segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O Herdeiro do Vento

José Pedro Araújo

Sob o título acima, publiquei o romance cuja capa ilustra este texto no Amazon.com, no formato de e-book (livro digital). A história é ambientada em terras teresinense e conta a saga de um rapaz de boa aparência, cidadão pacato e bon vivant que se vê enredado em uma perversa trama urdida por uma linda mulher.  O desfecho da história pode surpreender pelo inusitado do acontecido e pode suscitar que os leitores tirem as sua próprias conclusões. 
Neste formato de publicação, as obras podem ser lidas através do Kindle, que é um leitor da própria Amazon, mas também podem ser vistos tanto em um tablet quanto em um aparelho de celular com Android ou outro gerenciador qualquer. 
Para mim, que costumo ler mais de um livro de uma vez (escolha sob o comando do momento, ou do meu humor, que pode me levar a ler um ou outro), a invenção do Kindle veio a calhar para mim, principalmente quando estou viajando. Levo na memória do meu aparelhinho mágico quase uma biblioteca completa, incluindo ai até mesmo dicionários. 
Quem estiver disposto a gastar um pouco menos de R$ 15,00 pratas em uma obra de que, certamente, vai gostar, pode adquiri-la através do portal da Amazon.com.

sábado, 14 de janeiro de 2017

CRÔNICAS VIVIDAS - DELÍRIOS LITERÁRIOS

Foto ilustrativa by Google



José Ribamar de Barros Nunes*

Um amigo meu do peito (imagine se não fosse), zombando de mim, afirmou que eu vivo dedicado a delírios literários em alusão às crônicas vividas.
Não me aborreci nem um pouco, porque a idade e a experiência nos ajudam a tentar viver acima do bem e do mal e a não levar em conta as coisas pequenas que não influem nem contribuem e nem movem água nem moinho.
A vida segue em frente. As caravanas podem até ladrar, mas não detêm a marcha contínua e inexorável dos fatos, dos feitos da vida, do progresso e do desenvolvimento. A caminhada não tem fim.
A palavra, escrita ou oral, distingue o homem dos outros animais e constitui uma atividade nobre e prazerosa, tal como dançar, cantar e outras criações lúdicas, muito positivas para o indivíduo e para a coletividade. Eles levantam e desenvolvem o corpo e a alma e se expandem nos indivíduos, nas sociedades e no universo.
Delírios literários podem e costumam repercutir e influenciar a evolução social e política. Para não falar de valores universais, fiquemos em nosso país. As penas de José de Alencar e Castro Alves muito contribuíram para a extinção da escravidão e o advento da República.
A palavra bem usada vale mais do que o fuzil e o pensamento nela expresso pode remover montanhas e, sobretudo, pode revelar o mundo interior e exterior do complexo ser humano. Um livro pode mudar a história ou uma vida.
Se é assim, vivam os delírios literários...


*José Ribamar de Barros Nunes é Assessor Parlamentar do Senado Federal e autor de Crônicas Vividas e Duzentas Crônicas Vividas.
E-mail: rnpi13@hotmail.com

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Diário de Um Náufrago (Capítulo XII)



AGORA É GUERRA!
José Pedro Araújo

 Passaram-se dois dias sem novidades. O fracasso da minha iniciativa náutica me deixou abatido, mas o que mais tomava conta dos meus pensamentos era o meu inimigo ilhéu. Estava lutando contra alguém que não admitia a minha presença naquele lugar, nem consentia em estabelecer um diálogo comigo para acertarmos as bases da nossa convivência. E ainda por cima era manco, um deficiente! Lutar com alguém assim não me trazia nenhum orgulho, se é que algum tipo de disputa me fazia algum bem. E como tratar com isso? Como encontrar um meio de me safar desse odioso inimigo sem feri-lo ou sair ferido?

Uma coisa eu não podia negar: era engenhoso o meu adversário, e sabia muito sobre tática de guerra e de defesa. E provara isso ao não deixar qualquer rastro que me orientasse qual o caminho que tomou para chegar ao meu barraco, além das inúmeras armadilhas que montou para se proteger dos inimigos.

A manhã seguinte amanheceu com um sol tão bonito e luminoso que sai para procurar alguma coisa para comer. E me afastei muito do meu barraco, internando-me na mata. A uns oitocentos ou mil metros de distância da minha base vi uma coisa que me chamou a atenção: a vegetação rasteira estava pisada, e apresentava pequenas depressões no solo, do mesmo tipo que vira em volta da minha cabana. Segui em frente, acompanhando os vestígios, e obtive comprovação para as minhas suspeitas: o meu inimigo havia chegado ao meu barraco por aquele caminho.

