sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

CANGACEIROS NOS COCAIS?


                                                              José Pedro Araújo

A história relata que em apenas dois estados nordestinos Lampião não andou: Piauí e Maranhão. Muito embora já exista uma teoria de que o bandoleiro andou mostrando as unhas e as armas na região de Picos, sudeste do Piauí. Nos outros sete estados, o chamado rei do cangaço praticou suas correrias, levando pavor aos inimigos e admiração aos que o queriam bem. Por aqui, porém, só mesmo as notícias de suas estripulias chegavam, e assim mesmo com muito atraso, sempre conduzidas por algum novo retirante que aqui chegava tangido pela seca ou pelos inimigos.

Entretanto, nos primórdios da nossa história, mais precisamente por volta de 1918/19, mesmo ano em que Lampião iniciou a sua saga em Serra Talhada(PE), um cidadão também originário das caatingas nordestina passou a ser muito comentado na região central do Maranhão.  Homem de gestos afáveis e palavreado manso e estudado, adquiriu o hábito de nos amedrontar quando ocupava o nascente e diminuto povoado do Curador, hoje Presidente Dutra, com um bando de homens armados até os dentes. Chamava-se Manoel Bernardino de Oliveira e era originário do Crato, no Ceará. Aqui aparece a primeira divergência sobre a história de Bernardino. Alguns afirmam ser ele originário do Piauí, enquanto colhi de um de seus familiares, uma neta sua que residia no Rio de Janeiro, a informação que ele era nascido no Crato, possivelmente na comunidade do Caldeirão Grande, um assentamento composto por revolucionários sob o comando do beato José Lourenço.

Este homem, de porte pequeno e murcho de corpo, possuía um caráter avolumado. Com isso, intimidou os poderosos da época, chegando ao desplante de ameaçar invadir São Luis do Maranhão à frente de seus homens. Nessa ocasião, causou verdadeiro pavor na população da capital e fez com que o governador de então mobilizasse todo o seu aparato militar para defender a cidade. É claro que tudo não passou de uma jogada de marketing do Lênin maranhense, como passou a se chamar. Precisava ser conhecido pelo povo da capital, uma vez que nos sertões seu nome já corria solto.

Preciso fazer um parêntese aqui para dizer que não tenho qualquer simpatia por coronéis ou pretensos heróis. Para mim, ambos possuem a mesma índole belicista, pensam do mesmo modo, agem de modo igual, apenas se dirigem ao povaréu com linguagem diferente.

Já discorri sobre o caso Manoel Bernardino no meu livro Viajando do Curador a Presidente Dutra – história, personalidades e fatos, mas, volto ao tema para reforçar o assunto, pela importância histórica que ele teve para a nossa cidade e a nossa região. Por esse tempo, o Curador não passava de um aglomerado de casas rústicas, comércio incipiente e população diminuta e pobre. Pois o senhor Manoel Bernardino resolveu bater de frente com as autoridades da região, armando uma cabroeira que, em determinada época, chegou a somar duzentos homens. Era um contingente muito maior do que o que Lampião conseguiu juntar no auge das suas peripécias, quando não ultrapassou a marca de cem homens sob seu comando. Assim, montado sobre a desculpa da incompatibilidade com as autoridades da época, Bernardino passou a praticar suas correrias em toda a região dos cocais, ocupando vilas e saqueando comércios e fazendas. O Curador foi ocupado algumas vezes por sua tropa armada. E nessas ocasiões, a localidade ficou completamente vazia. As famílias abandonavam suas casas, deixando as panelas no fogo e as portas escancaradas, e embrenhavam-se no mato, fugindo do homem a quem tratavam como revoltoso. Essas queixas ouvi em depoimento de algumas pessoas que presenciaram a sua chegada arrogante ao Curador.

Os comerciantes, principais alvos do bando armado, deixavam seus comércios à disposição dos invasores e sumiam com algum recurso que por ventura pudessem carregar consigo. Terreno ocupado, iniciava-se a festa. O grupo aproveitava a Vila vazia, praticava o saque, espalhava no meio da rua o que não queria levar, e depois conclamava o povo, que se escondia próximo, para ouvir a sua peroração política. Alguns se enchiam de coragem e atendiam ao chamado.  Depois, ele distribuía parte do saque com os ouvintes e discursava para a plateia absorta, despejando sobre eles o velho e surrado discurso da igualdade entre as classes. Acabado o show, voltava para o seu esconderijo na Mata do Nascimento, hoje cidade de Dom Pedro, com farto butim.

