sábado, 31 de janeiro de 2026

Luxo é ter tempo para realizar desejos

 

Imagem extraída do Google

Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

 

Encerramos janeiro, primeiro mês do ano. É fevereiro: mês da alegria, da esbórnia, da carne, das festas momescas. Foi ontem, em que a dúvida era saber qual a roupa vestir para a virada do ano; quase ninguém mais lembra que roupa usou no réveillon. Muitos fizeram planos de futuro, na esperança de um 2026 melhor. Deus criou o tempo, os homens inventaram o calendário, na vã esperança de cronometrar o tempo. Mudou o ano, mas tudo continua igual.

Somos escravos das horas; cada dia estamos cada vez mais açambarcados de afazeres, coisas que elegemos como prementes. As tecnologias nos tornam mais ansiosos. Nunca teremos tempo para tudo.

Esses dias vi uma frase fabulosa: “Sabe qual a diferença entre tempo e dinheiro?”. Sabemos quanto dinheiro temos. O tempo, não. O tempo ė o único ativo que gastamos sem termos ideia de quanto nos resta. E, por isso, ele escape tão facilmente entre compromissos, silêncios e desejos adiados. Erroneamente, achamos que temos tempo de sobra: de ligar, de voltar, de recomeçar……a verdade que nunca saberemos quanto tempo temos pela frente. A ninguém foi dado o conhecimento de quanto tempo nos resta, e isso torna a vida fascinante, bela e surpreendente. A passagem do tempo ė silenciosa, e não avisa ninguém quando acaba. Ele só vai diminuindo, de forma quase imperceptível, enquanto seguimos ocupados demais. O tempo não dá macha ré, só anda para frente.

E, um belo dia, talvez tarde demais, percebemos que o tempo era o bem mais precioso que tínhamos. Que cada momento vivido e vivenciado: um café na companhia de amigos, uma mesa de bar, a cama com a pessoa amada, cada abraço que deixamos, eram momentos únicos e inesquecíveis, que não voltam mais. O tempo é hoje, agora, onde se esteja, para viver intensamente. Por isso, se hoje você não tem tempo para realização de pequenos desejos, pare tudo e encontre-o. Aprenda a usar o tempo com sabedoria, de preferência com pessoas que somem, de boa energia, que lhe escute, goste de sua companhia e lhe respeite.

O tempo urge, segue seu curso, impávido, sem prestar contas a ninguém. Aprendi com a vida que a coisa mais importante da vida ė o tempo da existência.

Vejo no meu entorno todos com pressa, muitas das vezes inócuas, deixando o melhor da vida. A pressa contemporânea não é apenas um traço comportamental, é um sintoma psíquico profundo. Corre-se não porque o tempo falta, mas porque sentir exige uma pausa que muitos já não suportam. A aceleração tornou-se uma estratégia defensiva, um modo eficaz de escapar da realidade. Quando tudo se move rápido demais, nada se aprofunda, e quando nada se aprofunda, a dor permanece difusa, mas silenciosa.

Correr tornou-se sinônimo de importância. Quanto mais acelerada a agenda, mais legitimada parece a existência. A lentidão, por outro lado, passou a ser confundida com fracasso, improdutividade ou fraqueza. No entanto, é justamente na lentidão que o humano se revela, pois sentir requer tempo, e pensar exige demora. A pressa, ao contrário, dissolve a experiência antes que ela se transforme em consciência.

Há uma dimensão psicológica clara nesse fenômeno. A aceleração contínua impede o processamento emocional. Não se elabora o luto, não se digere a frustração, não se escuta o próprio medo. Tudo é substituído por tarefas, metas, notificações. O sofrimento não desaparece, apenas se desloca, retorna como ansiedade crônica, irritabilidade difusa, cansaço sem causa aparente. O corpo começa a dizer aquilo que a mente não teve tempo de escutar.

Em tempos de correria, luxo, mesmo, ė ter tempo para realizar desejos.

(*)


Luiz Thadeu Nunes e Silva, é Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e Globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”.