Decidi seguir mais para ver até onde isso ia dá. Após andar por cerca de mais meia hora observei que chegava próximo ao outro lado da ilha. Já era até possível ouvir o barulho do mar ao quebrar na areia. Voltei com o objetivo firmado de organizar algo para surpreender o meu opositor.

Uma coisa que ainda não contei foi que, ao arrumar novamente a minha estante de livros, vi que faltavam alguns deles. Principalmente alguns títulos em inglês, além do meu Ensaio Sobre A Cegueira, do laureado escritor português José Saramago. Os outros, apesar de terem ficado pelo chão, estavam do mesmo jeito que eu os deixara, permaneciam intactos. Qual o interesse dele? Não saberia responder. Estou certo, contudo, que uma hora as coisas se aclararão.

Passei dias de calmaria. Isso quanto à minha guerra contra o inimigo invisível. Por que, quanto ao meu espírito, esse estava em conflito permanente. Travava uma luta comigo mesmo sobre a necessidade imperiosa que eu tinha de manter contato com os meus. Não estava em questão nem mesmo o meu emprego, a essas horas já posto em estado de vacância.

Resolvi fazer uma caminhada pela praia para imaginar um barco menos pesado, e mais ágil, que pudesse me levar para o meu destino já programado. E estava assim, caminhando lentamente pela areia, quando algo me chamou a atenção dentro da água. E ao me aproximar mais, vi alguns pedaços de algo que poderia ser um avião, ou um helicóptero, que nesse instante estavam sendo arremessados pelas ondas no se bate e rebate constante.  Entrei na água até a altura do peito e constatei serem, de fato, partes da fuselagem de uma aeronave. Talvez fizesse parte da mesma que se acidentou com o homem que havia enterrado dias atrás. Levei o que parecia ser a porta da aeronave para o meu barraco. Poderia me servir para algo.

Estava impressionado com uma maletinha que flutuava na água também e, logo que cheguei, tentei abri-la. Foi uma tarefa difícil. Possuía um sistema de fechadura com um mecanismo que pedia uma senha para abri-la. Nem tentei girar os pequenos rolamentos para tentar achar a combinação certa. Peguei um dos meus tacapes e arrebentei o mecanismo com um só golpe. Levantei a sua tampa e me certifiquei que só continha documentos. Nada de valor continha aquela simpática maletinha. Pelo menos para mim. De todo modo não me decepcionei. Não precisa de dinheiro ou coisa de valor ali naquele isolamento em que me achava. Mas, sabem de uma coisa: esperava, sim, encontrar algo de valor naquela pequena coisa. Fiz um gesto de desagrado, estava inda instável emocionalmente.

Meus nervos é que estavam para arrebentar numa crise de descontrole iminente. Indagava-me o porquê de a providência estar fazendo aquilo comigo? Estava me testando? Por que aquele afã de encontrar coisas valiosas se não podia comprar um ansiolítico para amainar o meu nervosismo sem igual? Fui caminhar para organizar as ideias. Era tudo o que poderia fazer por ali. E era uma benção, pois não precisava atravessar rua nenhuma, tomar carro nenhuma para caminhar tranquilamente pela praia. Tranquilamente, eu disse?

Fui à guerra no dia seguinte. Madrugada ainda viva, lá estava eu nas proximidades da casa do meu inimigo. Fiz o trajeto por dentro da mata, pelo mesmo caminho que ele fizera para chegar à minha choupana. E este dava em um dos lados da entrada da sua toca. Esperei até que o dia começasse a raiar e o surpreendi novamente quando saia para despejar fora os dejetos do seu penico. Foi o que vi, pois estava mais perto dele agora. Por sua vez, apesar da escuridão ainda ser muito forte, observei que o meu oponente era um homem já idoso, cabelos brancos, e que apoiava a metade da perna esquerda sobre um complemento de madeira. Tinha, portanto, uma perna de pau, e por isso caminhava claudicante e deixava marcas esquisitas no solo por onde passava. Não pude ver o seu rosto, pois estava de costas para mim. 

