segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Leandro Gomes de Barros - O Principe dos Poetas do Sertão

José Pedro Araújo

Ler é um exercício tão prazeroso, que leio quase tudo o que me cai nas mãos. Obviamente tem aqueles textos que são bom demais para serem lidos somente uma vez. Poderíamos dizer que estes são a cereja do bolo. Ou o suprassumo da boa leitura. São estes textos que produzem, além do prazer, conhecimento e aprendizagem. Essa compulsão pela leitura aconteceu desde tenra idade quando comecei a ler revistas em quadrinhos. Acredito que tive como exemplo o meu saudoso pai, ele também um aficionado leitor. E como uma coisa sempre puxa outra, logo estava lendo romances, poesias, revistas de variedade, fotonovelas, e por ai em diante. 

Alguns entendidos afirmam que toda música de boa lavra merece ser ouvida; que não existe esta história de que ritmo este ou ritmo aquele é o melhor. Todo ele é bom a seu tempo. Existe o momento ideal para se ouvir um bom Rock, um bom tango, um baião, uma música clássica, ou mesmo um sertanejo - por que não? Assim é também com relação à literatura. Há hora para se ler um Gabriel Garcia Marques, um Jorge Amado, ou mesmo uma revista em quadrinhos. Uma Tex Willer ou uma revista da Mônica, por exemplo. Descansamos e esvaziamos a mente das preocupações do dia-a-dia, nesses momentos de imersão e total enleio. 

Como existe na minha região uma forte presença de cearenses e piauienses, a cultura também, por consequência, sofreu forte influência dos cabeça chatas e dos piauiseiros. E essa preponderância se deu também na música, na literatura, e até mesmo na linguagem. Isso pode ser constatado quando temos dois maranhenses conversando: um originário da ilha de São Luís ou mesmo da baixada maranhense, e outro da região central do estado. A fonética é tão diferente que parece estarmos de frente com duas pessoas de estado natal diferentes. 

Deste modo, a chegada às minhas mãos de um livreto de cordel - chamávamos romance -, foi uma previsível consequência. Foi um deslumbre, uma empatia que permanece até os dias de hoje. Não demorou muito para conhecer os melhores cordelista da época, como Expedito Sebastião, Elias E. Carvalho, Cego Aderaldo, Patativa do Assaré - talvez um dos mais completos e conhecido de todos -, e o que considero o maior deles: Leandro Gomes de Barros, tido como o Príncipe dos Poetas Cordelistas. Cego Aderaldo era cantado na feira da nossa cidade como se fosse um Roberto Carlos do ramo, pelos violeiros e até mesmo por outros cegos que por lá apareciam. Mas o Leandro Gomes de Barros foi um caso a parte. Quando li o seu cordel O Cachorro dos Mortos, entrei em choque, quase fui às lágrimas com a história simples, mas com grande carga emotiva,de Floriano, as irmãs e o velho cachorro Calar. Tenho um exemplar desse livreto comigo que é mantido na estante junto com Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, entre tantos outros autores de minha predileção.

Objeto de tese de mestrado, Leandro Gomes de Barros foi o primeiro cordelista a viver unicamente da venda da sua poesia. Ele também produzia e imprimia seus trabalhos em um velho mimeógrafo, e saia pelas feiras comercializando o produto do seu ofício. Certa vez, transitando pela Praça Rio Branco, aqui em Teresina, deparei-me com uma banquinha exclusiva para a venda de cordel. Comprei alguns exemplares. Voltei outras vezes lá para adquiri alguns outros títulos. Mas a praça foi fechada para reforma e depois disto nunca mais encontrei o feirante do cordel. 

Do mesmo modo, certa vez encontrei em uma feira em Piripiri um vendedor de romance de cordel, o senhor Francisco Peres de Souza que, além de comerciante, também é cordelista. A maioria do seu material ainda é produzido de forma essencialmente artesanal. E em uma das edições do SALIPI - Salão do Livro do Piauí, encontrei-me com a cordelista Maria Ilza Bezerra, uma piauiense, comercializando produto da sua lavra. Depois de alguns minutos de conversa, tomei conhecimento de que a escritora é graduada em Letras, com especialisação em Literatura Brasileira, Ensino, Comunicação e Cultura. E faz parte de um grupo de pessoas que tenta, a todo o custo, impedir o desaparecimento desta cultura eminentemente nordestina.  Bravíssimos!

domingo, 18 de janeiro de 2015

Um Caçador em Apuros (2)

