quarta-feira, 7 de novembro de 2018

O Poeta das Gaivotas

Imagem do Poeta Almeida Galhardo


Elmar Carvalho(*)

Tomei conhecimento da existência do poeta Almeida Galhardo no ano de 2014, através do livro Constelação de Sonhos – lindas e inesquecíveis poesia, que me foi gentilmente presenteado pelo juiz de Direito Édison Rogério Leitão Rodrigues, maranhense de Pedreiras, mas radicado no Piauí, onde exerce a judicatura há muitos anos, do qual tenho a honra de ser amigo.
Trata-se de uma monumental antologia, tanto pelo seu avantajado tamanho (formato 18cm x 25cm) como por suas quase oitocentas páginas, e sobretudo pela escolha de magistrais poemas de grandes poetas do Maranhão, do Brasil, de Portugal e do mundo. A seleta foi organizada por Benedito Lemos e Geraldo Melo. Para mais tornar atraente e valorizado o mimo, o Édison Rogério conseguiu a dedicatória do primeiro autor, datada do ano acima indicado. Em face do meu apreço por Constelação de Sonhos, mandei, para melhor protegê-la, revesti-la de bela capa dura azul, adornada por letras douradas.
Pois foi nesse florilégio poético que encontrei o nome e dois lindos sonetos de o Poeta das Gaivotas, um justamente titulado Gaivotas, de que lhe adveio o epíteto literário, e o outro, Cruz de Ouro. Impossível saber se o vate, se vivo estivesse, gostaria desse cognome; sei que Raimundo Correia, chamado o Poeta das Pombas, detestava tal designação, embora o soneto, que lhe rendeu essa alcunha, seja considerado um dos mais belos do Brasil. No livro, antecedendo os dois poemas, constava apenas o nome Almeida Galhardo e o registro: “P. S. Biografia desconhecida”.
Tendo ficado curioso, por causa de um de seus sobrenomes, que associei ao seresteiro Carlos Galhardo, e pela qualidade dos poemas escolhidos, tratei de ligar ao velho amigo Antônio Gallas Pimentel, jornalista, escritor e poeta, meu confrade na Academia Parnaibana de Letras, em virtude de ser ele um grande conhecedor da literatura maranhense e de haver estudado em São Luís (MA), dita a nova Atenas, mas também hoje conhecida como a Jamaica brasileira, por causa de seus talentosos “regueiros”.
Gallas, entre outras coisas, me disse que o poeta era seu conterrâneo de Tutoia, falecido em um desastre aéreo, ao pilotar uma pequena aeronave, creio que um teco-teco. A minha imaginação voou alto, e começou a fantasiar. Fiquei com a (falsa) impressão de que o poeta fora visitar sua cidade natal e, como as gaivotas de seu soneto, fizera algumas coreografias aeronáuticas, e terminara por colidir contra uma bela e grande duna, que ornaria a orla oceânica de sua então bucólica Tutóia. Mas, assim não foi, conforme mais tarde fiquei sabendo, e adiante explicarei.
Alguns anos depois das informações recebidas (e que repassei ao magistrado Édison Rogério), mais precisamente no dia 09 de outubro deste ano (e sei disso com precisão por causa da dedicatória), o Antônio Gallas me telefonou e me disse que se encontrava em Teresina; que conduzia a obra Almeida Galhardo – o Poeta das Gaivotas, para me ofertar. Combinamos onde nos encontraríamos, e imediatamente fui recebê-la. O livro contém a biografia do poeta e alguns poucos poemas a que o autor teve acesso.  
Foi escrito pelo tutoiense José Carlos Ramos, após demorado e cansativo trabalho de investigação e pesquisa, recorrendo a escassas e esconsas fontes documentais e à história oral, em que entrevistou alguns conterrâneos e contemporâneos do poeta, como Antônio José Neves, ex-prefeito de Tutoia, que conheci no final da década de 1970, como empresário em Parnaíba, proprietário da bucólica e aconchegante Churrascaria Cajueiro, que frequentei algumas vezes, inclusive no lançamento de um dos números do jornal literário Querela, dirigido pelo advogado e escritor Fernando Ferraz, de que fui colaborador.
