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José
Pedro Araújo(*)
Em
Wonderfulworld, Nabucodonosor reinava com sabedoria e inteligência,
preparando
o país para o futuro. Havia construído, com a ajuda de toda a
comunidade do reino, belas casas para as famílias que iam se
formando à medida que outros habitantes chegavam à nova nação que
ia despontando como a mais moderna e democrática do continente.
Determinou a construção de escolas e equipou com o que de melhor
existia em
materiais e professores; hospitais bem estruturados em todos os
lugares e modernas
estradas
interligando
as várias comunidades que iam se formando. E,
por fim, edificou o palácio real. Ficou uma maravilha, com torres
nos quatro cantos, mas sem fosso de proteção que o mantivesse
afastado do seu povo, e também
sem
a tradicional ponte levadiça para protegê-lo, pois confiava no
processo de absoluta paz que reinava por
lá e no relacionamento de amizade que havia estabelecido com seus
felizes súditos e
com países vizinhos.
Ainda mandou construir, na parte superior frontal do palácio real,
uma espécie de parlatório, local elevado de onde pudesse falar ao
seu povo e ser visto por eles, para discutir os assuntos de interesse
coletivo. Em pouco tempo todos estavam acostumados e acorriam ao
palácio quando os arautos tocavam as trombetas em todas as direções,
do alto da torre
de menagem,
conclamando a população para ouvir o que rei tinha para anunciar.
Diante
do ambiente de harmonia vivido, até mesmo os antigos nobres da corte
eram tratados com respeito e tiveram seus títulos de nobreza
devolvidos, pois haviam perdido os mesmos em uma revolução
ocorridas tempos atrás, antes da chegada de Nabucodonosor. Diante de
tão nobre gesto real, mudaram todos eles o velho hábito, deixando
de lado a exploração e a rigidez com que tratavam os moradores de
seus antigos feudos, e buscaram no trabalho honesto seu próprio
sustento, prática adotada por todos, até mesmo pela nova família
real. Tirar o sustento através do próprio esforço era, portanto, a
norma principal a ser seguida por todos os habitantes de
Wonderfulworld. E o país cresceu e prosperou como nunca, e logo se
transformou no mais importante reino existente naquela parte da
terra.
Como
vivia em completa paz com seus súditos e também com os reinos
vizinhos, Nabucodonosor abriu mão de criar o seu próprio exército.
Achava
desnecessário usar os recursos do povo para comprar armas ou
capacitar os jovens do reino para a guerra e para morte, em vez de
treiná-los para a vida e para o trabalho. Em seu lugar, criou
brigadas voluntárias junto à população para prestar ajuda à
população no caso de ocorrência de catástrofes ou sinistros.
Viveram
assim por longos e longos anos, na mais absoluta paz e respeito aos
vizinhos. Wonderfulworld era um país neutro, pacifista. O estilo de
governar baseado na confiança e união do povo, logo virou notícia,
ganhou o mundo. Vizinhos, e povos mais distantes, visitavam
Wonderfulworld para conhecer o sistema ali implantado baseado no
respeito ao próximo e na dedicação absoluta ao trabalho. Não
havia cadeias no reino, em seu lugar, foram criadas escolas para a
recuperação daqueles súditos que porventura desrespeitassem as
normas e costumes locais. As aulas eram ministradas pelos mais hábeis
cidadãos em suas respectivas áreas. Agricultores, artesãos,
construtores, industriais, entre outros, dedicavam parte do seu tempo
a repassar suas experiências aos mais novos.
As
únicas disputas permitidas eram as esportivas. Estimuladas
pelo rei, anualmente eram praticadas por uma semana inteira nos
quatro cantos da nação. Atletismo, lutas Greco-Romanas, Corridas de
Pedestres, Corrida de Barcos, entre outros, faziam a festa dos jovens
atletas, e os mais versáteis eram escolhidos para repassar aos mais
novos seus conhecimentos e habilidades.
Outra
coisa que Nabucodonosor dava muita importância, era a construção
de paióis reais espalhados estrategicamente pelo reino, onde ficava
armazenado uma pequena parcela dos cereais colhidos pela população
para protegê-la nos momentos de escassez de alimento quando o país
fosse assolado por forte estiagem ou outra calamidade qualquer. Por
conta desses cuidados, nenhum habitante ficava sem se alimentar
convenientemente quando algum tipo de problema acontecia.
