terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Um Natal Sertanejo



 José Pedro Araújo (*)

Se o Natal é uma festa cristã – e essa deve ser a sua verdadeira essência -, não é menos verdade que é também a festa do comércio, período em que os empresários vendem como em nenhuma outra época, momento para troca de presentes e de grande felicidade. Atestam os historiadores que o dia 25 de dezembro foi escolhido pelo Papa Júlio I, aí por volta do Século IV, para comemorar o nascimento de Jesus Cristo, transformando uma festa que nasceu pagã em um ato religioso. Inicialmente realizada para coincidir com a Saturnália dos romanos e com as festas germânicas e célticas do Solstício do Inverno, viu a igreja uma oportunidade de ouro para comemorar e divulgar o nascimento do Filho de Deus. E a figura do Papai Noel recaiu sobre uma personagem que, dizem, de fato existiu: o Bispo São Nicolau, nascido na Grécia no século III.

Transitando um pouco pela história, vamos encontrar que a fama de bom velhinho do bispo foi ganha quando ele ficou sabendo que um certo cidadão da sua cidade, que possuía três filhas, por não ter condições de pagar o dote do casamento delas, resolveu vendê-las à medida que iam atingido a idade própria para o casamento. Constrangido e penalizado com aquela situação, o tal velhinho foi até lá, incógnito, e arremessou pela janela uma pequena bolsa de couro cheia de moedas de ouro que caiu justamente sobre uma meia que havia sido posta para secar na lareira. Procedeu da mesma forma com a segunda filha. E o pai das moças, profundamente agradecido por aquele gesto humanitário, ficou na espreita para descobrir quem era o benfeitor que havia impedido que ele praticasse aquele ato que tanto lhe feria o coração. Descoberto a figura de São Nicolau, saiu ele a divulgar o nome desse generoso bom velhinho. Assim, por esse tempo, a imagem que se tinha era a de um velhinho vestido de bispo e não com as vestes em vermelho brilhante como hoje o conhecemos.  

Foram os holandeses, no século XVII, que levaram para os Estados Unidos a tradição de distribuir presentes para as crianças usando a lenda de São Nicolau (Sinter Klaas). Depois disso, dois escritores americanos se encarregaram de impulsionar a fama do bom velhinho, por eles chamado de Santa Claus. O primeiro, Washington Irving, em 1809, escreveu um livro em que enaltecia as qualidades de Papai Noel, um velhinho bonachão, que montava um cavalo branco voador e arremessava presentes pelas chaminés. O segundo escritor, poeta e professor, Clement Moore, em 1823, além de enaltecer ainda mais a aura mágica descrita e popularizada por Irving, trocou o cavalo de Papai Noel por um trenó puxado por renas voadoras.  

Mas a figura de Papai Noel, só foi de fato definida quando o desenhista, também americano, Thomas Nest, fez a primeira ilustração do bondoso velhinho descendo pela chaminé, mas ainda do tamanho de um duende, tal qual vinha sendo divulgado desde muito tempo. Somente anos mais tarde, a imagem que já vinha mudando, crescendo, foi ficando mais barriguda, com cabelo, barba e bigodes longos e brancos, sempre a aparecer no polo norte. Mas, o Papai Noel tal como nós conhecemos hoje, foi inspirado pelo artista Habdon Sundblon, que se inspirou em um velho vendedor aposentado para realizar uma campanha para a Coca-Cola em 1931.  

Aqui em terras do Curador, o nosso Natal começou a ser comemorado de maneira simples e sem muita pompa. À falta de nozes e castanhas, do Panetone e do Peru de Natal, as famílias se serviam de iguarias simples baseadas em produtos da terra, como o porco e a galinha caipira. Sem a iluminação feérica das ruas das grandes metrópoles, por nos faltar lâmpadas e energia elétrica, tínhamos que nos contentar com a luz dos candeeiros e, mais tarde, com a do potente Petromax. Assim, como realizar uma autentica ceia de Natal?

Lembro-me, que quando ainda criança, eu ficava maravilhado com os cartões de natal enviados para a minha família por alguns missionários americanos e canadenses. Mostravam paisagens belíssimas, com a neve cobrindo as casas e os vastos pinheirais, e com Papai Noel voando em seu trenó puxado por renas, cheio de presentes embrulhados em papel vermelho brilhante, amarrados por belíssimos e multicoloridos laços de fita. Os cartões traziam grafadas mensagens impressas em inglês, com palavras para mim desconhecidas: Merry Christmas, Santa Claus, Christmas Tree, Jingle Bell, Candle, Candy Cane, Christmas Pudding, Stocking, Gift, Presents, Sleigh, Star, Light e Happy Holydays – tudo escrito com letras em vermelho e verde brilhantes.

