José Pedro Araújo
A Agência dos Correios, sem o Telégrafo, foi implantada
nesse período inicial do desenvolvimento da vila de Curador, possibilitando o
contato com outras regiões do estado através do transporte de correspondências
para a sede do município em lombo de animais, e dali para a capital, por barco,
pelo rio Mearim. A abertura das picadas na mata para a instalação dos postes de
madeira se daria bem depois, quando se iniciou a instalação dos fios do
telégrafo, fato que contaremos mais afrente.
Apesar de um grande avanço para a comunidade, ainda mantínhamos contato
com as outras cidades através dos malotes de correspondência que eram
transportados no lombo de animais, prática abolida pelos americanos, ainda no
início do século XIX, quando aposentaram o velho Pôney Express.
Antes
desse verdadeiro avanço tecnológico, as notícias aqui chegavam com muito
atraso, dias após o seu acontecimento, deixando os habitantes completamente
alheios ao que ia pelo mundo, e ate mesmo no nosso estado. Daí a importância de
tão significativa obra de comunicação.
Para
chefiar o posto de correios foi nomeado o senhor Adelino Fernandes Barros,
membro da família Barros originária de Pastos Bons, primo do avô materno deste
autor, Capitão Diolindo Luiz de Barros, também egresso daquela cidade
sertaneja.
A
educação, ainda incipiente, contava com alguns professores que ministravam
aulas particulares, como era o caso do Sr. Elóy Barbosa Uchôa, considerado por
muitos como o primeiro mestre-escola
a transmitir seus conhecimentos no nascente povoado, ensinando às crianças do
pequeno lugarejo as primeiras letras do alfabeto.
A
propósito disto, o decreto nº 377, de 23 de novembro de 1920, emitido pelo
governador Urbano Santos, destinava recursos para a construção de uma escola no
povoado Curador e outra na sede do município, Barra do Corda. A escola que nos
cabia nunca chegou a ser construída, fato que nos leva a indagar aonde esses
recursos foram aplicados.
No
início da ditadura Vargas, é nomeado interventor em Barra do Corda o Ten. Natal
Teixeira Mendes, que além da carreira militar, devotava verdadeiro amor pelas
letras, como afirma o professor Brandes. Empossado no cargo, logo este
administrador começou a dar ênfase à educação no município, levando suas ações
aos distritos mais afastados. Afirma ainda Galeno Edgar Brandes que durante o
seu período como interventor, que durou de 1.930 a 1933, os distritos
de Barra do Corda passariam por um período de grande desenvolvimento. É
possível que tenha sido nesse quadriênio que as professoras barra-cordenses,
Edelves Maranhão Pinto e Joana Lima de Macêdo, além do professor Raimundo Alves
- que ministraria suas aulas no povoado de São José dos Basílios - tenham sido
deslocadas para cá.
Mais
afrente, no capítulo destinado à educação, teceremos maiores comentários sobre
a figura da professora Joana Lima de Macêdo que viria a desempenhar importante
papel em outras áreas, inclusive ocupando a direção do departamento de Correios
e Telégrafo.
Nesse
tempo, também foram construídos o colégio “Magalhães de Almeida”, onde hoje se
localiza a casa de Noveli Sereno, na rua que leva o mesmo nome da escola, e
também o Grupo Escolar “Maranhão Sobrinho”, no povoado Canafístula dos Moraes.
Neste último estabelecimento, minha mãe iniciou sua breve carreira de
professora, encerrando-a quando desposou meu pai e fez opção pela criação dos
filhos. Foi uma das primeiras mestras a nascer no povoado do Curador.
Alguns
historiadores do município dizem que o primeiro subdelegado de polícia do
Curador, cargo de livre nomeação do prefeito municipal, teria sido um senhor,
cujo nome correto não me foi possível confirmar, que atendia pela alcunha de
Manoel Taboca. Ainda vivíamos os primeiros momentos da nossa caminhada, quando
os problemas de segurança não nos incomodavam tanto como hoje.
