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José Pedro Araújo (*)
Tempos atrás, ainda no começo
deste blog, publiquei uma crônica sobre este mesmo assunto, com o título de A
Rua Proibida. Hoje, ao assistir a um vídeo do maior humorista piauiense, João
Cláudio Moreno, deparei-me com assunto idêntico, no qual ele, jocosamente,
enumera os dezesseis cabarés existentes na sua cidade, Piripiri – PI, nominando
cada um deles.
Voltei no tempo, para a minha
Presidente Dutra, quando, na segunda metade dos anos sessenta, a pequena cidade
teve que aumentar, e melhorar, os estabelecimentos da sua zona do meretrício,
com a chegada à cidade do 2º Batalhão de Engenharia e Construção do Exército.
E, diferentemente de como acontecia com Piripiri, cujos cabarés tinham nomes
apelativos, como o Espinhaço da Cabra, Candieirinho, em Presidente Dutra as
zonas receberam números, ao invés de um nome pomposo. A zona do meretrício mais
velha, situada nas imediações do Grupo Escolar Dr. Murilo Braga, já na
periferia, como acontecia em todas as cidades, era conhecido como o Quinze, não
sei por qual razão. E a zona do meretrício mais nova, inclusive o seu anexo,
situadas no hoje bairro Paranoá, à margem da BR-226, estrada que os militares
vieram de Teresina para construir, mais afastada ainda das casas de família, recebeu
o nome de Dezesseis. Era a maneira simples do pessoal da minha terra dar nome,
ou melhor, números, aos estabelecimentos para facilitar a identificação de cada
um deles.
Como se sabe, um batalhão é
composto por uma grande quantidade de homens – segundo pesquisei, esse número
pode variar de sessenta a trezentos componentes - e se tiver a função daquele,
cuja principal atividade era a construção de estradas, aí então a quantidade de
gente, grande parte delas com contratos temporários, trabalhadores braçais, diga-se,
a bem da verdade, eleva por demais essa quantidade. A cidade era muito pequena
nessa época, e a chegada de tanta gente assalariada alavancou a economia do
município. Presidente Dutra conheceria o seu primeiro odontólogo, Dr. Rozendo, além
de outros profissionais que ainda não existiam por ali. E esses recém-chegados
precisavam de casas para morar, mercearias sortidas para lhes oferecer produtos
de primeira necessidade de melhor qualidade, lojas de tecidos com maior estoque,
sapatarias, farmácia com maior variedade de medicamentos, etc.
Do mesmo modo, uma atividade que
precisou de incremento e modernização nas suas instalações, foi exatamente aquela
das mulheres de vida livre. Tudo isso porque, O Quinze, uma rua recheada de cabarés,
era um ambiente cumulado por casebres pobres, onde a maioria dos
estabelecimentos era até composta por imóveis com paredes de tijolo, mas sem revestimento
nenhum, cobertura de telha, mas sem um acabamento mais elaborado, até mesmo com
piso de chão batido. A maioria, contudo, era composta mesmo por choupanas de taipa,
sendo que algumas delas pareciam-se mais com ocas indígenas da pior espécie.
Contudo, da cidade vizinha, São
Domingos, chegou uma empreendedora com maior visão de mercado. Não que ela
tenha ocupado um imóvel no Paranoá com uma infraestrutura luxuosa, pois o seu
diferencial estava nas mulheres, melhor dizendo, nas funcionárias da casa. E
deste modo, suas instalações físicas, pela urgência com que o negócio foi
montado, quase não se diferenciava dos melhores lupanares do Quinze. Assim, buscando
qualidade no produto que oferecia, foi a proprietária atrás de mulheres em
outros municípios. A maioria delas foram contratadas nas boates de Teresina, sendo
que algumas poderiam ser enquadradas como belas e charmosas senhoritas. Talvez a
escolha da capital do Piauí tenha sido uma jogada comercial bem pensada, pois
todos os novos recém-chegados vieram daquele estado, quiçá, daquela capital.
