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Foto de Wilana Araújo
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José Pedro Araújo
Quando criança lá no meu torrão
natal, Presidente Dutra, a maioria do que consumíamos era produzido pelos
próprios consumidores em pequenos roçados. Falo dos anos sessenta, não da idade
média, como pode parecer. Meu pai costumava colher na sua propriedade o arroz,
o feijão, a mandioca, a melancia e o milho, apesar de ser comerciante. Ainda
engordava um porquinho no quintal e umas poucas galinhas no galinheiro. O
complemento era adquirido nas pequenas quitandas existentes na cidade. O sal, o
açúcar, a tapioca, a manteiga, o querosene para as lamparinas, além dos
temperos, restritos ao cominho, ao colorau e a pimenta do reino. A cebolinha e
o coentro também podiam ser cultivados em um canteiro suspenso no quintal para
evitar o ataque de galinhas e porcos. Enquanto
da única padaria que havia vinha o pão e as torradas para o café da manhã. E
este mesmo se restringia ao pão massa grossa e ao massa fina, além do pão doce,
é claro. Já havia também na cidade as lojas de tecido, que só vendiam...
tecidos, para a confecção de roupas pelos alfaiates e costureiras da cidade.
Somente anos depois, passaram essas lojas a comerciar roupas prontas para o uso
imediato. Já foi um grande avanço.
A duas casas da minha, havia uma
quitanda bem simples, com um balcão tosco e umas prateleiras piores ainda.
Pertencia ao senhor Agostinho, um cidadão muito amável com as crianças e um brincalhão
consumado. Lá, no seu pequeno comércio, ele vendia uma pequena variedade de
coisas. Querosene(ainda me lembro que ele extraia o produto, para acondicionar
em um litro que levávamos, através de uma bombinha de sucção que mais parecia
uma daquelas de encher pneus de bicicleta, e que ele inseria em uma lata de
dezoito litros de Querosene Jacaré), vendia também o sal em pedras, o açúcar
que ele retirava de um saco de cinquenta quilos com um recipiente que mais
parecia um búzio marinho. Às vezes vendia um pouco de arroz, e também feijão
macassar e fava, esta última muito apreciada por nós quando a minha mãe
adicionava o leite de coco e a transformava em um manjar digno dos deuses.
Contudo, nem sempre havia esse sortimento todo. O que mais me lembro que havia
lá era o fumo de rolo (que ele cortava em cima do tosco e maltratado balcão com
uma espécie de cutelo preso por uma das pontas), e litros e litros de cachaça
da terra, chamada de beltroina.
Tempos depois, também próximo da
minha casa, instalou-se uma mercearia mais moderna, e foi um acontecimento.
Ficava no outro lado da rua, a pouco mais de cem metros de distância da casa
dos meus pais. Era a quitanda, ou mercearia, já que era algo mais avançado, do
Ponês. O proprietário do estabelecimento era um rapaz expansivo e bem
conhecido, que já havia se destacado como o craque de um time da cidade, que
logo ganhou clientela devido ao seu sortimento maior e ao seu carisma. Lá ele
vendia tudo o que precisávamos, além de biscoitos e balas sortidas que ele colocava
bem na nossa frente, sobre o balcão, em um expositor giratório de vidro. O belo
mostruário possuía quatro ou cinco depósitos colados um ao outro e com grandes
tampas de latão rosqueadas que fechavam as largas bocas dos vidros colados. Foi
uma novidade muito atrativa. E a meninada da minha região da cidade só queria
comprar alguma coisa no Ponês para, com o troco que sobrasse, adquirir algumas
balas de hortelã, de frutas, de mel, ou mesmo alguns caramelos, esta guloseima
uma grande e doce novidade. Vendia pilhas para lanterna e até brilhantina para
o cabelo dos rapazes, leite condensado, biscoitos de vários tipos e muito mais.
Tinha um estoque bem variado.
O senhor Agostinho perdeu este
cliente. Como filho mais velho, minha mãe me mandava sempre comprar alguma
coisinha que estava em falta, e eu ia correndo ao Ponês, virei freguês assíduo.
O comerciante era muito esperto e procurava acompanhar o ritmo das mudanças no
comércio. Foi só lançarem a geladeira à querosene, e ele logo comprou uma para
a sua bodega, e passou a vender suco de laranja, de limão e de maracujá. Depois
introduziu o suco de uva e o de groselha, quando apareceu o Ki-Suco, uma grande
novidade para época e que passou a fazer parte de noventa e nove por cento das
festas de aniversário.