José Carlos Ramos (nascido em 17.12.1949 e falecido em 21.08.2017, em Tutóia), não teve a felicidade de ver a publicação de sua obra, que só foi dada à estampa em 2018. No primeiro prefácio, da lavra de Moisés Abílio, poeta, jornalista e crítico literário, membro fundador da Academia Pedreirense de Letras, encontro a seguinte assertiva:
“A obra de José Carlos é um livro que ousa traçar um real retrato do poeta Almeida Galhardo, que em alguns fugazes instantes se confundem com dados da própria biografia do Maranhão.”
Nessa importante obra biográfica, consta que Galhardo mergulhou na sombra de injusto esquecimento, consoante é confirmado no exíguo registro de Constelação de Sonhos, que acima transcrevi. Tanto isso é verdade que, no livro Zoomorfismo Literário, João Mendonça Cordeiro, ao chamar Galhardo de “gaivota esquecida”, chega mesmo a dizer que ele “é o mais esquecido” poeta maranhense, que somente é lembrado em Tutoia, onde nasceu, às duas horas da tarde do dia 2 de dezembro de 1922. O seu nome não consta nos compêndios de história da literatura maranhense e nem nas antologias. O livro de José Ramos, portanto, servirá para o reconhecimento e renascimento literário do grande vate esquecido.
Sem uma legítima vocação sacerdotal, aos 14 anos de idade, ingressa no Seminário Santo Antônio, de São Luís, para atender desejo de seus pais. Ainda como seminarista, em suas visitas à terra natal, foi acometido por forte paixão, ao que parece um tanto platônica, por Eloísa, dita Isinha.
Mais ou menos na mesma época, foi visitado por uma nova paixão, desta feita por uma normalista ludovicense, o que parece revelar a sua inapetência para o clero e para os votos definitivos de castidade. Não desejava ele, decerto, seguir o mesmo destino de Junqueira Freire, que, monge e grande poeta, se tornou um amargurado na vida monacal e, talvez, arrependido pelos votos de castidade que fizera, já que perpetrou alguns poemas líricos e mesmo sensuais.
Seja como for, em 1943, aos 21 anos, o poeta abandona o seminário, o que, segundo o seu biógrafo, provocou profundo desgosto em seus pais, que muito o desejavam ver de tonsura e batina, como era usual na época. Passou a ser jornalista e fez curso e treinamento, para seguir sua vocação profissional, no Aeroclube de São Luís. Tornou-se piloto do Estado do Maranhão. No Aeroclube, foi colega, entre outros, de José de Ribamar Galhardo e de Augusto Alberto Fontoura Chaves. Suponho que do primeiro colheu o sobrenome Galhardo, que, juntamente com Almeida, compôs o seu nome literário; o segundo foi seu companheiro no seu último e trágico voo, que ceifou a vida de ambos.
O seu poema Gaivotas parece lhe revelar a vocação de aeronauta e de amante dos voos, seja na poesia, seja nas asas de um avião. Cruz de Ouro, poema lírico, mas com algum timbre de erotismo, como aliás ocorre em outros textos poéticos de sua autoria, é uma prova de que ele não tinha nenhuma vocação para o sacerdócio, e mormente para professar voto de castidade.
José Carlos Ramos transcreve vários versos, em que, no seu entendimento, o vate demonstraria ter uma premonição de sua morte precoce, em virtude de acidente aeronáutico. Nesse ponto ele se assemelha ao grande poeta piauiense, um dos maiores do Brasil, Mário Faustino, que tinha infausto e semelhante vaticínio, e, com efeito, terminou morrendo em trágico acidente aéreo, também jovem como ele, conforme se pode verificar nos seguintes versos claramente premonitórios:

Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina. 

Francisco das Chagas de Almeida Soares, seu nome completo, faleceu no dia 8 de agosto, mês considerado aziago, por muitos, do ano de 1948, aos 26 anos incompletos, quando sobrevoava o povoado Forquilha, em companhia do amigo Alberto Augusto Fontoura Chaves. O avião, velho e sem boa manutenção, pertencente ao deputado estadual Januário Figueiredo, veio a cair numa roça. Segundo depreendo do livro de José Carlos, o motivo desse voo baixo era uma espécie de homenagem ao “pai de belas moças que Galhardo e Betinho bem conheciam”, que morava nessa comunidade. Ambos receberam honras fúnebres da Assembleia Legislativa do Maranhão e da Câmara Municipal de São Luís.
Foram velados na casa de Fontoura Chaves, que ficava perto de uma fábrica de velas; quiçá algumas delas tenham iluminado os féretros dos dois amigos. Galhardo foi sepultado no Cemitério do Gavião, cujo voo majestoso, rápido, seguro e certeiro o vate das Gaivotas sem dúvida procurara imitar. Nesse campo santo, tocadas de leve pelo vento, as casuarinas talvez tenham acenado na hora do sepultamento, e, ao pôr do sol, farfalhando, entoaram chorosa nênia.    
Poetas e escritores como Lisoca Nunes, Malazarte, Lauro Cardoso e Lago Burnett dedicaram ao poeta morto belas e magoadas elegias e proferiram comoventes palavras. À beira de seu túmulo, em altissonantes apóstrofes, Fernando Lopes o chamou de cigarra, de formiga e de condor. E formiga ele o foi, porque mourejou na imprensa e na aviação; cigarra, cantou seus temas em belos e imortais versos; condor, a grande ave dos andes, poderá haver sido, em alguns momentos da aeronáutica e da poesia, ele que talvez tenha desejado ser apenas uma gaivota – “gaivotas do azul, veleiros do infinito”.  
Agora, com a edição desse livro de José Carlos Ramos, Almeida Galhardo deixará de ser a “gaivota esquecida”, “o mais esquecido” poeta do Maranhão, para ganhar as grandes altitudes do reconhecimento público, como na soberba planação de um condor, ou na elegância do voo de uma gaivota, aves que povoam os seus belos e imperecíveis poemas e sonetos.   



DOIS SONETOS DE ALMEIDA GALHARDO (*)


Gaivotas

Gaivotas do azul, veleiros do infinito,
Que possuis o adeus nas asas de alabastros.
Da saudade vós sois os luminosos rastros,
Perdidos na amplidão que extasiado eu fito!

Calmas, singrais os céus entre a espuma dos astros,
Velas pandas de amor – pampeiros do meu grito...
Poesias trazeis como divinos lastros,
Nos rêmiges de luz mais fortes que o granito!

E vós singrais os céus, sem rota e sem destino,
Beduínas vós sois do belo auridivino,
Enchendo a amplidão de versos e de mitos;

Saúdo-vos daqui... da tenda do meu sonho,
Sentindo-me feliz por vos fitar risonho,
Gaivotas do azul, veleiros do infinito!...


Cruz de Ouro

Sobre o rendado ebúrneo do teu seio,
Arfar sentindo o peito alabastrino,
Pendia um crucifixo de puro ouro fino,
E em minha dor eu sem querer fitei-o.

Fatal inveja me feriu, notei-o,
Ao ver o Cristo pequenino,
Roçar esse teu peito, altar divino,
E a ideia de ser Cristo então me veio.

Pequei, bem sei, em desejar ser tanto,
Em ser o Cristo divinal e santo,
Que em teu colo puríssimo se via...

Se nesse Cristo eu me tornar pudesse,
Seria o Nazareno da tua prece,
E minha madalena eu te faria!...

(*) Copiei os dois poemas dos livros Constelação de Sonhos e Almeida Galhardo – o Poeta das Gaivotas. Fiz rápido cotejo entre os dois para tomar uma decisão sobre as várias divergências que encontrei. Ainda me vali de uma versão encontrada no Suplemento Cultural (nº 15) do Diário de São Luís, edição de 12/09/1948, na página em homenagem ao poeta, que encontrei na internet. Entretanto, reconheço, apenas a verificação atenta dos originais poderia solucionar os vários conflitos encontrados.     

(*) Elmar Carvalho é poeta, romancista, cronista e membro da APL.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

DONA TERESINHA, NA SUA AUSÊNCIA NÃO HAVERÁ FESTA!

