quarta-feira, 4 de abril de 2018

A HISTÓRIA DE PRESIDENTE DUTRA (Parte 7)





José Pedro Araújo

O uso do fogão à lenha Nos primórdios da vila de Curador, usavam-se as famosas “trempes”, formadas por três pedras de tamanho razoável, e sobre elas se colocavam as panelas de ferro para fazer o cozimento dos alimentos. Desse “mobiliário” muito simples, foi-se evoluindo para o fogareiro construído em cupins, ou em latas de biscoito e até de querosene, até se chegar ao fogão à lenha, construído de taipa, com furos no centro por onde as panelas de ferro recebiam o fogo da lenha que queimava abaixo. Esses rudimentares fogões, com o tempo foram sendo substituídos por outros construídos de tijolo, com chapa de ferro, erigido no canto da cozinha das casas mais “abastadas’. Alguns mais criativos, logo começaram a erguer chaminés por onde a fumaça era expelida. Nem todo mundo adotava esse instrumento para se ver livre da fumaça que negrejava as paredes da cozinha com uma fuligem escura e espessa. A maioria não erguia chaminés, continuava cozinhando seus alimentos em meio à fumaça e ao calor, como se o fumo que brotava da lenha em chamas não incomodasse em nada.
            A lenha seca era apanhada no mato, tarefa quase sempre entregue aos meninos maiores da casa. Outras vezes, eram os próprios adultos quem rachavam as toras de madeira com machados bem amolados. Esse procedimento se acentuava quando se aproximava o período das chuvas. Tornava-se necessário ajuntar o maior número de achas de lenha e guardá-las abrigadas das águas que caíam torrencialmente na região. Os imprevidentes, por sua vez, padeciam quando as chuvas caíam - às vezes por dias a fio -, de maneira que estes não conseguiam achar lenha seca, ocasião em que, envergonhados, tinham que pedir emprestada alguma aos vizinhos.
Alguns mais engenhosos construíam uma espécie de câmara ardente sob o fogão, que servia de depósito. Ali colocava a lenha um pouco úmida para secar através do calor emanado do fogo que ardia acima. Esses mais previdentes possuíam lenha seca durante todo o tempo de invernada, abstendo-se da necessidade de ter que armazenar grandes quantidades de madeira no período chuvoso.
A venda de lenha, madeira seca cortada em pequenas toras ou lascas, durante muitos anos se constituiu em profissão para muitos pais de família. Era comum a visão de cidadãos pelas ruas empoeiradas da cidade tangendo seus animais à procura de compradores. As cargas eram transportadas em cambitos, colocados aos pares em um e outro lado do animal, presos à cangalha. Esses pobres animais levavam cargas enormes, arrumadas de maneira a cobrir a parte de cima, formando um semicírculo de madeira, que a seguir era amarrada com cordas para não se esparramar pela rua.
Com o tempo, essa profissão foi completamente eliminada à medida que a lenha foi sendo paulatinamente substituída pelo carvão vegetal, e depois pelo gás butano.       
Era muito comum também, erguerem-se fornos de barro no quintal, onde eram assados bolos, pães e, até mesmo, leitões inteiros para gáudio da meninada que também apreciava as broas de milho e os bolos de tapioca que as mães preparavam para o lanche da tarde, ou para o café da manhã. Ainda é possível encontrar esses fornos nas fazendas e sítios, e em menor medida na cidade, usados ainda como forma de se manter viva a tradição.
            Não são poucas as pessoas que ainda apreciam uma boa comida caseira feita em fogões à lenha. Seguindo esse costume, as melhores pizzarias assam suas massas em grandes fornos à lenha, resgatando essa prática antiga, para felicidade de quem aprecia uma comida feita através desses instrumentos antigos.
O fogão a gás, utilizado hoje, só chegou até nós em meados da década de 60, facilitando sobremaneira a vida das donas de casa. Bendito o sujeito que inventou o gás butano para amainar um pouco a tarefa cansativa das mães de família!






segunda-feira, 2 de abril de 2018

AS DELICIOSAS "HISTÓRIAS DE ÉVORA"



