sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Retornando ao Princípio

(www.impaktovisual.com.br)

José Pedro de Araújo

            Quando me perguntam qual o colégio que me deixou mais saudades, eu respondo sem o menor receio de errar. Não foi a Universidade Federal de Pernambuco, onde me graduei, e muito menos os Liceus, piauiense ou maranhense, onde cursei o segundo grau. Diria sim, e em cima da bucha, que foi o Ginásio Presidente Dutra. E seria muito fácil também justificar: lá vivi momentos de verdadeira felicidade que me deixaram saudades.

            Tudo começou com o “vestibularzinho” que tive que enfrentar para transpor a barreira do Primário, como era chamado o hoje Ensino Fundamental. Minha aprovação no gargalo denominado “Exame de Admissão ao Ginásio” me causou mais alegria do que propriamente a aprovação no vestibular, podem estar certos disto. E essa vaidade sofria acréscimo ao extremo quando subia a Rua Grande em companhia do meu pai, vestido com aquela vistosa farda: calça comprida, azul marinho, camisa branca de mangas longas e gravata também azul. Como cursávamos o Ginásio juntos, ele um ano à minha frente, poderíamos dizer que ali ia um verdadeiro par-de-jarros. Ou mais precisamente, um jarrão e um jarrinho, dado a diferença de tamanho entre nós. E não fosse pela dificuldade de chegar até o colégio, uma vez que meu velho parava a cada dez metros para cumprimentar algum amigo - de um lado e doutro da rua - só tinha motivos de alegria quando subíamos a rua juntos em direção ao velho prédio da União Artística e Operária. Era lá que funcionava o Ginásio.

Naquele tempo estava em marcha uma verdadeira revolução nos costumes, com os jovens trocando suas roupas sisudas por outras mais alegres, coloridas, e até deixavam crescer os cabelos. Foi também a época do surgimento da bermuda e do biquíni feminino, momento em que as mulheres começaram a deixar seus corpos cada vez mais à vista. A coincidência de tempos pesava favoravelmente para o meu velho Ginásio. A combinação de época de festas, com juventude a mil, contrastaria com os períodos subsequentes onde a responsabilidade já começava a pesar nos nossos ombros.

E ainda havia a turma. Garotões, a maioria com a minha idade, conhecidos de longas datas, planejando o futuro como se a felicidade estivesse ali depois da esquina e não dentro de nós, como ocorria de fato. Muitos de nós chegamos cedo a esta conclusão porque trombamos pelo caminho com a dificuldade de sair para estudar fora, sempre em razão dos problemas financeiros vividos pelos nossos pais. Outros, menos felizes, se viram barrados pelo fantasmagórico vestibular mais adiante, e tiveram também que retornar para abraçar uma profissão mais cedo. Todavia, alguns tiveram pior sorte ainda. Tiveram a vida ceifada precocemente, como três ou quatro dos nossos colegas de quem me recordo agora quando digito esta crônica. Alguns, como o amigo Jean Carvalho, companheiro de sala de aula desde os primeiros anos do Grupo Escolar, ainda teve tempo para formar-se em medicina, e chegou até a se eleger deputado estadual. Mas, partiu para o além quando seus filhos ainda estavam muito pequenos. O bom e alegre Zé Hugo, piadista inigualável, também faleceu na flor da idade. Com este nos reuníamos aos sábados em sua casa em São Luís, na Vila Ivá Saldanha, para rememorar e bebemorar os velhos tempos. Bastinho, ciclista ousado que partiu para o além em razão exatamente da grande afinidade que tinha com a velocidade, e o bonachão Nonato Curado, barbaramente assassinado por indivíduos que preferiam sair pela vida semeando infelicidade e causando dores profundas nos seus semelhantes, ao contrário de Nonato que preferia a paz e a amizade.

Mas, volto aos momentos felizes do início desta crônica, para contar um fato acontecido em sala de aula, quando cursávamos a segunda série, se a memória não me trai. Presidente Dutra é uma cidade rodeada por outras muito próximas, e muitos colegas de turma eram originários exatamente desses municípios satélite. Como o brincalhão Chico Figueiredo, descendente da melhor estirpe dos habitantes do Tuntum. Figueiredo residia em casa vizinha a minha, parede e meia, como costumamos chamar. Esperto e aventureiro, participou de algumas trapalhadas comigo. É claro que a maioria dessas brincadeiras não pode jamais constar de algum escrito, sob pena de censura imediata.

