sábado, 12 de novembro de 2016

O Jeep do Curador

Foto meramente ilustrativa by Google


José Pedro de Araújo

Em um tempo em que as estradas de acesso ao velho e querido Curador não passavam de caminhos para uso da tropa de animais, o município ganhou um presente e tanto: um Jeep Willys novinho. Vou começar essa história bem do começo, para que fique mais clara e inteligível.

Em uma região conhecida como Japão, situada no centro do estado maranhense, uma florescente vila foi ganhando vida, se organizando, e logo mais já clamava por liberdade, desligando-se do município mãe, Barra do Corda, para escrever a sua própria história. Teria um futuro promissor por se situar em região estrategicamente bem localizada, por onde passavam muitos caminhos rumo a diversas partes do estado. E isso, aliado ao fato de possuir terras férteis e livres, fez a comunidade nascente se desenvolver rapidamente. Com o pomposo nome de Curador, uma homenagem ao velho morador que usava suas mezinhas feitas a partir de raízes e folhas de plantas nativas para curar enfermidades de muitos que por ali transitavam, galgou a posição de município em dezembro de 1943, mas somente em junho de 1944 aconteceu a tão ansiada solenidade de emancipação política. Dai ser esta a data escolhida para festejarmos o seu aniversário. Mas, essa parte da história todo o mundo já sabe, ou quase todo o mundo, e me detive nela apenas para dar fluência e extensão ao texto.

E eis que quando os maranhenses de outras bandas já iam se acostumando com o nome do novo município, Curador, a Assembleia Legislativa do Estado, através de uma proposta de Lei apresentada pelo deputado José Martins Dourado, muda-lhe o nome, ou altera o seu topônimo, como se diz tecnicamente, para Presidente Dutra. Eurico Gaspar Dutra, como todos também sabem, era o Presidente da República do Brasil, e acolheu o presente com muita alegria, afinal, seu nome passaria à posteridade e jamais seria esquecido. 

Mas, ao que parece, a coisa não se deu de maneira tão bonita assim. O presente ofertado teve lá o seu custo, e importou em algumas retribuições por parte do homenageado. E tudo isso acontecia com a participação de Vitorino Freire, felpuda raposa que dominou a política estadual sem nunca ter sido governador. Vitorino havia retornado ao Maranhão tão logo Dutra assumiu a presidência e, instantaneamente, passou a articular politicamente o blocão que iria controlar a política estadual por décadas, até a tomada do poder por outro grupo hegemônico, a oligarquia Sarney.

Mas eu dizia que a mudança do topônimo do novo município teve um custo para o homenageado. Correu célere pelas ruas poeirentas da cidade, pelos becos, e até mesmo belos babaçuais que cercam a sede municipal, a notícia de que Vitorino Freire, com o apoio, ou a conivência, do Presidente da República, havia comprado a alteração do nome de Curador para Presidente Dutra. Bem, isso pode não ter acontecido exatamente dessa maneira, mas os tempos comportavam todo tipo de notícia, até mesmo as fantasiosas e, deste modo, a oposição ainda machucada com a derrota na eleição de Ariston Leda, passou a divulgar essas histórias como se verdadeiras fossem.

Verdadeira ou não, o certo mesmo é que o presidente da república, sensibilizado pelo gesto, presenteou o novo município com a destinação de verbas para a execução de obras de infraestrutura, especialmente para a construção do campo de aviação na nova cidade, no valor de 50.000 cruzeiros. Até mesmo o colégio das irmãs, por essa época enfrentando grandes dificuldades para a sua conclusão, foi presenteado também com uma verba de 50.000 cruzeiros. Essa notícia foi alardeada pelo jornal Diário de São Luís na sua edição do dia 20 de fevereiro de 1949. E não apenas isto, o município ganhou de presente também um Jeep Willys, de fabricação americana. Mas aí advieram novos problemas, novas histórias sobre a doação desse veículo que, em última análise, se constituiria no primeiro veículo automotor a pertencer ao município, e o primeiro também a pertencer à municipalidade.

