sábado, 16 de março de 2019

AS DESVENTURAS DE FREI ADRIANO DE ZÂNICA

Frades Capuchos em Desobriga pelo sertão


José Pedro Araújo

Em visita ao velho e querido Curador, encontrei-me com o Professor Jean Carlos Gonçalves, jovem pesquisador que vive de “escarafunchar” velhos arquivos e tomar depoimentos de pessoas gradas que acompanharam a marcha da ocupação da região que se convencionou chamar “Japão maranhense”. Já esclareci em outra crônica, que a região central do estado do maranhão ficou conhecida por esse epíteto em razão da dificuldade de acesso a ela, por se constituir em algo praticamente inalcançável, posto estar localizada no mais profundo da mata indevassável.  É naquele espaço geográfico, que estão localizados os municípios de Presidente Dutra, Tuntum, Dom Pedro, Graça Aranha, Gonçalves Dias, São Domingos, Santa Filomena, São José dos Basílios, entre outros. Coletar fragmentos da história dessa região passou a ser uma missão de vida do jovem professor, assim como para mim também. E todos sabem que barreiras um pesquisador tem que superar para encontrar o que procura. A falta de informações confiáveis, aliada ao descaso com a preservação dos documentos que retratam a história desses municípios, fica patente a cada passo dado na busca pela reconstituição da história regional, portanto.
O encontro com professor Jean Gonçalves se constituiu em um dos momentos em que a bateia do garimpeiro faiscador arremata uma luminosa pepita valiosa. Diz-se nesses momentos, que o indivíduo “bamburrou”. E foi como eu me senti naquele momento. Explico. Estávamos em animada conversa, quando veio à baila a informação sobre uma carta escrita pelo frei capuchinho Adriano de Zânica ao seu superior na Itália, relatando a odisseia da sua viagem de Gênova, no velho continente, a Barra do Corda, no centro do estado Maranhão.  Foram doze dias de aventuras inimagináveis realizadas pelo religioso, tempo gasto somente entre a capital do estado nordestino e a cidade eleita como ponto final da viagem. E onde está a importância desse evento para a história? Está, sobretudo, no fato de encontrar um depoimento tão valioso sobre a travessia empreendida por alguém desde a capital do estado, trespassando a mata do Japão maranhense, e em um tempo em que o país enfrentava mais uma revolução civil, a chamada revolução de 1930. Mas, e principalmente, porque não existem registros de como esse acontecimento foi recebido pelos interioranos, sobretudo os da região em causa.
Dias depois do nosso encontro, como havia me prometido o nosso professor-pesquisador, enviou-me uma cópia da tal carta. Fiquei deslumbrado com o que li ali. O texto da missiva se constitui em história pura, e repleta de novidades para nós outros.  Traz, como já afirmei, informações até então nunca abordadas sobre a deflagração da Revolução de 30 em regiões tão afastadas. Todos os estudos sobre esse período da história do Maranhão que lancei olhos têm se restringido aos reflexos da chamada derrubada da república velha, apenas e tão somente no âmbito da capital maranhense. Daí a importância desse documento para a história da região e, de resto, do estado. Em outra oportunidade falaremos sobre isso. Hoje, trataremos apenas das aflições e desconfortos vividos pelo nosso aventureiro capuchinho que transitou por caminhos para tropeiros no selvagem hinterland maranhense, uma verdadeira epopeia para alguém recém-chegado do velho continente.
Frei Adriano saiu do porto de Gênova com idade que não posso precisar, mas ainda jovem, a julgar pelas fotos da época, e apesar da longa barba que era uma marca registrada dos frades daquela ordem religiosa. Todavia, se partimos da informação dada por ele de que 14 ou 15 anos atrás havia servido como bersalheiro (componente das forças armadas italiana), deveria ter, no máximo, 35 anos quando aportou no Brasil. Fez a travessia do Atlântico no navio Júlio César, que classificou de “bela embarcação”, em direção à América desconhecida. Em São Luís, abrigado no Carmo, o Convento da Ordem a que pertencia, tomou aulas de português para completar a sua aprendizagem teórica sobre a língua da terra, e foi escolhido, juntamente com outro frade, frei Abraão, para ministrar a palavra de Deus aos índios da região centro-sul do Maranhão. Segundo suas próprias palavras, ficou imensamente feliz com a escolha do seu nome: “Ele(o superior, Frei Estevão de Sexto São João), entrega-nos somente duas Obediências. Abrimo-las trepidantes pelo medo de não encontrar nelas o nosso nome. Uma era para frei Abrão, destinado a Imperatriz, e outra justamente para mim, destinada a Barra do Corda. Louvado seja Deus! Também desta vez estou entre  os eleitos”. Feliz com a escolha, portanto, o religioso nem desconfiava que seus próximos dias fossem de dura provação. A começar pela viagem da capital até a distante cidade cordina, encrava no sertão profundo e quase inalcançável do Maranhão.
Por sua vez, as démarches da revolução que atingia o país naqueles dias, e que se atrasara para ser deflagrada no estado, aconteciam justamente naqueles dias. E isso provocou atraso de alguns dias no deslocamento dos dois frades para suas áreas de atuação, “o campo destinado ao apostolado”. Chegado o dia ansiado, embarcaram eles no trem que fazia o percurso São Luís-Teresina. O destino deles era a cidade de Codó, situada a meio caminho entre as duas capitais, onde deveriam encontrar outro meio de transporte que os levasse até o destino final.
Embarcar na Maria Fumaça já foi motivo de certa gozação, posto consideraram o trem uma réplica das primeiras locomotivas usadas pelos europeus nos idos do século XIX. Nem sabiam o que lhes esperava mais a frente. Debruçado na janela do trem, ia o missivista nominando as povoações por onde passavam, e os lugares onde paravam para abastecer a locomotiva com água e lenha. Confessou-se cada vez mais extasiado com a bela e luxuriante vegetação que ia encontrando pelo caminho, paisagem muito diferente do ambiente encontrado na sua velha Itália. A viagem durou dois dias, visto terem parado em Coroatá para pernoitarem, no dia seguinte, e só retomarem viagem às seis horas da manhã do outro dia, chegando a Codó no meio da manhã. Terminava aí o trecho de relativo conforto. Mas eles ainda nem desconfiavam disso.
Em Codó, dois dias depois, conseguiram vaga em um caminhão pertencente a um comerciante de Dom Pedro, e foram acomodados na carroceria junto à mercadoria e a outras cinco pessoas que iam para a mesma cidade do empresário. Começava ai uma viagem cheia de percalços, tanto pelo desconforto do caminhãozinho, quanto pela qualidade da estrada que não passava de um caminho para carro-de-bois, alargado agora para dar passagem a veículos automotores. Só conseguiram sair da cidade, apesar de terem embarcado quatro horas antes, quando a tarde já chegara ao fim, às dezoito horas. Pela descrição feita, tomaram a estrada que passa pelo povoado Dezessete, segue para o Triângulo, e depois vai até a Mata do Nascimento, nome antigo pelo qual Dom Pedro era conhecido. Chamar aquele caminho de estrada é faltar com o respeito com as estradas verdadeiras, pois nunca uma máquina havia aplainado aquele carreiro aberto em meio a uma densa floresta. E mesmo assim, os passageiros tinham que se manterem sempre atentos para não serem atingidos por galhos de árvores ou mesmo receber picadas de marimbondos. Depois de algumas paradas em casebres de palha na beira da estrada, quando os outros passageiros aproveitavam para “molhar o bico” com talagadas de cachaça, chegaram finalmente ao povoado Santo Antônio dos Pretos, à beira do rio Codozinho(a povoação, que dista 60  km de Codó,  hoje é um Projeto Quilombola. Historiadores contam que os antepassados dos habitantes atuais receberam aquelas terras através de doação do Imperador Pedro II, logo após o advento da Lei Áurea).
