sábado, 18 de julho de 2026

Tio Bazu e o seu jardim do Édem.

Tio Bazu com a esposa, tia Adalgiza

 


José Pedro Araújo (*)

Quando criança, um dos meus maiores divertimentos era passear na casa do tio Bazu, irmão de minha mãe, que distava pouco mais de uma centena de metros da nossa casa. Ao chegar lá, já encontrava alguns dos nossos primos que acorriam para o local com o mesmo propósito que eu: desfrutar daquele paraíso.

Naquele tempo, vovó Zezé ainda morava naquela casa enorme situada dentro de um sítio paradisíaco. Ir para lá era sinônimo de muito divertimento e alegria. A casa, construída pelo nosso tio em estilo casa-grande de fazenda, possuía uma varanda alta que dava para um sublime pomar e terminava em um extenso baixão que o riacho Firmino, nos invernos chuvosos, inundava completamente, transformando-o em um espelho d’água de mar calmo e belo; este foi o primeiro oceano que eu conheci nos tempos da minha meninice.

Vista atual da morada - foto Jônatas Araújo

Naquele sítio, repleto de árvores frutescentes, o paladar era sempre desafiado pelo néctar das inúmeras espécies daquele imenso pomar. Laranja, lima (limão doce), banana, caju, mangas de várias espécies, maracujá, coco da praia, goiaba, ata e condessa, tínhamos à larga para desfrutar o quanto aguentássemos. Até alguns pés de guabiraba eu descobri por lá em uma das minhas aventuras em uma parte do terreno em que eu não costumava ir. Naquele instante, estava à cata de frutos dos buritizeiros situados próximos à rodovia. Depois de me deliciar com tantas e deliciosas frutas ainda debaixo dos pés, ficava difícil comer mais alguma coisa nas refeições de costume. E isto preocupava a minha mãe.

Da casa dos meus pais para o sítio, era um pulo. Tomava-se um beco frontal que passava ao lado da casa onde mais tarde a minha avô, tia Felicinha e tio Barrinho passaram a residir, e seguia-se por entre árvores por uma extensão não muito maior do que oitenta metros, para chegarmos ao paraíso onde o prazer e o divertimento nos aguardava. Uma única atividade, naquele seu recanto sublime, tio Bazu não nos permitia realizar: a caça aos pássaros que ocupavam as copas das árvores, aproveitando-se das iguarias maduras para se alimentarem, pagando depois a dádiva com seus trinados melódicos que inundavam o ar, tornando o lugar ainda mais alegre e festivo. Deste modo, entrar no sítio com uma baladeira nas mãos, nem pensar, era um ato terminante proibido.  Nosso tio entendia que o assédio aos pássaros que tornavam o seu recanto tão festivo era, na verdade, uma quebra de contrato, um abuso de confiança. E terminava sendo, de fato.

Sabiás, pipiras, xexéus, periquitos, pombas, vim vins, corrupiões, chorós, jaçanãs e socós, entre tantos outros pássaros, conviviam por ali tranquilamente, pois sabiam que a sua segurança não seria ameaçada pelos garotos caçadores. Recordo-me que, em certos finais de tardes, ouvíamos ao longe o canto do jaó. Era tão bonito ouvir aquele pássaro se despedindo do dia, como se emitisse um lamento saudoso. Tudo isso transformava aquele local em nosso Shangrilá. Um recanto de paz e alegria diária.

Descendo a ladeira desde a casa, por uma alameda de cajueiros, cujas copas se tocavam lá no alto, estabelecendo uma passagem sombreada até chegarmos a um poço minador cuja água chegava-lhe ao topo, escorrendo depois para um brejo próximo embelezado com alguns buritizeiros plantados pelo titio. Naquele momento, havíamos chegado ao Pocinho, ponto inicial das nossas brincadeiras. Aquele manancial emitia um líquido tão limpo e claro que era possível se avistar o seu leito de areias muito brancas. Era também de uma água tão fresca, que após um banho tomado, debelava-se o calor que nos afetava duramente em dias mais aquecidos. Muitas pessoas captavam água dali para beber, abastecendo os potes e moringas das suas casas, mesmo depois do estabelecimento da Companhia de Águas e Esgotos da cidade, a CAEMA. Dizia-se que a água que lhes chegava às torneiras de suas casas, ofertada por aquela empresa, era de qualidade ruim. Enquanto isso, as mulheres, sempre cuidadosas com seus madeixas, gostavam de lavá-los com aquele fluido sublime apanhado do Pocinho, como era conhecida aquela nascente.