Em uma dessas vezes, e logo depois da sua partida, chegou ao povoado o capitão Sebastião Gomes com seus homens. Procedia da região da Graça de Deus, localidade onde ficava sua fazenda, para tentar botar ordem no lugar. Gomes ocupava o cargo de subdelegado na região. Chegou tarde demais. O Lênin já havia se retirado. Mas ainda teve tempo de chamar à ordem os que se locupletaram com a mercadoria roubada pelos revoltosos. Conta-se que o couro comeu solto. Muita gente apanhou e teve de devolver os bens apropriados indevidamente. Mas, esta é outra história. Fará parte apenas do subconsciente imaginário?

Bernardino, formado na escola do Padre Cícero Romão Batista, religioso que ficou famoso também pela amizade que detinha com Lampião, e que também participou de todos os movimentos e convulsões sociais que aconteceram na região do Crato naquela época, veio para o Maranhão com uma missão. Sobre esse ponto, também discorri no meu livro. Aqui tentou, com métodos que muito se assemelhavam aos dos cangaceiros da sua época, implantar um novo regime de governo entre nós. Aproveitava-se da dificuldade de acesso e do isolamento da região em relação à capital, São Luis, para espalhar suas ideias revolucionárias.

Só não contava com a capacidade de resistência dos legalistas. A história é testemunha do que ocorreu, depois. Bernardino teve o seu reduto atacado por forças policiais em um momento em que se encontrava ausente, acompanhado da maioria de seus homens. E os mais humildes, como sempre acontece, pagaram por alugar seus ouvidos ao discurso esquerdista. Mas também sobrou para os bernardinistas. Oficialmente morreram quatro pessoas nesse ataque, todos ditos revoltosos. Há quem afirme que foram dezesseis as mortes.Bernardino, porém, reclamou apenas a falta de dois homens seus que sumiram sem deixar rastro.

O fato, é que o nosso revoltoso-cangaceiro não logrou muito êxito na sua tentativa de implantar um regime socialista na região da mata maranhense. Incomodou muito os poderosos da época, ocupou vilas e arruados, chegando até mesmo a interromper as comunicações da capital do estado com o alto sertão, aquartelando-se entre os municípios de Pedreiras e Barra do Corda, maiores cidades da região. Mas, terminou sua vida no abandono, esquecido por seus seguidores, velho e alquebrado, vivendo do que retirava da pequena propriedade que possuía no Centro dos Bernardinos, município de D. Pedro. Terminou assim, tristemente, o sonho do cidadão que liderou o maior contingente de homens armados dos sertões do Maranhão e que um pensou implantar um novo regime de governo na região.

Manoel Bernardino virou mito, contudo. O tempo cuidou de restabelecer-lhe o nome e o público jovem, sempre em busca de um nome para seguir e/ou prantear, elevou-o ao patamar dos heróis. O quadro histórico está sendo repintado por estes com pinceladas do mais puro revisionismo. A história ainda revelará a natureza desse homem de vida simples, mas ousado, que, ao misturar religião com política, consolidou uma imagem mística e revolucionária no seio de uma comunidade pobre e desassistida. Uma imagem que está sendo reconstruída pelos mais jovens com grandes lances de heroísmo e uma pitada considerável de ficção. Fato idêntico está acontecendo com a figura de Lampião, a antigo rei do cangaço, que passou a ser adorado pelo povo de Serra Talhada e considerado agora um paladino da justiça.  

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

NOTURNO DE OEIRAS



                               (Elmar Carvalho)*

Meia-noite.
Metade Silêncio,
metade solidão.

Atravesso a praça das Vitórias
Na hora dolorosa das doze badaladas
Punhaladas que também me atravessam.

Da casa de doze janelas
doze donzelas me espiam com olhares
que são setas de medo
que assustam e extasiam.

Passadas pesadas
nos assoalhos de tábuas
dos rugosos sobrados se confundem
com o batuque tuc-tuc  e
com o atabaque tac-tac
do meu desengrenado coração.

A lua se esgueira e espreita
das frestas das nuvens.
Os fantasmas caminham
solenes, devagar,
visíveis e invisíveis,
seres que são e não são.

No horto do Pé de Deus
visagens rezam contritas.
No horto do Pé do Diabo
assombrações assombram
bichos e visitas.

À distância a casa da pólvora
vigia em sua solidez de pedra bruta.

