quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Diário de Um Náufrago (Capítulo XVIII)




EXÉQUIAS PARA UM HERÓI JAPONÊS
 José Pedro Araújo

Já noite alta, tempo em que havia me encostado para também dormir, notei que o doente me chamava; mais me acenava do que propriamente me dirigia palavras. E então, ao achegar-me a ele, apontou para a prateleira cheia de livros. Só entendi o que ele pedia, quando, com imensas dificuldades, soprou a palavra “diário”.
Levantei-me a passei a procurar um livro com essa designação estampada na lombada. Voltei-me para ele que, num demorado e sofrido esforço, repetiu a palavra “diário”, e depois “meu diário”. Compreendi tudo. Ele devia ter escrito seu próprio diário e agora me pedia que o pegasse para ele. Depois desse esclarecimento eu encontrei um velho caderno capa dura, muito amarelado, mas ainda em bom estado. Abri para confirma o resultado da minha procura, e vi que estava escrito em japonês, portanto, ilegível para mim. Virei algumas páginas com um sentimento de revolta a toldar o meu espírito, e logo a frente, três páginas depois da primeira, observei um título escrito na língua de Shakespeare: “Diário de Um Náufrago”. E logo abaixo, e nas dezenas de páginas subsequentes, um texto bem coordenado e alinhado, escrito meticulosamente com uma espécie de grafite. Apresentava-se bem legível, de fácil leitura mesmo.
Voltei com o achado, mas já encontrei o meu amigo japonês imerso em sono profundo. Sentei-me junto a ele, achegando-me à claridade da lamparina que mantinha acesa todo o tempo para iluminar o ambiente. Pensei em aproveitar o momento que ele dormia para dar uma olhada no material que tinha em mãos. Mas, mal havia aberto o diário, algo me chamou a atenção: não ouvia mais o som da sua respiração ruidosa de outros tempos. E isso me fez me achegar mais perto dele para observá-lo. Estava inerte. Parado. Semblante sereno. Apanhei o lampião e levei-o para perto do seu rosto e notei que ele já não mais estava comigo. Pelo menos em espírito. Desesperei-me. Chorei pela segunda vez durante o período em que me encontro aqui. Meu amigo partira. Estava novamente sozinho e abandonado naquela imensidão de ambientes desconhecidos e isolados.
Passei o resto da noite velando o meu defunto oriental. Preparei o corpo, lavei-o, cobri com lençol branco, e sobre o seu rosto, coloquei um lenço branco que encontrei entre suas coisas, ou um pequeno pedaço de pano branco, não sei ao certo, e mantive a vigília pelo restante da noite. Tentei adotar um ritual parecido com o que se fazia na sua pátria. Isso li certa vez em um livro sobre assuntos gerais, coisas que pensei nunca precisar saber. Como não tinha um paletó preto para usar na ocasião, vesti-me com uma camisa escura e de tecido grosso que encontrei junto com algumas outras roupas, e mesmo com a minha calça suja e rasgada em diversos pontos, achei-me covenientemente apropriado para a ocasião, diante das minhas carências.
Tive ímpetos de não me separar dele, pois temia aquela solidão avassaladora que viria com a ausência daquele amigo de tão poucas horas. Mas um odor característico dos corpos humanos em decomposição alertou-me para o que estava por vir. E foi só ai que eu parti para a última etapa do funeral do meu amigo japonês: preparei uma fogueira, fora da gruta, para a cremação. Conhecia o hábito dos japoneses nesse campo também. E sabia que eles davam preferencia à cremação dos corpos dos falecidos, apesar de realizarem sepultamentos também.
Envolto e corpo com o lençol branco, levei-o para fora e o depositei sobre uma grade de metal que encontrei por ali, e, com muito custo, coloquei-o sobre uma pilha de madeira seca que apanhei dentro da caverna. Precisava dar início à etapa final, mesmo achando aquilo tudo muito estranho. E então acendi a pira. O fogo não demorou a se alastrar na lenha seca, enquanto eu me retirei para o interior da gruta. Não tive condições de ficar lá fora. Mas de dentro ouvia o pipocar das coisas que entravam em combustão. E também não suportei isto. Tapei os ouvidos e cai em prostração profunda.
Não sei quanto tempo levou até a consumação daquele ato. Não tinha como saber. Estava em profundo transe, e o estado de catatonia em que me encontrava não me permitiu saber. Só sei que já era noite quando sai da gruta. A escuridão cobria tudo com seu manto negro que precisei me socorrer da lamparina para clarear o ambiente. Tomei um susto. O fogo havia se apagado após queimar a lenha, mas o processo de cremação estava incompleto. Outro choque. Muito mais duro do que tudo o que havia enfrentado até ali. Mas não vou aqui transportar para os leitores a cena macabra que fui obrigado a presenciar e nem muito menos relatar com minúcias o trabalho que tive para concluir aquela operação fúnebre. Esse sentimento, aquelas imagens, vou guardar para mim. E sei que será difícil me livrar daquela visão mórbida enquanto vida eu tiver.
A última etapa do processo foi a de juntar as cinzas e guardar em um vidro com tampa rosqueada e levar tudo para o interior da caverna. Faria companhia a mim enquanto vivesse por ali. Era, em última análise, o meu amigo japonês que se achava dentro daquele pequeno recipiente.

