sábado, 8 de setembro de 2018

A História de Presidente Dutra - A Evolução Administrativa e Judiciária - ( Parte 21)

Antiga fachada do prédio da Câmara Municipal de Presidente Dutra



       A passagem do Curador a Distrito Judiciário - Como já comentamos antes, a primeira referência que se tem da transformação do Curador à condição de Distrito Administrativo, se deu em 1896, através de uma Lei Municipal datada de 06 de junho daquele ano, aprovada pela Câmara de Vereadores de Barra do Corda e sancionada pelo seu Intendente, Coronel Fortunato Ribeiro Fialho.
        Somente a título de esclarecimento, informe-se que a figura jurídica do Intendente foi criada pela Constituição de 1891, e em 04 de julho desse mesmo ano, Barra do Corda passou a ser administrada por uma Câmara Municipal e por um Intendente. A Constituição de 1891 delegou poderes aos estados para que concedesse autonomia administrativa aos municípios. Assim também, trouxe outro benefício importante para os municípios, que foi a separação dos poderes legislativo e executivo. E dentro desta nova ótica, ficariam as câmaras de vereadores com poderes apenas para legislar, como ocorre ainda hoje.
        Em 1894, mais precisamente em 25 de junho, a Lei Estadual Nº 67 elevou Barra do Corda da condição de Vila para a categoria de cidade. E dois anos depois foi promulgada a referida Lei Municipal, já citada no parágrafo anterior, elevando o povoado do Curador a condição de Distrito, o mesmo aconteceu com os distritos de Papagaio, Leandro e Axixá. Apesar das inúmeras tentativas feitas, não conseguimos lograr êxito na localização deste diploma legal sancionado pelo interventor cordino, a tal Lei Municipal de 06 de junho de 1896.
          Mas é na Divisão Judiciária e Administrativa de 1912, que o Curador aparece como Distrito de Paz e Administrativo, com Barra do Corda como sede, ou cabeça da Comarca.
Em 1916, no dia 05 de abril, o governador do Estado do Maranhão, Dr. Herculano Nina Parga, sancionou a Lei nº 719, criando no povoado do Curador secções de registro civil de nascimento e óbito, situação prevista ainda para os outros distritos de Barra do Corda. Dizia ainda a lei em questão, que seriam aproveitados para ocupar os cargos criados, sempre que possível, o escrivão de polícia da localidade. E mais, que seriam nomeados “ajudantes de escrivães para as secções creadas, com a gratificação de 100$(Cem reis), annuaes, percebendo também as custas ou emolumentos de lei”. (art. 4º). Não foi possível encontrar informações de quem foi primeiramente nomeado para ocupar os cargos de Registro Civil e de Óbitos na vila do Curador.
         Por sua vez, o Decreto-Lei nº 539, de 16 de dezembro de 1933, confirma o Curador nesta mesma condição.
No ano seguinte, no dia 16 de janeiro, foi assinado e publicado o Decreto nº 567/34, com a nova distribuição das comarcas e temos judiciários do Estado do Maranhão. O art. 2º deste decreto traz um benefício inestimável para a nossa povoação, como se observa na descrição abaixo:

“Art. 2º - São criados os cargos de juiz de casamento com dois suplentes e escrivão de casamento e do registro civil em Anajatuba, Carutapera, Monte Alegre, São Bernardo, Vargem Grande e Curador, que passam a se denominar circunscrição, de acordo com o art. 3º e o quadro anexo, da Reforma da Organização Judiciária, a que se refere o Decreto nº 330, de 22 de setembro de 1932”.

