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sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Nascem as primeiras indústrias no Curador (História de Presidente Dutra - Parte 24)



Nascem as primeiras indústrias no Curador – O maranhão já vinha organizando seu parque industrial desde a segunda metade do século dezenove, mas teve sua maior pujança na virada do século XX, quando as usinas de açúcar e as tecelagens, fiações e fábricas de tecidos se expandiram na capital e na ribeira dos rios Mearim e Itapecuru.
A atividade industrial ganhava forças e colocava o estado entre os de maior importância no país, exportando seus produtos para vários países do mundo. O Brim, o Riscado e o Morim, apesar de não serem tecidos de prestígio para a alta costura, eram requisitados pela sua qualidade e durabilidade para servir como vestimenta aos trabalhadores da indústria e das fazendas, o que fazia deles, produtos altamente respeitado e requisitado por todo o mundo.
As fiações também forneciam fios de algodão para a confecção de redes em todo o nordeste, e por aqui começaram a surgir algumas pequenas fábricas deste artefato tão necessário aos nordestinos.
            Foi um período áureo da economia maranhense, ocasião em que vários navios partiam carregados com a matéria prima, e com os produtos manufaturados, para portos do mundo inteiro. E enquanto na capital eram erguidas fábricas em diversos seguimentos, com suas chaminés de tijolos vermelho apontando para o céu azul da ilha, no interior os campos se enchiam da brancura das plumas do algodoeiro, gerando riquezas e promovendo o povoamento do interior dantes desconhecido.
            Entretanto, a economia está sempre em constante mudança. Muda a importância dos produtos, com a consequente subida de preços de alguns e a queda de valor de outros; muda a situação geográfica onde esse produtos são mais procurados. O fato é que o mundo dos negócios está sempre em transformação, ensejando o aparecimento de grandes negócios em um dia, para, no outro dia, já está de partida o seu eixo para outros lugares.
             Um exemplo, de como essas coisas acontecem, deu-se em meados do século XIX.  Com o fim da guerra separatista entre o norte e o sul dos Estados Unidos, os ingleses voltaram a comprar o algodão e o tecido produzidos pelos americanos, deixando de lado o produto brasileiro.
Por aqui, as fábricas começaram a desligar suas caldeiras, e as chaminés pararam de jogar fumaça no ar, enquanto nos campos os produtores que haviam se endividado, acreditando no crescimento do mercado externo, faliam miseravelmente. Passamos de exportador de produtos manufaturados e de algodão, para exportador de máquinas e sucatas para outros estados da federação.
O jornalista francês Gilles Lapouge desembarcou em 1973 na ilha de São Luís, com o intuito de colher informações para a elaboração de algumas matérias para jornais com os quais contribuía, e logo se apaixonou pela cidade. Como um observador sensível e arguto que era, colheu também informações preciosas sobre a vida econômica da Ilha, dados que viriam a fazer parte de um livro que logo lançaria sobre a sua viagem pelo Brasil, denominado Equinociais – Viagem pelo Brasil dos Confins.
              Contundente, e ao mesmo tempo satírico, discorreu sobre a crise industrial que atingiu a economia maranhense em fins do século XIX e começo do século XX, demostrando possuir um olhar de lince, e contundente agudeza na percepção  dos problemas de gestão que cercaram os empreendedores da terra:

A decadência desta cidade foi brutal. Normalmente, os impérios precisam de um século, de um milênio para desabarem. São Luís liquidou seu caso com muita desenvoltura. Os historiadores nos diriam as datas, praticamente exatas, de sua decadência – foi no final do século XIX, quando as prósperas manufaturas de São Paulo(?) foram atacadas ao mesmo tempo pelas tecelagens de Manchester e pela expansão dos Estados Unidos, uma vez o sul vencido pelo norte. Foi um naufrágio de Titanic, alguns burburinhos e os destroços no mar”.

