sábado, 21 de março de 2026

Quando o marketing educa

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Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

Em andanças pelo mundo, tive a oportunidade de conhecer os maiores aeroportos em todos os continentes. Gosto do frenesi dos aeroportos, verdadeiras cidades, sempre com grande movimento. Gente de todas as partes, raças, costumes e línguas.

Todas as vezes que desembarquei no aeroporto de Schiphol, um dos mais belos do mundo, um pequeno detalhe me chamou atenção. Nos mictórios, tinha o desenho de uma pequena mosca na louça. Achei que fosse mais uma intervenção artística, já que a Holanda, onde fica o aeroporto, é um país cheio de obras de arte. Terra de Vincent Van Gogh, Rembrandt, Johannes, Frans Hals e muitos outros, de inúmeros museus, esbarra-se facilmente em obras de arte por toda parte. Recentemente li a razão da pintura das moscas nos mictórios.

A administração do Aeroporto de Schiphol tinha um problema caro e irritante: os banheiros masculinos. Não importava quanto gastassem em limpeza, sinalização ou avisos educados. O “desperdício” fora do lugar era constante. O custo de manutenção estava fora de controle. Tentaram tudo. Cartazes pedindo colaboração. Regras mais duras. Produtos químicos mais fortes. Nada funcionava.

Até que um economista, chamado Richard Thaler, sugeriu algo radical. Ele não propôs uma regra. Nem uma punição. Propôs um alvo. A solução custava centavos. Eles colaram uma pequena mosca preta, realista, dentro de cada mictório. Bem perto do ralo. Só isso. O resultado foi quase absurdo. Os custos com limpeza caíram 80% em poucos meses. O “erro de mira” despencou. Sem campanhas. Sem ordens. Sem fiscalização.

Por quê? Porque o ser humano tem um impulso automático de jogar. Dê um alvo e ele tenta acertar. Sem pensar. Sem perceber. Thaler chamou isso de Nudge - o empurrãozinho. A ideia é simples e poderosa: você não precisa proibir nada, nem mudar incentivos financeiros para mudar comportamento. Basta redesenhar a escolha.

Outro exemplo clássico, que virou case, é a disposição dos produtos nas gôndolas dos supermercados. Apenas com um arranjo, ao colocar frutas na altura dos olhos e doces em prateleiras mais altas, o consumo de comida saudável subiu 25%. Ninguém proibiu o açúcar. Apenas tornou a maçã mais fácil. Tudo tem uma logística por trás, que funciona.

A lição para negócios e para a vida. As pessoas raramente fazem o certo porque você pediu. Elas fazem o que é mais fácil ou mais divertido no momento. Se o cliente não compra, talvez o site seja confuso. Se o funcionário não segue o processo, talvez o processo seja chato. Se a criança não guarda os brinquedos, talvez a caixa seja difícil de abrir. Esses exemplos mostram a criatividade e poder de transformação do marketing. Marketing genial não manda. Ele desenha a mosca, troca os produtos de lugar, e os resultados aparecem. Sabemos que o mundo é movido por impulsos invisíveis.

Recentemente vi, no YouTube, uma campanha publicitária em que alunos de arquitetura ficavam em estacionamento de um grande Shopping Center, observando motoristas que estacionavam nas vagas destinadas por lei a PcD, pessoa com deficiência. Grande parte dos que ali estacionavam não eram pessoas com mobilidade reduzida. Após o motorista estacionar, os alunos apareciam com uma cadeira de rodas. O motorista atônico se recusava a usar a cadeira, ao que os estudantes mostravam a mensagem: “Se usou a vaga do deficiente, também deve usar a cadeira”. Muitos se retiraram envergonhados.

Ainda precisamos evoluir muito para melhor convivência em sociedade. É de grande importância campanhas publicitárias para despertar na população noções de civilidade. O marketing educa.

(*)

Luiz Thadeu Nunes e Silva é Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e Globetrotter. Autor do livro: “Das muletas fiz asas”.

Instagram: @luiz.thadeu

Facebook: Luiz Thadeu Silva


domingo, 8 de março de 2026

Viva as mulheres!

 

Imagem extraída do Google

                                                                                                         Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

Quando Deus criou o mundo, primeiro criou o homem, para depois criar a mulher. Ensinam as Sagradas Escrituras. Isso, para os que creem. Colocou-os em um imenso jardim, que recebeu o nome de Éden. Depois veio a desobediência, e a história por ser demais conhecida e repetida, deixo para o amigo leitor, a querida leitora a conclusão.

O certo é, que Deus, com imensa sabedoria criou, uma companheira para compor com o homem um casal, e, assim, suavizar sua caminhada terrena. Sabia Deus que um homem só não iria a lugar nenhum.