O tal veículo, na verdade, foi uma doação da Cooperativa de Usineiros de Pernambuco, que congregava os produtores de açúcar, conforme se pode observar em uma série de telegramas trocados pela tal cooperativa, a presidência da república, e também o governador do estado, Sebastião Archer da Silva, com o prefeito eleito. Abaixo transcrevo um deles:


(Cooperativa dos Usineiros de Pernambuco – Rio de Janeiro, Abril de 1949. Exmo. Senhor Presidente General Eurico Gaspar Dutra – Nesta.


Prezado Senhor Presidente,

Por intermédio do nosso amigo, Senador Vitorino Freire, tivemos ciência da criação do município “Presidente Dutra", no estado do Maranhão. Nós os usineiros de açúcar de Pernambuco, ficamos satisfeitos com tal manifestação do povo do Maranhão porque reconhecemos, solidários com os maranhenses, o quanto V. Excia. vem realizando em benefício da Nação em seu governo de Justiça, Ordem e Respeito. E desejosos de manifestar a nossa simpatia, pedimos licença a V. Excia para oferecer o automóvel “Jeep” cujos documentos de embarque anexamos a esta, com o objetivo de facilitar o transporte de utilidades para o novo município, concorrendo assim para o seu rápido progresso. E também veja V. Excia neste nosso oferecimento uma modesta homenagem que lhe prestamos como reconhecimento)


Deixo à análise dos leitores deste humilde texto, as razões para tão desprendida manifestação de uma entidade que, em ultimo caso, nada, ou pouco, tinha a ver com o estado maranhense. No mínimo um grande gesto de reconhecimento para com o esperto Vitorino Freire, tão pernambucano quanto a Cooperativa de usineiros. Mas, o fato é que o Jeep foi doado e há registro de que logo estava rodando sobranceiro por esses caminhos ermos e mais acostumados à pata das cavalgaduras do que propriamente aos pneus dos veículos automotores. E vem daí outras histórias que não me cabe aqui averiguar se são verdadeiras ou não. Noticio o fato apenas e tão somente como fato histórico, e para que também fique registrado nos anais do velho e bom Curador.

A oposição passou a divulgar que o veículo doado era utilizado pela família do prefeito como se fora seu. E que até fora levado para Tuntum, quando da emancipação daquele município, deixando Presidente Dutra sem o seu automóvel. Não sei dizer se essa história é verdadeira ou se devemos tratá-la como mais uma picuinha política criada pelas oposições. Como todos sabemos, as histórias políticas comportam muitas versões, todas “verdadeiras”. E como se diz nos dias de hoje, “uma mentira tantas vezes repetida, acaba se transformando em verdade”. Pode ser este o caso. Ou não. Existiu, contudo, o fato histórico aqui registrado nesta crônica.

Para quem não sabe, o tal campo de aviação foi transformado muito depois na importante Av. Tancredo Neves, uma das maiores artérias do velho e progressista Curador. Ponto para a comunidade.

E Dez anos depois, o velho general foi outra vez homenageado e teve o nome posto em outro município nordestino, desta vez no estado da Bahia. Ficou o Brasil com dois municípios “Presidente Dutra”.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Diário de Um Náufrago (Capítulo III)



Foto Ilustrativa by Google
José Pedro Araújo


DUAS DESCOBERTAS IMPORTANTES


Chegou a temporada de chuvas. Elas vieram fortes, com ventos, trovões, e logo os dias começaram a ficar muito solitários. Mais do que jamais foram. Eu não disse ainda que quando acordei na praia, tinha alguns hematomas pelo corpo, e um corte largo, mas raso, na cabeça, por cujo orifício o sangue já havia escorrido, mas agora havia estancado. O bom disso é que quase não me doía mais. Residia ali a razão da minha perda momentânea de memória, foi o que pensei.

