| Viajante (Imagem AI) Luiz Thadeu Nunes e
Silva (*)
Em andanças pelo mundo chama
minha atenção a quantidade de pessoas com quem cruzo em aeroportos. Em cidades
que já visitei nos 162 países visitados.
Vejo sempre tanta gente a
caminhar. Nas mais diferentes direções. Rostos que nunca vi e que, talvez,
nunca mais volte a ver. Em lugares que provavelmente nunca mais pisarei. Em
visita aos cinco continentes, em todos cruzei pessoas das mais diferentes matizes.
Exemplares únicos de um universo em permanente mutação.
Cada transeunte leva um destino
no olhar, uma saudade escondida no peito, um sonho ainda à espera de acontecer.
Quantos universos em movimento. Quantas alegrias ambulantes, quantos medos
dentro de si. Quantos infernos a administrar.
Fico a imaginar: há quem caminhe
como se fugisse do tempo. Há quem abrande, como se procurasse alguma coisa que
perdeu pelo caminho. Há sorrisos que parecem inteiros e olhos onde mora uma
tristeza que ninguém adivinha.
Por onde passo, sentado em
cafeterias, viro observador. Enquanto as palavras vão nascendo no papel e o
café esfria lentamente na xícara, dou por mim a pensar que cada pessoa é um
livro desconhecido. Fechado para mim. Passamos uns pelos outros sem conhecer os
capítulos de coragem, de amor, de perda e de esperança que cada coração
escreveu em silêncio.
Talvez seja isso que me leve a
escrever. Na ilusão de descrever imagens. De entender olhares. Em decifrar
andares. De perscrutar pensamentos.
Porque escrever é parar no meio
da pressa do mundo, olhar para quem passa com ternura e lembrar-me de que, por
trás de cada rosto, existe uma história que merecia ser escutada. Quantas boas
histórias têm a contar aquelas pessoas. Quantos universos tangenciaram-me sem
saber quem eram. Cada olhar é um caldeirão de vidas. E, eu a observá-los sem
ser notado. Invisível.
Hoje, sentado, no cair de mais
uma tarde, lembro da jovem mãe, sentada com duas filhas pequenas, com olhar
perdido, que vi no aeroporto em Liubliana, Eslovênia, em uma conexão para
Moscou. Ou do senhor taciturno, com terno surrado e chapéu de feltro, no café
em Varsóvia, Polônia. Ou da garotinha cega em um parque em Helsinque,
Finlândia, em um final de tarde frio. Do homem solitário com seu cachorro em um
bosque em Anchorage, Alasca.
Rebobino a memória e vejo a
senhora de São Paulo, que conheci no café da manhã em um hotel no centro de
Buenos Aires. Muito viajada, estava em processo adiantado de demência.
Solteira, sem filhos, duas sobrinhas lhe proporcionavam uma derradeira viagem,
como despedida de um mundo que ficaria cada vez mais apagado. Tenho na mente
seu semblante sereno, perdido.
Uma viagem é algo que nunca
termina. Cá estou sentado, na tranquilidade de casa, observando a passagem do
tempo, viajando em memórias. E, por um instante, sinto que todos nós,
desconhecidos à primeira vista, somos apenas viajantes da mesma travessia, à procura
de um lugar onde o coração possa, finalmente, descansar.
No meio de tanta pressa, eu
aprendi que nem tudo que é urgente é importante.
O mundo grita; a paz sussurra. E
eu escolho prestar atenção no que sussurra.
Não é sobre ter tudo, é sobre
estar inteiro. Não é sobre ir longe, é sobre saber onde pousar. Porque no fim
do dia, o que realmente cura não é o aplauso, é o silêncio.
Não é a conquista, é o descanso.
E quando o coração encontra esse lugar simples e verdadeiro, ele entende que já
tem o suficiente.
(*) Luiz Thadeu Nunes e Silva, jornalista,
escritor e Globetrotter é autor do livro “Das muletas fiz asas”.
Instagram: @luiz.thadeu
Facebook: Luiz Thadeu Silva
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