sexta-feira, 15 de abril de 2016

Histórias de Zeca Barros

Foto Ilustrativa

                                                 José Pedro Araújo 

            Meu tio Zeca Barros era uma dessas pessoas com quem conversar transformava-se em uma tarefa extremamente agradável. De palavra fácil e riso alegre, gostava de contar histórias de acontecimentos que presenciou em sua longa caminhada pela vida. A última história que ouvi dele, dizia respeito às agruras de um sertanejo para realizar o exame de próstata. Falava de si mesmo. Mas esta aí vai ficar para depois, existem outras na frente para ser contada.

            Desde criança me acostumei a ouvir Seus causos, assim como muitos garotos da minha idade que acorriam à sua casa, sempre à noite, quando ele retornava da lida, para ouvi-las. E ele, sabido como nenhum outro, costumava nos fazer debulhar todo o feijão em vagem que havia colhido naquele dia. Nessas horas ele se servia de um quibano, instrumento muito usado pelos agricultores para limpar os cereais da casca, enchia-o de vagens de feijão e a meninada acercava-se dele para começar a tarefa enquanto ele desfilava suas engraçadas histórias. Papai costumava dizer que meu Tio era um homem sábio, pois sempre que orava a Deus pedia que se o Altíssimo tivesse mais alguma coisa para lhe dar, que deixasse para a sua velhice, quando iria precisar mais ainda. Acho que Deus lhe atendeu ao pedido, pois é certo que as coisas melhoraram muito para ele quando ultrapassou a barreira dos sessenta anos.

            Zeca Barros possuía uma propriedade que era cortada ao meio pelo rio Preguiça. Este manancial, manso como o próprio nome faz entender, é bastante raso e espraia as suas águas pelas ribeiras cumulando-as com muito húmus, tal qual faz o rio Nilo, na África. Havia nesta um sítio com muitas fruteiras, em especial algumas mangueiras que produzia frutos de sabor inigualável. Era lá que ele também fazia suas farinhadas. No principio, da forma mais rudimentar possível, ocasião em que tínhamos de movimentar no braço uma roda para fazer o Caitetu girar e transformar a mandioca em massa. Depois, adquiriu um pequenos motor e a tarefa de preparação da farinha ficou bastante facilitada. Nessa ocasião, era uma festa ir para à Preguiça, nome dado em homenagem ao rio que a seccionava ao meio. Tomar banho no rio, comer beijus e milho verde assado e, principalmente, as incomparáveis melancias que ele produzia, era um programa inesquecível. A festa começava ao sairmos pela plantação escolhendo os maiores e mais doces frutos, comendo-os ali mesmo no local em que eram encontrados.

            Todas as crianças das imediações estavam sempre se candidatando ao posto de convidado, mas, somente umas poucas eram escolhidas de cada vez. Isso porque havia muita lama pelo caminho, o terrível Massapê, barro liguento e escorregadio, sem contar as passagens do Sucuruju e do rio Preguiça que quando estavam com suas águas transbordando, dificultavam sobremaneira o trajeto.

Era, afinal, uma aventura chegar-se até lá.

Aliás, devo dizer que não somente as crianças, mas os adultos também gostavam do passeio. E numa dessas idas estava também um Pastor da Igreja Cristã Evangélica, de nome João – vou mudar o nome para não constranger o personagem. Sujeito relativamente alto, magro, muito magro, eu diria, e extremamente simpático e brincalhão, Pastor João era presença constantes em nossas casas nas horas em que não estava desenvolvendo o seu ministério. E nesse inverno, candidatou-se para ir comer melancia e milho assado na Preguiça. Ocorre que nesse dia o rio estava por cima, águas derramando por toda a vazante, enlameando o caminho e dificultando mais ainda o trajeto que já era difícil. Mas ele não se deteve por conta desses entraves.  

