| Tio Bazu com a esposa, tia Adalgiza |
José Pedro Araújo (*)
Quando criança, um dos meus maiores
divertimentos era passear na casa do tio Bazu, irmão de minha mãe, que distava
pouco mais de uma centena de metros da nossa casa. Ao chegar lá, já encontrava alguns
dos nossos primos que acorriam para o local com o mesmo propósito que eu:
desfrutar daquele paraíso.
Naquele tempo, vovó Zezé ainda
morava naquela casa enorme situada dentro de um sítio paradisíaco. Ir para lá
era sinônimo de muito divertimento e alegria. A casa, construída pelo nosso tio
em estilo casa-grande de fazenda, possuía uma varanda alta que dava para um sublime
pomar e terminava em um extenso baixão que o riacho Firmino, nos invernos
chuvosos, inundava completamente, transformando-o em um espelho d’água de mar
calmo e belo; este foi o primeiro oceano que eu conheci nos tempos da minha
meninice. Vista atual da morada - foto Jônatas Araújo
Naquele sítio, repleto de árvores
frutescentes, o paladar era sempre desafiado pelo néctar das inúmeras espécies daquele
imenso pomar. Laranja, lima (limão doce), banana, caju, mangas de várias
espécies, maracujá, coco da praia, goiaba, ata e condessa, tínhamos à larga
para desfrutar o quanto aguentássemos. Até alguns pés de guabiraba eu descobri
por lá em uma das minhas aventuras em uma parte do terreno em que eu não
costumava ir. Naquele instante, estava à cata de frutos dos buritizeiros
situados próximos à rodovia. Depois de me deliciar com tantas e deliciosas frutas
ainda debaixo dos pés, ficava difícil comer mais alguma coisa nas refeições de
costume. E isto preocupava a minha mãe.
Da casa dos meus pais para o
sítio, era um pulo. Tomava-se um beco frontal que passava ao lado da casa onde
mais tarde a minha avô, tia Felicinha e tio Barrinho passaram a residir, e
seguia-se por entre árvores por uma extensão não muito maior do que oitenta
metros, para chegarmos ao paraíso onde o prazer e o divertimento nos aguardava.
Uma única atividade, naquele seu recanto sublime, tio Bazu não nos permitia realizar:
a caça aos pássaros que ocupavam as copas das árvores, aproveitando-se das iguarias
maduras para se alimentarem, pagando depois a dádiva com seus trinados
melódicos que inundavam o ar, tornando o lugar ainda mais alegre e festivo. Deste
modo, entrar no sítio com uma baladeira nas mãos, nem pensar, era um ato terminante
proibido. Nosso tio entendia que o
assédio aos pássaros que tornavam o seu recanto tão festivo era, na verdade,
uma quebra de contrato, um abuso de confiança. E terminava sendo, de fato.
Sabiás, pipiras, xexéus,
periquitos, pombas, vim vins, corrupiões, chorós, jaçanãs e socós, entre tantos
outros pássaros, conviviam por ali tranquilamente, pois sabiam que a sua
segurança não seria ameaçada pelos garotos caçadores. Recordo-me que, em certos
finais de tardes, ouvíamos ao longe o canto do jaó. Era tão bonito ouvir aquele
pássaro se despedindo do dia, como se emitisse um lamento saudoso. Tudo isso
transformava aquele local em nosso Shangrilá. Um recanto de paz e alegria
diária.
Descendo a ladeira desde a casa,
por uma alameda de cajueiros, cujas copas se tocavam lá no alto, estabelecendo
uma passagem sombreada até chegarmos a um poço minador cuja água chegava-lhe ao
topo, escorrendo depois para um brejo próximo embelezado com alguns
buritizeiros plantados pelo titio. Naquele momento, havíamos chegado ao Pocinho,
ponto inicial das nossas brincadeiras. Aquele manancial emitia um líquido tão
limpo e claro que era possível se avistar o seu leito de areias muito brancas.
