sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Bumba-meu-Boi no Curador





Preciso justificar o título acima, uma vez que sou maranhense e é no Maranhão que se pratica o melhor Bumba-meu-boi do Brasil. Acontece que apenas na região da baixada maranhense, além da ilha de São Luis, este folclore é largamente difundido. Nas outras regiões brinca-se de forma esporádica, sem aquele apelo tão popular existente nas regiões acima descritas. O que acontece com a região de Presidente Dutra, por exemplo, é que sofremos forte influência cultural dos outros estados nordestinos e, apesar de gostarmos muito do velho forró pé-de-serra, dos folguedos e de outras festas do gênero, não existe entre nós a tradição dos grupos organizados de Bumba-meu-boi da forma que existe mais ao norte do estado maranhense.

Pois, certa época, em meados dos anos sessenta, fomos surpreendidos com a notícia de que o agitador cultural Cobra-Preta estava arregimentando um grupo de brincantes para organizar um Boi. A notícia correu rápido pelo Ginásio Presidente Dutra e logo a estudantada estava pronta para ir verificar no local a novidade. De fato, constatamos a veracidade da notícia. O terreiro havia sido organizado ali por trás do Cemitério, em uma rua nova que acabava de ser aberta. Era um lugar de casas simples, a maioria coberta de palha de babaçu, até certo ponto distante, mais pudemos verificar que a notícia havia atraído muita gente ao local. Aliás, antes mesmo de chegarmos lá, já era possível ouvir o rufar dos tambores, pandeirões, o picado das matracas e o som de orquestra, numa mistura de todos os ritmos que costuma separar os brincantes entre aqueles que preferem o boi de matraca, os que gostam mais do boi de pandeirões e, finamente, aqueles que têm predileção pelo boi de orquestra. Cobra Preta juntou tudo em um só.  

No mais, estavam ali os vários personagens que compõe o script da festa, como o Pai Francisco, a Catirina, a Burrinha, o Índio, os Vaqueiros, os Cazumbás, o Dono da Fazenda, o Padre, o Miolo, o Pajé, entre tantos outros personagens que enfeitam e tornam empolgante a história do vaqueiro que matou o melhor boi do patrão para satisfazer a vontade da mulher. Pela lenda, Catirina, mulher faceira, demonstrou a vontade de comer a língua do principal animal do patrão e empurrou o marido para uma grande enrascada. No local, é claro, estava o próprio boi, com suas cores, desenhos e matizes formados por vidrilhos e miçangas. Havia também lá uma mistura saudável de todas as classes sociais da cidade para presenciar os ensaios que aconteceriam até o dia quinze de junho, quando então aconteceria o batismo do boi.

De pronto, fiquei estupefato com a beleza cênica, com o som emitido por aquela mistura de sotaques que se elevava naquela aprazível noite de maio. Voltei muitas vezes ao local para acompanhar aquela festa de cores e sons que tanto agrada ao nativo maranhense. Naturalmente tudo tem um preço e eu tinha que gazetear algumas aulas para poder acompanhar as peripécias do boi do Cobra Preta.

Não sei por quantos anos a festança se repetiu, pois pouco depois tive de me retirar para estudar em outra cidade. Não sei também se a tradicional festividade deixou raízes na cidade, mas não tenho dúvidas em afirmar que o ritmo das toadas deixou saudades em mim e em tantos quanto presenciaram a animação dos brincantes do primeiro Bumba-meu-boi criado na minha cidade.

Em junho, os terreiros situados nos diversos bairros da ilha de São Luís são incendiados com os sons dos batuques de uma enormidade de sotaques de bois que infestam a cidade. Em junho também os arraiais são instalados para a deflagração dos festejos juninos em todo o nordeste brasileiro e os trios musicais compostos pela sanfona, zabumba e triângulo, dão o tom da festa. No interior de parte do Maranhão também. Mas é o Bumba-meu-boi que se apresenta como o maior representante das festividades juninas do Estado maranhense.          