Desde que Deus os criou, uma coisa é certa. Quem mais evoluiu foi a mulher. Depois de séculos sendo subjugadas, menosprezadas, proibidas, foram eles mais evoluíram, ocupando espaços em todas as áreas. Tenho inúmeras amigas mulheres. Como é bom ouvi-las. Não sou nenhum Chico Buarque de Holanda, que segundo relatos, tem alma feminina, e colocou sua sensibilidade em belas canções. Mas, também aprendi a ouvi-las.

Nascido de uma mulher forte, decidida, atemporal, empoderada, vindo de um tempo em que esse termo nem existia; minha mãe, Maria da Conceição, era professora primária, tocava uma casa e tomava conta de seis filhos. Tudo ao mesmo tempo. Após suas batalhas diárias, bastava-lhe um banho, um vestido limpo e cheiroso, batom nos lábios para haver a transformação. Sim, as mulheres têm o poder de se reinventarem após um batom, um lápis ao redor dos olhos, um rímel, e/ou pintarem as unhas. Isso, sem falar no cabelo. Mulher quando não tem o que mudar, muda o corte ou a cor do cabelo, e, assim, seguem em frente. Poderosa.

São as mulheres que, com seus ventres povoam a mundo. Você, caro leitor, amiga leitora, já parou para pensar que não há nenhuma guerra comandada por uma mulher. Sabe por quê? Nenhuma mulher enviaria seu filho para um campo de batalha, sabendo que poderia perdê-lo. Basta observar a bestialidade e sandice das guerras atuais. São os senhores inescrupulosos que enviam saldados para o front, para morrerem, enquanto ficam em casa, sãos e salvos.

São as mulheres, que vão visitar seus filhos na cadeia, após seus delitos. Com o coração apertado, estão lá, para dar amor, carinho e apoio. Geralmente, quando nasce uma criança nasce com problema, muitos pais abandonam-nas. As mães jamais. O que salva o mundo é amor de mãe.

As mulheres são mais resistentes, vivem mais, pois se cuidam mais. Vão mais ao médico. Isso explica por que há mais viúvas que viúvos. As mulheres se protegem mais, têm uma rede de amizade que as sustentam. Mulher: cozinha, lava, passa e arruma a casa para outra. Desconheço algum homem que cozinhe, lave, passe, ou arrume a casa para outro.

Triste ver a epidemia de feminicídio que assola o Brasil. A mentalidade machista de que homem é dono de mulher, tem que mudar urgentemente. Homem não é dono de coisa alguma. Homem saiu de dentro de uma mulher, embora desconfie que muitos são filhos de chocadeira, tamanha atrocidade que fazem, e desrespeito com mulher.

Homem é dependente de mulher, isso, sim. Tem que endurecer as leis para colocar esses mentecaptos na cadeia.

Mulheres, vocês são o sal da terra; são vocês que dão cor, sabor e perfume por onde passam. Imaginem um mundo sem mulheres. Inimaginável: seria punk, dark, feio e malcheiroso. Um caos. Mulheres iluminam o mundo com seu sorriso, seu jeito de ser. As mulheres fazem o diferencial por onde passam. Se uma mulher, executiva de uma empresa multinacional, olhar algo que não lhe agrada, é capaz de descer do salto, pegar uma vassoura, limpar da forma adequada. Homem não faz isso. Não é conosco.

Em andanças por diversos países, especialmente árabes, vejo a corja de homens juntos, sem mulheres. Talvez esteja aí a explicação para tantos conflitos.

Sou dos tais que acho que o carinho e o cuidado de uma mulher salvam o mundo, pelo menos o meu. Sou dependente de vocês, mulheres.

Mulher é um algo tão maravilhoso, que: Homem gosta de Mulher, Mulher tá pegando mulher, e tem homem querendo ser Mulher.

Meu respeito, carinho e admiração a todas as mulheres que fazem meu mundo mais feliz, perfumado, colorido e prazeroso.

Um brinde à todas as mulheres que com seus ventres povoam o mundo, com seu amor nos salvam todos os dia.

Neste dia 08 de março e em todos os dias do ano, Viva as Mulheres.

(*)


Luiz Thadeu Nunes e Silva
Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e Globetrotter é Autor do livro “Das muletas fiz asas”

Instagram: @luiz.thadeu

Facebook: Luiz Thadeu Silva


quinta-feira, 5 de março de 2026

O RELÓGIO DA MATRIZ DE SÃO SEBASTIÃO DO CURADOR

 

Fotografia de autoria da Paróquia de São Sebastião - Presidente Dutra (MA) 


                                                                                    José Pedro Araújo(*)

Ainda reverbera nos campos verdejantes da minha memória o som doce e saudoso dos sinos de São Sebastião. Tanto que as marteladas do velho relógio lá no alto me trazem de volta a um tempo que não me pertence mais: é tudo coisa do passado. A despeito disto, assim como eles continuam ainda lá, impassíveis em meio às nuvens que se movimentam constantemente, também vivem e resistem bravamente nas minhas lembranças.  

