sábado, 22 de agosto de 2026

Nem tudo está perdido

 

Desenho gerado através de IA 


Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

Domingo, 16 de agosto. Final de tarde. Após dia quente, normal na Ilha do Amor, recebi mensagem de Rodrigo, meu filho, dizendo que estava a caminho, para nos encontrarmos na praça. Na praça da Lagoa da Jansen, que fica em frente ao meu condomínio.

Desço e encontro: Ana Paula, Rodrigo e Heitor, neto querido de um ano e meio, que está começando a andar e precisa de espaço. A praça é território da alegria. Quando arrefece o calor, é na praça que país levam filhos e tutores seus pets. Algazarra garantida. Crianças e adolescentes com suas bicicletas, patinetes motorizados, patins, skates. Cuidado redobrado com Heitor, que corre ziguezagueado, sem medo do seu entorno. Em uma cidade carente de praças e áreas verdes, tenho o privilégio de morar em frente a um espaço razoavelmente bem cuidado pelo poder público. Não conheço nenhuma praça em São Luís que seja lavada regularmente pela prefeitura como a da Lagoa da Jansen. Além de policiada.

Acomodado no banco, eis que de repente um garoto, de no máximo 12 anos, passa em alta velocidade em sua bicicleta. Um aparelho celular cai. Ana Paula apanha o aparelho e chama o menino, para informá-lo que deixara o celular para trás. O garoto acelerou; perdemo-lo de vista.

Logo em seguida, outro garoto, agora mais devagar, se aproxima. Pergunto se ele conhecia o garoto que havia deixado o celular que caiu. “Sim”, respondeu ele. Ana Paula entrega-lhe o aparelho.

Não demorou muito, o primeiro garoto retornou com o celular em mãos. “Vocês passaram no teste”, diz ele. “Que teste?”, pergunto.

“Nós estamos fazendo um experimento, deixamos o celular cair de propósito para saber se vão nos devolver”, diz ele, e completa: “O celular é só a carcaça, não funciona”. E sai em nova disparada.

Fiquei surpreso e intrigado. Não sei o nome do garoto. Não sei se o teste é para um estudo sobre honestidade ou para fazer uma estatística sobre quem devolve ou não o aparelho de celular. Quem sabe um trabalho para a escola.

Testes de honestidade em praças públicas são experimentos sociais comuns na internet e nas TVs. Neles, criadores de conteúdo deixam objetos de valor (como celulares, carteiras ou notebooks) sozinhos em bancos de praças e calçadões para gravar a reação dos pedestres com câmeras escondidas. A maioria das pessoas costuma ignorar o objeto ou devolvê-lo.

Geralmente alguém finge deixar cair dinheiro ou uma carteira no chão da praça.

Um item caro, como um notebook ou celular, fica sobre um banco sem vigilância aparente. Uma equipe grava de longe para ver se quem passa devolve o item ou tenta furtar. Em muitos vídeos, pessoas devolvem o item perdido ou avisam o dono, surpreendendo quem duvidava da bondade alheia.

A honestidade mora nas pequenas coisas do dia a dia, como devolver um troco errado na padaria ou falar a verdade quando ninguém está olhando. Ela parece fora de moda, mas é o fio invisível que segura a vida em paz. Ser honesto dá leveza à vida. São exemplos de civilidade, tão fora de moda atualmente.

Recentemente ao abri a porta do apartamento, e deparei-me com Josi, empregada dos vizinhos. Ela contava para a zeladora do prédio, Nilde, a angústia que passou até devolver uma quantia que depositaram indevidamente em sua conta, através de um pix. “Enquanto não devolvi o dinheiro, não sosseguei”, disse Josi aliviada. “O dinheiro não era meu”.

São exemplos como o de Josi que provam que nem tudo está perdido. Certamente esse dinheiro seria útil a Josi, mas ela preferiu devolver.

Fico feliz que o mundo em que Heitor está conhecendo tenha gente honesta e ética.

(*)

Luiz Thadeu Nunes e Silva é escritor e Globetrotter, visitou 162 países em todos os continentes. Autor do livro “Das muletas fiz asas”.

Instagram: @luiz.thadeu

Facebook: Luiz Thadeu Silva

sábado, 8 de agosto de 2026

"Ah! O tempo!

