sábado, 14 de fevereiro de 2026

TIBÚRCIO - O Anjo Negro

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José Pedro Araújo (*)

- É isso mesmo que o senhor está ouvindo. Tô nessa vida por gosto e por desgosto. Por gosto porque gosto da minha profissão como gostaria de qualquer outra. Por desgosto, porque comecei ela para vingar a morte do meu pai. Hoje não sinto nem uma coisa, nem outra. Pra mim tanto faz matar um cachorro rabugento, como atirar num prefeito, por contrato. Aliás, quer saber? Talvez sinta mais pena do cachorro. Não sinto alegria, nem tristeza, somente um leve sentimento do dever cumprido.

- ...!

- Só fico aqui matutando como seria minha vida se meu pai não tivesse morrido daquela forma. Talvez ainda estivesse vivendo naquele pedaço de chão seco de caatinga, plantando, plantando, e pouco colhendo. No fundo, devo agradecer ao desinfeliz que acertou um tiro de lazarina nele. Usou um pé de panela em lugar de chumbo e quase arranca a cabeça lá dele. É isso, meu dotô. Fui forçado a procurar outra profissão. E me dei bem. O senhor não concorda? Hoje não importa pra mim se o inverno foi bom, se a mandioca pegou bem, ou se a seca devorou o meu roçado. Trabalho é o que não me falta. Faça bom inverno ou que não caia uma gota d’água no chão. 

- ...!

- É o que eu digo sempre: o sujeito pode ganhar dinheiro até mesmo na profissão de coveiro. É só inventar uma maneira de melhorar a vida dos que vão deixar lá seus defuntos. Hoje têm uns cemitérios tão arrumados que mais parece um jardim. E o pessoal ainda paga um bom dinheiro pra manter o lugar bem bonito. Todo mês. Especialista, dotô! Tem que ser especialista na profissão que você escolhe. Eu até posso dizer que sou um dotô também de tão especializado que sou. Nunca deixei um contratante meu em má situação. Pagamento feito, mercadoria entregue. Esse é um de meus lema. Por isso não me falta contrato.

- ...?

- Claro que pra chegar aonde cheguei, precisei abater muito pé-de-chinelo. Gentinha, tá compreendendo? Comecei assim, de baixo. Como todo mundo começa na vida, se não herdar. E no começo era dinheiro miúdo pelo contrato, couro de rato, merreca, que às vezes não dava pra chegar no fim do mês. Depois fui melhorando o meu prestígio, fazendo defunto de elite. Até mesmo uns políticos conhecidos passaram pela alça da mira do meu papo-amarelo. E quando você consegue cumprir bem um desses contratos, aí a fama aumenta muito. E fama aumentando, aumenta os ganhos da gente! Cheguei tão longe nesse meu negócio, que tive que abandonar o sertão do Seridó. Lá não tinha mais cliente pra mim. E eu não posso voltar atrás nos valores cobrados, senão todo mundo vai querer me pagar pouco, chorar miséria, essas coisas. Olha, apareceu até mulher querendo se livrar do marido e propondo me pagar com o apurado dela. Imagina! Não trabalho em consignação. Isso não! Não trabalho mais também só com meiúca. Metade no ato do contrato, metade depois do serviço terminado. Isso é pra principiante. Quero tudo na minha mão. Pois, como já sou muito famoso, não podem me ver na região onde o trabalho aconteceu. Tenho que desaparecer por uns tempos, aparecer rapidamente em outros lugares. Forjar o meu álibi. Não posso voltar pra cobrar a outra metade. Por isso todo mundo sabe que eu vivo disso, mas ninguém tem provas pra me botar na cadeia.

- ...?

Sou muito profissional. Nem pra irmão eu trabalho de graça. Aliás, o último que matei de graça foi por vingança. Foi o caso que já lhe contei; o caso do meu pai. Coisa de menino afobado. Hoje posso dizer que sou da paz. É! Um defensor da não violência. Prefiro os argumentos, seu dotô! Os argumentos, tá entendendo? Outro dia mesmo, caboclinho queria fazer fama comigo e andou me dando uns tabefes pra ver minha reação. Puxei o tresoitão somente pra botar ele pra correr dali. Mas, não acho certo matar por uma discussão à toa, um tabefezinho qualquer. Sou pela paz, como disse. Morte mesmo, só com contrato.

- ...?

- Não! Ninguém reluta mais. Quando vem alguém me procurar já tá ciente de só trabalho assim, dotô. Outra coisa que não admito é refazer o contrato. Contrato feito, temos que cumprir tudo direitinho. Você me paga, eu te dou um cadáver em troca. Simples assim. Ninguém pode voltar atrás.

- ...!

- Pense bem antes de fazer o contrato comigo. Dinheiro bateu no meu bolso é meu. Não devolvo. Por outro lado, sempre cumpri o acordo. Não pode dizer que se arrependeu, que não quer mais o defunto. Eu sempre faço o que o patrão me pagou pra fazer, dotô. Depois, já passei dias estudando o sujeito, zangando com ele, opilando o meu fígado. E depois de criar ódio pelo cabra, pode encomendar o paletó dele. Outro dia um político me contratou para mandar mais cedo um adversário dele pro andar de cima. Contrato firmado, dinheiro entregue, passei a fazer o meu ritual. Cuspi na foto do miserável, amassei, desamassei a bicha, passei noites sem dormir dado o ódio que comecei a sentir por ele. Aí veio o miserável do contratante e disse que não queria mais a morte do sujeito, que já tinham feito uma parceria muito vantajosa pra ele. Eu respondi que não tinha mais jeito. Podia ir se acostumando com a ideia que a coisa era questão de dias. Ora vê se pode! Não tem palavra não, cabra! Eu tenho. E por isso meu nome está limpo na praça. 

- ...?

- Prefiro no campo. Lá você fica tranquilo. Procuro uma boa posição atrás de um pau ou de uma pedra. É só fazer a coisa de modo a ninguém te ver. Na cidade isso é impossível. Sempre vai aparecer alguém pra te denunciar. Depois, fico ali esperando, tranquilo. Uma hora a caça passa na frente do meu trabuco. Também é mais fácil pra fugir do local. 