Apesar de estar perto o suficiente para atingi-lo com um tiro, sem a possibilidade de erro, não o fiz. Deixei que voltasse para o interior da sua gruta e, a seguir, o interpelei com um grito. Uma porta fechada bruscamente na entrada da gruta foi a sua resposta. E um silêncio pesado caiu sobre nós. Até mesmo os pássaros que começavam a cantar anunciando a alvorada, calaram-se como se previssem uma tempestade. Tempestade que não veio, diga-se. Pois somente eu falei, gritei, pedi nas duas línguas que conhecia para falar com o meu oponente, mas ele não me respondeu. Fiquei cerca de dez minutos tentando uma conversação que não aconteceu. Também não me dispus a entrar na sua toca. Com certeza estaria cheia de armadilhas, e eu corria sério risco de não sair da lá com as minhas próprias pernas. Fui-me embora. Havia perdido a oportunidade de resolver a questão e não sabia se teria outra chance igual.

Poderia ter pegado o homem desprevenido quando estava desatento e somente com um vaso nas mãos, recipiente útil para colher dejetos, mas, inofensivo em uma luta. E também era frágil, bem menor que eu, e me pareceu ser bem entrado nos anos, pois o seu corpo permanecia encurvado enquanto caminhava. Quanto à outra opção, não me arrependo de não ter usado: a minha arma de fogo não foi utilizada dessa vez.

Voltei desanimado para casa, mas com a alma aliviada por não ter recorrido à violência contra o meu pobre inimigo.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Um Cinema Só Pra Mim

Foto ilustrativa by Google

Elmar Carvalho é juiz aposentado, poeta, ficcionista, cronista e membro da Academia Piauiense de Letras.

Gosto de todas as manifestações culturais e artísticas. Mas, sobretudo, como criador cultivo a literária, em diferentes gêneros, como meus poucos leitores sabem. Agora, tento concluir meu romance “Histórias de Évora”, cujos capítulos, que vou escrevendo semanalmente, publico em meu blog e em outros sítios internéticos. Acredito que será filho único. Como consumidor, aprecio, de forma preferencial, literatura, música e cinema.

Ontem resolvi assistir, no Teresina Shopping, ao filme Ninguém deseja a noite, classificado como drama. Temendo trânsito intenso e estacionamento lotado saí cedo. Quando me dirigi ao caixa, vi na tela do computador que todas as cadeiras (todas marcadas em verde), estavam disponíveis. Escolhi a cadeira 13, meu autoproclamado número da sorte, da última fila, ou seja, a poltrona assinalada como M13.

Dei uma volta pelo shopping, para fazer um lanche e comprar algumas coisas. Um pouco antes da hora marcada entrei na sala de exibição. Não havia ninguém. Esperei chegasse alguém de pontualidade britânica ou de relógio suíço, mas fiquei frustrado. Tive como certo que algum retardatário ainda chegaria, quando as luzes se apagassem e o filme já estivesse bem iniciado. Mas isso também não ocorreu.

De sorte que fiquei com uma sala comercial de exibição cinematográfica exclusivamente para mim. Tive o privilégio – se é que isso pode ser nomeado como privilégio – que poucos homens do Poder Político ou do poder do dinheiro tiveram. Sozinho, vendo projetada na tela a imensa solidão nevada do Polo Norte, aquele imenso e frígido deserto de gelo, curti a minha própria solidão, que não era triste e nem ao menos melancólica. E não pude deixar de lembrar estes versos, de minha própria autoria: “Judeu errante / e sem remissão / – por sobre desertos de areia e de gelo – / fugindo sempre / de si mesmo.”


Com esta marcante diferença: eu não fugia de ninguém, muito menos de mim mesmo. E a solidão da imensa sala de poltronas vazias não me foi desconfortável. Antes pelo contrário. 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Crônica Vividas - Coragem