FESTA EM FAMÍLIA - MAMÃE É A 6ª SENTADA À PARTIR DA ESQUERDA


Em um distante trinta de outubro de 1927, em dia de sol brilhante como o de hoje, nascia no Curador uma estrela que iria iluminar a vida de tantos quantos cruzaram o seu caminho. E foi assim por felizes oitenta e nove anos. Naquele feliz dia, como diria o trovador, na música intitulada “Fazenda”, “Tinha sabiá, tinha laranjeira, tinha manga rosa, tinha o sol da manhã... Até vir a noite...”. Não posso lastimar o fato, já que não estás mais aqui, pois Deus sabe o momento exato de todas as coisas. Momento da chegada e também da partida. Mas como sinto a falta da sua presença carinhosa e caridosa! Como sinto a ausência do seu sorriso a iluminar os meus dias! Na minha casa, no quarto em que dormiste, ainda baila suspenso no ar o seu aroma, e o som do seu riso fácil ainda reverbera qual o trinado de um pássaro canoro. Nos dias iguais ao de hoje, sempre encontrávamos uma maneira de ficarmos juntos. Como a senhora gostava que fosse. Deste modo, como se faz ausente a pessoa mais importante da reunião, não mais festejaremos esse dia. Apenas agradeceremos ao Criador pelos anos em que estivemos juntos. O Trinta de outubro nunca mais será festivo para nós, contudo!

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

O Ineditismo do Futebol de Minha Terra(2) - Árbitro x Bandeirinha.




Mazaniel Almeida(*)

            Antes de qualquer coisa, devo fazer um elogio ao futebol do Estado Maranhão. Lá não temos clubes homônimos, o que facilita e muito a comunicação. No Brasil se formos contar o número de clubes de futebol com o nome de América, daria para encher um balde. No futebol do Piauí certa feita, tínhamos Flamengo, Fluminense e Botafogo. Por sacanagem a Caixa Econômica Federal colocou na loteria Esportiva um jogo de Flamengo x Fluminense do Piauí e o Brasil todo marcou coluna do meio, ou seja, empate, quando nós sabíamos que o Fla daria uma goleada no Flu.
            Corria o ano de 1968 e o campeonato piauiense de futebol se desenrolava sem maiores atrativos até que veio o último clássico do primeiro turno entre Flamengo x Piauí, no domingo sete de julho.
            Desculpe-me os torcedores do Flamengo carioca, mas o time de vocês não é o único a se beneficiar de arbitragens escandalosas. O Flamengo do Piauí também trouxe essa sina. O Flamengo perdia por 1 x 0 quando o árbitro Antônio Rodrigues SANTA ROSA, validou um gol do Flamengo feito pelo atacante em completo impedimento (offside). O juiz de linha (bandeirinha) permaneceu em pé junto a bandeira de escanteio com a bandeirinha levantada, marcando o impedimento. Imediatamente os jogadores do Piauí E. Clube partiram pra cima do árbitro, apontando a marcação do bandeirinha. O árbitro por sua vez correu para se entender com o juiz de linha, Sr. Jamil Gedeon Filho com quem travou o seguinte diálogo:
Árbitro Santa Rosa: Eu marquei gol. O que você tá fazendo com esse pau duro em pé?
Bandeirinha Jamil Gedeon: Foi gol, mas em impedimento e o pau e meu e deixo como quero. Você não manda em meu pau!
Árbitro: Mas eu estou marcando gol e você assim com esse pau em pé me desmoraliza.
Bandeirinha: Não vou abaixar meu pau, se você quiser que valide, mas         estava de offside. Meu pau não desmoraliza ninguém!
Árbitro: Você e seu pau estão atrapalhando meu trabalho, por isso você está expulso de campo com bandeirinha e tudo.
            A introdução dos cartões vermelhos e amarelos no futebol mundial se deu dois anos depois, na Copa do Mundo de 1970, no México. Nessa copa nenhum jogador recebeu cartão vermelho e o primeiro jogador a receber cartão vermelho numa Copa do Mundo foi o nosso zagueiro de área Luis Pereira, na Copa de 1974, contra a Polônia, na decisão do terceiro lugar.
            Os cartões tiveram como inspiração para a criação, os sinais de trânsito, isso para facilitar a comunicação dos árbitros com os jogadores e também para o entendimento das torcidas, em face da quantidade de idiomas reunidas nos estádios que mais parecia uma imensa Babel. Ainda não havia esse enorme intercâmbio de atletas internacionais, hoje tão comum. Até então, o árbitro ao expulsar de campo um jogador era um tal de assoprar de apito e gestos espalhafatosos que dava dó. Foi o que se viu a seguir com o árbitro Santa Rosa expulsando seu bandeirinha de campo. O bandeirinha Jami Gedeon por sua vez, fez questão de sair com o pau da bandeira em pé, apontando para cima, numa flagrante afirmação de suas convicções.
            Tanto o árbitro Antônio Rodrigues Santa Rosa, quanto o bandeirinha Jamil Gedeon Filho, infelizmente já esticaram as canelas e bateram as botas, indo à viagem sem volta, com passagem só de ida. Bem que eles poderiam assinar esse trabalho. Como pessoas eram excelentes. Cidadãos de primeira linhagem, mas como árbitros de futebol, ofício ingrato e que costuma desagradar as duas torcidas, praticavam lá seus deslizes e protagonizaram esse caso único no mundo. O resultado do placar deixou de ser relevante diante dessa anomalia, ninguém mais se importou com a partida e a expulsão gerou comentários pra mais de mês, pra lá de léguas de comprimento. Carlos Said, o mais conhecido comentarista de arbitragem do Estado, falou tanto nisso que ficou rouco.
            Ah, quase me esqueço! O jogo terminou empatado de 1 x 1 com o gol de impedimento validado.
             Eu estava lá, vi e conto.
             São coisas de minha terra.


