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Luiz Thadeu Nunes e
Silva (*)
Em andanças pelo mundo, tive a
oportunidade de conhecer os maiores aeroportos em todos os continentes. Gosto
do frenesi dos aeroportos, verdadeiras cidades, sempre com grande movimento.
Gente de todas as partes, raças, costumes e línguas.
Todas as vezes que desembarquei
no aeroporto de Schiphol, um dos mais belos do mundo, um pequeno detalhe me
chamou atenção. Nos mictórios, tinha o desenho de uma pequena mosca na louça.
Achei que fosse mais uma intervenção artística, já que a Holanda, onde fica o
aeroporto, é um país cheio de obras de arte. Terra de Vincent Van Gogh,
Rembrandt, Johannes, Frans Hals e muitos outros, de inúmeros museus, esbarra-se
facilmente em obras de arte por toda parte. Recentemente li a razão da pintura
das moscas nos mictórios.
A administração do Aeroporto de
Schiphol tinha um problema caro e irritante: os banheiros masculinos. Não
importava quanto gastassem em limpeza, sinalização ou avisos educados. O
“desperdício” fora do lugar era constante. O custo de manutenção estava fora de
controle. Tentaram tudo. Cartazes pedindo colaboração. Regras mais duras.
Produtos químicos mais fortes. Nada funcionava.
Até que um economista, chamado
Richard Thaler, sugeriu algo radical. Ele não propôs uma regra. Nem uma
punição. Propôs um alvo. A solução custava centavos. Eles colaram uma pequena
mosca preta, realista, dentro de cada mictório. Bem perto do ralo. Só isso. O
resultado foi quase absurdo. Os custos com limpeza caíram 80% em poucos meses. O
“erro de mira” despencou. Sem campanhas. Sem ordens. Sem fiscalização.
Por quê? Porque o ser humano tem
um impulso automático de jogar. Dê um alvo e ele tenta acertar. Sem pensar. Sem
perceber. Thaler chamou isso de Nudge - o empurrãozinho. A ideia é simples e
poderosa: você não precisa proibir nada, nem mudar incentivos financeiros para
mudar comportamento. Basta redesenhar a escolha.
Outro exemplo clássico, que virou
case, é a disposição dos produtos nas gôndolas dos supermercados. Apenas com um
arranjo, ao colocar frutas na altura dos olhos e doces em prateleiras mais
altas, o consumo de comida saudável subiu 25%. Ninguém proibiu o açúcar. Apenas
tornou a maçã mais fácil. Tudo tem uma logística por trás, que funciona.
A lição para negócios e para a
vida. As pessoas raramente fazem o certo porque você pediu. Elas fazem o que é
mais fácil ou mais divertido no momento. Se o cliente não compra, talvez o site
seja confuso. Se o funcionário não segue o processo, talvez o processo seja
chato. Se a criança não guarda os brinquedos, talvez a caixa seja difícil de
abrir. Esses exemplos mostram a criatividade e poder de transformação do
marketing. Marketing genial não manda. Ele desenha a mosca, troca os produtos
de lugar, e os resultados aparecem. Sabemos que o mundo é movido por impulsos
invisíveis.
Recentemente vi, no YouTube, uma
campanha publicitária em que alunos de arquitetura ficavam em estacionamento de
um grande Shopping Center, observando motoristas que estacionavam nas vagas
destinadas por lei a PcD, pessoa com deficiência. Grande parte dos que ali
estacionavam não eram pessoas com mobilidade reduzida. Após o motorista
estacionar, os alunos apareciam com uma cadeira de rodas. O motorista atônico
se recusava a usar a cadeira, ao que os estudantes mostravam a mensagem: “Se
usou a vaga do deficiente, também deve usar a cadeira”. Muitos se retiraram
envergonhados.
Ainda precisamos evoluir muito
para melhor convivência em sociedade. É de grande importância campanhas
publicitárias para despertar na população noções de civilidade. O marketing
educa.
(*)
Instagram: @luiz.thadeu
Facebook: Luiz Thadeu Silva
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