José Ribamar de Barros Nunes*

O sentimento da coragem existe, até demais. Às vezes, pode parecer suicídio. Sei que tal atributo humano existe de verdade. Não o vivi, mas já vi e presenciei alguns exemplos.
Costumo dizer que minha infância pode não ter sido muito feliz, mas infeliz também não foi. O certo é que não me lembro de muitos fatos, alegrias ou aflições.
Sei que gostava de pegar passarinho e pescar no rio. Certa feita, peguei um piau grande e desfilei pelas ruas de Floriano, exibindo-o com orgulho.
Outra coisa que, desde menino, ficou no meu espírito, a saber: Uma observação feita por gente grande que dizia que “o que vale no homem é a coragem”. Ao longo da vida constatei essa verdade. A coragem se mostra uma virtude clara e decidida que rompe muitas barreiras que se apresentam como intransponíveis. Penso que na vida política e militar pesa muito.
No plano internacional registro dois episódios inesquecíveis. O primeiro ocorreu aqui no Brasil. O segundo presidente da república, Marechal Floriano Peixoto, foi perguntado pelo embaixador da Inglaterra como seria recebida no porto do Rio de Janeiro a “Invencível Armada”. Sem pestanejar, o Marechal de Ferro respondeu: À Bala...
O outro acontecimento se deu na “Crise dos Mísseis” em outubro de 1962. O líder cubano simplesmente desafiou o seu vizinho gigante, distante apenas 144 quilômetros da ilha.
Dizem que há homens capazes de enfrentar dezenas de outros homens. Não duvido. Eu, não... E assim caminha a humanidade...

*José Ribamar de Barros Nunes é autor de Crônicas Vividas e Duzentas Crônicas Vividas
E-mail: rnpi13@otmail.com

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Diário de Um Náufrago (Capítulo XI)



AO MAR
José Pedro Araújo
Levei mais alguns dias para decidir a hora ideal para a partida. As chuvas vinham em iam, sem dia ou hora marcada, e o mar estava um pouco agitado demais para alguém que nunca havia se dedicado muito à canoagem ir para ele. Tivera poucas oportunidades com caiaques, em brincadeiras de final de semana com os amigos na Rodrigo de Freitas, mas somente isso. Nada de enfrentar o mar, as ondas mais fortes e, principalmente, uma rota totalmente desconhecida em algo munido de remos. E, enquanto isso, o meu barco ficava ali, em pé e encostado a uma árvore, só aguardando a hora certa para partir. Na verdade me faltava também coragem para iniciar a empreitada. E era natural que fosse assim.

Mas, ela me veio certa madrugada quando acordei de um sonho tipo pesadelo. Sonhei que minha mãe juntara a família para informar que havia recebido um comunicado de uma empresa de turismo, a qual eu havia contratado o pacote da minha viagem, informando-a de que eu havia caído ao mar e me afogado. Informaram também que o meu corpo não fora achado. Depois, na sequência, vi a minha mãe chorando muito, amparada pelos meus irmãos, e sem mais ninguém ao redor deles. Estavam todos reunidos na sala da nossa casa na Glória, local onde nasci e morei até quando ganhei o suficiente para comprar o meu primeiro apartamento.

O mais incrível daquela imagem é que mostrava coisas que não mais estão lá na velha casa, como um pôster do fluminense, campeão brasileiro de 1984, pregado ao lado de um quadro com uma gravura do rio antigo. O meu quadro eu havia levado comigo quando da minha mudança para o novo apartamento e, portanto, não deveria aparecer na imagem. Qual a mensagem que isso trazia? Já me davam como morto, e por isso haviam levado todos os meus pertences de volta para a nossa casa?

Resolvi que era hora de partir. Precisava sair dali e avisar a todos que estava vivo. E amanheceu um lindo dia de sol. O mar estava calmo, sem ondas, parecia um espelho d´água, plácido e calmo. Era agora ou nunca. Peguei tudo que já estava preparado para a viagem: dezenas de garrafas pets com água, comida para a travessia, a mala com as roupas, sem as femininas, é claro, essas ficariam no barraco, e levei tudo para a praia. As últimas coisas que levei foram o meu estojo com a espingarda, e o próprio barco.

Ficara pesado e precisei de muita força para transportá-lo pelos cem metros que separavam a casa da beira do mar. Joguei-o na água e fiquei a observar se não havia infiltração, mas, pelo menos nos poucos instantes que fiquei olhando vi que a calafetagem fora eficiente. Nada entrou de água para dentro do meu transporte.

Entrei nele, após acomodar os meus pertences e, a princípio, pareceu não suportar bem o meu peso, mas, logo se estabilizou e flutuou legal. Somente um fato me desagradou: a água ficou pouco distante da borda da caixa que eu havia feito, talvez oito ou dez centímetros apenas. Arrependi-me de não ter optado pelo estilo jangada. Mas agora era tarde. Só me restava torcer para o barco não fazer água.

