domingo, 15 de fevereiro de 2015

BAR BRASIL










            Olhando assim de fora, parece-se com todos os bares deste imenso país: simples, desarrumado, sem lógica aparente. Mas, entre e receba as honras da casa! É um prazer tê-lo conosco!
Poderíamos começar assim, cheio de salamaleques, com rapapés e mesuras. Mas isso não acontece no Bar Brasil, em Campo Maior, charmosa cidadezinha encravada no interior do Piauí. Agora, quem quiser pode entrar. Mas depois não reclame do atendimento. Amigos nunca reclamam do atendimento recebido. E aqui reina a alegria, o companheirismo e a confiança. Nunca o servilismo, a empulhação e a desonestidade. Principalmente a desonestidade. O ambiente é agitado, sim senhor! Mas, é seguro. As discussões aqui nunca terminam em vias-de-fato, em lavagem da honra. Ao contrário, aqui reina a amizade e a alegria, a paz e a concórdia.
            Como a alegria, se só tem homem? Impossível de acreditar? Então venha para o Bar Brasil e tome um gole conosco da cerveja mais gelada deste quente Piauí.
            Estou me referindo ao Evilásio, mercearia (se precisar de farinha, rapadura da Boa Hora, bem enceradinha, aqui tem, e da melhor, meu amigo!), cassino (lá também tem uma pequena máquina caça-níquel, sim senhor!), farmácia (quer comprar Anador, sal de fruta, um estimulante para libido derrubado?), mas, principalmente, bar. Um animando bar. É certo que não é um bar muito organizado, com mesas e cadeiras ao dispor do cliente cansado. Mas o pé do balcão é serventia da casa. Aliás, cadeira há uma logo na entrada, ocupada por um antigo cliente para impedir que os pés-inchados entrem para amolar a freguesia contumaz.
            E era lá, no pé do largo balcão onde os clientes (somente para usar um termo técnico), se mantinha devidamente de pé, tomando a sua geladinha e comendo o tira-gosto trazido por ele mesmo, que estava eu pela primeira vez. (Sim, lá também não se faz tira-gosto! A menos que você aceite um pequeno saco de batatas fritas, desses vendidos para crianças nas melhores mercearias do ramo). E eu que não dispenso alguma coisa salgada para acompanhar a minha cervejinha, fui logo me agarrando a um desses petiscos.
            Nesse momento, quando meu amigo Chiquinho terminou de fazer as apresentações ao proprietário, passou um cliente por mim. E logo foi se espremendo entre a parede e o canto do balcão para entrar no interior do estabelecimento. Parecendo dono do lugar, abriu a geladeira e apanhou uma garrafa de Mangueira gelada, e que parecia já está à espera dele. Voltou ao balcão e depositou-a, juntamente com dois cajus que trouxera consigo, sobre um pedaço de papel de embrulho. O guardanapo improvisado substituía o prato que eu nem sei se existe algum por ali. Do outro lado, ou seja, do lado que os clientes costumam ficar, um amigo que viera junto com ele já estava devidamente acotovelado, olhos fixos na garrafa de cachaça, língua nervosa limpando os beiços, enfeitiçado pela possibilidade de tomar um trago daí a instantes. E o Evilásio, aparentemente, nem se deu conta da chegada dos dois clientes! Desatento, a servir uma cerveja a outro sujeito que parecia mais alegre que os demais, só foi interrompido pelo apelo de outro rapaz que havia espalhado uma grande quantidade de moedas de vinte e cinco centavos sobre o encardido balcão de madeira: “Bode, filho da mãe! Se não me der o dinheiro agora mesmo, eu levo essas moedas comigo!” – reclamou o cliente em tom bem humorado elevando o copo com o liquido bem gelado à boca.
            “Não pode levar minhas moedas, branquelo veado!” – Evilásio pareceu sair da sua tranqüilidade pela primeira vez. Mas só aparentemente, pois logo estava rindo para o rapaz que nem se importou com a resposta desaforada.
            Mais tarde fiquei sabendo que aquelas moedas o rapaz ganhara na máquina caça-níqueis, e que o Evilásio precisava delas para recarregá-la novamente.
            Lá da porta veio um grito animado para alegrar mais ainda o ambiente. O som estridente veio de um cliente baixinho e gordinho, bigode de dançarino de Tango. O animado cliente chegava trajando uma camisa de uma cervejaria para quem trabalhava: “Bode, tem uma faca aí para me emprestar? Vou cravá-la fundo no meu coração para matar a saudade que essa maldita música me traz! – justificou o pedido para gargalhada dos presentes – Ô música covarde!”. 