                                                              
No final da primeira parte desta crônica, os caçadores adentraram à mata antes que a noite chegasse. Embora preocupados com a escuridão que se avizinhava, o grupo conseguiu chegar ao local da primeira espera, onde deixariam o cansado Órion. Apresentado à árvore sobre a qual pernoitaria, o homem quase teve um troço. Alegou que não conseguiria subir sozinho naquele pau imenso. Não se envergonhou, pediu ajuda aos companheiros. Mesmo preocupado com o avançado da hora, o guia depôs a sua tralha e passou a ajudar o homem a subir na árvore. O novato era pequeno, mas pesava qual um saco de pedras. Sem outro jeito, empurrou-o pelos fundilhos até que ele conseguiu se agarrar aos primeiros galhos. Foi um processo penoso e cansativo, mas que finalmente deu resultados. Pareciam ter treinado para o nado sincronizado: o guia, agarrado feito um bicho preguiça à árvore, dava um impulso, o trabalhoso o acompanhava na ação. E assim foram subindo penosamente.
Agasalhado o novato, partiram os outros companheiros para os seus locais de espera, sumindo no mato fechado.
Enquanto isso, o noviço começa a armar a sua rede lá no alto, após descansar por alguns minutos da dificultosa subida. Primeira tarefa concluída ficou a observar a beleza do lugar, deslumbrando-se com o espetáculo belíssimo do por do sol que se aproximava.
Mas, logo em seguida, um leve princípio de medo começou a atormentá-lo ao se deparar com a solidão do lugar. Dedicou-se, em contraponto, a ouvir os últimos cantos dos pássaros que se despediam do dia, enquanto que os animais ferozes começaram a emitir os seus primeiros esturros, conclamando os companheiros para a hora da caçada.
Mas os problemas do novato caçador ainda não haviam terminado. Muito pelo contrário. Do alto do seu ponto de observação, escuridão se aproximando celeremente, o caçador olhou para baixo e viu algo que o deixou apavorado. Encostada no tronco de uma árvore mais baixa, à cerca de dez, doze metros de onde estava, havia ficado a sua espingarda de caça. Esquecera a mesma quando procedeu a subida na árvore. Droga! Nenhum dos companheiros se dera conta também de que a sua arma estava ficando no chão!
Olhou mais uma vez a espingarda e, preocupado com a sua sorte, resolveu descer para apanhá-la.
Não tinha outra escolha, concluiu.
Caso contrário, perderia a sua primeira noite de caçada e, ainda por cima, seria alvo da gozação dos companheiros que já estavam desconfiados da sua capacidade de caçador. Assim, começou a difícil empreitada de ir buscar a espingarda no solo. Mas não tardou muito a alcançá-la, pressionado que estava pela escuridão que já se fazia sentir. Mas, se descer fora uma tarefa até certo ponto fácil, subir novamente já eram outros quinhentos.
Tentou a primeira escalada atracando-se na árvore com todo afinco, espingarda atada nas costas. E conseguiu, a muito custo, subir penosos cinco metros. Cansado e sem forças, começou a escorregar caule abaixo ralando dolorosamente as coxas e o ventre na casca dura do tronco. Não desistiu, porém. Tentou subir uma segunda vez. Não alcançou mais do que três metros de altura, sendo que a descida foi mais dolorosa ainda. Feriu a barriga, as mãos e as pernas ao ponto de lhe brotar sangue das partes atingidas.
Na terceira tentativa, já sem forças, - e machucado -, quase não conseguiu sair do chão. Fez uso do que lhe sobrou: começou a se lastimar.
E repreendeu-se por ter tido a infeliz ideia de descer para apanhar sua espingarda. Teria sido mais ajuizado esperar a manhã chegar, descer e, então, justificar para os companheiros que não havia entrado caça alguma na sua espera.
Agora já era tarde. Tomara a decisão errada e tinha que procurar uma saída para o caso. Tinha consciência de que se ficasse ali no chão seria facilmente devorado por uma onça. Ou por algum outro animal feroz. O certo é que até mesmo um coelho o amedrontaria naquele lugar isolado.
Olhando em redor, pavor estampado no rosto, mãos trêmulas e feridas, avistou uma arvoreta esgalhada e de caule inclinado, quase na horizontal. Dirigiu-se rapidamente para lá.  E, mesmo naquela árvore baixa, quase não conseguiu subir. O esforço que fizera momentos antes lhe cobrava preço alto agora. Enfim, conseguiu.
Acomodado em uma forquilha do quase arbusto, observou que estava muito próximo do chão ainda. Pensou mais. Se ele havia conseguido subir até ali, qualquer outro animal bravio também conseguiria. Isso era fato.
Depois, a noite era muito longa para ficar naquela posição desconfortável. Tinha mais. A noite era longa e a cruviana logo viria para atormentá-lo também. Sabia que lá pelas tantas horas lhe seria exigido que usasse um casaco para se proteger. E ele havia deixado o seu dentro da mochila, lá no alto. Apavorou-se com a perspectiva que tinha, mas resolveu ficar quieto no seu canto e aguardar pelos acontecimentos. Hombridade. Era o que precisava demonstrar. Afinal, não era um rato. Ficou assim até próximo das dez horas da noite. Portou-se como um herói. E isso inflou o seu ego. Mas a floresta estava se unindo contra ele, isso tinha certeza. Agora, por exemplo, o barulho feito pelas onças, aves noturnas e porcos-do-mato, era tremendo. Baixou a guarda.
Apavorado com a sua perspectiva, e pelos sons que brotavam do fundo da mata, deixou a vergonha de lado e abriu a boca no mundo. Gritou muito e disparou alguns tiros de espingarda.
Foi ajudado pelo eco promovido pela floresta.
E foi ouvido por dois dos outros caçadores que haviam ficado mais próximos dele. Preocupados com a possibilidade de o companheiro ter sido atacado por algum bicho feroz os colegas correram em seu socorro. E o encontraram em completo estado de desespero.
Estava com os olhos esbugalhados, quase para saltar das órbitas. E da sua boca já escorria um fio de baba. Em nada se parecia com aquela empolgada cópia de herói de folhetim que haviam deixado horas antes ali.
E uma verdade os fez refletir em favor do amedrontado caçador: com tanto barulho, todas as caças devem ter sido espantadas para bem longe dali. Então resolveram retornar para a sede da fazenda. Naquela noite não daria para caçar mais nada.
Mas antes, precisavam adotar a lei das caçadas: o atrapalhado caçador foi punido severamente com o castigo destinado aos do seu quilate. Após lhe retirarem toda a roupa do corpo, aplicaram-lhe uma sova com ramos verdes que o deixou com o corpo inteiro da mesma cor dos galhos; e igual àquele outro herói americano, o Incrível Hulk.
Mas ainda faltava a punição final: o aprendiz foi mandado para a cozinha. Foi escalado como o novo cozinheiro do grupo. 

