quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Viajando no Passado pelo rio Itapecuru

 

Cais da Sagração, de onde partiu o vapor "Carlos Coelho" - São Luís





José Pedro Araújo (*)

Sempre tive curiosidade de saber como se davam os deslocamentos realizados no passado pelas águas dos rios Mearim e Itapecuru nas viagens de barco. Qual o seu grau de dificuldade, o seu desconforto e, principalmente, o tempo empregado em trechos, como o de São Luís a Barra do Corda, por exemplo, pelas águas do rio Mearim. Quantos dias se levava para ir de São Luís a Caxias, quando ainda não haviam as rodovias, navegando-se pelas águas do estreito Itapecuru? Pois, outro dia matei a minha curiosidade ao ler uma espécie de diário de bordo escrito pelo piauiense Dr. Araújo Costa, advogado e político radicado em São Luís do Maranhão por volta do ano de 1905.

Vapor típico que navegava pelos rios maranhenses
Para quem costuma reclamar do tempo empregado para ir-se de Teresina a São Luís, seria muito interessante ler o relato do insigne cidadão publicado na Revista do Norte em 1905, e disponível no site da Biblioteca Bendito Leite. Garanto que se surpreenderia com a dificuldade de SE cobrir esse trecho que hoje gastamos pouco mais de oito horas, mesmo com toda a dificuldade de trânsito que possamos encontrar hoje.

O Dr. Araújo Costa embarcou no Vapor “Carlos Coelho”, ao cair da noite, no Cais da Sagração, antigo porto situado nas proximidades do Palácio dos Leões.  Acompanharam o seu embarque um numeroso grupo de amigos e familiares, como era praxe naquela época. Pela descrição, dava para ver que não havia conforto nenhum naquele tipo de embarcação. Além disso, o calor e as muriçocas importunavam os viajantes durante o dia e a noite. Dormiam-se em redes, alimentavam-se a bordo da embarcação, e, vez por outra, passavam-se por contratempos enormes, como quando o vapor encalhava em algum banco de areia e permanecia parado por longas horas naquela situação.

Porto de Codó em 1903
Outra dificuldade encontrada a bordo era na hora de se fazer as necessidades fisiológicas. Ele não fala nem de longe nisto, mas foi a primeira pergunta que me veio à mente. Em uma outra viagem, descrita por um outro aventureiro, quando se deslocava pelo mesmo rio em um barco idêntico ao que viajava o dr. Costa Araújo, o viajante contou as proezas realizadas a bordo da embarcação para se conseguir fazer algo assim tão corriqueiro. Dizia ele que se fazia uma verdadeira ginástica para se realizar essa necessidade tão comum, e tão desconfortável, quando não se tem um banheiro por perto. O viajante aqui citado, por exemplo, relatou que as mulheres usavam uma espécie de empanada com um tecido grosso para protegerem-se dos olhares dos outros embarcadiços, enquanto se aproximavam da amurada da embarcação e faziam a operação ali mesmo. Nesse instante, jogavam as fezes diretamente nas águas do rio. Era assim ou não era. Não havia banheiro a bordo.

Como já afirmei, o autor da descrição da viagem a bordo do vapor “Carlos Coelho”, não desceu a esse tipo de detalhamento, mas relatou que quando chegava em uma cidade ribeirinha, como Rosário, Cantanhede, Coroatá e Codó, por exemplo, aproveitava a parada do barco e visitava a casa de alguns amigos. Disse ainda, que ali aproveitava para tomar banho e trocar de roupas. Que aproveitavam também para comprar mantimentos e, principalmente bebidas. Nesse momento a embarcação se mantinha parada no cais para receber mercadorias e novos passageiros. Os passageiros, então, como forma de matar o tempo, empreendiam passeios de reconhecimento pela cidade. Até que o vapor apitava, chamando a todos para voltarem à bordo.

Em outros locais, quando das paradas do vapor para apanhar lenha em pontos previamente acertados, os passageiros aproveitavam para ir em busca de alguma moita para se aliviarem, e até mesmo tomar banho, ou simplesmente desciam para movimentar as pernas.

 Enfim, não era propriamente uma viagem cercada de confortos, mas afiançou o nosso viajante que o tempo a bordo era aproveitado para conversas com alguns amigos que também viajavam na mesma embarcação, e nessas ocasiões tomavam vinhos e outros tipos de bebida qualquer. Havia até mesmo um passageiro, o empresário oeirense Coronel Luís Rego, que transportava seis vacas leiteiras de raça na embarcação. E essas vacas forneciam diariamente leite à gosto para os passageiros . No café da manhã podiam contar, portanto, com leite fresco retirado das tetas das vacas momentos antes.

Finalizo o presente texto dizendo que o Dr. Costa Araújo iniciou a sua viagem, como já afirmei algumas linhas acima, dia 17 de julho, e somente chegou a Caxias, onde pretendia tomar o trem para Timon, à margem do rio Parnaíba, no dia 25 de julho, às 21:00 horas. Convenhamos que uma viagem dessas era coisa para se pensar bem antes de realizar. Arremato, a presente arenga, dizendo que havia um continuo trabalho de limpeza do rio, em especial para remover os troncos das árvores que caiam e entupiam o seu leito, dificultando a passagem dos vapores. E que as viagens somente eram realizadas no período da estação invernosa, quando as águas do rio se elevavam e permitia o trânsito de embarcações. De janeiro a julho, portanto. No restante do ano era impossível transitar pelo rio, a não ser em canoas ou afins. Por fim, informo que, durante alguns dias, farei da publicação deste relatório de viagem sem qual qualquer alteração, respeitando o texto publicado pelo seu autor na "A Revista do Norte", para deleite daqueles que gostam de saborear uma boa aventura.

(*) Crônica original publicada em12.10.2019

(*) 
José Pedro de Araújo Filho é presidutrense, engenheiro agrônomo, autor do livro Viajando do Curador a Presidente Dutra – história, personalidades e fatos, e coordenador do blog Folhas Avulsas.             

      
  

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