O dia seguinte foi gasto para reordenar as ideias. Senti um vazio enorme na minha vida já tão complicada, e caminhei por horas pela praia. Agora estava completamente sozinho naquela ilha desconhecida e deserta. Não tinha mais dúvidas sobre isto. E isso não me alegrou. Ao contrário, trouxe-me uma tremenda solidão. Nem mais um inimigo a incitar as minhas emoções eu possuía. Agora era a pasmaceira total. O isolamento eterno.
A fome me fez voltar para a gruta. Já devia estar com muitas horas sem comer nada, somente sorvendo infelicidade e desesperança.
Entrei pela caverna adentro e já me dirigia para o velho fogão à lenha quando me deparei com o caderno-diário jogado sobre a cama. Desisti de preparar algo no fogão, apanhei algumas frutas e, com o caderno em mãos, fui para fora para aproveitar a claridade do dia. Sentei-me sobre uma espécie de banco de madeira construído pelo meu amigo, com certeza para contemplar a passagem do tempo que andava lento por ali, e me aprontei para ler o que estava dito naquele diário maçudo.
Incrível como ele possuía uma letra rebuscada, e um tino de organização próprio dos da sua raça milenar. Qualquer pessoa teria dificuldades para escrever naquele caderno de folhas amareladas e enrugadas. Não ele. Sua escrita era firme e linear, redonda e desenhada como uma letra feminina, e não oferecia quaisquer dificuldades para a leitura. De outro modo, possuía uma capacidade enorme de organizar também as ideias e transportar tudo para o papel. Recostei-me à parede de pedra e passei a ler com interesse até mesmo as vírgulas deixadas pelo meu amigo defunto.
Ao abrir melhor o caderno para facilitar a leitura, senti na ponta dos dedos que alguma coisa fazia volume, uma elevação. Abri na página e vi que havia um lápis quase completamente gasto, com uma borracha também já no fim, atado por uma linha de pesca e amarrado no aramado que encadernava aquele volume. Certamente, fora com aquele grafite que o meu amigo oriental escreveu aquele volumoso texto. Ou talvez aquele lápis tenha sido um dos que ele utilizou para registrar tudo o que queria naquele caderno. Passei a ler imediatamente o que lá continha.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

