da manhã chegamos à vila do Rosário. Desembarquei-me, indo primeiramente à casa do Fenelon, Juiz de Direito da Comarca e, em seguida, à casa do coronel Caetano Brandão de Souza.

                Rosário é uma excelente vila que já devia ter foros de cidade. Tem bastante desenvolvida a vida mercantil e é o centro de um município que produz e exporta muitos cereais, artefatos diversos, e onde se come muito bom peixe. Por um triz os seus preciosos mandubés ainda não figuram nas crônicas dos nossos historiadores que, com isto, não lhes faria favor.

Decorrida uma hora, apitou o vapor, indo os amigos a quem visitei, e também o venerando capitão Oliveira Brito, que encontrei flanando, em minha companhia, até a rampa, onde os abracei e me despedi. Nesta ocasião, embarcou-se também um padre destinado à vigaria do Itapecuru. Disseram os companheiros ser um mau prenúncio; mas o clérigo me pareceu ser um homem bom.

                O vapor levantou ancora depois da 11 horas. Fez-se de vela, e de então em diante, comecei a apreciar em todo o seu esplendor a natureza agreste dos terrenos marginais do rio Itapecuru. As margens não são muito habitadas. De longe em longe veem-se grosseiras choças, tão rústicas que até desaparecem entre o espesso matagal que as cerca. Dir-se-ia que os seus habitantes preferem morar com animais selvagens que evitar-lhes a companhia. São a negação absoluta do trabalho. Como explicar isto? É simples. O homem deste Eldorado, não precisa pensar no dia de amanhã. Tem peixe sob as plantas – do rio – e frutas em cima das cabeças, bastando mover os braços para apanhá-las.

Fossem eles menos favorecidos pelos dons naturais, sofressem pelos aguilhões da necessidade, e não se mostraria tão indolente. Sua indolência, de resto, é mais aparente que real, e isto porque julga inoportuno exercer atividade, tendo, como tem, o indispensável para o seu sustento e o de sua modesta família.

                O contrário se observa nos lugares onde a natureza é menos pródiga. O cearense, por exemplo, é sempre um homem trabalhador, porque sabe que, não trabalhando hoje, não terá amanhã o pão alimentício. E é justamente por isso que o Norte do Brasil, cuja fertilidade é espantosa e que oferece mais chances para o combate da vida, é muito menos próspero que o sul. A grande riqueza natural não é condição para prosperidade de um país.

                Tendo eu dormido mal a noite passada, deitei-me de dia e dormi bastante, não em minha rede, porque esta ficou armada na popa do navio, onde passo bem as noites, porém, mal os dias. O 1º maquinista, Guilherme Berniz, que é muito gentil, agasalhou-me bem em um local da proa, onde, dormindo, desafiava qualquer reboliço. Pode-se dizer, sem ofensa a mim ou a quem quer que seja, que neste dia levei uma vida de frade em gordo retiro espiritual. Comi, bebi, dormi como um franciscano, e tive mais um passatempo: atirei aos pássaros.

                À meia noite, fui despertado por um estranho movimento. O vapor encalhava nas proximidades da cidade do Itapecuru, e os paroquianos desta cidade soltavam foguetes em alegria pela chegada do seu novo pároco. Levaram o padre em uma canoa, e o vapor logo depois se pôs em marcha, livre de qualquer tropeço.

Dia 19 - Logo que chegamos ao Itapecuru, em tão avançada hora, fui à terra com um dos companheiros. Percorri diversos trechos do povoado, e achei-o muito superior à minha expectativa. Tem ruas dispostas em simetria, formando quarteirões mais ou menos regulares. 

                O companheiro procurava cerveja preta, que, para disfarçar a vontade de beber, dizia ser um ótimo remédio para o fígado. Bateu debalde na casa do Gaspar, que, dizem todos no Itapecuru, com certo orgulho, ser o grande comerciante da localidade, talvez, por instinto de imitação, por causa do Gaspar da praça João Lisboa. O bom do Gaspar nem cerveja tinha.

                 Fizemo-nos de vela duas horas depois, deixando o Itapecuru mergulhado nos braços de Morfeu, e pela manhã cedo demos em um “seco”, safou-se o vapor a pulso e com o auxílio de grossos cabos, que por mais de uma vez conseguiu quebrar. Ficou vingado o padre, que então já não nos honrava com a sua companhia.