 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Um Caçador em Apuros (1)




                                                                                  


(José Pedro Araújo)

Apesar de se tratar de uma atividade ilegal, capitulada em lei como crime contra a fauna, o hábito de se procederem caçadas ainda é utilizado por muitas pessoas, desde aqueles que fazem do ofício uma complementação da alimentação da família, quanto por aqueles que exercem o mister com o propósito da diversão. Seguindo este raciocínio, podemos afirmar que existem os caçadores de rolinhas, nhambus, perdizes, patos selvagens e codornizes - prática exercida à luz do dia -, como também aqueles que passam a noite ao relento, trepado em alguma árvore para esperar pelo aparecimento de caça de grande porte, como o veado, o porco–do-mato ou a paca. Estes são os mais fanáticos e, no que pese as penalidades da lei, sempre encontram um jeito de se safarem. Assim como tem caçadores pobres, tem também empresários, médicos, advogados, engenheiros, profissionais de todas as áreas do conhecimento. E são esses os que mais se identificam com a arte da caçada. Tem gente que até viaja para fora do país para praticar a arte em um local mais tolerante.

Certa vez, um empresário bem sucedido aqui de Teresina viajou para a região de Grajaú, extremo oeste do Maranhão, lugar de grande ocorrência de animais selvagens, para participar de uma caçada com alguns amigos. A bem da verdade, o indivíduo a que nos referimos, não poderia ser classificado como um caçador experiente, pois apenas se aventurara até então a caçar aves à luz do dia, nunca tendo participado de uma caçada noturna, atividade mais perigosa e desempenhada apenas pelos mais experimentados. Mas, estimulado por um irmão que havia pintado com cores muito bonitas o quadro, resolveu participar da empreitada quando soube que um grupo de pessoas estava se organizado para viajar para a região acima referida. A base em que a comitiva se arrancharia era a fazenda de um conhecido empresário grajauense, local de difícil acesso, no mais profundo da mata. O local fora escolhido por ainda ser habitado por veados de todos os tipos e tamanhos, e também por outros tipos de animais. E dentre este, por ferozes onças de muitas espécies.