A empresária, também uma bonita
mulher, tinha o hábito de trocar algumas delas, por outras até com melhor
caimento. Quando isso acontecia, a notícia se alastrava como um rastilho de
pólvora pela cidade. E ela própria, dependendo do status do cliente, também
desempenhava o ofício que definia aquele tipo de negócio, apesar de ter, como
sempre acontece nesses casos, o seu amante cativo e de quem não cobrava nenhum
valor financeiro. Esse jovem, objeto da escolha da madame, por uma dessas coincidência,
era um primo do autor dessas linhas.
Acredito que a rotatividade daquelas
jovens profissionais do ramo do comércio sexual, a dita primeira profissão do
planeta, ocasião em que o, digamos, corpo técnico da casa, era substituído,
acontecesse porque aquelas mulheres iam ter até ali apenas por uma temporada, e
não para fixarem residência definitiva na cidade. E logo que seus prazos se
esgotavam, eram substituídas por outras do mesmo mercado.
Como a clientela que frequentava o
Dezesseis era formada por gente mais endinheirada, as bebidas eram mais bem selecionadas,
as mulheres também eram mais bem apessoadas, e mais bem vestidas. Não se viam
por lá mulheres envelhecidas como a Maria Palestina, além de outras que já
estavam na profissão há muito mais de uma dezena de anos. Para cobrar mais caro
pelos serviços ofertados, tinha que se diferenciar daquelas que já eram conhecidas
por ali de outros carnavais. Teriam que ser novidades, frescas e brejeiras.
Não me recordo de que os habitantes
locais tenham recebido com asco ou repulsa a abertura desse novo negócio na
cidade. O assunto, aliás, era tratado apenas com curiosidade em quase todas as
rodas de conversa, e, naquelas frequentadas somente por homens, era até um
acontecimento bem-vindo. Aliás, durante o carnaval na cidade, as ditas
raparigas desfilavam lampeiras pela cidade, ingressadas em blocos carnavalescos
que seguiam festivamente pela cidade. E neles, aia gente de todas as camadas
sociais, indistintamente.
Outro diferencial, entre o Quinze
e o Dezesseis, era que os bêbados contumazes, aqueles que já chafurdavam pelas
ruas do Quinze desde o começo da manhã, e do meio-dia para a tarde já
perambulavam cambaleantes na rua sem calçamento, esses não eram figuras
benvindas no Dezesseis. Primeiro por não possuírem carteiras recheada de
dinheiro como os outros fregueses que batiam ponto por ali. Depois, havia,
temos que confessar, uma separação de classes bem rígida. No Quinze,
frequentavam agora somente os da classe inferior, a ralé; enquanto no
Dezesseis, a nata da cidade, por assim dizer, incluindo-se aí, alguns
comerciantes mais abastados, autoridades, e o grosso dos militares e funcionários
graduados do 2º BEC, eram os clientes que se viam por lá, e que eram bem
aceitos.
A música que se ouvia do local
também era diferenciada. As vitrolas novinhas rodavam discos da jovem guarda e
da nata do cancioneiro brasileiro, entre estes, os cantores conhecidos de boleros
e até de Rock-and-roll. E como o ambiente era mais espaçoso, os dançarinos
varavam a noite em animados convescotes.
Entretanto, como tudo na vida, o
Dezesseis teve que fechar as portas. A sede do 2º BEC havia se mudado para a
cidade Grajaú, distante mais de duzentos quilômetros dali. E, por conta disto, a
clientela do Dezesseis havia se viu diminuída, do dia para a noite, reduzida
que ficara a pouco menos da metade. Perdeu, assim, a sua importância econômica.
Do mesmo modo, como sempre acontece nesses casos, as mulheres haviam seguido
atrás dos soldados do brioso exército nacional.
E o Alto Paranoá, onde se situava
o Dezesseis, é hoje um bairro importante da cidade, e nele não existem mais os
tais lupanares que transformaram a região em um ambiente festivo. Não tenho
certeza, me corrijam se eu estiver errado, mas a rua onde se localizava o Quinze,
é a comportada rua Quinze de Novembro, via residencial pavimentada.
(*)
José Pedro Araújo
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