Com os meus dias de solidão se acentuando, passei a me inquirir como havia chegado até ali, o que havia me acontecido. E uma luz se acendeu na minha mente quando, certo dia, encontrei em um dos lados da ilha uma grande quantidade de cartas de baralho. Estranhamente me vi imbuído de grande contentamento e passei a juntar freneticamente o material espalhado pela areia da praia de modo que, quando cheguei ao meu barraco e comecei a organizá-lo, vi que formavam quase três baralhos completos. Passou a ser o meu passatempo favorito e quase abandonei os livros que já se achavam em boa quantidade, esperando para serem devorados. Vi também que manuseava com extrema maestria as cartas como se tivesse sido essa uma coisa que eu fazia com muita assiduidade. Paciência, pôquer, buraco, vinte e um, canastra, black jack,  e tantos outros jogos, viraram atrações em uma mesa que eu cobria com a toalha descolorida por mim encontrada dias antes. A mesa eu havia achado faltando uma perna, mas a consertei com habilidade. Passei a jogar sozinho, mas honestamente. Deste modo, as partidas eram duras, disputadíssimas. Até havia encontrado um grande boneco de plástico, um palhaço sorridente, que me passou a fazer companhia, e ao qual dei o nome de Vincent. Vincent não jogava, só fazia parte da torcida, e como não interferia, não recebia de volta aquelas piadinhas sem graça que são lançadas sobre os assistentes chatos, os tais perus.

Depois de três dias de intensas chuvas, o dia amanheceu com sol brilhante, um daqueles apropriados para se levar a família à praia mesmo. Como não havia família nenhuma a me acompanhar, e o Vincent estava me chateando com aquele sorriso que nunca o abandonava, decidi sair sozinho para uma caminhada. E caminhei bastante, pois estava com saudades de esticar as pernas. Contornei a ilha na sua face norte e andei mais uma meia hora, até encontrar uma embarcação semidestruída que eu ainda não vira antes. Era uma grande embarcação, ou o que restara de uma. Ao me aproximar mais um pouco notei que era bem maior do que eu pensara anteriormente, pois a maior parte estava submersa e deveria estar enterrada na areia, pois a carcaça não se movia quando as ondas batiam nela.

Sem dificuldades, apoiando os pés em uma abertura grandiosa no seu casco, subi até ao tombadilho, pois o navio encalhara na praia de ré. Era até possível ver duas enormes hélices enterradas quase completamente na areia. E ele parecia estar ali há muitos anos. Não era um vaso de guerra, nem um barco de pesca. Também não era um navio de passageiros, e como tinha espaço achatado, plano, para acomodar contêineres, não havia dúvidas, tratava-se de uma embarcação mercante. Passeei pelo porta-contêineres e ainda pensei em entrar por uma abertura que levava ao seu interior, mas um esvoaçar de morcegos apressados me fez refluir da ideia. Que ficasse para outro dia.

Não vi nenhum contêiner por ali, nem muito menos ao redor da embarcação. Talvez tivessem levado a carga e embarcado em outro navio.

Ainda lá em cima, parei para observar a ilha do alto e vi que logo mais para o centro dela havia uma elevação significativa, um morro de boa altitude. Talvez fosse possível ver bem o entorno dela lá do seu cume. E parti para lá. Fiz uma caminhada de mais de uma hora até ao local e cheguei um pouco cansado. Menos mal que havia levado uma garrafinha de água como sempre fazia, envolta em um pano para lhe conferir uma característica antitérmica que, apesar de se achar agora meio morna, foi de muita utilidade. Parei na base da elevação, e observei que havia uma estreita trilha de subida, como se fosse utilizada amiúde para alguém lhe chegar ao topo. Fiquei surpreso com a descoberta, mas decidi prosseguir com a subida e em menos de dez minutos cheguei a sua parte mais alta.

Havia lá em cima uma espécie de esplanada, e no centro dela, uma pedra larga e plana, uma espécie de altar, ou observatório, que parecia ter sido usado com muita frequência. Subi nela e tive ao meu favor uma vista deslumbrante. O mar de águas calmas e azuis perdia-se no horizonte até fundir-se com a curvatura da abóbada celeste. Fiquei emocionado com a visão. De fato, um lindo espetáculo. Demorei uma eternidade ali, até que a barriga reclamou a ingestão de algo. Não dava para saber, mas já passava do meio dia quando voltei à base daquele morro. Tive, lá em cima, outra surpresa: do meu ponto de observação, descobri que havia uma infinidade de ilhas para o lado oposto ao que eu habitava. Umas pequeníssimas, e outras bem maiores, todas com vegetação luxuriantemente verde. Retornei para casa com várias perguntas se entrechocando na minha mente.