Era meia-noite, e a ideia inicial era pernoitarem ali, pois a viagem à frente havia ficado muito difícil em razão de uma chuva torrencial caída um pouco antes. Não se atreveram, contudo. Os habitantes do lugarejo, adeptos do Terecô, estavam em festa e se embriagavam em volta de alentadas fogueiras. Decidiram seguir em frente, mesmo correndo sérios riscos. E os riscos não demoraram a aparecer. A estrada estava em péssimas condições e o pequeno caminhão começou a atolar seguidamente. Foi, segundo o autor da missiva, uma noite de horrores.
Empurrar o caminhão, passou a ser uma tarefa distribuída entre todos os passageiros. Uma coisa não passou também despercebida pelos religiosos: apesar dos esforços, das muriçocas, da escuridão, ninguém blasfemava contra a má sorte. E assim, para encurtar a história, foram prosseguindo até próximo a Mata do Nascimento, quando tiveram que parar devido a notícias recebidas de que os revoltosos se encontravam na vila e que, certamente, requisitariam o caminhão para deslocamento das tropas ali aquarteladas. Depois de muito relutar, o proprietário do transporte resolveu chegar até a cidade. E, de fato, teve o caminhão requisitado, recebendo a ordem de voltar para Codó com os revoltosos. Alguns dos passageiros, inflamados, resolveram se incorporar ao movimento revolucionário naquele instante. Um deles, por obra da providência divina, seria de grande importância para os religiosos no dia seguinte, como veremos logo à frente.
A questão agora era como seguir viagem. Mas o proprietário do caminhão não os deixou totalmente na mão. E como aquele veículo deveria ser o único existente na cidade, contratou um tropeiro para levar os dois religiosos até a cidade de Barra do Corda, distante dali cerca de 170 quilômetros. Os religiosos ficaram alarmados. Frei Adriano, por exemplo, confessou nunca ter se utilizado de alimárias como montaria. Mas, o que fazer? Era mais uma provação, mas estava dentro dos desígnios de Deus, conjeturou. E, no dia seguinte, às oito da manhã, começou a sua via-crúcis. Mesmo o tropeiro tendo lhe afirmado que escolhera para ele o animal mais manso e estradeiro, o pobre religioso teve que ser puxado pelo cabresto por longos trechos, visto o animal se negar a seguir viagem. E o olhar de riso que ia encontrando pelo caminho por parte das pessoas que encontrava o fazia se sentir mais oprimido ainda. Mas seguiram mesmo assim.
Uma hora e meia, depois da partida, chegaram ao cume da serra da Boa Vista, limite dos municípios de Codó e Barra do Corda à época. Ali também terminava o território da Arquidiocese do Maranhão, e começava o campo da Prelazia de Grajaú. Vejam com que palavras eles comtemplaram aquela bela visão: “Desta altura, com indizível emoção, como outrora Moisés do cimo do Monte Nebo pode contemplar finalmente a tão suspirada Terra Prometida, nós também pudemos admirar o campo destinado ao nosso apostolado. Uma extensa interminável floresta se oferece aos nossos olhares como um imenso tapete verde-escuro, levemente ondulado”. O Cimo da Serra da Boa Vista, hoje é limite dos municípios de Presidente Dutra e Dom Pedro.
Já quase chegando ao povoado do Curador, foram alcançados por dois caminhões cheios de revolucionários. Confessaram ter passado por um susto imenso. Mas, felizmente, não foram molestado, tendo os caminhões seguido em frente. Já passava das oito da noite quando chegaram à povoação do Curador que descreveram como “um pequeno povoado que faz parte do município de Barra do Corda. Aqui nossos missionários deixaram marcos consoladores do seu zelo incansável. Aqui Frei Heliodoro (Heliodoro de Inzago), Superior atual em Barra, com indizíveis sacrifícios, erigiu uma bela igrejinha, a primeira que encontramos depois de um percurso de mais de 150  km... Quando chegamos, o pequeno povoado(Curador) parece ter estado tomado de assalto. Os habitantes, tomados de forte terror, atravancaram-se em suas casinhas, fechadas também as janelas, as luzes apagadas. A rua estava deserta. Somente aqui e acolá núcleos de revolucionários armados estão de sentinela, enquanto algumas escoltas, de lanterna na mão, passam de uma habitação para outra, obrigando com modos autoritários a abrir as portas”.  
No povoado do Curador, dia 25 de outubro, os religiosos receberam abrigo em um casebre de palha na praça da igreja, onde descansaram a noite e se alimentaram frugalmente, como já vinham fazendo. Pretendiam seguir viagem no dia seguinte. Mas, quando descarregavam a bagagem, foram abordados por um dos revolucionários que queria saber a identidade deles e o que pretendiam fazer por ali. Alertado quem eram, o homem ainda tentou tirar-lhes as redes, sendo nessa hora impedido por outro engajado, exatamente um dos rapazes que haviam viajado de caminhão com eles de Codó até a Mata do Nascimento( Dom Pedro). Na defesa dos dois religiosos, o rapaz, recém-integrado ao movimento revolucionário, pelo visto, teve que apontar arma para o colega, e assim lograr sucesso na sua defesa.
Seus problemas não haviam acabado ainda, durante suas estadias no Curador. Dia seguinte, cedo da manhã, foram abordados novamente quando preparavam os animais para continuar a viagem. E mesmo após mostrarem as credenciais com autorização para viagem até o destino final, emitidas pelos novos mandatários do estado, só foram liberados para prosseguirem no final da tarde. Mesmo com a noite se aproximando, decidiram seguir em frente. Temiam novos problemas.
Pernoitaram na localidade Canafístula (Canafístula dos Pacas), em um casebre onde, coincidentemente, havia falecido, seis anos antes, um Capuchinho, frei Carmelo de Brescia,  em decorrência de febres palustres. Na manhã seguinte, já no povoado de Tuntum, viram quando alguns revolucionários armados abordavam as residências em busca de armamentos. E, mesmo cansados, e estando frei Abraão acometido de forte gripe e muito alquebrado, decidiram seguir viagem imediatamente a fim de evitarem problemas com aqueles homens.
O restante da viagem transcorreu dentro do mesmo diapasão: fome incontrolável, sede, cansaço extremo, picadas de mutucas e muriçocas, sol e calor inclementes; desconforto pela marcha dos burricos, mas animados por uma variação de paisagens deslumbrante e uma algaravia de pássaros que enchia o ambiente de beleza e alegria. No último dia da viagem, 28/03, encontram um emissário do Frei Heliodoro que os conduziu até a sua humilde morada e lhes ofereceu uma refeição em regra. A primeira em muitos dias. E, perto do final do dia, encontraram-se com o próprio padre superior, Frei Heliodoro, que veio ter com eles no meio do caminho. Estavam quase no final da jornada empreendida desde a Itália. A alegre recepção deu novo alento aos aventureiros que, doze dias passados, e depois de muitos sofrimentos e medos, estavam finalmente perto de apearem de suas mulas para descansar. Às 23:00 horas desse mesmo dia entraram na pequena Barra do Corda, que nesse tempo contava com cerca de 3.000 almas.

