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| Imagem extraída do Google |
José Pedro Araújo
Com certeza foi esse o meu período mais longo de ausência da minha querência. Cerca de dois anos. Nem mesmo quando estudava em Recife passei tanto tempo sem retornar ao meu chão querido. Efeito da perversa pandemia de Covid que assolou o mundo inteiro e nos manteve distante das coisas que gostamos de fazer e ver. É bem verdade que não cortei completamente o contato, uma vez que quase diariamente usei as redes sociais para me inteirar das novidades, como também lancei mão de fotos e vídeos que retratam o meu velho e bom Curador para minorar um pouco a saudade crescente.
Enfim, o grande dia chegou. Logo cedo da manhã meu sobrinho, Dr. Andrey Araújo passou na minha casa e me levou junto na viagem que ele empreende todas as semanas para prestar seus serviços de médico na cidade berço da sua mãe.
Viagem iniciada, deliciei-me com as paisagens da estrada tão minha conhecida, mas por onde não andei por longos dois anos, como já afirmei. Enquanto o automóvel desenvolvia a sua velocidade e engolia a distância, admirei cada árvore, cada vale e morro que ia sendo enquadrados pelo meu olhar sequioso através da janela do veículo. Enquanto isso, o coração ia ficando acelerado à medida que ia me aproximando do meu objetivo, que era lançar olhos sobre o casario simples e conhecido, sobre as pessoas da minha terra saudosa, afinal.
Como tomamos a BR 226, a primeira visão não foi a do campanário da matriz de São Sebastião, primeira imagem que se tem da cidade, como quando se faz o trajeto pela outra rodovia. E assim tem sido nas últimas vezes, já que o percurso pela já citada rodovia é mais curto e melhor. Pode-se dizer que entramos pela outra ponta da cidade, pela sua saída do sul.
De qualquer forma, chequei e a emoção tomou conta de mim como já esperava. Estar de volta é delicioso.
Após retirar a bagagem, que deixei na casa de meu irmão Jônatas, onde me hospedei, logo já estava dando as primeiras pernadas pelo trecho da cidade tão conhecido para mim. Ia em busca da casa em que nasci, e que guarda tantas lembranças vivas de pessoas queridas que já não habitam lá. É sempre doloroso o retorno àquela velha casa em que nasci e passei os primeiros quatorze anos da minha vida. Lá, agora, reside meu irmão Josélio com a sua família. Mas a casa é a mesma, fez ele questão de não alterar muito a sua decoração. Os móveis também ainda são os mesmos. Assim como os bibelôs sobre eles, também os quadros nas paredes, decoração simples que ainda tem a mão e o gosto da minha mãe. Na sala de estar ainda permanece na parede aquele quadro pintado a óleo pela minha saudosa prima Rute Barros com a imagem do meu pai elegantemente trajado, cabelo alinhado de lado e o olhar sereno e doce. Preciso ainda me acostumar com minhas perdas. Os primeiros momentos são de profunda nostalgia.
Depois, saio para a rua novamente e vou me entretendo com as novidades e os novos acontecimentos e transformações por que passa a pequena cidade.
Na rua Grande, ou Magalhães de Almeida, onde ficava a nossa casa, por exemplo, lojas e mais lojas substituem os antigos lares e seus moradores foram trocados por trabalhadores do comércio. Os antigos chefes de famílias já não se encontram mais neste plano terreno, a não ser uns poucos que ainda resistem à passagem do tempo. Desses que se foram, muitos deles eram meus parentes. Uma vez que os membros da grande família Barros moravam muito próxima uns dos outros.
Tios, tias, primos, primas, amigos diletos, que até alguns anos atrás encontrávamos ao caminhar pela rua conhecida, não encontro mais na minha caminhada. Agora, pouca gente do meu tempo ainda transita por ali, e sou eu o desconhecido que passa admirando as mudanças ocorridas. E por conta disto, quase ninguém me cumprimenta e eu prossigo como um anônimo pelos três quarteirões longos que me levam até a praça da matriz, ponto central da cidade.
Contudo, muita coisa ainda permanece igual. O lindo céu ainda é o mesmo. De um azul esplendoroso que me cativa. O ar amigável e o prazer de caminhar pelas suas ruas também permanece o mesmo. Cidade polo de uma região que se desenvolve com relativa velocidade, as mudanças ocorridas são grandes, isso é fato. E eu ainda não tenho certeza se gosto disto. Afinal, juntamente com a chegada do tal progresso, vieram também as suas mazelas mais conhecidas, como a insegurança e os costumes estranhos. A nossa simplicidade foi embora para nunca mais retornar. Hoje já respiramos um certo ar cosmopolita e tentamos desfrutar das boas coisas que a modernidade trouxe.
Que os novos tempos sejam magnânimos conosco e não nos tire a nossa liberdade de ir e vir, de conversar nas esquinas das ruas e sorrir com a boca escancarada e os dentes à mostra, sem o tapume de tecido na cara que nos impede de mostrar a felicidade estampada apenas através dos olhos.
Logo estarei de volta! Espero em Deus!
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