Causou espanto aos experientes caçadores, a presença entre eles daquele novato, totalmente desprovido de experiência. Todavia, o noviço era um sujeito de gestos afáveis e possuidor de uma prosa bem animada, e logo caiu nas graças dos outros membros do grupo. A caçada em espera, como já afirmei no começo desta prosa, é realizada à noite. Os caçadores se dirigem ainda de dia para locais previamente determinados, sobem em árvores e lá no alto armam uma pequena rede, apropriada somente para essas ocasiões, e lá ficam sentados, pois o seu formato e tamanho não permite que se acomodem melhor. Ficam por horas assim a esperar pela caça que vem comer as flores e os frutos de uma árvore chamada Mirindiba, logo que a noite se aprofunda.      
 E ficam lá no alto também para escapar, eles próprios, de serem comidos pelas ferozes onças que andam em perseguição aos outros animais e que procuram exatamente esse local de repasto para armar a sua tocaia e matar a fome.
Quando a tarde se aproximava do fim e o sol se apresentava baixo, mas ainda por sobre a copa das árvores, era a hora dos caçadores saírem à procura dos locais das suas esperas. E assim aconteceu. Depois de empreenderem uma caminhada de pouco mais de uma hora, os primeiros caçadores foram se desligando do grupo principal. Haviam chegado ao seu local de pernoite. O restante não poderia se demorar muito ali, uma vez que o sol declinava no horizonte e a escuridão principiava sob a copa das árvores. Por conta disto, apenas um deles ficava para trás, e o restante já seguia apressadamente os passos do guia que ia deixando cada um dos aventureiros na sua espera. A distância entre uma espera e a outra era de não menos do que quinhentos metros, para evitar interferência de uma à outra.
O nosso caçador iniciante foi o primeiro a ser deixado para trás. Próximo a uma árvore bastante alta que ficava estrategicamente colocada colada à árvore de espera, ponto de atração de veados e porcos-do-mato.
Logo cedo, é bom que se diga, o nosso caçador causou espanto aos demais ao se apresentar vestido igual ao Rambo dos filmes americano de ação. Calçava pesadas botas e vestia calças e colete com muitos e largos bolsos. Para completar o quadro usava um chapéu camuflado e de abas bastante largas enterrado na cabeça, e barbicacho preso ao queixo. O homem trazia ainda cruzadas sobre o peito duas cartucheiras cheias de cartuchos. Mas não apenas isto. Atado à cintura, qual um pistoleiro do velho oeste, trazia um cinturão cheio de balas e um revólver trinta e oito pendendo ao lado. E do lado contrário, um cantil pendia bem abastecido de água. Mas o exagero não terminava ai. Para completar o quadro, o novato carregava no ombro uma pesada espingarda de caça, novinha em folha, e pronta para ser usada pela primeira vez em uma caçada, além de uma pesada mochila atada às costas. 
Pequeno em estatura, o projeto de caçador apresentou-se sobrecarregado, fato que foi observado pelo restante do grupo. Mas o homem não aceitou as ponderações e lançou-se no caminho, seguindo os passos do guia. Não demorou muito e o sobe-e-desce do precário caminho seguido por eles fez com que o caminhante ficasse para trás. Apresentava os primeiros sinais de cansaço. Nesse instante, foi socorrido pelo voluntarioso guia que, mais alguns minutos passados, já transportava quase toda a tralha do afoito caçador. (continua na próxima postagem).

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Antônio Galinha






Cinco da matina. Nem um minuto a mais. A cidade ainda na semiescuridão acordava com um barulho ensurdecedor de buzina. Melhor dizer de buzinas. A que escandalizava o pessoal era do tipo movida por ar comprimido e possuía quatro cornetas. Fazia um barulhão. Quem se preparava para viajar, apressava os últimos preparativos e rumava para a Praça da Bomba, pois sabia que o velho Galinha não admitia atrasos. Os outros moradores da região, também retirados do sono profundo pelo conjunto de gaitas, viravam-se de lado em busca novamente do sono. Precisavam aproveitar os últimos minutos que ainda lhes restava da noite. Uns poucos resmungos, mas ninguém se importava de fato. Era o velho Antônio Galinha quem acordava meia cidade para alertar que o velho Chevrolet Misto partiria daí a instantes com destino a Teresina, no Piauí. Faço aqui uma interrupção para dizer que Misto - para os mais novos - era um tipo de transporte que possuía meia cabine para os passageiros e o restante era ocupado pela carroceria aberta para transportar a bagagem. 