             A música a que se referia o cliente saía de uma pequena caixa de som pregada no alto da parede, quase na entrada. Junto dela, muitos cartazes de mulheres quase peladas faziam apologia de algum produto masculino. E lá do alto a caixinha lançava no ar a voz chorosa de Valdick Soriano, que ninguém parecia prestar atenção, somente o cliente que acabara de chegar.
            Mais que animado, o gordinho foi se chegando ao balcão e logo passou a cumprimentar efusivamente os velhos conhecidos de sempre.
“Vai uma Brahma aí, Pança?” – indagou o dono do bar a título de saudação.
       “Que é isso, amigão? – E eu sou homem de trocar a minha Skol por uma beberagem qualquer?” – respondeu no mesmo diapasão o homem que vestia a camisa da cervejaria para quem trabalhava.
            “Evilásio, me troca esses vinte reais em duas notas de dez!” – falou uma mulatinha magra, rosto suado, lábios pintados de vermelho-sangue, e calças jeans bem apertada na bundinha batida, “quase sem carne para encher um pastel”, como comentou logo depois um freguês mais observador. Entrara tão sorrateiramente que ninguém se deu conta dela antes que falasse com o dono do local.
            Essa ai começou a trabalhar cedo hoje!” – observou outro rapaz quando a moça saiu do bar para o escuro da rua.
            “Tem gosto para tudo, meu amigo. Hoje em dia se vende até mel de fumo!” - respondeu o outro enquanto observava a mulatinha sumir na noite.
            Do outro lado, uma reclamação:
            “Evilásio, troca essa música de corno aí, meu camarada!” – protestou um cliente que até então se mantivera calado, na ponta oposta do balcão.
            “Quer que eu bote uma música para veado, bonequinha?” – respondeu o dono em tom de riso.
            “Quero, sim! Bota aquela que tu mais gosta, colega!”.
            E a noite só estava começando. Lá fora, vindo da estação rodoviária, o barulho dos carros que chegavam e partiam era de afligir qualquer um. Em momentos, parecia que o ônibus estava entrando de ré no próprio salão, tal era o ruído e a quantidade de fumaça que despejava no local. Mas ninguém parecia se dá conta disso, pois no recinto o barulho provocado pelos clientes parecia muito maior. E a fumaça lançada pelos cigarros dos circunstantes deixava o ambiente mais velado que filme usado.
            “Não deixa entrar, Bico-de-Birita!” – falou Evilásio atento ao vigia que tinha dificuldades para conter um bebadozinho que tentava furar o bloqueio que ele fazia aos indesejáveis.
            “Só uma, seu Bode!” – argumentava o pé-de-cana.
            “Essa história você me diz desde o início da tarde. Já são mais de cinco doses. Agora acabou!” – retrucou Evilásio sem parecer está nem um pouco irritado com a insistência. Aliás, ele parecia não se afligir com nada nesse mundo. Passavam os dias, as noites e ele sempre levando a vida sem a menor pressa, sem demonstrar agitação. 
            Como toda regra cabe exceção, aqui também podemos achar uma. Somente uma vez na semana ele se apressava em ir para casa. Isso se dava ao meio dia do domingo. Exatamente nesse horário, nem mais, nem menos, quando o relógio da parede montava o ponteiro grande sobre o pequeno no alto do mostrador, ele apanhava a bolsa, limpava a gaveta, deixando apenas alguns reais para o troco, e rumava para casa para o almoço com a família. Disso não abria mão. Era seu único período de descanso semanal também.
            Lá no bar "O Evilásio" ficava os últimos consumidores tomando conta do ambiente que permanecia aberto, mas sem a presença de seu proprietário. Era praxe. O último a permanecer no salão, antes de seguir cambaleante para casa, apagava as luzes e baixava as portas de metal. Depois que o pileque passasse devolveria as chaves ao verdadeiro dono.
            Pronto! Estava encerrado o expediente. Domingo a qualquer hora. Somente na segunda-feira, de manhã, as portas do Bar Brasil seriam novamente levantadas para mais uma semana de trabalho puxado. Trata-se de uma cópia fiel deste país de contrastes e aparente desorganização que tanto encanto traz a todos os que têm a sorte de conhecê-lo.
           