Nos campanários de antigas igrejas
algum falecido sineiro repica
os sinos para si mesmo.

Uma sonata se evola
de piano que já não existe.
E persiste por pura teimosia.

O suicida se insinua
no vão da escada de vetusto sobrado.
Uma taça de prata tilinta e se despedaça...

O relógio da catedral
parou no tempo que continua:
a pátina rói as bordas
da ferida do mostrador e
mostra a dor das doze badaladas.

Negros ainda esperam abolição
absolvição nas cercanias do Rosário
pelos pecados que não pecaram.
As pedras antigas do calçamento
são percorridas por sombras
feitas somente de alumbramento.

O vento que passa
não é vento: é fru-fru
de saia de pessoa morta
ou hálito de porta
de casa já demolida.

Da madona lágrimas escorrem
e chovem sobre os telhados...

Oeiras navega na noite
de um tempo que não termina.
De um tempo sem medida, fugitivo
de ampulhetas e relógios.

*Elmar Carvalho é campo-maiorense, poeta, cronista, contista, critico literário, membro da Academia Piauiense de Letras, Juiz de Direito aposentado e titular do Blog Poeta Elmar Carvalho.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Magalhães de Almeida – O desbravador dos sertões maranhenses.


José Pedro Araújo


O Comandante José Maria Magalhães de Almeida governou o Maranhão de 01 de março de 1926 a 01 de março de 1930, e desenvolveu no seu governo um espetacular plano de abertura de estradas.  Como apregoou na época, aproximou a capital do sertão. As fotografias postadas acima são do ano de 1928, e foram tiradas pelo Deputado Federal Arthur Magalhães, irmão do Presidente do Estado (nome atribuído ao administrador estadual durante o Estado Novo), um dos membros da comitiva governamental em viagem de inauguração e/ou reconhecimento das estradas. Magalhães de Almeida transformou os caminhos existentes por todo o Maranhão em estradas de rodagem, construindo mais de 4.278 km durante o período do seu governo. Foi um feito extraordinário em um estado que ainda usava seus rios navegáveis, ou semi-navegáveis, para acesso ao interior.
Magalhães de Almeida era um administrador irrequieto e destemido que percorreu todo o interior do estado por diversas vezes, durante o período em que administrou o Maranhão. Nesse périplo de reconhecimento e inaugurações que realizou em 1928, por exemplo, partiu de São Luís às 22 horas para fazer o trajeto de São Luís, Coroatá, Pedreiras, Curador, Barra do Corda, Carolina, Riachão, Balsas, Loreto, Mirador, Colinas, Curador, novamente, Codó e São Luís. Levou apenas 5 dias para concluir o percurso. E em todas as cidades por onde passou, participou de solenidades e foi aplaudido pela população local, demorando-se algum tempo em todas elas. Já transitou também em estradas recém-construídas e com boa pista para o tráfego de automóveis, como os que se pode ver nas fotos acima. Mas essa foi a terceira vez que ele fez esse mesmo percurso. Em 1926, percorrendo ainda caminhos pessimamente construídos, levou 49 dias na viagem. No ano seguinte, 1927, já aproveitando os trechos de estrada recentemente construídos, demorou-se 14 dias para fazer o mesmo trajeto.
Passou duas vezes pelo Curador, nessa viagem de 1928, e encantou-se com o desenvolvimento do povoado de crescia a passos rápidos. O redator da viagem, Clarindo Santiago, expressou-se assim, a respeito do que viu na Vila do Curador: “A povoação cresce dia a dia, em ruas extensas, representando tipicamente um desses aglomerados irregulares formados em torno de uma riqueza da terra. Curador está a 37 km da Matta (D. Pedro), e é um núcleo que, pelo seu desenvolvimento, requer já a sua separação da Barra do Corda, constituindo-se em um município independente. O povo cerca o carro Presidencial, e, enquanto mulheres e crianças vem admirar a efígie de Santa Teresinha colocada junto ao dispositivo do velocímetro como padroeira da excursão, Frei Heliodoro, um simples, inteligente e operoso missionário, faz ao povo, junto às paredes do templo em construção, o panegirico do Presidente Magalhães de Almeida”. Apesar das palavras alvissareiras do orador, levaríamos mais 15 anos até a publicação do Decreto Lei que elevou o Curador à condição de município emancipado.
Na primeira foto acima, a comitiva oficial descansa e posa junto à população do povoado Olhos D’água, situado entre Pedreiras e o Curador. Na segunda fotografia, o povo da Mata do nascimento (D. Pedro), saúda a comitiva presidencial.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

