segunda-feira, 29 de julho de 2024

Orfileno Gomes, uma inclinação notável para a política e a intelectualidade!

Orfileno Neto e São José dos Basílios

 

Por: Orfileno Gomes, Neto (*)

 

Orfileno Gomes de Gouveia, nascido em Carolina - MA, em 22 de setembro de 1896, herdou não apenas o nome distintivo de seus pais, Sebastião Gomes de Gouveia e Saturnina Gomes de Brito, mas também uma inclinação notável para a política e a intelectualidade, desde sua tenra idade. Em 1948, abandonou a profissão de caixeiro-viajante e se estabeleceu na Vila Cidade de Curador, onde iniciou um próspero empreendimento comercial e sua militância política na cidade.

Na sua primaz e cativante jornada política local, Orfileno Gomes conquista o coração dos eleitores ao ser eleito o vereador mais votado na "5ª Legislatura de 1963-1967", representando com honra o povoado de São José dos Basílios. Seu irmão, Honorato Gomes de Gouveia, ocupa com distinção o cargo de prefeito, tendo como companheiro de chapa o respeitável Valeriano Américo de Oliveira.

O vereador Orfileno Gomes, destacado por sua atuação notável no legislativo municipal, enfrenta um desafio crucial. Ele está plenamente consciente da saúde delicada de seu irmão, acometido por um câncer terminal. Diante da latente situação, Orfileno Gomes prospecta a oportunidade para se firmar como o candidato principal para sucedê-lo nas próximas eleições. No entanto, seus planos entram em choque com as intenções declaradas do vice-prefeito Valeriano Américo. Valeriano afirmava categoricamente dentro do seu grupo político que, se o prefeito fosse a óbito, não assumiria o cargo, evitando assim a impossibilidade de concorrer nas eleições seguintes de acordo com a legislação eleitoral.

Em vez disso, ele optaria pela renúncia, o que, por sua vez, obrigaria o Presidente do Legislativo Municipal a assumir interinamente a prefeitura. Com a vacância do cargo de prefeito, assume o mandato tampão o presidente do Poder Legislativo Municipal, sob o comando do vereador Raimundo Lopes de Sousa, o Dico da Serra.

Orfileno, impedido de concorrer à prefeitura de Presidente Dutra, lidera um movimento separatista para transformar São José dos Basílios em uma nova cidade. Para aguçar o seu intento municipalista, Orfileno Gomes já mantinha fortes laços de amizade com o ex-presidente da República Juscelino Kubitscheck de Oliveira e sua esposa Sara Kubitscheck. Com informações de minha mãe Honorina Gomes, 91 anos de idade e ainda mantendo uma lucidez cristalina, me trouxera informações importantes diante dos pleitos solicitados pelo vereador, que já mantinha no áureo período juscelinista um ciclo de amizade com o presidente, pois na oportunidade presidiu uma cooperativa de garimpeiros no estado do Goiás. Esta aproximação com o presidente era mantida por inúmeras cartas ao longo de sua breve mocidade. No forte e próspero povoado de São José dos Basílios teve combatentes aliados quanto opositores, e com apoio parlamentar na capital, ele assume cargos importantes como Fiscal da Coletoria Estadual e Agente Cartorial no maior povoado do município.

Em 1963, aos 67 anos, sua vida termina tragicamente quando é derrubado e arrastado por mais de meio quilômetro por seu animal de montaria. Após ser socorrido, é levado à capital São Luís e internado no Hospital Português onde foi a óbito após alguns meses de tratamento.

(*) Orfileno Gomes, é poeta, administrador de empresas, jornalista, advogado e concluinte do Curso de Medicina.

sexta-feira, 5 de julho de 2024

FEIRA MUNICIPAL

 

Por: Orfileno Gomes (*)

 

Ao rever fotos de um passado não tão distante do Antigo Mercado Público do município de Presidente Dutra - Ma, deparei-me com uma imagem emblemática da "Feira Municipal". Este espaço icônico, localizado entre a Rua Coronel Sebastião Gomes e a Praça Senador Vitorino Freire, ocupa uma área aproximada de 60.000 m².

A Feira Municipal era ocupada por todos os feirantes da cidade e da região, em uma atividade comercial itinerante. A preparação do majestoso espaço começava na sexta-feira para a grande feira, que ocorria até as 19h do sábado. Nada era fixo; tudo era desmontável, e a área era limpa, servindo como espaço de lazer para os munícipes do entorno da praça.

