quinta-feira, 19 de julho de 2018

MARÍTIMA

Mar de Luis Correia e o pôr-do-sol


Elmar Carvalho, é poeta, cronista e romancista,  e membro da APL.

Do mar eu trouxe
o vento que dança
em torno de meus cabelos.
Trouxe este meu cheiro
de sal, mariscos e maresia.
Vaqueiro fui e fazendeiro
de estrelas-do-mar que
subiram ao céu para formar
constelações e galáxias.
Nas pontas agudas de meus dedos
cintilam fogos-de-santelmo.
Meus olhos têm o brilho
que roubei das ardentias.
Os relâmpagos das procelas
pousaram nas minhas mãos
e nelas se aninharam.
Do ritmo do mar eu trouxe
os meus gestos e o meu jeito de falar.
Num lance de búzios
joguei minha cartada final
em que fui anjo terminal.
Do mar eu trouxe a cantiga
do vento na voz dos búzios.
Sobre o dorso de alados cavalos-marinhos
pesquei sereias malévolas que me
encantaram e depois fugiram.
No vai-e-vem das ondas
busquei o meu gesto de
posse e devolução.
Trouxe o meu beijo temperado
no salamargo de suas águas.
Trouxe tesouros sepultos
nas covas do coração.
Com o mar aprendi meu modo
de caravela: meus dedos
são filamentos que machucam
sem querer, que ferem
sem ter por quê.
Trouxe caracóis que se (con)fundiram
com os caminhos labirínticos que trilhei.
Louros, nunca os tive,
exceto algas em meus cabelos.
Arrebatado por navios fantasmas
conheci várias e inefáveis dimensões.
Nadei contra as correntes marinhas,
mas a elas cansado me entreguei,
despojado da púrpura e do cetro
com que havia lutado.
Trouxe do mar as conchas ilusórias
     – multiformes e multicores –
com que minha vida enfeitei.
Mas sobretudo trouxe a vida
na alegria das chegadas
e na tristeza das despedidas.   

sexta-feira, 13 de julho de 2018

DEPOIS DO GINÁSIO PRESIDENTE DUTRA (CPD)