A igreja é das mais belas do interior maranhense, construída em intenção a São Sebastião, o santo guerreiro dos católicos. Erigida em lugar da velha capela de adobe cru, teve a nova igreja o lançamento da sua pedra fundamental no dia 04 de outubro de 1948, em meados do século passado. Construída em estilo Lombardo evoluído, é quase uma cópia melhorada de alguma outra igreja da região da Lombardia, quem sabe de Trucazzano ou de outra cidade qualquer de onde eram originários os frades Capuchinhos que projetaram a sua construção.

Assentada para sempre no alto de uma colina no centro do nascente município do Curador (Presidente Dutra, depois), tomava lugar ao templo simples que já não comportava mais o número de fiéis que aumentava rapidamente. Da antiga capela demolida restou, talvez, a primeira fotografia tirada na povoação, uma das poucas que ainda existem. A cena registrada se deu quando da passagem do Comandante Magalhães de Almeida e sua comitiva pela região, lá pelos idos de 1927. Naquele instante a comunidade do Curador se juntou para vê-lo em frente à capela de São Bento em construção, que mais tarde seria demolida para lugar à nova e bela Igreja Matriz de São Sebastião. Naquele dia, quase um século atrás, o governador fez um breve discurso de inauguração da estrada recentemente aberta na mata virgem, que nos tirava do isolamento completo da capital do estado. A foto também traz a figura do Frei Heliodoro de Inzago, um dos primeiros párocos a ministrar seus sermões em terras do Curador.

Aquela capela, naquele momento em construção, substituindo a anterior, construída anteriormente com paredes de taipa e cobertura de palha, deu lugar, quase vinte anos depois, como já afirmamos, ao novo templo. Além disto, os religiosos trocaram também o seu padroeiro. E passaram ao atual, São Sebastião, a obrigação de zelar pelos cristãos do lugar em substituição a São Bento, chamado anteriormente para espantar para bem distante a grande quantidade de cobras que existia no local. Assim, construído o belo templo, foi entronizado no altar-mor São Sebastião, imagem trazida do Rio de Janeiro por meios de transportes precaríssimos. E no alto de uma torre de esplendida beleza que aponta em direção ao céu de um azul estonteante, inseriram potente relógio com mostradores nas suas quatro faces: uma virada para o nascente, outra para o poente, a terceira para o norte e a quarta face direcionada para o sul. Para completar o quadro de extremo bom gosto, carrilhões enormes foram assentados no alto, prontos para repicarem de hora em hora, avisando ao povo da cidade sobre a contagem do tempo que segue célere rumo ao futuro.

O relógio continua lá, mas já não informa as horas passadas. Aquela maravilha tecnológica está hoje em completo estado de paralisação e se mantem mudo, calado, não informa a contagem do tempo para os fiéis e para os não iniciados na fé católica.

Já teve a sua utilidade impar, contudo. Atestando a sua importância, basta dizer que a maioria das pessoas da minha época aprenderam a ler as horas em um dos mostradores do relógio da matriz de São Sebastião.

Eu me incluo entre estas.

O ensinamento tinha um quê de pedagogismo, pois, a cada hora informada, seguia-se igual número de badaladas. Era só decorar a posição dos ponteiros do relógio. Ficava fácil aprender a ler as horas através dos belos e grandiosos mostradores do relógio encarapitado lá no alto da torre sineira.

Frei Metódio de Nembro descreveu a igreja de São Sebastião em 1955 como uma das mais espetaculares de todo o interior: Nas palavras do religioso, o templo era “Belo e imponente, com três naves divididas por uma fileira de colunas e de arcos mourescos, com transepto bem proporcionado e a ampla perspectiva de abside, propositalmente distanciada para dar lugar ao coro. A robusta estrutura - continuou o bispo capuchinho - todo o externo da fachada ornada de traços, enfeites, florões e pilares e o corpo da igreja, podem ser considerado uma forma de Lombardo evoluído; no conjunto o estilo é um harmônico eclético, interpretado com alma moderna”.  