José Pedro Araújo

Elmar Carvalho era mais conhecido como um poeta e cronista de sensibilidade apurada e grande verve criativa. Com o lançamento do seu primeiro romance “Histórias de Évora”, obra recebida pela crítica com efusivos e rasgados elogios, mostrou que a sua pena era muito mais eclética e inventiva do que muitos imaginavam ao enveredar pela prosa ficcional com competência e muita desenvoltura. Entretanto, mesmo sendo o seu primeiro trabalho nessa seara, não me surpreendi com a belíssima história que ele construiu (ou com as histórias que ele construiu, uma vez que “História de Évora” é uma teia de várias narrativas entrelaçadas em uma só). Surpreso mesmo (além de extremamente honrado) fiquei foi com o convite do autor para que eu fizesse a orelha do seu livro, que como todos sabem, é a parte primeira, de qualquer obra, que se lê. E que termina por se transformar em um chamariz, uma isca, no bom sentido.
Foi por esta razão que considerei como um tremendo desafio apor os rabiscos da minha pena pouco experiente em uma obra que será para sempre louvada por todos os que tiverem a sorte de tê-la em mãos. Mas, de qualquer maneira, enfrentei o desafio e pus-me em ação para fazer o melhor que eu pudesse. E saiu o que se viu.
A obra em questão, além de todos os atributos que uma plêiade de críticos literários já descreveram, é de leitura agradável e viciante, pois obriga o leitor a dedicar algumas horas a mais do que pretendia gastar com o seu ócio planejado.
Mas vou deixar para o próprio autor a tarefa de explicar, em algumas poucas palavras, o que ele produziu, a obra que saiu da sua imaginação engenhosa e inovadora:
   
“Histórias de Évora é um romance de formação, e conta histórias da vida de Marcos Azevedo, o protagonista, desde a sua adolescência, ocorrida na primeira metade dos anos 1970, e de sua juventude até o início de sua maturidade, com a narrativa em terceira pessoa”.
“Mas também conta episódios de outras personagens, através de um narrador em primeira pessoa, no caso Marcos, poeta e escritor”.
“Não se trata da Évora portuguesa, mas de uma cidade fictícia, misto de Parnaíba e Campo Maior dos anos 60, 70 e 80 do século passado”.
“Como pano de fundo, é contado um pouco da História do Piauí, sobretudo a decadência do extrativismo econômico e a derrocada dos velhos cabarés”.

Observação importante:
Histórias de Évora se encontra à venda nos seguintes pontos comerciais, em Teresina: livrarias Entrelivros, Universitária, Anchieta e Leitura.

quarta-feira, 28 de março de 2018

A HISTÓRIA DE PRESIDENTE DUTRA (Parte 6)