Turma do CPD 1969 - O autor é o último da esquerda para a direita

José Pedro Araújo

Ontem, em entrevista concedida ao programa Sarau 16, da TV Assembleia, fui instado a falar pelo entrevistador, o notável Otávio César, sobre os motivos que me levaram a escrever sobre a minha terra querida. Quase não paro mais de elencar as várias razões que me levaram a fazer isso. Ainda muitos motivos ficaram sem espaço em decorrência da brevidade do tempo de uma entrevista, mesmo tão alongada como foi esta. Antes disso, a conversa se deu, ainda fora do ar, sobre os valores do velho Curador, cidade que o entrevistador afirmou ainda não conhecer. Hoje pela manhã, ainda acordando lentamente de uma noite bem dormida, passei a rememorar tudo aquilo que conversamos. E então me veio à mente os meus últimos dias de residência na minha querência, os momentos de insegurança e de saudade antecipada que me envolveu naqueles dias de dezembro a março de 1969.
O meu tempo na minha terra estava se esgotando rapidamente, pois sabia que talvez não voltasse mais a morar por ali. E isso de fato ocorreu. Até agora, pois não costumo fazer tentativas de premunir o futuro. Depois das festividades da formatura, que aconteceu no salão paroquial, veio-me aquela sensação de desamparo, de ruptura com os meu pretéritos quinze anos vividos em meio a minha família, aos meus amigos, ao meu habitat, enfim.  Tudo isso permeado com uma grande indefinição: aonde iria para dar continuidade aos meus estudos? Essa pergunta se arrastou por muitos dias. Até que meu pai bateu o martelo e falou que o meu destino seria Teresina, capital do seu estado natal, e onde possuía muitos parentes e amigos.
Decidido isto, certo dia ele partiu em viagem à capital piauiense para tentar me matricular em algum estabelecimento do curso secundário. Meu pai era muito decidido e não costumava recuar frente aos problemas que lhes apareciam. Naquela época, atravessava uma grave crise financeira, uma vez que tivera que encerrar as suas atividades comerciais, fechando a sua loja de tecidos. Já em Teresina, foi em busca de alguns parentes para solucionar o primeiro problema: a minha matrícula em um colégio público, onde pudesse eu estudar gratuitamente. Bateu às portas do Palácio de Karnak, sede da governadoria do estado, em busca de um primo em segundo grau, Coronel Aurino Nunes, que desempenhava as funções de secretário do governador Helvídio Nunes, também seu parente. E de lá já saiu com um bilhete endereçado ao diretor do Liceu Piauiense (Colégio Estadual Zacarias de Góis), uma solicitação para que aquele diretor providenciasse uma vaga para mim naquele estabelecimento de ensino.
Ao ser recebido pela maior autoridade do colégio, deu-se a conhecer e falou sobre as razões do pedido da sua audiência. O Diretor respondeu rapidamente que sentia muito, mas o período das inscrições, e até mesmo para os testes para ingresso no colégio, já tinham acontecido dias antes. Portanto, não havia mais o que fazer. Meu pai sacou do bolso o bilhete enviado pelo Secretário do governador e o entregou para ele, que o leu rapidamente, e depois retrucou: “por que o senhor não me entregou logo o bilhete? Isso aqui é uma ordem, apesar do cuidadoso e educado termo de solicitação!”  
E de imediato chamou uma senhora da secretaria para solucionar o problema, ou seja, realizar a minha matricula. Mesmo fora dos prazos, mesmo sem fazer os exames obrigatórios para ingresso no colégio. Antes que façam algum juízo sobre o acontecido, devo dizer que o meu pai não tinha muitas opções naquele momento, e o meu ingresso no colégio, mesmo tomando um atalho, não prejudicou a ninguém, posto que não ocupei a vaga de nenhum outro aluno que tenha seguido os trâmites normais. E eu honrei cada aula assistida, dediquei-me com afinco aos estudos e logrei bons resultados naquele estabelecimento de ensino.
Na hora da matrícula, surgiu um problema: meu pai havia se esquecido de levar as duas fotografias 3x4 que eram necessárias para serem afixadas nas fichas de matrícula. Mas a senhorinha encarregada pelo diretor resolveu o problema rapidamente: apanhou na sua bolsa duas fotos de um neto mais ou menos da minha idade e pregou-as nas fichas. Pediu ao meu pai que, quando eu viesse para o início das aulas, trouxesse as fotografias para ela fazer as substituições. Tanta simpatia daquela senhora lhe era um atributo que nascera com ela, uma pessoa já idosa, mas muito carinhosa e de fino trato. Mas havia uma outra razão: logo meu pai descobriu ser aquela senhora uma sua parenta, descendente dos Araújo de Picos, que também era a sua terra natal.
Vencida essa etapa, que comemoramos com muita alegria, havia uma questão crucial a ser resolvida: em que lugar eu iria morar em Teresina? Mas meu pai sempre foi um homem movido à esperança, além de muito firme nos seus propósitos. Quando perguntado sobre isso, ele me respondeu: o futuro Deus proverá! E Ele realmente proveu. Através de um amigo comum, que intermediou a conversa, surgiu o senhor Manoel Pepita, um nobre servo de Deus que residia nas imediações da ponte metálica de Teresina, e que me acolheu até que eu encontrasse um local para ficar. Passei com a sua família os primeiros quatro meses da minha já dilatada residência na capital piauiense. E o melhor: passei a residir muito próximo ao Liceu, e nem precisava tomar condução para chegar até lá.
Resolvido todos os problemas para a minha mudança, restou-me aquela adrenalina aumentada a cada dia que passava e que se aproximava da data da minha partida para a capital Mafrense. Sabia que, uma vez saindo de casa pela primeira vez, dificilmente retornaria para lá para residir definitivamente. Restaria os meus períodos de férias. Eu teria que me contentar com eles. E isso me trazia muitas tristezas. Até que chegou o dia da minha viagem, e nesse dia sai pelo quintal da minha amada casa abraçando e beijando cada árvore que lá existia. Estava com o coração dilacerado por deixar para trás a minha família, os meu amigos, mais também aquele lugarejo tão pequeno e tão amado, e de tantas lembranças que carregaria comigo pelo resto da minha vida.
Havia ainda um problema a ser superado: da minha turma de concludentes, somente eu iria para Teresina. Os outros partiriam para São Luís, e alguns outros, por absoluta falta de condições, continuariam seus estudos na própria cidade, onde restavam duas opções: os cursos de contabilidade e o de preparação para professor. Menos mal que no ano seguinte passei a contar em Teresina, na mesma república, com um grande amigo desde os tempos do grupo escolar Murilo Braga: Jean Carvalho de Souza. E isso teve um peso positivo grandioso na minha vida, por tudo que representou para mim a sua amizade. Mas aí já é outra história.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