- ...?

- Não! Fico tranquilo, esperando. Aproveito pra cortar as unhas, pensar na vida. Planejar a fuga pra voltar logo pro meu canto aqui. Aqui é o meu escritório. Aqui recebo meus clientes. Tenho que voltar logo.

- ...?

- Tenho um lema sim! “Esse não morre mais!” Passou na frente do meu rifle, não vai ter outra chance pra morrer. Tô é fazendo favor pro cabra! Todo mundo vai morrer um dia mesmo! E a maioria das pessoas sofre que nem o diabo antes de partir dessa pra melhor. Uma vítima minha não sofre nadinha de nada. O pau quebrou, em segundos ele já está viajando pro além. Os outros, não! Sofrem dias, às vezes meses, gastando tudo o que tinha pra diminuir as dores. E depois morre do mesmo jeito! É por isso que me chamam de anjo negro. Me orgulho desse nome. Anjo, seu dotô. Me chamam de anjo. Então devem estar felizes com o meu trabalho. Se não, era fii da peste pra cá, incompetente pra lá! Essas coisas. Sou um anjo vingador, meu dotô! Já me disseram isso! Abro os caminhos pros meus clientes. Sou, com muita honra, Tibúrcio, o anjo negro. Aquele que foi enviado para te afastar das tristezas da vida. Morto não sente dor, não paga dívida. Pra que melhor, ingrato!

- ...?

- Não preciso me oferecer pra ninguém. Nem fazer propaganda preciso fazer. Cada contrato bem cumprido é que é a minha propaganda. E quem quiser me contratar, que venha até aqui! Olha lá aquele homem bem apessoado que acabou de dobrar na curva. Tá vindo atrás dos meus serviços. Pode ter certeza. Só dois tipos de gente passam por aqui: os clientes, ou algum incompetente que se perdeu no caminho. É! O pessoal que me contrata é gente de bem, bem-vestido, como aquele que vem lá. Pé rapado não tem dinheiro pra contratar um homem famoso como eu! Se aparecer outro tipo de gente por aqui, vai ter que se explicar direitinho pra mim.

- ...?

- Se tenho medo de ser alguém contratado pra me matar? Meu faro é meu guia, seu dotô! Por isso estou nessa lida há tanto tempo. Conheço um da minha classe de longe, e só pelo cheiro. Aquele lá é um molóide, monta mal, se segura na sela como se fosse cair a qualquer instante. Um da minha iguala tem que saber se comportar em cima de uma montaria. Se não, como vai conseguir escapar rapidamente?  Oi! de lá! Pode se chegar. Se sou Tibúrcio, o anjo negro? Pode apostar que sim! Por que o patrão aí quer saber?

- ...?

- Se tô disponível pra fazer um serviço? Uma coisa que nunca fiz foi tirar férias, meu dotô! No meu ramo temos que aproveitar o momento bom. E o preço é esse mesmo. Tá com o faz-me rir aí no alforje? Isso é bom! Deixe-me ver.

- ...!

- Mas o que é isso? Não! Não faça isso! ... Miserável! Como fui me deixar surpreender por um novato desengonçado desse? Só pode ser crime de vingança! Não precisava atirar na minha barriga, infeliz! Isso é morte dolorosa e demorada! Por isso deve ser crime de vingança! Crime por encomenda tem que ser rápido. É preciso levar notícia pro patrão que contratou o serviço. Mas que coisa! Morto por um amarelo desse! Meu primeiro e último erro. Peço perdão a todos os santos! Meu Padim Padre Cícero, me receba no seu reino no céu! Como dói essas pestes encravada aqui na minha barriga! Foi bala Dundum, senti a droga rasgando tudo. Dói e queima! Morrer de tiro de Rossi 22! A bala nem consegue me atravessar! Ô vida! Tá chorando por que, amarelo? Para de tremer, siô! É verdade, você acaba de matar o maior matador do agreste! Poder espalhar a história e se aproveitar da fama, chorão de uma figa!

- ...!?

- ...!

(*) 


José Pedro Araújo é engenheiro agrônomo, funcionário público federal aposentado, historiador, cronista, romancista, e coordenador do blog Folhas Avulsas.

 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A MORTE DAS ÁGUAS (ALGUNS COMENTÁRIOS)

 

Capa do Livro


                                                    Chico Acoram (*)

 

Em dezembro do ano passado, tive conhecimento, pelo Facebook, do novo livro de autoria do escritor José Pedro Araújo, publicado na Amazon, com o título A MORTE DAS ÁGUAS. Editada no formato e-book, a obra é um romance distribuído em emocionantes 14 capítulos e um epílogo, totalizando 374 páginas. De imediato, acessei o site amazon.com.br e, por apenas R$ 24,99, adquiri essa belíssima e importante obra da lavra do romancista, contista e cronista maranhense, nascido na cidade de Presidente Dutra (MA), mas residente em Teresina há vários anos, onde constituiu família, sendo casado com a piauiense Helena Araújo, pai de quatro filhos. É funcionário público federal aposentado (engenheiro agrônomo).

É autor do livro de história Viajando do Curador a Presidente Dutra e dos romances O Meu Inimigo Japonês, À Sombra da Casa Materna, O Herdeiro do Vento e Terra de Ninguém. Publicou ainda os contos O Relógio da Matriz e Negociando com a Morte. Atualmente, vem publicando em seu blog Folhas Avulsas belas crônicas de sua autoria e de outros cronistas do Piauí, do Maranhão e de outros estados. Aliás, José Pedro Araújo é o criador e coordenador desse conceituado blog.

A MORTE DAS ÁGUAS é um romance classificado como realismo brasileiro, notadamente inserido na literatura piauiense. O autor, influenciado por sua vivência como agrônomo e profundo conhecedor das disputadas terras da região sul do Piauí (MATOPIBA), narra, em terceira pessoa, com grande maestria — clareza, concisão, coesão e objetividade — as aventuras de um jovem piauiense bem-sucedido no Rio de Janeiro que, após vários anos, decide retornar à sua terra natal para cuidar da fazenda de seus falecidos avós maternos.