Por
fim, o povo de Wonderfulworld, tratava com religioso cuidado de suas
matas e de seus bichos. Até mesmos os insetos, muito apreciados pela
população local em pratos de muito prestígio, só eram usados na
exata medida de suas necessidades diárias. Esses cuidados, e o
respeito às florestas, mantinham o equilíbrio do meio ambiente de
maneira que sua principal fonte de proteínas e vitaminas se mantinha
sempre à disposição de todos.
Perguntado,
certo dia, de onde retirava tanta sabedoria para transmitir aos seus
felizes súditos, Nabucodonosor respondeu:
-
Observando o que os humanos faziam quando vivi no meio deles.
-
Os humanos são tão sábios assim? – perguntaram
incrédulos.
-
Até que são. Mas, as coisas que eu ponho em prática aqui, faço
exatamente ao contrário do que eles fazem lá. Até que eles são
criativos, mas grande parte do que criam, fazem no sentido de obterem
benefícios imediatos, sem pensar em suas consequências futuras.
Vejam só o caso das florestas, que eles derrubam para produzir cada
vez mais alimento. Só que com isso, prejudicam o equilíbrio da
natureza causando a diminuição das chuvas, provocando
a diminuição da quantidade de águas disponíveis, e, por
consequência, a redução no futuro da própria produção de
alimentos que dependem de chuva para crescer e produzir.
-
Oh!, agora entendemos o cuidado em não provocar desmatamento nas
margens dos rios e lagos – admiravam-se as outras aves com a
sabedoria do seu rei.
-
Outro exemplo, as queimadas, que aqui evitamos tanto quanto podemos.
Os gases provocados pelas chamas vão direto para a atmosfera e
provocam o aquecimento da terra. Mais problemas para o futuro.
Assim,
toda semana Nabucodonosor e os sábios do reino repassavam à
população embevecida suas experiências que eram adotadas como se
fossem decretos reais. Aliás, esse era outro dos costumes do reino.
As leis que eram postas em práticas, não eram postas no papel.
Eram, isso sim, guardadas na mente de cada um dos súditos que sabiam
de cor todos os seus direitos e deveres. Tudo era aprendido nos
debates e discussões em que elas eram submetidas até que a maioria
absoluta do povo desse o seu aprovo.
Mas,
se haviam povos vizinhos que admiravam a forma como viviam, havia
também um povo que vivia num país não muito distante cujo rei
devotava-lhe um profundo ódio originado da inveja que nutria
crescentemente pelo modo de vida e tranquilidade em que o povo de
Wonderfulworld vivia. Tratava-se de uma nação belicosa, cujo rei se
chamava Dario, o sanguinário, e que vivia a guerrear com os outros
povos vizinhos, sempre em busca de roubar-lhes as riquezas. Esse
país era
conhecido como o amedrontador reino de Avilã. Lá preferiam a
guerra, a pilhagem e a morte, aos resultados obtidos através do
trabalho honesto. Estranhamente, seu povo continuava a passar pelas
maiores privações e maus-tratos, pois quase todo o produto obtido
através dos saques era usado para rechear os armazéns do próprio
rei e de seus generais, e para a prática de novas guerras.
Deste
modo, certo dia, uma belíssima manhã de primavera, Wonderfulworld
foi atacada pelos exércitos inimigos. E o rei Nabucodonosor, apesar
de reagir com bravura, foi aprisionado no seu próprio castelo, após
presenciar que seus súditos estavam sendo massacrados brutalmente,
posto que, desarmados como estavam, eram presas fáceis diante do
inimigo numeroso e fortemente armado. Negociou então a sua rendição
colocando como condição o respeito à vida do seu povo, e que
levassem todos os bens que pudessem, mas que deixasse o seu povo e o
seu
país em paz e voltassem para a terra deles.
Mas,
Dario, o sanguinário, além de malvado, era também um descumpridor
de acordos. Ao ter Nabucodonosor em suas mãos, aprisionou-o em uma
das torres do palácio, pois ali não existiam masmorras, e expulsou
todos os seus súditos jovens com idade para organizar uma
resistência para fora do país, ficando com os mais velhos e com as
mulheres como escravos; Apropriou-se
também de
suas casas e riquezas. Do alto da torre, pelas janelas agora
gradeadas e transformadas em prisão, Nabucodonosor sofria
terrivelmente vendo o seu povo ser expulso da sua própria terra, e
os que ficavam, serem tratados com desprezo e brutalidade. E chorou
desconsoladamente por dias e dias o triste fim de um reino de sonhos
que durara tão pouco tempo. Até mesmo sua numerosa família fora
expulsa para terras distante, ficando apenas ele aprisionado para
evitar que organizasse um exército e retomasse o seu país de volta.
Foi o que ouviu da boca do próprio invasor, Dario, o sanguinário.
