terça-feira, 5 de junho de 2018

A HISTÓRIA DE PRESIDENTE DUTRA - A Primeira Autoridade na Vila do Curador (Parte 15)



José Pedro Araújo

Agente Fiscal Distrital ou Agente do Consumo – Primeira autoridade civil na vila de Curador - Sob esse título, alguns cidadãos desempenharam o papel de administrador do distrito do Curador. No Decreto nº 539, de 16 de dezembro de 1933, definia-se um dos poderes de um Agente Distrital assim: “o Agente Distrital é o delegado do Prefeito no Distrito”. E no Art. 05 do citado Decreto, está estabelecido que “A administração de cada distrito será feita por intermédio de um Agente Municipal, de imediata confiança do Prefeito e por ele livremente designado e demitido”.
Os agentes distritais foram, por conseguinte, os nossos primeiros “prefeitos” nomeados, responsabilizando-se pela administração da nascente comuna. Entretanto, essas autoridades não receberam o devido reconhecimento dos nossos historiadores, e por essa razão, seus nomes não são conhecidos hoje pelo povo, especialmente pelos estudantes que recebem como tarefa escolar, escrever a história da sua terra.
O professor e historiador Galeno Edgar Brandes, um dos grandes historiadores de Barra do Corda, a quem temos recorrido com frequência nesse livro, nos ajuda mais uma vez a resgatar um pouco da nossa história, sobretudo aquelas partes que ainda teimam em se manterem incógnitas, quando lembra que Edison Falcão Costa Gomes(ex-prefeito de Barra do Corda, agrimensor, professor e suplente de Juiz), pertencente a uma das mais tradicionais famílias de políticos barra-cordense, “foi Agente Distrital no Curador um pouco antes de se tornar prefeito do município”(BRANDES, op. cit.). 
Vila de Curador em 1928
O Cap. Diolindo Luís de Barros ocupou também o cargo de Agente Fiscal Estadual do Curador (Agente do Consumo), por volta dos anos 20, até agosto de 1934, quando pediu demissão. Nessa época, lembra D. Feliciana Nunes Guterres, seu pai realizava a cobrança de impostos sobre a produção do povoado. Assim, de todo bovino que era abatido na vila, por exemplo, dele era cobrada uma taxa a título de imposto. E no final do mês, o “Agente do Consumo” se deslocava até a sede do município para prestar contas do apurado. Esse cidadão, paralelamente à função de fiscal, também era responsável pela execução das obras públicas que se fazia no povoado e pela segurança da sociedade, desempenhando o papel de subdelegado de policia. Essa última atribuição era desempenhada quando não havia um delegado titular no exercício da função.
Parece ter sido o Coletor Estadual José Lúcio Bandeira de Melo o último agente distrital do Distrito Administrativo de Curador. Pois como Agente Fiscal Distrital foi mantido no cargo de interventor temporariamente, até a nomeação, pelo Exmo. Sr. Governador do Estado do Maranhão, do primeiro interventor de fato, o Major Valdemir Bezerra Falcão. Valdemir Falcão já havia presidido o Conselho de Intendente de Barra do Corda por mais de uma vez, nos albores do período republicano, e deixou sementes familiares no novo município.
Antes deste último agente distrital, assumiu ainda o posto o Sr. Miguel Araújo de Carvalho(Miguel Sansão), além de outro “cordino” conhecido, Ardaleão Américo Pires(vice-prefeito duas vezes e vereador em mais de um mandato, além de ter ocupado o cargo de delegado de polícia, todos em Barra do Corda), que aqui esteve como Agente Distrital em 1923 ou 1924, sendo responsável também pela segurança e a ordem públicas do lugar, ocasião em que por aqui andou o revolucionário Manoel Bernardino de Oliveira.
Omitimos, por falta de informações confiáveis, o nome de muitos outros personagens que devem ter ocupado o cargo acima descrito. Esperamos que nossos historiadores tenham mais sucesso em suas pesquisas e consigam identificá-los, relacionando seus nomes e resgatando-os dessa grande omissão.
Como se pode ver, as dificuldades de acesso, bem como a enorme distância entre a vila de Curador e a sede do município(mais de 140 quilômetros na época, tal as voltas que a estrada fazia), não se constituía em impedimento para que os cidadãos fossem cobrados pelo fisco. Todavia, por esse tempo, parte desse imposto era diretamente reinvestido em prol da comunidade antes de sair da região.  Diferentemente dos dias de hoje, quando quase tudo o que é arrecadado fica centralizado em Brasília ou nos cofres estaduais, e quase nada é investido no local em que ele é feita a sua captação.