Chegando à margem do rio, Pastor João ficou muito preocupado com a travessia, pois tinha que atravessá-lo caminhando sobre um tronco de madeira com aproximadamente sessenta centímetros de diâmetros na sua parte mais expressiva. Se o trajeto até ali já havia sido muito penoso - deslizando-se muitas vezes no massapê, e caindo-se algumas outras tantas com a bunda na lama, além de sofrer um ataque sistemático de mutucas assassinas - passar por sobre aquela tora de madeira, medindo não menos do que vinte metros de extensão, era outra história. O convidado recuou. Temia cair na água corrente que já estava quase batendo na ponte improvisada.

 Zeca Barros, que já fazia aquela travessia desde menino, mais de cinquenta anos atrás, assim que chegou à beira do rio, calçando ainda suas botinas características, foi logo subindo no tronco e passou caminhando sobre ele com se estivesse passeando sobre uma ponte larga. Em menos de um minuto já estava no outro lado, insistindo com o visitante.

- Vamos lá, Pastor!

- Passar por cima deste pau? Nem morto! – rebateu o atemorizado convidado, parado, olhar com um misto de pavor e admiração frente à proeza realizada pelo seu anfitrião.

- Vai, homem, você vai conseguir! – gritava Zeca Barros do outro lado.

- Não vai dar! – respondia o Pastor – se cair nesse rio, eu é que vou ser comido pelos peixes, em vez de comer melancia.

- Que é isso! Você consegue! É só ter coragem.

- Nem me pagando, “seu” Zeca! – resistia o Pastor.

- Então vamos voltar daqui? É isso que quer? – falou o meu tio já desanimado.

- Não, “seu” Zeca. Façamos assim: o senhor vai até a roça e traz as melancias para a gente comer deste lado do rio – interveio o homem que não queria perder a oportunidade de degustar as ansiadas frutas.

- De que jeito, homem? Não têm graça nenhuma ficar carregando melancias de um lado para o outro do rio. Depois, são muito pesadas.

Depois de algum tempo de discussão, “vem, não vou!”, o assustando homem enfim criou coragem e começou a se preparar para atravessar o rio. Era isso, ou perderia o objeto da sua viagem até ali.

Só que em vez de caminhar sobre o tronco de madeira como havia feito Zeca Barros, o Pastor montou sobre a tora de madeira com se fosse cavalgar um animal, e com as duas mãos apoiadas a sua frente, começou a se arrastar vagarosamente feito criança ao engatinhar. Do outro lado, meu tio olhava aquela cena engraçada e não continha o riso. O homem ia mudando de posição aos pulos, arrastando-se sobre o madeiro, penosamente. Mas, não é que o teimoso estava conseguindo!

Foi uma travessia dificultosa, mas ele conseguiu chegar ao outro lado são e salvo. Mas estava muito suado e reclamando de dores nas pernas, certamente raladas no tronco enrugado.

Depois do esforço monumental, o homem encarou seu anfitrião com uma advertência:

- O senhor é doido, “seu” Zeca. Como foi capaz de passar quase correndo sobre esse pau com as botas enlameadas desse jeito? – falou com alguma dificuldade.

- Doido, eu? Doido é você que atravessou uma distância destas montado sobre esse pau tão grosso! – respondeu isso e caiu na gargalhada.

O Pastor quedou desconsolado à sua frente, certamente ajudado pelo fato de ter caído naquela armadilha verbal.

O passeio, contudo, compensara as dificuldades enfrentadas. Comeu o visitante tantas melancias quanto pode, e ainda levou outras tantas para casa.

A volta foi outro sofrimento, pois o processo de cruzar o rio foi o mesmo. Mas ele já não se importou mais com a possibilidade de cair na água. Estava seguro pelo jeito escolhido e não deu chance a outra brincadeira.

Pastor João continua pregando a palavra de Deus, coisa que ele faz com muita sapiência e boa vontade, por este nordeste.  Mas, certamente, não esquecerá jamais de um certo dia em que se candidatou a comer melancia na roça do Zeca Barros. Do saudoso e brincalhão Zeca Barros.