                E logo depois, outro “seco”, e outro mais; porém, esses ligeiros embaraços da viagem, a mim não incomodavam: eram antes uma diversão para o meu coração, eu gemia saudades lancinantes. O que me aborrecia solenemente, eram raios de um sol abrasador, que, projetando-se sobre a embarcação, faziam um calor de rachar. As noites, porém, são aqui acompanhadas de intenso frio. Ninguém pode avaliar de longe essa variedade de temperatura na travessia do rio Itapecuru nesta quadra de estio calamitoso.

                O que vale ao pobre viandante, é que, nas horas de calor, tem água fria para o banho. E nas de frio uma máquina que fabrica muito calor. E por falar nisso, que delícia o calor artificial para um organismo regelado. Bem entendido, usando-se a precaução devida. A ninguém quero aconselhar que se atire no fogo.

Um dos companheiros tirou “vistas”, com uma máquina fotográfica prometendo remetê-las à “Revista do Norte”.  Se o não fizer, não será isto por falta de lembrança, pois, mais de uma vez lhe pedi que as remetesse.

Uma vez por outra parávamos em dado local para receber lenha. Umas considerações aqui merecem ser desenvolvidas. Enquanto os lugares, onde não tocam as embarcações a vapor, permanecem em sua quase totalidade, em selvática bruteza, os que lhes recebem as visitas, apresentam sempre o cunho da civilização.

Desembarquei-me hoje em um destes – o lugar denominado Cantanhede, que já vai sendo um arremedo da obra do progresso. Nesse lugares que tomam nova feição, não devido ao espírito mais ou menos cultivado ou traquejado dos seus habitantes, como os há no interior, mas devido a sua situação, já se conhecem os movimentos mais importantes mais importantes da cidade, falam-se em política e discutem as condições de bem-estar das populações. 

Em Cantanhede vi duas casas de telha e diversas de palha, sendo uma daquelas um estabelecimento comercial. Vi também um estabelecimento destinado a descaroçar algodão e pilar arroz, ao redor do qual muitas plantações. E aí se diz com certo desvanecimento: já importamos diretamente da capital. O que tem uma dupla significação: que se pede negócio à principal praça do Estado, sendo eles transportados nas próprias embarcações, que são, em regra, pequenas embarcações ou canoas. 

Em todo o caso, tudo isso é devido principalmente à navegação à vapor, que em seu bojo tem transportado aos habitante do lugar o bafejo benéfico do progresso, cuja lei fatal é transformar tudo o que está debaixo da sua esfera de ação.

Continua!

(*) Araújo Costa, piauiense, advogado, jornalista, ex-presidente da Câmara de Vereadores de São Luís, foi também um dos participantes da Junta Governativa Provisória, que governou o Maranhão por volta do ano 1922.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Viajando no Passado pelo rio Itapecuru

 

Cais da Sagração, de onde partiu o vapor "Carlos Coelho" - São Luís





José Pedro Araújo (*)

Sempre tive curiosidade de saber como se davam os deslocamentos realizados no passado pelas águas dos rios Mearim e Itapecuru nas viagens de barco. Qual o seu grau de dificuldade, o seu desconforto e, principalmente, o tempo empregado em trechos, como o de São Luís a Barra do Corda, por exemplo, pelas águas do rio Mearim. Quantos dias se levava para ir de São Luís a Caxias, quando ainda não haviam as rodovias, navegando-se pelas águas do estreito Itapecuru? Pois, outro dia matei a minha curiosidade ao ler uma espécie de diário de bordo escrito pelo piauiense Dr. Araújo Costa, advogado e político radicado em São Luís do Maranhão por volta do ano de 1905.

Vapor típico que navegava pelos rios maranhenses
Para quem costuma reclamar do tempo empregado para ir-se de Teresina a São Luís, seria muito interessante ler o relato do insigne cidadão publicado na Revista do Norte em 1905, e disponível no site da Biblioteca Bendito Leite. Garanto que se surpreenderia com a dificuldade de SE cobrir esse trecho que hoje gastamos pouco mais de oito horas, mesmo com toda a dificuldade de trânsito que possamos encontrar hoje.