A arquitetura das residências e a configuração das ruas – Com paredes de palha ou taipa e teto com cobertura também de palha, eram rudimentares as primeiras casas que, se não bastasse, ainda possuíam o piso de chão batido, e as portas e janelas, na sua maioria, feitas de esteiras tecidas também à partir da palha do babaçu. Com o passar dos anos as pessoas foram melhorando o padrão de suas habitações, e em substituição à palha, ergueram paredes de taipa; depois começaram a se utilizar do Adobe cru, fabricado por eles mesmos, o que já se constituía em um avanço considerável em termos de segurança e conforto.
Num primeiro momento, na rua que hoje conhecemos como Magalhães de Almeida, com suas casas comerciais belas e coloridas, era comum as pessoas construírem o próprio curral junto à casa de morada. E em lugar de muros, faziam cercas de faxina circulando o quintal da moradia.
Com o crescimento da vila, as casas foram também se modernizando, o tijolo substituiu o Adobe e a taipa, e o piso de chão batido deu lugar ao cimentado, ao tijolo e ao ladrilho, até finalmente chegar à cerâmica como vemos hoje. Construídas rente à calçada, sem recuo, era praxe o vizinho do lado “emprestar” a parede lateral ao outro que começava a erguer a sua casa também. Formou-se então o arruado como conhecemos hoje, com as casas geminadas, ligando-se umas às outras para baratear o custo de construção.
A casa padrão possuía paredes grossas, dobradas, sendo que as outras construídas internamente não chegavam até ao teto, formando o que se convencionou chamar de “meia-parede”. Mas, essas paredes grossas tinham como função primordial diminuir a temperatura interna do ambiente, uma vez que o calor se mostra muito forte em locais de baixas latitudes, como a que vivemos. E as paredes internas, que não chegavam até ao teto, tinham também como função permitir que o ar circulasse internamente beneficiando todos os cômodos, especialmente os dormitórios, com temperaturas um pouco mais amenas.
À falta de alpendres na frente, era comum se erguer outro na parte de trás das residências, de modo que se pudessem armar uma rede para descansar da labuta diária. Da mesma forma, também na parte de trás das casas era bastante comum se cultivarem jardins simples, com as plantas ornamentais mais conhecidas, onde pontificavam as rosas, os jasmins, os onze-horas, os lírios e os copos-de-leite, entre tantas outras plantas, beleza que ficava escondida, à disposição apenas dos amigos. Às vezes, construíam-se as casas, deixando-se espaços vazios no centro, uma espécie de pátio interno, e ali se cultivavam também plantas ornamentais, espaço hoje denominado de jardins-de-inverno. 
Os chamados “quartos de banho” eram construídos separadamente das latrinas, que invariavelmente eram erguidas no quintal, distante da casa para não incomodar com o seu mau odor característico. Por essa época não se tinha água encanada e o banho era tomado utilizando-se baldes, latas, bacias ou tinas para armazenar a água retirada de poços construídos no próprio quintal. O aparelho sanitário era na verdade um buraco cavado no chão sobre o qual se colocava um tablado com um furo no centro à guisa do tal aparelho. Somente em fins da década de 60, quando do aparecimento da água encanada, as famílias foram construindo os banheiros no interior das próprias residências, eliminando-se o desconforto de ter que procurar o quintal em noites de chuva torrencial.