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

VELHOS CARNAVAIS



Foto Cortesia de Teresinha Sereno
José Pedro Araújo

Nesse período que antecede o Carnaval, fica impossível não recorrer à memória buscando lá do fundo as lembranças de anos passados, quando esta festa tinha outro significado, outra conotação. Se nos dias de hoje a maior festa popular do país é animada pela música baiana e seus trio-elétricos portentosos, naqueles tempos as marchinhas carnavalescas davam o tom e comandavam a animação, tocadas por orquestras de instrumentos de sopro. Era realmente uma festa da família. E nessa ocasião em que, desde os mais velhos até os de mais tenra idade, vestiam suas vistosas fantasias costuradas em casa mesmo e saiam para a rua ao encontro dos amigos para formar grandes cordões e blocos de sujo, a simplicidade tomava conta da festa. Era o que se pode chamar de uma verdadeira festa popular.

Formado à partir do entrudo português, o carnaval ganhou ares de verdadeira festa do povo quando chegou ao Brasil ai por volta do século XVII. Ai então, à Colombina e ao Pierrot, figuras advindas dos carnavais da Itália e da França, receberam a companhia de outros personagens importantes como a Porta-Bandeira e o Mestre-Sala; a mulata de requebrado estonteante e o passista de elegantes volteios e meneios deram um novo apelo àquela festa que a nobreza europeia inventou e festejava em suntuosos salões. No Brasil ela ganhou as ruas e o povo aderiu em escalas monumentais.

Recorrendo à memória, me vem à lembrança personagens locais inesquecíveis como o Polaco, que nos quatro dias de folia se transformava completamente, deixando de lado a sua sisudez habitual para organizar o carnaval da cidade, ainda incipiente, é verdade, festa de cidade pequena mesmo, mas que empurrava para as ruas grande parte da população inebriada pelo som de marchinhas como Mamãe Eu Quero, Aurora, Bandeira Branca, Cabeleira do Zezé e Máscara Negra, esta a mais bela das músicas carnavalescas.

Com fantasias simples, feitas de chita barata, alguns foliões saiam às ruas vestidos de fofão ou com roupas femininas espalhafatosas e máscaras horrendas, transportando uma porção considerável de pó-de-arroz, maizena ou latas de talco, cobrindo tudo de branco e aterrorizando as crianças com suas caras feias. Mas despejavam alegria e espantavam a  tristeza para longe, nesses poucos dias de total liberdade que o povo brasileiro decretou como um tempo para se esquecer as mazelas da vida.

Com o tempo, seguindo o exemplo dos carnavais de cidades como o Rio de Janeiro, Recife e São Luís, foram surgindo os blocos mais organizados, com seus foliões vestindo vistosas fantasias, acompanhados por bandas de música bem estruturadas e ruidosas. Já era até possível adquirir nas lojas da cidade material apropriado para a confecção de fantasias e adereços, além de instrumentos musicais. Foi nessa época que os rapazes da chamada sociedade presidutrense, formaram um grande bloco no estilo das escolas de samba carioca. Munidos de surdo, tarol, tamborins, cuícas, repique-de-mão, cavaquinho e chocalhos, foram para as ruas. Não me recordo o nome que lhe deram - Pingo d’Água? - mais lembro que foi a primeira experiência feita para organizar um bloco de carnaval na essência da palavra. Depois disso, segunda metade dos anos sessenta, as meninas da sociedade colocaram na rua o seu bloco também. E desse bloco me lembro muito bem o nome: As Intocáveis. Vestiam-se elas de Bobas-da-corte ou Colombinas, não sei ao certo, e saíram brincando pela cidade com graça e desenvoltura. As fantasias bem elaboradas, e econômicas no tamanho, levaram os rapazes ao delírio.

Mas ainda não estava completamente formada a maior festa popular da cidade. Ela se completou com um bloco que faria furor nos anos subsequentes: o Bloco do Cobra-Preta.

