segunda-feira, 14 de setembro de 2020

O MENINO, O RIO E A CIDADE

Sentido horário: Pç. Pedro II, Rio Parnaíba, Trav. do Poti e Cinemas
                

 

                                                           (Chico Acoram Araújo)

 

            Em outros textos eu dizia que, por necessidade de melhores condições de vida, meu pai decidiu levar a família para Teresina. Isso ocorreu no início do ano de 1961. Chegando à Capital fomos residir em uma pequena e humilde casa situada na Rua Tiradentes, do lado Oeste do Estádio Lindolfo Monteiro, próximo à Ponte Metálica (denominada Ponte João Luís Ferreira, que une em definitivo o Piauí ao Maranhão). Ali perto, minha mãe matriculou-me juntamente com meu irmão no “Grupo Escolar João Costa”, situado na Rua Jônatas Batista, ao lado do extinto sanatório dos doentes mentais.

            Eu ainda não completara meus nove anos de idade quando, pela primeira vez, meus pés pisaram neste “fértil” solo da Chapada do Corisco. Teresina, nesse momento, completava seus 109 anos de fundação. Portanto, uma cidade bem jovem. Sua população era de cerca de 143 mil pessoas. A área urbana pouco tinha se expandido além do seu original traçado xadrez constante do plano de construção da Capital. Os bairros existentes não passavam de quinze, dentre os quais cito o Aeroporto, Mafuá, Matadouro, Poti Velho, Vila Operária, Porenquanto, Cabral, Catarina, Vermelha, Piçarra, Cajueiro. Também existiam os bairros Jockey Club e São Cristóvão, ambos pouco povoados.

            Nossa primeira residência era muito simples, tendo apenas dois pequenos cômodos, uma minúscula cozinha e um apertado quintalzinho onde era improvisado um rústico banheiro. Nesse tempo não havia água encanada nos arredores de Teresina. O abastecimento do precioso líquido seja para beber, seja para cozinhar e também para tomar banho era feito por mim e por meu irmão Sansão. A nossa tarefa diária consistia em pegar água do rio Parnaíba que ficava a uns 100 metros de distância e abastecer a casa. Nossos ombros já tinham o “couro grosso” de tanto carregar água em cambo portando latas de querosene. No inverno, as águas do rio tornavam-se bastantes barrentas ou avermelhadas. Para melhorar a qualidade do líquido, era coada e depois acondicionada em um velho filtro de barro. Às vezes, a minha mãe botava para ferver a água coletada do rio de tão cheia de impurezas que ela se achava.         

Quanto à luz elétrica de Teresina, relembro que era muito precária (110 V). E em determinada hora da noite os geradores de energia eram desligados. Era o momento que as famílias, sentadas nas portas de suas casas, recolhiam-se para seus aposentos. A cidade sumia na escuridão. Nas noites enluaradas, os adultos e crianças se demoravam um pouco mais em intermináveis conversas, aproveitando-se do vento fresco e revigorante. Depois disso, a cidade ficava num silêncio sepulcral. Apenas se ouviam os sons do tablado da ponte metálica quando da travessia dos veículos. Ou o barulho das rodas e o apito do trem “Maria Fumaça” atravessando cruzando-a. Ou os gritos dos marrecos sobrevoando o rio Parnaíba, ou até mesmo o agouro da ave “rasga mortalha”. A calma só era quebrada por estes sons já velhos conhecidos de quem vivia por ali.  

Não muito tempo depois, meu pai decidiu mudar de residência alugando uma outra casa, mais confortável, não muito longe da anterior. Fomos morar no outro quarteirão, também próximo ao Estádio de Futebol Lindolfo Monteiro, na então Rua Palmeirinha hoje Clodoaldo Freitas, número 146 (ou era 46?) já chegando à margem do caudaloso Velho Monge. Nessa rua, assim como as demais da periferia, também não havia sistema de abastecimento de água encanada e tampouco calçamentos. Os adultos e a meninada tomavam banho em um determinado local do rio, e as lavandeiras lavavam as roupas no cais ou nas pedras existentes em alguns pontos da margem do mencionado caudal.