Esse tipo de casas pioneiras, cujo principal material de construção era a palha de babaçu e o barro, ainda hoje são muito comuns em todo o interior maranhense, especialmente na região dos cocais, pela facilidade de sua construção, usando-se a madeira abundante, a palha, também sempre à mão e o barro visguento, chamado de massapê. Os costumes também ainda são os mesmos nessas pequenas comunidades: dorme-se em redes, utiliza-se do mato próximo para as necessidades fisiológicas e a higiene corporal é feita em banheiros rudimentares construídos nos quintais. Grande parte das pessoas residentes nessas habitações simples nunca se utilizou de um chuveiro para tomar banho ou de um vaso sanitário para fazer as suas necessidades fisiológicas. Contudo, a maioria dessas comunidades já possui energia elétrica, e recebe sinais de televisão através das famosas antenas parabólicas, o que lhes transmite algum conforto. Quanto aos outros hábitos, esses permanecem os mesmos de muitos anos atrás.
Por outro lado, as ruas sem calçamento, favoreciam a formação de uma poeira vermelha que penetrava nas casas e impregnava tudo, transformando as tarefas domésticas de uma dona de casa em algo muito mais difícil. Pior mesmo era quando chegavam as chuvas. Esse mesmo barro solto que provocava a poeira, quando molhado, transformava-se em um lamaçal digno dos grandes atoleiros. As águas escorriam velozes e livres aproveitando a inclinação do terreno, e formavam grandes valas no leito das ruas, verdadeiras voçorocas.
Foi dessa maneira que o arruado começou a ser formado, e em pouco tempo já existia o que se poderia chamar de uma rua, encontrando-se até algumas casas comerciais. Assim, aí pelos idos de 1920, era possível descrever a Rua Grande, como uma artéria ainda em formação, onde se alternavam algumas casas com paredes de tijolo, outras de taipa, e outras completamente de palha; era até possível encontrar alguns currais juntos as casas mais importantes, seguidos de trechos com capões de mato, para logo em seguida aparecer outra casa. Ganhou ate mesmo um nome, Rua Frederico Figueira, em homenagem a um político famoso de Barra do Corda, para, finalmente, receber o nome de Magalhães de Almeida, um militar maranhense que ocupou o destacado cargo militar de comandante da Marinha, vindo depois a se tornar um governador dos mais operante para o nosso estado.
Quando menino, aí pelos idos dos sessenta, a residência de um tio meu, Chico Barros, tinha a frente voltada para a Magalhães de Almeida(hoje funciona lá o Armazém Paraíba), e o quintal servia como curral para o seu rebanho, e ficava voltado para a rua Cel. Sebastião Gomes. Mais na frente, local onde hoje residem os Bezerra, existia um engenho para moer cana-de-açúcar. Lá se fabricava rapadura, garapa de cana, e até mesmo um pouco de aguardente.
Depois que  a chamada rua Grande ficou sem espaço, vieram as ruas do Cisco, do Segredo, do Sol, do Campo, da Mangueira, o Largo da Feira, entre tantas outras que foram se formando a medida que a povoação ia crescendo.
Assim se formavam as vilas pobres do sertão, sem a presença dos sobradões habitados pelos coronéis, sem as praças com fontes no centro, sem a opulência, por fim, das regiões de fronteira agropecuária como se vê hoje em dia, quando ricos desbravadores erguem seus impérios em poucos anos.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Os Personagens da Marechal