segunda-feira, 11 de março de 2019

TUNTUM – O Topônimo(a origem do nome)

Foto do blog Bate Tuntum.com)




Por Jean Carlos Gonçalves*

Todos já ouvimos a frase: "No Coração do Maranhão bate TUNTUM". Sem dúvida o enunciado é uma forma de identificar nossa cidade e também de nos auto reconhecermos tuntuenses. Mas por que TUNTUM? Qual a origem do topônimo? Há uma única versão para sua origem? Ou várias? Em caso de várias, alguma pode ser considerada correta? Ou todas possuem sua lógica? 
Na busca de contribuir para uma melhor compreensão, ou mesmo incitar o debate acerca dessas questões é que compartilho aqui uma síntese de algumas investigações.

Bem...

Há várias para a origem do topônimo “Tuntum”, dentre as quais, existem duas que são mais aceitas. A primeira, atribui à origem da palavra “Tuntum”, ao som produzido por caçadores que batiam um cajado no chão para atrair caça. Ideia bastante aceita devido à abundância de animais na região: 
“A Srª. Maria do Anunciato Borges afirmou em entrevista concedida em 1995, que o pai dela, o Sr. Manoel José Pereira, dizia que o nome Tuntum é resultante do modo primitivo utilizado pelos caçadores para atrair animais. Consistia em bater no solo fofo com um pedaço de madeira, produzindo o som Tum...Tum...Tum... Truque muito repetido no mesmo local. (GAZETINHA DE TUNTUM, Ano I, nº. 3)”. 
O Srº Vicente Paiva Noleto, relatou que em 1965, José Sarnay, então candidato ao governo do Maranhão, em primeiro comício aqui na Cidade, teria iniciado seu discurso assim: “Povo de Tuntum! Das gameleiras do Tuntum de Cima às gameleira do Tuntum de Baixo! De onde os pioneiros caçadores com seus cajados atraiam as caças [...]". 

