sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Viajando pelo rio Itapecuru em 1905 - Parte 5).

 

Vapor que navegava pelas águas do rio Itapecuru arrastando balsas

 

IMPRESSÕES DE VIAGEM (Parte 5)

Carlos Augusto de Araújo Costa (*)

 

Ainda em Caxias, aproveitando os bons préstimos do povo caxiense, o viajante também usufrui com prazer da delícia de se prepara para um banho no balneário Ponte, lugar agradável que até os dias de hoje atrai os caxiense e visitantes   para as suas margens.  Araújo Costa teve que arcar com alguns problemas causados pelo banho frio que tomou fartamente. É o que veremos a seguir.

Dia 27 – Apesar de continuar defluxado e bastante rouco, fui a Ponte tomar banhos, em companhia do Bento e do Leôncio Filho. Esse passeio fizemo-lo à cavalo, pois não era pequena a distância que tínhamos a percorrer, tendo, para isto, o Capitão Domingos Rabelo me cedido gentilmente o seu bom e bonito ginete, que de então em diante disse ficar à minha disposição.

Chegando ali, sem demora, nos atiramos à água, e não fosse a ocupação dos companheiros, demorar-me-ia muitas horas.

Não conheço banho melhor. Fala-se muito das termas romanas, e outros lugares de abluções, que inflamaram a imaginação de poetas e prenderam a atenção de escritores, mas duvido muito que qualquer deles fosse mais apreciável que os banhos da Ponte.

Neles é tão grande a satisfação que se sente, que quase se perde por completo a lembrança dos afazeres do dia, o que, de resto, é o único mal que podem fazer ao banhista, que aí não devem recear comprometer a saúde.

O Bento manda para lá os seus doentes, recomendando banhos diários.

Tendo voltado, e depois de ter almoçado com o melhor apetite, visitei, ou antes paguei as visitas de alguns amigos, que sempre os tenho, apesar de ser esta a primeira vez que venho a Caxias.

Caiu doente um dos companheiros de viagem, sendo Bento chamado a medicá-lo. Fui em sua companhia à casa em que se acha o enfermo, interessando-me pelo seu restabelecimento.

Creio muito no Bento, pois, se não gosto da medicina, nem por isso tenho o direito de desgostar e descrer dos bons facultativos. Ele há de curar o doente, que longe da família, e quase sem recursos, se sente muito desanimado.

É bem triste ver-se a gente prostrada em um leito sem os carinhos do lar, ou de um coração amigo, qualquer que ele seja!

Dia 28 - Estamos em pleno dia da votação da atual constituição do Estado e da adesão da ex-província(maranhense) ao movimento liberal que separou o Brasil da metrópole portuguesa.

Fui convidado para uma sessão cívica, mas não me sendo possível falar, neguei-me a comparecer.

Fui novamente a Ponte. Desta vez em companhia do Antonio Lopes e do mesmo Bento, que nos proporcionou um magnífico Picnic. Almocei como um gastrônomo, com a licença do Paulo, atirando-me ao peru com o ardor bélico de um brasileiro patriota, que não teme as caretas do inimigo, que nos disputa a posse do Alto-Juruá.

Tomei três banhos, pois convenci ao companheiro médico que, não podendo transportar o riacho Ponte para capital, onde tenho a minha residência, ou para o meu estado, onde pretendo me demorar alguns meses, seria um erro irreparável não aproveitá-lo na minha estada entre os caxienses. Ele, que um apreciador do bom e do belo, deu-me razão, que acredito tanto mais sincera porquanto, se por ventura se agravassem os meus incômodos, ele me trataria com desvelo, como a todos costuma fazer, e desinteressadamente, como faz a poucos.

Só depois de três horas voltei da excussão, passando pela casa de residência do Rodrigo Otávio, Juiz de direito da Comarca, que no dia anterior me havia visitado. Não obstante ao tratamento cordial, não me demorei, indo logo para o centro da cidade onde estava hospedado.

Como previra o Bento, piorei um pouco, a ponto de ficar com a fala quase imperceptível. D. Mariana, - e assim se chama a digna consorte do coronel Leôncio Machado sem alardear ciência e pedir cautela, aplicou-me um chá de limão, que deu bom resultado. O chá, ao contrário dos remédios de botica, é saborosíssimo. Se todos os médicos fossem como D. Mariana!

Enfermo impertinente, disse, porém a todos que me quisessem ouvir, que não me respondia pela dieta, pois perdoo a Ponte pelo mal que me fez, pelo bem que me sabe.

Os dois Leôncios não foram, como eu, à festa cívica. Curtimos em casa o nosso patriotismo, apesar de sabermos que o Dr. Berredo iria discursar com toda a sua enfibratura patriótica.

Depois de amável palestra adormeci, e dormir, não como um padre cura, mas como um justo.

Coisa boa é ter o estômago cheio, amigo na praça, e uma consciência tranquila. Para cúmulo de maior felicidade só me faltava dinheiro na caixa.

Dia 29 – tomei o dia de hoje para alguns afazeres intelectuais, máxime porque os companheiros de banho, ou por preguiça, ou por ocupações, ou porque mais realistas que o rei quisesse velar pela minha saúde, não me procuraram.

     Recompus as minhas notas diárias que estavam em atraso e conservadas só de memória. Ainda pela manhã fui com alguns amigos ao edifício em que funciona a sociedade maçônica Harmonia Caxiense. É esta uma corporação que completa o quadro descritivo desta culta cidade sertaneja. Seria realmente para causar espécie que, sendo este um importante centro de população, dotado de tantos melhoramentos materiais e alguns intelectuais, como o Instituto Benedito Leite, não exibisse, entretanto, o selo indicador do progresso moral em sua melhor característica.

Caxias não poderia se furtar ao dever de criação de uma sociedade deste gênero para boa disciplina dos espíritos e constantes evocações das grandes datas morais dos nossos antepassados para exemplo e estímulo de seus filhos.

A Harmonia Caxiense foi fundada há pouco tempo, mas, segundo me garantiram, já tem um quadro superior a cinquenta membros e mantém a perspectiva de um futuro lisonjeiro.

Conta iniciar brevemente em seus mistérios quadros vultos importantes do lugar, e – o que é ocioso dizer de uma organização que visa os mais elevados fins morais – é constituída de uma boa parte da elite caxiense.

Disse-me, porém, o Dr. Alarico Costa que o templo é situado em lugar pouco higiênico, o que realmente é para lamentar. Seu digno venerável coronel Leôncio Machado, cogita, porém, fazer nele importantes melhoramentos, e é natural que, ao realizá-lo, não esqueça os preceitos da higiene.

Pretendo seguir depois de amanhã para Teresina, não tomei banhos e consegui alguma melhora durante o dia, que passei, quase todo, sem sair de casa. Só à tarde fui a casa do Bento, tomando uma xicara de excelente café, que me ofereceu D. Mariquinhas, digna mãe daquele amigo.

Saí, com ele, a passeio, não valendo a pena descrever os passos que demos. Foi um dia para mim de pouca vida.

(*) Araújo Costa, piauiense, advogado, jornalista, ex-presidente da Câmara de Vereadores de São Luís, foi também um dos participantes da Junta Governativa Provisória, que governou o Maranhão por volta do ano 1922.


 


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