Na minha casa não tínhamos o hábito de realizar a ceia à meia noite. Seguíamos todos para a Igreja Cristã para participar de um culto especial, com a apresentação de um Auto de Natal, que muito nos emocionava. A árvore de Natal, ao invés de um pinheiro, planta inexistente em nossas florestas, era substituída por um frondoso galho de pitombeira cheio de cachos com o fruto maduro (o enorme galho só era trazido no dia da festa, para manter as suas folhas vivas e brilhantes). O ramo trazido era decorado com luzes e enfeites natalinos. Era uma festa belíssima, bem ensaiada e que, com o tempo, virou atração para a cidade inteira, ocasião em que a comunidade enchia o templo para assistir à linda apresentação que os membros da Igreja Cristã Evangélica de Presidente Dutra dedicavam anualmente aos seus concidadãos na noite de Natal.  

O Natal continua a ser, sim, uma festa cristã, onde as famílias se reúnem para louvar e festejar o nascimento de Jesus Cristo, o Filho de Deus. É também um período para reflexões e de redirecionamento das nossas vidas, substituindo tudo de ruim e malfeito que realizamos no ano ainda em curso, por ações novas e voltadas para o bem. Tempo para louvar Aquele que deu a Sua Própria vida para salvar a nós pecadores e redirecionar o nosso futuro. Tempo, enfim, de Paz, Amor e Alegria no seio das famílias.

Feliz Natal a todos e Um Ano Novo Venturoso e Cheio de Grandes Realizações e Muita Paz no Coração!!!!!!!

 (Texto publicado anteriormente em 24/12/2015. Ampliado e corrigido).

 (*) 


 José Pedro Araújo, é engenheiro agrônomo, funcionário público federal aposentado, historiador, cronista, romancista, e coordenador do blog Folhas Avulsas. 

 

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

O JUDICIÁRIO DE JOELHOS

 

Mera ilustração retirada do Google

  

 

José Pedro Araújo (*)

Devo esclarecer que não trato aqui dos problemas e discussões que tomam conta do país a respeito da lisura e dos feitos da magistratura nacional. Refiro-me aqui, em vez disto, a um fato verídico acontecido no meu velho e querido Curador. Fato, aliás, que ouvi de fonte bastante confiável. Entretanto, se algum exagero há não me cabe culpa nesta história. Estou vendendo o peixe pelo mesmo valor que o comprei. E como não me foi pedido segredo sobre o acontecido, repasso aos leitores tudo o que ouvi. Procuro, apenas e tão somente, ordenar a história de forma a torná-la mais palatável, entendível.
Afiançou-me a minha honestíssima fonte, que certo dia se encontrava em audiência com o meritíssimo Juiz da Comarca de Presidente Dutra, que naquele dia despachava preguiçosamente na sua residência, situada à Praça São Sebastião, quando um fato pra lá de inusitado aconteceu. Naquele tempo, é bom que se diga, a dita Praça, ou melhor, Largo, ainda não possuía uma pedra sequer de calçamento, como de resto toda a cidade. As ruas ficavam esburacadas no período das chuvas e, logo que vinha o sol, a poeira cobria a todos com um pó avermelhado que se mantinha em constante suspensão, dando ao ambiente um aspecto triste e lúgubre.


Naquele dia, na Praça mencionada, o capim-de-burro crescia viçoso, atraindo alguns animais vadios que transitavam livres e desimpedidos pelas ruas da pacata cidade, aprontando todo tipo de estripulia, situação tão peculiar àqueles irracionais. Pois bem. Naquela tarde modorrenta, despachava a maior autoridade judiciária do município na sala da sua casa, situada ao lado do Convento das Irmãs, enquanto alguns quadrúpedes aparavam alegremente a grama que crescia livre no Largo ainda à espera de uma ação da prefeitura. Aboletado em uma cadeira situada atrás de uma pesada mesa, local costumeiramente utilizado para as principais refeições diárias, conversava o magistrado despreocupadamente com um visitante. Era, portanto, o meu confidente quem se achava sentado no lado oposto ao togado e, de costas para um corredor estreito e comprido que dava para a porta de entrada, e ouvia-o atentamente.

