sexta-feira, 11 de março de 2016

Uma Rua de Portas Fechadas

Rua Grande (Magalhães de Almeida) - Acervo J. Wilson


                                                     José Pedro Araújo

             Caminhar pelas ruas da minha cidade é como retroagir no tempo. Andar sobre suas calçadas desniveladas, visualizar seu casario sem simetria e sem um padrão estético definido, é também um exercício até certo ponto prazeroso e que avoca velhas saudades, histórias que permaneceram escondidas, agarradas no meu íntimo com um sentimento de perda irreparável que nunca se acaba. Por vezes é ainda possível sentir o cheiro da terra molhada que exalava quando caiam sobre a cidade as primeiras chuvas de verão; ou da poeira vermelha que o vento brincalhão levantava no ar, construindo redemoinhos que se elevavam pelos ares levando de roldão tudo o que encontrava pela frente. Traz-me uma saudade dolorida a falta das crianças correndo pelas ruas nas tardes de chuva torrencial, ou a ausência dos papagaios colorindo no céu completamente azul nos belíssimos dias de maio.

Já não existem mais as velhas casas com suas paredes desnudas, exibindo o dorso vermelho dos tijolos fabricados nas próprias olarias da cidade. Em seu lugar, estão os prédios comerciais e suas fachadas pintadas e repintadas até se tornar em cor indefinível, e seus letreiros de feira livre, a anunciar a venda de algum produto.

            A cidade exala hoje o cheiro do futuro, dos novos tempos e dos costumes exóticos, trazidos de outros povos, por outras pessoas. As carroças, os animais de carga ou montaria, cederam lugar aos barulhentos automóveis e veículos de transporte que soltam no ar o fedor emanado de seus ventres mecânicos em ebulição, e o rangido de ferro velho ocupa o lugar do som mavioso que brotava do interior das residências, dos cânticos, dos choros, das palavras de admoestação, dos ralhados com os guris ou das declarações de amor. Em lugar do sorriso alegre das crianças ouve-se agora o som dos alto-falantes e suas mensagens nem sempre verdadeiras, gritadas a plenos pulmões por alguém que busca ser ouvido por outro alguém que passa logo ali, na calçada oposta. Até mesmo as gaiolas de outros tempos, com seus pássaros canoros encarcerados, sumiram das paredes frontais e, em seu lugar, surgiram as placas luminosas ou as caixas de som com seus enunciados comerciais.  

A rua Grande perdeu a condição de rua residencial para os grandes empórios, os mercadinhos, as clínicas médicas, os bancos e os hotéis. Somente aqui e acolá ainda é possível ver alguém resistindo ao assédio do poder econômico que luta ferozmente para obter o que considera apenas mais um ponto comercial estrategicamente bem colocado. Alguns, parcela ínfima desta resistência, permaneceram firmes e eliminaram apenas parte da moradia, abrindo um salão comercial ao lado do estreito corredor que lhe permite penetrar no interior da sua morada, escondendo-se das vistas dos antigos vizinhos.

As cadeiras, postas nas calçadas para deleite da brisa fresca nas tardes de verão, são hoje peças raras, quase não se vê. Somente umas poucas famílias ainda mantêm o prazeroso hábito de, banho tomado e roupa trocada, aguardarem a passagem dos amigos ou dos parentes para uma gostosa rodada de conversa.