Outra versão seria o som produzido, a partir de uma queda d’água existente no riacho que banha a cidade e produzia (tum, tum, tum...). Esta sobrevive no imaginário popular e consta, inclusive, na Enciclopédia dos Municípios Brasileiros editada pelo IBGE, em 1959: “[...] produzido pela queda de água de um riacho de igual nome e que banha a cidade.”

O Sr. José Costa Carvalho, o Deco, residente em Tuntum desde 1951, afirmou em depoimento que não só conheceu o referido “olho d’água”, mas que ajudou construir, ainda na década de 1950, um tanque em suas imediações para as pessoas tomarem banho, pois não havia serviço de abastecimento de água às habitações do povoado. Deco relatou que no local onde o veio d’água atingia a rocha se formou uma cratera em forma de vasilha, resultado de muito tempo da ação da água na rocha. O mesmo afirma que a fonte d’água se localizava acima da ponte metálica que liga atualmente, o bairro Campo Velho ao centro e que desapareceu por causa da ação erosiva em função do desmatamento da mata ciliar do riacho, assim como aconteceu com a Cacimba da Otília e está ocorrendo com a Mucuíba, a Agogô, o Pinga, o Poção, o Pubeiro e tantos outros pontos do riacho Tuntum, ou melhor, lugares de diversão, lazer e hoje também habitam a memória de várias gerações e relutam em sobreviver no imaginário coletivo. 

Há também quem afirme que o topônimo tenha origem nos batuques dos tambores indígenas que teriam ocupado o lugar antes dos colonizadores. Esta tese é bastante controversa, pois há tanto quem a defenda quanto quem a refute. 

O Sr. Raimundo Santos, nascido em 1908 e pertencente à família Carneiro Santos, uma das pioneiras no povoamento da sede, indagado sobre a existência de silvícolas na região, afirmou que quando sua família chegou a Tuntum não havia índios e que o topônimo não tinha qualquer relação com os “caboclos”, atribuindo o nome som da água que caía sobre as lajes do riacho. 

Entretanto, o já citado artigo do Professor Geovane Alves, fundamento na literatura oral discorre sobre vestígios como: 
“[...] mangueiras e laranjeiras de aparência centenária; instrumentos de trabalho, utensílios para o preparo de alimentos e cerâmicas. Tudo cultivado e trabalhado bem ao modo dos índios Guajajaras, que, conforme corroboram os estudos realizados pela Professora Doutora Maria Elisabete Coelho, Universidade Federal do Maranhão, apresentados no livro A Política Indigenista do Maranhão Colonial, e pelo Antropólogo Édson Soares Diniz, da Universidade Federal do Pará, no livro Os Tenetehara-Guajajara e a Sociedade Nacional.” (GAZETINHA DE TUNTUM op. cit).

Alves cita informações concedidas pelo Sr. Nito, neto de José Naziozeno, considerado o primeiro morador da sede municipal: 
“Dizia esse migrante cearense que ao chegarem (ele, pai e avô) ao local denominado Engenho do Caboclo, encontraram na grota lá existente, um pequeno dique, feito com toras de madeira roliças, cujas frestas estavam vedadas com cera de abelhas. Indícios fortes de que na área, além de índios, habitavam negros, provavelmente, fugidos de fazendas escravocratas de outras regiões.” (GAZETINHA DE TUNTUM, Ano I, Nº 3). 
O ex-prefeito Hélio Araújo, em trabalho monográfico advoga a tese de que Tuntum fora habitada inicialmente por silvícolas da tribo Gaviões, que teriam sido os primeiros habitantes do bairro Tuntum de Cima. Enquanto que no centro (Tuntum de Baixo) “agrupavam-se os índios Canelas” (ARAÚJO, 2013, p.58). 

Também presente na memória coletiva local, há a versão de que o nome TUNTUM teria originado do barulho produzido pela quebra de cocos nas pedras por cutias à margem do riacho. Esta tese é uma das menos aceitas, pois se trata de um animal de pequeno porte. Pois qual o tipo de coco era quebrado? O aqui existente babaçu? Tucum? Macaúba? Muito improvável. 

O Srº Paulo Andrade, antigo morador de Tuntum, 90 anos, atribui o topônimo às batidas produzidas em pilões para descascar arroz, atividade esta realizada por suas irmãs. O saudoso Paulo Andrade, afirma ainda que alguns quiseram mudar o topônimo para Babaçulândia, devido a grande quantidade de palmeiras de babaçu na região, ideia esta que não foi aceita pela maioria. No entanto, esta pesquisa não identificou outros que confirmassem tal versão. 

Por outro lado, uma coisa parece certa: o topônimo “Tuntum” não fora atribuído ao lugar imediatamente após a chegada dos primeiros moradores e, portanto, há necessidade de investigação mais aprofundada para se ter uma ideia mais precisa de quando o lugar passou efetivamente a ser denominado como tal. Pois, as moradas dos primeiros ocupantes tinham nomes específicos: os Naziozenos – Engenho do Caboclo ou Brejo do Caboclo; os Carneiros Santos – Alto dos Carneiros (atual bairro Vila Mata); os Siriácos, no Siriáco; os Benvidos e Borges, no lugar Pacas, próximo ao olho d’água da Mucuíba. 

Assim, cabe indagar: A partir de que momento o lugar passou a ser denominado Tuntum? Ou teria sido uma localidade cujo topônimo prevaleceu em relação às suas contemporâneas? Em caso positivo, o que teria levado os antigos habitantes a aceitarem um termo comum? Questões que não querem silenciar, entretanto, passíveis de uma investigação mais profunda.

