quinta-feira, 5 de março de 2026

O RELÓGIO DA MATRIZ DE SÃO SEBASTIÃO DO CURADOR

 

Fotografia de autoria da Paróquia de São Sebastião - Presidente Dutra (MA) 


                                                                                    José Pedro Araújo(*)

Ainda reverbera nos campos verdejantes da minha memória o som doce e saudoso dos sinos de São Sebastião. Tanto que as marteladas do velho relógio lá no alto me trazem de volta a um tempo que não me pertence mais: é tudo coisa do passado. A despeito disto, assim como eles continuam ainda lá, impassíveis em meio às nuvens que se movimentam constantemente, também vivem e resistem bravamente nas minhas lembranças.  

A igreja é das mais belas do interior maranhense, construída em intenção a São Sebastião, o santo guerreiro dos católicos. Erigida em lugar da velha capela de adobe cru, teve a nova igreja o lançamento da sua pedra fundamental no dia 04 de outubro de 1948, em meados do século passado. Construída em estilo Lombardo evoluído, é quase uma cópia melhorada de alguma outra igreja da região da Lombardia, quem sabe de Trucazzano ou de outra cidade qualquer de onde eram originários os frades Capuchinhos que projetaram a sua construção.

Assentada para sempre no alto de uma colina no centro do nascente município do Curador (Presidente Dutra, depois), tomava lugar ao templo simples que já não comportava mais o número de fiéis que aumentava rapidamente. Da antiga capela demolida restou, talvez, a primeira fotografia tirada na povoação, uma das poucas que ainda existem. A cena registrada se deu quando da passagem do Comandante Magalhães de Almeida e sua comitiva pela região, lá pelos idos de 1927. Naquele instante a comunidade do Curador se juntou para vê-lo em frente à capela de São Bento em construção, que mais tarde seria demolida para lugar à nova e bela Igreja Matriz de São Sebastião. Naquele dia, quase um século atrás, o governador fez um breve discurso de inauguração da estrada recentemente aberta na mata virgem, que nos tirava do isolamento completo da capital do estado. A foto também traz a figura do Frei Heliodoro de Inzago, um dos primeiros párocos a ministrar seus sermões em terras do Curador.

Aquela capela, naquele momento em construção, substituindo a anterior, construída anteriormente com paredes de taipa e cobertura de palha, deu lugar, quase vinte anos depois, como já afirmamos, ao novo templo. Além disto, os religiosos trocaram também o seu padroeiro. E passaram ao atual, São Sebastião, a obrigação de zelar pelos cristãos do lugar em substituição a São Bento, chamado anteriormente para espantar para bem distante a grande quantidade de cobras que existia no local. Assim, construído o belo templo, foi entronizado no altar-mor São Sebastião, imagem trazida do Rio de Janeiro por meios de transportes precaríssimos. E no alto de uma torre de esplendida beleza que aponta em direção ao céu de um azul estonteante, inseriram potente relógio com mostradores nas suas quatro faces: uma virada para o nascente, outra para o poente, a terceira para o norte e a quarta face direcionada para o sul. Para completar o quadro de extremo bom gosto, carrilhões enormes foram assentados no alto, prontos para repicarem de hora em hora, avisando ao povo da cidade sobre a contagem do tempo que segue célere rumo ao futuro.

O relógio continua lá, mas já não informa as horas passadas. Aquela maravilha tecnológica está hoje em completo estado de paralisação e se mantem mudo, calado, não informa a contagem do tempo para os fiéis e para os não iniciados na fé católica.

Já teve a sua utilidade impar, contudo. Atestando a sua importância, basta dizer que a maioria das pessoas da minha época aprenderam a ler as horas em um dos mostradores do relógio da matriz de São Sebastião.

Eu me incluo entre estas.

O ensinamento tinha um quê de pedagogismo, pois, a cada hora informada, seguia-se igual número de badaladas. Era só decorar a posição dos ponteiros do relógio. Ficava fácil aprender a ler as horas através dos belos e grandiosos mostradores do relógio encarapitado lá no alto da torre sineira.

Frei Metódio de Nembro descreveu a igreja de São Sebastião em 1955 como uma das mais espetaculares de todo o interior: Nas palavras do religioso, o templo era “Belo e imponente, com três naves divididas por uma fileira de colunas e de arcos mourescos, com transepto bem proporcionado e a ampla perspectiva de abside, propositalmente distanciada para dar lugar ao coro. A robusta estrutura - continuou o bispo capuchinho - todo o externo da fachada ornada de traços, enfeites, florões e pilares e o corpo da igreja, podem ser considerado uma forma de Lombardo evoluído; no conjunto o estilo é um harmônico eclético, interpretado com alma moderna”.  