            Mas o sentimento de maior impacto é causado pela ausência das pessoas, dos homens e das mulheres que construíram, à custa de muito suor e sacrifício, um lugar bom demais para organizar família, criar os filhos. Na caminhada que empreendo pela minha rua, sou capaz de dizer de cor e salteado qual família ocupava qual casa, mesmo atingido duramente pelo silêncio que magoa meus tímpanos e brota do interior de moradias tão conhecidas. Não ouço mais o som de suas vozes, mas as lembranças teimam a me acompanhar no meu passeio pelo espaço-temporal: “Bom dia, seu Justino! Como vai a vida, compadre Araújo? Olá, seu Sanfoneiro! Dona Zezé, como está se sentindo hoje? E você jovem Getúlio, tem notícias do compadre Honorato? Seu Othon, como estão os negócios?” Continuo subido a rua e ouço a voz da minha tia Lourdes chamando as crianças para a primeira refeição do dia, ouço o diálogo travado pelos irmãos Chico Barros, Zeca Barros e Sinhazinha, tudo acompanhado, detalhe a detalhe, pelo Neuton e pela Neusa Falcão. E na calçada seguinte os amigos Virgílio Feitosa, Ribamar Menezes, João Augusto, José Almeida e Nelson Sereno conversam amenidades, enquanto Dona Alvina Menezes recepciona mais um cliente que acaba de pedir-lhe pousada no seu hotel. Ainda não sai do primeiro quarteirão e as lembranças se avolumam em tal magnitude que é impossível prosseguir na minha caminhada. Avultam à minha memória reminiscências que pesam sobre mim como uma dor outonal e incurável. Mas, o que vejo agora, voltando ao tempo presente, são portas e janelas fechadas em razão da insegurança que tomou conta da cidade. Se no passado era possível penetrar em qualquer das residências até chegar à sua cozinha para um bom e fresco cafezinho, quem tentasse tal empreitada hoje seria barrado em todas as tentativas que viesse a fazer por uma encorpada porta de ferro. Mas, impossível mesmo seria encontrar algum morador em alguma dessas casas.

Retorno para casa, para a solidão que me aguarda, para me consumir com a saudade que sempre me traz de volta ao meu torrão natal, à minha rua.
                         

terça-feira, 8 de março de 2016

Lampião Esteve no Piauí?




Reinaldo Coutinho
Escritor e consultor ambiental.


Não há brasileiro que nunca tenha ouvido falar de Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião (1898-1938), o cangaceiro pernambucano que fez tremer os sertões nordestinos entre os anos 1920 e 1938. Sua vida se confunde com a lenda, que brotou notadamente com sua morte em 28 de julho de 1938, na fazenda Angicos, situada no sertão de Sergipe.

Acusado de saques, assassinatos, torturas e estupros, a verdade é que nem tudo atribuído de nefasto a Virgulino foi praticado por ele, mas sim pelas famigeradas volantes policiais que o perseguiam, e eram compostas de homens tão rudes e violentos quanto os cangaceiros.

Também todo mundo sabe que apenas em dois estados nordestinos nunca o rei do cangaço pôs os pés: Piauí e Maranhão. 

Para o Piauí, Lampião jamais iria primeiro porque lhe era terra desconhecida e segundo porque era o Estado mais pobre, entre os pobres do nordeste (rdopombal.blogspot.com.br).

Entretanto, há uma notícia na NET, de autoria não identificada, e que se disseminou rapidamente de que o famoso cangaceiro Lampião estivera no nosso Estado. Vejamos uma das notícias, veiculadas pelo portal Isto É:

“No auge de sua trajetória no cangaço, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, conseguiu com um bando de 50 homens afugentar 400 soldados que o perseguiam. O episódio deu-se no Piauí, em 1927, e ficou conhecido como a Batalha de Macambira. É o melhor exemplo do tino de estrategista do cangaceiro, cujo grupo estava prestes a se render, desprovido de montarias e armas, por causa de um violento combate anterior. Ao lembrar essa passagem no livro “De Olho em Lampião – Violência e Esperteza” (Claroenigma), a escritora e doutora em ciências políticas Isabel Lustosa sublinha a perspicácia de um dos personagens míticos da história brasileira no século XX. “

Não sabemos se esta autora cearense Isabel Lustosa (N.1955) em seu livro de 2011 captou esta informação de alguma fonte não conhecida ou se apenas também repetiu o que viu na NET.

Na verdade, o combate de Macambira por volta de 1927 aconteceu quase que exatamente como descrito acima, mas no Ceará, não no Piauí. Vejamos o que diz Ivan Alves & Nilson Lage:

“Por essa época, Virgulino fizera um acordo com o Governo do Ceará pelo qual não seria hostilizado em território cearense. Por isso, no dia 15 entrou em Limoeiro do Norte, a uns 70 quilômetros de Mossoró, levando seus reféns: o contingente de polícia se afastou e os chefes políticos mandaram matar um boi. O bando entrou na cidade dando vivas ao Ceará, ao Governador Moreira da Rocha e ao Padre Cícero. Distribuiu lembranças entre os moradores, fez compras nas lojas, recebeu de presente dois mil contos de réis e se deixou fotografar. Uma volante policial que entrou na cidade no dia seguinte, pelo contrário, espancou moradores e causou distúrbios. Ponto para Lampião.