Mas, como ia dizendo, o esperto Chico Figueiredo logo se aproximou de mim quando me viu um leitor compulsivo de revistas de quadrinhos, coisa que ele apreciava bastante também. E nesse ramo, quem já foi leitor, ou ainda continua sendo, como eu, sabe que para valorizar bastante os nossos parcos dinheirinhos, utilizávamos o método de troca-troca e, assim, sempre tínhamos alguma coisa nova para ler. 

Chico também estudava na mesma turma que eu. Certa noite, estávamos em sala de aula para uma prova de história, ministrada pelo grande e ilustrado professor Hubert Lima de Macedo. Ótimo professor, Hubert também era muito exigente e sempre aplicava provas com inteligência e sagacidade, a fim de permitir ao aluno discorrer sobre os assuntos estudados. Mas também primava pela lisura do teste e não permitia a tradicional pesca ou cola. Mas, quando se trata de estudantes de qualquer época ou país, esta é uma tarefa impossível de realizar, por mais competente que o mestre seja.

Nessa prova havia uma questão sobre o último ponto dado em sala de aula, que parece não ter sido muito considerado pela maioria da turma.  Era uma indagação de quem havia construído a primeira estrada de ferro no Brasil e, de onde para onde. Pouquíssimos sabiam quem havia sido o ilustre construtor.

E mesmo com todo o rigor, na turma a pergunta corria célere. E a resposta que voltava era invariavelmente a mesma: não sei. “Não sei, não sei”, “estou deixando esta em branco”, “sei lá quem foi o maluco!”, era a resposta para quem indagava. Conformados, os primeiros alunos foram entregando a prova e saindo da classe. Chico Figueiredo, que além de um aluno regular, era um gaiato contumaz, após sair da sala se aproximou do janelão de madeira que permanecia entreaberto, e cochichou para Nonato Curado que estava mais próximo: “O nome do cara da estrada é Chipp Larson”. “Como?” - Nonato chegou o ouvido mais próximo da janela. “Chipp Larson, “C, h, i pp, Larson, respondeu o brincalhão. “Que diabos de nome é esse, rapaz”, resistiu Nonato. “O inglês maluco que construiu a primeira estrada de ferro no Brasil, rapaz!”.

E ai, como um rastilho de pólvora, o nome do cara flutuou pela sala. A grafia é que variava um pouco: Chip Larson, o primeiro. Dip Larso, depois. Lip Larso, Chite Laso, até que os últimos já colocavam nomes que nem de longe pareciam com o primeiro nome da cola.

Bom, antes que me esqueça, sei que todos sabem quem foi o grande empreendedor, mas somente para recordar a quem está momentaneamente com problemas de memória, quem construiu a primeira estrada de ferro no Brasil foi o Visconde de Mauá, ou Irineu Evangelista de Sousa. E Chipp Larson era o nome do chefe de um bando de salteadores que constava da última revista de Western que o gozador Chico Figueiredo havia lido na tarde anterior. Poucas horas antes da prova, portanto.

  Agora, o resultado da brincadeira não foi nada engraçado. O professor Hubert, mais decepcionado com seu sistema de segurança contra pesca do que propriamente com a resposta dada, inquiriu a turma para saber quem havia inventado aquele nome estranho. Ameaçou até punir a turma toda, mas não obteve a resposta que queria. Pois, o único aluno que sabia quem havia passado aquele nome esdrúxulo, era o Nonato, e esse, nem sob tortura, revelaria o nome do brincalhão que havia inventado a asnice.

Espero que vocês compreendam agora o porquê de considerar o velho ginásio como o melhor colégio pelo qual passei. Era um tempo de brincadeiras inconsequentes, mas que não provocavam maiores danos a quem quer que seja. Também não rolava esse negócio de álcool, drogas ou qualquer outro tipo de psicotrópico.  O que rolava era a amizade, o companheirismo, a paixão também, por que não? Tudo dentro da maior felicidade e harmonia. Como diria mais tarde aquele famoso cantor: velhos tempos, belos dias!