E continuou com a sua prosa ferina e certeira, destrinchando fio a fio a teia mortal em que a economia do estado se enredou, acabando com o sonho de prosperidade que nos embalou durante uns poucos anos, e empurrando-nos de volta para o vale triste da pobreza que nos persegue desde o nosso nascimento. “A cidade não se deu ao trabalho de disfarçar suas cicatrizes. Se quer teve vontade de concluir todos os edifícios que estavam em construção antes que a crise chegasse”.
 A cultura algodoeira ainda teve outro período de prosperidade entre nós. Novas fábricas foram erguidas na capital, mas também, em Codó e Caxias, capitaneadas por empresários da região. Desta vez entramos de cabeça nesse sonho e imensas plantações cobriram as terras do Japão em lugar de suas florestas possantes. Duraria pouco mais de vinte anos a sua importância econômica, esse novo sonho agroindustrial.
No Curador, empreendedores como Raimundo de Melo Falcão, instalaram suas bolandeiras movidas à tração animal, e passaram a industrializar o algodão aqui produzido, acondicionando-o em fardos enormes que depois eram transportados para as fabricas de tecidos de Caxias, Codó ou São Luís. Anos depois, aproveitando-se da importância da cultura para a região, o empresário Celso Sereno implantou uma indústria de beneficiamento de algodão no município, com maquinários movidos à vapor. Beneficiava-se com a alta produção dessa cultura, situação que havia nos guindado à condição de principal região produtora em poucos anos.
Depois dele, um cidadão chamado João Furtado instalou uma outra usina na cidade, na esquina da travessa Nelson Sereno com a rua Cel. Sebastião Gomes. A febre só aumentava, e logo esses foram seguidos pelos empresários Salomão Soares e Gerson Sereno, que montaram também suas usinas de beneficiamento. Esta informação atesta a importância do algodão para a economia local, fato que fazia partirem daqui diariamente uma frota de caminhões carregados com fardos do produto descaroçado e enfardado, para abastecer as fábricas de tecidos de São Luís, Codó e Caxias.
Desde 1892, com a instalação da Companhia Manufatureira e Agrícola do Maranhão, e em 1921, com a construção e funcionamento da estrada de ferro São Luís-Teresina, o algodão, o arroz e o babaçu, voltaram a alavancar a economia do Estado, trazendo riqueza e prosperidade para muitos municípios.
Em seguida vieram as usinas de beneficiamento de arroz, com suas máquinas barulhentas e eficientes, a descascar milhares de toneladas desse cereal que ocupa lugar de destaque na dieta alimentar do brasileiro. A economia pujante do município fazia com que partissem daqui caminhões e mais caminhões carregados com o produto já beneficiado, com destino a diversos municípios, mas também para outros estados nordestinos. A economia se consolidava definitivamente na região, baseada na aptidão agrícola e pecuária da terra abençoada, e na força empreendedora dos moradores do lugar.
Hoje, produtos como o algodão, sumiram da pauta de exportação, a ponto de não termos uma só usina de beneficiamento funcionando no lugar. O aparecimento de doenças ou pragas, como a do bicudo, somados a perda de importância do produto em razão da queda de preços no mercado internacional, e ao fechamento das fábricas de tecidos e tecelagens em Codó, Caxias e São Luís, fez com que essa cultura fosse perdendo importância até desaparecer totalmente como item de exportação.
Desaparecia um produto que alavancou a economia da região, formando as primeiras fortunas e gerando emprego a muitas famílias. Nos campos brancos em razão das plumas dessa bela cultura, e que também se caracteriza como uma oleaginosa, já não se vê mais a presença de trabalhadores em grande quantidade, necessidade imposta pela exigente planta.
