| Capa do Livro |
Chico Acoram (*)
Em dezembro do
ano passado, tive conhecimento, pelo Facebook, do novo livro de autoria do
escritor José Pedro Araújo, publicado na Amazon, com o título A MORTE DAS
ÁGUAS. Editada no formato e-book, a obra é um romance distribuído em
emocionantes 14 capítulos e um epílogo, totalizando 374 páginas. De imediato,
acessei o site amazon.com.br e, por apenas R$ 24,99, adquiri essa belíssima e
importante obra da lavra do romancista, contista e cronista maranhense, nascido
na cidade de Presidente Dutra (MA), mas residente em Teresina há vários anos,
onde constituiu família, sendo casado com a piauiense Helena Araújo, pai de
quatro filhos. É funcionário público federal aposentado (engenheiro agrônomo).
É autor do
livro de história Viajando do Curador a Presidente Dutra e dos romances O
Meu Inimigo Japonês, À Sombra da Casa Materna, O Herdeiro do Vento e
Terra de Ninguém. Publicou ainda os contos O Relógio da Matriz e Negociando
com a Morte. Atualmente, vem publicando em seu blog Folhas Avulsas
belas crônicas de sua autoria e de outros cronistas do Piauí, do Maranhão e de
outros estados. Aliás, José Pedro Araújo é o criador e coordenador desse
conceituado blog.
A MORTE DAS
ÁGUAS é um romance classificado como realismo brasileiro, notadamente
inserido na literatura piauiense. O autor, influenciado por sua vivência como
agrônomo e profundo conhecedor das disputadas terras da região sul do Piauí
(MATOPIBA), narra, em terceira pessoa, com grande maestria — clareza, concisão,
coesão e objetividade — as aventuras de um jovem piauiense bem-sucedido no Rio
de Janeiro que, após vários anos, decide retornar à sua terra natal para cuidar
da fazenda de seus falecidos avós maternos.
No desenrolar
da história, o autor mostra, de forma fidedigna, os danos ambientais e os
problemas sociais causados pela exploração gananciosa e equivocada das vastas
áreas dos cerrados piauienses, sobretudo das terras localizadas nas nascentes
do nosso maior caudal: o rio Parnaíba. Concomitantemente, desenvolve com
bastante criatividade o enredo central do romance: a cobiça de um vilão que
deseja tomar todas as terras herdadas pelo herói da narrativa, o Dr. Ricardo
Melo.
Para tanto, o
violento gerente da vizinha Fazenda Fênix — empresa multinacional do ramo da
soja e de outros grãos —, acompanhado de seus capangas, invade a fazenda Monte
Alegre, destruindo cercas, currais e casas de humildes moradores, atirando no
gado e na casa-sede com armas de fogo de grosso calibre. Os ataques resultam na
morte de animais e chegam, inclusive, a balear gravemente uma criança de seis
anos, neto de Enoque, vaqueiro e capataz da fazenda. São cenas de horror que
lembram antigos filmes de faroeste americano.
Filho único de
uma professora primária, Ricardo Melo, personagem principal do romance, ainda
criança morava com sua mãe em uma humilde casa situada na fictícia cidade de
Chapada Grande, no extremo sul do estado do Piauí. Tornou-se órfão de pai aos
três anos de idade. Nas férias e feriados prolongados, mãe e filho iam para a
fazenda Monte Alegre, de propriedade dos avós maternos, localizada não muito
distante da cidade. Nessa época, o avô dizia que, quando morresse, a fazenda
seria administrada pelo neto.
Mãe e filho
residiram nessa cidade até que o garoto concluiu o primeiro grau. Em seguida,
mudaram-se para Teresina, visando ao prosseguimento dos estudos,
matriculando-se Ricardo no Liceu Piauiense, onde concluiu o segundo grau.
Depois, o jovem foi morar no Rio de Janeiro para realizar os estudos
preparatórios para o vestibular. Conseguiu ingressar no curso de Ciências
Econômicas de uma universidade federal e, após formado, especializou-se em
comércio exterior.
Por mérito
próprio, obteve colocação em uma empresa multinacional de aço laminado,
chegando ao comando daquela indústria. Recebendo altos salários, o Dr. Ricardo
conseguiu economizar bastante dinheiro, bem como multiplicá-lo por meio de
investimentos realizados ao longo dos anos.
Sabia-se que o
Dr. Ricardo, no Rio de Janeiro, era um atuante defensor da natureza e sempre se
mostrava preocupado com as questões relativas ao meio ambiente, além de
contribuir com recursos financeiros próprios para ONGs voltadas à defesa de um
mundo melhor. Foi com esse perfil que retornou ao Piauí para cuidar das terras
herdadas do avô. Sabia que havia tomado uma decisão difícil e que os desafios
seriam enormes, mas desconhecia a dimensão dos perigos que enfrentaria no
comando da fazenda Monte Alegre.