  E em obediência ao decreto acima citado, no dia 02 de outubro de 1934, o Dr. Francisco Moreira de Souza, Juiz da Comarca de Barra do Corda, assina o Termo de Abertura do Livro Nº 1, para o Registro Civil, como também o Livro Nº 1, para o registro de Óbitos, e o Livro Nº 1 destinado para o Registro dos Casamentos. Foram nomeados para novos os cargos: como escrivão o Sr. Raimundo Matos, e como juiz do casamento o Sr. Adalberto Cardoso de Macedo.
            Caminhando no tempo, observa-se que no Decreto-Lei nº 159, de 06 de dezembro de 1938, que estabelecia nova divisão territorial para o quinquênio 1938/1943, o Distrito de Curador já aparece, simultaneamente, como circunscrições Administrativa e Judiciária.


quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Mergulhando nas lembranças de Cavour.

Fotografia antiga da Praça da Graça - Parnaíba/PI



Elmar Carvalho(*)

Passei boa parte da manhã deste domingo a folhear, mui lentamente, o livro-álbum da autoria de Raimundo Nonato Caldas (Nonato Cavour), referente às décadas de 1940/1960. Li e reli, salteadamente, vários trechos e legendas. Me concentrei nas fotos de carros, pessoas, prédios, praças e paisagens. Em decorrência, tomei a deliberação de lhe fazer este comentário, em formato de crônica, algo memorialística, para lhe dar mais leveza e melhor condimento, assim espero, e em que desejo fazer intertextualizações contrapontísticas com versos de minha própria autoria.

Tendo chegado a Parnaíba, para morar com meus pais e irmãos, em junho de 1975, posso dizer que tive o privilégio de conhecer a Praça da Graça em seu belo desenho antigo, sem a reforma que a descaracterizou, e que despojou o parnaibano de boa parte de sua memória visual e afetiva, talvez a lembrança da primeira namorada, as recordações da infância e da adolescência no velho e lindo logradouro, no qual residi por muitos anos. Vi a pérgula, o tanque com os peixes e a tartaruga, o antigo coreto, e o elegante traçado dos passeios e jardins, ornados pelos postes de ferro, quase esculpidos, encimados por luminárias em forma de globo. Nela vicejavam orgulhosas e imperiais palmeiras. Já ali pontificava o Louro e a sua Banca de Revista.

Acompanhei a destruição da praça e a colocação dos tapumes, designados pelo povo como sendo o “muro da vergonha”, porque lhe escondia os escombros. Acompanhei sua demorada e problemática reconstrução. O jornal Inovação se insurgiu contra essa reforma e em seus números mensais destilava suas ferinas catilinárias contra os seus promotores e mentores. Em memorável noite a população, sobretudo estudantes, derrubaram e empilharam os tapumes e lhes atearam fogo. Como eu morava na praça, peguei uma motocicleta ou bicicleta, já não me lembro, e fui chamar o Reginaldo Costa e o B. Silva, “inovadores” que moravam na rua Vera Cruz. No dia seguinte houve um verdadeiro carnaval extemporâneo, com passeata de carros e muito buzinaço e foguetório. O Inovação lançou uma edição especial, comemorativa, na qual foi publicado meu poema Balada da Praça da (Des)Graça.

Numa fúria ao mesmo tempo
diabólica e divina,
o povo cheio de uma
dor bem sentida e tristonha
destrói o “Muro da Vergonha”.

Ao folhear o livro do Cavour, fiz uma grande viagem no tempo e no espaço, sem necessidade de parafernálias tecnológicas, com a vantagem adicional de sentir as mesmas emoções saudosistas da época em que vi esses prédios, esses carros antigos pela primeira vez. Vendo a fotografia do depósito imponente da firma Pedro Machado, na beira do Igaraçu, recordei as vezes em que por ali passava em minha motocicleta, simplesmente a passeio, para contemplar os barcos, grandes gaiolas ou chalanas, o rio e as altas chaminés, ou em demanda do Bar do Augusto, o Recanto da Saudade, para tomar uns bons goles de cerveja, enquanto ouvia as lindas músicas extraídas de um bom e velho vinil, cujo discreto chiado ainda ouço em minha memória e numa vitrola retrô que adquiri, para essa finalidade. As grandes chalanas ali já não aportam e o Augusto ficou encantado, numa outra e melhor dimensão do espaço-tempo.