Av. Marechal C. Branco com pista sinalizada


José Pedro Araújo

Marechal Castelo Branco é a avenida que ombreia o rio Poti pela sua margem esquerda, importante via que se transformou rapidamente em alternativa importante ao tumultuado trânsito para buscar o centro da cidade. Bela no seu aspecto paisagístico virou também pista de caminhada para os apreciadores do jogging. Gosto de fazer as minhas caminhadas matinais por lá, em detrimento da outra pista que margeia o mesmo rio pelo seu lado direito, e que foi batizada com o nome de Raul Lopes. Esta outra avenida recebe uma quantidade maior de “atletas”, especialmente nas tardes mornas de Teresina. Porém, foi na Marechal que eu me adaptei e queimo algumas calorias, desfrutando do seu sombreamento e da sua paisagem atraente. Já afirmei certa vez, para responder à indagação do porquê de não gostar de caminhar pela Raul: gosto de bater pernas durante a parte da manhã, quando o clima é mais ameno, e também por não possuir muitos conhecidos por ali que possam atrapalhar a minha caminhada e a meditação que faço nessas horas. Por isso, gosto de caminhar sozinho e incógnito, ao contrário de muitos que gostam de conversar muito durante a caminhada. Dizem, para se justificarem, que o tempo passa mais rápido. Só que eu prefiro meditar ao invés de emitir ideias, ouvir pontos de vista. Pronto.
Tenho observado alguns personagens que transitam sempre por lá para aprimorar a forma física, em busca da saúde perdida. Começo pelo mais ativo deles, um cidadão magro, careca e que usa sempre calça de jogging, talvez para esconder as pernas finas e ágeis. Vejo que deve estar aí pela casa dos quarenta anos, quem sabe, um pouco mais. Este é um viciado no mister. Por ser um dos poucos com quem me comunico, mesmo rapidamente, fiquei sabendo que caminha ( e corre também) todos os dias, inclusive aos domingos. Afirmou também que se sente mal no dia em que, por um motivo ou por outro, tem o seu hábito prejudicado. É uma figura que representa fartamente esses tempos em que as pessoas repõem as pernadas substituídas pelo uso do carro ou da moto, coisa que fazem até para ir à padaria logo ali na esquina.
Depois tem aquela jovem mulher que, não muito assídua quanto o nosso carequinha, vez por outra põe em dia o aprimoramento físico. Alta, forte, sempre com uma leg colada às pernas longas, passa por mim correndo e agitando a trança comprida e elegante. Poderia ser eleita a musa da Marechal, mas, pensando bem, isso não vem ao caso. Não que não transite por ali belas mulheres. Mas é que não pretendemos desfeitear outras atletas até mais assíduas e dedicadas.
Tem também aquela senhora cinquentona que, vez por outra, leva os seus cães para passear. Gorducha, claudicante ao caminhar, arrasta três cachorros pelas coleiras. Um dos animais é fêmea, grande e gorda, com um pouco de sangue Rottweiller nas veias, e me parece bonachona e tranquila. O outro é um Poodle de pelagem branca. Melhor dizer que possui um resto de pelos bancos, posto demonstrar que a sarna o tem atacado sem dó nem piedade, derrubando os cabelos sedosos e deixando ver uma pele avermelhada, maltratada. Apresenta essa característica mais destacadamente na parte de trás que ficou parecida com as ancas vermelhas de um babuíno. E o terceiro é um Pequinês de pelo também branco, rechonchudo e agitado, que parece comandar a matilha. Irrequieto, ele puxa o cordel que o prende para um lado e para o outro, para, retrocede, e a mulher, calmamente, atende a todos os seus comandos. Merece uma comenda da parte da Sociedade Protetora dos Animais pelo trabalho realizado.
De maneira igual, outra senhora traz sempre à mão uma sacola com ração para gatos e algumas garrafas plásticas com água limpa. Acredito que por ali são abandonados muitos gatos, pois a quantidade e variedade deles é enorme. E ela até já improvisou dois abrigos sob os bancos de concreto, utilizando-se de pedaços de compensado ou de papelão para erigir duas casinholas para os bichanos. As duas mulheres, tanto a dos cachorros, quanto a que abastece os gatos de comida e água, vestem-se a caráter para realizar a sua caminhada matinal. Em nada se distinguem das outras caminhantes.