O trecho da margem do Parnaíba, compreendendo a área da ponte metálica até o cais, era caminho para os ribeirinhos se locomoverem entre aqueles dois lugares. Nesse trajeto existiam alguns remanescentes das matas ciliares. Via-se também várias casas dos pescadores construídas sobre as ribanceiras do rio. Na década de 1970, o Governo do Estado construiu naquela área o prolongamento da Av. Maranhão. A geografia da cidade começa a mudar com as construções de novas avenidas.

Residimos na Rua Palmeirinha até o final do ano de 1966 ou início do ano seguinte. Desse período (boa parte da minha idade de adolescente) guardo em minha memória lembranças indeléveis e, geralmente, bem alegres e divertidas. Antes, porém, de iniciar a descrição dessas memórias, três imagens me impactaram ao chegar aqui em Teresina. A primeira, foi quando vi aquele grande rio Parnaíba com suas águas volumosas e ligeiras. Naquele momento, um grande barco a vapor navegava contra a correnteza do rio. Para onde estaria indo aquela embarcação? Pensei.

Quando tive meu primeiro contato com rio Parnaíba, confesso que fiquei com receio de adentrar em suas águas apesar de eu ser um exímio nadador. Achei suas águas muito diferentes das do meu rio Marataoan. Aquelas eram densas, turvas, cheias de armadilhas com seus temíveis “redemoinhos” em seus canais profundos; pareciam indomáveis. Remar contra a sua corrente parecia ser impossível para o ser humano. Enquanto as águas do rio da minha terra eram mansas, doces, tranquilas e transparentes. Um mar de saudades é esse belo rio Marataoan!

Mas o medo de nadar no Rio Grande dos Tapuias foi facilmente superado. O desafio que ele representava me impulsionou e eu o domei rapidamente. Tempo depois, eu já estava nadando tranquilo em suas águas bravias apesar das súplicas de minha saudosa mãe para que eu não o desafiasse com estripulias. Muitos meninos, e até adultos, tinham ceifadas suas vidas naquele perigoso caudal. “Água não tem cabelos, meu filho”, alertava-me minha mãe. De fato, ela tinha razão. Certo dia vi no balseiro, sob a ponte, um garoto que tinha morrido por afogamento a dois ou três dias atrás. Um pescador em sua canoa segurava o morto com uma corda para que o mesmo não descesse rio abaixo. A cena era horripilante, tenebrosa. O corpo estava todo inchado em proporções volumosas que parecia que ia explodir a qualquer momento. Observei que algumas partes do cadáver estavam carcomidas por peixes. Fiquei com náusea. Todo trêmulo, retornei imediatamente para minha casa. Nesse dia não me alimentei; estava sem fome. Não voltei mais ao rio para nadar, pelo menos por um algum tempo.

 Esquecido depois aquela cena, eu e o rio voltamos a dar-nos boas “braçadas” como dantes, em que pese os perigos que aquelas águas apresentavam. Cheguei até atravessá-lo tranquilamente abraçado a um comprido e grosso buriti, saindo do cais do Mercado Velho, em diagonal, rumo ao outro lado da ponte, do lado de Timon.

Certo dia, depois que cheguei da escola, corri para a ribanceira do Parnaíba para ver se meus colegas estavam jogando bola em uma “coroa” existente próxima à margem do lado de Timon. Observei que os meninos estavam lá. Imediatamente atravessei o rio pela ponte metálica. Entretanto, para chegar até àquela ilhota era preciso atravessar a nado um pequeno trecho de água parada. Não calculei que era uma das armadilhas armadas pelo perigoso rio. Comecei a nadar, sem medo, aquela pequena travessia. No meio do trajeto, percebi que para nos movimentarmos em água parada é muito diferente do modo de enfrentar águas correntes. Estas são mais fáceis para um bom nadador, e até mesmo para os sofríveis. Nesse momento, minhas forças começaram a fraquejar à medida que eu avançava. A praia da ilhota estava a uns vinte metros de distância. Desistir de nadar naquele momento era fatal. O desespero começava a tomar conta de mim. Enchi os pulmões de ar, e mergulhei procurando com as pontas dos dedos dos pés o leito daquela porção d’água. Emergi ofegante. Tinha quase exauridas minhas forças. Não havia outro jeito, porém, voltei a nadar com o que me restava das minhas forças. Fui assim, mergulhava outra vez e procurava o chão com meus pés. Voltava à tona. Nenhum dos colegas me viu naquele desespero mortal, pois todos estavam absortos no jogo de futebol. A morte me rondava traiçoeiramente, até que, felizmente, meus pés tocaram nas areias do fundo daquelas águas. Ali já dava pé. Foi minha salvação. A cada imersão, eu impulsionava fortemente, com os pés no chão, meu corpo em direção à praia. Assim, escapei daquela armadilha. Não recordo se nessa tarde consegui ainda jogar bola com meus companheiros. Essas loucuras, meus pais, obviamente, nunca souberam!