O Dr. Araújo Costa embarcou no Vapor “Carlos Coelho”, ao cair da noite, no Cais da Sagração, antigo porto situado nas proximidades do Palácio dos Leões.  Acompanharam o seu embarque um numeroso grupo de amigos e familiares, como era praxe naquela época. Pela descrição, dava para ver que não havia conforto nenhum naquele tipo de embarcação. Além disso, o calor e as muriçocas importunavam os viajantes durante o dia e a noite. Dormiam-se em redes, alimentavam-se a bordo da embarcação, e, vez por outra, passavam-se por contratempos enormes, como quando o vapor encalhava em algum banco de areia e permanecia parado por longas horas naquela situação.

Porto de Codó em 1903
Outra dificuldade encontrada a bordo era na hora de se fazer as necessidades fisiológicas. Ele não fala nem de longe nisto, mas foi a primeira pergunta que me veio à mente. Em uma outra viagem, descrita por um outro aventureiro, quando se deslocava pelo mesmo rio em um barco idêntico ao que viajava o dr. Costa Araújo, o viajante contou as proezas realizadas a bordo da embarcação para se conseguir fazer algo assim tão corriqueiro. Dizia ele que se fazia uma verdadeira ginástica para se realizar essa necessidade tão comum, e tão desconfortável, quando não se tem um banheiro por perto. O viajante aqui citado, por exemplo, relatou que as mulheres usavam uma espécie de empanada com um tecido grosso para protegerem-se dos olhares dos outros embarcadiços, enquanto se aproximavam da amurada da embarcação e faziam a operação ali mesmo. Nesse instante, jogavam as fezes diretamente nas águas do rio. Era assim ou não era. Não havia banheiro a bordo.

Como já afirmei, o autor da descrição da viagem a bordo do vapor “Carlos Coelho”, não desceu a esse tipo de detalhamento, mas relatou que quando chegava em uma cidade ribeirinha, como Rosário, Cantanhede, Coroatá e Codó, por exemplo, aproveitava a parada do barco e visitava a casa de alguns amigos. Disse ainda, que ali aproveitava para tomar banho e trocar de roupas. Que aproveitavam também para comprar mantimentos e, principalmente bebidas. Nesse momento a embarcação se mantinha parada no cais para receber mercadorias e novos passageiros. Os passageiros, então, como forma de matar o tempo, empreendiam passeios de reconhecimento pela cidade. Até que o vapor apitava, chamando a todos para voltarem à bordo.

Em outros locais, quando das paradas do vapor para apanhar lenha em pontos previamente acertados, os passageiros aproveitavam para ir em busca de alguma moita para se aliviarem, e até mesmo tomar banho, ou simplesmente desciam para movimentar as pernas.

 Enfim, não era propriamente uma viagem cercada de confortos, mas afiançou o nosso viajante que o tempo a bordo era aproveitado para conversas com alguns amigos que também viajavam na mesma embarcação, e nessas ocasiões tomavam vinhos e outros tipos de bebida qualquer. Havia até mesmo um passageiro, o empresário oeirense Coronel Luís Rego, que transportava seis vacas leiteiras de raça na embarcação. E essas vacas forneciam diariamente leite à gosto para os passageiros . No café da manhã podiam contar, portanto, com leite fresco retirado das tetas das vacas momentos antes.

Finalizo o presente texto dizendo que o Dr. Costa Araújo iniciou a sua viagem, como já afirmei algumas linhas acima, dia 17 de julho, e somente chegou a Caxias, onde pretendia tomar o trem para Timon, à margem do rio Parnaíba, no dia 25 de julho, às 21:00 horas. Convenhamos que uma viagem dessas era coisa para se pensar bem antes de realizar. Arremato, a presente arenga, dizendo que havia um continuo trabalho de limpeza do rio, em especial para remover os troncos das árvores que caiam e entupiam o seu leito, dificultando a passagem dos vapores. E que as viagens somente eram realizadas no período da estação invernosa, quando as águas do rio se elevavam e permitia o trânsito de embarcações. De janeiro a julho, portanto. No restante do ano era impossível transitar pelo rio, a não ser em canoas ou afins. Por fim, informo que, durante alguns dias, farei da publicação deste relatório de viagem sem qual qualquer alteração, respeitando o texto publicado pelo seu autor na "A Revista do Norte", para deleite daqueles que gostam de saborear uma boa aventura.

(*) Crônica original publicada em12.10.2019

(*) 
José Pedro de Araújo Filho é presidutrense, engenheiro agrônomo, autor do livro Viajando do Curador a Presidente Dutra – história, personalidades e fatos, e coordenador do blog Folhas Avulsas.