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| Vapor navegando pelas águas do rio Itapecuru |
IMPRESSÕES DE VIAGEM (Conclusão)
Carlos Augusto de Araújo Costa (*)
Último capitulo do diário de Bordo. Nesta parte final, já em Teresina, nosso viajante aproveitou para visitar amigos, fazer alguns passeios pela cidade que, à época não oferecia grandes atrações para os seus visitantes, já que ainda engatinhava rumo ao desenvolvimento, e para se preparar para empreender o último trecho da sua viagem, que deveria se encerrar em Oeiras, primeira capital do Piauí, e sua terra natal. Como afirmou o autor dessas memórias, Teresina ainda não possuía sequer uma rua com calçamento, parecendo-se, portanto, com uma pequena cidade interiorana, coisa que ela realmente era. A cidade de Teresina naquele distante ano de 1905, debatia-se ainda com todas as dificuldades para transferir conforto e comodidade aos seus residentes. Mas, será que as reclamações do diarista tinha a ver com a antiga rixa existente entre oeirenses e teresinenses, em decorrência da transferência da capital para a então Vila do Poti. pensando melhor, não acreditamos, de fato, nisso(editor).
Conclusão
O Piauí também acusando roubo nas repartições federais! Quem diria que ele até nisso haveria de acompanhar o progresso da República! Soube, porém, que o roubo não excede de uns dez contos de reis, conquanto houvesse muito dinheiro no cofre violado. Por este motivo, já se disse que não deve as autoridades divulgar semelhante notícia para que os outros Estados não lancem o ridículo sobre o nosso.
Dia 2 – ainda percorri a cidade no intuito de adquirir novas impressões. Nunca vi lugar tão quente. O que vale é que as ruas, que são todas belamente alinhadas, e as casas não são de sobrado, facilitando, por isto, a ventilação, se tal nome se pode dar à branda aragem que sopra de longe em longe, mal atenuando os ardores da canícula. Também pouco os abranda a feia e espaçada arborização.
Mesmo de chapéu de sol aberto, sente-se um calor de rachar. Que pena, em uma cidade de tanto futuro. Não tem calçamento, e creio que pior seria se tivesse, porque as pedras aumentariam o já demasiado calor. Só se fosse um calçamento de madeira, que seria enormemente dispendioso e sujeito a constantes reformas.
Dai resulta que, sendo o local extremamente arenoso, constante nuvens de poeira estão sempre a nos emporcalhar a roupa, fazendo-nos aspirar um ar muitas vezes viciado. Urge levar adiante a empresa de canalização d’água, fornecendo o preciso líquido por preço muito módico. É o único meio de por termo ao transporte d’água em costas de animais, cujas caravanas, percorrendo as ruas diariamente, fazem levantar o pó em todas as direções. É desagradável para quem chega de São Luís, hoje otimamente ajardinada, bem calçada e soprada pela viração marítima, expor-se à poeira e ao desapiedado sol equatorial.
Recebi à noite
uma comissão da Associação Caridade 2ª que veio convidar-me para uma sessão literária
em homenagem à minha pessoa. Como de meu dever, acedi ao convite, contando
aparecer no dia e hora aprazados.
Tive notícias do meu companheiro, dr. Homem Bom, que está fazendo furor. Que o chamem à vontade! Eu é que o não quero à minha cabeceira. De médicos, bastava, para mim, os que têm juízo, os quais, entretanto, contam nos nossos cemitérios grande número de monumentos para perpetuar-lhes a memória.
Dia 3 -
Pretendia ir amanhã a Caxias, mas, em virtude de uma carta do Bento, hoje
recebida, mudei de resolução. Não me é possível, pois, tomar novos banhos na
Ponte, antes da minha volta a Oeiras.
Nada se tem
sabido sobre o roubo. São tais e tantos os boatos que correm, que será melhor deixá-los
todos de quarentena. Já se chegou mesmo a dizer que no balanço dado,
verificou-se, não desfalque, porém um saldo! O diabo é que o tesoureiro pode
reclamá-lo.
O Piauí daria
uma nota brilhante se tal coisa acontecesse nesta quadra chamada com muita
propriedade: a época da roubalheira.