Um comerciante local estabelecido no mercado municipal, conhecido por todos pelo nome de Cobra-Preta, foi o organizador do maior bloco de carnaval que a cidade já viu. Formado, a princípio, pelas classes mais pobres, este bloco chegou a arrastar verdadeiras multidões quando saia nas tardes de domingo. Com o tempo, a chamada elite local também se rendeu ao charme e à animação do bloco, engrossando ainda mais o número dos seus seguidores. O carnaval democratizava a sua festa de uma vez por todas, juntando os mais abastados com a plebe rude, o povão. Até mesmo os componentes dos blocos de sociedade, formados pelos rapazes e moças ditos bem nascidos - e que desfilavam sempre em primeiro lugar - ao terminarem seus desfiles voltavam para a área de concentração para se juntar ao Bloco do Cobra-Preta. Formavam uma mesma massa compacta. Nessa ocasião, milhares de pessoas de todas as raças e condições econômicas se esbaldavam na alegria contagiante do bloco do velho e saudoso carnavalesco.

E para demonstrar a sua democracia plena, até mesmo as tais mulheres da vida, sempre tão discriminadas pela sociedade hipócrita durante todo o ano, possuíam o seu lugar de honra e se integravam alegremente ao maior bloco carnavalesco da cidade.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

FRANCISCO DE PAULA RIBEIRO – o devassador dos sertões de dentro


José Pedro Araújo


            Poucos personagens foram tão importantes na história da colonização do Maranhão quanto o major Paula Ribeiro. E quando se trata do devassamento do interior maranhense, ai ele é, indubitavelmente, a personalidade mais importante de todas, deixando registrada a maior parte das suas ações para a posteridade. Militar pertencente às tropas imperiais portuguesas, Paula Ribeiro serviu no Maranhão por longos 28 anos, chegando aqui por volta de 1795. Militar brilhante, desempenhou serviços de todas as naturezas, desde a função puramente policial - ocasião em que fez inúmeras diligências contra e a favor dos nativos -, mas também ações de natureza diplomática, como quando serviu ao Estado como chefe da representação que negociava a demarcação dos limites entre as províncias de Goiás e do Maranhão.

          Causa verdadeiro fascínio ler uma espécie de diário escrito por ele durante os 91 dias que levou para ir de São Luís do Maranhão até à vila de São Pedro de Alcântara, hoje cidade de Carolina. Com um nível de detalhamento primoroso, ele vai descrevendo diariamente o trajeto percorrido, os acidentes naturais encontrados, córregos, rios, nascentes, as fazendas já situadas e o nome de seus proprietários. Não apenas isto, mas, também, as distancias percorridas naquele dia e “a imensa variedade dos preciosos produtos nas classes dos três reinos da natureza”, como bem determinou o Governador do Maranhão, Paulo José da Silva Gama, nos idos de 1815.

            Recentemente, grandes estudiosos da história maranhense, como o Professor João Renôr de Carvalho e o historiador Adalberto Franklin (trabalho também levado ao público pela Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão), resgataram a história do nosso aguerrido herói português, lançando um rebuscado e detalhado trabalho com os seus principais feitos. Trata-se de anotações cuidadosamente coletadas e recheadas de informações importantes sobre a situação do interior maranhense naquela época. Se não fosse pela importância das informações repassadas por uma testemunha ocular, ainda assim as suas anotações seriam reluzentes pérolas a retratar o desbravamento do interior da província, se levarmos em conta que os principais historiadores da época não repassaram muitas informações sobre o hinterland maranhense. Estudiosos como o frade Francisco de Nossa Senhora dos Prazeres, com o seu Porambuda Maranhense (Relação Histórica da Província do Maranhão, publicado pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em abril de 1850),  Bernardo de Berredo, em Anaes Históricos do Estado do Maranhão ou até mesmo o nosso maior historiador, César Augusto Marques, com o alentado Dicionário Histórico-Geográfico da Província do Maranhão, narrando os primórdios da nossa colonização, foram tão importantes nas suas narrações quanto o grande militar português. Não como testemunhas ocular, contudo.

      Após compulsar todo o material bibliográfico encontrado, somente achei informações minuciosas sobre a região compreendida entre os rios Mearim, Itapecuru e Flores, pedaço escondido e precioso do solo maranhense, nos escritos deixados por Paula Ribeiro. Mais tarde, os irmãos, Parsondas e Carlota de Carvalho, dedicaram-se a escrever sobre os Sertões de Dentro.  