Além das “peladas” e banhos no Parnaíba, eu praticava minhas divertidas pescarias. Naquele tempo, o rio tinha abundância em peixes dos mais variados tipos. Das águas turvas do Velho Monge saíam piaus, traíras, mandis, piranhas, arraias, arengas, surubins, matrinchãs e outros que não lembro os nomes.  

Com a minha infalível vara de pescar e o anzol, sem chumbo, munido de angu de cuscuz de milho como isca, fisgava rapidamente, uma a uma, as saborosas sardinhas prateadas reunidas em seus enormes cardumes “à flor das águas”. De outro modo, com o anzol “chumbado”, eu pescava mandis, piaus, piranhas e traíras.

Certa feita, quase ao pôr-do-sol, após chegar do Grupo Escolar João Costa, decidi pescar em um grande e espesso balseiro que ficava estancado embaixo da ponte, do lado de cá de Teresina. Era um bom local para a pescaria com anzol. Amarrei na ponta de uma grossa e longa linha de náilon um anzol de tamanho médio, e coloquei nele isca de umas das “patacas” que um colega tinha pegado ali no rio. Depois, abri com as mãos um buraco até encontrar água que passava sob aquele balseiro, e no buraco introduzi o anzol com a tal isca de peixe. Muito atento, fiquei segurando a ponta da linha com firmeza. Não demorou. De repente, a linha começou a ser movimentada rapidamente para o fundo do rio. Percebi então que um peixe acabara de ser fisgado. Devagarinho, usando técnica de pescador experiente, comecei a puxar de volta a linha de anzol com certa dificuldade. Pelo esforço que fiz naquele momento, imaginei ser um peixe grande. Para minha surpresa, era uma enorme traíra que pesava mais de um quilograma. Emocionado, corri para minha casa em desabalada carreira. Nesse dia, meu jantar foi um delicioso e convidativo peixe frito.

Igualmente, fiquei deslumbrado com o majestoso centro da cidade compreendendo a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Amparo e seus arredores, e com suas magníficas casas residenciais erigidas ao longo das ruas do perímetro urbano. E o que dizer das encantadoras praças Rio Branco e Pedro II? Dois espetaculares locais que lembram certos locais da Europa. A igreja de São Benedito, construída no antigo Alto da Jurubeba, também me impressionou muito. Deixaram-me, do mesmo modo, fascinado os cinemas Cine Rex e o 4 de Setembro, dos quais me tornei um assíduo frequentador. Fiquei embevecido com suas grandes telas brancas onde os filmes eram projetados. Os filmes de Faroeste, então, são inesquecíveis!

E por falar em cinema, lembro de um fato que ocorreu comigo no Cine Rex. Foi em uma tarde de Domingo de certo ano de 1963 ou 1964.  Como disse anteriormente, tornei-me um habitual frequentador dos cinemas Cine Rex e 4 de Setembro, nas sessões das “três e quinze”. Era meu principal divertimento, além de jogar bola, nadar e pescar no rio Parnaíba. Outro hobby que eu praticava era ler e colecionar revistas em quadrinhos ou gibis como algumas pessoas chamavam. Bons tempos foram aqueles quando da minha adolescência!

Narremos, então, a lembrança acima a qual me referi. Comumente, antes das quatorze horas de Domingo eu era um dos primeiros da fila para comprar os bilhetes de entrada do Cine Rex, nas sessões das “três e quinze”. Nesse dia, meu irmão Sansão (Domingos de Assunção, já falecido) me fazia companhia. Adentramos no recinto do cinema, onde procuramos o melhor local para assistir ao filme em cartaz naquele dia. Escolhemos as duas primeiras cadeiras localizadas do lado direito de uma das fileiras centrais do auditório, na área intermediária da sala de projeção.