CRÔNICAS VIVIDAS - LUTO COLETIVO

Grafite de Banksy



José Ribamar de Barros Nunes*

Não sou psicólogo nem psiquiatra, mas às vezes, dou palpites sobre assuntos cuja competência cabe mais a esses profissionais. E assim, de quando em vez, invado a seara alheia e me manifesto sobre temas que não domino nem nunca dominarei. Não é raro que eu fale de gratidão, ingratidão, amor, amizade, heroísmo, desmaios d’alma e por ai vai.
O luto faz parte da vida social. Inesperado, previsto ou profetizado, ele se nos apresenta de repente, invadindo o corpo e a alma. Os entendidos e pesquisadores nos advertem de que a vida e o famoso império das circunstâncias exigem que estejamos sempre prontos e preparados para senti-lo, vivenciá-lo e na medida do possível, compreendê-lo e aceitá-lo.
Muitas e muitas vezes, tenho observado o que denomino de “luto coletivo”. O desaparecimento, inesperado ou não, de autoridades, chefes políticos, lideres e heróis, ocasionam esse tipo de comoção, emoção, tristeza e outros sentimentos acontecem em todos os níveis e áreas.
Eles atingem uma parcela grande ou pequena do bairro, da cidade, do estado, da nação ou do mundo. Em nível universal, por exemplo, posso citar os casos e tragédias de Kennedy, ataques terroristas como os de “Onze de Setembro”, Paris, Museu do Louvre e tantos outros.
O luto coletivo pode durar anos ou mesmo ficar para eternidade, da mesma forma que o luto individual pode perdurar, enquanto a vítima viver. A sabedoria popular escreve nos túmulos que “ninguém morre enquanto permanece vivo no coração de alguém”.
O Criador nos livre e guarde do luto individual e coletivo, ou, pelo menos, ajude a criatura a segurar e superar tais sentimentos e emoções inevitáveis.
Não sei se consegui repassar meu pensamento sobre o assunto que considero emblemático e mais do que enigmático.  E assim, abalada, prossegue a marcha da humanidade...

*José Ribamar de Barros Nunes, Assessor Parlamentar, é autor de Crônicas Vividas e Duzentas Crônicas Vividas
E-mail: rnpi13@hotmail.com

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Missiva Endereçada a Meu Pai

Família Araújo - Mamãe, nora, netos, esposos e esposas de netas(o) e bisnetos(uma a caminho)



José Pedro de Araújo Filho

Levei muito tempo, meu querido, para escrever algumas linhas sobre a sua pessoa, pois, sempre que começava algo assim, a emoção se abatia sobre mim com a força de um tornado e dominava tudo com força irremovível. E isso se deu por um longo período. Somente poucos anos atrás consegui super as emoções e dei início à redação de algumas passagens sobre o senhor e chegar até ao fim do que redigia, à custa de muita fadiga. Assim aconteceu com a crônica “Atravessando o Parnaíba no Lombo da Maria Fumaça”, ou mesmo o texto “Um Exímio Contador de Histórias”, ambos publicadas no blog Folhas Avulsas. Hoje, as lembranças continuam muito fortes, mas já consigo, se não acostumar-me com a sua perda, pelo menos conviver com mais tranquilidade com isso. Não foi uma tarefa das mais fáceis, como pode ver, mas consegui avançar desta vez e conclui o que me propunha a fazer. Hoje, dia do seu nonagésimo aniversário de nascimento, (completado nesse dia 17/02), envio-lhe a presente missiva para lhe dar conta de como andam as coisas por aqui.

E começo dizendo que a família que aqui deixou está em franco crescimento. Desde a sua partida para a glória, alguns netos nasceram, e os primeiros até já constituíram suas próprias famílias, e também geram os seus primeiros bisnetos. Oito no total, para ser mais preciso. Seis dos quais do sexo feminino, e, diferentemente da sua própria prole, na qual havia uma supremacia masculina, agora nos veio uma ampla maioria de mulheres. Pra exemplificar como este crescimento está sendo constante, basta dizer que já temos mais um, ou uma, a caminho. De forma que o que começou com cinco, já são vinte e oito, e ainda esperamos por muitos mais. Outro fato interessante nisso, é que todos os seus bisnetos residem no seu estado natal, fizeram o caminho de volta, caminho que palmilhaste lá pelo distante ano de 1951.