Paula Ribeiro, deixou registrado o relato de uma viagem que fez à região onde mais tarde se situaria o Curador, à frente de um grupo de milicianos, com o propósito de realizar uma devassa na região e colher informações detalhadas sobre ataques perpetrados por cidadãos das vilas de Caxias e Pastos Bons contra índios Txocamekrás(Timbiras), com escusos propósitos de vendê-los como escravos. Em documentos de época, encontrados no Arquivo Público do Maranhão, identificamos uma atividade sem descanso desse desbravador que cobria toda a região interiorana da província. Nesses documentos, também é possível verificar que, em decorrência dos tempos violentos em que viveu, por diversas vezes teve que responder à altura aos ataques dos índios, ocasião em que muitos foram exterminados. Mesmo assim, o major português enfrentou os poderosos da época em defesa desses mesmos gentíos, pondo em risco a sua própria carreira. Tratava-se, portanto, de uma figura à frente do seu tempo, cuidadoso com a integridade física dos primeiros ocupantes do nosso território, os silvícolas, sem deixar de cumprir com extrema fidalguia e responsabilidade as missões a ele confiadas.

Fiel ao seu compromisso com el-Rei e ao seu país, o nosso grande sertanista se pôs ao lado dos que lutavam contra o movimento emancipacionista. Dedicado ao serviço do Rei D. João VI, não aceitou servir a outros senhores, preferindo deixar o Estado e o País e retornar à sua terra natal, Portugal. Não conseguiu lograr êxito na sua tentativa, contudo. Foi perseguido e abatido por um dos inúmeros inimigos que fez quando em defesa dos indígenas, contra o assédio de inescrupulosos indivíduos que tinham como principal profissão, o aprisionamento e a comercialização desses aborígines. Mas eram esses os novos senhores desta terra.

Navegava Paula Ribeiro pelo Tocantins - rio sobre o qual foi um dos primeiros a descrever com impressionante nível de detalhes -, rumo a Belém, por onde tencionava embarcar para a terra natal, quando foi assaltado e se entregou ao vencedor. Adesistas de última hora foram seus algozes. César Marques, sobre quem já falamos acima, descreveu assim seus últimos momentos de vida:
“Antes de chegarem a pastos Bons, na beira do rio Balsas, no lugar denominado Fazendinha, o miserável José Dias covardemente mandou assassinar Paula Ribeiro e o capelão (também preso no mesmo momento que ele), desejoso de alcançar os dezoito mil cruzados que se dizia possuírem esses dois infelizes! Assim ficaram as palmas de vitória dos independentes para sempre manchadas com a indelével nódoa da infâmia!”.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

TIBÚRCIO - O Anjo Negro

José Pedro Araújo


- É isso mesmo que o senhor está ouvindo. Tô nessa vida por gosto e por desgosto. Por gosto porque gosto da minha profissão como gostaria de qualquer outra. Por desgosto, porque comecei ela para vingar a morte do meu pai. Hoje não sinto nem uma coisa, nem outra. Pra mim tanto faz matar um cachorro rabugento, como atirar num prefeito, por contrato. Aliás, quer saber? Talvez sinta mais pena do cachorro. Não sinto alegria, nem tristeza, somente um leve sentimento do dever cumprido.


- ...!


- Só fico aqui matutando como seria minha vida se meu pai não tivesse morrido daquela forma. Talvez ainda estivesse vivendo naquele pedaço de chão seco de caatinga, plantando, plantando, e pouco colhendo. No fundo, devo agradecer ao desinfeliz que acertou um tiro de lazarina nele. Usou um pé de panela em lugar de chumbo e quase arranca a cabeça lá dele. É isso, meu dotô. Fui forçado a procurar outra profissão. E me dei bem. O senhor não concorda? Hoje não importa pra mim se o inverno foi bom, se a mandioca pegou bem, ou se a seca devorou o meu roçado. Trabalho é o que não me falta. Faça bom inverno ou que não caia uma gota d’água no chão. 


- ...!


- É o que eu digo sempre: o sujeito pode ganhar dinheiro até mesmo na profissão de coveiro. É só inventar uma maneira de melhorar a vida dos que vão deixar lá seus defuntos. Hoje têm uns cemitérios tão arrumados que mais parece um jardim. E o pessoal ainda paga uma boa grana pra manter o lugar bem bonito. Todo mês. Especialista, dotô! Tem que ser especialista na profissão que você escolhe. Eu até posso dizer que sou um dotô também de tão especializado que sou. Nunca deixei um contratante meu em má situação. Pagamento feito, mercadoria entregue. Esse é um de meus lema. Por isso não me falta contrato.


- ...?