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Consegui Provar Que Sou Servidor Público Estadual




Virgílio Queiroz
Contista, cronista, historiador, advogado, jornalista, servidor público estadual

Cheguei à Secretaria de Administração do Estado do Piauí com um objetivo; me recadastrar. Estava com medo de ter meu contracheque retido (como aconteceu por diversas vezes. Obs: não vou contar os motivos. Outro dia, quem sabe).

Havia um vuco-vuco na sala antes, onde servidores estavam desesperados por conta do contracheque retido. O meu não estava e eu passei direto. Documentação incompleta: faltava a portaria de 1915 (quinze mesmo!) do meu início de trabalho. A Amanda me disse: “vá buscar e venha na parte da tarde. Quatro horas não tem seu ninga”. Voltei no horário marcado. Agora o vuco-vuco era no auditório. Eu disse: valei-me Virgem Santíssima! E agora, dona Aurora!

Ei, Amanda, você disse que não ia ter seu ninga! Aqui está entupetado de gente! Ela disse: “é, pois é... eu num contava com isso não. Mas, peraí, vou resolver”. Olhou minha documentação e tudo ok. “Olha, seu Virgílio, fale com a Patrícia”. Morena linda, apesar de sisuda. Ela me disse que era melhor eu vir no outro dia pois, às 17:00h, ela iria embora. “E aí, eu vou enfrentar todo esse balacobaco de novo?”, perguntei-lhe. “Amanhã, chegue às oito horas. O senhor não enfrentará fila. Olhei a morena de cabo a rabo. Parecia não ter defeito (rosto, resto do corpo, etc.), tirando a sisudez.

No outro dia, às 07:55h, eu estava rente. Não havia tanta gente na sala onde houvera o pipoco no dia anterior (umas 50, talvez). Vi a Patrícia (linda como ontem). Mostrei-lhe o papel com sua letra, autorizando a minha ida, no dia seguinte, sem pegar fila. Ela, pela primeira vez, me olhou, e para minha surpresa e satisfação, pegou-me pelo antebraço e levou-me à sala do pipoco (acho que, por dentro, ela estava dizendo assim: vou levar esse porra pra longe de mim). “Fique esperando a chamada. 318, 319!”, ela chamou os servidores para uma outra sala de atendimento (bem mais vaga).

Olhei minha ficha e vi 320. O guarda disse: “entre, espere sentado, no ar refrigerado”. Eu respondi que ia ficar fora, pois estava chegando a minha hora. A Patrícia passou, passou, repassou e necas. Não pegou no meu antebraço e nem disse nada. Eu perguntei para o guarda: “não vão me chamar? “. Ele disse: “é por ordem de chegada. O senhor se senta na sala e vai atendido”.  Olhei, a sala tinha recebido mais gente. Talvez já com 60 ou mais pobres servidores. Esperiquitei-me e gritei como se fosse o Sílvio Santos: Patríciiiiiiiia! Ela, me olhou e disse: “o que foi?”. Ela podia ser a mulher mais bonita do mundo, mas o meu orgulho estava ferido. Que barato é esse! Eu sou o 320! Você chamou o 318 e o 319. E eu!? “Espere na sala”, disse-me. Eu disse: “nem morta, dona Carlota, eu não saio dessa porta!”. Ela cedeu, eu entrei.

Um rapaz(?) me atendeu: “os documentos, por favor” (disse, sem antes soltar um sorrisinho matreiro). Virou-se, espreguiçou-se sensualmente e disse para uma colega ao lado: “menina, estou com uma gripe daquelas! Tomei nimesulida, recebi até injeção no bumbum. E continuo gripada (quis escrever gripado). Ele pegava os meus documentos, passava a mão num papel higiênico amassado e embebido em álcool, assuava o nariz. Toda porcaria possível. De vez em quando ele bichichava: “ui! A internet caiu! Oh! (esse “oh” era a identificação, além da mãozinha levantada até a altura do ouvido). Depois de uns 20 minutos que me pareceram duas horas, ele bateu as mãozinhas e disse: “pronto, finalizei”. Passei, ainda, por outra sala, mostrei novamente os meus documentos (parecia o tempo de estudante universitário quando tive que ser identificado pela PF ). O rapaz, outro rapaz (desta vez, rapaz), disse que o recadastramento estava concluído.

