sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Viajando pelo rio Itapecuru em 1905.

 

Vapor navegando pelo Itapecuru, no trecho São Luís - Caxias (foto Google)

 

A partir deste instante navegaremos pelas águas do rio Itapecuru com o piauiense Dr. Araújo Costa, advogado e político radicado em São Luís do Maranhão, em uma viagem empreendida por ele entre São Luís e Caxias, lá pelo ano de 1905. Iniciaremos, agora, o primeiro capítulo do diário saído da sua própria pena, no qual aquele viajante noticia suas percepções e sentimentos a respeito da viagem que ele empreendeu por aquele icônico e deslumbrante rio.

IMPRESSÕES DE VIAGEM (Parte 1)

Carlos Augusto de Araújo Costa (*)

17 de Julho – Embarquei-me às 8 horas da noite em São Luís do Maranhão, no vapor “Carlos Coelho”, e demanda de Caxias (MA), para dali seguir até ao Piauí, em visita a minha família. Foi festivo o meu embarque. Acompanharam-me até a rampa do Palácio muitos amigos, tendo todos nós partidos do Hotel Central, onde jantei. Diversos de entre eles tomaram comigo diversos escaleres, acompanhando-me até a bordo do vapor. Aqui fizeram discursos que muito me cativaram e voltaram saudando ainda ao amigo que partia.

                À meia noite, mais ou menos, o vapor levantou ferro, levando duas barcas a reboque. Não sei precisamente a hora, mas acordei logo depois. Prateava a superfície das águas uma brilhante lua cheia, à semelhança do luar de agosto no meu estado natal; e, no líquido elemento singrava o barco, deixando após bela esteira fosforescente.

Dia 18 – Acordei cedo, apesar de tarde ter começado a dormir. Com os companheiros, tomei café com leite às 7 horas, pois até leite, temos a bordo com abundância. O coronel Luís Rego, capitalistas de Oeiras, conduz seis vacas turinas para o Piaui. Às 9 hora da manhã chegamos à vila do Rosário. Desembarquei-me, indo primeiramente à casa do Fenelon, Juiz de Direito da Comarca e, em seguida, à casa do coronel Caetano Brandão de Souza.

                Rosário é uma excelente vila que já devia ter foros de cidade. Tem bastante desenvolvida a vida mercantil e é o centro de um município que produz e exporta muitos cereais, artefatos diversos, e onde se come muito bom peixe. Por um triz os seus preciosos mandubés ainda não figuram nas crônicas dos nossos historiadores que, com isto, não lhes faria favor.

Decorrida uma hora, apitou o vapor, indo os amigos a quem visitei, e também o venerando capitão Oliveira Brito, que encontrei flanando, em minha companhia, até a rampa, onde os abracei e me despedi. Nesta ocasião, embarcou-se também um padre destinado à vigaria do Itapecuru. Disseram os companheiros ser um mau prenúncio; mas o clérigo me pareceu ser um homem bom.

                O vapor levantou ancora depois da 11 horas. Fez-se de vela, e de então em diante, comecei a apreciar em todo o seu esplendor a natureza agreste dos terrenos marginais do rio Itapecuru. As margens não são muito habitadas. De longe em longe veem-se grosseiras choças, tão rústicas que até desaparecem entre o espesso matagal que as cerca. Dir-se-ia que os seus habitantes preferem morar com animais selvagens que evitar-lhes a companhia. São a negação absoluta do trabalho. Como explicar isto? É simples. O homem deste Eldorado, não precisa pensar no dia de amanhã. Tem peixe sob as plantas – do rio – e frutas em cima das cabeças, bastando mover os braços para apanhá-las.

Fossem eles menos favorecidos pelos dons naturais, sofressem pelos aguilhões da necessidade, e não se mostraria tão indolente. Sua indolência, de resto, é mais aparente que real, e isto porque julga inoportuno exercer atividade, tendo, como tem, o indispensável para o seu sustento e o de sua modesta família.

                O contrário se observa nos lugares onde a natureza é menos pródiga. O cearense, por exemplo, é sempre um homem trabalhador, porque sabe que, não trabalhando hoje, não terá amanhã o pão alimentício. E é justamente por isso que o Norte do Brasil, cuja fertilidade é espantosa e que oferece mais chances para o combate da vida, é muito menos próspero que o sul. A grande riqueza natural não é condição para prosperidade de um país.

                Tendo eu dormido mal a noite passada, deitei-me de dia e dormi bastante, não em minha rede, porque esta ficou armada na popa do navio, onde passo bem as noites, porém, mal os dias. O 1º maquinista, Guilherme Berniz, que é muito gentil, agasalhou-me bem em um local da proa, onde, dormindo, desafiava qualquer reboliço. Pode-se dizer, sem ofensa a mim ou a quem quer que seja, que neste dia levei uma vida de frade em gordo retiro espiritual. Comi, bebi, dormi como um franciscano, e tive mais um passatempo: atirei aos pássaros.

