sexta-feira, 24 de julho de 2026

Somos viajantes da mesma travessia

Viajante (Imagem AI)

Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

Em andanças pelo mundo chama minha atenção a quantidade de pessoas com quem cruzo em aeroportos. Em cidades que já visitei nos 162 países visitados.

Vejo sempre tanta gente a caminhar. Nas mais diferentes direções. Rostos que nunca vi e que, talvez, nunca mais volte a ver. Em lugares que provavelmente nunca mais pisarei. Em visita aos cinco continentes, em todos cruzei pessoas das mais diferentes matizes. Exemplares únicos de um universo em permanente mutação.

Cada transeunte leva um destino no olhar, uma saudade escondida no peito, um sonho ainda à espera de acontecer. Quantos universos em movimento. Quantas alegrias ambulantes, quantos medos dentro de si. Quantos infernos a administrar.

Fico a imaginar: há quem caminhe como se fugisse do tempo. Há quem abrande, como se procurasse alguma coisa que perdeu pelo caminho. Há sorrisos que parecem inteiros e olhos onde mora uma tristeza que ninguém adivinha.

Por onde passo, sentado em cafeterias, viro observador. Enquanto as palavras vão nascendo no papel e o café esfria lentamente na xícara, dou por mim a pensar que cada pessoa é um livro desconhecido. Fechado para mim. Passamos uns pelos outros sem conhecer os capítulos de coragem, de amor, de perda e de esperança que cada coração escreveu em silêncio.

Talvez seja isso que me leve a escrever. Na ilusão de descrever imagens. De entender olhares. Em decifrar andares. De perscrutar pensamentos. 

Porque escrever é parar no meio da pressa do mundo, olhar para quem passa com ternura e lembrar-me de que, por trás de cada rosto, existe uma história que merecia ser escutada. Quantas boas histórias têm a contar aquelas pessoas. Quantos universos tangenciaram-me sem saber quem eram. Cada olhar é um caldeirão de vidas. E, eu a observá-los sem ser notado. Invisível.

Hoje, sentado, no cair de mais uma tarde, lembro da jovem mãe, sentada com duas filhas pequenas, com olhar perdido, que vi no aeroporto em Liubliana, Eslovênia, em uma conexão para Moscou. Ou do senhor taciturno, com terno surrado e chapéu de feltro, no café em Varsóvia, Polônia. Ou da garotinha cega em um parque em Helsinque, Finlândia, em um final de tarde frio. Do homem solitário com seu cachorro em um bosque em Anchorage, Alasca.

Rebobino a memória e vejo a senhora de São Paulo, que conheci no café da manhã em um hotel no centro de Buenos Aires. Muito viajada, estava em processo adiantado de demência. Solteira, sem filhos, duas sobrinhas lhe proporcionavam uma derradeira viagem, como despedida de um mundo que ficaria cada vez mais apagado. Tenho na mente seu semblante sereno, perdido.

Uma viagem é algo que nunca termina. Cá estou sentado, na tranquilidade de casa, observando a passagem do tempo, viajando em memórias. E, por um instante, sinto que todos nós, desconhecidos à primeira vista, somos apenas viajantes da mesma travessia, à procura de um lugar onde o coração possa, finalmente, descansar.

No meio de tanta pressa, eu aprendi que nem tudo que é urgente é importante.

O mundo grita; a paz sussurra. E eu escolho prestar atenção no que sussurra.

Não é sobre ter tudo, é sobre estar inteiro. Não é sobre ir longe, é sobre saber onde pousar. Porque no fim do dia, o que realmente cura não é o aplauso, é o silêncio.

Não é a conquista, é o descanso. E quando o coração encontra esse lugar simples e verdadeiro, ele entende que já tem o suficiente.

(*) 


Luiz Thadeu Nunes e Silva, jornalista, escritor e Globetrotter é autor do livro “Das muletas fiz asas”.

Instagram: @luiz.thadeu

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