Vejo por lá também aquele senhor gordo – não, não estou falando de mim - que caminha sempre acompanhado da esposa. Alto, pernas grossas qual patas de elefantes – acredito que inchadas – quando o vi começar os seus exercícios pensei que não prosseguiria por muito tempo, tal o aspecto de sofrimento que mostrava no rosto alvo e de barba branca e cerrada. Mas me enganei. Já o vejo por ali há muitos meses e observo que o seu aspecto é muito mais tranquilo, mais desenvolto, respira melhor, já não mostra mais aquele cansaço de quem vem caminhando há séculos. Esse merece ser parabenizado pela sua persistência.
Faço referência agora àquela gordinha, baixa compleição física, formas infladas dentro de uma malha muito colada que passa por mim numa velocidade estonteante como se eu estivesse parado. Deve estar com o peso dobrado. Não tem o perfil que eu penso ser o ideal para alguém caminhar com tanta desenvoltura. Era o que eu pensava antes. Mas estava engando quanto a isso. Ela passa por mim em marcha batida e sem demonstrar o menor cansaço, sacudindo o corpo dentro daquela calça de malha fina que parece uma segunda pele do tipo que as mulheres usam para conferir maior beleza às pernas. Essa moça me mostrou ainda que a idade me fez caminhar mais lento, por mais que eu queira imprimir velocidade às minhas pernas. Mal comparando, pareço aquele fusca barulhento que parece desenvolver uma velocidade estonteante, tão alto está o giro do motor, mas que trafega se arrastando pela pista qual uma tartaruga. E isso me incomoda, reconheço.
Depois, tem aqueles atletas de uma vez só. Chegam um dia, alongam-se, exercitam-se espalhafatosamente, e partem numa correria desenfreada. Logo à frente encontro-os prostrados sobre um dos bancos existem no passeio, soltando o ar com dificuldade. Nunca mais aparecem na Marechal. São muitos iguais a estes. Aves de arribação. Quase todos os dias vejo uma cara nova por lá.
Tempos atrás apareceu por lá um sujeito esdrúxulo, magro, fantasiado de indiana Jones, que parecia uma figura saída dos programas de humor. Trajando calça de jogging, tênis pouco apropriado para uma caminhada, camisa de malha mangas longas, tipo essas que vemos hoje nas praias - e que alardeiam possuir elementos para a defesa contra raios ultra violeta. Portava ainda um chapéu do tipo usado pelos exploradores sobre a cabeça que me parece perturbada. Parece conhecer os moradores da região, pois vejo-o sempre parar para uma conversa com alguns deles. Dias atrás retomou a caminhada exatamente quando fui passando por ele. Andou um bom tempo perto de mim e observei que ele cantava algumas musiquinhas para criança, tipo A dona Aranha... E mal terminava uma emendava outra. Depois entoou marchinhas de carnaval e, mais à frente, desandou a cantar músicas da Jovem Guarda. Uma coisa que eu observei, foi que ele não termina a música, canta somente uma parte dela e já vai emendando com outra.  Ou por não saber, ou por querer mostrar a sua “play list” completa. Encontro-o quase todas as vezes que vou caminhar, e, invariavelmente, traja o mesmo tipo de roupa, e está sempre cantando. Vai se saber porque!
Finalmente, quero falar aqui de um personagem que vejo quase todas as vezes que vou me exercitar por ali: um bem-te-vi. Quando menino chamava esse tipo de ave de “João Besta”, pois ficam sempre a se mostrar para nós, fazendo estripulias. Acredito que este já me conhece, e até sente alguma amizade por mim, pois fica caminhando na minha frente, ligeiro, saltitando sobre aquelas perninhas finas, compridas e desajeitadas, mas quando me aproximo mais ele entra no mato rasteiro e some. Desaparece tão rapidamente como apareceu. Sempre caminhando, nunca ao sabor das suas asas, e sempre no mesmo ponto da avenida. Penso que tem o seu ninho por ali.
No dia que não vou caminhar na Marechal Castelo Branco sinto falta e a minha consciência pesa por achar que é uma atividade inescapável a qual não posso prescindir. E ainda aproveito para me deleitar com os personagens que vejo transitar por ali. É o meu passatempo, melhor e mais saudável. E como não fico conversando durante todo o trajeto, deixo de engolir quilos de fumaça emitida pelos veículos que trafegam ligeiro pela avenida.