- Claro que pra chegar aonde cheguei, precisei abater muito pé-de-chinelo. Gentinha, tá compreendendo? Comecei assim, de baixo. Como todo mundo começa na vida, se não herdar. E no começo era dinheiro miúdo pelo contrato, couro de rato, merreca, que às vezes não dava pra chegar no fim do mês. Depois fui melhorando o meu prestígio, fazendo defunto de elite. Até mesmo uns políticos conhecidos passaram pela alça da mira do meu papo-amarelo. E quando você consegue cumprir bem um desses contratos, ai a fama aumenta muito. E fama aumentando, aumenta os ganhos da gente! Cheguei tão longe nesse meu negócio, que tive que abandonar o sertão do Seridó. Lá não tinha mais cliente pra mim. E eu não posso voltar atrás nos valores cobrados, senão todo mundo vai querer me pagar pouco, chorar miséria, essas coisas. Olha, apareceu até mulher querendo se livrar do marido e propondo me pagar com o apurado dela. Imagina! Não trabalho em consignação. Isso não! Não trabalho mais também só com meiúca. Metade no ato do contrato, metade depois do serviço terminado. Isso é pra principiante. Quero tudo na minha mão. Pois, como já sou muito famoso, não podem me ver na região aonde o trabalho aconteceu. Tenho que desaparecer por uns tempos, aparecer rapidamente em outros lugares. Forjar o meu álibi. Não posso voltar pra cobrar a outra metade. Por isso todo mundo sabe que eu vivo disso, mas ninguém tem provas pra me botar na cadeia.


- ...?


Sou muito profissional. Nem pra irmão eu trabalho de graça. Aliás, o último que matei de graça foi por vingança. Foi o caso que já lhe contei; o caso do meu pai. Coisa de menino afobado. Hoje posso dizer que sou da paz. É! Um defensor da não violência. Prefiro os argumentos, seu dotô! Os argumentos, tá entendendo? Outro dia mesmo, caboclinho queria fazer fama comigo e andou me dando uns tabefes pra ver minha reação. Puxei o tresoitão somente pra botar ele pra correr dali. Mas, não acho certo matar por uma discussão a toa, um tabefezinho qualquer. Sou pela paz, como disse. Morte mesmo, só com contrato.


- ...?


- Não! Ninguém reluta mais. Quando vem alguém me procurar já tá ciente de só trabalho assim, dotô. Outra coisa que não admito é refazer o contrato. Contrato feito, temos que cumprir tudo direitinho. Você me paga, eu te dou um cadáver em troca. Simples assim. Ninguém pode voltar atrás.


- ...!


- Pense bem antes de fazer o contrato comigo. Dinheiro bateu no meu bolso é meu. Não devolvo. Por outro lado, sempre cumpri o acordo. Não pode dizer que se arrependeu, que não quer mais o defunto. Eu sempre faço o que o patrão me pagou pra fazer, dotô. Depois, já passei dias estudando o sujeito, zangando com ele, opilando o meu fígado. E depois de criar ódio pelo cabra, pode encomendar o paletó dele. Outro dia um político me contratou para mandar mais cedo um adversário dele pro andar de cima. Contrato firmado, dinheiro entregue, passei a fazer o meu ritual. Cuspi na foto do miserável, amassei, desamassei a bicha, passei noites sem dormir dado o ódio que comecei a sentir por ele. Ai veio o miserável do contratante e disse que não queria mais a morte do sujeito, que já tinham feito uma parceria muito vantajosa pra ele. Eu respondi que não tinha mais jeito. Podia ir se acostumando com a ideia que a coisa era questão de dias. Ora vê se pode! Não tem palavra não, cabra! Eu tenho. E por isso meu nome está limpo na praça. 


- ...?


- Prefiro no campo. Lá você fica tranquilo. Procuro uma boa posição atrás de um pau ou de uma pedra. É só fazer a coisa de modo a ninguém te ver. Na cidade isso é impossível. Sempre vai aparecer alguém pra te denunciar. Depois, fico ali esperando, tranquilo. Uma hora a caça passa na frente do meu trabuco. E também é mais fácil pra fugir do local. 


- ...?


- Não! Fico tranquilo, esperando. Aproveito pra cortar as unhas, pensar na vida. Planejar a fuga pra voltar logo pro meu canto aqui. Aqui é o meu escritório. Aqui recebo meus clientes. Tenho que voltar logo.


- ...?