terça-feira, 10 de novembro de 2015

O imposto de cada dia que nos asfixia

Extraído do solarismgareis.blogspot.com.br
José Pedro Araújo


          Manter uma cidade, um estado ou um país em perfeito funcionamento, promover a ordem pública, levar ações de saúde à população e manter ruas e avenidas em perfeita ordem e limpeza, entre outras coisas, exige dos governantes que seja cobrada da população uma percentagem por tudo aquilo que ela produz ou oferece em termos de serviços. Mas, a cobrança desses impostos tem ultrapassado o limite do tolerável e esgotado a paciência de todos os brasileiros. Aqui, até mesmo os salários são taxados, e de maneira escorchante, é bom que se diga, coisa que só acontece em poucos países do mundo, pois a grande maioria das nações optou por taxar o produto e evitar a maldita e danosa ação da bitributação, como acontece conosco. Cobrar do trabalhador 27,5% de imposto retido na fonte dos seus parcos vencimentos assemelha-se mais a um confisco do que propriamente a uma cobrança de impostos. E na atual conjuntura, quando os salários estão completamente aviltados, procede-se de maneira mais hedionda do que na lenda da “galinha de ovos de ouro”, pois o indivíduo gerador da riqueza está sendo torturado de maneira vil e brutal até a sua exterminação total.

            Mas, há outras camadas da população que infelizmente pagam impostos percentualmente muito mais altos do que os trabalhadores com carteira assinada, aqueles que vivem na legalidade, como prefere rotular as nossas autoridades constituídas. Estou me referindo ao pequeno trabalhador rural que vem sofrendo ultimamente uma verdadeira caçada por parte do fisco que busca cobrar dos mesmos pela pequena produção que conseguem retirar da terra à custa de muito suor e sacrifício. Produção que, ao ser colhida, ao invés de ir rechear o seu paiol para alimentar futuramente a família, vê-se na obrigação de vender para fazer algum dinheiro e cobrir outras despesas mais inadiáveis.

Outro dia, quando retornava de uma viagem aos limites do Piauí com o Ceará para a cidade de Pedro II, dei carona a um humilde senhor que trazia com ele um saco de feijão pesando aproximadamente cinquenta quilos. Ao nos aproximarmos da corrente do posto fiscal, notei que o homem principiava um estado de nervosismo que o deixava muito inquieto. Sem atentar para as verdadeiras razões que o levava a ficar naquela situação, preferi achar que o mesmo estivesse passando por algum desconforto intestinal, tal a quantidade de solavancos com que o carro nos brindava em razão da péssima estrada que trafegávamos. Mas, qual não foi a minha surpresa. Quando ultrapassamos o posto fiscal, o homem suspirou aliviado e não se conteve: dessa vez eu escapei! Preocupado, achando que havia dado carona a algum foragido da justiça, perguntei-lhe: Escapou de quê, amigo? E ele me respondeu prontamente: de pagar os R$ 6,50 de imposto pelo saco de feijão que trago na carroceria do carro. Só então fiquei sabendo que há uma verdadeira campanha de cobrança de impostos sobre esses pobres brasileiros. Que cobra-se de tudo, até mesmo quando estão transportando algumas garrafas de mel de abelha nativa, ou algumas galinhas de capoeira.      

Ao longo dos tempos a missão de cobrar impostos da população têm se tornado algo tão brutal e acintoso que até têm provocado alguns conflitos sérios com graves consequências para o povo. A história faz referência, para citar apenas alguns casos, à Guerra dos Camponeses em 1525 na Alemanha e à Guerra pela Independência dos EUA, por conta da cobrança exorbitante de impostos. E até mesmo entre nós há casos iguais como a deflagração da Revolução Farroupilha, a Revolução Pernambucana em Olinda e Recife e a Guerra dos Emboabas, quando cidadãos brasileiros lutaram contra a tirania da cobrança exagerada dessas famigeradas taxas. Existe até a lenda de um bom ladrão que tomava dos ricos cobradores de impostos para repassar aos pobres, e esse personagem, fictício ou não, se transformou em herói de cinema e ainda hoje habita o imaginário infantil. Seu nome: Robin Hood, o príncipe dos ladrões.

Agora a incongruência, a desinteligência: depois de arrecadar imposto de quem não têm quase nada, o governo aparece depois com gestos de bom mocismo, gastando rios de dinheiro em transporte e propaganda, para repassar aos antes espoliados, a título de esmola, uma tal de bolsa alimentação ou algumas poucas e descontinuadas cestas de alimento, promovendo uma verdadeira ação de desestímulo ao  honesto gesto do trabalho diário.

Enquanto isto, os grandes sonegadores passam ao largo, distribuindo propina e abastecendo o caixa-dois dos políticos corruptos, e concentrando mais ainda as riquezas que são retiradas desse país exuberante e “abençoado por Deus”.