No desenrolar da história, o autor mostra, de forma fidedigna, os danos ambientais e os problemas sociais causados pela exploração gananciosa e equivocada das vastas áreas dos cerrados piauienses, sobretudo das terras localizadas nas nascentes do nosso maior caudal: o rio Parnaíba. Concomitantemente, desenvolve com bastante criatividade o enredo central do romance: a cobiça de um vilão que deseja tomar todas as terras herdadas pelo herói da narrativa, o Dr. Ricardo Melo.

Para tanto, o violento gerente da vizinha Fazenda Fênix — empresa multinacional do ramo da soja e de outros grãos —, acompanhado de seus capangas, invade a fazenda Monte Alegre, destruindo cercas, currais e casas de humildes moradores, atirando no gado e na casa-sede com armas de fogo de grosso calibre. Os ataques resultam na morte de animais e chegam, inclusive, a balear gravemente uma criança de seis anos, neto de Enoque, vaqueiro e capataz da fazenda. São cenas de horror que lembram antigos filmes de faroeste americano.

Filho único de uma professora primária, Ricardo Melo, personagem principal do romance, ainda criança morava com sua mãe em uma humilde casa situada na fictícia cidade de Chapada Grande, no extremo sul do estado do Piauí. Tornou-se órfão de pai aos três anos de idade. Nas férias e feriados prolongados, mãe e filho iam para a fazenda Monte Alegre, de propriedade dos avós maternos, localizada não muito distante da cidade. Nessa época, o avô dizia que, quando morresse, a fazenda seria administrada pelo neto.

Mãe e filho residiram nessa cidade até que o garoto concluiu o primeiro grau. Em seguida, mudaram-se para Teresina, visando ao prosseguimento dos estudos, matriculando-se Ricardo no Liceu Piauiense, onde concluiu o segundo grau. Depois, o jovem foi morar no Rio de Janeiro para realizar os estudos preparatórios para o vestibular. Conseguiu ingressar no curso de Ciências Econômicas de uma universidade federal e, após formado, especializou-se em comércio exterior.

Por mérito próprio, obteve colocação em uma empresa multinacional de aço laminado, chegando ao comando daquela indústria. Recebendo altos salários, o Dr. Ricardo conseguiu economizar bastante dinheiro, bem como multiplicá-lo por meio de investimentos realizados ao longo dos anos.

Sabia-se que o Dr. Ricardo, no Rio de Janeiro, era um atuante defensor da natureza e sempre se mostrava preocupado com as questões relativas ao meio ambiente, além de contribuir com recursos financeiros próprios para ONGs voltadas à defesa de um mundo melhor. Foi com esse perfil que retornou ao Piauí para cuidar das terras herdadas do avô. Sabia que havia tomado uma decisão difícil e que os desafios seriam enormes, mas desconhecia a dimensão dos perigos que enfrentaria no comando da fazenda Monte Alegre.

Entre outras personagens do romance, destacam-se o prefeito Uruçu e o delegado de polícia, senhor Visgueira, ambos corruptos e mancomunados com o terrível gerente da Fazenda Fênix, o holandês Mark Sorensen. Outra personagem curiosa é o traidor Albertino, filho do velho Enoque. Revoltado com seu patrão Ricardo, Albertino alia-se ao cangaceiro Honorato Gentil, responsável pelo trabalho sujo da Fênix.

Como aliados do Dr. Ricardo Melo, figuram: o velho Enoque, vaqueiro e capataz da fazenda Monte Alegre; o jovem e corajoso vereador Rodrigo Soares; o líder comunitário Zé Arcanjo; o professor e pesquisador Afonso, da Universidade Federal do Piauí; o amigo de infância Gut, mecânico e tratorista; o agrônomo Bruno Arns; dona Severina e Salomé, esposa e nora de Enoque — sendo Severina também responsável pelos cuidados da casa-sede; o jornalista Mário de Castro; e a jovem e bela jornalista Lara Drumond, namorada de Ricardo.

O protagonista do romance, Dr. Ricardo Melo, homem inteligente e perspicaz, passa a desconfiar da sanha e do recorrente desejo do estrangeiro Mark Sorensen em adquirir sua propriedade, sobretudo diante da existência de vastas extensões de terras disponíveis nas adjacências. “Por que justamente as minhas terras?”, questiona-se. Esse mistério o leitor só desvendará no final do livro. Trata-se de um romance fantástico e emocionante.

Um aspecto importante a ser observado na obra é o caráter metafórico do título A MORTE DAS ÁGUAS. Seu significado torna-se claro quando o autor, por meio das observações do Dr. Ricardo Melo, descreve com precisão a devastação das nascentes do rio Parnaíba, decorrente da exploração irracional e criminosa praticada por proprietários de terras da região.

Como agrônomo e ex-servidor do INCRA, José Pedro Araújo sugere, por intermédio das ideias revolucionárias do protagonista, ações voltadas à proteção desse importante manancial, o “Velho Monge”. Entre elas, destaca-se a criação de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural, além da explicitação das vantagens dessa iniciativa tanto para a natureza quanto para os moradores da região. O autor sugere, ainda, atividades como a exploração turística, que poderia constituir uma alternativa lucrativa, inclusive com a instalação de áreas para camping. Imagina também a criação do “Parque Natural das Araras”, que “poderia atrair gente de todas as partes do mundo para conhecer e apreciar o espetáculo produzido diariamente pelas araras-canindé e outros pássaros que voltariam a viver na região”.

Caro leitor, pelo que foi exposto acerca do protagonista de A MORTE DAS ÁGUAS, certamente se concluirá que o Dr. Ricardo é ousado e visionário; poder-se-ia até dizer: um Dom Quixote moderno. Como exemplo, Ricardo idealiza a implantação de um projeto particular de assentamento rural, cedendo parte de suas terras aos antigos moradores expulsos da localidade Lagoa de Dentro, vizinha à fazenda Monte Alegre. Para isso, precisaria convencer o senhor Zé Arcanjo, líder de uma comunidade formada por moradores de uma paupérrima rua de Chapada Grande, os mesmos que haviam sido expulsos pelos capangas da Fazenda Fênix. Entretanto, não anteciparei ao leitor se tal projeto foi ou não viabilizado.