No dia seguinte, chuva, e no outro também. E como ficava em casa sem ter o que fazer, além de jogar cartas e ler, comecei a pensar no que havia visto naquele dia: a trilha de subida no morro, a pedra que mais parecia um altar para sacrifício ou um ponto de observação, a existência de inúmeras outras ilhas. Tudo isso aflorava na minha mente. E passei a imaginar se não existia mais alguém por ali, além de mim. Mas não cheguei a nenhuma conclusão. Desviava o pensamento, mas logo voltava ao ponto inicial, e assim ia dando voltas e mais voltas, até que o assunto sumia da minha mente.

De uma coisa eu tinha certeza: alguém usou aquele caminho por muitas vezes para subir ao alto daquela elevação. Ou pelo menos já fizera isso há algum tempo. E se era assim, o que foi feito dele, já fora embora? Ainda não dava para saber, mas esta era uma verdade que eu precisava descobrir, para a minha própria sobrevivência. E se fora embora, como havia feito isso? Passei a me perguntar enquanto aguardava uma chance para sair pela praia novamente. A chuva não parava, contudo. Parecia que estávamos no pico do período chuvoso, ou que as chuvas eram bem frequentes na região, pois havia observado as árvores com líquens em profusão no tronco e galhos, o que atestava longos períodos de clima bem úmido.

Ainda bem que havia improvisado algumas lamparinas, pois a minha fogueira havia ido para os cafundós com as chuvas chegando. E por isso, as minhas lamparinas se mantinham acesas durante todo o tempo, esfumaçando as paredes e correndo risco de se apagarem quando o vento penetrava forte pelas frestas das paredes de madeira. E foi ai que improvisei proteções de vidro para elas, tipo aquelas camisas dos lampiões. Não fora difícil. Bastou retirar o fundo de algumas garrafas claras e pronto. Bom, a visão não era muito bonita, mas a sua eficiência estava comprovada.


sábado, 5 de novembro de 2016

Crônicas Vividas - Alma Pequena

Foto Ilustrativa



José Ribamar de Barros Nunes*

Não sei se já revelei isso aos meus poucos, admiráveis e amáveis leitores. Se não fi-lo (como falava Jânio Quadros), faço-o agora. Tenho prazer e alegria em escrever. Não tenho falsa modéstia nem pudor de dizer que me considero narcisista. Na verdade, delicio-me com o produto literário. Muitas vezes, leio-o e releio e quase sempre vibro e me arrepio.

Com este título homenageio o notável poeta e pensador lusitano, cuja frase, citada em todo o mundo, sempre agrada a gregos e troianos. Tudo vale a pena se a alma não é pequena...

Tenho o costume de acrescentar alguma observação pessoal de minha vida. No caso concreto, adicionei ao pensamento de Fernando Pessoa o seguinte: Agora, o que tem de alma pequena no meio do caminho, não está escrito no gibi...

Vou tentar definir e esclarecer o que entendo por “alma pequena”. Existem pessoas que demonstram pesar, inveja ou desgosto com a felicidade dos outros. Nesse sentido, às vezes, desabafam, lamentam, menosprezam e criticam a alegria e o bem-estar que não sentem em si.

Alma pequena. Onde encontrá-la? Em toda e qualquer parte, na rua, na praça, no trabalho e por aí vai... Vale lembrar que a escola da vida não oferece férias. Todo dia há uma liçãozinha a aprender ou um ensinamentozinho a transmitir...

Como identificá-la e afastá-la de nossos caminhos e relações? Essa difícil tarefa cabe a cada um de nós. Só a vida o faz, pois como dizia minha mãe, o mundo ensina... E não há férias na dura e infalível escola da vida.