Do mesmo modo, como era da sua vontade, todos os netos, com exceção de um lindo rapazinho que nos veio com a formatação um pouco diferente dos demais, mas que é um dos mais queridos de todos nós, os outros cursaram ou cursam uma faculdade. O esforço que o senhor empreendeu para nos enviar para a capital para que pudéssemos continuar os estudos valeu demais. Não restam dúvidas que alcançamos um patamar diferente do que o que nos estaria reservado se permanecêssemos no interior, e ao seu gosto. Estão todos em busca do seu próprio lugar ao sol também e com boas perspectivas.

A sua marca continua sendo forte e respeitada; quanto ao seu legado, tentamos honrar e conferir-lhe novas vitórias. Mas, não posso negar, a sua falta é sentida a cada dia que nasce, a cada manhã que nos recebe com raios solares brilhantes e aquecedores. Tentamos conviver com isso da melhor maneira possível, mas, muitas vezes, sucumbimos às nossas fraquezas e nos abatemos muito para, em seguida, levantar a fronte e seguir adiante com altivez e denodo, como era do seu feitio também. Não repare nisso, pois nos acostumamos a tê-lo como nosso comandante, abrindo caminhos e facilitando as nossas vidas. Foi necessário, assim, que nos reinventássemos como pessoas, e passássemos a abrir as nossas próprias picadas nessa selva difícil que é o mundo. Estamos conseguindo, pois, um Araújo jamais baixa a fronte e se dá por vencido.

Acredito que o senhor ficaria satisfeito com os rumos que demos às nossas existências. Acredito mesmo que o jovem que saiu do sertão do Piauí para se estabelecer naquele interior de difícil acesso, no sertão mais profundo do Maranhão, àquela época também em começo de ascensão como município recém-instalado, ficaria satisfeito com o que conseguiu fazer com muita determinação, coragem e honestidade. A propósito disto, em certo município piauiense, testemunhei um fato inusitado - e até mesmo exagerado e de muito mau gosto – levado a cabo por um pai orgulhoso da família que constituiu: na parede frontal da sua casa, mandou constar em letras em caixa alta e devidamente esculpidas na argamassa, o nome de cada um de seus filhos, a sua formação profissional e o cargo que ocupava. Estava lá, desenhado no reboco, a marca da sua própria vitória. Orgulhava-se aquele homem de ter conseguido aquele feito notável para uma família constituída de tantos filhos e em local tão ermo. Feliz e realizado, queria ele que todos tomassem conhecimento das suas lutas travadas e vencidas. Como já afirmei acima, achei naquele momento algo de extremo exagero e uma ostentação desnecessária. Depois, quando os meus próprios filhos começaram a vencer as suas próprias batalhas, divulgava os feitos alcançados por eles aos amigos com desusada paixão e orgulho. E acredito mesmo que tivesse coragem suficiente para estampar o nome de cada um deles, além das suas glórias, na parede frontal da minha casa, não estivesse ela escondida por trás de um muro.

Obviamente, isso é apenas uma forma de lhe dizer o quanto estamos orgulhosos e agradecidos com o que Deus nos tem proporcionado. E continuamos batalhando dia-a-dia, mês-a-mês, ano-a-ano, para consolidar esses ganhos. Essa é outra coisa que aprendemos com o senhor: nunca esperar que as coisas aconteçam por si só; que a providência nos dê de mão beijada, e de graça, tudo o que almejamos. Vamos atrás das nossas conquista com ardor, mas sem açodamento, sem pisar em ninguém, e sem desejar o que é do próximo, como sempre nos ensinavas ao enunciar a passagem bíblica em que o rei Acabe desejou e tomou para si a vinha de Nabote.

Os tempos por aqui estão difíceis. O mundo está cada vez mais competitivo, e nesse aspecto, mais injusto também. Mas, vamos remando o nosso barco sob o comando da nossa timoneira que aqui ficou e tomou nas mãos a liderança: a nossa mãe, a sua venerada esposa, já agora um pouco alquebrada e afligida por doenças próprias da idade, mas ainda com muita fé e confiança no Nosso Senhor e no futuro. Sob a sua liderança vamos seguindo sobranceiros.