           

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Entre a Literatura e a Sordidez Política




 Cunha  e Silva Filho
Escritor, ensaísta, tradutor e coordenador do blog “As ideias no tempo”.


        A agenda da vida literária e cultural  brasileira não deixa de manter-se fértil,  exuberante,  promissora,  com  datas de homenagens a grandes  escritores,   palestras,  em universidades, textos em sites e blogs, alguns primorosos,  nacionais e internacionais,  em rede social,  como o conhecido  Facebook que se está transformando em coluna  de alguns usuários e em  agenda de eventos  de literatura  e outros campos do conhecimento.
          Nunca pensei que ainda alcançaria  assistir a tudo isso  deslumbrado de ver  tanta coisa boa e útil à coletividade. Sabemos, por outro lado,  que  o Face tem lá seu lado  um tanto fútil, as o seu traço geral não o é com certeza. É, antes,  um  instrumento  utilíssimo  para  transmitir conhecimento,  trocas de ideias, de informações, de pontos de vista. Entre o lixo e o luxo cultural  o saldo positivo fica para a segunda  alternativa.
           Assim é que me movo hoje, ora  exigindo de mim  a participação  produtiva  no terreno  literário,  ora  as exigências de me posicionar  politicamente  num Brasil  encharcado de informações e contrainformações, embaralhando até a cabeça dos mais conscientes  diante dos desatinos  da  administração  federal.
       Há um ponto de intersecção polarizadora, divisora,  numa clivagem  que, por chegar a um  ponto tal de ebulição, atingiu um dos sentimentos  que mais  prezo no relacionamento  entre pessoas: a amizade. Em tempo passado algum  da minha vida,  mesmo  no ápice  dos anos de chumbo, pude constatar  tanto  sentimento  de  aversão mútua entre  filhos da   mesma  pátria.  
        No meu tempo de estudante de letras e mesmo muito antes, quando me preparava para o vestibular, não em cursinhos, porque me faltava  condição financeira, mas autodidaticamente, tive amigos reconhecidamente  socialistas e comunistas ativos que, sabendo da minha, teoricamente, posição apolítica ou absenteísta como querem  outros,   sempre me trataram  com  o devido  carinho e com uma amizade que me  comovia. Nunca  misturaram  os papéis, nunca deixaram de me tratar  como   qualquer brasileiro  cujo objetivo primacial era vencer na grande  cidade do Rio de Janeiro.
       Nas condições odientas de hoje,  a realidade  é bem  outra: há um sentimento  de antagonismo  visceral, uma acrimônia sem limites de uns contra os outros  jamais  sentida  por mim  antes.  Imagine-se se vivêssemos numa  guerra civil, que é o último degrau  de uma antiga  convivência  pacífica entre filhos da mesma   pátria.
    Perdemos  um dos mais nobres  sentimentos  tão necessário aos laços entre  brasileiros e,  principalmente, entre supostos amigos, porquanto a amizade é um sentimento  que se preserva a todo custo e por cima das ideologias e visões da vida.
     Eu bem me lembro que,  um historiador  da literatura   brasileira,  por inimizade com  outro  que pesquisa na mesma  área, deixa de citar  o desafeto  intelectual, ou, quando muito,  faz-lhe referências  mínima. Para mim,  isso  podia-se denominar crime  cultural,  falta de dignidade  pessoal e desserviço  à evolução do conhecimento  humano. Subestimar  de propósito  um escritor  por inveja  ou  por razões  políticas é um desatino  e uma imoralidade  flagrante, desprezível aos olhos da produção verdadeiramente  científica. Obviamente,  me   refiro àquele pesquisador que, sabendo do valor   maior ou  menos valor de um autor,  passa batido e sonega  informações  que seriam  valiosas  à continuidade  do desenvolvimento  cultural.