Tio Bazu criança,
ao lado da avó materna
A estrutura da casa, as fruteiras existentes no sítio, o Pocinho e tudo o mais, era obra das mãos do nosso tio Basiliano Nunes Barros. A morada, depois de muitas reformas, mudou um pouco a sua estrutura. Mas ainda apresenta todos aqueles aspectos de uma espaçosa casa de campo.

Estamos falando de um local com cerca de oito hectares que quase faz limite ao sul com a praça central da cidade, de quem dista pouco menos de uma centena de metros. A cidade quase abraçou aquele oásis de paz, mas o homem que cuida dele ainda é o mesmo. Com a força das suas mãos, desde quando era ainda um rapaz de pouca idade, ele foi erguendo tudo para deixar o ambiente ao seu gosto. Daqui a poucas horas, tio Bazu completará 102 anos de existência, mantendo a sua mente extremamente aguçada, a ponto de conseguir recitar de memória, capítulos inteiros da Bíblia Sagrada, livro objeto de suas leituras diárias. É ele também, com a ajuda da dedicada esposa Adalgisa, e de dois de seus filhos, quem administra todo aquele paraíso, sem descuidar do seu longevo bananal, arriscando-se ainda a plantar algumas linhas de milho no vale que se estende até a margem do riacho Firmino.

Já houve tempo que ele implantou uma casa de farinhada ao lado da sua morada. Ela fazia enorme sucesso entre nós, especialmente nos serões que eram constantes. Ele também trabalhou com hortas enormes, cultivou grandes áreas de tomate, arroz, criou suínos, apascentou algumas cabeças de gado, laborou com peixes em tanques, fez tudo o que um dedicado e ativo produtor rural faria. Isso tudo em uma área urbana, situada no centro da cidade.

Ainda hoje, é possível encontrá-lo, especialmente nas manhãs, quando a temperatura do ambiente se mostra mais favorável, com uma enxada nas mãos capinando o seu bananal, ou organizando o seu jardim, sempre com o seu chapéu de legionário na cabeça, cujo protetor de nuca se derramava nas suas costas. Quem não aprova, nem um pouco, essa atividade constante do marido, é a tia Ziza, a sua companheira de jornada. Preocupa-se, com razão, pois para se chegar até a área do seu bananal ele tem que descer uma íngreme ladeira repleta de pedras. Ele, então, como argumento, construiu uma escada de muitos degraus, em alguns pontos da descida, e fixou nela um corrimão, tudo para não deixar de lutar contra o imobilismo e a ociosidade.

Tio Bazu é o último dos filhos do meu avô Diolindo Luiz de Barros, e da minha avó materna, Maria José Nunes Barros. Uma família que costuma desafiar o tempo, chegando, alguns deles, a completar o seu centenário de vida. Ele, também, com seus 102 anos bem vividos, é o recordista da família nesse campo da existência humana.  Parabéns, tio Bazu! Suplicamos ao nosso bondoso Deus que nos dê a Graça de vê-lo ainda por um bom tempo entre nós, para que possamos continuar bebendo na sua inesgotável fonte de sabedoria, aprendendo com o seu exemplo de vida, e depois distribuindo tudo o que assimilamos entre nossos filhos e netos.  Felicidades, saúde e paz!  

(*) 


José Pedro de Araújo Filho é presidutrense, engenheiro agrônomo, autor do livro Viajando do Curador a Presidente Dutra – história, personalidades e fatos, e coordenador do blog Folhas Avulsas.             

    


Nenhum comentário:

Postar um comentário