Vou encerrar dizendo que gostaríamos imensamente que estivesse por aqui para festejarmos juntos o seu aniversário de 90 anos. Exatamente no dia em que uma de suas bisnetas completa o seu primeiro mês de vida.  Seria a glória suprema. Mas, respeitamos e glorificamos os desígnios de Deus, mais um dos seus ensinamentos. Então, até o nosso próximo encontro.


Com amor.


Do seu filho mais velho.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Diário de Um Náufrago (Capítulo XVII)




UMA ATITUDE E UMA CONFISSÃO SURPREENDENTES 

José Pedro Araújo

Entremeando os momentos de profundo abatimento em que o meu paciente oriental ficava naquele dia, havia outros em que a energia lhe voltava ao corpo alquebrado. E nessas horas até conseguíamos dialogar um pouco. Foi quando notei que ele era até fluente no inglês, apesar de demorar sempre para pronunciar algumas palavras. Debitei isso na conta dos anos que deve ter passado sem conversar com ninguém. Depois, observei que ele tinha dificuldades para ouvir, mas o seu estado de surdez, apesar de acentuado, ainda não era total, algo que o impedisse de ouvir quando seu interlocutor falava mais alto.
 Ainda na parte da tarde, quando lhe disse que ia voltar para o meu barraco, ficou nervoso e me pediu que não fosse. Isso depois de ponderar que o meu barraco devia ter sido levado pelo furacão. Fato que confirmei. Então ele me pediu que ficasse, reforçando com um “por favor” quase ininteligível. E ciente da minha decisão, voltou a tirar um leve cochilo.  
Acho que cochilei ao pé da cama, pois estremeci quando senti a mão gelado do oriental pousar sobre a minha, e olhei rapidamente pare ele um pouco assustado. Mas logo mudei o que sentia ao verificar que o moribundo respirava com dificuldade, o peito arfando como se ele fizesse um brutal esforço para apanhar o ar pelas narinas e pela boca entreaberta. Foi quando, em voz baixa, desculpou-se pelos males que me havia causado.  Retirando o que lhe sobrava das forças vitais, em poucas palavras disse-me se sentir muito envergonhado pelo que me havia feito. Julgara-me – arfou debilmente - um inimigo americano que viera concluir o que havia deixado por terminar no dia em que abatera o seu avião.  Observei mesmo algumas lágrimas lhe escorrer pela face e depois se perderem na profusão de pelos brancos do seu bigode e da crescida barba.
Foi em um desses momentos em que travávamos um curto diálogo, que ele me confidenciou ser de origem japonesa. Disse-me ainda que estava na ilha há muito tempo, tempo que não saberia precisar com exatidão, apesar de ter vaga ideia da quantidade de anos. Declarou ter pertencido às forças armadas japonesas, desempenhando a função de piloto de caça da marinha imperial. De outra vez, nos breves intervalos entre um sono e outro, falou-me que seu avião havia sido abatido por um piloto de caça inimigo, talvez um americano, ou até mesmo um inglês. E que, como o seu avião caiu muito próximo da ilha, conseguira se salvar apesar das machucaduras, e desde então se escondia de seus inimigos, pois acreditava que seu país ainda estava em guerra contra aquelas nações.
Foi uma surpresa sem tamanho para mim. Achei inacreditável mesmo. Encontrar àquela altura da vida, depois de mais de meio século que a guerra havia terminado, alguém que ainda se escondesse por acreditar que a guerra ainda estava em curso era algo que fugia de tudo o que já havia visto ou ouvido. Eu nem era nascido ainda quando fora assinado o armistício que pôs fim aquela maldita guerra, e aquele pobre homem ali, perdido no meio daquele arquipélago, sempre as voltas com inimigos fictícios, com fantasmas saídos da sua cansada mente. Mas tudo era possível por ali. As coisas que me haviam acontecido nesses últimos tempos me forçavam a crer em tudo agora. Até mesmo em Mula-Sem-Cabeça, Saci Pererê, Sereias e Ninfas. Tudo mesmo. Só estava começando a duvidar se algum dia sairia daquela ilha, a julgar pelo tempo que o agora amigo oriental estava por ali.