O relógio de pendulo encrustado no alto da bela torre deve ser alemão ou inglês, como a maioria dos que enfeitam as torres das igrejas brasileiras. Quanto ao carrilhão, com os seus dois sinos que dobram alegres lá no alto do campanário da matriz e São Sebastião, é arte de uma fundição italiana famosíssima fundada em 1806 pela família Manfredini, e depois adquirida pela família Barigozzi. Atestando a importância dessa fundição, basta dizer que ela foi responsável pela confecção dos sinos de muitas igrejas históricas na Itália, algumas delas eu tive a felicidade de conhecer quando por lá passei. Por exemplo, no alto do campanário da histórica igreja Santa Maria del Fiori, Catedral de Florença, construída pelo incensado Giotto, batem sinos fabricados pela mesma fundição Barigozzi. Do mesmo modo, somente para citar mais um exemplo da importância dessa fundição, após um colapso nos sinos da Basílica de San Marco em 1902, em Veneza, a fundição Fratelli- Barigozzi foi chamada para substituí-los por outros. Hoje, os cinco sinos que dobram lá no alto do campanário mais visitado do mundo, tem a mesma autoria da sua fabricação que os históricos sinos da Matriz de São Sebastião do Curador.  E custou também para transportá-los até nós. Não menos difícil também, foi içá-los até o alto e fixá-los definitivamente à vista de toda a cidade, para que pudéssemos contar as horas das nossas existências ou para nunca chegarmos atrasados aos encontros marcados.

Os sinos continuam a repicar, mas o relógio não traduz as horas em rápidas batidas, pois dorme docilmente um sono que incomoda àqueles que presenciaram a sua luta diuturna para registrar com fidedignidade a passagem do tempo. Por conta disto, certa vez, um grupo de amigos fraternos estavam degustando prazerosamente algumas cervejas geladas, quando o assunto relativo ao relógio da matriz veio à tona. Vou omitir o nome dos comensais por não me lembrar de todos e, assim, não cometer nenhum engano. Mas, voltando ao assunto, estavam os amigos alegremente entornando alguns copos de uma deliciosa e gelada cerveja, quando veio à pauta a lembrança de dias passados quando o velho contador do tempo serviu de instrumento para que todos aprendessem a ler as horas através de um mostrador de relógio.

Conversa vai, cerveja vem, chegaram os amigos àquela fase de meia embriaguez e grande euforia, ocasião em que alguém lançou o desafio: por que não nos juntamos e mandamos consertar o relógio da matriz?

Naquele estado de elevação em que se encontravam aqueles espíritos alegres, quando do bolso de todos os homens jorra dinheiro mesmo sem existir, chegaram a um rápido acordo para colocar novamente o relógio da torre em funcionamento.

No dia seguinte, saiu o proponente à cata dos outros três amigos para confirmar o acordo. Foi uma enorme surpresa, pois, na maioria das vezes, os assuntos tratados por ocasião de alguma bebedeira, caem depois no esquecimento. Mas, malgrado alguém não se lembrar o que haviam combinado, todos confirmaram o acerto. Afinal, eram homens de palavra, não uns pés inchados quaisquer!  Palavra confirmada partiram à procura de alguém para realizar o difícil serviço.

A tarefa caiu nas mãos do relojoeiro Albuquerque, que logo se dedicou à tarefa. Na verdade, o antigo relógio não apresentava grandes defeitos, estava apenas precisando de limpeza e de alguns ajustes para voltar a funcionar com precisão. A tarefa mais difícil era ajustar os ponteiros dos quatro mostradores na mesma posição, para marcarem a mesma hora, o mesmo minuto e o mesmo centésimo de segundo. O técnico resolveu o problema através de uma tecnologia nova: o telefone celular. Explico. Enquanto o relojoeiro trabalhava no acerto dos ponteiros lá no alto da torre, seu filho continuava no solo para avisar-lhe, através de um aparelho de telefone celular, quando os ponteiros estivessem na mesma posição dos outros. E assim voltou a funcionar lá no alto do campanário o querido relógio cujos mostradores se acham encrustados nas suas quatro faces.

Tarefa concluída foram os amigos novamente ao pároco local para avisar-lhe do cumprimento do desafio: o relógio já estava em pleno funcionamento. Mas, qual não foi a surpresa de todos. Ao invés de se mostrar feliz com o sucesso da operação, o religioso tentou repassar aos quatro amigos uma nova responsabilidade: eles deveriam contratar alguém para realizar a tarefa diária de dar corda ao relógio da matriz. Às expensas deles, é claro.

O que aconteceu depois, todos são testemunha: o importante relógio da matriz voltou ao seu estado anterior de completa mudez. Sobrou para nós apenas as lembranças das suas badaladas chamando a população para o cumprimento das suas obrigações. (Publicada originalmente em 2015).  

(*)


José Pedro Araújo é engenheiro agrônomo, funcionário público federal aposentado, historiador, cronista, romancista, e coordenador do blog Folhas Avulsas.