“Uma tropa com soldados do Rio Grande do Norte, da Paraíba e alguns cearenses – 500 homens ao todo – conseguiu tocaiar o bando. Não feriu ninguém, mas tomou montarias e provisões dos cangaceiros. Num segundo ataque, dias depois, os policiais, embora enfrentassem um grupo pequeno de homens, quase sem munição, famintos e a pé, conseguiram ser derrotados, com muitas perdas. É que o talentoso Virgulino cessou o fogo em dado momento e atacou maciçamente quando a tropa avançou, deixando suas trincheiras. Assim foi a Batalha de Macambira, segundo o relato insuspeito do fazendeiro Gurgel e de D. Maria, que continuavam prisioneiros do Capitão Virgulino. Ambos foram libertados logo depois, e ainda receberam dinheiro para a viagem de volta. D. Maria contou que os cangaceiros a tratavam com consideração e carinho pelos seus 63 anos, e cuidavam que nada lhe faltasse, apesar das dificuldades sofridas pelo grupo entre o primeiro e o segundo combates com a Polícia.”

Portanto, o lendário combate ocorreu em terras cearenses, em Limoeiro do Norte e não no Piauí. A imagem abaixo foi tirada na época do combate de Macambira. Pode ter sido tomada um pouco antes ou pouco depois da luta.

No entanto, embora a fonte seja imprecisa, parece que a escritora não está só no caso, segundo o fotógrafo e escritor mineiro José Geraldo Aguiar (1950-2011) conta em seu livro "Lampião, o invencível - duas vidas, duas mortes" – (Thesaurus Editora, 2009). Depois de 17 anos de pesquisas, o escritor afirma que a morte do cangaceiro em Angicos não passou de uma farsa e que conviveu com Lampião durante cinco meses numa cidade de Minas Gerais, aonde o cangaceiro fugiu após ter passado pela Bahia, Piauí, até que, em 1950, com Maria Bonita, se estabeleceu em Minas.  

            "Ele viveu na clandestinidade e chegou a ter 13 identidades falsas”, afirma o pesquisador, contando que quando morreu, Virgulino foi registrado como Antônio Maria da Conceição, mas em sua lápide se encontra escrito Antônio Teixeira Lima. Em "Lampião, o invencível", o autor relata supostos depoimentos do rei do Cangaço, narra com detalhes os seus encontros com ele e apresenta a foto abaixo, que seria Virgulino Lampião com 90 anos de idade.

Segundo Aguiar, Lampião teria vivido como comerciante e fazendeiro no Norte de Minas, e morreu em 1993, aos 96 anos de idade, em Buritis (MG). Maria Bonita teria morrido no dia 3 de agosto de 1978.

Observa-se que a passagem de Lampião pelo Piauí é apenas um detalhe na teoria pouco crível de Aguiar. O foco de seu livro é que Lampião não morreu no massacre de Sergipe.

De qualquer maneira, o livro de Aguiar caiu no descrédito quando se analisou a foto do pretenso Lampião em Minas Gerais. Era um senhor, já idoso, porém diferia anatomicamente de Lampião e nem tinha o olho furado como o rei do cangaço (Leandro Fernandes).

No livro “Os Verdes Anos Cinquenta”, escrito por um picoense, que descobrimos ser o economista Renato Duarte, livro publicado em 1991, segunda edição 1995, está escrito que um irmão de Lampião moraria em Picos, cidade do centro do Estado, e que o cangaceiro visitaria este irmão nas madrugadas. No nosso livro “Antiguidades Valencianas” (2000) publicamos a história de uma senhora da cidade de Valença do Piauí, D. Luzia, que afirmava ser viúva de Ezequiel Ferreira, irmão de Lampião, que morava também com o irmão João Ferreira, em Picos. Isso é assunto para outra matéria...  