(*)Mozaniel Almeida é piauiense, poeta e cronista.

sábado, 20 de outubro de 2018

Suando a camisa para me tornar um craque de futebol




José Pedro de Araújo
Desde que me entendo por gente comecei a pôr em prática o sonho de jogar futebol. Pra falar a verdade, acho até que isso começou antes disso. Mas, desse período não me ficou registros na memória. Portanto só falo aqui do que me lembro. Como muitos da minha geração, a primeira pelota que corri atrás foi uma bola-de-meia. Acredito que quem fabricou o artefato foi a minha mãe, utilizando-se de uma velha meia do meu pai. Digo que acredito porque era ela que, habilidosa e muito dedicada, ajudava-me a confeccionar alguns dos meus brinquedos. Como os papagaios(pipas), por exemplo. Quando engendrei o meu primeiro artefato voador, não sabia como fazer para cobri-lo com papel de seda. Foi ela quem me socorreu mais uma vez e concluiu a tarefa. Fez o grude(cola), à partir da goma de mandioca, e colocou o papel na armação. Quem já confeccionou algum desses bichos sabe que um de seus mistérios é a colocação do papel na armação. Se ficar folgado demais, o bicho não voa. E se ficar muito esticado, também não voará com a galhardia que queremos.
Voltando para o propósito da nossa crônica. Mamãe me fez uma bola-de-meia muito bacana. Preta(a cor da meia), era tão esférica que parecia que algum profissional a havia fabricado. E era verdade. Minha genitora fazia tudo para nós com o maior carinho e cuidado. E, geralmente, ficava tudo uma perfeição. Foi atrás dessa pelota que dei as minhas primeiras carreiras rumo ao estrelato. Depois ela adquiriu na feira(sábado é dia de feira no Curador e todo mundo tirava uma hora para passar por lá. Pelo menos para conferir as novidades, caso não tivesse dinheiro). Uma bola azul, muito pequena, e de plástico, foi o presente que ganhei. Leve demais, não demorou e logo perdeu a sua finalidade ao romper a costura de tanto ser chutada na parede do salão comercial do meu pai.
Para aprimorar a minha carreira de craque, um tio meu trouxe de uma aldeia indígena de Barra do Corda, certo dia, uma bola de borracha, confeccionada pelos índios à partir do látex da Mangaba. A pelota era muito viva, pulava demais, dificultava o seu domínio como um cavalo xucro. Ademais, era quase oval, estava mais para uma bola de futebol americano do que propriamente para uma de futebol bretão. Ficava difícil acertar um chute na vadia. Acredito poder afirmar que essa mal-amada teve o condão de me tornar um perna-de-pau. Sim, porque dizem que “é de pequenino que se torce o pepino”. E eu, naturalmente, perdi-me no tempo.
O nosso estádio( ou seria melhor chamar Arena?), ficava na Praça Diogo Soares, a dois passos da casa paterna, pertinho também das residências dos outros atletas. Grama mesmo só possuía alguns tufos de capim-de-burro, pois os animais que por lá vagavam não deixavam nada escapar das suas bocadas. Chamávamos de Praça o espaço vazio que a municipalidade registrou na sua relação de endereços, mas que, ainda hoje, nunca recebeu uma melhoria, por menor que fosse. Aliás, minto, algum prefeito trabalhou ali para lhe carimbar o nome. E mais não fez. Mais ampla (nesse tempo, porque depois o município entendeu de doar mais da metade daquele espaço para alguns de seus eleitores construírem moradias), o nosso campo de jogo recebia-nos para jogar quando o sol nos permitia: sem queimar o nosso cocuruto, os nossos pés ou dificultasse a nossa visão. Ou sejas: na primeira parte da manhã ou após as quatro da tarde, e até as dezoito, quando ainda era possível ver a bola rolar.
