segunda-feira, 10 de abril de 2017

CARTA A UM AMIGO

fotografia Ilustrativa


(Chico Acoram)*


“O SENHOR TEU DEUS está ao teu lado como valente libertador!
Por tua causa ele está contente e alegre, apaixonado de amor por ti,
por tua causa está saltando de alegria, como em dias de festa.
Afastarei a desgraça para longe de ti a fim de que, por sua causa,
não venhas a sofrer humilhação. ” (Sofonias, 3, 17.18)

                Olá, amigo! Tudo bem? 

         O autor secreto desta missiva endereçada ao nobre amigo talvez não seja do seu conhecimento. Posso ser seu parente, um vizinho, um velho conhecido, um conterrâneo ou até mesmo uma pessoa que você nunca viu. Mas isso não é relevante. O importante é que eu o conheço há muito tempo, e sei o quanto o seu corpo e sua alma sofrem por conta das agruras da vida; das fraquezas humana. Por isso peço-lhe um pouco de sua atenção para o que eu tenho a lhe dizer.
Antes, porém, quero adiantar que não sou uma pessoa perfeita ou que nunca cometeu erros na vida. Oh! Quantos erros já pratiquei, principalmente quando ainda era muito jovem! No entanto, apesar das consequências maléficas desses equívocos, estes me fizeram fortalecer para a vida futura. Errar é humano. Só não devemos repeti-los. E orar muito para que Deus esteja sempre ao nosso lado, nos protegendo do mal e das noites traiçoeiras que são colocadas dia a dia em nossos caminhos, é uma obrigação. Essa é a fórmula do sucesso, o caminho da salvação.
Meu amigo, pelo que sei, você é um trabalhador, de alma boa, que tem uma família maravilhosa que muito sofre e se preocupa com essa situação que atravessa no momento. Além dos parentes, você tem muitos amigos que almejam o seu bem-estar, e desejam-lhe de todo coração que volte a ter alegria de viver honradamente nas graças do Senhor. Por isso, é que todos nós oramos para que você consiga a cura plena desse maldito vício que destrói o corpo e esfacela a alma do ser humano. Droga nunca foi solução para os problemas que enfrentamos. Além de criar uma falsa ilusão de satisfação e felicidade, ela a empurra para o abismo profundo, para a escuridão, comumente sem volta. É maligna; quimérica. A droga é a origem de todos os males, sem dúvida. Ela pode, por exemplo, transformar uma pessoa digna em um criminoso, em um doente mental, em um farrapo humano, em um zumbi. A droga é um produto químico inventado pelo Inimigo que quer exclusivamente destruir sua vida, dando boas gargalhadas com seu sofrimento e morte.
Meu amigo, você não merece isso. E pode reverter essa situação. Lute. Você é forte, pois Deus está do seu lado, sempre. Eu, seus parentes e amigos estamos juntos, orando e pedindo ao nosso Senhor que o ilumine e vença essa doença que tanto lhe aflige.
Observo que, desde que decidiu procurar ajuda na Fazenda da Paz, você tem se esforçado muito para se livrar desse vício mórbido e cruel. Você está no lugar certo. É uma casa abençoada por Deus; o caminho da sua recuperação. Quero que me prometa que só sairá dessa bendita casa quando tiver a convicção absoluta de estar totalmente curado. Continue lutando contra as tentações do mal.
Eu, sua família e amigos, estamos ao seu lado, conte conosco. Tenho certeza que você será vencedor nessa guerra. Deus é seu protetor. Ele é a solução para todos seus problemas.
Para finalizar transcrevo abaixo duas frases importantes para quem procura curar-se da dependência química.
“ Sobriedade é um renascimento. O primeiro passo é você querer...
O amor é o movimento da sobriedade”. (Célio Luiz Barbosa – Coordenador Geral da Fazenda da Paz)
“O caminho é só este: fazer a vontade do Senhor! ” (Pe. Pedro Balzi)
Um grande e fraterno abraço.
                                               ----------------

P.S.: POR FAVOR, GUARDE ESTA CARTA PARA QUE, NO FUTURO BEM PRÓXIMO, O ESTIMADO AMIGO POSSA LER PESSOALMENTE PARA MIM.


