domingo, 18 de dezembro de 2016

À FERREIRA GULLAR



 
Primeiros anos*

Ferreira Gullar


Para uma vida de merda
nasci em 1930
na rua dos prazeres

Nas tábuas velhas do assoalho
por onde me arrastei
conheci baratas, formigas carregando espadas
caranguejeiras
que nada me ensinaram
exceto o terror

Em frente ao muro negro no quintal
as galinhas ciscavam, o girassol
Gritava asfixiado
longe longe do mar
(longe do amor)

E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul

E as tardes sonoras
Rolavam
sobre nossos telhados
sobre nossas vidas.
Do meu quarto
ouvia o século XX
farfalhando nas árvores lá fora.

Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os colhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter sequer uma arma na mão.  

*Extraído do blog do Poeta Elmar

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Diário de Um Náufrago (Capítulo VIII)



SENTINDO FALTA DO TRIVIAL

José Pedro Araújo

A falta de um saponáceo já se fazia sentir. Sentia o meu corpo meio engordurado, a começar pelas mãos que pareciam estar sempre lisas, para meu infernal desconforto. Nunca havia pensado que um pequeno pedaço de sabão pudesse me fazer tanta falta. Agora, por exemplo, veio-me à mente aquele sabonete oval e escuro, cheiroso, tendo como marca o nome de um deus Grego. Era esse o sabonete que eu costumava usar. Era também por conta desses arraigados hábitos, que meus amigos me chamavam de ultraconservador. Mas, eu gostava mesmo de usar o mesmo sabonete, o mesmo creme dental, o mesmo shampoo, tudo exatamente igual. Não me dava ao trabalho de comprar nada dos produtos mais incensados, e que animava a todos quando em viagem ao exterior, prática adotada por mim apenas no que diz respeito à aquisição de algumas poucas roupas ou perfumes. Portanto, se isso me transformava em um ultraconservador, então... Mas o fato era que aqueles produtos de higiene agora me fazia tanta falta!
Isso me incomodou bastante. Estava acostumado com as comodidades da vida moderna, não me condenem por isso. Sei que alguns sentiriam a falta de um champanhe de marca, ou do conforto do seu apartamento bem montado, mas não era o meu caso. Até me achava bem agasalhado no barraquinho miserável que construíra. O que me faltava mesmo era o que já falei, além de água na torneira, papel higiênico, café com pão fresco, o ovo frito no café da manhã, o computador para fazer as minhas anotações e ler as últimas notícias, as coisas mais simples e corriqueiras que um ser humana usa hoje em dia. E foi então que comecei a me dar conta dessas ausências com muita intensidade. Mas não sentia falta de ninguém em especial. Por quê? Ainda precisava descobrir isto.
A propósito disto, lembrei-me, nesta manhã, que poderia procurar por ovos de tartaruga, afinal, elas procuram praias calmas para desovar. Quem sabe não resolvesse um dos meus problemas rapidamente.
Andei pela orla um bom tempo procurando por um local onde elas pudessem ter deixado sobre a areia da praia algumas cascas de ovos logo depois que eclodiram. Não foi fácil, pois procurava sempre na faixa molhada da praia, e somente depois intui que elas deviam depositá-los em local fora do alcance das ondas. Depois dessa descoberta foi mais fácil encontrar o que procurava. As cascas, não os ovos cheios. Estes só os encontrei depois de cansativa investigação. Mas, depois de um tempo de procura, dei de cara com um monte deles, enterrados na areia fofa. Retirei alguns e deixei outros para gerar novas tartaruguinhas. E depois voltei correndo para o meu barraco e tentei preparar alguns deles, mas não foi fácil, pois me faltava o óleo comestível para fritá-lo, ou um pouco de manteiga.
Solucionei o problema com uma orientação que um amigo me deu certa feita. Ensinava-me ele como fugir dos efeitos danosos do óleo usando apenas água para fritar ovos. Pus isso em prática, e não é que deu certo! É claro que faltava aquele sabor inigualável do óleo na fritura. A bem da verdade, o ovo fica apenas cozido fora da casca. Mas valeu a pena. O ovo de tartaruga tem um sabor muito bom, e não é muito parecido com os de galinha, pois é um pouco mais intenso, forte. Assim, mais um problema resolvido.
Para substituir o creme dental, procurei a solução no material que me era mais abundante: a vegetação. Também fui buscar nas práticas de sobrevivência na selva, livro que havia lido anos atrás com muita atenção, apesar de nunca achar que um dia iria precisar dele, por ser eu um animal essencialmente urbano. Mas eis que chegara o dia. E, como diria o pai de uma amiga, “aprenda de tudo e use o necessário”. Não foi fácil encontrar uma árvore que me oferecesse uma casca com as qualidades necessárias à escovação dos meus dentes. Umas eram amargas demais, outras com forte adstringência, e outras mais leitosas e perigosas para a saúde.  O que eu procurava era algo que contivesse as propriedades substitutivas do flúor para combater o aparecimento da cárie dentária. E terminei por encontrar a tal árvore. Ela me forneceu uma casca meio avermelhada e, vai ver, dei de cara com o tal do xilitol. O certo é que funcionou bem. Senti a minha boca mais úmida e fresca, e o meu hálito menos afetado e sem aquele cheiro de mofo. Outro ponto superado. Se tivesse um pé de juazeiro por aqui, teria transposto essa fase com mais facilidade. Era só macerar algumas folhas e passar nos dentes. Pronto. Estava resolvido o problema. Mas não tinha. Não estava perdido na caatinga.
A falta do sabão foi um dos pontos mais encrencados para resolver. Lembrei-me que as pessoas do campo costumavam fazer o seu próprio sabão à partir de vísceras de animais ou de óleos de algumas palmáceas. Mas por aqui, como já afirmei, não encontrei nenhuma palmeira, e tampouco animais. E depois tinha a questão da potassa, tão necessário à confecção de um produto saponáceo. Mas tentei várias fórmulas, pois sabia que não poderia ficar com aquele cheiro nos sovacos por muito mais tempo. Gastei dias para encontrar uma fórmula que me desse um produto parecido com o sabão. Mas, tempo era um produto que eu possuía em larga escala. Terminei por encontrar algo parecido a partir do cozimento de casca de frutas misturadas com um óleo relativamente bem cheiroso que eu retirei de uma árvore, e também uma boa pitada de cinza vegetal. Não espumava muito, é bem verdade, mas retirou a gordura da minha pele e o odor já um tanto pesado das minhas axilas. E de quebra, solucionei o problema do shampoo. Parecia ser melhor para lavar os cabelos do que propriamente para desengordurar o corpo.
Se ficar mais tempo por aqui vou terminar escrevendo um tratado de sobrevivência na selva.  