Na realidade, comprovadamente, só alguns jagunços e cangaceiros acorreram para a Ibiapaba e a região do município de Caracol-PI, no sudeste, porém não eram do bando de Lampião. Eram lutas decorrentes de disputas por terras ou maniçobais no início do século XX. 

Entretanto, lembrando Lampião, seu chefe, Sinhô Pereira (1896-1972), que futuramente teria no seu bando como subalterno o jovem Virgulino e depois renunciou em seu favor em 1922, chegou a trocar tiros com a polícia piauiense em 1918, na região do município de Caracol. Foi escorraçado do Piauí pela volante do tenente Zeca Rubens. Neste combate morreu um cangaceiro, de apelido Cacheado.

Os parentes de Lampião – seus irmãos, sobrinhos, primos – passaram a ser perseguidos por todo o Nordeste. Alguns, trazidos do Piauí, foram colocados sob regime de trabalhos forçados pelo Major Teófanes, segundo Ivan Alves & Nilson Lage.

Mas Lampião mesmo, até que se prove ao contrário, nunca pôs os pés no Piauí. Porém, para um homem que enganou as volantes por mais de 20 anos...

sábado, 5 de março de 2016

O Coronel e o Amarelo



José Pedro Araújo

                Sertão do Piauí, década de setenta. O coronel Silvestre, no que pese os tempos correntes, administrava as suas terras, a sua região, e a sua vida, enfim, como se ainda vivesse no passado remoto, quando tudo era permitido aos donos de vastas terras. Na comunidade de São Nicolau a sua palavra era uma ordem. Ninguém se metia a besta com ele, sob pena de sofrer terríveis consequências. Era assim na vida quotidiana, mas principalmente na política, suas ordens eram sempre lei. Mesmo que mandasse votar em um sabugo, ninguém tinha nada a ver com isso e todos o obedeciam. A sua autoridade era tão grande na região em torno das suas terras, que ele levava esse respeito a todos os lares, e não havia casa na povoação que não houvesse uma criança a lhe chamar de padrinho. Isso também era lei. E lei era para ser respeitada, ora se era!

                À boca pequena comentava-se que ele era, na verdade, mais que padrinho, era pai da maioria dos nascidos por aquelas bandas. E verdade seja dita, o homem era um demônio no quesito e dava em cima de mocinha ainda brincando de boneca, mulher casada, viúvas, qualquer coisa que vestisse uma saia. Era falar fino, menear as cadeiras, e lá estava o velho reprodutor a lhe assediar. E por essa razão, as histórias que corriam chão por ali não se deviam à criatividade popular, mas tinham um fundo de verdade. Isso, naturalmente, causava terrível desconforto no seio da sua família, especialmente na sua esposa, mulher recatada e dedicada, que lhe cobravam ciúmes vez por outra. E tanto fez que a mulher deixou até de frequentar a fazenda, tão desgostosa ficava ao dá de cara com algum moleque com as feições de seu marido. E pensam que achou ruim? Nada! Passou até a usar a casa sede como coito.  

                Mas, mesmo sem pisar mais nas terras da sua fazenda, a esposa queixosa sabia de tudo o que por lá ocorria, notícias levadas por uma das empregadas que, dizem, enciumada porque nunca mais era procurada pelo safado do coronel, passou a dedurá-lo. E talvez até mesmo com certo exagero, pois se fosse verdade tudo que ela passava adiante, toda vez que ia à cidade onde a esposa vilipendiada residia, o homem estava no auge da sua forma. E isso, além de causar-lhe imenso desgosto, a deixava predisposta aos assédios da família que cobravam dela uma posição mais firme. Tudo isso depois de saberem que o velho dera para agradar as mocinhas que caiam sob o seu jugo, com roupas novas, cada vez mais caras e em maior quantidade. E como a quantidade de meninas também só aumentava, as despesas com esses itens, passou a desfalcar terrivelmente o cabedal do velho salafrário. Foi por isso que os filhos passaram a pressionar a mãe para uma tomada de posição. E ela, mesmo a contragosto, teve que adotar uma postura mais decidida, o que acabou por afastar o coronel da sua casa na cidade. Preferia ficar na fazenda até mesmo nos finais de semana.