A HISTÓRIA DE PRESIDENTE DUTRA – O Curador vira município (Parte 17)

Praça S. Sebastião - anos 60 (Cortesia da família de José da Cruz O. Torres)

José Pedro Araújo


A Solenidade de elevação do município de Curadorelevado de vila à condição de município em decorrência da Lei nº 820, de 30 de dezembro de 1943, este fato foi comemorado intensamente pelos moradores do Curador, mas somente em 28 de junho de 1944, no ano seguinte, ocorreria a efetiva solenidade oficial de criação.

       A instalação/criação de um novo município é assunto que merece comentários nos principais círculos políticos de um estado, pela importância que o ato possui, e, por isso mesmo, as pessoas que assinam a ata de sua instalação, passam à posteridade com seus nomes marcados para sempre na memória histórica da cidade. Posto isto, abaixo, relacionaremos o nome desses felizardos cidadãos e cidadãs que participaram do solene ato, unindo de forma indissolúvel suas histórias a deste município:



ATA DE INSTALAÇÃO DO MUNICÍPIO DE CURADOR, ESTADO DO MARANHÃO:

Aos vinte e oito dias do mês de junho de mil novecentos e quarenta e quatro, na sede do município, presente o Sr. Secretário da Prefeitura Municipal de Vargem Grande, neste ato representando o Exmo Senhor Interventor Federal no Estado do Maranhão, Dr. Paulo Martins de Sousa Ramos, e o senhor Prefeito do município de Barra do Corda, também presente numerosas pessoas da comunidade do Curador, declaro iniciada a presente solenidade. No final, a presente vai assinada por mim e por todos os presentes que desejarem assinar o presente documento.

Testemunhas:

                   Jamil de Miranda Gedeon, Manoel Gomes, José Lúcio Bandeira de Melo, Virgulino Cirilo de Sousa, Luiz Gonzaga de Sousa, Gil Arruda Léda, Adalberto Macêdo, Pedro Sereno, Antônio Macêdo, Salomão Soares, Gerson Sereno, Antônio Alves Quirino, Arlindo Paulo da Silva, Nacôr Gomes da Silva, Abdon de França, Deusamar Melo Lima, Judite Rios, Delta Falcão, Francisco(Chico) Barros, Zilda Barros Meneses, Valdir Meneses Silva, Eleusina Carvalho Araújo, Frei Gomes, Joana Lima de Macêdo, Eduardo de Melo Falcão, Josefino Marques Monteiro, Sebastião Gomes de Gouveia, Cícero Macêdo, João de Deus Ferreira, Ilídio Fialho, Anastácio Melo, Nelson Sereno, João Silva, Ataliba Almeida,  Ataliba Moreira Lima, Pedro Neto, Miguel Araújo de Carvalho, Valeriano Américo de Oliveira, Áurea Melo Lima,  Maria Nogueira, Teresinha Meneses, Jovina Sousa, Maria da Cruz Meneses, Zilda Araújo Melo, e Ambrozina Barros.



Estes cidadãos e cidadãs que desempenhavam as mais variadas funções testemunharam o ato sagrado que elevou à condição de independência o Distrito de Curador, registrando para a posteridade seus nomes nas páginas iniciais do livro de registro dos atos mais importantes do município. Desde então trilhamos sozinhos os caminhos que nos levariam ao progresso, mas também ao estado de grande beligerância que tomou conta da política local e terminaria por enlutar algumas famílias com o derramamento de sangue de alguns dos seus entes queridos. O ato de escolha dos seus administradores, que deveria ser um processo democrático e livre de todos os vícios, passou a envolver métodos abomináveis e de um coronelismo puro e selvagem. Logo na escolha dos primeiros interventores, a instabilidade política deu o tom do que veria a seguir, passando da simples interferência política à violência estremada e fatal. E por conta disso, alguns membros das principais famílias vieram a tombar sob a lei das armas e das balas. E nesse tempo as rendas municipais eram ínfimas, mal dando para fazer face às despesas mais urgentes.