Estou em casa, acamado. Rouco, com febre, gripado. Tomei um antigripal, nimesulida, acebrofilina (injeção no bumbum, não), tudo contraído pelo rapaz do “ui e oh”. Mas, confesso, estou feliz, consegui provar que sou servidor público do Estado do Piauí.    

sábado, 3 de outubro de 2015

Viajar, o doce ofício (1)

Convento da Penha(ES)

Anchieta(ES)
José Pedro Araújo


                Hoje inicio uma série de crônicas sobre o prazer de viajar, conhecer novos lugares, novas pessoas, novos ares, novas culturas e climas distintos. E começo justamente pela última viagem que fiz agora em setembro, para Vitória, no Espírito Santo. A propósito disto, ao saber que havíamos viajado para o Espírito Santo, um sobrinho meu, humor afiado e um enorme gosto por conhecer novos lugares, foi taxativo: “nunca conheci ninguém que tenha afirmado que viajou a turismo para Vitória”. Nem eu, respondi-lhe com incredulidade, pois não havia pensado nisto.

 Temos um grupo de amigos que gosta de viajar. E viaja duas vezes por ano, pelo menos. O que começou com uma simples brincadeira, hoje passou a ter um calendário exato, com datas fixas, em julho e setembro. Terminada uma viagem, na volta já se discute o próximo roteiro. E viajam por gostam, porque a união do grupo faz com que se sintam bem, e protegidos. É como se nunca se tivesse saído de casa, pois, o que mudou, na realidade, foi a paisagem, o ecossistema, porque os amigos estavam ali, juntos como sempre, com suas brincadeiras e sorrisos espontâneos.

Recentemente, uma pesquisa sobre os prazeres da vida apontou, em primeiro lugar, o ato de viajar. Não conta ai aquela coisa do relacionamento a dois, a família, etc. Falava-se sobre o tal sonho de consumo. E a cada resposta dada por um entrevistado, vinha também a justificativa, o porquê de ter escolhido isto ou aquilo como resposta. A resposta dada pelos que afirmaram ser a viagem o principal item na pauta dos prazeres terreais, dizia que viajar é um prazer que dura para sempre. Diferentemente de um bem que se adquira, como um carro novo, por exemplo. O sentimento de prazer por uma viagem realizada não acaba nunca. Sempre que vemos algo sobre aquela cidade ou região visitada na TV, por exemplo, as lembranças são reavivadas, o prazer avulta em nosso íntimo. A compra de um bem, não. Logo nos acostumamos com o objeto adquirido e ele passa a ser um item a mais na nossa coleção de coisas.

Sai da estrada principal para tomar um atalho, mas já estou de volta ao começo da nossa viagem. Estava dizendo que a última viagem que fizemos foi para o Espirito Santo. Estado pequeno, espremido ali entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais, tão pequeno que quase passa despercebido de quem manuseia o mapa do Brasil. Mas que belo Estado! Que povo simpático, cativante, e empreendedor! O estado possui uma zona litorânea das mais belas do país, mas também possuí a sua região serrana, onde pontificam os descendentes de Alemães e de Italianos.

Começamos por Vitória, a capital, pequena cidade com pouco mais de 327.000 habitantes. Envolvida por praias, possui imensos e amplos calçadões, próprio para quem gosta de viver e se divertir ao ar livre. E como tem gente apreciando a beleza e utilizando toda a infraestrutura instalada. Parece até que a quase totalidade da população da cidade gosta de se divertir ao longo das praias que bordejam a cidade, tal a quantidade que se acha se divertindo logo que o sol começa a se esconder atrás da cadeia de montanhas. Possuí a cidade também uma rede hoteleira muito boa, com ótimos preços, algo que não vemos no nosso litoral em hospedarias infinitamente mais pobres.