     Nos tempos que correm da  produção digital, seja exemplo  o Facebook, já se tornou  um quase lugar-comum a quebra de amizades,  deletação ou apagamento  por motivos  políticos   no confronto  entre situacionistas  e oposicionistas, ou mesmo entre o situacionismo e  posições políticas apartidárias, independentes, mas  frontalmente contrárias à conjuntura  política nacional.         
     Ora,  essa realidade nova e nefasta à sociabilidade  é um retrocesso  e um  exemplo de que  o ser individual não se aprimorou  como subjetividade  em relação às alteridades  diversas, pois está  levando a pique  uma das condições mais saudáveis  no relacionamento  interpessoal dos brasileiros.
   Só governos de estofo autoritário levam uma comunidade  a tal  ponto  de  ofuscamento  de uma   realidade que atormenta   há tempos  a vida  brasileira, colocando  o país  em sérias  dificuldades  nos diversos setores  da esfera  pública e privada.
     Quero  saber até aonde vai  a angustiante  vida  de alguns  brasileiros que perderam  emprego aos milhões, que estão sofrendo  com  um altíssimo custo de vida e com uma  violência  que atingiu o seu estado mais   sangrento. Haja vista o agora chamado  “novo cangaço,” com cidades do interior do país sendo invadidas por bandoleiros  - verdadeiros  outlaws dos tempos da conquista do Oeste norte-americano tão aproveitados  pelos cinemas (e livros), os famosos  westerns, americanos de bangue-bangue – muito  mais armados do que os nossos  policiais, explodindo  bancos e pondo a população  em polvorosa e  em estado de choque. Veja-se como o país está  distante e atrasado no setor da segurança  pública   se comparado com  outros  países  grandes e melhor  organizados.
   Na criminalidade em geral, na urbe e no interior,  o país está num lamentável e perigoso retrocesso. O que evidencia o quanto  o nosso país  sofre nos últimos  anos e de forma  crescente sem que  o governo federal  tenha tomado  decisões  firmes para conter  esses criminosos e puni-los severamente sem brechas de leis e benefícios  legais que deveriam urgentemente  ser eliminados  da nossa legislação  no âmbito da criminalidade de alto risco,  constituindo  mesmo  em  seguidos   crimes  de segurança nacional, ou seja, numa situação  de   defesa dos brasileiros e do seu  patrimônio material.
     Ora,  tal caos social  instalado  exigiria  o apoio urgentíssimo das forças federais, ou seja, da polícia federal, da polícia civil e das forças armadas, com a necessária  logística  de estratégias e de armamento  moderno  pesado que possa debelar  os focos  desses “novos  cangaceiros”  movidos a granadas,  explosivos   e armamento  de guerra e atitudes de terroristas sangrentos  para com a  população.
     Em vez de milhões de reais  usados ilegalmente, conforme a mídia tem divulgado  recentemente,  pelo atual  governo  a fim de comprarem  votos  de oposicionistas  para sustar  o  impeachment da presidente Dilma Rousseff,  por que não canalizar aquele dinheiro  público para tantos setores públicos sucateados como,  além do horror da criminalidade galopante já mencionada, saúde,  educação, transporte, custo de vida,  juros altíssimos e falência  nos setores  industriais e comerciais.