Era também de uma água tão fresca, que após um banho tomado, debelava-se o
calor que nos afetava duramente em dias mais aquecidos. Muitas pessoas captavam
água dali para beber, abastecendo os potes e moringas das suas casas, mesmo
depois do estabelecimento da Companhia de Águas e Esgotos da cidade, a CAEMA.
Dizia-se que a água que lhes chegava às torneiras de suas casas, ofertada por
aquela empresa, era de qualidade ruim. Enquanto isso, as mulheres, sempre
cuidadosas com seus madeixas, gostavam de lavá-los com aquele fluido sublime
apanhado do Pocinho, como era conhecida aquela nascente.
| Tio Bazu criança, ao lado da avó materna |
Estamos falando de um local com
cerca de oito hectares que quase faz limite ao sul com a praça central da
cidade, de quem dista pouco menos de uma centena de metros. A cidade quase
abraçou aquele oásis de paz, mas o homem que cuida dele ainda é o mesmo. Com a
força das suas mãos, desde quando era ainda um rapaz de pouca idade, ele foi
erguendo tudo para deixar o ambiente ao seu gosto. Daqui a poucas horas, tio
Bazu completará 102 anos de existência, mantendo a sua mente extremamente
aguçada, a ponto de conseguir recitar de memória, capítulos inteiros da Bíblia
Sagrada, livro objeto de suas leituras diárias. É ele também, com a ajuda da dedicada
esposa Adalgisa, e de dois de seus filhos, quem administra todo aquele paraíso,
sem descuidar do seu longevo bananal, arriscando-se ainda a plantar algumas
linhas de milho no vale que se estende até a margem do riacho Firmino.
Já houve tempo que ele implantou uma
casa de farinhada ao lado da sua morada. Ela fazia enorme sucesso entre nós,
especialmente nos serões que eram constantes. Ele também trabalhou com hortas
enormes, cultivou grandes áreas de tomate, arroz, criou suínos, apascentou algumas
cabeças de gado, laborou com peixes em tanques, fez tudo o que um dedicado e
ativo produtor rural faria. Isso tudo em uma área urbana, situada no centro da
cidade.
Ainda hoje, é possível encontrá-lo,
especialmente nas manhãs, quando a temperatura do ambiente se mostra mais
favorável, com uma enxada nas mãos capinando o seu bananal, ou organizando o
seu jardim, sempre com o seu chapéu de legionário na cabeça, cujo protetor de
nuca se derramava nas suas costas. Quem não aprova, nem um pouco, essa atividade
constante do marido, é a tia Ziza, a sua companheira de jornada. Preocupa-se,
com razão, pois para se chegar até a área do seu bananal ele tem que descer uma
íngreme ladeira repleta de pedras. Ele, então, como argumento, construiu uma
escada de muitos degraus, em alguns pontos da descida, e fixou nela um
corrimão, tudo para não deixar de lutar contra o imobilismo e a ociosidade.
Tio Bazu é o último dos filhos do meu avô Diolindo Luiz de Barros, e da minha avó materna, Maria José Nunes Barros. Uma família que costuma desafiar o tempo, chegando, alguns deles, a completar o seu centenário de vida. Ele, também, com seus 102 anos bem vividos, é o recordista da família nesse campo da existência humana. Parabéns, tio Bazu! Suplicamos ao nosso bondoso Deus que nos dê a Graça de vê-lo ainda por um bom tempo entre nós, para que possamos continuar bebendo na sua inesgotável fonte de sabedoria, aprendendo com o seu exemplo de vida, e depois distribuindo tudo o que assimilamos entre nossos filhos e netos. Felicidades, saúde e paz!
(*)
José Pedro de Araújo Filho é presidutrense, engenheiro agrônomo, autor do livro Viajando do Curador a Presidente Dutra – história, personalidades e fatos, e coordenador do blog Folhas Avulsas.


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