O babaçu foi outro produto que praticamente sumiu da pauta, substituído que foi pela soja que começou a ser produzida em escalas monumentais no sul do país, e depois no centro oeste, até se instalar também no cerrado maranhense. Foi a pá-de-cal lançada sobre esse produto extrativo que muito contribuiu para o desenvolvimento da região e do estado do Maranhão.
Hoje, praticamente só conserva a sua importância nos povoados da região, quando o cheiro da amêndoa cozida para a extração do óleo se eleva gostoso às alturas, relembrando a importância que o babaçu já teve entre nós.
É certo que ainda existem algumas fábricas de óleo e de fabricação de sabão e detergentes no estado, mas, tudo muito longe do frenesi que esse produto da terra provocou em décadas passadas. As palmeiras decantadas pelo nosso poeta maior, Gonçalves Dias, hoje estão sendo arrancadas para darem lugar às pastagens.
 Por último, outro produto tão caro entre nós, o arroz, foi perdendo importância com a chegada de grãos com melhor aparência e preços mais atraentes, produzidos no estado de Goiás ou no Rio Grande do Sul, reduzindo a participação do nosso cereal na economia regional. Hoje, ainda existem algumas usinas funcionando no município, em torno de seis na sede, diferentemente dos outros dois produtos acima citados. Mas, as maiores indústrias, encontram-se com suas portas baixadas, mudas. As montanhas de casca de arroz que se viam com frequência pelos caminhos, hoje é uma visão do passado. É certo que existem ainda muitas famílias que tiram o seu sustento cultivando essa cultura, mas o cereal não possui a importância que tinham tempos atrás.
          Finalmente, dos inúmeros engenhos de cana-de-açúcar que existiam na época, restaram poucos também. As moageiras de cana com seus cilindros de madeira, tocadas por uma junta de bois que giravam em circulo, estão paradas, não gemem mais. Eram elas que esmagavam a cana e tirava dela o suco doce que depois de fermentado em grandes gamelas era levado ao fogo para a fabricação de rapadura e cachaça, e açúcar, no princípio. Sumiram como atividade econômica.
E, a não serem pela existência de um ou outro engenho perdido no interior do município, poucos resistiram à passagem do tempo e às mudanças econômicas. Alguns desses empreendedores se notabilizaram como importantes produtores de aguardente, produzindo uma cachaça com coloração dourada, muito consumida pelo povo da região. O gosto pela velha cachacinha ainda é grande, mas o número de seus fabricantes diminuiu sensivelmente. Nosso povo prefere meter a mão no bolso e comprar uma garrafa da “marvada” no primeiro boteco da esquina a colocar para funcionar novamente as velhas moendas. A tradição perdeu-se no tempo também.
As serrarias também proliferaram na região ante à ocorrência de florestas recheadas por madeiras nobres e de grande procura por parte de compradores de outros estados nordestinos. Durante muito tempo procedeu-se grande derrubada de madeiras nobres como o cedro, o pau d’arco, a aroeira, a maçaranduba, e o jatobá, dentre outras espécies de grande valor econômico, de tal modo que hoje essa madeira, antes abundante, está por demais escassa. As maiores serrarias, hoje não passam de cinco, e mesmo estas, especializaram-se na fabricação de portas, esquadrias e móveis, sobrevivendo em meio a um mercado bastante promissor, utilizando-se da madeira que ainda resta, ou da originária do Pará. Mudaram o foco do empreendimento para não desaparecerem do mercado.
Hoje já existem na região algumas pequenas fábricas instaladas, como a de caixas-d’água, pias e outros produtos, pertencente ao empresário José Aarão de Oliveira Barros, que comercializa seus produtos em quase toda a região maranhense e tocantina. Fabricam-se também outros produtos como cadeiras, velas, detergentes e sabões, além de confecções, produtos metalúrgicos e móveis, empregando um número razoável de pessoas.
Entretanto, o forte do município atualmente é o comércio, que muito se desenvolveu nos últimos anos, setor este que abordaremos a seguir.  



sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

A História de Presidente Dutra - (A luta pela sobrevivência) - Parte 23



A agricultura e o extrativismoCostuma-se afirmar que o criador de gado não gosta de trabalhar com atividade agrícola, por a considerarem por demais simplória naquele tempo. Mas os nossos bandeirantes haveriam de cultivar seus próprios alimentos, à falta de mercado onde pudessem obtê-los. Trouxeram consigo a experiência do trabalho com o milho, o feijão, a batata-doce, o inhame, e a mandioca, cultivados à larga em seus estados de origem. E logo alguém vindo das regiões úmidas nas imediações da capital, trouxe também a experiência do cultivo de um cereal que logo cairia no gosto do novo colonizador: o arroz. Sem querer, estavam adotando o costume dos seus homônimos orientais. Lá no Japão, o arroz faz parte da culinária local como alimento básico e insubstituível. Além disto, o caule da planta também é utilizado para a fabricação de esteiras, tatames, chapéus, entre tantas outras finalidades. E nosso Japão, além de se integrar na dieta regional, dado à flexibilidade do seu caule, passou a ser utilizado no enchimento de colchões para dormir.
            Antônio Bernardino Pereira do Lago, tenente coronel português, incumbido por D. João VI, em 1818, de elaborar As Cartas Topográficas da Capitania do Maranhão, afirma que na Província já se cultivava o arroz, não o que conhecemos, branco e gostoso, mas um arroz vermelho, também chamado “arroz da terra”. Discorrendo sobre a cultura que caiu no gosto dos maranhenses, o militar português afirmou: “O arroz era ainda mais antigo, porém vermelho, chamado “da terra”, e alguns querem que seja natural do país; entretanto, em 1765 é que foi introduzida e promovida no Maranhão a cultura do “branco da Carolina”(USA), pelas diligências da Companhia e em 1767 começou logo a exportar 2.847 arrobas”. (pág. 42, 1822).
            Observa-se através do depoimento acima, que o arroz, mesmo o de qualidade ruim, já fazia parte da alimentação do maranhense, daí a sua importância desde o começo da nossa colonização como um dos produtos que compunham a nossa pauta de exportação, e também da dieta maranhense. 
            A terra que produzia alimento em profusão, também aceitava, com vantagens, a plantação do algodão, do fumo e da cana-de-açúcar. Nessa época alguns engenhos foram surgindo e seus proprietários passaram a produzir rapadura, e até mesmo o açúcar que consumiam, o mascavo. O fumo também era industrializado em pequenas unidades familiares em forma de grossos rolos para comercialização, como fazia o pioneiro José Nunes de Almeida em sua fazenda Caiçara(bisavô deste escriba). Todos esses produtos eram vendidos na vila que começava a se formar, mas, em maior escala, eram transportados para as vilas de Caxias, Pedreiras, Barra do Corda e Codó.
            As dificuldades do início da povoação foram assim superadas com muita luta e destemor. Mesmo se situando em uma região com um excelente índice pluviométrico, ainda ocorriam problemas com a má distribuição de chuvas, que vez por outra afetava a produção de alimentos.
Um fato relatado por D. Feliciana Nunes Guterres(falecida recentemente aos cem anos), revela como esses pioneiros ainda haveriam de se defrontar com muitas barreiras até que o mercado se consolidasse perfeitamente. Com a memória ainda muito viva, lembrou que, certa vez, por volta de 1927, o Coronel Diolindo Luiz de Barros passou por um aperto muito grande, como de resto passaram também muitas famílias que ali residiam, quando lhe começou a faltar arroz para o consumo da família. Economicamente remediado, até possuía o numerário para adquiri-lo, mas não encontrava o produto na praça, pois a safra do ano anterior havia sido muito pequena em razão da escassez das chuvas que haviam caído irregularmente.
Assim, o arroz que era o principal item da alimentação do maranhense, estava em falta e ninguém tinha para lhe vender. Por conta disso, teve que empreender viagem para a região de São Domingos, povoado que se formava mais ao sul, em busca do produto. Preocupava-o ainda mais o fato de daí a poucos dias estar recebendo um numeroso grupo de parentes e amigos que vinham de Pedreiras para visitá-los. Para sua felicidade, encontrou o que procurava na região da Serra Negra e pode retornar para casa mais tranquilo.
            O fato narrado acima mostra o quanto era difícil a vida dos nossos pioneiros. Qualquer erro de estratégia poderia levá-los a um enorme aperto, senão a contactar novamente com o fantasma da fome, no que pese as condições favoráveis de solo e clima que encontraram na região. 
            Nada disto impediu que logo a região passasse a se destacar como um grande celeiro de alimentos para o nordeste, produzindo também o algodão em larga escala. Foi nesse tempo que se abriram estradas mais seguras e largas, e os primeiros caminhões começara a chegar até a região para o transporte do arroz, do algodão e do babaçu.
            A propósito disto, esta palmácea é um vegetal de múltiplas finalidades. Da amêndoa se extrai um excelente óleo comestível, que durante muitos anos ocupou posição de destaque na nossa pauta de exportação. A palmeira, que é encontrada em abundância no estado, fornece desde a palha para a cobertura dos casebres, ou para a feitura de esteiras e cofos, até talos para a construção de cercas provisórias, e o próprio caule, cilíndrico e grosso, é utilizado para a feitura de currais e pontes primitivas. Da casca do fruto, ou mesocarpo, produz-se um carvão com altíssimo teor calórico que substitui com vantagens o carvão proveniente da madeira.
Foi em razão da presença dessa palmácea, que em Codó, Caxias e São Luís, não demoraria a surgir as primeiras indústrias de extração de óleo, impulsionando a economia da região a uma velocidade fenomenal. Ainda hoje, com menor importância, centenas de famílias pobres têm, na extração do babaçu, um dos principais componentes da renda familiar.
Passando por um período de pouca importância, a renda obtida com o produto não se sobressai mais. Contudo, uma grande quantidade de famílias maranhense continua a retirar dele o óleo  de cozinha para o próprio consumo.  Em outras regiões do estado, quebradeiras de coco, contando com a ajuda de organizações não governamentais, já estão produzindo outros produtos com maior valor agregado, como o sabonete e o shampoo, além de cremes com propriedades terapêuticas para o combate aos radicais livres que provocam o envelhecimento precoce.
O babaçu, indiretamente, contribuiu para abalar negativamente a economia maranhense. Milhares e milhares de trabalhadores que antes laboravam na cultura da cana-de-açúcar na ilha de São Luís, e ribeiras do Mearim e Itapecuru, deixaram os engenho atraídos pela notícia de que na região dos cocais as terras eram livres e ainda contavam com uma palmeira, chamada babaçu, com a qual se poderia tirar boa renda. Assim, o babaçu contribuiu em muito para a ocupação do solo da região do Japão, mas, ao mesmo tempo, teve importância decisiva para a derrocada da cultura canavieira na região mais próxima ao litoral.
Eurico Teles de Macedo, um engenheiro carioca que aqui chegou no início do século XX, para trabalhar na construção da estrada de ferro São Luís-Teresina, relatou em seu excepcional livro O Maranhão e suas riquezas(Coleção Maranhão Sempre - Editora Siciliano), que:

[...] Os engenhos de açúcar, e até mesmo as boas usinas de açúcar, como a de Cristino Luz no Engenho d’Água, próxima a Caxias, viram-se de braços com as maiores dificuldades para produzir safras mínimas, porque o êxodo dos trabalhadores para os cocais se tornou notavelmente elevado e, não fora a cachaça, que encontra grande número de admiradores e gozadores em todo o Brasil, os alambiques teriam secado de uma vez e não mais os engenheiros poderiam sentir o álacre cheiro da cana fermentada, ou do néctar alcoólico...”.(pág. 63, 2001).


            A região da mata do Japão, escolhida pelos pioneiros em razão da riqueza do seu solo, devolveu com abundância cada semente lançada à terra, permitindo o crescimento exuberante das culturas repatriadas de outras terras nordestinas. No solo visguento e rico em fertilidade, as sementes trazidas de outras terras rendiam aqui o dobro ou mais do que produziam lá. O algodão arbóreo, cultivado no Piauí e no Ceará, aqui se transformava, de fato, em árvore de porte avantajado, produzindo plumas tão alvas e fibrosas que logo transformou a região no reduto de maior produção dessa cultura no estado. O milho que emitia espigas pequenas com grãos minúsculos em outras terras, ao ser lançado no massapê dava origem a touceiras muito avantajadas e soltavam espigas fabulosas, com grãos  cheios e a coloração do mais puro ouro.
            A cana-de-açúcar, uma das primeiras culturas a ser implantada no Maranhão, aqui se expandiu com velocidade, dando margem a instalação de muitos engenhos onde se produzia rapadura, cachaça, e até mesmo o escuro açúcar mascavo. Era rara uma propriedade que não dispusesse do seu engenho. No final dos sessenta, início dos setenta, ainda era possível encontrar alguns engenhos funcionado a pleno vapor no município. Como o do senhor Jorge, no São Benedito, o dos Carvalho, próximo à residência do Senhor Basto Ferreira, ou mesmo o do senhor Beltrão Campelo, na Canafístula. Este último talvez tenha sido o maior engenho em atividade durante muitos anos, produzindo uma cachaça amarelada, dourada mesmo, bem ao gosto dos apreciadores do produto. Quando criança, ainda testemunhei a presença de um engenho instalado dentro do quintal da casa hoje pertencente ao senhor Avelino Bezerra, em plena Rua Grande.   
O fumo foi outra cultura que rendeu bons dividendos às famílias advindas de outros estados nordestinos, onde essa cultura era bem cultivada. Aqui se produziam uma grande quantidade de fumo-de-corda, que depois era comercializado em outras regiões, como já afirmei.
Mas nenhuma cultura teve tanta importância econômica quanto o arroz. A orizicultura foi, durante muitos anos, a principal atividade econômica da região. Cultivado em todas as propriedades agrícolas, ensejou a instalação de muitas usinas de beneficiamento no município, algumas ainda hoje em funcionamento. Foi, sem dúvida, a base da economia local, ajudando a formar algumas das maiores fortunas que se tem no município.
            Assim, todas as sementes semeadas respondiam com produção muito acima do esperado, enchendo paióis e formando mesas tão fartas de alimentos que logo a fama da região ganhou mundos, provocando a vinda de novas e numerosas famílias para a terra antes desconhecida. A região passou a ser vista como um celeiro de produtos agrícolas, abastecendo as maiores cidades da região nordestina, tão logo as primeiras estradas foram abertas e permitiu o tráfego de caminhões. 