(*) Jean Carlos Gonçalves, é professor, historiador, cronista e coordenador do blog “Ecos de Tuntum”.

quinta-feira, 7 de março de 2019

Poema da Mulher Amada

Imagem by Google


Elmar Carvalho*

Amada mulher fatal
O teu amor embora servido
Em pequeninas doses é letal.
Mas eu o tomo lentamente
Como um néctar de veneno
Em longos e lentos goles (sereno)
Como um ópio em lenta mente.

Mulher amada, o teu amor
Conquistador e guerreiro me toma de assalto
E nem me deixa a oportunidade
De esboçar o meu espanto
E ensaiar o meu sobressalto
De acrobata perdido em pleno salto
                                                    mortal.
Mas que antes de um desfecho trágico
Como que por milagre se salva
Entre magia, sortilégio e quebranto.
Pelo gesto carismático de um mágico.

Amada mulher fatal
O teu amor devastador
Não me deu a chance de optar
Entre te querer ou não querer.

(*) Elmar Carvalho é poeta, historiador, cronista e ficcionista. É membro da APL.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

GLOBO RURAL - HISTORIANDO A EVOLUÇÃO DA AGROPECUÁRIA BRASILEIRA.

Coleção da revista em tomos com 6 exemplares(no alto as revistas nº 1 e 400)



