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Imagem de Caroline Soares de Araújo
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José Pedro Araújo (*)
O mundo atravessava uma das fazes
mais negras da sua história durante as décadas de trinta e quarenta, ocasião em
que milhões de pessoas perdiam a vida em cruentos confrontos entre as forças
nazistas e seus inimigos declarados, os aliados. O teatro em que se desenrolava
tamanho morticínio, era o território europeu, e também parte do sofrido
continente africano, para onde o conflito se estendeu. Enquanto isso, o Curador
dormia o seu sono tranquilo, uma vez que as terríveis notícias quase não chegavam
até o seu território, através das ondas das rádios. E rádio era um bem caro,
difícil de ser adquirido, até mesmo pelos que detinham algum poder econômico. Por
sua vez, não nos consta que algum conterrâneo tenha lutado naquele conflito
tenebroso, o que fazia com que as famílias aqui estabelecidas não tivessem
razões para chorar pelos seus filhos. E se o clamor das vítimas não chegavam
com frequência até nós, o fragor das batalhas e o barulho dos canhões não penetravam
pelos nossos ouvidos, já que as suas ações se desenrolavam longe do nosso
continente, e apenas, eventualmente, nas costas do nosso país quando algum
navio mercante começou a sofrer ataques dos alemães. Longe do litoral, escondido
no centro da mata quase intransponível, e alheio às notícias dos jornais, o
velho Curador se mantinha sem muitas informações acerca do horroroso conflito
que custava a vida de tanta gente.
E foi justamente quando a guerra
estava na sua fase mais cruenta que o povo do Curador recebeu a notícia de que
a Lei nº 820, de trinta de dezembro de 1943, que estabelecia a nova divisão
territorial do Maranhão, reconhecia a nossa soberania, separando-nos do
município de Barra do Corda. A notícia, que deve ter nos chegado com relativo
atraso, dado à falta de comunicação com a capital do estado, veio pelas vias
telegráficas e de forma muito resumida, como era praxe nos telegramas. Mas foi
suficiente para encher de alegria toda a população. Talvez tenha havido
comemorações mais acerbadas em algumas das casas das famílias mais importantes
politicamente, com a distribuição de bebidas e comidas à larga para os convivas;
e que o som do baião tenha empolgado mais do que nunca os nossos moradores que
viam o fim do período junino se aproximar. Afinal, estávamos em véspera de São
Pedro, um dos dias mais importantes no calendário junino.
Mas aí vieram os dias de angústia
e dúvida. Entramos no ano de 1944 e nada de marcarem a data da nossa solenidade
de elevação à categoria de município. Nada de conhecermos o nosso primeiro
mandatário, aquele que iria dar início à história política e administrativa do
novo município. A realidade continuava a mesma, ainda estávamos sob a chefia
dos políticos de Barra do Corda, e sem orçamento próprio. Passaram-se 6 meses e
não conhecíamos o nosso interventor. Nesse interregno a sede era tomada por
notícias pouco verdadeiras, fuxicos e falácias sobre esse ou aquele nome para
assumir os destinos políticos da novo município. Os grupos políticos já estavam
devidamente definidos, só não sabíamos quem iria indicar o nosso primeiro
mandatário, aquele que iria posar de chefe político do novo município.
Imagine-se o vai-e-vem dos políticos em direção à capital com a intenção de
obterem a primazia da indicação do nosso primeiro administrador.
Até que, certo dia, chegou até
nós a notícia de que a data já estava escolhida. E seria a mesma para todos os
novos municípios: 28 de junho daquele sagrado ano de 1944. E que, como o interventor
estadual, Dr. Paulo Martins de Souza Ramos, não poderia se fazer presente em todos
os lugares ao mesmo tempo, a nossa festa de elevação não contaria com a sua
presença. Entretanto, mandou como seu representante, o Secretário da Prefeitura
de Vargem Grande, Raimundo Ferreira de Souza para presidir a solenidade. Menos
mal que estava presente também o interventor de Barra do Corda, Jamil de Miranda
Gedeon, e o futuro deputado estadual Manoel Gomes, além de muitos cidadãos que
logo estariam à frente dos embates locais. Manoel de Oliveira Gomes, aliás, se
elegeria na 2ª eleição legislativa ocorrida em 1947, após a reabertura da
Assembleia Legislativa, depois do seu fechamento pela ditadura Vargas, e daí em
várias legislatura, contando sempre com o voto de boa parcela dos eleitores de
Presidente Dutra.
Foi uma festa realizada com a
presença maciça da população curadoense. Estava, enfim, criado o nosso
município. Contudo, para nossa tristeza, ainda não veríamos oficialmente o nosso
primeiro interventor, uma vez que o ato com a sua nomeação só seria assinado no
dia 27 de julho de 1944, praticamente um mês depois da solenidade de elevação. E,
como todos sabem, o escolhido pelas autoridades da capital foi o coletor
estadual José Lúcio Bandeira de Melo, que na época prestava os seus serviços na
coletoria da Vila de Curador. José Lúcio ficaria no cargo durante cerca de nove
meses até que as brigas políticas começaram a se acirrar e a exigir um político
da terra no posto de interventor. Desde então, viveu-se uma verdadeira
enxurrada de nomeações e exonerações: mais sete interventores, sucessivamente, até
o ano de 1948, ocuparam a cadeira número um da sede. Até que, neste ano, em 19
de janeiro, os curadoenses, finalmente, escolheram o seu administrador municipal
através do voto direto. Elegeram o Sr. Ariston Arruda Léda. De lá para cá,
muitos embates foram travados.
O atual prefeito, Raimundo Alves
de Carvalho, é a vigésima primeira pessoa a tomar acento na cadeira de primeiro
mandatário municipal de Presidente Dutra, mas somente o décimo-quarto escolhido
diretamente pelos eleitores do município nesses setenta e dois anos já decorridos.
Outros sete foram vice-prefeitos que tomaram assento por diversas outras
razões, como a renúncia do prefeito legalmente escolhido, a morte de dois
deles, ou em decorrência da cassação de um outro que havia sido legitimamente eleito.
Desde o dia 28 de junho de 1944,
lá se vão 80 anos, desde a declaração de nossa maioridade. Já poderíamos ter
atingido um melhor nível de desenvolvimento, mas não podemos nunca nos esquecer
de que as lutas foram renhidas e dolorosas até que chegássemos ao ponto em que
chegamos. Aquela vilazinha que se desligou do território barra-cordense e que
não contava com escolas ou com atendimento de um único médico, hoje é
referência nessas duas áreas. Hoje são muitos os hospitais e clínicas
existentes, e um sem-número de faculdades em várias áreas do conhecimento educam
a nossa população e a dos municípios circunvizinhos. Ao mesmo tempo, o
município se transformou em polo regional de desenvolvimento no estado e hoje gera
emprego para milhares de pessoas.
Parabéns, Presidente Dutra, pelos seus 80 Anos de Emancipação
política!
(*)
José Pedro
Araújo é engenheiro agrônomo, funcionário público
federal aposentado, historiador, cronista, romancista, e coordenador do blog
Folhas Avulsas.