E, logo ao lado – é só atravessar por uma das pontes – temos a nos encantar a bela  Vila Velha, antiga capital. Com população em torno dos 414.000 habitantes, portanto, um pouco maior que a da capital, a cidade possui o encanto das cidades antigas, com seus casarões em estilo barroco, e suas ruas estreitas, mas de agradável charme. Fica encravada também no belo litoral e, segundo a apreciação de alguns dos nossos companheiros de viagem, possui mais atração para se morar do que a vizinha capital. E, a julgar pelo que disse a nossa guia de viagem, os preços dos alugueis e dos serviços também são menores. Com uma orla marítima bem cuidada, os calçadões também chamam a atenção pela qualidade e limpeza, mas também pelo número de pessoas que aproveitam todo aquele espaço para caminhar, praticar esportes e se divertirem. E ainda tem, além de tudo o que dissemos, a igrejinha da Penha, templo erguido no alto de um monte rochoso ainda no começo da nossa colonização, aí por volta do século XVI. De lá temos a vista mais bela das duas cidades: Vitória e Vila Velha. O Convento da Penha é um local de visitação pública de beleza inestimável. Cercado pela mata atlântica, constitui-se em um dos melhores pontos turísticos do estado. Eleva o espírito, uma visita ao vetusto convento.

Nos dias seguintes fomos conhecer as montanhas capixabas e seus encantos. Surpreendente como aqueles descendentes de europeus aproveitam cada pedacinho de chão apropriado para a agricultura ou a pecuária. Da estrada é possível ver algumas vaquinhas se equilibrando sobre encostas elevadíssimas e recobertas de capim rasteiro, ou pessoas amanhando a terra fértil e declivosa. Somente para subir naqueles paredões verdes já é um sacrifício, imagine-se trabalhar a terra o dia inteiro naquelas condições. Mas o resultado do seu trabalho pode ser visto nas fazendinhas onde é possível adquirir de tudo um pouco: desde queijos de vários tipo e sabores, embutidos e doces, cristalizados ou em compotas. Lá se agrega valor aos produtos agrícolas por eles cultivados. E que satisfação eles demonstram à chegada dos turistas. São profissionais, fazem questão de demonstrar isso. E são recompensados por isso. Temos muito que aprender com eles. Em algumas cidadezinhas que passamos, como Venda Nova do Imigrante, Marechal Floriano ou Domingos Martins, por exemplo, o agroturismo é forte, e gera renda para os micro proprietários rurais. E o clima serrano é outra atração. Gostoso, alentador, encanta ao turista que teve a felicidade de escolher o ES como roteiro de suas viagens.

E eles ainda têm a bela e aconchegante cidade balneária de Guarapari, e a antiga e também litorânea Anchieta, em cuja igreja matriz encontra-se sepultado os restos mortais do padre Anchieta. Ou não. Há quem afirme que o corpo do religioso foi transladado para Portugal. O certo é que, pelo menos um pedaço da tíbia, que se afirma pertencer a Anchieta, é possível ver em uma redoma de vidro. Bela cidade, belo conjunto arquitetônico, e tudo isso  com o mar a poucos metros, enriquecendo o local com a sua beleza.

Estivemos ainda em Cachoeiro do Itapemirim, cidade onde nasceu Roberto Carlos. A cidade em si não é lá muito bonita, mas conhecer a pequena e humilde casa onde nasceu o rei da jovem guarda vale o cansaço da viagem. A casa foi transformada em um pequeno museu pela prefeitura do município, e nela é possível ver alguns objetos que diz-se ter pertencido a sua família, como o velho piano, por exemplo. A visita vale mais pelo sentimentalismo que termina por nos envolver ao ver que daquela minúscula casinha saiu para encantar o mundo com a beleza das suas canções um jovem sonhador.

Encerramos o nosso périplo pelo Espírito Santo com um passeio de trem pelas montanhas Capixaba. Belíssimo programa que encanta tanto pela beleza dos locais por onde passamos como pela visão da Mata Atlântica intocada em alguns pontos mais elevados.