Durante as gestões dos prefeitos Agripino Campos e Jurandir Carvalho, entre 1989 e 1996, ocorreu a chamada "farra do boi". Uma análise mais apurada do período revela a impopularidade parcial de suas administrações, marcada pela falta de rigor na aplicação da lei e no cumprimento do Código de Postura Municipal, permitindo a invasão do espaço público.

Em ocasiões distintas, durante meu trabalho jornalístico, tive a oportunidade de conversar com ambos os gestores sobre a ocupação urbana da área da feira em sua totalidade. Em nossas conversas esclarecedoras, compreendi que não houve "omissão" por parte dos gestores mencionados, mas sim a falta de mecanismos ou meios adequados para coibir a invasão do logradouro público. Com o passar do tempo, essa situação tornou-se um problema complexo e de difícil resolução.

Durante os sete anos de ocupação inicial, mais de três gerações negociaram, sob a luz da gestão pública, cada pedaço de lote a preços elevados no mercado de compra e venda de imóveis sem titularidade. Atos de ilegalidade e imoralidade!

Apesar da desorganização estrutural em vários aspectos, o Poder Público Municipal tem demonstrado uma certa relutância em abordar a questão da "imexível" feira, talvez devido ao impacto que a "concessão do voto" possui como moeda de troca. A busca por um projeto de urbanização para a feira não foi uma prioridade em gestões passadas, e acredito que as administrações presentes e futuras também evitarão lidar com esta questão complexa, que atualmente parece não ter uma solução viável.

(*)

Orfileno Gomes, é poeta, administrador de empresas, jornalista, advogado e concluinte do Curso de Medicina.

quinta-feira, 27 de junho de 2024

NASCIA O MUNICÍPIO DE CURADOR EM MEIO A MAIS BRUTAL DAS GUERRAS HÁ 80 ANOS

Imagem de Caroline Soares de Araújo

José Pedro Araújo (*)

O mundo atravessava uma das fazes mais negras da sua história durante as décadas de trinta e quarenta, ocasião em que milhões de pessoas perdiam a vida em cruentos confrontos entre as forças nazistas e seus inimigos declarados, os aliados. O teatro em que se desenrolava tamanho morticínio, era o território europeu, e também parte do sofrido continente africano, para onde o conflito se estendeu. Enquanto isso, o Curador dormia o seu sono tranquilo, uma vez que as terríveis notícias quase não chegavam até o seu território, através das ondas das rádios. E rádio era um bem caro, difícil de ser adquirido, até mesmo pelos que detinham algum poder econômico. Por sua vez, não nos consta que algum conterrâneo tenha lutado naquele conflito tenebroso, o que fazia com que as famílias aqui estabelecidas não tivessem razões para chorar pelos seus filhos. E se o clamor das vítimas não chegavam com frequência até nós, o fragor das batalhas e o barulho dos canhões não penetravam pelos nossos ouvidos, já que as suas ações se desenrolavam longe do nosso continente, e apenas, eventualmente, nas costas do nosso país quando algum navio mercante começou a sofrer ataques dos alemães. Longe do litoral, escondido no centro da mata quase intransponível, e alheio às notícias dos jornais, o velho Curador se mantinha sem muitas informações acerca do horroroso conflito que custava a vida de tanta gente.  

E foi justamente quando a guerra estava na sua fase mais cruenta que o povo do Curador recebeu a notícia de que a Lei nº 820, de trinta de dezembro de 1943, que estabelecia a nova divisão territorial do Maranhão, reconhecia a nossa soberania, separando-nos do município de Barra do Corda. A notícia, que deve ter nos chegado com relativo atraso, dado à falta de comunicação com a capital do estado, veio pelas vias telegráficas e de forma muito resumida, como era praxe nos telegramas. Mas foi suficiente para encher de alegria toda a população. Talvez tenha havido comemorações mais acerbadas em algumas das casas das famílias mais importantes politicamente, com a distribuição de bebidas e comidas à larga para os convivas; e que o som do baião tenha empolgado mais do que nunca os nossos moradores que viam o fim do período junino se aproximar. Afinal, estávamos em véspera de São Pedro, um dos dias mais importantes no calendário junino.