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

CRÔNICAS VIVIDAS - DEZ HORAS OU DEZ DIAS




José Ribamar de Barros Nunes*

Não sou psicólogo nem psiquiatra. Considero-me, porém, ou pelo menos tento sê-lo, testemunha ocular da história, mestra da vida.

Faço essa introdução para me animar a ter coragem de adentrar no complexo mundo interior dos indivíduos na tentativa de compreender seu “ego”, suas ações, reações e manifestações diversas que vão do amor ao ódio, do heroísmo aos delitos. Elas despertam meu interesse e, não raramente, me perturbam e me deixam desolado e estupefato.

A filosofia popular não aplaude e até despreza os “conselhos” recebidos e chegam a dizer que, se servissem ou ajudassem, seriam vendidos e não de graça... A experiência me leva a discordar dessa vesga e errônea interpretação, pois já vi pessoas que se confessam gratíssimas a tais conselhos recebidos e vindos principalmente da parte de amigos ou familiares mais experientes.

Pois bem, quero falar de um “conselho” que recebi e adotei há alguns tempos. Eis a advertência: Se você tiver de tomar uma decisão importante ou praticar ações que causam impacto em sua vida ou na do próximo, “pare e pense” durante dez horas ou conforme o caso, durante dez dias, ou quem sabe, até mais...

Tenho usado e abusado desses procedimentos no meu dia-a-dia existencial, coexistencial, social e familiar. Juro que os resultados têm apresentado saldo positivo. Confesso-me, pois, “gratíssimo” às muitas pessoas que me presentearam com essa norma de conduta tão eficaz, tão valiosa e ainda de graça...

E ainda tem gente que exagera dizendo que não existe nada de graça no mundo. Existe sim e dou o meu testemunho.

Por isso, “pare e pense”, conselho que recebi, aprovei e passo adiante, de graça, mas com a convicção de que vale a pena...

*José Ribamar de Barros Nunes, cronista, assessor parlamentar do senado, é autor de Crônicas Vividas e Duzentas Crônicas Vividas.

E-mail: rnpi13@hotmail.com

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Diário de Um Náufrago (Capítulo VII)




SABER QUEM EU SOU MELHORA ALGUMA COISA? 