Instagram: @luiz.thadeu

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

AS RUAS PROIBIDAS DA MINHA ALDEIA

Imagem avulsa do Google

 

José Pedro Araújo (*)

Tempos atrás, ainda no começo deste blog, publiquei uma crônica sobre este mesmo assunto, com o título de A Rua Proibida. Hoje, ao assistir a um vídeo do maior humorista piauiense, João Cláudio Moreno, deparei-me com assunto idêntico, no qual ele, jocosamente, enumera os dezesseis cabarés existentes na sua cidade, Piripiri – PI, nominando cada um deles.

Voltei no tempo, para a minha Presidente Dutra, quando, na segunda metade dos anos sessenta, a pequena cidade teve que aumentar, e melhorar, os estabelecimentos da sua zona do meretrício, com a chegada à cidade do 2º Batalhão de Engenharia e Construção do Exército. E, diferentemente de como acontecia com Piripiri, cujos cabarés tinham nomes apelativos, como o Espinhaço da Cabra, Candieirinho, em Presidente Dutra as zonas receberam números, ao invés de um nome pomposo. A zona do meretrício mais velha, situada nas imediações do Grupo Escolar Dr. Murilo Braga, já na periferia, como acontecia em todas as cidades, era conhecido como o Quinze, não sei por qual razão. E a zona do meretrício mais nova, inclusive o seu anexo, situadas no hoje bairro Paranoá, à margem da BR-226, estrada que os militares vieram de Teresina para construir, mais afastada ainda das casas de família, recebeu o nome de Dezesseis. Era a maneira simples do pessoal da minha terra dar nome, ou melhor, números, aos estabelecimentos para facilitar a identificação de cada um deles.

Como se sabe, um batalhão é composto por uma grande quantidade de homens – segundo pesquisei, esse número pode variar de sessenta a trezentos componentes - e se tiver a função daquele, cuja principal atividade era a construção de estradas, aí então a quantidade de gente, grande parte delas com contratos temporários, trabalhadores braçais, diga-se, a bem da verdade, eleva por demais essa quantidade. A cidade era muito pequena nessa época, e a chegada de tanta gente assalariada alavancou a economia do município. Presidente Dutra conheceria o seu primeiro odontólogo, Dr. Rozendo, além de outros profissionais que ainda não existiam por ali. E esses recém-chegados precisavam de casas para morar, mercearias sortidas para lhes oferecer produtos de primeira necessidade de melhor qualidade, lojas de tecidos com maior estoque, sapatarias, farmácia com maior variedade de medicamentos, etc.

Do mesmo modo, uma atividade que precisou de incremento e modernização nas suas instalações, foi exatamente aquela das mulheres de vida livre. Tudo isso porque, O Quinze, uma rua recheada de cabarés, era um ambiente cumulado por casebres pobres, onde a maioria dos estabelecimentos era até composta por imóveis com paredes de tijolo, mas sem revestimento nenhum, cobertura de telha, mas sem um acabamento mais elaborado, até mesmo com piso de chão batido. A maioria, contudo, era composta mesmo por choupanas de taipa, sendo que algumas delas pareciam-se mais com ocas indígenas da pior espécie.

Contudo, da cidade vizinha, São Domingos, chegou uma empreendedora com maior visão de mercado. Não que ela tenha ocupado um imóvel no Paranoá com uma infraestrutura luxuosa, pois o seu diferencial estava nas mulheres, melhor dizendo, nas funcionárias da casa. E deste modo, suas instalações físicas, pela urgência com que o negócio foi montado, quase não se diferenciava dos melhores lupanares do Quinze. Assim, buscando qualidade no produto que oferecia, foi a proprietária atrás de mulheres em outros municípios. A maioria delas foram contratadas nas boates de Teresina, sendo que algumas poderiam ser enquadradas como belas e charmosas senhoritas. Talvez a escolha da capital do Piauí tenha sido uma jogada comercial bem pensada, pois todos os novos recém-chegados vieram daquele estado, quiçá, daquela capital.