O Curador, a partir de então, passou a ser visto como um lugar sem lei e sem ordem, como se pode ver nos jornais da época em que, amiúde, notícias sobre confrontos sangrentos encabeçavam as manchetes dos jornais da capital. Menos mal que esses tempos ficaram para trás e hoje a violência que nos cerca é comum em todo o território nacional, e possui causas relacionadas às drogas e ao grave problema social da má distribuição de renda no país. Aquelas famílias que antes recorriam a processos violentos para se sobreporem politicamente aos adversários, hoje convivem pacificamente e até mesmo militam nas mesmas hostes políticas.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

O MEU NEGÓCIO É A MINHA VIDA!

Extraído do Google


Inaldo Frazão é Administrador de Empresas/Consultor Empresarial/Life& Executive Coaching.

Repetidas vezes tenho ouvido esta frase de vários empresários, que em um tom afirmativo tentam demonstrar o seu amor ao seu negócio. Lamento dizer a esses empresários de que não, não e não... o seu negócio nunca será a sua vida, são duas coisas totalmente separadas. Seu negócio é algo separado de você, com suas próprias regras e seus próprios objetivos, um organismo que se pode dizer que vive ou morre dependendo do modo como se sai em sua única função: encontrar e manter clientes. Quando você reconhecer que o objetivo de sua vida não é servir o seu negócio, mas sim, o objetivo primordial de seu negócio é servir a sua vida, você deixará de trabalhar no seu negócio (como empregado), para então trabalhar para o seu negócio (como dono do negócio). Será que isso faz algum sentido?
Outra situação bastante reclamada pelos empresários é a falta de mão de obra especializada. Sim, é sempre bom ter em seus quadros gente com conhecimentos técnicos para desenvolver um trabalho.  Mas em negócios não existem “milagres” – não dá para ter resultados satisfatórios dentro de uma empresa quando ela não tem modelo de negócios, não tem sistemas padronizados de trabalho.
Não adianta muito uma empresa ter funcionários extraordinários em seus quadros, se a empresa não trabalha com processos. Quando isso acontece, o funcionário tido como extraordinário vai carregar sozinho a empresa nas costas. O que vai ocorrer: o empresário ficará refém e ou dependente desse servidor. O mesmo pode ocorrer com um Clube de Futebol que tem um elenco de estrelas, mas não consegue bons resultados no campeonato, por falta de padrão para manter um sistema de jogo. Fica um amontoado de “craques” em campo mas que não conseguem executar com sucesso as tarefas determinadas pelo seu treinador. Os empresários devem criar negócios cujos resultados sejam dependentes de sistemas e, não, de pessoas extraordinárias. O sistema de negócios de sua empresa é que deve ser extraordinário.
O primeiro passo para começar a fazer esse processo é criar dentro de sua empresa um Modelo de Negócio, com as inovações possíveis. Depois realizar a quantificação (testar) esses processos para que ocorra a padronização dos serviços. Em seguida, levar ao conhecimento de todos aqueles que trabalham na empresa.
Um dos maiores problemas que ocasiona a perda de clientes é a falta de padrão dos serviços nas empresas. Se você visitar 03 (três) vezes por mês uma dessas empresas a que me refiro, constatará o que estou dizendo: não existirá PADRÃO e cada atendimento, com certeza, será diferente um do outro. Se você foi a essa empresa pela primeira vez e gostou do modelo de atendimento e resolveu voltar e a empresa não conseguiu repetir o mesmo atendimento da primeira vez, que por sinal, te encantou... com certeza você irá mudar de empresa na próxima compra.
Por que a empresa perdeu o cliente? Lógico que faltou padrão nos serviços oferecidos pela empresa. O trabalho nessas empresas é feito de forma aleatória, ou seja, cada atendente busca fazer o que sabe e/ou da forma que lhe foi passada quando foi admitido na empresa. Quando o correto seria todos obedecerem a um processo padronizado e planejado pela Direção da empresa.
O que você acha que empresas como o Macdonald, a DISNEY e IBM fazem? Por que elas conquistaram o mundo? Todas elas têm algumas coisas em comum: têm processos inovadores e mantem um padrão definido para os seus produtos e serviços.
É literalmente impossível produzir um resultado uniforme em um negócio que depende somente de uma pessoa extraordinária. Portanto, traga as pessoas comuns a fazerem parte do seu negócio extraordinário baseado em processos e com padrão de serviços definidos. Esse processo deve ser levado ao conhecimento de todos os funcionários da empresa.