Como teria que seguir bordejando a ilha para alcançar o outro lado dela, iniciei a minha tarefa com o remo e vi que apesar da corrente me ser favorável, mesmo assim  o barco era bastante pesado e dificultava a sua movimentação. Deste modo, logo estava cansado e com as forças no limite. Outra preocupação. Deveria ter experimentado a minha embarcação primeiro; praticado o manejo do remo, tudo antes de iniciar a travessia para a próxima ilha. Outra falha que poderia ser grave. Mas resolvi seguir em frente. Talvez com o auxílio da corrente, como ela me fosse favorável, conseguisse chegar ao meu destino. De fato a corrente estava ao meu favor agora, mas a navegação, mesmo assim, era muito lenta. Levei mais de uma hora para chegar aonde se achava o velho navio naufragado.

Travei uma luta tenaz para evitar que a minha embarcação se despedaçasse ao se chocar com o navio encalhado, foi uma tarefa que me demandou um esforço quase hercúleo e que, no final, levou toda a minha energia embora. E, ainda por cima, a corrente teimava em me afastar da praia, levar-me para mar alto. Pela segunda vez pensei em desistir da empreitada.

Quando consegui controlar o barco, fazê-lo navegar mais próximo da costa, voltei a me animar estimulado pelo meu sucesso e pelo novo trabalho favorável da corrente marinha. E foi assim que chegamos ao limite da ilha, onde deveríamos contornar à esquerda. Foi outra luta feroz. A corrente marinha teimava em me levar diretamente para mar aberto, e tive que controlar a embarcação com a força do remo. Foi difícil, e isso me mostrou que eu estava completamente errado. Tentar navegar em um trambolho tão pesado quanto aquele poderia me ser fatal. Foi então que resolvi que aquilo não daria certo. E que, caso insistisse, me afogaria, com toda a certeza. Peguei parte das coisas e resolvi voltar andando, depois de largar a embarcação ancorada na beira da água. Quem sabe o meu adversário não fizesse uso dela para ir-se dali.

Cheguei ao casebre por volta da duas da tarde, pelo que pude conjeturar pela posição do sol. E a encontrei em completa desordem. A porta estava arrombada, as coisas reviradas, inclusive a mesa e a minha cama, todas as minhas coisas estavam totalmente destruídas. Lembrei-me da lata com o dinheiro, que havia me esquecido de levar comigo, mas ela já não estava onde a havia deixado. Além de mau, o meu inimigo era também um ladrão desavergonhado. Depois lhe daria uma resposta.

No chão já o Vincent todo rasgado, sorrido cortado ao meio. De fato, o meu inimigo tinha ódio a tudo o que de mais próximo eu possuía. Deveria ter levado o meu palhaço sorridente comigo. E mais, deveria ter enfrentado a corrente, pois, qualquer coisa seria mais seguro para mim do que ficar ali esperando pelo ataque do meu inimigo que se mostrava cada vez mais afoito.

Passei uns três dias tentando reorganizar o que o meu inimigo havia destruído, mas, no final, achei que tudo havia ficado melhor. Era a experiência de fazer aquilo pela segunda vez. E foi depois disso que resolvi ir-me à forra. Antes que o dia raiasse, já estava nas imediações do território inimigo, planejando como iria até ele. E estava assim, quando vi um vulto sair pelo que parecia ser a boca de uma caverna com algo nas mãos para, em seguida, lançar fora. Pela distancia que estava não deu para vê-lo muito bem, mas vi que manquejava bastante, como se tivesse um defeito em uma das pernas, ou nas duas.

Esperei mais um tempo, mas ele não saiu mais da sua toca. Então me acheguei mais, carabina pronta para o uso, e fui até ao local onde ele deixava as linhas que, com certeza, ao serem tocadas, provocariam algum alerta lá na caverna. Então movimentei os cordéis com força. Não tardou e o homem apontou na porta da caverna e disparou a primeira flecha em direção à sua armadilha. Foi então que pude depreender o porquê de não ter me acertado eficientemente. Ele atirava seguindo apenas a direção da sua armadilha, disparando várias vezes para se assegurar de que o inimigo havia sido ferido. Dessa vez ele era quem estava na minha mira. E não parei para pensar duas vezes: disparei um tiro na sua direção, e o estrondo que eu ouvi me deixou quase surdo. A bala acertou uma árvore a poucos metros do meu atacante, que, num átimo, sumiu da minha vista. Passado o primeiro susto ele voltou a disparar na minha direção com muita sofreguidão, de modo que as suas flechas passavam cada vez mais perto de mim. Ainda disparei mais uma vez, depois de municiar a arma novamente, e desta vez vi que o projétil entrou gruta adentro. Então resolvi retornar para a minha base. Estava dado o meu recado àquele ladrão.