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| Auto retrato - Van Gogh sem a orelha |
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Elmar Carvalho, é poeta, romancista, cronista e juiz aposentado.
É membro da APL.
Conforme expliquei no registro anterior, o Chico
Acoram Araújo me pediu fizesse um poema sobre Licurgo de Paiva, meu patrono na
Academia Piauiense de Letras; lhe apresentei fundamentadas escusas para não
aceitar a missão, mas ante sua amável insistência terminei cometendo o poema
acima transcrito.
Mas logo após, o Acoram disse que ficaria honrado
se eu fizesse a orelha de seu importante livro "O menino, o rio e a
cidade". Sem relutância aceitei o honroso ofício. O texto segue abaixo,
mas antes tenho a satisfação de informar o leitor que o Chico é um servidor
público exemplar pela sua dedicação e pelo tempo de serviço prestado, pois
acaba de completar 45 anos de efetivo exercício, sendo 30 no INCRA e 15 na
Advocacia Geral da União, na condição de cedido, fora 3 na iniciativa privada.
Mas não pude deixar de lhe advertir que o otium
cum dignitate, nos dias de hoje, é uma dádiva e um privilégio de poucos. A
aposentadoria bem usufruída é importante para uma vida mais digna e mais feliz
e para o exercício da criatividade em outros setores, sobretudo das artes. Eis
a orelha, que espero não seja troncha, nem de abano:
ORELHA DO LIVRO DE ACORAM
Ao me pedir Chico Acoram para que eu lhe fizesse a
orelha de seu livro, fiquei um tanto apreensivo, porque esse espaço deve
necessariamente ser diminuto, e eu temi não ter a devida capacidade de síntese.
Por outro lado, receei fazer uma orelha troncha, como a de Van Gogh, que em ato
impulsivo e tresloucado se automutilou.
Mas, depois, pensei comigo mesmo, que o texto não
precisaria ser uma “orelha de anjo”, muito certinha, muito perfeita, muito
cheia de detalhes e arremates minimalistas, pelo que decidi fazê-la humana,
demasiado humana, com imperfeições, chistes e emoções.
O próprio autor nos revela, em sua apresentação,
que começou a escrever textos literários já sexagenário, por estímulo inicial
do escritor e historiador José Pedro Araújo, e depois por instigação do poeta e
advogado da União Dr. Francisco de Almeida e deste rabiscador.
Embora temporão (mas nunca extemporâneo), ao
produzir belas crônicas e excelentes artigos e ensaios historiográficos, já
começou por cima, sobrevoando um planalto, como um condor andino, enquanto
muitos, que começaram precocemente, nunca saíram da planície e da várzea, onde
mourejam em dura labuta.
Na apresentação, o autor conta um fato pitoresco,
em que eu teria sido protagonista. Farei uma síntese desse episódio, e lhe
darei a minha justificativa.
No velório de meu pai, Miguel Arcângelo de Deus
Carvalho, acontecido em 06/11/2017, já que ele morrera ao pôr-do-sol do dia
anterior, eu, ao conversar com ele e com os escritores Fonseca Neto e José
Pedro Araújo, o estimulara a publicar um livro, posto que ele já teria material
suficiente, em termos de quantidade e qualidade.
Ele me respondeu que não o faria, uma vez que ainda
não havia sido picado pela mosca azul. Incontinente, eu teria retrucado: – Mas
você, Acoram, jamais será picado pela mosca azul; sabe por quê? Porque o amigo
é a própria mosca azul.
Com isso não estava eu querendo dizer que ele fosse
um vaidoso. Muito pelo contrário. A mosca azul não é vaidosa, ela apenas
inocula nos outros o veneno da vaidade, que não mata, mas muitas vezes cega a
consciência, fazendo com que a vítima descambe para a ostentação e falta de
senso crítico e do ridículo.
Eis que agora, passados mais de três anos do fato
anedótico relatado, o Acoram, barrense, último cacique da tribo dos Marataoãs,
nos aparece com este excelente livro, em que coligiu suas belas e emocionantes
crônicas evocativas, memorialísticas, e seus instigantes e elucidativos artigos
e ensaios historiográficos, que muito contribuirão para o enriquecimento da
História de Barras e do Piauí.