                A consequência disso, foi que passaram-se a ouvir histórias cabeludas sobre as atividades de alcova do velho fazendeiro. Também, não tinha arrasta-pé na região que ele não marcasse presença. E era nesses pagodes que tomava ciência de alguma mocinha que estava a desabrochar. E entre essas, algumas estavam pisando pela primeira vez em um terreiro de dança. Foi a gota d’água: houve a cisão definitiva do casal Silvestre de Brito. E nesse quesito o velho coronel levou desvantagem: abriu mão da maior parte do patrimônio em favor da esposa conspurcada e dos filhos interesseiros. Dizem os mais experientes nesses assuntos, que o homem quase sempre sai perdendo nessas partilhas de bens, uma vez que se acham fragilizados por está saindo de casa. E como a consciência, por mais cauterizada que esteja, o atormenta, faz ele deixar quase tudo para a família abandonada. Assim se deu com o velho safado.

                No que pese afirmarem na cidade que ele era, em verdade, “vaqueiro do banco”, uma vez que trabalhava sempre com empréstimos bancários, ele ficou ainda com um bom patrimônio e ainda mantinha a autoridade que só a ele pertencia, e que ninguém podia lhe tomar. E como não precisava mais prestar contas a ninguém, caiu totalmente na bandalheira. Isso ele pode verificar quando começou a notar que as coisas não iam bem.

Já que o patrão não dava muita importância ao trabalho diário, cansado que chegava das festas, os empregados e agregados também relaxaram com as suas atribuições, e até o ato de ordenhar as vacas estava sendo negligenciado. Ao ponto de faltar leite para o café da manhã. O queijo de ótima qualidade, que era uma marca da fazenda desde sempre, há muito já havia sumido da sua mesa. Mas a falta do leite para misturar com café da manhã, isso foi demais. E ele pensou que já estava passando da hora de tomar uma providência.

Pensam que ele se propôs a largar as farras, campear a mulherada? Não mesmo! Foi atrás de um gerente para os seus negócios agropecuários. E tinha que ser alguém de fora. Experiente e voluntarioso. Os cabras dali de perto só queriam a sua desgraça – conjeturou -, almejavam a sua caveira.

                Terminou por arrumar, por informação de um amigo, alguém com os predicados de que precisava. Tratava-se de um homem bem moço ainda, branco, meio sarará, um Amarelo, como se diz no nordeste. Gostou do cabra, sobretudo depois que botou os olhos na sua jovem esposa. Essa sim, uma mulher que excedia em atributos. Fornida de carnes, olhos vivos, pestanas longas e baixas, ativa e de boa conversa, ao sorrir deixava ver uma carreira de dentes alvos e bem enfileirados. Uma simpatia, a jovem mulher! E o velho Silvestre não se conteve, contratou o amarelo e o pôs, juntamente com a mulher, para gerenciar os negócios da fazenda. O tempo passou, o vaqueiro se mostrou realmente uma ótima aquisição, posto que era cuidadoso com as coisas do patrão, logo passou a ser peça importante, sobretudo porque ainda se mostrava espirituoso e sustentava uma boa conversa. Mas a mulher passou a ser a peça mais importante da dupla. Sem filhos, ótima forma, ainda fazia um café mágico, e o velho libertino caiu de amores por ela.

                Por dever de ofício, devo afirmar que a mulher até resistiu aos assédios do velho mulherengo, mas assim sem muita garra, quase aceitando os ataques sofridos. E isso só estimulou o patrão. Ele então passou a ser visita frequente à casa do gerente. E este, satisfeito com os adjutórios que o coronel lhe levava, e que fazia com que a sua despensa estivesse sempre cheia de boas coisas, recebia essas visitas cada vez mais frequentes com boa aceitação. A mulher também. Mas, o coronel passou a ver o empregado como um estorvo que devia ser afastado, e sempre lhe mandava fazer alguma coisa longe da casa. Era ele sair e o velho partir para o ataque. Ela aceitava o jogo, mas se fazia de difícil, soltando gargalhadas que enfeitiçavam o velho e o estimulava cada vez mais. Por fim, o coronel logrou êxito. Isso aconteceu em um dia em que ele havia enviado o vaqueiro à cidade para comprar alguns medicamentos que estavam faltando na pequena farmácia pecuária que mantinha em casa.