Para concluir, entendo que A MORTE DAS ÁGUAS é um romance cujo objetivo principal é divulgar a real situação das nascentes do rio Parnaíba, no extremo sul do Piauí. Ou seja, mostrar a degradação das áreas de preservação onde se localizam as nascentes do maior e mais importante rio do estado. Em outras palavras, o autor busca alertar autoridades estaduais e federais, políticos, organizações de proteção ambiental e toda a sociedade piauiense para o fato de que a exploração irracional dos cerrados, especialmente das áreas de nascente do rio Parnaíba, implicará sérios danos ambientais, ameaçando, inclusive, a perenidade do rio Grande dos Tapuia.

Por outro lado, o autor — agrônomo e ex-servidor do INCRA — demonstra, por meio do protagonista Dr. Ricardo Melo, que é possível explorar racionalmente as terras dos cerrados piauienses e as áreas das nascentes do rio Parnaíba, mediante a implementação de ações públicas e privadas, tais como projetos de assentamento, regularização fundiária, políticas agrícolas, técnicas modernas de combate às pragas (sem uso de agrotóxicos) e outras práticas voltadas à preservação do meio ambiente.

Recomendo, portanto, a leitura deste excelente romance, A MORTE DAS ÁGUAS, de autoria do escritor José Pedro Araújo.

(*)

Chico Acoram, é funcionário público federal, contador, cronista e poeta cordelista.

 


sábado, 31 de janeiro de 2026

Luxo é ter tempo para realizar desejos

 

Imagem extraída do Google

Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

 

Encerramos janeiro, primeiro mês do ano. É fevereiro: mês da alegria, da esbórnia, da carne, das festas momescas. Foi ontem, em que a dúvida era saber qual a roupa vestir para a virada do ano; quase ninguém mais lembra que roupa usou no réveillon. Muitos fizeram planos de futuro, na esperança de um 2026 melhor. Deus criou o tempo, os homens inventaram o calendário, na vã esperança de cronometrar o tempo. Mudou o ano, mas tudo continua igual.

Somos escravos das horas; cada dia estamos cada vez mais açambarcados de afazeres, coisas que elegemos como prementes. As tecnologias nos tornam mais ansiosos. Nunca teremos tempo para tudo.

Esses dias vi uma frase fabulosa: “Sabe qual a diferença entre tempo e dinheiro?”. Sabemos quanto dinheiro temos. O tempo, não. O tempo ė o único ativo que gastamos sem termos ideia de quanto nos resta. E, por isso, ele escape tão facilmente entre compromissos, silêncios e desejos adiados. Erroneamente, achamos que temos tempo de sobra: de ligar, de voltar, de recomeçar……a verdade que nunca saberemos quanto tempo temos pela frente. A ninguém foi dado o conhecimento de quanto tempo nos resta, e isso torna a vida fascinante, bela e surpreendente. A passagem do tempo ė silenciosa, e não avisa ninguém quando acaba. Ele só vai diminuindo, de forma quase imperceptível, enquanto seguimos ocupados demais. O tempo não dá macha ré, só anda para frente.

E, um belo dia, talvez tarde demais, percebemos que o tempo era o bem mais precioso que tínhamos. Que cada momento vivido e vivenciado: um café na companhia de amigos, uma mesa de bar, a cama com a pessoa amada, cada abraço que deixamos, eram momentos únicos e inesquecíveis, que não voltam mais. O tempo é hoje, agora, onde se esteja, para viver intensamente. Por isso, se hoje você não tem tempo para realização de pequenos desejos, pare tudo e encontre-o. Aprenda a usar o tempo com sabedoria, de preferência com pessoas que somem, de boa energia, que lhe escute, goste de sua companhia e lhe respeite.

O tempo urge, segue seu curso, impávido, sem prestar contas a ninguém. Aprendi com a vida que a coisa mais importante da vida ė o tempo da existência.

Vejo no meu entorno todos com pressa, muitas das vezes inócuas, deixando o melhor da vida. A pressa contemporânea não é apenas um traço comportamental, é um sintoma psíquico profundo. Corre-se não porque o tempo falta, mas porque sentir exige uma pausa que muitos já não suportam. A aceleração tornou-se uma estratégia defensiva, um modo eficaz de escapar da realidade. Quando tudo se move rápido demais, nada se aprofunda, e quando nada se aprofunda, a dor permanece difusa, mas silenciosa.

Correr tornou-se sinônimo de importância. Quanto mais acelerada a agenda, mais legitimada parece a existência. A lentidão, por outro lado, passou a ser confundida com fracasso, improdutividade ou fraqueza. No entanto, é justamente na lentidão que o humano se revela, pois sentir requer tempo, e pensar exige demora. A pressa, ao contrário, dissolve a experiência antes que ela se transforme em consciência.

Há uma dimensão psicológica clara nesse fenômeno. A aceleração contínua impede o processamento emocional. Não se elabora o luto, não se digere a frustração, não se escuta o próprio medo. Tudo é substituído por tarefas, metas, notificações. O sofrimento não desaparece, apenas se desloca, retorna como ansiedade crônica, irritabilidade difusa, cansaço sem causa aparente. O corpo começa a dizer aquilo que a mente não teve tempo de escutar.

Em tempos de correria, luxo, mesmo, ė ter tempo para realizar desejos.

(*)


Luiz Thadeu Nunes e Silva, é Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e Globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”.

Instagram: @luiz.thadeu

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

AS RUAS PROIBIDAS DA MINHA ALDEIA

Imagem avulsa do Google

 

José Pedro Araújo (*)

Tempos atrás, ainda no começo deste blog, publiquei uma crônica sobre este mesmo assunto, com o título de A Rua Proibida. Hoje, ao assistir a um vídeo do maior humorista piauiense, João Cláudio Moreno, deparei-me com assunto idêntico, no qual ele, jocosamente, enumera os dezesseis cabarés existentes na sua cidade, Piripiri – PI, nominando cada um deles.