    Esse seria  o papel  primordial  reservado a um  chefe de governo que  pensa  no bem-estar dos brasileiros. A presidente Dilma Rousseff está pensando apenas em manter-se no  poder, o que é, no mínimo, uma atitude  egoísta  e impatriótica.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Um Viajante Atribulado



                                                                                                                      José Pedro Araújo

            Se para certas pessoas viajar é algo tremendamente gratificante, para outras só em pensar na possibilidade, já começam a sentir calafrios, efeitos de uma viagem mal sucedida. Depois, passados os momentos de intranquilidade, quando já se chegou ao destino, ai a coisa fica boa demais. Como nesse ponto todos concordam e terminam viajando, as agruras ficam apenas na memória do viajante sofredor. Afinal, quem não gosta de mudar de ares de vez em quando? Quem não gosta de conhecer novos lugares, novas pessoas, cultivar novas amizades?

Mas, que existem pessoas que acham que viajar é um suplício, continuo afirmando que há.

             E o Dr. Jonas Araújo é uma delas. Dentista dos mais respeitados da cidade de Presidente Dutra, preza muito pela qualidade do seu trabalho ao ponto de facilmente se encontrar clientes que não se incomodam de ficarem horas de boca aberta, saliva escorrendo esôfago abaixo, causando coceira e cansaço na mandíbula. E essas pessoas não se incomodam em razão do ótimo profissional que as atende. Ficam lá pacientemente ouvindo as histórias contadas por esse Palmeirense de quatro costados, amigo de todos e incapaz de agravar quem quer que seja. Eu, que já o acompanho há muitos e muitos anos, nunca o vi sair do seu jeito calmo para encarar as situações mais vexatórias. Está sempre ali, tranquilo, procurando encontrar vantagens no que parece ser somente desacerto. E, no final de tudo, como o trabalho sai bem feito, e o preço uma verdadeira pechincha, ponto para o cliente!

            Esse calmo senhor, foi um menino meio magricela, cabelos arrepiados, e de um branco que só pode ser comparado a uma raiz de mandioca descascada. E quando viajava, já ficávamos de sobreaviso, pois por certo aprontaria alguma coisa.

Em uma das vezes que viajava de Presidente Dutra para Piracuruca, onde nossos pais residiam naquele momento, após sofrer muito no péssimo trecho até Teresina, concluiu que suas agruras haviam terminado ao chegar à capital, Teresina. Era o que se podia depreender em razão da melhoria da estrada dali para frente. Embarcou na Praça Saraiva em um ônibus novinho da Marimbá, e foi logo procurando uma janela para se acomodar perto. Mas, daí a poucos instantes, embarcou também, quando o veículo já estava de partida, um rapaz cabeludo e com barba bastante longa, que veio justo reclamar que a poltrona onde o menino estava lhe pertencia. Falou isso na maior grosseria, acenado o bilhete da passagem. A contragosto, o menino viajante saiu de onde estava, e verificou chateado que todas as demais poltronas já estavam ocupadas, inclusive a cadeira que lhe fora destinada. Nesta, logo viu que se sentava no seu o lugar era uma senhora bastante idosa. Resolveu deixar tudo como estava.

            Para piorar as coisas, o sujeito que havia reclamado o lugar, continuava resmungando, falando alto contra as pessoas que ocupavam o lugar dos outros somente para esquentar o assento.

            Vendo que o garoto havia ficado sem lugar para se sentar, meu pai, que o acompanhava na viagem, pediu para ele acomodar-se em sua perna, próximo à janela, pois sabia que logo ele precisaria fazer uso dela. Jonas sentou-se, e a viagem continuou. O ônibus tomou a estrada no rumo norte e tudo parecia ter se aquietado.

            Atrás de onde eles se encontravam, o rapaz barbudo abriu a janela de vidro e começou a falar grosserias contra as pessoas que se encontravam nas calçadas. E quando o pedestre era do sexo feminino, assobiava, mandava beijinhos, na maior algazarra. Alguns passageiros já começavam a reclamar do estúpido sujeito, mas, ele não dava a menor atenção às reclamações. E a viagem transcorria assim. Ônibus novo, motorista pé-de-chumbo, ia o veículo comendo estrada, dando a entender que chegariam cedo ao destino final.

            Em certa altura da viagem, Jonas cochichou para o meu pai que estava ficando enjoado. E ele, mais que depressa o ajudou a abrir a janela. O garoto lamentou o fato de ter almoçado aquele prato de arroz com feijão, macarrão e carne, quando o motorista, momentos antes havia parado em um restaurante de beira de estrada. Mas, o ar fresco, fez com que ele melhorasse um pouco do enjôo, criando a falsa ilusão de que tudo se ajeitaria. Que nada! Logo uma náusea bem mais forte o acometeu, e ele assomou a cabeça para fora do ônibus a tempo apenas de despejar o produto do almoço para fora.