Invariavelmente, jogávamos com bolas de borracha. Não havíamos possuído, até então, uma bola de couro. E é fácil justificar por que. Na cidade não havia uma só loja que comercializasse o artigo. E depois, bola-de-couro era para poucos, estava acima da nossa condição financeira. Mas isso não duraria para sempre. Ganhei do meu pai a minha primeira viagem para mais distante dos limites do meu município. Até então só conhecia os vizinhos: Tuntum e Dom Pedro. Nessas férias acompanharia o meu pai em uma viagem para Teresina, e depois seguíramos até Simplício Mendes, cidade em que residia a minha avó paterna. Estávamos nas férias do fim de ano de 1966. Isso, naturalmente, me encheu de júbilo. Foi nessa viagem que eu me apaixonei perdidamente pela capital de todos os piauienses. Nela havia muitas bancas de revistas. Um sonho. Nunca mais me desgrudei dela.
Empolgados com a viagem de um dos seus membros mais participativos, o time inteiro fez uma vaquinha para adquirir a sua primeira bola de couro. Imaginem a pressão que exercemos sobre os nossos pais para arrancarmos deles alguns caraminguás dos seus apertadíssimos orçamentos. O certo é que juntamos uma certa quantia que deu para adquirir uma bola das mais baratas. Mas haveria de ser de couro. E foi.
Quando retornei da minha viagem de quase quinze dias, encontrei o time inteiro esperando por mim. Melhor dizendo, pelo objeto de imenso desejo: a bola. E mal o ônibus parou na agência Estrela Dalva, na Praça da Bomba, de maneira uníssona os atletas indagaram-me pela pelota. Sem fazer mistério, arremessei-a para as mãos do atleta que se achava mais próximo e ele, ao segurá-la, virou-me as costas e fugiu em desabalada carreira. Os outros moleques seguiram em seu encalço, nem me perguntaram como havia sido a viagem.
A bola-de-couro também não melhorou o meu desempenho como jogador de futebol. O problema não era a bola e sim o atleta, compreendi enfim. Depois disso, corri que nem um desesperado atrás da redonda por campos outros, e em vários outras cidades, sem que a pérfida amada me transformasse em, pelo menos, um jogador mediano. Longe disso. Por conta disso, desde a minha mais tenra idade, quando escolhíamos o time, logo aparecia alguém disposto a me escalar para o gol. E como é do conhecimento público, vai para o gol o pior jogador. Mas eu só considerei essa situação, que teimei muito tempo em aceitar, quando já adulto. A constatação doía muito, podem acreditar. Mas, em contrapartida, diminuiu em muito a minha ânsia para me tornar um jogador de futebol. Depois disto, encontrei uma saída maravilhosa para evitar que me empurrassem sempre para desempenhar o ofício de goleiro: passei a comprar a bola.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

A história do sapo Zé

Capa do Livro infantil "O Sapo Zé".