sábado, 2 de junho de 2018

MURILO BRAGA: o triste fim do grande educador


Dr. Murilo Braga


José Pedro Araújo
Murilo Braga de Carvalho foi talvez o cidadão piauiense de maior destaque nacional durante o governo Vargas, e início do governo Eurico Gaspar Dutra. Nascido em Luzilândia, em 08 de dezembro de 1912, ainda adolescente seguia para o Rio de Janeiro onde se matricularia, em regime de internato, no colégio Pedro II. Murilo Braga era filho de José Raimundo Braga de Carvalho e Carmosina Pires Braga e consta que iniciou seu aprendizado básico em colégios do seu município. No Colégio Pedro II concluiu o curso de humanidades e logo ingressou na Universidade do Brasil(Rio de Janeiro), para cursar o ensino superior, graduando-se em Direito na turma de 1937. Estudante dedicado, logo foi convidado pelo professor Lourenço Filho para trabalhar no Instituto de Educação, passando a ocupar o cargo de Assistente de Gabinete. Já formado, em 1937, foi para o DASP para compor a equipe do grande educador, Dr. Luís Simões Lopes. E não parou mais, dado à sua reconhecida competência, logo ocuparia o importante cargo de Diretor da Divisão de Pessoal daquele órgão. A sua carreira meteórica encontrou campo fértil no governo Vargas, sempre atento a novos talentos e, não demorou muito, foi deslocado para o Ministério da Educação e Saúde para desempenhar a elevada função de Diretor do INEP – Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos. O Governo federal planejava a interiorização da educação no país e destinou a Murilo Braga a missão de implantar escolas em todos os recantos do Brasil.
Ativo, e muito disciplinado, o piauiense organizou durante o ano de 1946 o “Plano de Construção Escolar” em todo o Brasil, implantando centenas de escolas na maioria dos estados brasileiros. E ao mesmo tempo prestava a sua valiosa colaboração à Fundação Getúlio Vargas(1944), órgão criado para preparar pessoal qualificado para a administração pública e privada do país, de cujo Conselho Diretor ele tomava parte.
Murilo Braga de Carvalho era um homem de múltiplas atividades, pois nesse mesmo tempo participou da criação da associação dos ex-alunos do internato do Colégio Pedro II, entidade que se reunia anualmente, no dia 2 de dezembro, em um almoço no velho casarão de São Cristóvão. E coube a ele falar em nome dos seus ex-colegas logo na primeira reunião que ocorreu no ano de 1945.
Foi casado com a professora municipal Cléia Santos Braga de Carvalho, com quem tinha três filhos, dos quais só localizamos o nome de dois deles: Murilo Braga de Carvalho Júnior e Cléia Maria Braga de Carvalho.
Homem de múltiplas atividades, como já explicitamos, Murilo Braga ocupava também o cargo de Diretor do SESC – Serviço Social do Comércio, sendo responsável pela organização do Serviço Social Rural do Brasil. Foi nessa condição que ele viajou para os EUA para representar o país em um encontro mundial que tratava sobre o tema de interesses da fundação, quando foi vitimado por um acidente aéreo no qual veio a falecer. Na sua companhia ia também o funcionário do SESC, Alain Carneiro.
A morte prematura de Murilo Braga, e de todos os passageiros e tripulantes do avião “President” da Pan Am, causou muita comoção ao país em virtude também das dificuldades de localização dos destroços para o resgate das vítimas. O local do acidente do avião Clipper, só foi identificado três dias depois. Mas a remoção dos corpos dos passageiros e tripulantes sou ocorreu cerca de dois meses e meio após a ocorrência, em decorrência das dificuldades de acesso ao local dos destroços da aeronave, mas principalmente devido a problemas no planejamento e execução do serviço de regate. E isso causou imenso sofrimento e revolta às famílias das vitimas, fazendo com que a imprensa nacional, principalmente a Carioca, pressionasse as autoridades para que adotasse maior rapidez e eficiência na adoção de providências. Ainda tinham esperança de que houvesse passageiros com vida.