Atrás dele, também com a cabeça para fora do veículo, estava o inconsequente cabeludo, fazendo uso mais uma vez de suas brincadeiras sem graça. Quando viu o que viria sobre ele ainda tentou se recolher, mas já era tarde demais: recebeu o produto do vômito diretamente na cara. A barba, antes negra, estava ruiva agora, meio enferrujada, engordurada, com macarrão espalhado até mesmo pela cabeça. 

            Descontrolado, parecendo um touro furioso, o sujeito saiu de sua poltrona e veio atrás do garoto para agredi-lo. Meu pai, prevendo o desfecho, e já chateado com o inoportuno companheiro de viagem, levantou-se também e despejou sobre ele algumas palavras intimidatórias. Vendo que seu oponente era um homem alto e musculoso, o pobre infeliz tratou de retroceder até sua cadeira e passou o restante da viagem ouvindo brincadeiras dos outros passageiros, satisfeitos por ver que ele agora estava calado e humilhado.

            De outra feita, Dr. Jonas, ai por volta dos 11 anos, juntamente com o irmão Jônatas, pegaram carona em uma camioneta que levaria de volta Jean Carvalho e seus irmãos, que retornavam das férias, para Teresina. Na caçamba do carro conduziam também um chiqueiro, feito de talos de babaçu, com vários frangos aprisionados. Estavam sendo levados para consumo próprio. Jonas, preocupado com a sua situação de viajante sempre mareado, resolveu sentar-se na ponta oposta do chiqueiro enquanto o carro saia rodando pela estrada. Não andaram muito e o enjôo foi se achegando, a  principio de maneira suportável, depois mais forte, até que ele começou a vomitar fora da caçamba. Mas, logo, as forças começaram a diminuir e ele passou a soltar suas golfadas sobre o chiqueiro mesmo. Os frangos começaram a gostar daquilo e logo já estavam esticando os pescoços, elevando as cabeças para fora da grande gaiola, indo buscar o produto quase dentro da boca do pobre garoto que teve que ser socorrido pelos companheiros de viagem de modo a não perder a língua e tudo o mais que possuía na boca.

            Abatido e quase sem forças, finalmente chegaram a Timon, onde passariam a noite na casa dos colegas. No dia seguinte, logo cedo, tomaram um ônibus urbano para a Praça Saraiva. Jônatas, um pouco mais velho, conduzia as sacolas mais pesadas, ficando as nem-tão-mais–leves-assim para o irmão menor. Carregavam com eles bolos de todos os tipos, doce de leite e queijo, o que aumentava o peso da bagagem.

Com as duas mãos ocupadas, Jonas, que não era muito acostumado a andar naquele tipo de condução urbana, acercou-se da roleta para pagar a passagem, quando motorista arrancou de uma vez. Só não caiu para trás porque se apoiou no irmão que vinha um pouco atrás. Mas, antes mesmo que pudesse se recompor, o motorista afundou o pé no freio com bastante força. Viu alguém gesticulando na parada seguinte de onde se aproximavam. O pobre Jonas foi arremessado para a frente com suas duas  sacolas e passou como um raio pela roleta fazendo a danada rolar diversas vezes para desespero do cobrador. Com as mãos ocupadas, o menino saiu tentando se equilibrar no corredor àquele momento sem passageiros, até espatifar-se na tampa do motor que ficava ao lado do motorista. Por sorte não foi arremessado para fora do ônibus.

Foi um desespero, junta sacola daqui, senta ali, com os demais passageiros demonstrando grande camaradagem com ele. Até estavam com vontade de rir da situação, mas, o aspecto apavorado do jovem os fazia ficar quietos.

            Hoje, Dr. Jonas transita tranquilamente com a família por essas estradas da vida, sem o incômodo e a vergonha que sentia quando era criança. É certo que faz isso no seu próprio carro, pois, não sei se dentro de um desses ônibus enormes de hoje, o homem não tivesse ímpetos de brotar para fora o que comeu momentos antes. Sorte dos passageiros também. Especialmente daqueles que gostam de viajar com a janela do seu lado aberta.