Elmar Carvalho(*)


Dias atrás veio fazer um trabalho em nossa casa o mestre Ivo Gomes, radicado em Teresina, porém natural de Miguel Alves – PI. Quando, no final do serviço, minha mulher e eu o elogiamos, reconhecendo que ele montara o painel de mosaico com perfeição, ele revelou que passara a noite anterior sem dormir direito, porque a Fátima achara que ele havia errado na ordem de colocação de algumas das peças. Isso demonstra que ele é um operário perfeccionista, meticuloso, o que se percebe ainda no cuidado como ele fez as necessárias emendas, nos locais em que não cabia uma unidade completa.

No decorrer da execução do serviço, ele tomou conhecimento de que eu escrevera alguns livros, que lhes foram mostrados, creio. Ivo, então, nos contou que o seu filho, ainda um menino, era também um escritor. Como lhe indagássemos sobre isso, ele nos contou que o garoto gostava de ler e sempre participava do Salão do Livro do Piauí – SALIPI, tendo publicado um livro infantil por ocasião de uma de suas “versões” anuais.

Falou que o garoto, além do amor aos livros, gostava de desenhar, escrever e era componente de uma banda musical. Acrescentou que o seu filho escrevia desde que tinha cinco anos de idade, sem que ninguém a esse mister o induzisse. Ele próprio fazia as ilustrações das histórias que escrevia.

Perguntei qual a sua idade atual, tendo o mestre me respondido que tinha somente 12 anos de existência. Prometi que, quando ele terminasse o serviço, mandaria uns livros de minha lavra a seu filho, tendo ele me dito que me traria, no dia seguinte, um livro da autoria do garoto. De fato, me trouxe um exemplar, ainda lacrado por invólucro plástico, e, portanto, sem autógrafo, o que parece indicar que o jovem não foi inoculado pelo veneno da vaidade de eventual mosca azul.

O pequeno volume tem o título de “O sapo Zé”, e é todo colorido, da capa à contracapa, o que é conveniente a um livro destinado a público infantil. Li-o com agrado, me recordando dos tempos de minha meninice, em que li com sofreguidão esse tipo de literatura, inclusive vários da autoria do grande Monteiro Lobato, da Condessa de Ségur, de Viriato Correia e vários outros autores, além de inúmeros gibis da marca Walt Disney.

A obra contém belas ilustrações em policromia, que bem retratam o que é narrado, elaboradas por Ângela Rêgo, exímia artista plástica e ilustradora, que já agregou valores a vários livros publicados. Ela é também uma talentosa capista.

Na capa se encontra estampado o nome completo do autor: Railson Cauã Gomes. A pequena nota biográfica informa ainda que ele tem oito anos e que aos cinco decidiu escrever histórias, bem como é estudante de escola pública. Portanto, a história objeto do livro foi escrita, suponho, quando ele tinha apenas essa idade, contudo o livro foi publicado em 2016, conforme folha de rosto. Foi publicado pela Nova Aliança Editora, cujo proprietário é o livreiro Leonardo Dias, coordenador editorial, que relevantes e bons serviços vem prestando à literatura piauiense.

Na pequena nota, a que me referi, é noticiado que o autor “tem o sonho de ser um grande escritor lido no mundo inteiro e por isso continua escrevendo e ilustrando histórias para as crianças se divertirem”. O estilo é claro, direto, objetivo, sem nenhum tipo de rebuscamento, e bem compatível com a idade de Railson Cauã. A história é simples, porém criativa, e apropriada ao público a que é destinada. Por conseguinte, bem diferente de certas histórias infantis, que são, na verdade, uma espécie de contos de terror.

Transcrevo o seguinte trecho, que é revelador de sua inventividade: “O sapo Zé pulava no jardim e a sapa pulava no seu Joaquim.” Nota-se, nesta pequena transcrição, o espírito lúdico e brincalhão do jovem escritor. Por ela se percebe que, se Cauã tiver perseverança e não mudar de planos, continuando firme em sua vocação, em seus estudos e amor à leitura, realizará, decerto, o seu “sonho de ser um grande escritor”.

Afinal, como já dizia Charles Chaplin, “a persistência é o caminho do êxito".    

(*) Elmar Carvalho é poeta, romancista, cronista e membro da APL.