Na
condição de distrito administrativo e judiciário, a povoação foi ganhando seus
prédios mais modernos expulsando para o passado os casebres de palha que
enfeavam a Rua Grande e a praça central, e ante a chegada de professores e de
alguns agentes públicos para chefiar as primeiras repartições - primeiras
pessoas detentoras de um salário fixo - algumas casas comerciais com melhor
estoque de produtos também foram se instalado na localidade, e o dinheiro
começou a circular melhor na região.
O
Distrito continuava, porém, sem um posto de saúde ou ambulatório para
atendimento de primeiros socorros, razão pela qual doenças de tratamento
simples causavam ainda a morte de seus habitantes, especialmente de velhos e
crianças, elevando ainda mais a taxa de mortalidade infantil que já era muito
alta. Não havia sequer farmácia no povoado, fato que obrigava os moradores a
utilizarem-se das plantas da região que consideravam medicinais, para, a partir
delas, proporcionar o tratamento de seus males. A propósito disto, recentemente
li um livro muito interessante da missionária inglesa Eva Mills, intitulado 8:28,
no qual narra, entre outras coisas, a sua vida nos sertões do Maranhão nos anos
20 e 30. Convidada a participar de uma Convenção Evangelística no povoado de
Curador, ela descobriu-se com Febre Tifoide logo que chegou à vila. Seu esposo
até tinha os conhecimentos necessários para cuidar da doença, mas faltava a
medicação necessária, e por isso foi enviado uma pessoa a Pedreiras, cidade
mais próxima, a cavalo, a fim de adquirir a medicação necessária. O enviado a
Pedreiras conseguiu adquirir a medicação em tempo recorde, viajando de dia e de
noite, trocando de montaria no meio do caminho, fazendo o trajeto em pouco mais
de 24 horas. E mesmo com a medicação, à falta de condições de higiene, e de um
local apropriado para manter um doente nas condições em que estava, decidiram
transportá-la para Barra do Corda.
Deixo
para a Sra. Mills a tarefa de relatar a dificuldade enfrentada por ela para se
safar da morte certa em uma comunidade que falta de tudo:
“Por conta das condições adversas em Curador, foi decidido
que me levariam, assim como eu estava, dentro da rede, até a casa dos Smith em
Barra do Corda. Os homens que participavam da Convenção, juntamente com os
nossos garotos, retiraram uma viga da casa de um deles, na qual minha rede
seria amarrada. Dois burros, um à frente e um atrás de minha rede, foram usados
para carregar a viga. Esta os manteria, enquanto me carregavam, a uma distância
constante um do outro. Cada ponta de viga estava amarrada à bagagem na sela do
burro. Dessa forma a minha rede se manteria sempre à mesma altura do chão”.(Eva
Y. Mills, 8:28, pág. 120).
Apesar
de não falar quantos dias levou o seu trajeto do Curador até a sede, Barra do
Corda, acredito não ter sido menos que quatro dias, de acordo com o desenrolar
do texto. E no caminho, ao encontrarem um grupo de pessoas, foram
indagados se o comboio transportava um morto naquela rede. Feliz por estar
viva para contar a história, a autora exemplificou o porquê da pergunta dos
desconhecidos:
“Havíamos encontrado, mais cedo naquele dia, dois homens, um
à frente do outro, carregando uma pessoa morta em uma rede pendurada sobre seus
ombros. Eles estavam bêbados. Quando ocorre a morte de uma pessoa pobre nessas
pequenas localidades, o enterro tem que ser feito dentro de 24 horas. Dois
homens são contratados para fazer isso. Eles com frequência são movidos à força
do álcool. Ao chegarem ao local do enterro, uma simples clareira na floresta...
o cadáver é colocado num buraco previamente cavado, a terra e jogada sobre ele
e a rede é devolvida ao seu dono”.(Idem).
O
fato narrado aconteceu em 1935, e registra todas as dificuldades que tinham os
moradores da nascente vila de Curador nos primórdios da sua existência.
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