Só nos resta então torcer para que apareça um herói verdadeiro, igual a Zaqueu, o cobrador de impostos em Jerusalém, abençoado por Jesus porque devolvia aos pobres metade do que arrecadava. Ou deflagrar uma campanha nacional pela diminuição dessa excrescência que atende pelo nome de imposto de renda.

(Crônica redigida em 2001 e que me parece mais atual do que nunca).

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Bar Central

José Pedro Araújo


Esquina da Travessa Doca Sereno com Praça São Sebastião, coração do velho Curador, aqui ficava um dos endereços mais conhecidos da cidade: o Bar Central. As portas abertas para os dois endereços facilitavam a entrada dos clientes contumazes que chegavam de todos os lados para cumprirem a agenda do dia. Podemos afirmar, sem sombras de dúvidas, que era aquele o principal ponto de encontro da turma que gostava de uma prosa regada à cerveja, das discussões políticas travadas sem violência, dos arroubos sobre as conquistas do seu time de futebol preferido e, até mesmo, da repercussão das principais fofocas que corriam a cidade naquele dia. Acorria para lá também quem gostava de tomar um trago de alguma bebida quente, de se regalar com uma dose de cachaça ou conhaque da sua predileção ou, apenas, para fugir da solidão ou das reclamações da patroa. Do mesmo modo, de todos os pontos da cidade chegavam também aqueles que não bebiam nada, mas que adoravam participar das discussões que rolava por lá todo final de tarde, começo de noite.

O ambiente era simples, mas, aconchegante. Algumas mesas, cerca de quatro ou cinco, mantinham-se espalhadas pelo ambiente e uma sequência de prateleiras pregadas às paredes para expor todas as variedades de bebidas vendidas ali, chamavam a atenção do novo cliente a um primeiro olhar. Perfilavam ao longo das tábuas corridas dezenas de tipos de cachaça, vermutes, conhaques, assim como os vinhos mais populares - como o conhecido Sangue de Boi - até os dois tipos de cerveja que tomavam conta do mercado na época, Antarctica e Brahma. Também formavam fila ao lado das bebidas alcoólicas, algumas garrafas de refrigerante, sobretudo os mais consagrados, como a prata da casa, o bom guaraná Jesus, com seu rosa-choque contrastando com o amarelado das outras bebidas. E no fundo, descansando os cotovelos em um velho balcão de madeira, ficava Manoel Cruz, o dono do local, em permanente estado de prontidão para atender a todos os pedidos.

Xis com o bar erguia-se ereta rumo ao céu de uma beleza ímpar, a eterna igreja de São Sebastião, pronta para receber as mulheres dos consumidores que entupiam o Bar Central. Neste caso, enquanto elas buscavam a salvação para as almas de todos os familiares, eles esbaldavam-se entre tragos e conversações que varavam a madrugada, até que o último cliente saía trôpego para a noite cálida, novamente em busca do regaço da família.  

Aquele local funcionou assim por muitos e muitos anos, até que o proprietário resolveu seguir o chamado incisivo da fortuna que acenava libertina e convidativa para ele: haviam descoberto, por aquela época, o ouro de Serra Pelada, no Pará. Como a maioria dos homens daquela região, sobretudo os que não tinham um emprego fixo ou um empreendimento de maior porte, partiu o bom Manoel para aventurar a sorte nas matas desconhecidas da Amazônia brasileira, deixando atrás de si, com as portas cerradas, o mais charmoso barzinho da cidade. Também às suas costas, ficaram dezenas e dezenas de bebedores na orfandade, saudosos e a reclamar da falta que lhes fazia o aconchegante e bom local aonde iam para relaxar das correrias da vida.

Ainda tentaram estabelecer um ponto de encontro para a juventude naquele local. Derrubaram as paredes do velho Bar Central, modernizaram o ambiente, retiraram as garrafas das prateleiras na parede e puseram garçonetes bonitas para atender à freguesia. Tudo muito bom, tudo muito legal. Vieram os jovens com as suas conversas sobre a modernidade do mundo, desfilaram a moda, enturmaram-se, comeram, beberam e, depois, foram-se embora, a maioria para não mais voltar. Pois os jovens são como aves de arribação: algumas sempre voltam, outras não. Formaram novo bando, em outro lugar. E o novo bar fechou para sempre. Morreu por infidelidade dos clientes. Por falta também das discussões sobre futebol e política, mas, especialmente, pela ausência do charme que possuía o atraente Bar Central.
Um amigo, antigo frequentador do local, marcava ponto lá até mesmo aos domingos. Evangélico, sai da igreja diretamente para lá, aonde os amigos já aguardavam por ele para mais uma rodada de conversa. Pouco bebia, apenas um ou outro copo de cerveja, e apenas para matar a sede. Dizia ele que o Bar Central era o local mais aprazível da cidade, além de funcionar como uma espécie de parlamento informal.