Dario
era um galo grandalhão, originário do cruzamento entre um guerreiro
Malaio e uma fêmea Shamo, raças devotadas aos grandes combates.
Trajava-se sempre para a guerra, com armaduras militares, um capacete
de metal e couro negro para proteger a cabeça de algum ataque
inimigo,
e uma vestimenta de couro cravejado de botões prateados que lhe
descia pelo pescoço até ao peito, transformando-o em algo com um
aspecto aterrador; um ser cruel mesmo. As pernas, tão peladas quanto
o pescoço, estavam envoltas em protetores de prata e ouro, parecendo
tubos longilíneos e os esporões apresentavam-se cingidos por cones
metálicos pontiagudos, prontos para ferir mortalmente a carne de
quem lhe enfrentasse. E não foram poucos os que tombaram aos seus
pés. Poder-se-ia dizer que se tratava de um elemento feio, com um
aspecto
animalesco e
que causava arrepios nas aves que tinham o desprazer de
confrontarem-se com ele. Os olhos vermelhos e empapuçados emitiam um
brilho intenso somente visto nos loucos, e o bico retorcido estava
também protegido por placas de metal muito afiadas que acompanhavam
o formato do mesmo, e era uma arma mortal quando aplicada em algum
adversário. Geralmente, uma só bicada era o suficiente para a
derrota de seu opositor.
Passaram-se
os dias, dias tenebrosos e de sofrimento para o povo de
Wonderfulworld, e nada de Dario voltar para a sua terra. Dizia-se
mesmo, que ele governaria a partir dali, por uma questão de
estratégia, pois pleiteava invadir e anexar novas terras aos seus
domínios. Pretendia organizar um grande império, o maior já visto
por ali.
Dizia-se,
também, que não faria mais como os antigos Vikings, que segundo
ouvira falar, atacavam os povos apenas para saqueá-los. Depois,
entravam novamente em seus barcos e voltavam para sua terra com o
produto das pilhagens. Agora, não. Ele faria diferente. A partir de
Wonderfulworld, lançaria-se sobre as outras nações em redor e as
anexaria até formar o maior reino já visto na terra. O império de
Dario, o grande conquistador. Durante muitos e muitos anos todos
haveriam de falar dele como o maior rei entre todos os que viveram
naquela parte do mundo. O reino eterno de Avilã.
Estava
muito satisfeito também, porque os habitantes que mantivera como
escravos trabalhavam incansavelmente como se estivessem perfeitamente
adaptados à nova situação. Orgulhoso, não entendia que esse era
um hábito por ali, e que eles trabalhavam assim para ocupar o tempo
e esperar pela volta do rei verdadeiro, o amado Nabucodonosor.
Trabalhavam para manterem o seu reino de pé. Esperavam e sabiam com
certeza que ele um dia voltaria para ocupar o seu trono usurpado. Por
isso, queriam que tudo estivesse como sempre quando ele voltasse a
governá-los.
Enquanto
isto,
do outro lado das fronteiras, povos vizinhos achavam-se preocupados
com as notícias de lhes chegavam de Wonderfulworld. A possibilidade
de invasão de suas terras também era uma certeza.
Por
sua vez, penalizados com a situação de Nabucodonosor e de seu povo,
quase todos dispersos pelas outras nações, começaram a organizar
uma reação para retomar Wonderfulworld das mãos do sanguinário
invasor. Salomão, rei de um dos povos vizinhos que nutria grande
admiração e amizade com Nabucodonosor, contactou
com os outros reis das vizinhanças e agrupou grande parte dos
habitantes dispersos e expulsos de Wonderfulworld em um exército
muito bem treinado, municiando-o com as mais modernas armas de guerra
que
existiam.
Até que foi relativamente fácil prepará-los para a arte da guerra,
pois eram atletas competentes e aguerridos, formados nas saudáveis
competições em seu país.
Assim,
logo se formou um grande exército com os jovens galos da terra
invadida e com muitos outros originários de outros países que,
quando ficaram sabendo da intenção do invasor, cerraram fileiras
com eles e
formaram
um poderoso exército de defensores da paz para a ameaçada região.
Com táticas de ataque bem planejadas e definidas, e com os
suprimentos devidamente arrumados em carros cedidos também pelos
reis vizinhos, partiu
o poderoso exército aliado
para retomar a terra de Wonderfulworld das mãos de Dario.
