quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A MORTE DAS ÁGUAS (ALGUNS COMENTÁRIOS)

 

Capa do Livro


                                                    Chico Acoram (*)

 

Em dezembro do ano passado, tive conhecimento, pelo Facebook, do novo livro de autoria do escritor José Pedro Araújo, publicado na Amazon, com o título A MORTE DAS ÁGUAS. Editada no formato e-book, a obra é um romance distribuído em emocionantes 14 capítulos e um epílogo, totalizando 374 páginas. De imediato, acessei o site amazon.com.br e, por apenas R$ 24,99, adquiri essa belíssima e importante obra da lavra do romancista, contista e cronista maranhense, nascido na cidade de Presidente Dutra (MA), mas residente em Teresina há vários anos, onde constituiu família, sendo casado com a piauiense Helena Araújo, pai de quatro filhos. É funcionário público federal aposentado (engenheiro agrônomo).

É autor do livro de história Viajando do Curador a Presidente Dutra e dos romances O Meu Inimigo Japonês, À Sombra da Casa Materna, O Herdeiro do Vento e Terra de Ninguém. Publicou ainda os contos O Relógio da Matriz e Negociando com a Morte. Atualmente, vem publicando em seu blog Folhas Avulsas belas crônicas de sua autoria e de outros cronistas do Piauí, do Maranhão e de outros estados. Aliás, José Pedro Araújo é o criador e coordenador desse conceituado blog.

A MORTE DAS ÁGUAS é um romance classificado como realismo brasileiro, notadamente inserido na literatura piauiense. O autor, influenciado por sua vivência como agrônomo e profundo conhecedor das disputadas terras da região sul do Piauí (MATOPIBA), narra, em terceira pessoa, com grande maestria — clareza, concisão, coesão e objetividade — as aventuras de um jovem piauiense bem-sucedido no Rio de Janeiro que, após vários anos, decide retornar à sua terra natal para cuidar da fazenda de seus falecidos avós maternos.

No desenrolar da história, o autor mostra, de forma fidedigna, os danos ambientais e os problemas sociais causados pela exploração gananciosa e equivocada das vastas áreas dos cerrados piauienses, sobretudo das terras localizadas nas nascentes do nosso maior caudal: o rio Parnaíba. Concomitantemente, desenvolve com bastante criatividade o enredo central do romance: a cobiça de um vilão que deseja tomar todas as terras herdadas pelo herói da narrativa, o Dr. Ricardo Melo.

Para tanto, o violento gerente da vizinha Fazenda Fênix — empresa multinacional do ramo da soja e de outros grãos —, acompanhado de seus capangas, invade a fazenda Monte Alegre, destruindo cercas, currais e casas de humildes moradores, atirando no gado e na casa-sede com armas de fogo de grosso calibre. Os ataques resultam na morte de animais e chegam, inclusive, a balear gravemente uma criança de seis anos, neto de Enoque, vaqueiro e capataz da fazenda. São cenas de horror que lembram antigos filmes de faroeste americano.

Filho único de uma professora primária, Ricardo Melo, personagem principal do romance, ainda criança morava com sua mãe em uma humilde casa situada na fictícia cidade de Chapada Grande, no extremo sul do estado do Piauí. Tornou-se órfão de pai aos três anos de idade. Nas férias e feriados prolongados, mãe e filho iam para a fazenda Monte Alegre, de propriedade dos avós maternos, localizada não muito distante da cidade. Nessa época, o avô dizia que, quando morresse, a fazenda seria administrada pelo neto.

Mãe e filho residiram nessa cidade até que o garoto concluiu o primeiro grau. Em seguida, mudaram-se para Teresina, visando ao prosseguimento dos estudos, matriculando-se Ricardo no Liceu Piauiense, onde concluiu o segundo grau. Depois, o jovem foi morar no Rio de Janeiro para realizar os estudos preparatórios para o vestibular. Conseguiu ingressar no curso de Ciências Econômicas de uma universidade federal e, após formado, especializou-se em comércio exterior.

Por mérito próprio, obteve colocação em uma empresa multinacional de aço laminado, chegando ao comando daquela indústria. Recebendo altos salários, o Dr. Ricardo conseguiu economizar bastante dinheiro, bem como multiplicá-lo por meio de investimentos realizados ao longo dos anos.

Sabia-se que o Dr. Ricardo, no Rio de Janeiro, era um atuante defensor da natureza e sempre se mostrava preocupado com as questões relativas ao meio ambiente, além de contribuir com recursos financeiros próprios para ONGs voltadas à defesa de um mundo melhor. Foi com esse perfil que retornou ao Piauí para cuidar das terras herdadas do avô. Sabia que havia tomado uma decisão difícil e que os desafios seriam enormes, mas desconhecia a dimensão dos perigos que enfrentaria no comando da fazenda Monte Alegre.