Visitar o Espírito Santo é um programa que enriquece e alimenta a alma do viajante. Gostaria de ter mais espaço, e mais competência, para descrever sobre as delicias de uma viagem ao menor estado da região sudeste do Brasil.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

A vida longe de casa



  José Pedro Araújo
 
As mães têm razão em se preocupar quando um filho ganha o mundo atrás da sua própria sorte. No geral, elas ficam imaginando que tipo de problemas vamos encontrar pela vida afora, quais os perigos que correremos, e isso faz com que se perguntem se os filhos foram realmente bem orientados e se saberão enfrentar as vicissitudes que encontrarão pelo caminho. Na maioria das vezes, não estão.  Não sabemos como reagir a determinado tipo de óbice que encontraremos pela frente. Mas, o homem foi dotado de inteligência exatamente para saber encontrar saídas para qualquer tipo de dificuldade, desde as mais simples até aquelas em que sua própria vida está em jogo. Na maioria das vezes, com alguns arranhões e uma dose excessiva de sofrimento, nos safamos com certa competência dos entraves mais difíceis que a vida se nos apresenta.

Comigo não aconteceu diferente. Quando sai de casa, contava com meus quinze anos incompletos e encontrei um mundo cheio de novidades a desafiar o meu aprendizado doméstico. Pelo jeito, ainda não parei de tentar aprender como me situar bem nesse ambiente que teima em me por à prova continuamente e, na maioria das vezes, quando isso acontece, vejo que as experiências adquiridas não foram suficientes, e ai tenho que usar da criatividade para não sucumbir ao novo desafio. Posso dizer que já vi muita coisa nesse mundo velho que eu nem de longe achava que fosse possível existir. Coisas boas, coisas ruins, outras nem tanto. Situações de extrema beleza, outras muito feias. Mas, sempre é possível nos depararmos com acontecimentos que nos causem verdadeiro estupor. O certo é que vamos vivendo e aprendendo continuamente, sempre viajando rumo ao desconhecido.

Quando atingi dezoito anos, mudei-me para Recife, para cursar Engenharia Agronômica na Universidade Federal Rural de Pernambuco. Fui morar no campus da própria Universidade, lugar onde ficavam os estudantes com menor poder aquisitivo, pois os mais bem aquinhoados financeiramente se organizavam em grupos e formavam uma nova república. Quem procurava uma vaga para viver no próprio campus, sabia de antemão que teria de obedecer a regras rígidas, enquanto que os moradores das repúblicas de estudantes ditavam as suas próprias regras de convivência e, no geral, possuíam mais liberdade de ação do que os primeiros. Não foi fácil me acostumar à nova vida. Ali, no princípio, tive que organizar a minha vida sozinho: lavar a minha própria roupa, me virar para arrumar comida quando o final de semana chegava ou quando vinham os feriados prolongados; manter o quarto de dormir em perfeita ordem era basilar, e me defender, construir o meu próprio espaço em meio ao clima feroz que se instalava a todo começo de ano letivo, quando os alojamentos recebem novos moradores. A propósito disto, tive que sair às vias de fatos por duas ou três vezes, para mostrar para os colegas que a minha estada ali era definitiva, pelo menos até a conclusão do curso. Era assim na hora do jogo de futebol, na escolha do melhor local e da melhor posição no beliche e, até mesmo, na hora de assistir a TV.

Antes disso, já vinha acumulando as minhas experiências, vivendo em pensionatos dos mais diversos, onde as coisas aconteciam muito diferente do que costumávamos ter em nossos lares. Em São Luís do Maranhão tive a oportunidade de conhecer alguns dos piores pensionatos da face da terra. Geralmente ficavam localizados em algum dos prédios antigos localizados na região velha da cidade, por dois motivos: por serem sempre muito espaçosos, dando para acomodar muita gente, mas, principalmente, por serem de baixo custo os seus aluguéis. Baixo preço porque estava, a maioria, em petição de miséria, mais parecendo escombros de uma cidade abandonada. Geralmente, também, as pessoas que se dedicavam a montar um pensionato desses, faziam assim para ter alguma ocupação à total falta de outro meio de vida. Deste modo, criavam a sua própria família em meio à estudantada que ia chegando para morar com eles.