Entre outras
personagens do romance, destacam-se o prefeito Uruçu e o delegado de polícia,
senhor Visgueira, ambos corruptos e mancomunados com o terrível gerente da
Fazenda Fênix, o holandês Mark Sorensen. Outra personagem curiosa é o traidor
Albertino, filho do velho Enoque. Revoltado com seu patrão Ricardo, Albertino
alia-se ao cangaceiro Honorato Gentil, responsável pelo trabalho sujo da Fênix.
Como aliados
do Dr. Ricardo Melo, figuram: o velho Enoque, vaqueiro e capataz da fazenda
Monte Alegre; o jovem e corajoso vereador Rodrigo Soares; o líder comunitário
Zé Arcanjo; o professor e pesquisador Afonso, da Universidade Federal do Piauí;
o amigo de infância Gut, mecânico e tratorista; o agrônomo Bruno Arns; dona
Severina e Salomé, esposa e nora de Enoque — sendo Severina também responsável
pelos cuidados da casa-sede; o jornalista Mário de Castro; e a jovem e bela
jornalista Lara Drumond, namorada de Ricardo.
O protagonista
do romance, Dr. Ricardo Melo, homem inteligente e perspicaz, passa a desconfiar
da sanha e do recorrente desejo do estrangeiro Mark Sorensen em adquirir sua
propriedade, sobretudo diante da existência de vastas extensões de terras
disponíveis nas adjacências. “Por que justamente as minhas terras?”,
questiona-se. Esse mistério o leitor só desvendará no final do livro. Trata-se
de um romance fantástico e emocionante.
Um aspecto
importante a ser observado na obra é o caráter metafórico do título A MORTE
DAS ÁGUAS. Seu significado torna-se claro quando o autor, por meio das
observações do Dr. Ricardo Melo, descreve com precisão a devastação das
nascentes do rio Parnaíba, decorrente da exploração irracional e criminosa
praticada por proprietários de terras da região.
Como agrônomo
e ex-servidor do INCRA, José Pedro Araújo sugere, por intermédio das ideias
revolucionárias do protagonista, ações voltadas à proteção desse importante
manancial, o “Velho Monge”. Entre elas, destaca-se a criação de uma Reserva
Particular do Patrimônio Natural, além da explicitação das vantagens dessa
iniciativa tanto para a natureza quanto para os moradores da região. O autor
sugere, ainda, atividades como a exploração turística, que poderia constituir
uma alternativa lucrativa, inclusive com a instalação de áreas para camping.
Imagina também a criação do “Parque Natural das Araras”, que “poderia atrair
gente de todas as partes do mundo para conhecer e apreciar o espetáculo
produzido diariamente pelas araras-canindé e outros pássaros que voltariam a
viver na região”.
Caro leitor,
pelo que foi exposto acerca do protagonista de A MORTE DAS ÁGUAS,
certamente se concluirá que o Dr. Ricardo é ousado e visionário; poder-se-ia
até dizer: um Dom Quixote moderno. Como exemplo, Ricardo idealiza a implantação
de um projeto particular de assentamento rural, cedendo parte de suas terras
aos antigos moradores expulsos da localidade Lagoa de Dentro, vizinha à fazenda
Monte Alegre. Para isso, precisaria convencer o senhor Zé Arcanjo, líder de uma
comunidade formada por moradores de uma paupérrima rua de Chapada Grande, os
mesmos que haviam sido expulsos pelos capangas da Fazenda Fênix. Entretanto,
não anteciparei ao leitor se tal projeto foi ou não viabilizado.
Para concluir,
entendo que A MORTE DAS ÁGUAS é um romance cujo objetivo principal é
divulgar a real situação das nascentes do rio Parnaíba, no extremo sul do
Piauí. Ou seja, mostrar a degradação das áreas de preservação onde se localizam
as nascentes do maior e mais importante rio do estado. Em outras palavras, o
autor busca alertar autoridades estaduais e federais, políticos, organizações
de proteção ambiental e toda a sociedade piauiense para o fato de que a
exploração irracional dos cerrados, especialmente das áreas de nascente do rio
Parnaíba, implicará sérios danos ambientais, ameaçando, inclusive, a perenidade
do rio Grande dos Tapuia.
Por outro
lado, o autor — agrônomo e ex-servidor do INCRA — demonstra, por meio do
protagonista Dr. Ricardo Melo, que é possível explorar racionalmente as terras
dos cerrados piauienses e as áreas das nascentes do rio Parnaíba, mediante a
implementação de ações públicas e privadas, tais como projetos de assentamento,
regularização fundiária, políticas agrícolas, técnicas modernas de combate às
pragas (sem uso de agrotóxicos) e outras práticas voltadas à preservação do
meio ambiente.
Recomendo,
portanto, a leitura deste excelente romance, A MORTE DAS ÁGUAS, de
autoria do escritor José Pedro Araújo.
(*)
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