Voltei no tempo, para a minha Presidente Dutra, quando, na segunda metade dos anos sessenta, a pequena cidade teve que aumentar, e melhorar, os estabelecimentos da sua zona do meretrício, com a chegada à cidade do 2º Batalhão de Engenharia e Construção do Exército. E, diferentemente de como acontecia com Piripiri, cujos cabarés tinham nomes apelativos, como o Espinhaço da Cabra, Candieirinho, em Presidente Dutra as zonas receberam números, ao invés de um nome pomposo. A zona do meretrício mais velha, situada nas imediações do Grupo Escolar Dr. Murilo Braga, já na periferia, como acontecia em todas as cidades, era conhecido como o Quinze, não sei por qual razão. E a zona do meretrício mais nova, inclusive o seu anexo, situadas no hoje bairro Paranoá, à margem da BR-226, estrada que os militares vieram de Teresina para construir, mais afastada ainda das casas de família, recebeu o nome de Dezesseis. Era a maneira simples do pessoal da minha terra dar nome, ou melhor, números, aos estabelecimentos para facilitar a identificação de cada um deles.

Como se sabe, um batalhão é composto por uma grande quantidade de homens – segundo pesquisei, esse número pode variar de sessenta a trezentos componentes - e se tiver a função daquele, cuja principal atividade era a construção de estradas, aí então a quantidade de gente, grande parte delas com contratos temporários, trabalhadores braçais, diga-se, a bem da verdade, eleva por demais essa quantidade. A cidade era muito pequena nessa época, e a chegada de tanta gente assalariada alavancou a economia do município. Presidente Dutra conheceria o seu primeiro odontólogo, Dr. Rozendo, além de outros profissionais que ainda não existiam por ali. E esses recém-chegados precisavam de casas para morar, mercearias sortidas para lhes oferecer produtos de primeira necessidade de melhor qualidade, lojas de tecidos com maior estoque, sapatarias, farmácia com maior variedade de medicamentos, etc.

Do mesmo modo, uma atividade que precisou de incremento e modernização nas suas instalações, foi exatamente aquela das mulheres de vida livre. Tudo isso porque, O Quinze, uma rua recheada de cabarés, era um ambiente cumulado por casebres pobres, onde a maioria dos estabelecimentos era até composta por imóveis com paredes de tijolo, mas sem revestimento nenhum, cobertura de telha, mas sem um acabamento mais elaborado, até mesmo com piso de chão batido. A maioria, contudo, era composta mesmo por choupanas de taipa, sendo que algumas delas pareciam-se mais com ocas indígenas da pior espécie.

Contudo, da cidade vizinha, São Domingos, chegou uma empreendedora com maior visão de mercado. Não que ela tenha ocupado um imóvel no Paranoá com uma infraestrutura luxuosa, pois o seu diferencial estava nas mulheres, melhor dizendo, nas funcionárias da casa. E deste modo, suas instalações físicas, pela urgência com que o negócio foi montado, quase não se diferenciava dos melhores lupanares do Quinze. Assim, buscando qualidade no produto que oferecia, foi a proprietária atrás de mulheres em outros municípios. A maioria delas foram contratadas nas boates de Teresina, sendo que algumas poderiam ser enquadradas como belas e charmosas senhoritas. Talvez a escolha da capital do Piauí tenha sido uma jogada comercial bem pensada, pois todos os novos recém-chegados vieram daquele estado, quiçá, daquela capital.

A empresária, também uma bonita mulher, tinha o hábito de trocar algumas delas, por outras até com melhor caimento. Quando isso acontecia, a notícia se alastrava como um rastilho de pólvora pela cidade. E ela própria, dependendo do status do cliente, também desempenhava o ofício que definia aquele tipo de negócio, apesar de ter, como sempre acontece nesses casos, o seu amante cativo e de quem não cobrava nenhum valor financeiro. Esse jovem, objeto da escolha da madame, por uma dessas coincidência, era um primo do autor dessas linhas.

Acredito que a rotatividade daquelas jovens profissionais do ramo do comércio sexual, a dita primeira profissão do planeta, ocasião em que o, digamos, corpo técnico da casa, era substituído, acontecesse porque aquelas mulheres iam ter até ali apenas por uma temporada, e não para fixarem residência definitiva na cidade. E logo que seus prazos se esgotavam, eram substituídas por outras do mesmo mercado.

Como a clientela que frequentava o Dezesseis era formada por gente mais endinheirada, as bebidas eram mais bem selecionadas, as mulheres também eram mais bem apessoadas, e mais bem vestidas. Não se viam por lá mulheres envelhecidas como a Maria Palestina, além de outras que já estavam na profissão há muito mais de uma dezena de anos. Para cobrar mais caro pelos serviços ofertados, tinha que se diferenciar daquelas que já eram conhecidas por ali de outros carnavais. Teriam que ser novidades, frescas e brejeiras.

Não me recordo de que os habitantes locais tenham recebido com asco ou repulsa a abertura desse novo negócio na cidade. O assunto, aliás, era tratado apenas com curiosidade em quase todas as rodas de conversa, e, naquelas frequentadas somente por homens, era até um acontecimento bem-vindo. Aliás, durante o carnaval na cidade, as ditas raparigas desfilavam lampeiras pela cidade, ingressadas em blocos carnavalescos que seguiam festivamente pela cidade. E neles, aia gente de todas as camadas sociais, indistintamente.   

Outro diferencial, entre o Quinze e o Dezesseis, era que os bêbados contumazes, aqueles que já chafurdavam pelas ruas do Quinze desde o começo da manhã, e do meio-dia para a tarde já perambulavam cambaleantes na rua sem calçamento, esses não eram figuras benvindas no Dezesseis. Primeiro por não possuírem carteiras recheada de dinheiro como os outros fregueses que batiam ponto por ali. Depois, havia, temos que confessar, uma separação de classes bem rígida. No Quinze, frequentavam agora somente os da classe inferior, a ralé; enquanto no Dezesseis, a nata da cidade, por assim dizer, incluindo-se aí, alguns comerciantes mais abastados, autoridades, e o grosso dos militares e funcionários graduados do 2º BEC, eram os clientes que se viam por lá, e que eram bem aceitos.