Naquele instante, trajava sua excelência um vistoso pijama de verticais listras vermelhas e azuis, enquanto desfiava a sua agradável e bem articulada verve. Estava ele particularmente animado naquela tarde que se encaminhava para o fim. De repente, um barulho ensurdecedor chegou até os ouvidos dos dois homens, interrompendo aquele agradável e amigável colóquio. E, em um instante apenas, já era possível identificar um tropel acelerado penetrando casa adentro. Aquele ambiente fechado agia como um amplificador e elevava às alturas o barulho que aumentava de intensidade à medida que o tropel se aproximava da sala em que os homens conversavam.

Aqui abro um parêntese para lembrar que naquelas inauditas eras, a insegurança e a violência já andavam juntas e de mãos dadas, intranquilizando, sobretudo, as autoridades que, vez por outra, viam-se confrontadas com o cano de alguma arma de fogo empunhada por um truculento pistoleiro de aluguel. Não era para causar espanto, portanto, o pavor que tomou conta do ambiente naquele instante. Contudo, tratava-se de outra coisa. Mesmo assim, um misto de surpresa e terror, estampou-se no semblante daqueles homens no instante em que um casal de jumentos irrompeu furiosamente pela sala, deixando tempo suficiente apenas para o interlocutor do juiz jogar-se de lado e fugir do atropelamento iminente.

E o que aconteceu a seguir, abalroou literalmente a autoridade do magistrado encarregado pela aplicação e o respeito às leis do nosso país naquele perdido rincão. Munida da sua condição de animal irracional, enquanto procurava escapar do assédio incontrolável de um jumento endoidecido, uma pobre jumentinha adentrou ao primeiro local que considerou mais seguro: a casa do nosso juiz, àquela hora com a porta de entrada descuidadamente escancarada.
Em louca disparada o animal penetrou pelo comprido corredor até que se viu impedida de continuar fugindo do seu algoz, pois havia abalroado a mesa de reunião e imprensando o desafortunado juiz contra a parede. Estava confirmado, mais uma vez, animais irracionais não respeitam a lei mesmo!


A cena que se seguiu foi apavorante para aqueles homens. Enquanto o macho dava vazão à sua incontrolável e bestial tara, os dois homens se achavam em posição desconfortável e humilhante. Caído de lado, aos pés da dupla invasora, que naquele momento consumava o ato instintivo e animalesco, o visitante observou que o Magistrado se achava em posição muito pior do que a sua. Imprensado entre a mesa e a parede, o Juiz era obrigado a receber no rosto uma baba gosmenta que a vitimada deixava escorrer pela boca. Era possível jurar mesmo que dava para ele sentir o ar quente e o cheiro de ervas que saia pelas narinas do animal, tão perto se achava o seu rosto do da seviciada.


Caos instalado, com muito custo o visitante conseguiu se levantar e logo cuidou de agir para retirar o magistrado daquela situação constrangedora. E, diligente, num primeiro momento tentou empurrar os animais usando apenas a força dos braços. Não conseguiu sucesso. Os bichos nem se mexeram. Apelando depois para a ignorância, deferiu-lhes alguns chutes na ilharga. Outra vez os bichos nem se deram conta do que ele lhes fazia. Ai já era demais! O pobre magistrado precisava ser retirado daquele estado de completa humilhação! Então, empunhando uma pesada cadeira, meu confidente voltou a espancar ainda outras tantas vezes o animal cobridor, mais ele, novamente, não arredou do lugar, para desespero seu. Não havia força bruta que interrompesse aquele ato carnal.

 
Somente quando deu por concluído o libidinoso entrevero, o estuprador desmontou da pobrezinha e tomou o caminho da saída como se nada de grave houvesse acontecido. A fêmea o seguiu tranquilamente, parecia não ter acontecido nada com ela também, e era vida que seguia. Ao juiz, que estava com a sua autoridade vilipendiada e, literalmente, pisoteada, só restou vociferar, soltando palavras ácidas contra aquele lugar mergulhado em tão profundo atraso a ponto de submeter um dos três poderes da república a um vexame tão grande. Descabelado, nosso legitimo representante do judiciário gesticulava furiosamente enquanto apalpava o próprio corpo para verificar se algum órgão ou osso se achava rompido ou fora do lugar. Menos mal. Nada quebrado ou distendido.


Literalmente, havia o soberbo Juiz apenas se ajoelhado ante uma força maior e descontrolada.  

(Texto publicado anteriormente em 25/02/2015. Ampliado e corrigido).

(*) José Pedro Araújo, é engenheiro agrônomo, funcionário público federal aposentado, historiador, cronista, romancista, e coordenador do blog Folhas Avulsas.