Onde, agora, o Augusto?
Onde, agora, a vitrola, a música e o bar?
Como nos versos sublimes de Bandeira,

ficaram de pé, suspensos no ar. . .
Encantados no destempo de um tempo
sem passado, sem futuro, sem presente.

A velha maria fumaça, negra, enfumaçada, fuliginosa, que ainda alcancei em plena atividade, é uma espécie de símbolo de um tempo épico, de muito esforço e trabalho, quando a Parnaíba empresarial e industrial era a mais pujante e imponente cidade do estado, com seus grandes e suntuosos solares, palacetes e sobrados. A construção da estrada de ferro e do canal São José, que engrossou as águas do Igaraçu, para melhorar a sua navegabilidade (que ainda presenciei, no início de sua decadência, quando o extrativismo econômico iniciou a sua derrocada final), foram dois marcos do notável empreendedorismo parnaibano.

E a água do Igaraçu
é uma lágrima de saudade
                                                           (ou sal’dade?)
do fastígio de outrora.
Os parcos barcos são
poemas de chegadas e partidas
e símbolos da decadência.

Nessa época eu ouvia o apito da Moraes S. A., que ainda fabricava os seus produtos, como o óleo de babaçu, hoje considerado vilão alimentício, e o sabonete de glicerina. Um penacho de fumaça ainda ornava sua enorme chaminé, símbolo de seu fastígio. Muitos anos depois, em meados de 80, esse apito melodioso enchia as tardes ensolaradas, e eu me comovia, e voltava para o tempo do final de meu adolescer, em que as emoções se atropelavam em meu peito. O meu romance Histórias de Évora, publicado em 2017, tem como pano de fundo o final dessa época áurea, tempo de orgulho, riqueza e trabalho.

Uma da tarde. O apito da Moraes
estridula no ar. Emocionado
sinto como se o tempo houvesse parado
e eu me encontrasse ainda
preso às âncoras do passado.

Folheando e fruindo essas páginas de “Mergulho nas lembranças da minha ‘Parnaibinha’ – anos 40/60”, revi muitos amigos e conhecidos. Alguns já ocupam lugar de destaque no panteão de meu peito, e deles sinto saudade; uma espécie de saudade alegre, pela satisfação de tê-los conhecido, de lhes ter desfrutado a companhia e uma boa conversa. Claro está que não conheci todos; mas conheci boa parte deles. Muitos desses personagens, assim como outros não referidos, foram objeto de alguma crônica minha, enquanto outros foram estampados em meus PoeMitos da Parnaíba, entre os quais Pacamão (sr. Pereira), Maria das Cabras, Luse e o velho Marechal de mar e guerra, enquanto outros aparecem disfarçados ou dissimulados nas minhas Histórias de Évora.

Maluco, se dizia alta
autoridade do planalto.
(...)
Davam-lhe plaquetas e selos
e pequenas chapas de metal:
eram as condecorações e os
distintivos com os quais desfilava
entre continências de
risos e zombarias.

Muitos foram meus professores no curso de Administração de Empresas, no Campus Ministro Reis Velloso. Muitos são de minha maior estima e admiração, como o Canindé Correia, Alcenor Candeira Filho e Dr. Lauro Correia, que foi meu diretor e professor no CMRV – UFPI. No primeiro ano, quando eu ainda não tinha motocicleta, esperava o ônibus escolar na escadaria do pátio da igreja de São Sebastião, que ainda não era gradeado. Os monsenhores Antônio Sampaio e Roberto Lopes ainda estão vivos em minha saudade. O primeiro foi meu professor na faculdade e meu antecessor nas Academias Piauiense e Parnaibana de Letras; o segundo, é o patrono de minha cadeira na APAL. Ó bons tempos em que ainda se podia conversar na calçada, sem risco de assaltos e sobressaltos.

memória:
lâmina de desassossego
cornucópia insana insaciável
a jorrar o passado
que não morre nunca
sempre ressuscitado
no eterno regresso
a nós mesmos.