Entre outras personagens do romance, destacam-se o prefeito Uruçu e o delegado de polícia, senhor Visgueira, ambos corruptos e mancomunados com o terrível gerente da Fazenda Fênix, o holandês Mark Sorensen. Outra personagem curiosa é o traidor Albertino, filho do velho Enoque. Revoltado com seu patrão Ricardo, Albertino alia-se ao cangaceiro Honorato Gentil, responsável pelo trabalho sujo da Fênix.

Como aliados do Dr. Ricardo Melo, figuram: o velho Enoque, vaqueiro e capataz da fazenda Monte Alegre; o jovem e corajoso vereador Rodrigo Soares; o líder comunitário Zé Arcanjo; o professor e pesquisador Afonso, da Universidade Federal do Piauí; o amigo de infância Gut, mecânico e tratorista; o agrônomo Bruno Arns; dona Severina e Salomé, esposa e nora de Enoque — sendo Severina também responsável pelos cuidados da casa-sede; o jornalista Mário de Castro; e a jovem e bela jornalista Lara Drumond, namorada de Ricardo.

O protagonista do romance, Dr. Ricardo Melo, homem inteligente e perspicaz, passa a desconfiar da sanha e do recorrente desejo do estrangeiro Mark Sorensen em adquirir sua propriedade, sobretudo diante da existência de vastas extensões de terras disponíveis nas adjacências. “Por que justamente as minhas terras?”, questiona-se. Esse mistério o leitor só desvendará no final do livro. Trata-se de um romance fantástico e emocionante.

Um aspecto importante a ser observado na obra é o caráter metafórico do título A MORTE DAS ÁGUAS. Seu significado torna-se claro quando o autor, por meio das observações do Dr. Ricardo Melo, descreve com precisão a devastação das nascentes do rio Parnaíba, decorrente da exploração irracional e criminosa praticada por proprietários de terras da região.

Como agrônomo e ex-servidor do INCRA, José Pedro Araújo sugere, por intermédio das ideias revolucionárias do protagonista, ações voltadas à proteção desse importante manancial, o “Velho Monge”. Entre elas, destaca-se a criação de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural, além da explicitação das vantagens dessa iniciativa tanto para a natureza quanto para os moradores da região. O autor sugere, ainda, atividades como a exploração turística, que poderia constituir uma alternativa lucrativa, inclusive com a instalação de áreas para camping. Imagina também a criação do “Parque Natural das Araras”, que “poderia atrair gente de todas as partes do mundo para conhecer e apreciar o espetáculo produzido diariamente pelas araras-canindé e outros pássaros que voltariam a viver na região”.

Caro leitor, pelo que foi exposto acerca do protagonista de A MORTE DAS ÁGUAS, certamente se concluirá que o Dr. Ricardo é ousado e visionário; poder-se-ia até dizer: um Dom Quixote moderno. Como exemplo, Ricardo idealiza a implantação de um projeto particular de assentamento rural, cedendo parte de suas terras aos antigos moradores expulsos da localidade Lagoa de Dentro, vizinha à fazenda Monte Alegre. Para isso, precisaria convencer o senhor Zé Arcanjo, líder de uma comunidade formada por moradores de uma paupérrima rua de Chapada Grande, os mesmos que haviam sido expulsos pelos capangas da Fazenda Fênix. Entretanto, não anteciparei ao leitor se tal projeto foi ou não viabilizado.

Para concluir, entendo que A MORTE DAS ÁGUAS é um romance cujo objetivo principal é divulgar a real situação das nascentes do rio Parnaíba, no extremo sul do Piauí. Ou seja, mostrar a degradação das áreas de preservação onde se localizam as nascentes do maior e mais importante rio do estado. Em outras palavras, o autor busca alertar autoridades estaduais e federais, políticos, organizações de proteção ambiental e toda a sociedade piauiense para o fato de que a exploração irracional dos cerrados, especialmente das áreas de nascente do rio Parnaíba, implicará sérios danos ambientais, ameaçando, inclusive, a perenidade do rio Grande dos Tapuia.

Por outro lado, o autor — agrônomo e ex-servidor do INCRA — demonstra, por meio do protagonista Dr. Ricardo Melo, que é possível explorar racionalmente as terras dos cerrados piauienses e as áreas das nascentes do rio Parnaíba, mediante a implementação de ações públicas e privadas, tais como projetos de assentamento, regularização fundiária, políticas agrícolas, técnicas modernas de combate às pragas (sem uso de agrotóxicos) e outras práticas voltadas à preservação do meio ambiente.

Recomendo, portanto, a leitura deste excelente romance, A MORTE DAS ÁGUAS, de autoria do escritor José Pedro Araújo.

(*)

Chico Acoram, é funcionário público federal, contador, cronista e poeta cordelista.

 


Nenhum comentário:

Postar um comentário