Não lembro o nome do filme em exposição. Só sei que era uma boa película, pois o Cine Rex estava superlotado, inclusive com muita gente em pé ou sentada nos vãos dos corredores. Eu e meu irmão estávamos muito contentes. A sessão das “três e quinze” já havia iniciado uns 10 minutos atrás quando um rapaz, acompanhado de uma bela jovem, tocou no meu ombro me propondo comprar as “nossas poltronas”. Não vacilamos. Vendemos por um bom preço os dois lugares. A entrada do cinema estava garantida para o próximo Domingo. Um ótimo negócio, pensei! Mas essa transação tinha ônus. Sentamos, eu e o pequeno Sansão, no duro assoalho do corredor ao lado do casal que acabara de comprar nossos confortáveis assentos. O preço a pagar era o desconforto de ficarmos com os pescoços doloridos em razão de passar muito tempo com nossas cabeças levantadas para assistir ao filme que ora se refletia na telona do cinema.

Faltando uns dez ou quinze minutos para encerrar aquela sessão, percebi que um calhamaço de revistas havia caído no piso, ao meu lado esquerdo, onde eu e meu irmão estávamos sentados. Uma tentação em pegar aqueles gibis tomou conta de mim. Deixei de ver o filme por alguns segundos. Duas vozinhas zumbiam nos meus ouvidos. A primeira dizia: pega essas revistas, besta! São tuas; tu as achaste! A segunda, dizia-me, em oposição: Não faça isso! Isso não lhe pertence! E eu fiquei naquele dilema. Pego-as, ou não? Peguei-as! Fui vencido pela ganância, e pequei contra o oitavo mandamento da Lei de Deus. A essas revistas juntei com as minhas que levava comigo naquele Domingo.   

Imediatamente falei em voz baixa para o meu inocente irmão: temos que ir embora, agora. Ele não entendeu nada. Apenas me seguiu naquele escuro corredor em direção da saída do auditório, tomando o cuidado para não pisarmos nos pés dos meninos que também ali estavam sentados. Lá fora, verifiquei que dentre as revistas “achadas” havia algumas que eu possuía ou já tinha lido. Então, resolvi trocar essas revistas por outras no “Sebo” existente em frente ao Cine Rex. A sabedoria se apossou de mim e, me derrubou. De repente, ouvi uma raivosa voz atrás de mim: “me dá minhas revistas”. Com a cara de bravo, o dono da voz arrancou de minhas mãos as citadas revistas “achadas”. Fomos, mais que depressa, embora para nossa casa. Escapei de levar uns cascudos do grandalhão que havia me abordado. No caminho, eu ia calado e pensativo, acabrunhado e humilhado. Sabia que havia praticado um ato de desonestidade.  

No Domingo seguinte, não fui ao cinema. Eu estava ainda muito envergonhado com o leviano ato. Naquela oportunidade, prometi a mim mesmo observar rigorosamente o mencionado mandamento da Lei de Deus.

Outro acontecimento inesquecível ocorrido em minha adolescência foi o fato de eu ter concluído o curso primário e ter conseguido passar no exame de admissão ao ginásio da então Escola Industrial Federal do Piauí (EIFPI), hoje Instituto Federal do Piauí – IFPI.

Não recordo exatamente a data em que minha família foi morar no eufêmico Morro da Esperança. É provável que a mudança tenha ocorrido no final do ano de 1966 ou o início do ano seguinte. A nossa nova residência – ainda atravessávamos tempos difíceis - uma casinha de palha com paredes taipa, situava-se no final da Rua Alcides Freitas, na ribeira de um grotão, próximo ao rio Poti, nas imediações do “Monumento ao Finado Motorista Gregório”. Nesse tempo, eu cursava o segundo ano do ginásio na Escola Industrial. Tenho muitas lembranças desse período, mas não quero, e não devo, alongar-me mais nessa crônica.

  Sobre essa nova fase da minha vida, recomendo ao caro leitor, caso assim deseje, consultar uma crônica intitulada “Os Ventos do Morro da Esperança” e também o livro “A História de Chico Maroca”, ambos de minha autoria.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

PEDRO ÁLVARES CABRAL – Onde dormem teus restos mortais?