                E ai foi aquela coisa, água de morro abaixo, fogo de morro acima, ninguém segura. O fazendeiro passou a enviar o vaqueiro para executar tarefas cada vez mais distantes, até mandou certa vez que viajasse até a capital para resolver algumas coisas por ele. Essa tarefa lhe demandaria cerca de dois dias fora de casa. Mas o patrão era boa gente, sempre lhe deixava que sobrasse algum dinheiro e o autorizava a gastá-lo consigo mesmo. Ele gostava disso. E ao invés de passar dois dias, passou três. O último em proveito próprio. Foi conhecer alguns locais procurados por homens que procuram fugir da solidão na cidade grande.

                Nada disso, contudo, acontecia fora das vistas dos maledicentes, dos fofoqueiros, que passaram a espalhar na comunidade o que acontecia entre as quatro paredes da casa do gerente. E isso chegou, naturalmente, aos ouvidos do marido corneado, uma vez que sempre há alguém, sob o pretexto de cumprir o papel de amigo fiel, a lhe passar a má notícia. A bem da verdade, esses indivíduos fazem isso mais por mal do que por bem. Querem ver a reação do marido ultrajado, animam-se com o seu sofrimento. E ficam tristes, decepcionados, quando a reação não vem à altura do fato narrado.

Foi isso que aconteceu.

E lá pelas tantas, enquanto o pé do balcão já estava tomado pelos cascos vazios de cerveja, o colega de farra, estimulado pelo álcool que lhe corria abundante pelas veias, atacou:

                - Como você pode receber uma notícia dessas com tanta calma? É por isso que já estão te chamando pelas ruas da vila de ‘corno manso’! – despejou com raiva.

                - Eu! Corno? – surpreendeu-se o Amarelo – Corno é o meu patrão que mantém a minha despensa sempre abastecida, compra presentes caros; perfumes, roupas, além de outras coisas mais, para a mulher que dorme comigo. E ela, com peso na consciência, e achando que não percebo nada, se desdobra em carinhos para comigo. Tem sido mais mulher do que nunca! Ele que é corno!

                Falou isso em alto e bom som, já tocado pelo álcool. Foi ouvido pelo dono do bar e pelos demais fregueses. E logo a notícia correu como vento geral, rápida e em todas as direções. Por fim, chegou aos ouvidos do velho crápula, que não gostou nada de ser chamado de corno. E diante disso, despachou o empregado, demitiu-o. Mas ficou com a sua mulher. Morreu o marido falastrão, o Amarelo, pela boca!