- Tenho um lema sim! “Esse não morre mais!” Passou na frente do meu rifle, não vai ter outra chance pra morrer. Tô é fazendo favor pro cabra! Todo mundo vai morrer um dia mesmo! E a maioria das pessoas sofre que nem o diabo antes de partir dessa pra melhor. Uma vitima minha não sofre nadinha de nada. O pau quebrou, em segundos ele já está viajando pro além. Os outros, não! Sofrem dias, às vezes meses, gastando tudo o que tinha pra diminuir as dores. E depois morre do mesmo jeito! É por isso que me chamam de anjo negro. Me orgulho desse nome. Anjo, seu dotô. Me chamam de anjo. Então devem está feliz com o meu trabalho. Se não, era fii da peste pra cá, incompetente pra lá! Essas coisas. Sou um anjo vingador, meu dotô! Já me disseram isso! Abro os caminhos pros meus clientes. Sou, com muita honra, Tibúrcio, o anjo negro. Aquele que foi enviado para te afastar das tristezas da vida. Morto não sente dor, não paga dívida. Pra que melhor, ingrato!


- ...?


- Não preciso me oferecer pra ninguém. Nem fazer propaganda preciso fazer. Cada contrato bem cumprido é que é a minha propaganda. E quem quiser me contratar, que venha até aqui! Olha lá aquele homem bem apessoado que acabou de dobrar na curva. Tá vindo atrás dos meus serviços. Pode ter certeza. Só dois tipos de gente passa por aqui: os clientes, ou algum incompetente que se perdeu no caminho. É! O pessoal que me contrata é gente de bem, bem vestido, como aquele que vem lá. Pé rapado não tem dinheiro pra contratar um homem famoso como eu! Se aparecer outro tipo de gente por aqui, vai ter que se explicar direitinho pra mim.


- ...?


- Se tenho medo de ser alguém contratado pra me matar? Meu faro é meu guia, seu dotô! Por isso estou nessa lida há tanto tempo. Conheço um da minha classe de longe, e só pelo cheiro. Aquele lá é um molóide, monta mal, se segura na sela como se fosse cair a qualquer instante. Um da minha iguala tem que saber se comportar em cima de uma montaria. Se não, como vai conseguir escapar rapidamente?  Oi de lá! Pode se chegar. Se sou Tibúrcio, o anjo negro? Pode apostar que sim! Por que o patrão ai quer saber?


- ...?


- Se tô disponível pra fazer um serviço? Uma coisa que nunca fiz foi tirar férias, meu dotô! No meu ramo temos que aproveitar o momento bom. E o preço é esse mesmo. Tá com o faz-me rir ai no alforje? Isso é bom! Deixe-me ver.
 

- ...!


- Mas o que é isso? Não! Não faça isso! ... Miserável! Como fui me deixar surpreender por um novato desengonçado desse? Só pode ser crime de vingança! Não precisava atirar na minha barriga, infeliz! Isso é morte dolorosa e demorada! Por isso deve ser crime de vingança! Crime por encomenda tem que ser rápido. É preciso levar notícia pro patrão que contratou o serviço. Mas que coisa! Morto por um amarelo desse! Meu primeiro e último erro. Peço perdão a todos os santos! Meu Padim Padre Cícero, me receba no seu reino no céu! Como dói essas pestes encravada aqui na minha barriga! Foi bala Dundum, senti a droga rasgando tudo. Dói e queima! Morrer de tiro de Rossi 22! A bala nem consegue atravessar! Ô vida! Tá chorando por que, amarelo? Para de tremer, siô!


- ...!?


- ...!