José Pedro Araújo

Em 2017, realizamos uma viagem inesquecível a Portugal. Diferentemente da vez anterior, quando ficamos em Lisboa e arredores, decidimos conhecer o Norte do país, terminando a nossa viagem na cidade do Porto. Outra diferença. Não adquirimos um pacote de viagem de uma agência de turismo, fizemos o nosso próprio programa de viagem, com base na experiência já adquirida. Decidimos, assim, alugar duas vans para levar o grupo e saímos pelo interior português, parando onde nos dava na telha, conhecendo as belezas sem conta que existem entre Lisboa e a capital do Norte, a cidade do Porto. Visitamos muitos castelos e mosteiros que contam a história daquele país irmão e ainda algumas cidades emblemáticas, como Coimbra, e sua universidade milenar, Braga, Fátima e Guimarães. A nossa primeira parada estava marcada, contudo, para prestarmos a nossa humilde homenagem a um distinto português a quem, afinal, devemos muito pela existência do nosso país: Pedro Álvares Cabral. Consta que seus restos mortais estão guardados na Igreja da Graça, na vetusta Santarém, distante pouco mais de oitenta quilômetros de Lisboa.  Digo consta, porque há ainda hoje uma certa controvérsia sobre o assunto.

Quando partimos de Lisboa o relógio marcava pouco mais de oito horas da manhã de um belo e ensolarado dia, ainda com aquela temperatura um pouco fria que nos dava uma ideia do que fora o inverno na região.

Igreja da Graça - Santarém
Igreja da Graça - Santarém/Portugal

Em aproximadamente uma hora de viagem já estávamos estacionando em frente ao templo construído em estilo gótico, em cujo interior, em um preservado mausoléu, estão sepultados o descobridor do Brasil, sua esposa D. Isabel de Castro, e o filho Antonio Cabral. Isso é o que a história diz. 

Desde quando iniciamos a programação da viagem a Portugal, imaginamos a possibilidade de fazermos uma breve parada em Santarém para conhecer o local onde se diz estaria sepultado os restos mortais do descobridor. Confesso que fiquei um pouco emocionado quando me vi de frente para a história do nosso país. Naquela hora da manhã, ainda haviam poucas pessoas visitando a Igreja da Graça, e pudemos reverenciar silenciosamente o túmulo de Cabral e fazer algumas fotos para registrarmos a nossa passagem por lá. Em frente à igreja, em uma praça pequena em cujo perímetro fica a casa em que Cabral morou, existe uma estátua do descobridor. Fizemos algumas fotos defronte a ela também. Há informações que aquela estátua foi uma doação do governo brasileiro, acho que durante o governo Médici. Feito isto, partimos para o nosso próximo destino com aquela sensação de que deixávamos para trás uma passagem importante da nossa história. Até a parada seguinte, em frente ao Mosteiro de Alcobaça, pouco mais de cinquenta quilômetros depois, o assunto tratado foi a emoção de termos estado frente a frente com o túmulo do grande navegador português, mesmo sabendo que havia uma certa controvérsia a respeito da morada definitiva de Pedro Álvares Cabral ali. Há uma história complexa sobre isso, e esse é o objeto desta crônica.

Mausoléu da família Cabral

Esta semana, passados já alguns anos desde aquela nossa viagem, pesquisando nos arquivos virtuais do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, deparei-me com um documento intitulado “Os Restos Mortais de Pedro Álvares Cabral”, com data de 28.06.1967, da autoria de Enéas Martins Filho, sócio efetivo daquele instituto. No documento, o autor presta conta de uma viagem feita ao país de Camões e detalha com bastante minudência a origem e o desenrolar da questão que tem posto em dúvidas o local em que repousam os restos mortais do nobre navegador português, oficialmente conhecido como o descobridor do Brasil.

Castelo de Belmonte - Belmonte/Portugal

Pedro Álvares Cabral, descendente de família nobre, nasceu no castelo da família na Vila de Belmonte, distrito de Castelo Branco, na região da Beira Baixa, a pouco mais de duzentos e trinta quilômetros de distância do local em que faleceu, Santarém, lugar em que se encontra oficialmente sepultado. Falecido em 1520, foi acomodado em um túmulo comum e provisório, mas sem a pompa que merecia. As informações que vamos dar doravante, foram extraídas do documento preparado pelo membro do IHGB, Enéas Martins Filho, além de outras colhidas mais recentemente na internet.