* Chico Acoram é funcionário público federal, cronista e colaborador deste blog. 
           

sábado, 8 de abril de 2017

Diário de Fralda (Parte 6)




(Empolgado com o nascimento da sua primeira filhinha, papai Bruno começou uma brincadeira que logo caiu no gosto de todos: a produção de um diário que ele convencionou chamar de “Diário de Fralda”. Diante disso, o blog resolveu publicar semanalmente o depoimento da Lavínia que, em último caso, vem a ser a netinha do coordenador do Folhas Avulsas).


SEMANA 10 – EU ME GARANTO!
  Bruno Giordano


69º DIA: “Tenho que confessar que nunca fui muito fã de tirar Selfie, mas está ficou legal! Já ordenei ao careca da voz engraçada que me traga um smartphone! Decidi levar a carreira de YouTuber! Pretendo criar um canal de esportes radicais, como a corrida de banthas ou de pods! Ou quem sabe um canal de turismo para destinos extremos, como Mustafa ou tatooine... ainda tenho que escolher... vamos servo careca! Prepara minha millenium Falcon que eu estou de partida! - Lavínia, a radical”.

70º DIA: “Fui apresentada a uma tal de Galinha Pintadinha! Que cores! Que música! Senti-me hipnotizada por aquele ritmo envolvente! Pena que o servo careca cortou na hora que me viu analisando aquela poesia! Disse que eu ainda era jovem demais e aquele conteúdo não era para mim!!! Ahhh!  servo careca... eu já cresci e tenho idade suficiente para me governar!! Não venha com imposições e proibições!!! Já tenho mais de dois meses e vou tomar conta do meu destino!!! Ahahaha!! - Lavínia, a pré-criança”. 

71º DIA: "Depois de minha contenda com o servo careca a respeito de que tipo de programas eu quero assistir, chegamos a um consenso... 15 minutos de Galinha Pintadinha pra mim e 15 minutos de vídeo game para ele! Estou pronto para cumprir o acordo! Será se o servo careca está!? Bem... pretendo ficar vistoriando sempre que ele se aproximar da televisão, e terei todo o prazer do mundo de informá-lo que o seu tempo acabou hahahahahahaha! - Lavínia, a justa”.

72º DIA: “Descobri que o troll blogueiro ancião estava aniversariando e resolvi verificar como seria essa comemoração! Fiquei muito feliz quando vi que o prato cerimonial seria pizza! E fiquei muito zangada quando não me ofereceram nem um pedaço! Ainda bem que carrego minha genitora sempre comigo para um lanchinho rápido!! Parabéns troll blogueiro ancião! Muitos séculos de vida!!!" - Lavínia, a hobbit”. 

73º DIA: “Era uma noite chuvosa quando cheguei ao apartamento! Seria uma escuridão total se não fosse uma luz bruxuleante que passava pela fresta da porta! Meus instintos de policial ativaram-se na hora em que ouvi sussurros vindo do outro cômodo! Puxei minha mamadeira! O leite estava na metade mas teria que servir! Quem seria audacioso o suficiente para invadir meu quartel general!? Aproximei-me lentamente do quarto de onde estava vindo a conversa, tão silenciosa que parecia estar flutuando! De mamadeira em punho, combinei através de um simples olhar com minha genitora o que faríamos! Ela arrebentaria a porta e eu renderia o facínora! Tudo certo! 3...2...1... BAM! E lá estava ele! Finalmente tudo estava claro! Era Apenas o servo careca assistindo séries e comendo sorvete! Eu sabia que haviam assaltado a geladeira e agora eu encontrava o culpado! Mais um crime solucionado! - Lavínia, a policial”.

74º DIA: “Tênis, camiseta, laço e gliter! Estou pronta para a balada de sábado à noite! Servo careca já está avisado que hoje vai ganhar hora extra noturna, mas não pareceu muito feliz com a notícia... mal sabe ele que eu chamei minha genitora para ir comigo!!! Vamos agitar a cidade hahaha!!! - Lavínia, a arrumadinha”. 