Só resta a cada um enfrentá-la, contornando os caminhos e desvios ou eliminando as pedras que dificultam a estrada. A caminhada prossegue e não tem fim. Vai até o horizonte ao “nec plus ultra”





*José Ribamar de Barros Nunes, é cronista, consultor parlamentar e autor de Crônicas Vividas e Duzentas Crônicas Vividas.

E-mail: rnpi13@hotmail.com




quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Diário de um Náufrago(Capítulo II)


Foto meramente ilustrativa by Google



José Pedro Araújo


UM PRESENTE FEMININO


Local escolhido nos primeiros dias, tratei de construir a minha choupana, pois vi que algumas nuvens estavam se formando a leste e logo teríamos chuvas em profusão. O barraco deveria se constituir de apenas um ambiente, mas, pensando melhor, construí um pequeno alpendre na frente e improvisei uma cadeira espreguiçadeira com tábuas que fui recolhendo na praia. O tempo que eu levei para deixar o meu lar relativamente habitável, eu contei bem: foram nove dias de trabalho intenso. Até sobrou material para forrar o chão arenoso.

Depois, improvisei também uma cama com todo o tipo de material mais confortável que eu fui encontrando, e no terceiro dia, após o término da minha moradia, achei uma coisa na praia que muito me alegrou: uma mala de couro fechadinha. Abri-a com dificuldades, pois o fecho estava preso com um cadeado e, surpresa, tratava-se de uma mala feminina. Muitos vestidos de luxuoso acabamento, calças de índigo, lingerie, alguns perfumes, bijuterias, cintos finíssimos e, lá no fundo, dois lençóis de linho muito perfumados. Estava tudo umedecido, mas mesmo assim em ótimo estado. Improvisei o meu primeiro varal utilizando alguns cipós que encontrei ali por perto e pus tudo para secar.

Depois de limpa e seca, a mala recebeu também as minhas roupas, pois passei a andar somente de cueca. O problema é que, de tanto lavá-la e por para secar, já estava perdendo a força do seu elástico, ficando frouxa. Mais alguns dias e eu teria que andar completamente pelado, porque, as roupas eu somente as usava quando partia para desbravar o território. 
Meio encabulado, vi que algumas das roupas de baixo poderiam me servir, especialmente algumas peças tipo calçola, mais folgadas, não aquelas em estilo asa delta. A mala parecia ter pertencido a uma mulher de boa compleição física, um tanto gorda até, e isso, para sorte minha, vinha a calhar. E como não havia ninguém por ali para me observar, utilizei-me logo de uma calça de lycra que me serviu muito bem, como uma boa e confortável cueca. Deixei para usar as cor-de-rosa somente depois que perdesse o constrangimento.

A quem havia pertencido àquela mala? Pertencera a alguém vítima de algum naufrágio? Bem, não havia como saber, e também não havia riscos de receber alguma reprimenda pelo seu uso indevido.

E assim correram os meus dias neste local. Parecia que era eu o seu único habitante. Não vi marcas de pés na areia, ou de patas de animais, ou de qualquer outro bicho de tamanho maior. Até fiquei um pouco aflito no início, com medo de aborígines. E se fossem belicosos, antropófagos? Mas, nada. Nenhum vivente por ali. Só os passarinhos que me indicaram novas frutas comestíveis. Certo dia, inspecionando um dos lados da ilha, observei que um incêndio estava começando. Pareceu-me espontâneo, pois, mesmo esperando uns bons minutos, não vi ninguém aparecer. Corri então para apagá-lo. Temia que se propagasse para os lados da minha casa e destruísse tudo. Mas, logo vi que o vento estava contrário e não demorou o foco se apagou ao consumir o mato rasteiro que terminava na areia da praia.