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

A HISTÓRIA DE PRESIDENTE DUTRA(A Economia Regional)



  
O boi abre o caminho – A ocupação das áreas com pastagem natural abundante, os chamados “campos gerais”, foi feita em um período relativamente curto, empurrado pelo crescente aporte de novos criadores de gado que desciam o nordeste rumo ao norte em busca de terras férteis, livres e com abundante presença de água. Nem mesmo a necessidade de consideráveis investimentos na preparação das terras para cultivar as pastagens com que deveriam alimentar seus rebanhos, era impedimento suficiente para barrar essa corrente migratória ininterrupta.

Afinal, o problema maior para esses criadores sempre fora as constantes faltas de chuvas na caatinga nordestina. E por ser este um obstáculo impossível de ser superado, não temiam distâncias na preservação da própria vida e manutenção de seus rebanhos, ambos ciclicamente atingidos por esse terrível fenômeno natural.

            Povo destemido e desbravador, os nordestinos foram tantas vezes atingidos pela escassez de chuvas, que se viam obrigados a abandonarem sua própria terra para buscar abrigo em  regiões distantes. E por esta razão, são responsáveis pelo desbravamento e colonização de todo o norte do país.

Atingidos a cada três anos por este fenômeno climático aterrador, a história aponta para a seca de 1777 – 1779, como a mais devastadora que se têm notícia desde a colonização do Brasil pelo europeu. Nesse período de grande aflição, quando a terra sequiosa não consentia que brotasse praticamente nada, houve uma intensa migração de pessoas de Estados como o Ceará, o Rio Grande do Norte, a Paraíba e o Piauí, em direção ao interior maranhense.

Também conhecida como “seca grande”, teriam perdido a vida mais de 500.000 nordestinos em decorrência da terrível sequidão que assolou os campos e as cidades sertanejas, trucidando pessoas e rebanhos, salvando-se apenas aqueles que buscaram refúgio em regiões mais úmidas, como o vale do Carirí, no Ceará, ou os Vales do Parnaíba e Gurguéia, no Piauí, além das terras maranhenses mais a oeste e norte.

Existem relatos dantescos de que vilas inteiras desapareceram do mapa.  E diante de flagelo tão grande, somente não morreu quem juntou a família, e os poucos animais que restaram, e empreendeu uma fuga desesperada rumo ao desconhecido em busca de água e comida. E mesmo destes, muitos ficaram pelos caminhos, alguns sem o direito a uma cova rasa como sepultura, tal era o desânimo e a falta de força dos que restaram vivos.

O Padre Joaquim José Pereira testemunhou no Rio Grande do Norte um destes terríveis períodos de seca no período compreendido entre 1790/1793, quando a fome e a sede se abateu com tanta violência contra o sertanejo, que transformou a caatinga nordestina num grande cemitério de corpos insepultos. Seu relato à Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro(Tomo LXII), ficou registrado como uma dos mais tenebrosos já publicados naquele periódico. Com a alma dilacerada, Padre Joaquim derramou seu pungente lamento, registrando com tintas de sangue a tristeza que insistia em consumi-lo, dizendo assim:



“Ah! Quem pensara que estas creaturas haviam de servir de pastos as aves nocturnas amigas do sangue? Ellas pousavam em seus próprios aposentos, e correndo pelo chão trepavam sobre as creaturas, que já estavam prostradas pela fraqueza, e a vista das mesmas pessoas que as cercavam, lhes bebiam o sangue”. (PEREIRA, Pag. 179).



           A seca de 1877/1879, um século depois, também comportou relatos de magnitude igual ou maior, obrigando o império a tomar as primeiras providências para minorar os seus efeitos. Consta que D. Pedro II foi às lágrimas quando presenciou a gravidade do problema que dizimou a economia da região e provocou terrível mortandade, especialmente de crianças e velhos.

Ferido na sua dignidade, teria ele proferido a famosa frase que ficaria para sempre gravada na memória do povo da região: “nem que eu tenha que me desfazer da última jóia da Coroa, não permitirei que tal flagelo se abata outra vez sobre esse povo sofrido".

Consta também que foi essa a primeira promessa não cumprida de terminar com a seca na região. Até porque a seca é um fenômeno natural que não pode ser exterminada ou evitada, e sim combatida nos seus efeitos.

            Foi durante esse período que aconteceu também a maior corrente migratória de nordestinos ao nosso estado, habitando lugares dantes nunca ocupados, trazendo consigo, além dos membros da família que resistiram à grande caminhada, a experiência do trato com o gado e uns poucos animais que conseguiram concluir a longa jornada.

