| Vapor que navegava pelas águas do rio Itapecuru arrastando balsas
IMPRESSÕES DE
VIAGEM (Parte 5)
Carlos Augusto de
Araújo Costa (*)
Ainda em
Caxias, aproveitando os bons préstimos do povo caxiense, o viajante também usufrui
com prazer da delícia de se prepara para um banho no balneário Ponte, lugar
agradável que até os dias de hoje atrai os caxiense e visitantes para as
suas margens. Araújo Costa teve que
arcar com alguns problemas causados pelo banho frio que tomou fartamente. É o
que veremos a seguir.
Dia 27
– Apesar de continuar defluxado e bastante rouco, fui a Ponte tomar banhos, em
companhia do Bento e do Leôncio Filho. Esse passeio fizemo-lo à cavalo, pois
não era pequena a distância que tínhamos a percorrer, tendo, para isto, o
Capitão Domingos Rabelo me cedido gentilmente o seu bom e bonito ginete, que de
então em diante disse ficar à minha disposição.
Chegando ali,
sem demora, nos atiramos à água, e não fosse a ocupação dos companheiros,
demorar-me-ia muitas horas.
Não conheço
banho melhor. Fala-se muito das termas romanas, e outros lugares de abluções,
que inflamaram a imaginação de poetas e prenderam a atenção de escritores, mas
duvido muito que qualquer deles fosse mais apreciável que os banhos da Ponte.
Neles é tão
grande a satisfação que se sente, que quase se perde por completo a lembrança
dos afazeres do dia, o que, de resto, é o único mal que podem fazer ao
banhista, que aí não devem recear comprometer a saúde.
O Bento manda
para lá os seus doentes, recomendando banhos diários.
Tendo voltado,
e depois de ter almoçado com o melhor apetite, visitei, ou antes paguei as
visitas de alguns amigos, que sempre os tenho, apesar de ser esta a primeira
vez que venho a Caxias.
Caiu doente um
dos companheiros de viagem, sendo Bento chamado a medicá-lo. Fui em sua
companhia à casa em que se acha o enfermo, interessando-me pelo seu
restabelecimento.
Creio muito no
Bento, pois, se não gosto da medicina, nem por isso tenho o direito de
desgostar e descrer dos bons facultativos. Ele há de curar o doente, que longe
da família, e quase sem recursos, se sente muito desanimado.
É bem triste
ver-se a gente prostrada em um leito sem os carinhos do lar, ou de um coração
amigo, qualquer que ele seja!
Dia 28
- Estamos em pleno dia da votação da atual constituição do Estado e da adesão
da ex-província(maranhense) ao movimento liberal que separou o Brasil da
metrópole portuguesa.
Fui convidado
para uma sessão cívica, mas não me sendo possível falar, neguei-me a
comparecer.
Fui novamente
a Ponte. Desta vez em companhia do Antonio Lopes e do mesmo Bento, que nos
proporcionou um magnífico Picnic. Almocei como um gastrônomo, com a licença do
Paulo, atirando-me ao peru com o ardor bélico de um brasileiro patriota, que
não teme as caretas do inimigo, que nos disputa a posse do Alto-Juruá.
Tomei três
banhos, pois convenci ao companheiro médico que, não podendo transportar o
riacho Ponte para capital, onde tenho a minha residência, ou para o meu estado,
onde pretendo me demorar alguns meses, seria um erro irreparável não
aproveitá-lo na minha estada entre os caxienses. Ele, que um apreciador do bom
e do belo, deu-me razão, que acredito tanto mais sincera porquanto, se por
ventura se agravassem os meus incômodos, ele me trataria com desvelo, como a
todos costuma fazer, e desinteressadamente, como faz a poucos.
Só depois de
três horas voltei da excussão, passando pela casa de residência do Rodrigo
Otávio, Juiz de direito da Comarca, que no dia anterior me havia visitado. Não
obstante ao tratamento cordial, não me demorei, indo logo para o centro da
cidade onde estava hospedado.
Como previra o
Bento, piorei um pouco, a ponto de ficar com a fala quase imperceptível. D.
Mariana, - e assim se chama a digna consorte do coronel Leôncio Machado sem
alardear ciência e pedir cautela, aplicou-me um chá de limão, que deu bom
resultado. O chá, ao contrário dos remédios de botica, é saborosíssimo. Se
todos os médicos fossem como D. Mariana!
Enfermo
impertinente, disse, porém a todos que me quisessem ouvir, que não me respondia
pela dieta, pois perdoo a Ponte pelo mal que me fez, pelo bem que me sabe.
Os dois
Leôncios não foram, como eu, à festa cívica. Curtimos em casa o nosso
patriotismo, apesar de sabermos que o Dr. Berredo iria discursar com toda a sua
enfibratura patriótica.
Depois de
amável palestra adormeci, e dormir, não como um padre cura, mas como um justo.
Coisa boa é
ter o estômago cheio, amigo na praça, e uma consciência tranquila. Para cúmulo
de maior felicidade só me faltava dinheiro na caixa.
Dia 29
– tomei o dia de hoje para alguns afazeres intelectuais, máxime porque os
companheiros de banho, ou por preguiça, ou por ocupações, ou porque mais
realistas que o rei quisesse velar pela minha saúde, não me procuraram.
Recompus as minhas notas diárias que
estavam em atraso e conservadas só de memória. Ainda pela manhã fui com alguns
amigos ao edifício em que funciona a sociedade maçônica Harmonia Caxiense. É
esta uma corporação que completa o quadro descritivo desta culta cidade
sertaneja. Seria realmente para causar espécie que, sendo este um importante
centro de população, dotado de tantos melhoramentos materiais e alguns
intelectuais, como o Instituto Benedito Leite, não exibisse, entretanto, o selo
indicador do progresso moral em sua melhor característica.
Caxias não
poderia se furtar ao dever de criação de uma sociedade deste gênero para boa
disciplina dos espíritos e constantes evocações das grandes datas morais dos
nossos antepassados para exemplo e estímulo de seus filhos.
A Harmonia
Caxiense foi fundada há pouco tempo, mas, segundo me garantiram, já tem um
quadro superior a cinquenta membros e mantém a perspectiva de um futuro
lisonjeiro.
Conta iniciar
brevemente em seus mistérios quadros vultos importantes do lugar, e – o que é
ocioso dizer de uma organização que visa os mais elevados fins morais – é
constituída de uma boa parte da elite caxiense.
Disse-me,
porém, o Dr. Alarico Costa que o templo é situado em lugar pouco higiênico, o
que realmente é para lamentar. Seu digno venerável coronel Leôncio Machado,
cogita, porém, fazer nele importantes melhoramentos, e é natural que, ao
realizá-lo, não esqueça os preceitos da higiene.
Pretendo
seguir depois de amanhã para Teresina, não tomei banhos e consegui alguma
melhora durante o dia, que passei, quase todo, sem sair de casa. Só à tarde fui
a casa do Bento, tomando uma xicara de excelente café, que me ofereceu D.
Mariquinhas, digna mãe daquele amigo.
Saí, com ele,
a passeio, não valendo a pena descrever os passos que demos. Foi um dia para
mim de pouca vida. (*) Araújo Costa, piauiense, advogado, jornalista, ex-presidente da Câmara de Vereadores de São Luís, foi também um dos participantes da Junta Governativa Provisória, que governou o Maranhão por volta do ano 1922.
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