Passei bem o dia. Tomo sempre dois banhos, não tão bem como os que tomava em Caxias, mas banhos de cuia, que é a pior instituição destes últimos tempos. Isto acontece, porque o Intendente Domingos Monteiro, por excesso de zelo, proibiu os banhos no rio, onde in illo tempore fazíamos tantos exercícios de natação. É conveniente fazer preces públicas, pedindo-se que termine o governo municipal do Domingos. Se há um Deus nas alturas, é preciso que ele tenha alguma utilidade.
Visitei o Dr. João Cabral, patrício distinto que acaba de chegar de Manaus. Não podia deixar de cumprir este dever. O Cabral é um piauiense que honra o nosso Estado. Caráter inquebrantável, não há vício que o possa corromper. Foi contemporâneo, em Pernambuco, creio que até companheiro de casa, de dois outros patrícios nossos, o que o Piauí tem produzido de pior, sem excluir mesmo o lixo das praias. Entretanto, nunca se deixou impregnar pelo vírus corruptor.
Reside
atualmente no Amazonas, mantendo sempre invulnerável suas qualidades morais. É
um moço equilibrado. O desenvolvimento da inteligência nunca lhe causou
alteração no senso moral. E é um espírito bastante cultivado, muito amigo do
torrão natal e, sobretudo, um forte, um trabalhador.
Paupérrimo, passou debruçado sobre os livros a quadra de seus dias mais florida, percorrendo toda escala de privações, mas, vencendo, por fim, todas as dificuldades. Foi meu professor de Alemão no Recife e parece consagrar-me boa afeição, o que é para mim motivo de desvanecimento.
Recebeu-me com
o riso nos lábios e apertou-me duas vezes contra o seu grande coração. Gosto
imenso do Cabral.
Dia 4 – Passei o dia otimamente, a
despeito do grande calor que fazia. Para evitá-lo resolvi dormir de dia, quando
ele se torna mais insuportável, o que faço depois de um banho frio; e trabalhar
à noite, quando ele é menos intenso. O que sucede, é que, quando acordo, estou
alagado de suor.
Em todo o
caso, parece que me darei bem nesse regime. O pior é que o Júlio Nogueira
acorda-me constantemente, oferecendo-me sorvete, (felizmente já se encontra
gelo em Teresina), café, almoço, jantar, e outras coisas mais, o que fora longa
enumerar; e regada as refeições com vinho, mesmo sem se pedir. Parece que este
Júlio nunca recebeu lições do Amaral.
Assentei-me à
tarde defronte da casa comercial do Antônio Campos, de que o Júlio é sócio, pois
é hábito aqui e coisa de bom tom sentar-se a gente na calçada, como se
chama em Teresina, ou passeio, como se diz em São Luís, das 6 da tarde
até às 8 ou 9 horas da noite.
Este uso,
nasceu naturalmente da necessidade de fugir ao calor interno das habitações,
quando o sol tem a generosidade de nos deixar em paz.
Dali observei
um espetáculo curioso; duas nuvens negras e movediças dirigindo-se da cidade
para a mata. E, coisa interessante, vemo-las sempre tomar aquela direção,
saindo do centro da cidade, mas não as vemos terminar: estão sempre a sair do
mesmo lugar até ao anoitecer quando as perdemos de vista.
Adivinharão o
que isto seja? Hoc opus, hic labor. Não é o ar que se condensa, não é
nuvem de chuva, nada disto. São morcegos que se retiram de suas habitações, que
em regra são as igrejas e outros lugares inabitados, demandando a Chapada do
Corisco, onde vão chupar frutas e sugar o sangue de outros animais.
Voltam,
segundo me disseram, pela madrugada, a fim de dormir de dia, o que aqui não
lhes posso censurar. Nunca vi tanto morcego.
Já um dos jornais
desta terra noticiou uma ocasião que o governo resolveu dar combate a esses importunos
habitantes da cadeia pública. Pois bem, destelharam o edifício, que aliás não é
desocupado pelo homem, e terminada a luta, contaram doze mil morcegos mortos no
campo de ação, ficando, porém, estafados, vencidos pelo cansaço, os defensores
da legalidade.
Teresina, 05
de Agosto de 1905.
Araújo Costa.
(*) Araújo Costa, piauiense, advogado, jornalista, ex-presidente da Câmara de Vereadores de São Luís, foi também um dos participantes da Junta Governativa Provisória, que governou o Maranhão por volta do ano 1922.