Como a Itabira de Carlos Drummond de Andrade, o querido e aconchegante Bar Central é, hoje, apenas “um retrato na parede. Mas como dói”. O prédio antigo foi demolido, e em seu lugar foi erguido outro, onde funciona uma butique de moda, como aparece na foto que ilustra este texto.
       
  

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O Massacre do Alto Alegre - A infeliz Perpetinha

Gravura extraída do site preghiereagesuemaria.it.
José Pedro Araújo


                Publiquei aqui neste espaço uma crônica histórica sobre o Massacre do Alto Alegre (Post de 18.03.2015), no qual descrevo a tragédia sofrida pelas crianças internas do Colégio dos Capuchinhos de Alto Alegre, região de Barra do Corda. Tem sido uma das postagens mais acessadas desde então. Volto ao assunto para discorrer sobre uma das vítimas daquela tragédia acontecida em 13 de março de 1901: a estudante Perpétua Moreira.

                Como relatei no post anterior, os frades capuchinhos oriundos da região italiana da Lombardia, chegaram à região no final do século XIX, mais precisamente por volta de 1893, e trouxeram como propósito a realização de um grande trabalho de catequização dos índios, razão porque escolheram a região de Barra do Corda. Ativos, já em 1895 instalaram um colégio para meninos na sede do município, no qual foram matriculados mais de 80 crianças e jovens de até 14 anos. A ausência de escolas de qualidade na região foi a razão do sucesso do novo colégio erguido pelos frades em tempo recorde, além, naturalmente, do nível de formação dos professores responsáveis por ministrarem aula aos jovens oriundos das famílias mais destacadas. O sucesso do empreendimento também estimulou os padres a seguirem com o projeto adiante, razão pela qual adquiriram uma área de cerca de 3.200 hectares de terra na região do Alto Alegre, nas vizinhanças de algumas tribos de índios Guajajaras. Ali instalaram o maior projeto de catequese do interior maranhense, contando, inclusive com a ajuda do governo do Estado que repassou recursos do tesouro estadual para a consecução do ambicioso projeto.

                Com recursos oriundos da Itália, mas também do tesouro estadual, como afirmamos no parágrafo acima, os padres partiram rapidamente para a construção da infraestrutura necessária. Ergueram-se o prédio escolar, a igreja, um internato com dois pavimentos, um convento para os religiosos, além de oficinas, engenho para beneficiamento de cana-de-açúcar e um aviamento para o beneficiamento de mandioca. A escola, diferentemente da outra implantada em Barra do Corda, que só contava com meninos, receberia meninas em regime de internato.

A noticia logo se espalhou pela região, e disseminou a alegria em meio às famílias de Grajaú, Imperatriz, Colinas(Picos), Riachão e Balsas, e da própria Barra do Corda, que passaram a contar com um colégio de bom nível para acolher suas filhas em tempo integral. Lá, as jovens adquiririam conhecimentos de música, costura e bordados, além de se afeiçoarem com o melhor das práticas e costumes europeias, além de estudar em meio a excelentes professores. Em 1896 estava tudo praticamente pronto, e as alunas puderam se matricular. O colégio foi entregue nas mãos das cultas Irmãs Capuchinhas de Gênova, Itália. As novas alunas eram jovens também de até 14 anos e pertenciam às famílias mais abastadas desses municípios acima citados.  

                Seguindo uma prática que costumavam empregar nesse tipo de trabalho, os religiosos mesclaram as alunas com outras meninas indígenas trazidas das aldeias próximas para aprender a cultura do branco. O dinheiro pago pelos pais das meninas branca, manteria os jovenzinhos indígenas. Os métodos empregados na obtenção das novas alunas nativas, muitas vezes beirou ao absurdo, uma vez que muitos curumins foram arrancados literalmente dos braços dos pais com requinte de violência, como já noticiamos no post anterior. E isso, somado a uma serie de outros problemas, suscitou o agravamento das relações entre brancos e índios a tal ponto que, no dia fatídico, 13.03.1901, um domingo que tinha tudo para terminar bem, os indígenas perpetraram o maior morticínio de brancos já registrado na literatura brasileira: cerca de 200 pessoas perderam a vida violentamente naquele dia. Ensandecidos, os Guajajaras trucidaram a todos que encontraram na vila, inclusive os religiosos e as alunas brancas. Com única exceção: uma garota de nome Perpétua Moreira, vulgo Perpetinha. Perpetinha era filha de um abastado fazendeiro da região de Grajaú, e foi tomada como refém, ou algo parecido.