O motorista, Antônio Galinha, era um piauiense bem humorado, baixo no tamanho, barriga estufada e barba sempre por fazer. E tinha como marca registrada a camisa sempre aberta a mostrar um peito cabeludo e já com muitos fios brancos. O homem era um ás no volante. Nos muitos anos que atendeu à comunidade nunca provocou um acidente que viesse a, pelos menos, provocar machucaduras nos seus passageiros
.
O Misto partia de Presidente Dutra às cinco da manhã, como já afirmei acima, e chegava em Teresina lá para o final da tarde. Para quem se admira com o tempo gasto, basta dizer que no passado essa viagem levava mais de um dia. Naquele tempo, a estrada era praticamente um caminho para carro de boi. Agora não. Transitávamos por via piçarrada e num transporte apropriado para carregar passageiros. Não mais em cima de caminhões sujeitos às intempéries e poeira. Bem, a poeira ainda se mantinha como um problema. Mas os bancos de madeira já possuíam acolchoamento de plástico. Um luxo e um progresso em relação aos velhos e duros bancos de madeira. 

Foi com o Galinha que eu fiz a minha primeira viagem interestadual. Corria o mês de janeiro do ano de 1966 e o passeio para o Piauí eu ganhei por ter sido aprovado no primeiro ano do ginásio. Foi um deslumbramento, apesar de o ônibus ter quebrado mais de uma vez. O último prego foi definitivo. O Misto não conseguiu mais prosseguir, apesar dos esforços do velho motorista. Tivemos que fazer um baldeamento, e o restante da viagem se deu em outro carro que nos socorreu. Mas pude me deliciar com as luzes da cidade já acesas. Foi outro deleite atravessar o Rio Parnaíba e ver as lâmpadas reluzindo, refletidas nas águas escuras do velho monge. Mas isso já é outra história.

O velho Misto do Galinha ainda transportou os passageiros do Curador por muitos anos, até ser confrontado com o futuro. Foi superado pelos novos modelos de ônibus, os tais expressos e suas carrocerias de metal. Acima temos uma foto de um Misto para ilustrar os modernos tempos que vivíamos. Encerro a presente crônica com um esclarecimento: o proprietário e motorista do Misto não tinha o menor complexo pelo nome estranho. Até mandou desenhar figuras de galinhas nas laterais da carroceria!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

TALVEZ AS PRIMEIRAS FOTOGRAFIAS DO CURADOR - DATAM DE 1928.

                                         
                                    




                                                                                     

As fotos acima são de 1928 e foram tiradas pela equipe do governador Magalhães de Almeida( o governador aparece na foto de cima de chapéu branco). Frei Heliodoro de Inzago, um dos primeiros capuchinhos a rezar missa na vila do Curador, recepcionava as autoridades. Outro detalhe importante na foto: os andaimes da antiga capela de São Bento, templo que antecedeu a atual igreja de São Sebastião. Por fim, o tipo de estrada que tínhamos na época. Ligava o Curador a Barra do Corda e passava pelo Tuntum.  A propósito: alguém conhece algum morador que aparece na primeira foto?

Tesouros da Juventude

                                                                                





José Pedro Araújo(*)

Tenho uma verdadeira mania de guardar as coisas de que mais gosto. Livros, então, guardo com o maior cuidado. Posso até dizer que guardo também ciúmes deles. Com esse costume se avolumando, passei a adquirir alguns livros antigos que me deixaram saudade. Tenho comigo, por exemplo alguns do primário, como o do autor que aparece na foto acima. Não propriamente este, mais o livro referente à quarta série do primário. Mesma capa, refere-se ao ano de 1967, 191a. edição. Todas as matérias cabiam em um só volume, e por esta razão, além do livro, levávamos para a escola somente mais o caderno de caligrafia, o de desenho, lápis e borracha. As vezes um apontador também. Era tudo. A maioria das crianças não possuía nem bolsa - falávamos bolsa, não mochila - ficava tudo levinho, fácil de conduzir. Hoje a criançada carrega uma mochila tão pesada que os médicos passaram a dar conselhos de como carregá-la para não ocasionar problemas na coluna. Este livrinho único era fantástico, além de trazer as disciplinas Linguagem, História do Brasil, Geografia, Ciências Naturais e Matemática, todas com exemplos e exercícios, oferecia textos deliciosos de autores consagrados. O da Quarta Série, por exemplo, veio com alguns textos do excepcional Monteiro Lobato, como O Reformador do Mundo, e O Carreiro e o Papagaio. Delícias de outras épocas. O autor desta belezura de best seller, Ariosto Espinheira, vendia livros como água.