No capítulo Minhas Contemporâneas faz referência às belas garotas, que ornaram a Parnaíba de sua adolescência e juventude. Muitas não conheci, porque foram morar em outras paragens. Contudo, lhes conheci a beleza e a simpatia, através das fotos e das descrições que Nonato Cavour lhes faz no seu notável livro. Posso dizer que, na segunda metade da década de 70, na Praça da Graça e na Praça Santo Antônio, desfilavam as mais lindas moças em flor do Piauí, para dar uma conotação proustiana a esta crônica evocativa.

Parnaíba sempre foi referta de belas mulheres, de verdadeiras rainhas da beleza, de sinuosas curvas, miragens e viagens, tendo legado ao Piauí muitas misses. À tarde, uma bela da tarde, ou uma belle de jour, numa tarde azul, de um domingo azul qualquer, como na música de Alceu Valença, passeava sua beleza soberba por entre os   soberbos oitis da Santo Antônio. Após, a bela da tarde ia degustar, sem pressa, um sorvete de murici ou bacuri, na sorveteria do amigo Araújo, que então já imperava nesse ramo de atividade.

Na tarde antiga
de sol e bruma
de luz e penumbra
as dunas mudaram
de cores e formas.

Os belos olhos esplendentes –
pálidas  cálidas opalas ou
esmeradas esmeriladas esmeraldas –
da mulher bonita
de sinuosas dunas e viagens
furta-cores furtaram
outros tons e sobretons.

Como observou o dramaturgo, poeta e escritor Benjamim Santos, que figura em negrito, itálico e neon no livro, com todo o destaque que lhe compete, uma segunda edição, talvez aumentada, com uma melhor revisão e diagramação, daria à obra uma maior beleza plástica, que ela bem merece. Ela há de permanecer em minha biblioteca, em lugar de realce e relevo, de onde eu posso retirá-la para novos e mais profundos mergulhos.

Para coroar esse belo e agradável passeio proporcionado por esse livro, também percorri os poemas e as fotografias de “Parnárias – poemas sobre Parnaíba”, livro-álbum editado pelo SESC-PI e organizado pelo grande poeta Alcenor Candeira Filho e por mim, e ilustrado pelas excelentes fotografias de Inácio, o velho Marinheiro, não de primeira, mas de inúmeras viagens, que também lhe fez, com Terceiro Matos, a programação visual. E me senti o velho garoto de outrora a percorrer as ruas de Parnaíba em minha moto uivante, com os meus cabelos, então vastos, bastos e encaracolados, farfalhando ao vento.

Ao ler e reler o livro de Nonato Caldas, posso dizer, como disse o poeta Luís Guimarães Júnior no soneto Visita à casa paterna, sobretudo agora que perdi minha mãe e meu pai: “... O pranto / Jorrou-me em ondas...  Resistir quem há-de? / Uma ilusão gemia em cada canto, / Chorava em cada canto uma saudade.” Apenas com a ressalva de substituir pranto por emoção.

ó emoções redivivas
e ampliadas
das sensações
de nervos expostos
nas carnes pulsantes
de um passado
sempre lembrado.   