                Não se sabe por que razão, se apenas porque se tratava de uma bela jovem que logo conquistou o coração do jovem cacique Jauarauhu, o certo que foi a única jovem levada como refém pelos índios, e escapou da morte. O desdobramento dessa chacina encetou novos assassinatos, e cerca de 400 indígenas terminaram sendo mortos nos confrontos seguintes, quando os brancos que se organizaram e se armaram fortemente para se aliar ao contingente de militares que chegou de Grajaú, comandado pelo capitão Goiabeira, e de Colinas, sob o comando do tenente coronel Pedro José Pinto. Junta ao contingente de militares havia um bom número de índios Canela, histórico inimigo dos Guajajaras. Goiabeira foi o mentor de um bárbaro genocídio, sendo que muitos dos indígenas mortos, sequer estavam naquele dia na região, ou mesmo faziam parte da nação dos Guajajaras. Ter a pele vermelha já era motivo mais do que suficiente para que o militar despejasse sobre ele o seu ódio.

Perpetinha foi levada pelo cacique Jauarauhu para o interior da selva desconhecida, distanciando-se rapidamente da região do conflito. E no que pese o grupo formado para dar caça ao raptor ter permanecido no seu encalço por vários e vários dias, foi debalde a sua procura. O índio conhecia profundamente o interior daquela extensa e fechada floresta, diferentemente dos seus perseguidores, e recebia o apoio das tribos que ia encontrando pelo caminho.  

                Depois de muitos dias, os fugitivos chegaram à desconhecida região do rio Gurupi, na confluência dos estados do Maranhão e Pará. A região ficava muito distante da civilização, era completamente desabitada por bancos, e ali foram acolhidos pelos índios que se achavam aldeados por lá. A memória histórica se encarregou de criar muitas histórias sobre aquele caso que manchou de sangue a terra conquistada, e que abalou a confiança das famílias da região. Algumas verdadeiras, outras nem tanto. Uma dessas histórias, que foi repassada de pai para filho, diz respeito à pobre moça sequestrada. Nela se afirma que Perpetinha, quando em fuga, e em momentos em que se achava longe do seu captor, escrevia no tronco das árvores uma frase que ficou registrada na memória do povo daquela região: “por aqui passou a infeliz Perpetinha”.  Talvez quisesse deixar uma pista a ser seguida por seus parentes na vã esperança de ser alcançada e salva. Procedeu como Teseu ao penetrar na desconhecida caverna do Minotauro, como registra a lenda grega. Nela, o rei Minos era obrigado a enviar anualmente quatorze jovens ao monstro Minotauro. Sete homens e sete mulheres, para serem devorados dentro do desconhecido labirinto. Teseu levou consigo um novelo de linha que amarrou na entrada do labirinto e foi desenrolando até encontrar o monstro. A linha balizaria o seu retorno. Teseu, segundo a lenda grega, conseguiu o seu intento. Perpetinha, não.

                Em 1982, o jornalista e escritor barra-cordense Olímpio Cruz lançou um livro denominado Cauiré Imana, o Cacique Rebelde, no qual narra com riqueza de detalhas o grave conflito do Alto Alegre. Ele discorre também sobre o caso da Perpetinha e junta novas informações a ele. Cruz diz que ela teria sido tomada como esposa pelo cacique autor do seu rapto e tido alguns filhos com ele. Disse ainda que, muitos anos depois, ela teve a sua identidade descoberta por alguns brancos que a encontraram na tribo em que habitava. E perguntada por que não aproveitava a deixa e se reintegrava ao seu povo, disse que a sua gente agora era aquela, depois de haver constituído família e tido alguns filhos. Não tinha mais razão para retornar à sua família anterior. Olímpio Cruz publicou até mesmo uma foto de alguns indígenas, e entre eles, uma mulher índia com alguns curumins em volta, afirmando ser ela uma das filhas de Perpetinha.

                Terminou dessa foram, com pouco glamour - ou sem nenhum glamour -, a triste história de uma jovem estudante em quem a família depositou todas as suas esperanças de dias melhores, ao matriculá-la em um colégio de alto nível, dirigido por estrangeiros.