A música que se ouvia do local também era diferenciada. As vitrolas novinhas rodavam discos da jovem guarda e da nata do cancioneiro brasileiro, entre estes, os cantores conhecidos de boleros e até de Rock-and-roll. E como o ambiente era mais espaçoso, os dançarinos varavam a noite em animados convescotes.

Entretanto, como tudo na vida, o Dezesseis teve que fechar as portas. A sede do 2º BEC havia se mudado para a cidade Grajaú, distante mais de duzentos quilômetros dali. E, por conta disto, a clientela do Dezesseis havia se viu diminuída, do dia para a noite, reduzida que ficara a pouco menos da metade. Perdeu, assim, a sua importância econômica. Do mesmo modo, como sempre acontece nesses casos, as mulheres haviam seguido atrás dos soldados do brioso exército nacional.  

E o Alto Paranoá, onde se situava o Dezesseis, é hoje um bairro importante da cidade, e nele não existem mais os tais lupanares que transformaram a região em um ambiente festivo. Não tenho certeza, me corrijam se eu estiver errado, mas a rua onde se localizava o Quinze, é a comportada rua Quinze de Novembro, via residencial pavimentada.

(*) 


José Pedro Araújo é engenheiro agrônomo, funcionário público federal aposentado, historiador, cronista, romancista, e coordenador do blog Folhas Avulsas.


  

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Em 2026, permita-se florescer

 

O céu na Virada de ano em São Luís do Maranhão

Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

“A vida é feita de escolhas. E, a cada escolha, por mais insignificante que pareça, traz consigo consequências que não podemos prevê. Ninguém pode evitar o impacto de suas decisões. Caminhamos por terreno incerto, e a cada passo, moldamos o nosso destino, quer queiramos ou não. A única certeza é que o passado não pode ser desfeito, e o futuro é a soma de cada um desses passos”, cito José Saramago, em Ensaio sobre a cegueira.

Há momentos em que a vida pede menos mapas e mais confiança.

Quando o chão deixa de ser firme, o rio aparece. E, com ele, a travessia.

Confiar no invisível não é fechar os olhos, é abrir a escuta. É perceber que nem tudo precisa ter forma para guiar. Às vezes, o que conduz é feito de silêncios, intuições e sinais sutis - como estrelas dentro de um corpo que não se explica, apenas se sente.

Os caminhos certos não se impõem, se revelam. Eles surgem como atalhos, exigindo coragem para abandonar o óbvio e seguir o chamado interno. Não são caminhos fáceis, mas verdadeiros. E quando são verdadeiros, sustentam.

Sempre que necessário, comece de novo. Ano que começa, oportunidade de recomeços. Em 2026 temos, gratuitamente, 365 novas oportunidades de fazer coisas novas, e isso é bárbaro, mágico, fascinante.  Seja um novo emprego, um novo lugar, novas amizades ou um novo amor. A vida é movimento, e o ato de caminhar é um mistério que ultrapassa a simples mecânica do movimento. Cada passo é um pacto silencioso com o desconhecido, uma afirmação de coragem diante do que não se vê. Ao caminhar, confiamos no chão que ainda não tocamos, no espaço que ainda não conhecemos. Um passo ao acaso é, portanto, mais do que um gesto físico: é a materialização da entrega, o salto que separa a segurança da possibilidade. O mundo não é um mar calmo de evidências, mas um oceano instável, imprevisível e cheio de mistérios.

Sempre que necessário, caro leitor, amiga leitora, permita-se reescrever sua história, abrir novas portas e fechar capítulos que já não fazem sentido. Mudar requer coragem. A vida é feita de recomeços, e, às vezes, o passo mais difícil é o primeiro: deixar para trás o que te feriu, o que te fez duvidar de si mesmo, o que te fez construir muros ao invés de pontes. Aprendi que o mundo trata bem quem gosta do mundo, quem se atreve, quem não teme o novo.

Aprender a calar quando o mundo quer que grite é sabedoria. Quando não houver nada de bom a dizer, escolha o silêncio como resposta. Fique quieto quando a ira quiser tomar conta de você; não se torne escravo dela. Palavras ditas na fúria são facas na alma, feridas que o tempo dificilmente apaga, e trazem sofrimentos.

Mantenha a calma, quando a situação não for da sua conta, aprenda a preservar sua energia. Nem todos merecem o privilégio de seu esforço ou atenção.

Fique atento ao seu entorno. Deixe que alguém te ame, não apenas pelo que você mostra ao mundo, mas pelo que você é em essência. Permita-se ser vulnerável, ser cuidado, ser compreendido. Não tema mudar de rumo, quando o caminho que se caminha não leva a lugar nenhum. A vida é troca de energia. Não adianta oferecer um oceano para quem não nos dá nem um copo d’água. Em 2026 cultive a reciprocidade e compartilhe momentos únicos com quem valoriza sua profundidade.

Amor verdadeiro não exige perfeição; ele se fortalece nos detalhes, nos erros, nas cicatrizes que carregamos ao longo do tempo. Felizes os que encontram o amor no outro. Amor é construção, e não precisa ser pesado. 

Reserve tempo para fazer o que gosta: ler, ouvi música, contemplar entardeceres, tomar café ou vinho, cultivar um jardim. Faça amor demoradamente, gozando cada instante. Esteja pleno nestes momentos.

Abrir o coração pode parecer arriscado, e é, mas é nesse risco que mora a liberdade de sentir plenamente, de ser visto e acolhido. Não se prive de viver o que merece. Começar de novo não é um sinal de fraqueza, mas de coragem. Deixar que alguém te ame é aceitar que, por vezes, precisamos de uma mão amiga, de um abraço forte, de um amor que seja porto seguro. De um novo amor que motive, que apoie, que lhe faça vibrar.

Não fira, não magoe, não provoque. Se poupe, não gaste energias com questiúnculas. Não se apequene diante das adversidades, que serão muitas em 2026.

Defenda sua paz sem gritos, sem conflitos. Apenas se retire por um momento e volte quando a tempestade passar. O mundo já carrega peso suficiente de raiva e caos. Não seja quem o aumenta. Seja quem o alivia.