Certa vez, fui residir em um velho prédio da Rua de Santana. A república estava em formação e uma parte dos estudantes era originária da minha cidade. As acomodações eram simplicíssimas: um grande salão foi dividido por tapumes de compensado de cerca de um metro e oitenta centímetros de altura de modo que coubesse cerca de três a quatro pessoas em um espaço de cerca de nove metros quadrados. As redes se entrançavam umas nas outras e era comum acordarmos no meio da noite após tomar um chute do colega que dormia ao lado. A comida também era de qualidade no mínimo duvidosa e a quantidade também deixava a desejar, em uma época da vida em que os jovens costumam comer muito. Assim, logo que as travessas chegavam às mesas, a moçada avançava sem pena sobre elas, pois sabiam que quem ficasse por último fatalmente ficaria com pouquíssima coisa, ou nada mesmo para por no prato. A da carne, era a travessa que tinha a primazia de primeiro ser atacada. Todos entravam de garfo em punho, pois se algum incauto metesse a mão ali, corria sério risco de tê-la furada em vários lugares. Em suma: aquilo não era lugar para principiantes ou envergonhados.

Residia ali gente de todos os tipos, desde os mais experientes, até aqueles que estavam saindo de casa pela primeira vez. Até mesmo duas moças que passavam por estudantes, mas, que no fundo não passavam de garotas de programa, vieram morar conosco, para deleite da maioria.

Este pensionato era dirigido por uma senhora distinta, mas que precisava dele para sobreviver. Deste modo, procurava economizar em tudo, especialmente no tocante a aquisição de alimentos. Grande parte do que consumíamos vinha do interior, especialmente os gêneros de primeira necessidade e menos perecíveis. Assim, a fava, um cereal de que gosto muito era largamente utilizada por ser, naquela época, um produto mais barato que o feijão. Certa feita, a nossa senhoria cozinhou uma quantidade muito grande da fava que daria para a semana inteira e acomodou na geladeira para retirar, por vez, somente a porção que considerava necessária. A presença daquele cereal pré-cozido ali começou a contaminar com o seu cheiro a água que bebíamos, de modo que além de ter que comer da mesma, ainda tínhamos que bebê-la. A fava, quem já comeu sabe, é muito indigesta, e costuma provocar grande flatulência em quem a consome de forma exagerada. Deste modo, lá pelo meio da semana, já não aguentávamos mais nem sentir o cheiro da comida. Reclamamos com a nossa senhoria do uso excessivo daquele cosido. Não funcionou. Respondeu-nos que tinha cozinhado uma porção para a semana inteira, e não ia desperdiçar nada.

Convocamos a estudantada para uma tomada de posição e decidimos que seria drástica. E eu, um dos mais veteranos, me encarreguei de por em prática o audacioso plano que consistia em dar completo sumiço no que havia sobrado do cozido. Ai então, por volta de meia-noite, quando a dona da pensão dormia profundamente, chamei um ajudante e fomos até a geladeira e de lá retiramos a panela que continha a fava pré-cozida. O cheiro de azedo tomou conta do ambiente de tal maneira que ficamos preocupados que alguém viesse a acordar e nos flagrar praticando o ato irregular. Felizmente nada disso ocorreu. Rapidamente saímos do prédio e ganhamos a rua, descendo a ladeira que vai dar no Mercado Central. A noite estava tranquila e uma leve brisa varria a cidade adormecida. Ao chegarmos a um terreno baldio, no meio da ladeira, lançamos a panela com o que havia nela e retornamos para casa.

Na manhã seguinte, ao dar pela falta da sua panela, a mulher indagou o que havíamos feito com ela. Respondemos, obviamente, que não sabíamos de nada. Enfurecida ela nos disse que não sabia de fato quem havia dado sumiço na sua fava, se não o abusado pagaria caro pelo gesto irresponsável. Mas, pelo modo que me olhou, foi como se me acusasse sem palavras. Desde aquele dia a minha permanência naquele pardieiro ficou comprometida. Não demorou muito e tive que me mudar para outro patronato. A vida, longe de casa, nunca é fácil!