A INFLAÇÃO E MEUS CACHORROS



   José Pedro Araújo

Nos dias atuais estão todos mirando contra o velho dragão da inflação que teima em retornar ao dia-a-dia dos brasileiros. O governo estrebucha daqui – e aproveita para aumentar os preços dos serviços públicos bem acima dos índices inflacionários - a imprensa alardeia que o mundo vai sucumbir brevemente ao novo surto de aumento dos preços dos alimentos; e a população (coitado do povão!) sem saber o que fazer para escapar da sanha arrecadadora do poder público e a defender, ao mesmo tempo, a manutenção do padrão mínimo de vida, vai navegando nesse mar encapelado, fugindo do ataque avassalador de dragões e leões.
A propósito disto, estava outro dia confabulando com meus botões sobre a perda do poder de compra dos salários dos trabalhadores nesses anos que os homens do governo insistem em classificar como de baixíssima inflação (quando é para reajustar os salários. Pois quando é para elevar os preços dos serviços por ele prestados à população, comporta-se como se ainda vivêssemos em tempos de hiperinflação). Foi então que me veio à mente a situação dos meus dois cachorros.
Velhos companheiros que me ajudam a dormir sossegadamente nesses dias de violência extrema, sempre me preocupei em lhes oferecer uma dieta à base de ração de boa qualidade. Pois não é que de uns tempos para cá comecei a procurar por aquele tipo de produto com preços menores, deixando de lado a sua qualidade! Estou procedendo como fazemos com o que nós próprios consumimos: o que vai para o carrinho do supermercado é o similar mais barato, deixando-se de lado a qualidade do produto.
E isso acontece porque sempre que retornamos às compras encontramos alguma coisa com preços majorados, quando não a grande maioria dos produtos que compõe a nossa cesta básica.
Voltando ao enunciado do título: outro dia a moça que trabalha conosco alertou que a comida dos cachorros havia acabado desde o dia anterior. Esperneei, por entender que estava sendo ministrada em excesso a quantidade servida aos meus caninos e que, por esta razão, o produto da semana havia-se acabado tão rapidamente. E, de repente, o que começou como um princípio de revolta descambou para a brincadeira, à falta de uma solução que resolvesse o problema sem que eu tivesse que meter a mão no meu velho e surrado bolso já quase sem tostão.  Imaginei que a minha reclamação tivesse chegado até aos ouvidos dos meus dois amigos caninos, que reagiram assim: “ouviu Stalin, não bastasse já terem reduzido a qualidade do nosso alimento, agora querem reduzir também a quantidade” – reclamou Preto, o cachorro mais novo.  E Stalin, o velho pastor Alemão, já com a audição um pouco comprometida, retrucou com o seu costumeiro mau-humor: “ora, ora, eles que tentem tirar a claridade da gente! No escuro é que eu não trabalho mesmo!” – concluiu voltando a dormir, não sem antes tentar alcançar com uma dentada uma pulga que o incomodava. “Estou falando em qualidade e quantidade de alimentos, velho surdo!” – arrematou o arisco Preto – “Só mesmo um cachorro que não enxerga mais direito é que ia pensar em claridade. Mas, pensando bem, não me admiraria nada se estivessem tramando nos deixar em completa escuridão, apagando todas as lâmpadas da casa para economizar. Afinal, a reclamação é grande nesse tempos de retorno da tal inflação”.
Pois é. Se eu pudesse entender o que o Stalin e o Preto tanto falam um com o outro, especialmente quando passam do diálogo ameno e tranquilo para um enrosco recheado de mordidas, gritos e uivos, certamente identificaria uma ponta de revolta em razão da diminuição da qualidade dos produtos que estamos a lhe servir. E eu, como não tenho a quem reclamar, pois a turminha do meu sindicato está muito satisfeita com o cala-a-boca que recebeu do governo (é isso mesmo: todos eles deram com a mão em alguma teta apetitosa desse grande úbere que atende pelo nome de cargo público de confiança), só me resta reduzir a minha já minguada cesta básica, trocando-a por outra ainda menor. Isso tudo porque o meu empregador não tem medo de mim; medo da deflagração de uma greve ou coisa parecida. Eu, ao contrário, morro de medo de uma rebelião dos meus cachorros.