terça-feira, 1 de março de 2016

Outra Vez a Música



José Pedro Araújo
                Dias atrás publiquei uma crônica cujo propósito era tratar sobre a boa música e terminei por enveredar por uma história sobre a compra de alguns discos e sobre o retorno dos discos de vinil. Volto ao assunto para afirmar que não me considero uma pessoa agastada com os novos costumes que hoje nos são impostos. Tenho plena consciência de que cada geração tem os seus gostos, as suas preferências. Mas precisávamos de costumes tão mal concebidos, tão pobres em criatividade como temos atualmente.
                Na música também é assim. Com o passar do tempo o gosto musical das pessoas também vai mudando, principalmente entre os mais jovens. Veja o que aconteceu com a chegada do rock n’roll. Qual não deve ter sido o desconforto daquelas pessoas que apreciavam uma música mais lenta, tipo bolero, para se dançar calma e tranquilamente, agarradinho, dois pra lá, dois pra cá, essas coisas. E ai veio aquele som metálico e agitado das guitarras elétricas, da bateria ensurdecente, da música cantada a plenos pulmões! E ainda por cima aquela exigência física, posto que se tinha que dançar agitadamente daquele jeito. Foi um escândalo, isso eu sei. Mas, logo o novo ritmo e os novos instrumentos foram se incorporando até mesmo nas bandas mais tradicionais, e deu um toque a mais para alegrar o som dos metais.
                A prova de que não era uma invencionice passageira é que o rock criou raízes, amadureceu e se incorporou para sempre no meio musical. Traz mensagens, denuncia insanidades, une pessoas diferentes em um só cortejo e em um só ideal. Diferente de alguns ritmos que aparecem em período de carnaval, por exemplo, e não ultrapassam a quarta-feira de cinzas, não duram até a festa momesca seguinte, e já caem no esquecimento, posto que são tão ruins, e tão efêmeras.
                A propósito desse choque cultural que um novo ritmo musical traz consigo, lembro-me de uma passagem importante lá no meu Curador. Na cidade morava um marchante muito querido por todos, cujo nome de batismo não sei, mas que era tratado por todo mundo pelo apelido de Cobra-fumando. E ele atendia perfeitamente ao epíteto sem se aborrecer. E como todos se dirigiam a ele chamando-o pelo apelido, passou-me em branco o seu nome real.
                O nosso simpático marchante resolveu recomprar um carro bem antigo, acho que um Chevrolet ano 1927, uma espécie de mini caminhão, motor acionado por manivela, pneus estreitos e calha raiada, que já havia lhe pertencido, fora vendido ao Sr. José Almeida e depois recomprado. Dado a uma cervejinha de vez em quando, o nosso magarefe resolveu comemorar a recompra de algo que devia ter lhe feito muito falta. E olha que ele nem sequer sabia dirigir. Mas naqueles tempos, o caminhãozinho era status, era prazer também. E possuía até identidade: Cobrinha.
A comemoração aconteceu em um barzinho simples, acho que um quiosque, instalado na Praça Diogo Soares, no local onde hoje funciona o Posto Serigy. Ele juntou-se a um grupo de amigos e emendou uma farra homérica, cujo fundo musical era o disco do Erasmo Carlos daquele ano, 1965. O detalhe é que a única música do disco que ele permitia tocar na vitrola Philips, aquela cuja caixa de som servia como tampa, era ‘Festa de Arromba’. Terminava de tocar uma vez, ele determinava que tocasse novamente. E assim foi dia adentro. Alardeava que só pararia quando o disco furasse, coisa de alguém cujo álcool já lhe embotava as ideias. Isso tudo acontecia aos gritos de “que onda, que festa de arromba”. Saltitante, emendava o refrão acompanhando o cantor e os colegas de copo, numa algaravia ensurdecedora.
                Relembro essa história para dizer que o nosso marchante, em que pese a sua pouca cultura, recebeu bem a chegada do Iê Iê Iê. Esse ritmo dançante, de letras simples e melodias mais ainda, não agredia tanto como as tais metralhadoras da vida, ou mesmo como aquela outra que há muito caiu no esquecimento, uma tal de ‘Dança da Garrafa’. De minha parte, não consigo aceitar como salutar uma coisa que afronta-nos em todos os sentidos. Mas como já afirmei, apesar de não por meus ouvidos a serviço dessas músicas, não posso abominá-las, posto que são expressão do momento, uma modernidade própria dos tempos em que vivemos em que tudo que sai com o nome de arte logo arrebanha uma multidão de adeptos e é propagada aos quatro cantos do mundo através das redes sociais. Se tenho que conviver com isso, cerco-me das minhas defesas também.
                Recentemente assisti a um excelente documentário sobre Frank Sinatra na Netflix, intitulado “All or Nothing at All”. Lá podemos ver o entre-choque de gerações travado entre o maior artista popular do mundo contra o novo ritmo musical do momento que passou a embalar a juventude. E o que ele fez? Juntou-se no palco àquele que disputava com ele as luzes das câmeras e o coração do povão, Elvis Presley, em uma apresentação memorável. Foi assim também com a Bossa Nova, quando gravou um disco com o Tom Jobim. E assim foi sobrevivendo aos novos tempos e aos modismos.
                De uma coisa tenho certeza: o que é bom fica, fabrica morada entre nós. O que é ruim, logo cai no esquecimento. Não é mesmo Luís Caldas?