Anos depois o comércio se
expandiu na cidade, o que era uma atividade muito incipiente, de repente se transformou
em algo grandioso para os padrões locais. Foi nessa época que apareceram os
primeiros mercadinhos que ofereciam de tudo em termos de miudeza e alimento. Vendiam
em só local, desde os produtos de primeira necessidade, mas também os shampoos,
os perfumes mais baratos, e até mesmo alguns tipos de frutas eram encontrados
lá. Estou me referindo aos anos setenta e oitenta. A cidade crescia e a população
exigia cada vez mais produtos mais sofisticados. Não era mais nem preciso ficar
do lado de fora do balcão e implorando para ser atendido, pedindo as coisas.
Agora nós mesmos apanhávamos os produtos nas prateleiras e só íamos ao balcão
para realizar o pagamento. O papel de embrulho também foi substituído pelo saco
plástico, e os produtos, até mesmo o arroz e o feijão, já vinham acondicionados
em embalagens individuais. Havíamos dado um salto grande no jeito de
comercializar, e os estabelecimentos também precisaram de espaços mais atraentes
e limpos, em geral, com nomes atraentes pintados nas fachadas. Quanta mudança,
em manos de vinte anos. Até um pequeno açougue alguns desses mercadinhos já possuía.
Não era mais preciso ir ao Mercado Central ainda no escuro da madrugada para
não perder a carne fresca que, no geral, não dava para todos. Já havíamos
entrado nos anos noventa e dois mil, quando essa comodidade nos foi oferecida.
Depois foi o que se viu. Mercadinhos transformados em Supermercados, amplos e
confortáveis, até mesmo com ar condicionado para espantar o calor que nos
aflige a maior parte do ano.
Ontem, 04/12/2020, chegamos a
outro patamar, demos outro salto na qualidade desses estabelecimentos. Foi
inaugurado na cidade um grande Supermercado. Ou um hipermercado, como queiram.
O Grupo Mateus inaugurou a sua filial de nº 55, no bairro Santa Maria. Foi um
grande acontecimento para a cidade. O Mateus Eletro, vai oferecer tudo o que se
pode encontrar em um estabelecimento deste porte. Lá se podem encontrar desde
produtos de primeira necessidade, artigos de limpeza e higiene, roupas,
calçados, e até eletrodomésticos, além de um açougue, uma peixaria, uma padaria,
e um espaço para a venda de salgados. E também uma choperia, o Boteco Gelado.
Também contará com um amplo estacionamento para a sua clientela, e o interior
da loja manterá uma temperatura bem agradável para conforto dos clientes. Como
acontece nesse tipo de estabelecimento, as promoções semanais serão anunciadas
em grandes folhetos impressos e distribuídos para a clientela. Chegamos, em
2020, em termos de supermercado, é claro, ao nível das grandes metrópoles do
mundo. Construído em um altiplano espaçoso em que eu, quando menino, usava para
caçar Preá, fica localizado na outra margem do riacho Firmino, em um ponto
estratégico, podendo ser visto de grande parte da cidade.
Comércio como o do senhor
Agostinho, ou o do Ponês (ainda existente, tocado por um dos seus filhos), ainda podem ser encontrados às dezenas na periferia da
cidade, e até mesmo em ruas próximas ao centro. E com certeza ainda contarão
com boa e fiel clientela. Lá, o tratamento intimista, a proximidade com o
cliente, que é chamado pelo seu próprio nome, e até o velho caderno de débitos,
ainda pode atrair uma considerável freguesia. Tem espaço na cidade para todo o mundo.
Contudo, quem quiser um ambiente mais moderno e com todo o conforto, até mesmo
um local para um passeio visando espairecer, já tem essa opção na cidade. É o
meu velho Curador entrando na rota das grandes redes de comércio. Desde algum
tempo já temos uma filial das lojas Americanas, e até mesmo de redes de
farmácias, mas, a chegada desse Hipermercado atraiu gente desde as três horas
da manhã para formar a fila de entrada no dia da sua inauguração. Parece que vai
cair bem no gosto do presidutrense. Como diria a minha tia Feliciana, uma
centenária moradora da cidade, “nem parece que estou em Presidente Dutra!”