(*) Elmar Carvalho é poeta, cronista, historiador e membro da APL.

sábado, 1 de setembro de 2018

Vida de Agrônomo (3) – O portentoso Araguaia

Vista do rio Araguaia à partir do Hotel Mogno

José Pedro Araújo
 
Depois um pequeno período trabalhando na EMATER-MA, fui prestar meus serviços no INCRA, no Projeto Fundiário Araguatins, situado naquela cidade do norte goiano ( hoje Tocantins). Foi uma experiência incrível, dado às diferenças que encontrei por lá. Cidade pequena e isolada, assentada sobre os barrancos altos do rio Araguaia, a região ainda vivia sobre os efeitos da Guerrilha do Araguaia, movimento que acabou por causar muitos transtornos e dissabores à população da região em que os membros do PCdoB escolheram para lançar suas bases. Povo desconfiado, inquisidor, dizia-se que noventa por cento deles era originário de algum estado nordestino. E entre esses, alguns tinham ido parar ali para fugir de alguma pendência com a justiça do seu estado natal. Vem daí, talvez, o fato de não gostarem de estranhos transitando pela sua cidade.
Para desgosto de alguns, e felicidades de tantos outros, o INCRA se estabeleceu na região trazendo um contingente com mais de cem pessoas, a maioria jovens que ocupavam o seu primeiro emprego. Imaginem a algazarra que fizeram na cidade. Muitas repúblicas foram formadas pelos funcionários solteiros (a maioria deles), e logo os barzinhos que viviam às moscas, passaram a contar com um número grande de fregueses habituais. Acabou a calma da pequena comuna que viveu isolada do restante do mundo por mais de um século. Diante disto, era comum ouvir a frase “tu é doido ou trabalha no INCRA?”.
Quando cheguei à região, o projeto já havia sido instalado há mais de um ano. Ocupava um velho e imponente casarão situado bem na beira do rio. Gostei da energia que emergia daquele lugar logo de cara. As pessoas pareciam estar no seu momento mais feliz da vida, e a alegria se irradiava pelo longo corredor que ia de uma ponta a outra do prédio. Essa alegria era multiplicada quando a sexta-feira chegava e, após o expediente, a maioria dos funcionários se apropriava das mesas do Pigale, um barzinho com a proposta de ser uma boate, situado no outro lado da praça. Estava apenas começando o final de semana de muita bebida e brincadeiras. Alguns extrapolavam mesmo. Tornou-se moda soltar foguetes durante todo o dia, como se comemorassem a vida. O delegado da cidade teve que chamar os mais afoitos à razão para acertar um pacto de silêncio.
Enquanto não encontrava espaço em uma das várias repúblicas formadas, fiquei residindo em um hotel próximo ao trabalho: Mogno Hotel. Tratava-se de um edifício todo de madeira de lei (mogno, como evidencia o seu próprio nome), dois pisos, construído também sobre o alto barranco do rio, defronte a algumas mangueiras seculares que embelezavam uma calçada que beirava o Araguaia. Era um local muito bonito e aconchegante. Seu proprietário, um polonês que se dizia primo legítimo do papa João Paulo II, controlava tudo do alto de quase um metro e noventa de altura. Rigoroso com as normas que estabeleceu, transformou o seu estabelecimento em local tranquilo e respeitável.
Em uma manhã de sábado, estava eu sentado na frente do hotel e tentava espantar uma exagerada calma que havia me trazido uma melancolia profunda. Para tanto, fiquei observando alguns garotos subirem nos altos galhos das mangueiras e se atirarem nas águas, de uma altura de mais de cinco metros. O Araguaia, para quem não conhece, é um dos mais belos rios deste país abençoado pela fartura das águas. Largo, corrente aparentemente calma, possui naquele ponto uma profundidade muito grande. Ao observar a atividade daqueles garotos, comecei a me preocupar com a segurança deles. Meninos muito pequenos seguiam o exemplo dos maiores e também se atiravam lá das alturas naquelas águas, despreocupadamente.
Estava assim, quando se aproximou de mim o polonês, homem alto e enérgico, como já afirmei, que ao me ver assim tão interessado com o acontecia do outro lado da estreita rua, falou que aqueles meninos pareciam não ter pai nem mãe. Concluiu dizendo que quase todos os meses morria alguém afogado naquele rio, mais os genitores daqueles garotos pareciam não se importar com isso e largavam os filhos sozinhos naquela beira de rio.