Não
sabiam ainda, mas estavam partindo pouco tempo antes que ele levasse
seu exército para invadir o vizinho país de New Freedom que ficava
mais ao norte, e que era governado por um jovem rei também amigo de
Nabucodonosor, e também participante do grupo de aliados que
objetivava
salvá-lo do cativeiro em que se encontrava. Seu
exército também recebeu grande reforço das nações amigas e se
preparou para rechaçar o ataque inimigo que se avizinhava.
O
exército aliado entrou em Wonderfulworld pelo Sul, no dia em que o
povo deveria comemorar a sua independência. Nabucodonosor, que não
se sabe como havia recebido a notícia da
data da invasão e a estratégia empregada, já havia mandado notícia
aos seus velhos generais
amigos
de outras campanhas, ainda do tempo em que ele também tivera que
guerrear para organizar o seu reino. Estes providenciaram a sua fuga
e ele foi se juntar aos seu povo para preparar a expulsão dos
inimigos do seu povo.
Quando
o exército da liberdade entrou em Wonderfulworld, mais e mais
habitantes do próprio país iam se juntado e engrossando suas
fileiras, ao ponto de quando já se encontravam nas imediações da
capital do reino, e os invasores tomaram conhecimento do numeroso
contingente que avançava sobre eles, fugiram em debandada,
desorganizados e amedrontados, deixando Dario com uma parte diminuta
de suas tropas, pois parte dele também já havia sido debelado no
momento em que
tentavam invadir New Freedom.
As
bandeiras e os estandartes coloridos das nações amigas se juntavam
em um mar de cores aos símbolos de Wonderfulworld, tremulando
agitadas pelas estradas e caminhos que davam acesso a capital, sede
do reino usurpado. Pareciam festejar algo, em vez de estarem indo
para a guerra.
Os
primeiros combates foram travados nas
proximidades da sede do reino e
as vitórias aconteceram
rápidas
sobre o exército invasor. E Dario, vendo que a derrota era coisa
certa, apressou-se em fugir deixando seus comandados sozinhos e ao
desamparo.
Nabucodonosor,
que já se encontrava com um batalhão de seus melhores guerreiros
nas imediações do palácio, viu quando Dario tentava fugir pelos
fundos do mesmo, e organizou uma perseguição encarniçada ao fujão
e, antes que ele pudesse sair do país, enfrentou-o em uma luta
renhida e
que durou um
bom tempo,
horas de batalha sangrenta mesmo. Contudo,
ao final, teve o seu opositor desarmado e caído aos seus pés. Por
sua vez,
apesar dos gritos de estímulo, preferiu poupar-lhe a vida,
cortando-lhe os esporões e retirando-lhe as armaduras, e
deixou
que se fosse, desmoralizado, cabisbaixo e
sozinho.
Dario
não teve coragem de voltar para o seu povo, pois sabia que já
deveriam ter escolhido um novo líder, um novo rei. Se voltasse para
lá, correria o risco de ser feito prisioneiro, ou submetido
a coisa
muito pior. Pagaria talvez com a própria vida pelo seu gesto de
covardia e falta de patriotismo.
Amedrontado, sumiu e nunca mais se ouviu falar dele.
Quanto
a Nabucodonosor, festejou por uma semana com seus súditos e amigos a
retomada do país das mãos dos invasores. Estavam junto com ele
todos os reis das vizinhanças que o haviam ajudado na vitória e
festejaram felizes os novos tempos.
Difícil
foi convencer o povo de que não precisavam organizar um exército
formal para defendê-los de eventuais invasões. Mas Nabucodonosor
terminou por convencê-los de que Wonderfulworld era um país neutro,
não precisava de um exército mobilizado em tempo integral quando
tinha tantos amigos ao redor para ajudá-los a se defender. Firmaram
então um pacto de união, combinando que qualquer daquelas nações
que recebesse a agressão de alguma outra, seria prontamente
defendida pelas demais. E que Wonderfulworld não teria um exército
organizado, com quartel e tudo o mais. Mas, as brigadas de defesa
civil seriam treinadas também para ajudar na defesa do país contra
inimigos virtuais. E que, nessas ocasiões, se organizariam como um
exército em pouco tempo para defenderem
a
pátria se
usurpada fosse.
Assim,
a normalidade voltou a Wonderfulworld. O povo voltou à velha rotina
de trabalho e festividades. Contudo,
mais experientes nas questões de defesa da sua pátria de possíveis
agressões externas.
FIM
OBS: O presente conto, tem a pretenção de ser a continuidade de um outro aqui publicado e intitulado "A Vingança de Nabucodonosor".
(*)
José Pedro Araújo é engenheiro agrônomo, funcionário público federal aposentado,
historiador, cronista, romancista, e coordenador do blog Folhas
Avulsas.