(Texto publicado anteriormente em 14/01/2015).

(*) 

José Pedro Araújo, é engenheiro agrônomo, funcionário público federal aposentado, historiador, cronista, romancista, e coordenador do blog Folhas Avulsas.

JE SUIS CHARLIE





                                                                                 





A intolerância é uma das coisas mais danosas a assolar o mundo moderno. Seja ela racial, religiosa, sexual, qualquer das suas forma. O mundo presenciou estarrecido os acontecimentos que vitimaram mais de doze membros do semanário Charlie Hebdo, além de mais cinco outras vítimas. A França, em especial, paga um alto preço pela sua conhecida tolerância com toda a sorte de pessoas que se dizem perseguidas em seus países de origem. No entorno da capital, Paris, autênticos guetos são formados com gente de todas as nacionalidades e que terminam por não serem bem incorporadas aos nativos. E, por conta disso, formam-se verdadeiros barris de pólvora que, vez por outra, ameaçam explodir. Em finais de março de 2013 estive em Paris a passeio e presenciei o que acontece hoje, sobretudo nos pontos de maior atração turística. Quando alguém é identificado como turista, logo uma verdadeira maré humana composta por africanos te cerca oferecendo todo tipo de quinquilharia. São pessoas, de um modo geral, de origem africana ou vindos dos países do leste, como os descendentes de ciganos, todos desempregados e sobrevivendo do que vendem pelas ruas ou mesmo de pequenos furtos.Nessa mesma viagem passei pelo constrangimento de ser atacado dentro do metrô em movimento. Como não havia lugar disponível para me sentar, fiquei em pé no centro do vagão segurando em uma barra de ferro. Nesse instante uma turma composta por cinco mocinhas ciganas me abordou e sem que eu percebesse subtraiu todo o meu dinheiro dos dois bolso da frente da minha calça jeans. Foi uma ação de profissionais. Mas, elas não contavam com a solidariedade de uma francesa que estava sentada na minha frente e que, ao perceber a ação das punguistas, levantou-se e segurando uma delas a fez jogar o dinheiro furtado no piso do vagão. Imediatamente verifiquei que a quantia que eu trazia no outro bolso também sumira. Nesse instante segurei a ladra que estava deste lado e a fiz devolver o que ela havia me furtado. Foi uma sorte. Pois logo depois o trem parou em um estação e as gatunas aproveitaram o ensejo para bater em retirada. Conto essa história para mostrar como a antes pacata cidade de Paris se encontra hoje. E diariamente acompanhamos o noticiário de que milhares de pessoas são apanhadas tentando entrar de forma clandestina em algum país europeu. Não vou discutir aqui se no passado a França colonialista depauperou os países africanos subtraindo parte considerável dos seus recursos naturais mais valiosos. O que aqui afirmo é que a maioria desses imigrantes não estão acostumados a viver em liberdade plena como acontece com o povo francês e que por falta de um profissão, terminam à margem dos principais empregos disponíveis. E isso faz com que se sintam à margem do processo de desenvolvimento do país que o acolheu, fazendo dele um insatisfeito, um revoltado. Essas pessoas são presas fáceis para os aliciadores de jovens para o tráfico de drogas ou mesmo para o terrorismo. A Europa vive hoje seus dias mais conturbados,com a insegurança pairando sobre uma comunidade que já foi exemplo de tranquilidade. O que aconteceu com as dezessete vítimas na semana que passou, segundo alguns analistas, é apenas um exemplo do que pode vir por ai. Agora, o fato mais importante que aconteceu nesses últimos dias foi a reação advinda da população francesa que não se intimidou e ocupou as principais ruas e avenidas de muitas cidades para protestar contra essa tentativa de cerceamento das liberdades de expressão, contra a intolerância, em fim. E isso mostra que o ato hostil e descabido praticado pelos terroristas foi um tiro no próprio pé. Ao tentarem impedir a circulação de um semanário com uma tiragem média de 60.000 exemplares, catapultou esse número, multiplicando-o várias vezes. O número do Charlie Hebdo que foi hoje para as ruas chegou a 3.000.000 de exemplares. E expirou rapidamente, sumindo logo das bancas. Que isso possa servir de lição para aqueles que tentam fazer da violência o seu principal meio de propaganda. Je Suis Charlie