Curioso, perguntei se o rio era perigoso mesmo. Ele me respondeu que aquela calma aparente do Araguaia já havia enganado muita gente. Que uma vez dentro dele era que se via que a sua corrente era vigorosa e traiçoeira. Aí então me contou uma história surpreendente, quase inacreditável. Havia criado seus filhos, quando pequenos, quase o tempo todo dentro de uma gaiola. E que, por esse motivo, passou por alguns problemas com a promotoria local. A população ficara horrorizada com o que ele fazia para proteger a família, e o denunciou à promotoria de justiça. E discorreu mais sobre o assunto:
Preocupado com a segurança dos filhos, uma vez que vivia o dia inteiro fora, enquanto a mulher tinha que cuidar da casa, construiu uma enorme gaiola de madeira, medindo três metros de largura e outro tanto de comprimento, que era içada através de uma roldana, depois de colocadas as crianças dentro. As crianças pareciam pássaros presos em uma gaiola a um metro e meio do chão. Dentro daquela espécie de jaula, deixava alguns brinquedos para eles se divertirem enquanto o tempo passava. E logo o povo da cidade passou a dizer que ele criava os filhos como se fossem pássaros. E depois de algum tempo a história chegou aos ouvidos do promotor de justiça que o convocou para dar explicações sobre o fato.
O polonês contava isso com paixão ainda, passados já muitos anos do ocorrido. Não me contive e perguntei a ele como se defendeu frente à autoridade judiciária. “Disse para ele que o método que eu empregava na criação dos meus filhos podia até parecer esquisito, mas estava mantendo todos vivos. E enquanto isso, todos os dias quase, algum menino se afogava no rio”.
Disse-me, por fim, que o promotor não aceitara as suas justificativas e ordenara que ele não prendesse mais os meninos na gaiola. E foi então que pensou em construir o hotel e mudou o tipo de atividade que ele desempenhava, de modo a ficar mais próximo dos filhos. Foi assim que surgiu o hotel Mogno.
Fiquei imaginando a inacreditável cena descrita por ele: três crianças presas em uma grande gaiola suspensa para impedir que se afogassem no rio. Efetivamente, dava para escandalizar. Mas, realmente, não dava para dizer que a saída encontrada por ele – a de proteger as suas crianças do rio - não possuía uma eficiência inquestionável.
Como afirmei lá atrás, o lado de Goiás possuía um barranco alto, enquanto que o outro lado, o paraense, era mais baixo. E quando o rio começava a encher, levava meses para atingir a cota máxima, uma vez que as águas se espraiavam no lado do Pará e deixavam o rio com uma largura de muitos quilômetros. E para fugir da enchente, muitos animais ferozes atravessava o rio à procura do lado mais alto. Em um ano de grande cheia, presenciei quando uma gigantesca onça pintada tentava alcançar o lado goiano do rio e foi caçada por algumas pessoas em um barco e abatida a tiros. Imaginei o problema que aquela onça criaria para os habitantes da cidade se tivesse conseguido chegar até a margem. Do mesmo modo, vi quando abateram um jacaré tão grande como eu nunca havia visto antes. Pareceu-me tão velho, que as costas do lagartão continha um limo esverdeado. E só conseguiram abatê-lo quando atiraram no olho do bicho, pois as balas não conseguiam perfurar o seu couro.
Quando as águas, enfim, superaram a barreira do lado goiano e entraram nas casas mais próximas ao rio, tivemos que evacuar o prédio da instituição, aonde a água chegou a mais de metro de altura.  E quando baixaram, depois de muitos dias, encontramos dentro do velho casarão uma grande quantidade de cobras, aranhas e outros bichos peçonhentos. Ficamos ilhados na cidade também. Por muitos e muitos dias não pudemos sair para qualquer outra cidade vizinha. E o desabastecimento fez encarecer muito os poucos produtos que por lá chegavam.Mas foi um grande barato conviver com o portentoso Araguaia.