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Luiz Thadeu Nunes e
Silva(*)
Sexta-feira, 20/02. Acordei
sorumbático, com preguiça pelo corpo todo. Tenho resistência a sair da cama. O
corpo pede calma, pede silêncio, pede sossego. Olho para a parede, o relógio me
mostra o tempo seguindo seu curso.
“O mais feroz dos animais
domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da
minha família", escreveu, com singeleza contumaz, o poeta de Alegrete, RS,
Mário Quintana.
Não posso “amarrar o tempo no
poste”, lembro o poeta cuiabano, Manoel de Barros, “o poeta das infâncias”.
“A infância não é um tempo, não é
uma idade, uma coleção de memórias. A infância é quando ainda não é demasiado
tarde. É quando estamos disponíveis para nos surpreendermos, para nos deixarmos
encantar. Quase tudo se adquire nesse tempo em que aprendemos o próprio
sentimento do Tempo”, cito o escritor moçambicano, Mia Couto, com quem tomei
café da manhã, em uma manhã de abril de um ano que o tempo se encarregou de
levar.
Os passarinhos veem me desejar
feliz dia, ao cantarem na janela do quarto, no bebedouro que ali coloquei.
Felizes não sabem o que são as horas.
Reluto um pouco mais em
colocar-me em pé. O telefone toca, vejo um número que desconheço, não atendo.
Quiçá fosse notícia boa. Provavelmente não seria. Passo o dia recebendo
ligações de bancos, onde não tenho conta, muito menos dinheiro, e de operadoras
de telefonia móvel. A tecnologia, que tanto otimiza a vida, também atrapalha.
Penso mais um pouco. Vejo que não
tenho que terminar minhas tarefas em um só dia.
Que a vida
está passando e absolutamente nada a impede.
Que tudo pode
acabar num piscar de olhos.
Entendi que o
material nunca foi importante.
O mais
importante é o tempo que nos resta pela frente.
Se eu não
estiver no trabalho, me substituem. Não tenho importância alguma.
Mas minha
saúde emocional é insubstituível e importa.
Entendi que
não preciso ajoelhar-me ao dar uma caminhada e ver a paisagem.
Entendi que a
comida pode preencher o vazio do estômago, mas não o da alma.
Que eu tenho
direito a desfrutar cada segundo o que eu tenho.
Que o dinheiro
pode comprar viagens, mas não tempo. Sei quanto tenho de dinheiro, mas nunca
saberei quanto tempo terei pela frente.
Que quando eu
preciso de espaço, me retiro.
Que quando
quero gritar, grito.
Que quando
quero ficar na cama, fico.
Que quando eu
quero dançar, eu danço.
E quando quero
chorar, choro.
Aprendi a me
ouvir atentamente e dar prioridade às minhas necessidades.
Desde que o
faço, já meu café não sabe a pressa. Não bebo café frio.
O interfone
toca, não posso mais ficar refastelado na cama; tenho que levantar.
Atendo, o
porteiro ligou errado, pede desculpa. Agradeço, pois graças ao erro da ligação,
consegui levantar e começar o dia. O tempo não espera por mim. Tenho muita
coisa para resolver.
O tempo segue
seu rumo. Tenho que engrenar para seguir o meu.
(*)
Instagram: @luiz.thadeu
Facebook: Luiz Thadeu Silva
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