Mas aí vieram os dias de angústia e dúvida. Entramos no ano de 1944 e nada de marcarem a data da nossa solenidade de elevação à categoria de município. Nada de conhecermos o nosso primeiro mandatário, aquele que iria dar início à história política e administrativa do novo município. A realidade continuava a mesma, ainda estávamos sob a chefia dos políticos de Barra do Corda, e sem orçamento próprio. Passaram-se 6 meses e não conhecíamos o nosso interventor. Nesse interregno a sede era tomada por notícias pouco verdadeiras, fuxicos e falácias sobre esse ou aquele nome para assumir os destinos políticos da novo município. Os grupos políticos já estavam devidamente definidos, só não sabíamos quem iria indicar o nosso primeiro mandatário, aquele que iria posar de chefe político do novo município. Imagine-se o vai-e-vem dos políticos em direção à capital com a intenção de obterem a primazia da indicação do nosso primeiro administrador.

Até que, certo dia, chegou até nós a notícia de que a data já estava escolhida. E seria a mesma para todos os novos municípios: 28 de junho daquele sagrado ano de 1944. E que, como o interventor estadual, Dr. Paulo Martins de Souza Ramos, não poderia se fazer presente em todos os lugares ao mesmo tempo, a nossa festa de elevação não contaria com a sua presença. Entretanto, mandou como seu representante, o Secretário da Prefeitura de Vargem Grande, Raimundo Ferreira de Souza para presidir a solenidade. Menos mal que estava presente também o interventor de Barra do Corda, Jamil de Miranda Gedeon, e o futuro deputado estadual Manoel Gomes, além de muitos cidadãos que logo estariam à frente dos embates locais. Manoel de Oliveira Gomes, aliás, se elegeria na 2ª eleição legislativa ocorrida em 1947, após a reabertura da Assembleia Legislativa, depois do seu fechamento pela ditadura Vargas, e daí em várias legislatura, contando sempre com o voto de boa parcela dos eleitores de Presidente Dutra.

Foi uma festa realizada com a presença maciça da população curadoense. Estava, enfim, criado o nosso município. Contudo, para nossa tristeza, ainda não veríamos oficialmente o nosso primeiro interventor, uma vez que o ato com a sua nomeação só seria assinado no dia 27 de julho de 1944, praticamente um mês depois da solenidade de elevação. E, como todos sabem, o escolhido pelas autoridades da capital foi o coletor estadual José Lúcio Bandeira de Melo, que na época prestava os seus serviços na coletoria da Vila de Curador. José Lúcio ficaria no cargo durante cerca de nove meses até que as brigas políticas começaram a se acirrar e a exigir um político da terra no posto de interventor. Desde então, viveu-se uma verdadeira enxurrada de nomeações e exonerações: mais sete interventores, sucessivamente, até o ano de 1948, ocuparam a cadeira número um da sede. Até que, neste ano, em 19 de janeiro, os curadoenses, finalmente, escolheram o seu administrador municipal através do voto direto. Elegeram o Sr. Ariston Arruda Léda. De lá para cá, muitos embates foram travados.

O atual prefeito, Raimundo Alves de Carvalho, é a vigésima primeira pessoa a tomar acento na cadeira de primeiro mandatário municipal de Presidente Dutra, mas somente o décimo-quarto escolhido diretamente pelos eleitores do município nesses setenta e dois anos já decorridos. Outros sete foram vice-prefeitos que tomaram assento por diversas outras razões, como a renúncia do prefeito legalmente escolhido, a morte de dois deles, ou em decorrência da cassação de um outro que havia sido legitimamente eleito.

Desde o dia 28 de junho de 1944, lá se vão 80 anos, desde a declaração de nossa maioridade. Já poderíamos ter atingido um melhor nível de desenvolvimento, mas não podemos nunca nos esquecer de que as lutas foram renhidas e dolorosas até que chegássemos ao ponto em que chegamos. Aquela vilazinha que se desligou do território barra-cordense e que não contava com escolas ou com atendimento de um único médico, hoje é referência nessas duas áreas. Hoje são muitos os hospitais e clínicas existentes, e um sem-número de faculdades em várias áreas do conhecimento educam a nossa população e a dos municípios circunvizinhos. Ao mesmo tempo, o município se transformou em polo regional de desenvolvimento no estado e hoje gera emprego para milhares de pessoas.

Parabéns, Presidente Dutra, pelos seus 80 Anos de Emancipação política!

(*)José Pedro Araújo é engenheiro agrônomo, funcionário público federal aposentado, historiador, cronista, romancista, e coordenador do blog Folhas Avulsas.