A empresária, também uma bonita mulher, tinha o hábito de trocar algumas delas, por outras até com melhor caimento. Quando isso acontecia, a notícia se alastrava como um rastilho de pólvora pela cidade. E ela própria, dependendo do status do cliente, também desempenhava o ofício que definia aquele tipo de negócio, apesar de ter, como sempre acontece nesses casos, o seu amante cativo e de quem não cobrava nenhum valor financeiro. Esse jovem, objeto da escolha da madame, por uma dessas coincidência, era um primo do autor dessas linhas.

Acredito que a rotatividade daquelas jovens profissionais do ramo do comércio sexual, a dita primeira profissão do planeta, ocasião em que o, digamos, corpo técnico da casa, era substituído, acontecesse porque aquelas mulheres iam ter até ali apenas por uma temporada, e não para fixarem residência definitiva na cidade. E logo que seus prazos se esgotavam, eram substituídas por outras do mesmo mercado.

Como a clientela que frequentava o Dezesseis era formada por gente mais endinheirada, as bebidas eram mais bem selecionadas, as mulheres também eram mais bem apessoadas, e mais bem vestidas. Não se viam por lá mulheres envelhecidas como a Maria Palestina, além de outras que já estavam na profissão há muito mais de uma dezena de anos. Para cobrar mais caro pelos serviços ofertados, tinha que se diferenciar daquelas que já eram conhecidas por ali de outros carnavais. Teriam que ser novidades, frescas e brejeiras.

Não me recordo de que os habitantes locais tenham recebido com asco ou repulsa a abertura desse novo negócio na cidade. O assunto, aliás, era tratado apenas com curiosidade em quase todas as rodas de conversa, e, naquelas frequentadas somente por homens, era até um acontecimento bem-vindo. Aliás, durante o carnaval na cidade, as ditas raparigas desfilavam lampeiras pela cidade, ingressadas em blocos carnavalescos que seguiam festivamente pela cidade. E neles, aia gente de todas as camadas sociais, indistintamente.   

Outro diferencial, entre o Quinze e o Dezesseis, era que os bêbados contumazes, aqueles que já chafurdavam pelas ruas do Quinze desde o começo da manhã, e do meio-dia para a tarde já perambulavam cambaleantes na rua sem calçamento, esses não eram figuras benvindas no Dezesseis. Primeiro por não possuírem carteiras recheada de dinheiro como os outros fregueses que batiam ponto por ali. Depois, havia, temos que confessar, uma separação de classes bem rígida. No Quinze, frequentavam agora somente os da classe inferior, a ralé; enquanto no Dezesseis, a nata da cidade, por assim dizer, incluindo-se aí, alguns comerciantes mais abastados, autoridades, e o grosso dos militares e funcionários graduados do 2º BEC, eram os clientes que se viam por lá, e que eram bem aceitos.

A música que se ouvia do local também era diferenciada. As vitrolas novinhas rodavam discos da jovem guarda e da nata do cancioneiro brasileiro, entre estes, os cantores conhecidos de boleros e até de Rock-and-roll. E como o ambiente era mais espaçoso, os dançarinos varavam a noite em animados convescotes.

Entretanto, como tudo na vida, o Dezesseis teve que fechar as portas. A sede do 2º BEC havia se mudado para a cidade Grajaú, distante mais de duzentos quilômetros dali. E, por conta disto, a clientela do Dezesseis havia se viu diminuída, do dia para a noite, reduzida que ficara a pouco menos da metade. Perdeu, assim, a sua importância econômica. Do mesmo modo, como sempre acontece nesses casos, as mulheres haviam seguido atrás dos soldados do brioso exército nacional.  

E o Alto Paranoá, onde se situava o Dezesseis, é hoje um bairro importante da cidade, e nele não existem mais os tais lupanares que transformaram a região em um ambiente festivo. Não tenho certeza, me corrijam se eu estiver errado, mas a rua onde se localizava o Quinze, é a comportada rua Quinze de Novembro, via residencial pavimentada.

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José Pedro Araújo é engenheiro agrônomo, funcionário público federal aposentado, historiador, cronista, romancista, e coordenador do blog Folhas Avulsas.