Aprenda que algumas pessoas vão estar ao seu lado por longa caminhada, participarão dos melhores momentos de sua vida. Outras irão te abandonar pelo caminho, sem nem querer dizer o motivo. Mas você terá que se acostumar com isso; o importante é seguir em frente. Saiba que o para-brisa é maior do que o retrovisor.

“Ano novo, vida nova”, dizia minha saudosa mãe, Maria da Conceição.

Recomece com leveza, com esperança e com a certeza de que você é digno de ser amado, exatamente como é, pelo que você é. O amor, quando verdadeiro, não é uma escolha de quem se aproxima, mas um reflexo de quem você é e, do quanto você ainda pode florescer. Um brinde a nós que estamos aqui: firmes e forte, na caminhada diária chamada Vida.

Um 2026 pleno de boas energias, realizações, conquistas e vitórias. Sabendo sempre que sem Deus nada de bom acontece. Floresça, seja sempre primavera. Que Papai do Céu nos abençoe.

(*)


Luiz Thadeu Nunes e Silva é Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e Globetrotter, autor do livro “Das muletas fiz asas”.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

A Beleza do Natal na Minha Aldeia



 
Presidente hoje - (Imagem de Carlos Magno)


José Pedro Araújo (*)

 

A decoração natalina de Teresina este ano é uma das mais belas que já presenciei na cidade. Encanta-me, sobretudo, o embelezamento das diversas pontes sobre o rio Poty, decoradas com zelo e encanto, cujas luzes multicoloridas refletem nas águas do rio quando a noite chega. E essa quadra, que começa a bem dizer no primeiro dia do mês de dezembro, já nos arrasta para o que chamamos de período natalino, introduzindo a paz no nosso interior que, acalentada pelas músicas natalinas que ouvimos aqui e acolá, só vai se encerrar quando distribuímos os nossos presentes na véspera do dia oficial do Natal. Aí então começa a preparação, emocional, e de fato, para a virada do novo ano que se aproxima.

Presidente Dutra hoje - (Foto de Carlos Magno)



Contudo, as lembranças que inundam a minha mente, são reminiscências de outros natais, e vêm lá do meu torrão natal, do tempo em que a cidade pequenina, pobre, e carente de energia elétrica, restringia as comemorações natalinas, que se davam somente em um dia:  a virada do dia 24 para o 25 de dezembro. A cidade não contava com belas e feéricas decorações como hoje vemos, com gigantescas árvores natalinas instaladas nos principais balões de retornos das avenidas, e coloridas decorações em linha instaladas nos galhos das árvores dos canteiros centrais. Também, não tínhamos luz elétrica, como já falei no início desse parágrafo!

Não são lembranças de grandes ceias natalinas, com fartura de perus com farofa, castanhas, vinhos e outros comes-e-bebes que hoje empurram esses jantares lá para perto da meia-noite, e tornam os mesmo em um dos pontos altos das comemorações. Naqueles tempos aos quais me refiro, o jantar saia no horário de sempre, antecedendo a preparação para nos deslocarmos para a Igreja Cristã Evangélica. A ceia especial daquele dia continha iguarias simples, às vezes perus ou frangos criados nos próprios quintais ou adquiridos através dos vendedores ambulantes que inundavam a rua Grande com suas aves dependuradas em cangas carregadas sobre os seus ombros. Isso acontecia em pouquíssimas casas, porque nas mais pobres, o jantar frugal não mudava muito a sua composição.  

Assim, as lembranças que me veem vívidas e saudosas, são do interior da nossa igreja que, arrumada com antecedência, apresentava-se decorada com extremo bom-gosto e simplicidade.  A árvore de Natal, enorme e muito bem decorada, não continha o brilho das lâmpadas coloridas e piscantes, mas eram tão belas que enviavam os nossos pensamentos para o polo norte; tão atraentes, que esperávamos que, a qualquer momento, Papai Noel adentrasse ao recinto conduzindo o seu trenó arrastado pelas suas renas e soltando o seu característico Oh! Ho! Ho! As árvores natalinas eram fabricadas com frondosas pitombeiras trazidas do campo no dia anterior com cuidados extremos para que mantivesse as suas folhas verdes e brilhantes, tal qual as dos pinheiros dos natais que vemos nos postais. Possuíam de altura, pelo que me recordo, dois metros ou um pouco mais. E ali se transformavam em verdadeiras obras de arte e decoração. As borlas natalinas, só para exemplificar, aquelas mesmas que simbolizam os frutinhos da prosperidade, eram substituídas por cachos de pitomba maduras, amarelos e verdes. As luzes dos Petromaxes irradiavam-se nas fitas e laços espalhados por toda a árvore e, no alto, no topo da árvore natural, simbolizando a Estrela de Belém, brilhava dourada e iridescente uma réplica da estrela em papel laminado, na cor do ouro verdadeiro. O único problema que se tinha, era que a árvore precisava de um vigia para protegê-la da meninada, que tentava, a todo o custo, antecipar a retirada dos cachos de pitomba e os pacotinhos em formato de presentes. Enfim, tínhamos uma belíssima árvore natalina para alegrar a nossa festa, utilizando somente o material simples que tínhamos à nossa disposição.

Entretanto, o ponto alto das comemorações era mesmo o auto-de-natal, uma representação teatral cujos atores e atrizes eram membros da própria igreja. Os ensaios desses autos levavam dias e dias, às vezes meses, de modo a ficarem impecáveis, sem falhas. Eu mesmo fui ator em algumas dessas apresentações, em uma delas, vesti-me de mendigo, para deslumbramento ou compaixão da minha mãe que chorava na paleteia. Ela, aliás, era uma das produtoras das peças apresentadas na igreja, tanto no Natais quando no Dia das Mães.

Naquelas ocasiões, a população da cidade acorria quase na sua maioria para o templo iluminado e festivo, deixando o seu interior, e o exterior à sua volta, repleto de gente feliz. Uma grande cortina ocupando toda a largura do templo, controlada por dois operadores, um de cada lado, abria e se fechava entre um ato e outro, como verdadeira cortina-de-boca. E no alto, sobre a plataforma onde nos cultos normais se estabelecia o púlpito, utilizada para dar visibilidade para todos os presentes na plateia, os atores representavam os seus personagens, orgulhosos e emocionados, trajando munidos dos seus figurinos característicos, representavam os personagens descritos na história bíblica no nascimento de Jesus. A plateia delirava e se deleitava com a beleza do espetáculo que durava horas até, sem que ninguém arredasse o pé para não perder nenhum ato da encenação. Tudo isso abrilhantado por um coral que entoava cânticos de Natal durante os entreatos, impondo mais beleza ao espetáculo que acontecia. Que delirante e belo espetáculo!