A imprensa que tanto pressionava o governo e a empresa aérea responsável pelo voo fatídico, também foi porta-voz de notícias falsas que trariam muitos problemas para a execução das ações de resgate das vítimas ao veicular que o avião vitimado fazia o transporte de pedras preciosas e joias, além de uma partida de Urânio, justamente o que teria ocasionado a explosão do avião em pleno ar. Essas notícias despertaram a cobiça de muitos aventureiros que se embrenharam na mata para tentar saquear os pertences das vítimas, o que obrigou as autoridades a bloquearem todos os acessos à região em que o avião vitimado se encontrava.  Mas o caso já tomara todo o noticiário nacional, e à medida que dias iam passando, mais e mais problemas iam surgindo. Foi o que ocorreu quando Ademar de Barros, em campanha para o governo de São Paulo, mas também de olho nas eleições para presidente do Brasil, dois anos depois, resolveu entrar no jogo e organizou uma tal “Caravana da Solidariedade”, para a qual foram destacados trinta homens. Alguns paraquedistas, mas também gente da força militar do estado, associaram-se para fazer o traslado das vítimas. E para isto, prometeu o político aos membros da tal caravana, os bens que conseguissem localizar, seriam seus, inclusive os tais diamantes que diziam haver em grande quantidade em meio aos destroços da aeronave.
A tal Caravana da Solidariedade partiu de São Paulo em dois aviões, armada e disposta a tudo, pois acreditavam existirem muitos índios belicosos, bem como animais ferozes infestavam a região em que o avião havia caído. Identificado o local, os membros da comitiva ademarista saltaram de paraquedas em uma clareira na mata distante seis quilômetros dos despojos.
O governo e a Pan Am, ao saberem que os paulistas já haviam se deslocados para a região, apressara-se  em mandar para o local uma equipe formada com homens da Aeronáutica brasileira e dos Estados Unidos. Temiam a descaracterização do local por parte dos paulistas, o que dificultaria ainda mais a elucidação das causas do tenebroso acidente.
Alguns estudiosos afirmam que os membros da famigerada Caravana da Solidariedade chegaram primeiro ao local do desastre, enquanto outros afirmam que eles não saíram da clareira em que foram deixados pelas aeronaves, amedrontados que estava de enfrentar a mata fechada e também a pela possível presença de indígenas bravios e animais ferozes. O certo, é que foram encontrados pelos membros da comitiva oficial já sem suprimentos para a sua manutenção.
A Equipe oficial providenciou o sepultamento das vítimas na própria selva, já que não tinham como realizar o traslado dos corpos mutilados para fora da mata. Pois, o helicóptero enviado pelos americanos, encontrava-se com avarias e não poderia remover as vitimas. Deste modo, completado o trabalho de sepultamento dos corpos das vítimas, e estudo do local, os membros da equipe governamental foram sendo retirados um a um. Mas, quando os membros da caravana de paulistas se viram sem condições de fazer o mesmo, visto que Ademar de Barros praticamente os havia abandonado na selva às suas próprias sortes, fizeram uso das armas e enfrentaram os dois oficiais que ainda restavam no local, um brasileiro, e outro americano, e os mantiveram como reféns. Exigiam que eles próprios fossem retirados dali em primeiro lugar. Foi uma negociação longa e problemática, pois o helicóptero que era utilizado para realizar o trabalho já estava sem condições de prosseguir com o mesmo.
Depois de muita negociação, ficou acertado que o governo abriria uma pista de pouso na clareira para a retirada de todos os que ainda estavam na região, depois que a noticia do fato tomou as principais páginas dos jornais do mundo inteiro. E assim foi feito, muitos dias depois.
Os restos mortais do ilustre piauiense só seria trasladado, e sepultado no Cemitério São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro, no dia 15 de agosto daquele ano de 1952, 107 dias após o acidente que vitimou o avião “President” da Pan Am, fato ocorrido no dia 28/04. Ou mais precisamente, três meses e meio após o falecimento do nobre educador. Muito sofrimento para a família deste jovem e abnegado cidadão que tantos benefícios levou para os mais distantes rincões deste imenso país. Benefício que também beneficiou este escriba, que iniciou o seu aprendizado escolar em um colégio construído com recursos repassados pelo homenageado desta singela crônica, e que presta justa homenagem ao grande Murilo Braga de Carvalho.