No afã de debelar o incêndio, quase perdi a chance que me era oferecida. Num átimo, lembrei-me que poderia aproveitar o fogo e peguei uma acha maior com a brasa bem viva e consegui atiçá-lo. Levei o archote para o local em que instalei a minha base e fiz uma pequena fogueira. Teria que alimentá-la continuamente e não deixar que se apagasse. Depois veria como utilizar o fogo para preparar alguma comida com proteína animal, pois já estava me alimentando somente de frutos há uma boa quantidade de dias, e isso, com certeza, não era o suficiente para me manter saudável. A minha pira passou a ser alimentada constantemente, e nunca mais se apagou. Nunca é um termo muito determinante, que define eternidade. Portanto, por um bom tempo, pelo menos.

Mas, e quando vierem as chuvas? Precisava encontrar um jeito de resolver isto também.

Dias depois, andando pela praia em busca de novidades, encontrei uma grande rede de pesca semienterrada na areia. Vi que era boa, que o nylon estava relativamente novo e forte, e passei a pescar alguns peixes com ela, fazendo alguns arrastões na parte rasa do mar. Meu suprimento de peixe passou a ser constante. Faltava o sal, porém. Nunca me acostumei a comer sem sal. Então recorri a uma técnica simples que havia lido em algum livro num passado remoto. Bem, isso me lembrei depois. Pois na época a ideia me saiu como se fosse uma criatividade minha.

Apanhei algumas garrafas pet, produto abundante nas praias da ilha, enchi-as com água do mar, coei em um pedaço da anágua que encontrei na mala, joguei tudo em uma lata que eu havia transformado em panela e levei ao fogo. O que restou no fundo do recipiente eram cristais de sal marinho de boa qualidade. Passei a fazer uso dele. Que me perdoe a dona da mala por ter rasgado uma das suas peças mais vistosas e bem trabalhadas. Mas, não tive outra opção e nem teria um destino melhor para ela do que o que lhe dei. 

Como devem está se perguntando como solucionei o problema da água potável, vou logo responder. Passei os primeiros dias somente com o suco das minhas frutas, mas a minha garganta já reclamava por algo mais fresco, um H2O em sua pureza total. A previdência estava a meu favor, todavia, pois logo no início do quinto ou sexto dia fui em direção ao local em que via grande revoada de pássaros e me deparei com uma nascente de águas cristalinas e doces. O olho d’água formava um laguinho limpo e rodeado de arbustos floridos, e estava bem abrigado entre as árvores. A água encontrada estava tão limpa que se podia ver o fundo branquinho dele, feito de areia brilhante. Passei a tomar meus banhos ali também.

Meus problemas estavam praticamente resolvidos, pois passei a encontrar muita coisa comestível pelas praias, desde latas de conservas mais recentes, com data de validade legível e dentro dos prazos, até mesmo alguns barris de óleo que passei a utilizar em lamparinas rudimentares feitas com latinhas de cerveja. Os pavios eram feito de tecido que o mar também me havia presenteado. E que depois de desfiado, virava um bom pavio.

Assim, comida, água, fogo, nada me era mais difícil de achar. O mar, também tem a sua lógica, e costuma devolver para a terra tudo o que de estranho lhe é jogado. Era assim que nas praias se encontrava de tudo, desde comida em conserva, óleo diesel em barril, livros, revistas, até móveis que, aparentemente, não serviam mais, mas que para mim estavam perfeitos. No meu barraco já contava com estante para os livros, mala, como já falei, utilitários para uma cozinha quase completa, eu tinha tudo o que um náufrago precisa para viver por alguns dias. Bom, como nunca aprendi a cozinhar, assava os peixes em braseiros. Nada mais que isso.

É bem verdade que possuía tudo para passar alguns dias, mas o meu tempo estava se prolongando muito por ali. E, apesar de intuir que a ilha ficava em uma rota muito utilizada pela marinha mercante, nunca vi uma embarcação passando ao largo. E logo descobri o por quê. No entorno da ilha haviam muitos arrecifes, um extenso parcel que quase aflorava, o que tornava impraticável a navegação por ali. Passei a me perguntar como fazer para sair daquele lugar. O meu tempo era gasto com longas caminhadas pela orla, desbravamento do interior da ilha e, também, com muita leitura. Até mesmo à noite passava horas lendo com o auxílio das candeias que eu havia feito artesanalmente.