domingo, 8 de fevereiro de 2015

CAFÉ SERTANEJO

Foto extraída do Blog da Kakaia


José Pedro Araújo

Às vezes me assalta uma saudade estupenda das manhãs vividas na casa dos meus pais, quando nos sentávamos à mesa para o café da manhã. Nessas ocasiões me vem à lembrança o leite fumegante, o café cheiroso e convidativo no bule que acabara de vir da cozinha, e o mais importante: o bolo de arroz ainda morninho, frito no azeite de coco babaçu. Não era sempre assim, mas é a imagem que me vem à mente. Tratava-se de um manjar dos deuses para o meu paladar de menino sertanejo. Àquele tempo, não tínhamos o presunto - que nem conhecíamos ainda -, e muito menos o iogurte e os achocolatados - que são presença cativa no café da manhã dos dias de hoje. Também não tínhamos por hábito comer frutas da estação, como a banana e o mamão, que existia fartamente na região, mas que não eram aproveitadas na primeira refeição do dia. Assim, o café-da-manhã na maioria das casas, restringia-se a um pão com manteiga ou a um cuscuz - de milho ou de arroz -, beijus de tapioca ou uma porção de frito de carne bovina, consumidos com café adicionado ao leite natural, saído das tetas das vacas momentos antes. Em algumas casas maranhenses - poucas casas, eu diria -, serviam-se o tal bolo de arroz frito em óleo de babaçu. Pelo aspecto avermelhado do couro curtido e a forma arredondada de um chapéu de vaqueiro nordestino, recebeu o nome de chapéu-de-couro. Outros o chamam de Orelha de macaco. Não me parece ser um nome apropriado a esse manjar dos deuses.



Pois esse bolinho com aspecto de disco voador tem para mim uma importância muito significativa, caiu nas minhas graças e, sempre que tenho a oportunidade, regalo-me consumindo alguns desses pequenos manjares. E uma dessas oportunidades se dava quando minha mãe me visitava aqui em Teresina. Apesar dos protestos de que a massa ideal para se fazer o gostoso bolinho somente é obtida ao pisar o arroz diretamente no pilão – arroz colocado de molho no dia anterior - sempre conseguia empurrá-la para a cozinha, usando como ingrediente a massa de arroz adquirida nos supermercados. E na frigideira repleta de óleo fervente ela se esmerava na feitura dos bolinhos que tanto agradam ao meu paladar, esquecendo-se da qualidade da massa utilizada. Nesses dias, sentia-me uma criança a se deliciar com esses petiscos com gosto de passado.



Outra oportunidade que eu tenho de matar essa saudade eterna é quando vou ao meu Curador. No mercado central ainda é possível encontrar os chapéus-de-couro do jeito que se fazia na minha época de criança. Trata-se de uma tradição na minha região, herança passada de mãe para filha em algumas casas maranhense, com o cuidado de um segredo industrial. Seguindo esse principio culinário, uma tia minha, de saudosa memória, passou a sua receita para uma nora. E esta perpetuou o costume e me contemplou com algumas dessas deliciosas iguarias algumas vezes quando fui à cidade.



Encontrei em Alcântara, bela e paradisíaca cidade litorânea maranhense, quando lá estive certa vez, uma iguaria também de sabor espetacular. Assediado por alguns garotos que vendiam uma espécie de pequeno doce em bacias de alumínio muito limpas e brilhantes, fiquei curioso e resolvi adquirir alguns. Ao descobrirem a bacia, verifiquei que ela continha uma grande quantidade de pequenos bolinhos em formato de vírgula, oblongas, com aquele pequeno rabicho puxado para baixo. Perguntado sobre o que continham, soube que era uma espécie de doce-de-coco revestido com massa de trigo frito em óleo fervente. Como também aprecio enormemente um doce, seja de que tipo for, resolvi provar o petisco. Quase cai para trás. Tratava-se de uma das mais saborosas iguarias que já tive a oportunidade de apreciar. E logo, atraídos pela interjeição emitida por mim, meus filhos e minha mulher resolveram também provar a guloseima. Ficaram extasiados também, como seria normal que ficassem. Logo, não sobrou um só dos bolinhos na bacia e o garoto voltou feliz para casa. 

Depois disso, fomos abordando os pequenos vendedores que íamos encontrando pelo caminho para adquirir mais alguns bolinhos para fazer estoque e transportá-los até o hotel em São Luís, onde nos achávamos hospedados. Pena serem tão poucos. Duraram pouco tempo também. Ficou o desapontamento por não termos adquirido mais. Antes que me esqueça: o nome do manjar é Especiaria. Nunca mais me deparei com um deles. Somente são encontrados em Alcântara e arredores. É parte da tradição local.



Pois é. Cada região tem o seu pequeno tesouro alimentar, a sua iguaria inigualável. Assim, na cidade da minha infância, tenho o meu apetecível e inesquecível bolinho Chapéu-de-couro. Consumir uma porção deles mata de uma só vez a saudade da minha terra e dos meus entes queridos, e traz para o presente, aquele gosto de passado e de confiança na eternidade. São coisas simples assim, adquiridas com poucos reais, que fazem com que a vida permaneça cheia de graça. Nesses momentos, bate-nos aquele desejo de ficar por aqui mais alguns bons pares de anos.