75º DIA: “Estou ficando preocupada com o servo careca... está comendo pouco, saindo de casa de madrugada pra correr e agora isso! Salgadinho de batata doce sem glúten! SEM GLUTEN! Qual a próxima!? Nada de batata frita!? Adeus churrasco? Como eu vou provar uma panelada se o servo careca está mais seletivo com o que come???? Aaaahhh! servo careca! Se prepare novamente pra hora extra noturna!!! - Lavínia, a comilona”.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Diário de Um Náufrago (Capítulo XXIV)




"Aprendendo a Viver Sozinho"
José Pedro Araújo
 
"Não preciso descrever aqui as agruras pelas quais passei para resolver a questão da minha alimentação, da água para beber, e de todas as demais coisas que precisamos para viver em um lugar isolado como este. Basta dizer que quase morri de fome e de sede até resolver a questão. Mas depois observei que havia muitas frutas que poderiam ser comestíveis; encontrei, algum tempo depois, um laguinho muito bonito que me serviu água doce em abundância, mas foi do mar que me veio o principal sustento. Como, aliás, tem acontecido com a minha família desde as gerações passadas, recorri aos peixes. Logo encontrei uma forma de pegar alguns deles e, como é tradição em meio ao meu povo, não precisei do fogo para deixar o pescado no ponto de consumo: transformei os peixinhos em Sashimi utilizando a técnica dos meus ancestrais. Somente muito tempo depois conseguiu domar o fogo que me serviria para iluminação e aquecimento nas noites mais frias. Do mar também ia me chegando muitas coisas: óleo diesel, comida enlatada, vasilhames, madeira trabalhada, livros, muitas coisas enfim".

"Instalar-me também foi um problema. Com medo de animais, fiz uma espécie de Jirau em uma árvore e lá morei durante muitos dias, até que descobri uma caverna no interior da ilha, em um dos passeios para reconhecimento do terreno". 

"Mas a solidão era tremenda. Passei dias e dias em completa prostração, lamentando a minha desgraça. E esse abatimento só era interrompido pelo barulho de aviões inimigos sobrevoando a região. Então a minha dor se transformava em medo. Estavam me procurando para terminar o serviço que haviam começado".

"Depois, quando já estava me acostumando com isso, uma embarcação lançou âncoras ao largo e muitos homens desceram dela e tomaram botes para chegarem até a praia. Foi o pior dia da minha vida por aqui. Camuflei como pude a entrada da minha caverna e fiquei esperando a qualquer momento pela chegada do inimigo. Mas eles não vieram. Mesmo assim, é bom que diga que eu estava pronto para recepcioná-los. Com alguns arpões que aprendi muito bem a manejar, esperava que adentrassem à minha caverna. Estava decidido a vender cara a minha vida".

"Depois, no dia seguinte, eles não apareceram naquele lado da ilha. E no terceiro dia a minha curiosidade me levou a ir espioná-los. Tive certeza de que eram americanos e que estavam atrás de mim. A maioria do grupo de cerca de dez pessoas era composta de homens louros, altos e muito falantes. A língua, logo vi, era a inglesa.  Daí não ter tido mais dúvidas. Foi só somar dois mais dois".

"Mas, no final do terceiro dia foram embora assim como haviam chegado. Perambulando pela mata, dias depois, observei algumas árvores marcadas. Não demorou muito, e outra vez vieram os americanos e cortaram muitas daquelas árvores que depois levaram para o navio deixado ao largo. Foi somente ai que constatei que eles vieram atrás de madeira. Desse grupo herdei um machado, um facão e uma pequena serra que eles se esqueceram de levar. Foram de muita utilidade para mim. E ainda são".

"Depois vieram outros, e mais outros. Foi quando descobri o meu ponto de observação sobre um morro no centro da ilha. E quase todo dia me deslocava para lá para observar a aproximação de embarcações ou das pessoas".

"Com o tempo fui me conformando com a minha situação, embora o ódio aos meus inimigos, àqueles que me fizeram viver longe da minha terra e da minha família, só tenha aumentado nesses anos. E durante muito tempo vi que eles ainda permaneciam por aqui, o que provava que a guerra ainda continuava. Foi nessa mesma época que passei a registrar os dias na parede da caverna utilizando-me de um  pedaço de carvão. Já estou aqui há pelo menos dez anos. E como esse tempo demorou a passar. Não ter nada para fazer alongava esses dias. Matava parte desse tempo lendo tudo o que me chegava às mãos. Ou quase tudo, pois muita coisa estava escrita em língua desconhecida para mim. E também passei a escrever sobre a minha estada por aqui".