São essas lembranças que me ocorrem todos os anos neste período de festividades em honra ao menino Jesus! Não tínhamos neve, nem muito menos luzes fosforescentes e coloridas para enfeitar a nossa pequena cidade, mas tínhamos um Natal tão lindo e emocionante quanto o que se vê nas cidades mais frias mundo afora. FELIZ NATAL para todos!

Presidente Dutra hoje - (Imagem de Nardone)
(*) 


José Pedro Araújo é engenheiro agrônomo, funcionário público federal aposentado, historiador, cronista, romancista, e coordenador do blog Folhas Avulsas.


sábado, 20 de dezembro de 2025

Sou passageiro do tempo

 



Luiz Thadeu Nunes e Silva (*) 

Aprendi com o tempo que a coisa mais importante da vida é o tempo da existência.

Por isso, fiz um pacto silencioso com ele; deixei de tratá-lo como inimigo ou divindade, e ele, em retribuição, deixou de medir meus dias com a régua da pressa. Tê-lo como um inimigo é perda de tempo. Como não posso vencê-lo, aliei-me. Já não o imploro nem o temo, apenas o escuto respirar no intervalo entre um pensamento e outro. O tempo, compreendi, não passa, ele habita: está nas frestas das horas, nas rugas que se abrem como margens de um rio antigo, nas pausas em que o instante se reconhece eterno.

Embora vivo de olho no calendário, procuro aproveitar melhor sua presença. Cada segundo, quando vivido por inteiro, contém uma eternidade invisível. Não busco alongar o dia, busco alargar a consciência dele. E assim, entre a serenidade e o espanto, caminho em direção ao desconhecido com a leveza de quem já se reconciliou com a finitude. Isso é sabedoria e me acalma. Coisas aprendidas no outono da vida, quando a testosterona arrefece.

Quando, enfim, o tempo e eu nos encontrarmos, não haverá ajuste de contas, apenas um aceno cúmplice, como dois viajantes que se reconhecem por terem partilhado o mesmo silêncio.

Tento viver o presente, embora tênue e fugidio. O presente é fugaz. É como água que pego com as mãos e escorre entre os dedos.

No amanhã, invisível e desconhecido, moram milhares de possibilidades, e eu não digo 'nunca' pra nenhuma delas. Eu escolho alguns caminhos, evito outros. Preferencialmente os mais leves e doces. Sou homem de fé. Nasci otimista. Eduquei o olhar para as belas coisas da vida. Mesmo diante das adversidades, que são inúmeras, mantenho a fé no DEUS vivo. Sempre creio que dias melhores virão. Tudo passa: o bom e o ruim. Premente ter equilíbrio para não ficar eufórico nos dias bons, e sorumbático nos dias ruins.

“Ao meu passado eu devo o meu saber e a minha ignorância”, cito Simone de Beauvoir. Acrescento, também, as minhas necessidades e minhas relações. A minha cultura e as mudanças em meu corpo, tudo devo ao tempo. Desfaço o meu passado hoje, deixando em mim a liberdade e o livre arbítrio para seguir em frente, na vã esperança de que não sou escravo dele.

Não sou projeto pronto, sou construção e aprendizado constante. No outono da vida, continuo sedento de conhecimentos. Me encanta o novo. Meu tempo é hoje.

Tudo muda a cada esquina. “Só eu sei as esquinas por que passei…..

Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar”, cantou Djavan.

Hoje, com a serenidade e segurança que só a passagem do tempo me trouxe, digo: não cheguei até aqui para ser cópia simplificada e reduzida de mim mesmo. Chego aos 67 anos, completado hoje, 07 de dezembro, como minha melhor versão, atualizada e revisada.

Quando alguém me pergunta quanto anos tenho, respondo: depende. Tem dias que acordo com 80 anos, em outros com 20. Sei, apenas, que habita em mim, uma criança, um garoto, um adulto e um velho, que aprenderam a conviver em harmonia e respeito na mesma jornada, cada um a seu tempo.

Como Giramundo, ando pelo mundo, como forma de superar os cinco anos sem caminhar, e 43 cirurgias que tive que me submeter após o grave acidente que sofri em julho de 2003. Gosto do mundo, dos humanos que encontro por onde ando. Tenho olhos de “Poliana”, enxergando sempre o belo. Sou rico, muito rico: tenho saúde, tempo para aproveitar as boas coisas da vida, dinheiro para realizar desejos, amigos generosos e amáveis. Filhos sadios, Rodrigo e Frederico, partícipes e cúmplices. Um neto lindo, Heitor, que aos onze meses, está descobrindo o mundo, e me fascina acompanhar suas descobertas. Heitor é a renovação de minha genética. Enfim, tenho tesão pela vida, essa coisa mágica, bárbara, fascinante, surpreendente e misteriosa.

Coisa boa de se envelhecer é não precisar ser perfeito, não querer agradar a todos, não ser dono da razão. Precisa apenas aceitar as coisas como são. “Quando não podemos mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos”. Viktor Franki, neurologista austríaco.

Todos os dias, aprendi, mesmo com os altos e baixos, é obrigatório: refazer, recomeçar, reconstruir, resinificar e seguir em frente.

A vida, esse enigma que se desdobra em silêncios e tumultos, “o que exige de nós é coragem” João Guimarães Rosa.

O tempo não envelhece a alma de um sonhador. Todos os dias, ele me manda desistir, mas como sou teimoso, desobedeço. Aos 67 anos, a vida não me cansa porque ainda tenho muita coisa boa para fazer, aprender e realizar.

Vamos em frente! Um brinde à vida.

(*)


Luiz Thadeu Nunes e Silva é 
Engenheiro agrônomo, escritor e Globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”.

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