A viagem do historiador tinha como objetivo afastar as muitas dúvidas que existem também em nosso país se os restos mortais de Cabral teriam sido trasladado para o Brasil em 1903, por ocasião de uma grande campanha deflagrada na época para o traslado dos restos mortais do grande navegador, e que culminou com a ida do advogado Alberto de Carvalho a Portugal, entre outras coisas, com este propósito. Talvez, em decorrência disto, alguns passaram a afirmar que os restos mortais do descobridor estariam em uma urna de madeira guardada na antiga Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro, trazida de além mar pelo advogado.

Sabia o historiador que em 1529, a viúva de Cabral, D. Isabel de Castro, que era Camareira-Mor de dona Maria, filha do rei D. João III, havia contratado com o prior e demais religiosos da Graça  para na Capela de São João Evangelista, daquela Igreja, construírem um mausoléu com o propósito de sepultar em definitivo os restos cadavéricos do marido, bem como do restante da família, ela aí incluída, quando o seu momento chegasse. D. Isabel contratou não somente a permanência do jazigo familiar naquele local, mas também a realização de quinze missas anuais, tudo às custas de um foro retirado de suas propriedades situadas próximas ao Concelho de Rio Maior.  

Deste modo, algum tempo depois, concluída a construção do mausoléu, foram os restos mortais de Cabral, e do filho Antonio, transferidos para o local em que se diz estarem ainda hoje, lá em Santarém. Mas essa história tem muito a ser contada ainda. Enéas, por exemplo, diz em seu documento, que “Em 1882, por iniciativa do arqueólogo português Zeferino Brandão, autor do livro Monumentos e Lendas de Santarém, foi aberto o jazigo. Nessa oportunidade, foi lavrado um auto que atesta a presença de três esqueletos, um deles com sinais de ter sido colocado em ocasião diversa dos dois primeiros, o que confirmava a transferência dos restos de Pedro e Antonio Cabral da sepultura provisória para o jazigo perpétuo e a posterior inumação, em 1538, de D. Isabel de Castro”.

Todavia, naquela primeira abertura, o túmulo de Cabral continha a presença de algo estranho, o esqueleto de uma cabra. Mas isso, só vinha confirmar que o jazigo pertencia realmente ao navegador. É o que afirma o site “Gosto de Santarém – Até os limites do Ribatejo”. Afirma aquele portal na matéria intitulada “Quatro Túmulos para um homem só”, que “Causou ainda estranheza a presença do esqueleto de uma cabra no interior do túmulo. Para muitos, isso provava que dentro daquela sepultura jazia Pedro Álvares Cabral: o escudo dos Cabrais ostenta dois destes animais”. Quanto a existência de quatro túmulos para Cabral, referia-se o autor ao primeiro túmulo provisório, evidentemente, ao definitivo no interior da Igreja da Graça, a um outro existente em Belmonte, terra de nascimento do navegante, contendo cinzas dele, e ao que existe no Brasil, já citado.

Voltando a Enéas Martins, embarcou o historiador para Santarém com o propósito de dirimir certas dúvidas, uma vez que se avizinhavam as comemorações para o V Centenário do nascimento de Cabral. O viajante possuía informações de que o bacharel e político carioca Alberto de Carvalho, quando em viagem a Portugal, em 1903, mantivera contato com autoridades daquele país com o propósito de trazer algumas relíquias para o Brasil, algo que fizesse lembrar daquele navegador, se não, a ossada completa. Extraoficialmente, o embaixador brasileiro naquele país, Alberto Fialho, também se envolveu com o caso, e conseguiram autorização para fazer a abertura do mausoléu outra vez. Naquele momento, ficaram muito impressionados com o profundo descaso com que o jazigo da família Cabral estava sendo tratado, e resolveram empreender uma campanha para cuidar do caso e melhorar as condições do túmulo do navegador português e de sua família.

Deste modo, no dia 14 de março de 1903, estavam lá na Igreja da Graça, além de Alberto de Carvalho e do ministro Alberto Fialho, autoridades eclesiásticas de Santarém. Estavam lá também presentes representantes dos dois ramos familiares de Cabral, os Pontes de Lima e os Belmonte. Em decorrência de um certo desacerto entre os dois ramos familiares, dois protestos foram lavrados e anexados aos autos de abertura da campa. E, pelo que parece, resolvido o problema inicial.