José Pedro Araújo

Assisto ao Programa Globo Rural desde os idos de 1980 quando a famosa emissora televisiva passou a apresentá-lo. Foi empatia à primeira vista. Aquela manhã de domingo trouxe para mim uma obrigação: todos os domingos, dali em diante, - caso esteja em casa - acordo cedo e me preparo para assistir ao meu programa favorito. Já se vão 39 anos dessa cumplicidade. Morando nessa época em Araguaína, ainda estado de Goiás, não desgrudava do meu aparelho Philco em P&B, e as imagens - na época ainda imperava o cinza - não diminuía em nada o meu entusiasmo.
Depois, já residindo em Teresina - onde me encontro até hoje – acompanhei a evolução das TV’s, e testemunhei também a revolução processada na agricultura brasileira, agora em altíssima resolução. As imagens de agora são um verdadeiro deleite para os meus olhos já um pouco cansados. As tomadas feitas do alto, através do uso de Drones, é a última novidade, aumentando o nosso campo de visão e nos permitindo uma apreciação ampliada das plantações que ocupam vastíssimas áreas de terras, tão planas que a cena só é interrompida quando a abóbada celeste toca o verde que recobre o solo dadivoso. 
Anos depois, outra surpresa agradabilíssima: o lançamento da Revista Globo Rural em outubro de 1985. Desde então, todos os meses me dirijo à banca mais próxima para adquirir o meu exemplar mensal. Este mês, por exemplo, trouxe para casa a GR de número quatrocentos. Isso mesmo. Trata-se de algo surpreendente em termos editoriais. Uma publicação setorizada, uma revista técnica, que atinge um número espantoso de edições. E pelo andar da carruagem, ainda poderemos contar com ela durante muitos e muitos anos.
Como engenheiro agrônomo que sou a GR passou a fazer parte das minhas leituras obrigatórias, uma vez que traz em suas edições as principais novidades em termos de pesquisa no campo da agropecuária nacional, além de outras atividades advindas do setor. Como a piscicultura, por exemplo; a sericicultura, a avicultura, a vinicultura, e tantas e tantas outras atividades rurais que transformaram este país em celeiro e introdutor de tecnologias no mundo do agronegócio.
Transformei-me também em um colecionador, algo jamais previsto em alguém tão pouco afeito à organização. E a coisa se deu mais ou menos de forma não intencional. Pelo apreço que tenho pelas minhas revistinhas, passei a guardá-las com imenso cuidado após a primeira leitura. Foi, portanto, um processo, como já disse, não intencional a formação da minha coleção. Mas, nesse meio tempo, passei por alguns percalços. E sobre isso que quero discorrer agora. Como meus irmãos também apreciam muito a leitura dessa revista – são proprietários rurais, além das suas profissões principais – muitos exemplares sumiram da minha coleção informal quando resolvi guardá-los em um único local. Não sei se levados por eles ou se deixados em local de fácil extravio. Não posso afirmar com exatidão.
Mas o meu maior problema aconteceu quando a minha esposa resolveu fazer uma faxina, ampla e irrestrita, na nossa casa, e mandou para o lixo muitos exemplares da minha querida GR. Só dei pelo problema quando não podia mais fazer nada, pois o lixeiro havia levado tudo para o aterro sanitário. Fiquei penalizado com o acontecido. Senti-me mesmo como se uma parte importante da minha própria história tivesse sido apagada, jogada fora. E foi então que tomei uma peremptória decisão: iria recompor a minha coleção de revistas Globo Rural, custasse o que custasse. E mais. Mandaria encadernar todas elas para evitar que algum exemplar se perdesse ou fosse novamente para o lixo. Foi assim que me transformei em colecionador de fato e de direito. Colecionador, com a consciência de colecionador. Só não sabia das dificuldades que enfrentaria para recompor o acervo, pois mais de cinquenta exemplares haviam se extraviado.
Como sou visitador de sebos e bancas de revistas desde muito tempo, inclusive nas bancas que comercializam revistas usadas, passei a procurar pelos exemplares da GR que me faltavam. E isso em todas as cidades em que porventura estivesse de passagem. Em Teresina, por exemplo, existem algumas bancas de revistas usadas instaladas no centro da cidade. Sou cliente delas desde o tempo em que, jovens imberbes ainda, seus proprietários negociavam gibis na porta dos cinemas Rex e Quatro de Setembro, transformando caixas de “Manzanas Argentinas” em tabuleiro para exposição do produto que comercializavam. Alguns desses meninos, Dentinho e Joel, por exemplo, ainda estão no negócio. Agora mais bem instalados, é verdade. E foi na banca do Dentinho, aonde vou uma vez ou outra, que consegui o melhor resultado para as minhas garimpagens. Em uma das vezes que por lá passava, encontrei o gibizeiro organizando na sua banca uma grande quantidade de revistas Globo Rural que havia acabado de adquirir de alguém. Tomado de alegria, saquei imediatamente da carteira porta-cédulas uma relação com os exemplares que me faltavam, papel que passei a conduzir comigo por ande transitava. E qual não foi a minha alegria ao descobrir naquele monte de revistas cerca de quinze exemplares que me faltavam.
Naturalmente, não foi uma negociação fácil. Dentinho é um negociante experiente, muito arguto e extremamente habilidoso. E logo desconfiou que eu necessitava muito daquelas revistas. Notou isso ao observar o meu contentamento com o achado. Conhecedor também desse seu jeito de negociador implacável, omiti que aquelas revistas iriam recompor a minha coleção. Caso contrário, ele iria majorar muitos os preços de venda. E ele começou a jogar com isso. E conversa vai, conversa vem, ele sempre tentando arrancar de mim a razão do meu extremo interesse, resolvi então jogar uma cartada definitiva e disse que levaria apenas três exemplares naquele momento. Que as revistas eram para meus irmãos e coisa e tal. Ele ainda tentou fazer com que eu levasse exemplares com números fora de ordem, pois não estava convencido ainda de que eu não tivesse por propósito o uso delas para colecionar. Não tive outra solução, a não ser aceitar o jogo dele, pois sabia que logo voltaria para adquirir as outras doze revistas. E ainda corria o risco de aparecer outro comprador para o produto do meu interesse.
Quando me dispus a pagar as três revistas, ele resolveu não perder o cliente, deu-se por vencido. Ofereceu-me as outras revistas com algum desconto, desde que levasse todas. Disse-lhe que queria apenas aquelas quinze já escolhidas. E assim foi. Antes de sair, porém, Dentinho me acompanhou e perguntou se aquelas revistas seriam para colecionar. E eu, para não deixar mal o meu amigo, disse-lhe que não. Apenas havia gostado daqueles exemplares. Notei, porém, que ele não ficou convencido disso. Tempos depois, quando de outra passagem por lá, resolvei contar a verdade para ele. A resposta que me deu foi esta: “eu sabia!”. Disse isso com certa amargura na voz. Não tenho nenhuma dor na consciência por ter pregado essa pequena peça no esperto gibizeiro. Depois disso, tenho sido vítima da sua esperteza por vezes sem conta. Ele sempre tem levado vantagem na troca ou simples aquisição de seus produtos, quer livros usados, quer revistas.
Em São Luís, por exemplo, transitava de carro certa vez pela Av. Magalhães de Almeida, centro da cidade, altura da Praça João Lisboa, quando, ao olhar de lado, deparei-me com algumas bancas de revistas usadas. Estacionei mais adiante e voltei para fazer uma garimpagem. Abiscoitei quatro exemplares que constavam da minha listinha de faltantes.  Senti-me gratificado mesmo em meio àquele trânsito caótico. A sorte pode chegar a qualquer momento na vida do garimpeiro.
Depois, descobri um portal na internet (Estante Virtual. com) que congrega mais de 1.400 sebos distribuídos pelo Brasil inteiro. Lá tenho adquirido obras raras e há muito fora do catálogo. E foi lá também que comprei a maioria das edições que me faltavam. Estava, enfim, completa novamente a minha coleção. Deu trabalho, mas foi uma obra edificante e que realizei com enorme boa vontade. É verdade que alguns exemplares adquiridos por mim apresentavam defeitos, até mesmo alguns corte para a supressão de imagens, por exemplo. Provavelmente recortadas por algum estudante para compor algum trabalho escolar. Mas, nada que comprometesse as matérias que ilustravam. 
A tarefa seguinte foi procurar um bom encadernador para organizar as minhas revistas em tomos contendo seis exemplares cada um. Encontrei o melhor de todos, e pertinho da minha casa. Tratava-se, do hoje meu amigo, Soares, funcionário da gráfica da Universidade Federal do Piauí, um verdadeiro artista no metiê.  Hoje, já estamos com sessenta tomos devidamente perfilados em uma estante na minha humilde biblioteca. Essa semana faremos mais alguns outros, cujas revistas já estão prontas para irem para as mãos do artesão.
Outro dia, estive pensando sobre qual a destinação que deveria dar a minha coleção de Globo Rural, uma vez que não noto muita simpatia por ela, nem da parte da minha esposa, e muito menos dos meus filhos. Já pensei até em doá-la para alguma biblioteca. A biblioteca de Universidade Federal Rural de Pernambuco, por exemplo, onde conclui o meu curso de Engenharia Agronômica, e a quem devo muito, seria uma opção. Mas, sempre que procuro algum exemplar para uma consulta, bate-me um sentimento de perda tremendo só de pensar em me desfazer do meu acervo tão duramente formado. Entretanto, ainda não bati o martelo sobre esse assunto. Espero ter ainda algum tempo para pensar nisso. E, enquanto isso, vou continuando a minha saga de, todos os meses, acorrer às bancas para adquirir o meu exemplar com a última edição da revista.
Não seria nenhum exagero afirmar que a GR embute a história de sucesso da agropecuária brasileira; e em suas milhares de páginas escritas, descreveu a respeito da vocação deste país, falou sobre a sua evolução nesse seguimento e, também, como as atividades desenvolvidas no campo o transformou em uma das maiores economias do planeta. Além, é claro, de elevá-lo à condição de um dos maiores celeiros de alimento do mundo. Através de suas páginas, posto isto, temos acompanhado todo o trabalho de técnicos e instituições de pesquisas na busca incansável pela melhoria da produtividade e da qualidade dos nossos produtos. Ao mesmo tempo, tem nos instado a nos perguntar se já não é tempo de encontrar solução, também inteligente, para os enormes problemas que esse avanço de cunho progressista tem causado à natureza.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