 

Imagem do Google

(*) Luiz Thadeu Nunes e Silva

 

O tempo é precioso e gratuito.  Você não pode possuí-lo, mas pode usá-lo. 

Você pode gastá-lo. Mas você não pode mantê-lo, mesmo não sabendo quanto tempo você tem.

Uma vez que você o perdeu, nunca poderá recuperá-lo. 

Saber gerenciar a passagem do tempo é ter sabedoria para saber que tudo tem seu tempo.

Em tempos que estamos vivendo mais, a coisa mais moderna que existe hoje é saber envelhecer. E não estamos falando apenas da passagem do tempo.

Estou falando da capacidade de continuar aprendendo. De ter fome e sede pelo novo. Da desconstrução do que não serve mais para a construção do que precisamos para se adaptar ao novo. 

De rever certezas. De descobrir novos interesses.

De aceitar que ainda existem ideias capazes de ampliar o nosso olhar.

Durante muito tempo, associamos o novo apenas à tecnologia.

Talvez o verdadeiro avanço seja outro. Continuar disponível para o conhecimento. Aguçar o olhar para algo que embase um novo propósito, uma nova caminhada. 

Porque envelhecer não significa viver preso ao que já sabemos.

Significa permitir que a experiência caminhe ao lado da curiosidade. Da necessidade de aprender. 

“Não há tempo consumido

nem tempo a economizar.

O tempo é todo vestido

de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,

transcendem qualquer medida.

Além do amor, não há nada,

amar é o sumo da vida”, cito o mineiro Carlos Drummond de Andrade. 

No outono da vida, descobri que o futuro não pertence apenas aos mais jovens.

Pertence também àqueles que nunca deixaram de aprender. Que nunca deixam de sonhar. 

O tempo acrescenta anos, e também: experiências, vivências, conhecimentos, lembranças e memórias. 

O conhecimento continua atualizando a maneira de compreender a vida.

“Mas é preciso escolher. Porque o tempo foge. Não há tempo para tudo. Não poderei escutar todas as músicas que desejo, não poderei ler todos os livros que desejo, não poderei abraçar todas as pessoas que desejo. É necessário aprender a arte de “abrir mão” – a fim de nos dedicarmos àquilo que é essencial”, escreveu o paulista Rubem Alves. 

Falando sobre o tempo, escrevi na semana passada: “A vida é mistério. Nunca saberemos de onde viemos, por que viemos. Quando vamos, para onde vamos”. 

Viver, nada mais é do que administrar perdas. Perdemos colágeno, cabelo, viço e, também, pessoas. Perdemos tempo com coisas inócuas. Olho para trás e vejo quanto tempo perdi fazendo papel de besta. Se reciclasse todo esse papel, arrecadaria alguns tostões. 

“Você acorda todo dia com um roteiro que não escreveu. Segue regras que não escolheu. E chama isso de vida”, escreveu o franco-argelino Albert Camus. Presente de um amigo, estou lendo “O Estrangeiro”, de Camus, publicado em Paris em 1942 pela editora Gallimard.

Toda vida também é escrita em capítulos. Alguns trazem alegria, outros deixam marcas; mas cada página acrescenta algo à pessoa que estamos nos tornando”. 

O tempo não mora nos ponteiros do relógio; ele habita o vão entre o que a gente planeja e o que a vida entrega. É um sopro leve que desorganiza gavetas, pinta fios de prata nos cabelos e transforma em saudade aquilo que ontem era apenas um dia comum. 

Passamos os dias correndo atrás do vento, tentando encaixar a vida em planilhas, alarmes e agendas. O relógio dita a hora de acordar. O calendário marca os anos que voam. A pressa rouba o gosto do café.

Mas o tempo ri dessa nossa mania de querer controlá-lo. Ele é teimoso e não obedece a botões de avanço rápido. 

Caro leitor, amiga leitora, lembre-se de que o tempo é nosso maior ativo. Gaste-o da melhor maneira possível, pois ele é finito. 

Feliz Dia dos Pais! 

(*) 

Luiz Thadeu Nunes e Silva é escritor e Globetrotter, visitou 162 países em todos os continentes. É autor do livro “Das muletas fiz asas”.

Instagram: @luiz.thadeu

Facebook: Luiz Thadeu Silva