E para quem já havia empreendido tamanha caminhada, as distância entre o local onde haviam situado suas fazendas e o mercado no qual deveriam comercializar seus produtos, não passava de coisa insignificante. Empreendiam caminhadas de centenas de quilômetros tangendo tropas e rebanhos, como se estivessem se dirigindo ao armazém da esquina, debaixo de chuva ou sol, sobre terrível lamaçal ou debaixo de nuvens de poeira vermelha.

E assim transformaram a incipiente vila de Caxias em uma feira importante para a comercialização dos animais por eles criados. A boiada era tocada durante dias e dias, seguindo por caminhos abertos pelos vaqueiros a golpes de foice e machado, até chegarem nas áreas de campo aberto, já próximo ao Itapecuru, em cuja margem a povoação crescia a olhos vistos. Caxias iria se transformar em breve no mais importante entreposto de comercialização de gado do interior maranhense, e um dos maiores do nordeste, igualando-se à Feira de Santana, na Bahia.

            Foi nesse tempo que a região do Japão passou a contar com muitas fazendas de gado espalhadas pela vastidão do seu território, mesmo não havendo nenhuma vila em condições de ser apelidado por esse nome. Fazendeiros foram se situando nas regiões da Lagoa de Dentro, Canafístula, Taboa, Fortaleza e Varjão, derrubando a mata virgem e situando suas moradas de forma isolada uma das outras. Com o tempo, começaram a sentir a necessidade de organização de uma vila, um arruado pequeno que fosse, lugar onde pudessem instalar uma pequena área de comércio ou de prestação de serviços. Foi assim que surgiu a povoação do Curador. Na encruzilhada em que já se instalara o Curandeiro que atendia ao povo da região do Japão maranhense que vinha em busca de cura para seus males.

Diferentemente de Barra do Corda, cujo fundador, Manoel Rodrigues de Melo Uchôa, havia recebido a incumbência das autoridades da capital de criar uma povoação em um lugar no centro da região, recebendo depois o pagamento pelos seus serviços, aqui, a vila se formou espontaneamente, sem o caráter de oficialidade que marcou Barra do Corda. O Curador nasceu da necessidade e da coragem de seus primeiros aventureiros em se agrupar como aglomerado urbano, quebrando a característica de individualidade e isolamento que havia imperado até ali.

Nasceu daí a certeza de que o Curandeiro foi, de fato, o primeiro ser humano a habitar as terras desconhecidas até então, sendo, de fato, o fundador do povoado do Curador. Depois dele vieram aqueles bandeirantes que aqui ergueram pequenas choupanas, que mais se pareciam com ocas indígenas, para protegerem a si e aos seus das intempéries e do ataque de animais selvagens.

            E assim, esses homens destemidos que antes haviam varado a caatinga espinhenta atrás de bois fujões em suas terras pretéritas, não tiveram muitas dificuldades para se adaptarem às matas fechadas do Japão maranhense, superando com destemor o receio que a floresta lhes impunha antes. Mostrando a força que possuíam, devassaram a selva fechada com seus machados predadores, e logo já havia uma rede de caminhos intercomunicantes que se ligavam uns aos outros, e aos centros maiores onde se podiam adquirir ou vender seus produtos.

            O gado mestiço que trouxeram consigo, continha bom percentual do sangue das primeiras reses trazidas dos Açores pelos portugueses. Eram animais de porte pequeno e com reduzida capacidade de produção de leite. Contudo, eram rústicos o bastante para suportar as diferenças climáticas locais, além das muitas pragas que infestavam a região. Pragas como o berne, o carrapato, as mutucas e as moscas que provocavam a doença chamada de mal-da-mosca-do-chifre, passaram a se constituir em inimigos a serem superados também.

À falta de açougues, praticavam suas próprias charqueadas e preparavam as peles em curtumes simples, utilizando o couro obtido para a confecção de selas, cordas, malas, perneiras, gibões, e até mesmo portas e janelas, além de uma infinidade de outros utensílios para o uso doméstico. Até mesmo nas camas, as tiras de couro eram usadas como substitutas das molas metálicas, transmitindo um certo conforto ao local em que o incansável trabalhador deitava para descansar da dura labuta diária.