CARTA DE FREI ADRIANO DE ZÂNICA AO PRELADO PROVINCIAL - Apontamentos para a história de Tuntum



Por Jean Carlos Gonçalves*

Em setembro de 2005, por ocasião dos cinquenta anos de aniversário da emancipação do município de Tuntum, circulou em nossa cidade, a edição nº 3 do jornal “GAZETINHA DE TUNTUM”, cuja responsabilidade editorial fora do “Conselho de Mobilização Social de Tuntum”, uma espécie de instituição criada por militantes do grupo político opositor ao governo de Cleomar Carvalho Cunha, o Tema, que na época exercia seu terceiro mandato. 
Esse impresso, de apenas quatro páginas, trouxe em destaque um importantíssimo e esclarecedor artigo, assinado pelos ilustres tuntuenses Geovanny Alves e João Almy Alves, ambos pertencentes a uma das famílias pioneiras na ocupação de Tuntum no início do século XX.
No texto intitulado “Tuntum: Cinquenta anos de emancipação política”, os autores apresentaram um histórico do município, remontando ao início do século XIX, contextualizado com o processo de ocupação do sul do Maranhão, a partir da frente de expansão do povoamento ocorrida por conta da pecuária e sua influência para nossa constituição. No mesmo artigo, uma longa citação me deixou maravilhado. Pude pela primeira vez, tomar conhecimento de um valiosíssimo documento histórico que faz referência ao lugar Tuntum, citando, inclusive, localidades que mais tarde fariam parte do nosso município: “VIAGEM DE FREI ADRIANO DE SÃO LUÍS A BARRA DO CORDA”. Trata-se de uma Carta em que o Fr. Adriano de Zânica remete ao Prelado Provincial, Frei Luigi de Guanzate, em São Luís-MA, após sua épica viagem pelos sertões e chegada a cidade de Barra do Corda. Carta essa, assinada em 28 de janeiro de 1931.
Uma vez sabendo da existência do documento, tratei de ir até os arquivos da biblioteca da Igreja do Carmo na Capital. Lá, recebido pelo Fr. Ruggero Beltrami, responsável pelo acervo, me deparei com a epistola que, surpreendentemente conta 42 páginas.
Neste mês de janeiro, em que o documento histórico completa 86 anos, reproduzo aqui um trecho que acredito deixará muitos maravilhados, especialmente aos amantes de nossa história, estudantes, professores, pesquisadores e a todos que se sentem pertencentes a uma identidade comum. Além de tudo acima mencionado, o documento faz uma bela descrição da floresta exuberante da época, com sua fauna e flora, entre outros aspectos que discorreremos noutra oportunidade. Assim sendo, degustem!
Escrevo-lhe com entusiasmo de voluntário de guerra que do fronte escreve a seu próprio pai... não das linhas da retaguarda, mas dos lugares de comando, da primeira linha de fogo, da trincheira!!!
Saída de São Luis, 15.01.1931, às 6h15min; chegada à Mata do Nascimento em 21.01.1931, às 17h. Quando o motorista recebeu notícias alarmantes sobre o movimento revolucionário.
Percurso de São Luís-Codó, Trem; Codó-Mata do Nascimento (hoje Dom Pedro), caminhão: Mata do Nascimento-Barra do Corda, lombo de burro.
Em 25.01.31, sem incidentes, chegamos ao Curador, primeiro povoado do município de Barra do Corda; o lugarejo parecia ter sido tomado de assalto. Os habitantes, tomados de forte terror, trancavam-se em suas casinhas, fechando também as janelas, as luzes apagadas. A rua estava deserta, somente aqui e acolá grupos de revolucionários armados estão de sentinela.
Saída do Curador às 17h do dia 26.01.31, por uma vereda que encurtava a distância para a Barra do Corda, em 10 léguas, parando na primeira palhoça perto do povoado Canafístula (hoje pertence a Tuntum), no qual seis anos antes faleceu Frei Carmelo de Bréscia.
Em 27.01.31, enquanto repousávamos chegaram os revolucionários, procurando requisitar as armas dos moradores da Vila Tuntum.
Eu já virara um cavaleiro abalizado, precedia a comitiva, contemplando com toda a comodidade as belezas da floresta.
A floresta! Oh! A floresta é sempre bela, sempre atraente, poética! Tirar fotografias é tempo perdido. Só um filme poderia dar uma idéia; mesmo assim uma idéia simples, muito descolorida e imperfeita.
Naquele dia, admirando tão de perto as belezas de uma natureza totalmente nova para mim e tão atraente, não me parecia verdade encontar-me na floresta tropical do Brasil, ainda quase virgem. Entretanto, estava ali, montado num cavalo, qual um caçador atravessando uma selva inóspita de árvores gigantescas enroladas de cipós que como corda revestiam ramos formando um amaranhado confuso e fechado. Logo mais um capão de mata verdadeira e impenetrável de buritis onde lentamente corre um riacho, morada predileta de terríveis surucucus e de barulhentas guaribas.
A todo passo sempre topo em algo novo que atrai minha atenção: musas maravilhosas em forma de grandes leques; enormes cactos; palmeiras das mais variadas qualidades, anajá, babaçu, buritirana, buriti, kitara, catolé, marajá, açaí, etc. Uma mais bela do que a outra. Frutos silvestres que o viajante pode saborear, naturalmente com prudência e moderação, especialmente abacate, aguapé, pitanga, pequi, etc. Ninhos de aves e abelhas grudadas nos ramos nas formas mais originais. Habitações incomuns de formigas saúvas. Cupins capazes de destruir numa só noite árvores inteiras deixando-as despidas de folhas e casca.
E as aves? As aves são numerosas e maravilhosas. Encontram-se de todos os tipos, dos grandes galináceos aos colibris. São eles que nos cantos e seus diminutos vôos dão vida à floresta, especialmente as várias espécies de papagaios com seus gritos desagradáveis.
Vemo-los esvoaçar aqui e acolá a breves distâncias quase querendo suas belas plumagens de cores vivas; enquanto outras ficam nos galhos imóveis observando a nossa passagem. Nossos caçadores e todos os apaixonados ornitólogos encontrariam com que se divertir fartamente.
Mamíferos não se encontram de dia; eles deixam suas tocas ao escurecer, começando assim, a sua atividade durante a noite toda. Só de longe pude observar algum pequeno roedor em fuga e alguns sauros maiores, com uma crista ao longo da espinha dorsal.
Serpentes há de todas as espécies, sobretudo a terrível cascavel. Não é para desejar o encontro com esse tipo de animal peçonhento e, graças a Deus por mais que olhasse cuidadosamente, nada reparei a não ser um rastro bem marcado na relva por onde pouco antes passara um réptil.
Outra coisa que pudemos admirar nessa travessia é a sucessão gradual de três estações: inverno, primavera e verão. Num breve percurso de alguns quilômetros vimos primeiramente a floresta despojada completamente e folhas sem encontrarmos sequer um fio verde. Apesar do calor estafante parece-nos estar atravessando um bosque das nossas regiões no mais intenso inverno. Sendo que esse trecho de mata tem o chão muito enxuto, naturalmente todos os vegetais durante o período das secas estão em completo repouso.
Mais adiante temos a impressão de estar no fim de março, no tempo em que as árvores estão todas floridas, enquanto as frutíferas começam a fazer despontar seus primeiros frutos. Depois vem maio com o perfume agradável da primavera, até encontrarmos na selva verde-escuro.
Esse suceder de estações na vegetação era causado pela chuva que caíra por acaso pouco antes. Geralmente no verão é difícil que não chova, ao passo que no inverno, dito assim porque é o período das chuvas, é raro que passe um dia sem que não chova demoradamente. Neste período a vegetação é sobejamente luxuriante. À noite, às 19h chegamos ao povoado Cipó, com suas choupanas”. (ZÂNICA, 1931).