Foi então a minha vez de lhe contar que aquela guerra já acabara há mais de cinquenta anos. E que, hoje, americanos e japoneses são grandes amigos e parceiros comerciais de grande vulto. Mais que isso: que os dois países se encontravam em posição de destaque no mundo moderno. Informei-lhe ainda que o Japão passara longo tempo sem suas forças de segurança, só voltando a contar com elas após a desocupação do seu território pelas forças armadas americanas poucos anos antes. Foi então que o vi chorar copiosamente, enquanto balbuciava a pergunta que mais lhe afligia: o seu país havia de fato perdido a guerra?
Acredito que ele já sabia a resposta. Perguntara por perguntar. Confirmei com um aceno, mas lhe disse que seu país já havia se recuperado integralmente dos efeitos daquela guerra. Pelo menos no que tange à parte estrutural, desenvolvimentista e econômica.  Que hoje o Japão era uma das principais nações do planeta, e o povo vivia um período de grande felicidade e prosperidade.
Após alguns minutos em que caiu em profunda prostração, indagou-me sobre o seu imperador, o Imperador Showa, como chamava Hirohito. Disse-lhe que ele continuou a reinar sobre o Japão, mas que já havia falecido. Em seu lugar, conclui, subira ao trono o seu filho, Akihito. Aquiesceu, mas queria ouvir mais de mim.
Passei horas contando-lhe como andava o mundo lá fora. E ele, após curtos períodos de consciência, novamente dormia, para depois acordar e me inquiri sobre tudo o que mais lhe interessava: o Japão, a guerra, o mundo, enfim. Calculou que estivesse agora com cerca de oitenta e três anos, a maior parte deles vividos naquela ilha perdida no fim mundo.
Estávamos assim, mas uma coisa me preocupava. A saúde do agora meu senhorio mostrava estar em processo acelerado de piora. Ele já não conseguia se firmar nos cotovelos para me encarar, do mesmo modo que a sua respiração apresentava-se mais ofegante, e ele agora sorvia o ar com brutal e crescente dificuldade. Mas já não via mais em seus olhos a chama da desconfiança, ou mesmo da intranquilidade.
Nesse segundo dia, já com a tarde se encaminhando para o fim, ouvi barulho de motores. Parecia o som de helicópteros. Ensaiei uma saída brusca para fora da gruta, mas o moribundo, que pensei estar imerso em sono profundo, segurou a minha mão com desusada energia e com voz quase imperativa pediu-me que ficasse. Ainda tentei resistir à ordem, mas ele segurou-me com as duas mãos e pediu-me novamente que não me fosse. Em seu rosto vi estampado um pavor tão velho quanto a sua estada por ali. E então quedei, sabendo que estava jogando fora, talvez, a última chance de sair da ilha.
 Tinha plena consciência de que aqueles helicópteros buscavam sobreviventes do furacão nas ilhas mais afastadas. E que, seguramente, não voltariam mais para procurar por ali. Mas não resisti ao que vi no rosto do oriental. Então, notei que ele ficou aliviado com a minha decisão, voltando a reclinar a cabeça no travesseiro de palha.
Já não conversávamos muito. Uma fraqueza avassaladora tomou conta do meu paciente, e até mesmo os acessos tosse, antes tão fortes e barulhentos, reduziram de intensidade, e agora se restringiam a um pigarro fraco e sem resultados.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

LÁ PELOS IDOS ANOS DE 1969!