José Pedro Araújo

As reservas de peixe e de frutas na cabana estavam no fim, foi o que pude ver. E as latinhas de conserva também não davam para muito tempo. Teria que pescar e procurar por novos alimentos para repor o estoque. Parecia ser esse o meu meio de subsistência por ali. E antes que a tarde findasse, resolvi sair para pescar. Era até bem indicado, afinal, não é verdade que o pescador tem tempo de sobra para pensar? E eu precisava pensar com urgência como fazer para sair dali. Precisava descobrir como havia adquirido aquela cicatriz que trazia à altura do quadril e que ainda doía um pouco, mas, felizmente, já estava quase cicatrizada.
Antes de dar por terminada a pescaria o tempo se complicou, e uma pejada nuvem de chuva resolveu parir água e desabou sobre mim. Voltei ao barraco correndo e tratei de arrumar alguma coisa para fazer, pois parecia que a aquele dilúvio não pararia tão cedo, tal era a sua intensidade. Acendi uma pequena lamparina e, somente ai dei importância a uma velha e carcomida estante que continha alguns livros. Estavam todos arrumados, mas muito estragados, páginas oxidadas, volumes engrossados em muito devido aos efeitos da água. Mas ainda bem legíveis, e já que não havia nada diferente por ali para fazer...
Pela lombada dos exemplares ali expostos, fui observando alguns títulos conhecidos, poucos em português, pois a maioria eram edições publicadas na língua inglesa: The Brethren, de John Grisham, The Wedding, de Danielle Steel, Easy Prey, de John Sandford, Winter Solstice, de Rosamunde Pilcher, além de outros poucos títulos mais no mesmo idioma. E um de Paulo Coelho, Verônica Decide Morrer, estava em estado deplorável, quase imprestável para a leitura. Outro de crônicas de Jorge Amado, Hora da Guerra, estava bem apresentável, e mais outro apenas, de José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, compunha a tríade dos autores em português. Devo ter recolhido aqueles títulos pelos areais das praias. E isso me levava a pensar no que ocorreu com cada um deles. Alguns leitores devem tê-los jogado ao mar por diversas razões. Mas, o que levava uma pessoa a arremessar um livro ao mar? Não gostou do que lia?  Ou gostou tanto que resolveu enviar a alguém, qual garrafa jogada na água com um pedido de socorro. Ou mesmo para alguém que, por ocaso, estivesse perdido e sozinho? Se fosse esta última a razão de ter se desfeito do livro, havia acertado em cheio. E estava, portanto, redimido.
A palhoça não me abrigava muito bem quando a chuva era torrencial como a que durou a noite toda. Estava com excesso de umidade e um frio cortante me deixou praticamente sem dormir. Acompanhei o passar do tempo, testemunhei a luta entre a escuridão e a claridade, que venceu alegremente esse round para perder a luta doze horas depois, sem pregar os olhos. E algumas novas revelações foram feitas pelo meu cérebro, naquela noite insone, que trabalhava arduamente para me colocar novamente no comando das minhas lembranças e das minhas emoções.
Quando o dia clareou já sabia o meu nome, onde morava, o que fazia para viver e, o mais importante, tudo o que me havia acontecido desde que dera com os costados naquela ilha. Saiba até que possuía um inimigo perigoso que tentava a todo o custo me aniquilar. E não gostei muito de ter me lembrado de tudo isso, pois uma tristeza acachapante me inundou a alma e me fez chorar pela primeira vez naquela ilha perdida não sabia em que parte da Ásia. Da Ásia sim, pois agora me lembrava perfeitamente o que fazia naquele navio quando cai ao mar. E, principalmente, por onde andava navegando quando tudo aconteceu.
Mas, vou repassando essas informações aos pouquinhos, para não cansar aos que por ventura se interessem pelo caso de um náufrago que conseguiu se abrigar em uma ilha perdida e praticamente desabitada em pleno limiar do século XXI.
Para começo, sou um engenheiro de minas em viagem de férias, e possuo vínculo empregatício com uma petrolífera no Brasil. Solteiro, apesar dos poucos mais de trinta anos, e residia na cidade do Rio de Janeiro quando resolvi embarcar para aquele cruzeiro pela Ásia. Possuo ainda mãe, além de dois irmãos, todos residindo no país, e acredito que devem estar bastante preocupados com o meu desaparecimento, se é que já foram notificados disso. E agora estou triste e acabrunhado, mesmo sabendo que tenho que dar graças por não ter me afogado no mar. Se nadei ao ver-me na água, sinceramente não lembro. Portanto, devo agradecer ao Altíssimo por ter chegado vivo à areia da praia.
Manhazinha, dia já claro, mas chuvoso ainda, apanhei uma revista da Time, edição em inglês, e passei a folhear displicentemente. O assunto principal era a guerra. Guerra em todos os lugares. Guerra no oriente médio, guerra em países da África, guerra na Chechênia, guerra por toda a parte. E depois, terrorismo, fome, furacões, muita aflição no mundo, só desgraças. Fechei a revista. O mundo, realmente, não estava nada interessante. Recoloquei o meu objeto de leitura na prateleira e retirei de lá uma edição da People, de setembro de 1997, já muito estragada, com uma foto de capa com a Princesa Diana. Parecia em Preto e Branco, mas não dava mais para saber, tal os efeitos da água, do sol e da areia na sua capa. Mas, estava belíssima, isso era possível ver.
Não tinha nada interessante ali também. Resolvi levantar da enxerga e caminhar pelo diminuto ambiente interno da minha casa. Senti um incomodo cheiro de coisa estragada. Cheiro de peixe, de frutas, de sujeira, enfim. Estava ali há tão pouco tempo e já poluíra o ambiente. Foi o que me ocorreu. A minha cama também não estava com um odor muito bom, e logo me ocorreu que tudo isso se devia porque não tinha uma pedra de sabão para tomar um banho, quanto mais para lavar alguma coisa.