Entretanto, aberto o jazigo, começaram outros tipos de problemas: oito esqueletos foram encontrados lá dentro. Cinco de homens, um de mulher, e dois de crianças. Se em 1882 haviam sido encontrados no mausoléu apenas três corpos, agora eram oito as ossadas lá encontradas, o que confirmava a preocupação do ministro brasileiro em relação ao descuido em relação ao jazigo do descobridor do Brasil. O estranho é que Cabral possuía cinco filhos, dois homens e três mulheres. Alguém não cuidou como devia do contrato firmado entre a viúva e os representantes da igreja. E em decorrência deste problema, diz o historiador Enéas Martins Filho, “resultou dai que a Comissão determinou não ser possível determinar entre tantos ossos, quais eram os do grande navegador”.

O “Gosto de Santarém”, portal já citado acima, por sua vez, afirma que “Segundo investigadores no Brasil, optou-se por uma solução simplista: dividiram-se os ossos e formaram-se dois esqueletos completos. Um ficou em Portugal, o outro terá sido depositado na Igreja do Carmo, a antiga Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro”. E atribuem essa informação aos brasileiros. Contudo, essa afirmativa eles mesmos se encarregam de desmentir quando dizem, na mesma reportagem, que “A própria lápide brasileira não refere nada sobre restos mortais, mas sim ‘resíduos mortuários’”.

O historiador em quem nos baseamos nesse texto, Enéas Martins Filhos, concluiu o seu relato, no documento apresentado à Comissão do V Centenário, dizendo o que viu em um ofício do Conselheiro Simões Baião, datado de 29 de março de 1903, dirigido ao Ministro de Obras Pública de Portugal, que o Advogado e político carioca, Alberto de Carvalho, adquiriu duas urnas de mogno trabalhado com metais, e em ambas colocou da cal que envolvia as ossadas de Cabral. Uma ofereceu à Sociedade de Geografia de Lisboa, e a outra trouxe para o Brasil. E mais, que “O Correio do Ribatejo”, jornal português, em edição do dia posterior à exumação de 1903, dizia que as urnas destinadas às ossadas de Cabral foram enchidas com terra da sua sepultura.

Urna na Igreja do Carmo-Rio

Esclarece, por fim, que em uma carta datada de 30 de agosto de 1903, do Arcebispo Metropolitano do Rio de Janeiro, Dom Joaquim Arcoverde, a autoridade eclesiástica “concordou em dar abrigo na Catedral Metropolitana a uma urna cinerária, trazida de Portugal, contendo terra colhida na sepultura de Pedro Álvares Cabral”. Disse ainda que a colocação da urna só foi realizada em 20 de fevereiro do ano seguinte, 1904.

Portanto, uma parte da matéria publicada no “Gosto de Santarém”, que diz que os brasileiros afirmam que os restos de Pedro Álvares Cabral estariam descansando no Brasil, carece de verdade.

Deste modo, para encerrar a participação do historiador Enéas Martins Filho, dizendo que registrou, ao concluir o seu relatório de viagem, que “os restos mortais de Pedro Álvares Cabral continuam onde sempre estiveram, desde sua morte, na Igreja da Graça, em Santarém”.



Por fim, define e esclarece a dúvida sobre o que existe de Pedro Álvares Cabral no Brasil, uma placa afixada em uma das paredes da Igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo, antiga Sé, edificada na Av. Chile, no centro do Rio. Nela, está contida a seguinte inscrição: “Aos 30 de dezembro de 1903, sendo Arcebispo desta Diocese D. Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, foi aqui depositada uma urna dupla de chumbo e madeira contendo resíduos mortuários de Pedro Álvares Cabral, descobridor do Brasil, extraídos aos 14.03.1903 de sua sepultura na igreja de N. S. da Graça de Santarém, em Portugal, onde desde o ano de 1529, achavam-se em jazigo de família, trazidos e doados a esta Catedral pelo Bel. Alberto de Carvalho”.

 Diante de tais informações, só me resta dizer que estive realmente de frente para os restos mortais de Pedro Álvares Cabral, descobridor do Brasil, quando visitei Santarém com o propósito de prestar meus singelos agradecimentos post morten ao navegante português.