O relógio de pendulo encrustado no alto da bela torre deve ser alemão ou inglês, como a maioria dos que enfeitam as torres das igrejas brasileiras. Quanto ao carrilhão, com os seus dois sinos que dobram alegres lá no alto do campanário da matriz e São Sebastião, é arte de uma fundição italiana famosíssima fundada em 1806 pela família Manfredini, e depois adquirida pela família Barigozzi. Atestando a importância dessa fundição, basta dizer que ela foi responsável pela confecção dos sinos de muitas igrejas históricas na Itália, algumas delas eu tive a felicidade de conhecer quando por lá passei. Por exemplo, no alto do campanário da histórica igreja Santa Maria del Fiori, Catedral de Florença, construída pelo incensado Giotto, batem sinos fabricados pela mesma fundição Barigozzi. Do mesmo modo, somente para citar mais um exemplo da importância dessa fundição, após um colapso nos sinos da Basílica de San Marco em 1902, em Veneza, a fundição Fratelli- Barigozzi foi chamada para substituí-los por outros. Hoje, os cinco sinos que dobram lá no alto do campanário mais visitado do mundo, tem a mesma autoria da sua fabricação que os históricos sinos da Matriz de São Sebastião do Curador.  E custou também para transportá-los até nós. Não menos difícil também, foi içá-los até o alto e fixá-los definitivamente à vista de toda a cidade, para que pudéssemos contar as horas das nossas existências ou para nunca chegarmos atrasados aos encontros marcados.

Os sinos continuam a repicar, mas o relógio não traduz as horas em rápidas batidas, pois dorme docilmente um sono que incomoda àqueles que presenciaram a sua luta diuturna para registrar com fidedignidade a passagem do tempo. Por conta disto, certa vez, um grupo de amigos fraternos estavam degustando prazerosamente algumas cervejas geladas, quando o assunto relativo ao relógio da matriz veio à tona. Vou omitir o nome dos comensais por não me lembrar de todos e, assim, não cometer nenhum engano. Mas, voltando ao assunto, estavam os amigos alegremente entornando alguns copos de uma deliciosa e gelada cerveja, quando veio à pauta a lembrança de dias passados quando o velho contador do tempo serviu de instrumento para que todos aprendessem a ler as horas através de um mostrador de relógio.

Conversa vai, cerveja vem, chegaram os amigos àquela fase de meia embriaguez e grande euforia, ocasião em que alguém lançou o desafio: por que não nos juntamos e mandamos consertar o relógio da matriz?

Naquele estado de elevação em que se encontravam aqueles espíritos alegres, quando do bolso de todos os homens jorra dinheiro mesmo sem existir, chegaram a um rápido acordo para colocar novamente o relógio da torre em funcionamento.

No dia seguinte, saiu o proponente à cata dos outros três amigos para confirmar o acordo. Foi uma enorme surpresa, pois, na maioria das vezes, os assuntos tratados por ocasião de alguma bebedeira, caem depois no esquecimento. Mas, malgrado alguém não se lembrar o que haviam combinado, todos confirmaram o acerto. Afinal, eram homens de palavra, não uns pés inchados quaisquer!  Palavra confirmada partiram à procura de alguém para realizar o difícil serviço.

A tarefa caiu nas mãos do relojoeiro Albuquerque, que logo se dedicou à tarefa. Na verdade, o antigo relógio não apresentava grandes defeitos, estava apenas precisando de limpeza e de alguns ajustes para voltar a funcionar com precisão. A tarefa mais difícil era ajustar os ponteiros dos quatro mostradores na mesma posição, para marcarem a mesma hora, o mesmo minuto e o mesmo centésimo de segundo. O técnico resolveu o problema através de uma tecnologia nova: o telefone celular. Explico. Enquanto o relojoeiro trabalhava no acerto dos ponteiros lá no alto da torre, seu filho continuava no solo para avisar-lhe, através de um aparelho de telefone celular, quando os ponteiros estivessem na mesma posição dos outros. E assim voltou a funcionar lá no alto do campanário o querido relógio cujos mostradores se acham encrustados nas suas quatro faces.

Tarefa concluída foram os amigos novamente ao pároco local para avisar-lhe do cumprimento do desafio: o relógio já estava em pleno funcionamento. Mas, qual não foi a surpresa de todos. Ao invés de se mostrar feliz com o sucesso da operação, o religioso tentou repassar aos quatro amigos uma nova responsabilidade: eles deveriam contratar alguém para realizar a tarefa diária de dar corda ao relógio da matriz. Às expensas deles, é claro.

O que aconteceu depois, todos são testemunha: o importante relógio da matriz voltou ao seu estado anterior de completa mudez. Sobrou para nós apenas as lembranças das suas badaladas chamando a população para o cumprimento das suas obrigações. (Publicada originalmente em 2015).  

(*)


José Pedro Araújo é engenheiro agrônomo, funcionário público federal aposentado, historiador, cronista, romancista, e coordenador do blog Folhas Avulsas.

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