"Este diário é o resumo de tudo o que escrevi. Da minha luta e paciência aqui nesta ilha perdida. Foram muitas e muitas folhas escritas para registrar a passagem do tempo, e todo esse material eu guardo comigo sob o meu colchão de dormir. Esse resumo que passei a organizar deixo para a pessoa que encontrar os indícios da minha passagem por esta ilha. Deste modo, quem o achar, não terá dificuldades para decifrar as minhas anotações. Foi por isso que resolvi, mesmo a contragosto, escrevê-lo na língua do meu principal inimigo, pois sei que eles ainda estão por aqui e a probabilidade de me encontrarem um dia não é pequena".

"Cerca de três anos atrás naufragou nessas águas, aqui próximo, durante uma tempestade tropical, um navio cargueiro que me foi muito útil. O mar, depois, o arrastou para a praia. Menos mal que seus tripulantes puderam ser socorridos por outras embarcações, mas a embarcação ficou com parte da proa enterrada na areia, e completamente destruído. E ao abandonarem o navio naufragado, deixaram muitas coisas que me foram úteis, desde ferramentas, talheres, pratos, panelas, roupa de cama, além de outras coisas mais. Até mesmo alguma comida eles deixaram para trás e dela me servi por algum tempo. Deste navio fiz morada provisória para quando algum temporal me surpreendesse naquela parte da ilha, apesar de nos últimos anos não ter ido muito por lá".

"Nós últimos anos também meus inimigos lançaram uma nova estratégia para me atrair. Passaram o jogar panfletos de aviões que sobrevoam este arquipélago, propagando que a guerra havia acabado e que o Japão fora vencido e assinara um armistício. Tudo mentira. Meu imperador nunca se renderia ao inimigo. Preferiria morrer, cometer haraquiri a adotar esse ato de covardia. Depois, passaram a afirmar que nossas famílias estavam na região para confirmar o fim da guerra. Se isso era verdade, de fato, devem ter instalado um governo fantoche na minha pátria e querem nos atrair. Tudo isso faz parte da estratégia inimiga para consumar a sua vitória. Tudo mentira ,tudo propaganda enganosa. E se de fato for assim, logo o meu povo vai retomar as rédeas do país e vamos nos juntar para a batalha final. É por isso que eu espero. E é assim que vai ter fim esse conflito. Com os nossos inimigos totalmente vencidos".

segunda-feira, 3 de abril de 2017

CRÔNICAS VIVIDAS - ALMA PENADA




José Ribamar de Barros Nunes*

Agrada-me falar e comentar coisas e temas misteriosos, nebulosos, profundos, emblemáticos, enigmáticos, lendários, nefelibáticos. Eis um deles.
Não acredito em “almas penadas”, aquelas que o povão acredita e divulga que voltam ao mundo terreno com o objetivo de cumprirem ou repararem débitos e erros ocorridos no planeta terra. Por causa dessas dívidas e comportamentos escabrosos ou pecaminosos, perambulam a esmo, a torto e a direito, provocando assombrações e desmaios d’alma em busca de resgate ou pedidos de ajuda.
Somente vão sossegar, quando alguém cumprir por elas as obrigações que não fizeram ou desonraram. Existem milhares dessas histórias ou lendas que o folclore se encarrega de divulgar e eternizar.
Confesso que não acredito nem muito menos desacredito. Concordo com alguns pensadores e gurus que afirmam que existe muito mais coisa entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia.
Não consigo vislumbrar nem muito menos entender nada além do horizonte. Gosto de relembrar uma poesia que diz que um céu estrelado abate o orgulho de qualquer ser humano.
Talvez por isso no imortal vate lusitano termine o primeiro canto do seu Lusíadas com a seguinte invocação:
“Que não se arme e se indigne o céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno”.


*José Ribamar de Barros Nunes é Assessor Parlamentar do Senado e autor de Crônicas Vividas e Duzentas Crônicas Vividas
E-mail: rnpi13@hotmail.com