José Pedro Araújo

Esta semana fui surpreendido por uma fotografia postada por minha irmã no Whatsapp. Era a foto do meu convite de formatura do curso ginasial. Ano: 1969. A emoção aflorou por todos os poros e o coração bateu forte e saudoso ao me deparar com aquele singelo convite. Mas, e, sobretudo, por relembrar tantos colegas que há muito não vejo e, especialmente, por identificar ali alguns que já se foram e nos deixaram tanta saudade. E foram muitos, a maioria partiu na flor da idade, ainda construindo a carreira que tanto sonhou e planejou naqueles dias.

Resolvi juntar à foto do convite, outra que já postei aqui neste espaço no qual aparecem alguns dos vinte e três colegas concludentes, e rabiscar algumas linhas sobre o assunto. Nesta última fotografia, estão ausentes sete colegas concludentes que, a esta altura da vida (passados já quase quarenta e oito anos), não sei por que ficaram de fora: se por não terem participado da solenidade de formatura(o mais provável), ou se por simples vontade de não registrar a sua imagem para a posteridade.

O que tenho certeza é que por aquelas cabeças jovens transitavam muitos sonhos, e muitas interrogações também. Mais interrogações do que certezas, posso afirmar. Muitos sonhos, poucas certezas, e uma montanha de indagações de como seria o porvir. Deus se encarregou de traçar o caminho de cada um de nós. E quem somos nós para contestar os seus desígnios? O certo mesmo é que muitos saímos em busca de um futuro melhor, de um lugar ao sol, e não mais retornamos. A não ser por curtíssimo tempo e para matarmos a imensa saudade dos que deixamos para trás.  No meu caso, por exemplo, tento superar isso revivendo, e revirando, esse passado e registrando tudo através das linhas que escrevo, pois retorno menos à minha querência do que gostaria. É assim que me conecto diariamente ao meu velho e querido torrão! Bendita tecnologia que nos permite isso!

Sou imensamente grato ao velho GPD. Sou mais reconhecido ainda aos homens e mulheres que me proporcionaram a oportunidade de galgar novos patamares na vida. No que pese às dificuldades para se organizar um quadro de docentes de bom nível em cidades do porte daquela pequena comuna daqueles tempos, o destino tramou favoravelmente e nos enviou professores de altíssimo nível para sanar o problema.

Olhando mais uma vez a foto com os colegas devidamente trajados com a elegante farda do colégio, é possível concluir que saímos de lá prontos para enfrentar o futuro. As lições recebidas e os conhecimentos obtidos nas salas da vetusta União Artística Operária e Agrícola de Presidente Dutra, embasaram-nos fortemente para os embates que travaríamos dali para frente. E todos nos saímos satisfatoriamente. É o que posso concluir hoje. Nossos professores, a maioria ainda transitando entre nós, podem se orgulhar da obra realizada. Prestaram inestimável serviço àquele grupo de jovens imberbes e sonhadores, a maioria mal saída da adolescência, e abriram caminho para uma vida menos cheia de sacrifícios.  

Ao idealizador do Ginásio Presidente Dutra, Dr. José de Ribamar Fiquene, que, assim como nós, também partiu dali para alçar voos mais altos, chegando a ocupar o honroso cargo de Governador do Estado do Maranhão, a nossa eterna gratidão. E por tudo o que fez por aquela cidadezinha perdida àquela época no mais profundo e obscuro sertão maranhense, merece ele ser homenageado pelos nossos conterrâneos. Assim também, rogamos graças a todos aqueles que são lembrados no convite. Um deles, aliás, o meu dileto amigo Onildo Fortes de Sá Menezes, brilhante professor de Matemática, e nosso grande incentivador, também concluiu o seu curso de Engenharia Civil somente anos após a solenidade em que colamos grau e que tem o seu registro nesse simples Convite de Formatura que ora encabeça esta singela crônica. Tenho ainda a felicidade de contar com o nobre professor como um dos fieis leitores desse despretensioso blog. E isso muito me envaidece. Felicidades ao grupo de 1969, segunda Turma do GPD!