            O leite era aproveitado na confecção de queijos, manteiga, coalhadas e doces, que usavam tanto para o consumo doméstico como para a venda. De modo que o boi garantiu a sobrevivência desses bravos pioneiros, servindo até mesmo de meio de transporte, puxando o famoso carro-de-boi que animou o sertão com seu gemido característico e saudoso.


sábado, 8 de setembro de 2018

A História de Presidente Dutra - A Evolução Administrativa e Judiciária - ( Parte 21)

Antiga fachada do prédio da Câmara Municipal de Presidente Dutra



       A passagem do Curador a Distrito Judiciário - Como já comentamos antes, a primeira referência que se tem da transformação do Curador à condição de Distrito Administrativo, se deu em 1896, através de uma Lei Municipal datada de 06 de junho daquele ano, aprovada pela Câmara de Vereadores de Barra do Corda e sancionada pelo seu Intendente, Coronel Fortunato Ribeiro Fialho.
        Somente a título de esclarecimento, informe-se que a figura jurídica do Intendente foi criada pela Constituição de 1891, e em 04 de julho desse mesmo ano, Barra do Corda passou a ser administrada por uma Câmara Municipal e por um Intendente. A Constituição de 1891 delegou poderes aos estados para que concedesse autonomia administrativa aos municípios. Assim também, trouxe outro benefício importante para os municípios, que foi a separação dos poderes legislativo e executivo. E dentro desta nova ótica, ficariam as câmaras de vereadores com poderes apenas para legislar, como ocorre ainda hoje.
        Em 1894, mais precisamente em 25 de junho, a Lei Estadual Nº 67 elevou Barra do Corda da condição de Vila para a categoria de cidade. E dois anos depois foi promulgada a referida Lei Municipal, já citada no parágrafo anterior, elevando o povoado do Curador a condição de Distrito, o mesmo aconteceu com os distritos de Papagaio, Leandro e Axixá. Apesar das inúmeras tentativas feitas, não conseguimos lograr êxito na localização deste diploma legal sancionado pelo interventor cordino, a tal Lei Municipal de 06 de junho de 1896.
          Mas é na Divisão Judiciária e Administrativa de 1912, que o Curador aparece como Distrito de Paz e Administrativo, com Barra do Corda como sede, ou cabeça da Comarca.
Em 1916, no dia 05 de abril, o governador do Estado do Maranhão, Dr. Herculano Nina Parga, sancionou a Lei nº 719, criando no povoado do Curador secções de registro civil de nascimento e óbito, situação prevista ainda para os outros distritos de Barra do Corda. Dizia ainda a lei em questão, que seriam aproveitados para ocupar os cargos criados, sempre que possível, o escrivão de polícia da localidade. E mais, que seriam nomeados “ajudantes de escrivães para as secções creadas, com a gratificação de 100$(Cem reis), annuaes, percebendo também as custas ou emolumentos de lei”. (art. 4º). Não foi possível encontrar informações de quem foi primeiramente nomeado para ocupar os cargos de Registro Civil e de Óbitos na vila do Curador.
         Por sua vez, o Decreto-Lei nº 539, de 16 de dezembro de 1933, confirma o Curador nesta mesma condição.
No ano seguinte, no dia 16 de janeiro, foi assinado e publicado o Decreto nº 567/34, com a nova distribuição das comarcas e temos judiciários do Estado do Maranhão. O art. 2º deste decreto traz um benefício inestimável para a nossa povoação, como se observa na descrição abaixo:

“Art. 2º - São criados os cargos de juiz de casamento com dois suplentes e escrivão de casamento e do registro civil em Anajatuba, Carutapera, Monte Alegre, São Bernardo, Vargem Grande e Curador, que passam a se denominar circunscrição, de acordo com o art. 3º e o quadro anexo, da Reforma da Organização Judiciária, a que se refere o Decreto nº 330, de 22 de setembro de 1932”.

  E em obediência ao decreto acima citado, no dia 02 de outubro de 1934, o Dr. Francisco Moreira de Souza, Juiz da Comarca de Barra do Corda, assina o Termo de Abertura do Livro Nº 1, para o Registro Civil, como também o Livro Nº 1, para o registro de Óbitos, e o Livro Nº 1 destinado para o Registro dos Casamentos. Foram nomeados para novos os cargos: como escrivão o Sr. Raimundo Matos, e como juiz do casamento o Sr. Adalberto Cardoso de Macedo.
            Caminhando no tempo, observa-se que no Decreto-Lei nº 159, de 06 de dezembro de 1938, que estabelecia nova divisão territorial para o quinquênio 1938/1943, o Distrito de Curador já aparece, simultaneamente, como circunscrições Administrativa e Judiciária.