                À meia noite, fui despertado por um estranho movimento. O vapor encalhava nas proximidades da cidade do Itapecuru, e os paroquianos desta cidade soltavam foguetes em alegria pela chegada do seu novo pároco. Levaram o padre em uma canoa, e o vapor logo depois se pôs em marcha, livre de qualquer tropeço.

Dia 19 - Logo que chegamos ao Itapecuru, em tão avançada hora, fui à terra com um dos companheiros. Percorri diversos trechos do povoado, e achei-o muito superior à minha expectativa. Tem ruas dispostas em simetria, formando quarteirões mais ou menos regulares. 

                O companheiro procurava cerveja preta, que, para disfarçar a vontade de beber, dizia ser um ótimo remédio para o fígado. Bateu debalde na casa do Gaspar, que, dizem todos no Itapecuru, com certo orgulho, ser o grande comerciante da localidade, talvez, por instinto de imitação, por causa do Gaspar da praça João Lisboa. O bom do Gaspar nem cerveja tinha.

                 Fizemo-nos de vela duas horas depois, deixando o Itapecuru mergulhado nos braços de Morfeu, e pela manhã cedo demos em um “seco”, safou-se o vapor a pulso e com o auxílio de grossos cabos, que por mais de uma vez conseguiu quebrar. Ficou vingado o padre, que então já não nos honrava com a sua companhia.

                E logo depois, outro “seco”, e outro mais; porém, esses ligeiros embaraços da viagem, a mim não incomodavam: eram antes uma diversão para o meu coração, eu gemia saudades lancinantes. O que me aborrecia solenemente, eram raios de um sol abrasador, que, projetando-se sobre a embarcação, faziam um calor de rachar. As noites, porém, são aqui acompanhadas de intenso frio. Ninguém pode avaliar de longe essa variedade de temperatura na travessia do rio Itapecuru nesta quadra de estio calamitoso.

                O que vale ao pobre viandante, é que, nas horas de calor, tem água fria para o banho. E nas de frio uma máquina que fabrica muito calor. E por falar nisso, que delícia o calor artificial para um organismo regelado. Bem entendido, usando-se a precaução devida. A ninguém quero aconselhar que se atire no fogo.

Um dos companheiros tirou “vistas”, com uma máquina fotográfica prometendo remetê-las à “Revista do Norte”.  Se o não fizer, não será isto por falta de lembrança, pois, mais de uma vez lhe pedi que as remetesse.

Uma vez por outra parávamos em dado local para receber lenha. Umas considerações aqui merecem ser desenvolvidas. Enquanto os lugares, onde não tocam as embarcações a vapor, permanecem em sua quase totalidade, em selvática bruteza, os que lhes recebem as visitas, apresentam sempre o cunho da civilização.

Desembarquei-me hoje em um destes – o lugar denominado Cantanhede, que já vai sendo um arremedo da obra do progresso. Nesse lugares que tomam nova feição, não devido ao espírito mais ou menos cultivado ou traquejado dos seus habitantes, como os há no interior, mas devido a sua situação, já se conhecem os movimentos mais importantes mais importantes da cidade, falam-se em política e discutem as condições de bem-estar das populações. 

Em Cantanhede vi duas casas de telha e diversas de palha, sendo uma daquelas um estabelecimento comercial. Vi também um estabelecimento destinado a descaroçar algodão e pilar arroz, ao redor do qual muitas plantações. E aí se diz com certo desvanecimento: já importamos diretamente da capital. O que tem uma dupla significação: que se pede negócio à principal praça do Estado, sendo eles transportados nas próprias embarcações, que são, em regra, pequenas embarcações ou canoas. 

Em todo o caso, tudo isso é devido principalmente à navegação à vapor, que em seu bojo tem transportado aos habitante do lugar o bafejo benéfico do progresso, cuja lei fatal é transformar tudo o que está debaixo da sua esfera de ação.

Continua!

(*) Araújo Costa, piauiense, advogado, jornalista, ex-presidente da Câmara de Vereadores de São Luís, foi também um dos participantes da Junta Governativa Provisória, que governou o Maranhão por volta do ano 1922.

2 comentários:

  1. Grande abraço meu companheiro amigo Dr José Pedro. Sempre nos agraciando com verdadeiras pérolas onde relata causos e histórias muito agradáveis.👏👏👏!!!

    ResponderExcluir
  2. Obrigado meu prezado Araújo! Fico feliz ao receber material literário de suas fontes. São relatos que nos fazem recordar a nossa origem interiorana. Grande abraço.

    ResponderExcluir