terça-feira, 20 de março de 2018

A HISTÓRIA DE PRESIDENTE DUTRA (Parte 5)




A vida na Vila de Curador
 José Pedro Araújo

              O que podemos afirmar com certeza é que bem antes de 1896, a vila do Curador começou a se organizar. Talvez nos idos 1877, período da grande seca que assolou o nordeste, atingindo parte do Maranhão também. Então, aproveitando-se da faixa de terra mais elevada localizada entre a lagoa do Curador, o riacho Firmino e o rio Preguiça, que a transformava na nossa Mesopotâmia, os pioneiros foram construindo suas casas rudimentares obedecendo ao sentido Leste-Oeste, a partir das imediações da dita lagoa, e rumando para o pequeno outeiro, lugar onde hoje se situa a praça da matriz de São Sebastião.
               Á falta de material cerâmico, utilizavam-se da palmeira do babaçu abundante, da madeira farta e da ótima qualidade do barro existente para erigir as taipas e cobrir os primeiros prédios residenciais.
            As casas espaçadas ficavam separadas umas das outras por currais, capões de mato ou sítios, e foram sendo construídas subindo o pequeno morro até o largo da igreja, serpenteando, sem muitos cuidados em seguir uma reta ou alinhamento bem definido. Nesse largo, que se tornaria o ponto central da vila, além da rudimentar capela, erigida em intenção a São Bento - construída a princípio de taipa e coberta de palha de babaçu – surgiram rapidamente por volta de dez casas, construídas no mesmo padrão da capela. Neste local, nos primeiros anos do século 20, aconteceu um grande incêndio que reduziu à pó cerca de sete residências, constituindo-se no maior sinistro ocorrido no princípio da vila.
Esta capela, construída inteiramente a expensas da comunidade, mais tarde ruiu, para desgosto dos devotos e iniciados. Mas novamente os moradores a levantaram. Dessa vez de adobe cru, mais sólida, seguindo padrões de maior segurança e conforto.
            São Bento foi o padroeiro escolhido para dar nome a ela, não por uma devoção fervorosa da senhora que a levantou em primeiro lugar, mas em decorrência dos variados tipos de cobras e animais peçonhentos que infestavam aquele morro. Depois, desconhecendo-se o compromisso de quem primeiro habitou essa região, quando a capela simples foi demolida para dar lugar ao majestoso templo que hoje temos, o nome do santo padroeiro também foi substituído. Passou-se a homenagear São Sebastião.
Situado à cerca de 100 quilômetros do município sede, aos poucos esses desbravadores foram construindo também os acessos para outros lugarejos, em trilhas abertas na mata por onde os tropeiros tangiam seus animais. Tratava-se de simples caminhos para tropas de animais, despretensiosas picadas que ao longo do tempo foram ganhando uma feição mais alargada, lisa, já possibilitando o tráfego de carros-de-boi.
Foram longos anos de total isolamento, quando uma viagem à cavalo até Barra do Corda durava muitos dias, varando a mata fechada. Era preciso transpor os vários riachos e rios que obstaculizavam o caminho. Esse tempo de viagem caiu depois para menos de dois dias, um avanço considerável. Construíram-se caminhos para Caxias também, centro mais desenvolvido situado a leste, e ponto de irradiação para os sertões. Fazia-se o percurso em quatro a cinco dias, desde que os animais não estivessem transportando carga muito pesada. Já a capital, São Luís, ficava em lugar inatingível, tão distante que apenas uns poucos cidadãos a conhecia. Tratava-se de privilégio para poucos ir à capital de todos os maranhenses.
Todas essas dificuldades, contudo, não se constituíam em impedimento para as centenas de cidadãos que começaram a chegar de todos os lados, para juntarem-se aos que aqui já se encontravam, e trabalharem com afinco até construírem o lugar de seus sonhos.
O registro civil, o registro de imóveis, ou atividades equivalentes, só podia ser realizado na sede do município, Barra do Corda, o que, pela distância obrigava muitos pais de famílias a manterem seus filhos sem registro de nascimento até a idade adulta. Por conta disso, a identidade dessas pessoas não era do conhecimento das autoridades nos levantamentos realizados junto aos cartórios. Ficavam fora das estatísticas oficiais para o bem e para o mal.
Acorreram também para a vila que se formava outros desbravadores que já exploravam diversas fazendas situadas na região, formando-se logo uma comprida rua, nesse local sem acidentes naturais, como riachos, ou morros muito elevados. Foi nesse período que começaram a aparecer também as casas de negócios. Atribui-se também à senhora Luvandoura Melo, prima em primeiro grau de D. Marica Melo, e que viera para a região acompanhando o casal de parentes, a abertura da primeira casa comercial do vilarejo. Ao que parece, seu comércio não chegaria a prosperar como era de se prever, e logo outras pessoas também abriram pequenas casas comerciais, iniciando-se o que é hoje o maior centro comercial da região do Japão.
Como foi dito anteriormente, foi a senhora Luvandoura Melo quem também erigiu a primeira capela no povoado. Construção rústica, que com suas paredes de taipa e cobertura de palha, protegia um piso simples de chão batido, e um altar humilde sem a solenidade do existente nas igrejas importantes. Contudo, o local logo passou a ser procurado por um grupo de pessoas da comunidade para rezar, suprindo a falta de um templo melhor erigido.
            A povoação tomava novo impulso à medida que as secas se abatiam sobre os nordestinos de outros estados nordestinos. Grandes contingentes dos chamados “retirantes”, chegavam à região em lombo de animais ou a pé, a princípio, e depois nas carrocerias dos caminhões, os conhecidos “paus-de-arara”, em busca de lugar seguro que os abrigasse da seca que lhes açoitava duramente na terra natal. Foi assim nas grandes secas de 1915 ou 1932. Ou nas que sucederam estas. Sempre que faltava chuva por lá, aumentava consideravelmente o número de habitantes daqui.
                Para mostrar as dificuldades enfrentadas pelos pioneiros, como viviam e se alimentavam, discorreremos sobre alguns aspectos que são do conhecimento de muitos que ainda estão entre nós, mas, que são obscuros para os mais jovens, ou para os que virão no futuro a habitar essas terras. Que fique claro que não se constrói uma cidade em uma região de difícil acesso como a nossa sem uma dose acentuada de coragem, e certa atração pelo desconhecido. Homens destemidos e valorosos saíram de suas terras já colonizadas para reconstruírem suas vidas em uma região onde a natureza se mostrava receptiva, mas os problemas da falta de infraestrutura eram gravíssimos, a começar pela falta de estradas de acesso e de todos os demais serviços públicos.  No próximo post trataremos sobre usos e costumes na vila.