(*)Jean Carlos Gonçalves é professor, historiador e cronista.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

REMINISCÊNCIAS DO AÇUDE CALDEIRÃO




José Pedro Araújo

Era começo de 1976 quando conheci o belo Açude Caldeirão, em Piripiri. Fazia parte de um grupo de quatro estudantes, dois de Engenharia Agronômica e os outros de Engenharia de Pesca vindos da Universidade Federal Rural de Pernambuco, para ali estagiar. Pois, além de se desenvolverem ali um perímetro irrigado para a agricultura, havia também uma colônia de pescadores que se utilizava dos 54.000.000 de água armazenada em suas três bacias. A ideia primeira que tivemos foi a de um belíssimo Projeto de Assentamento tocado pelo DNOCS. As casas construídas para abrigar os colonos eram de boa qualidade e enfileiravam-se à esquerda da entrada do projeto, atrás de um belíssimo conjunto arbóreo bem delineado. E sobre um promontório, uma simpática capela dava as boas vindas aos visitantes que por ali chegavam. Mas a melhor parte da nossa primeira visita ao local aconteceu quando fomos conduzidos à bela e aconchegante Casa de Hóspedes do projeto: em frente descortinava-se um lago de águas cristalinas que faiscavam naquele fim tarde. Um belo cartão de visitas, não havia dúvidas.
Como falei no princípio do texto, estávamos ali para um estágio que deveria durar trinta dias. Foi uma experiência incrível e um momento de aprendizagem que marcaria as nossas vidas. Logo após sermos instalados na pousada, fomos conhecer o chefe do perímetro e as instalações do projeto. Tudo de ótima qualidade e extremo cuidado. Fui apresentado ao técnico que iria coordenar as atividades do meu estágio, um espanhol muito simpático e educado, Ariosto Solera, que logo se transformou em um grande amigo, além de instrutor dos mais eficientes durante os dias que passei ali. Ariosto era o representante do IRIDA, instituição espanhola voltada à irrigação, e que mantinha uma parceria com o DNOCS.
Logo no dia seguinte, depois de algumas explanações sobre o projeto levado a cabo pela instituição, Ariosto abriu um mapa sobre a mesa. Era a planta do novo canal de irrigação construído há pouco. O meu primeiro trabalho seria traçar o perfil daquele canal, em papel milimetrado, levantando em campo todas as cotas instaladas a cada cem metros, com as informações necessárias. Depois de concluído o trabalho de campo, chegamos à conclusão de que houve erro na construção do canal principal, situação já observada na prática ao se verificar que, enquanto em alguns pontos o canal permanecia com pouca água, em outros, a água quase chegava a transbordar, evidenciado um erro grave de nivelamento. Tal fato levaria a procuradoria do órgão a ingressar com uma ação contra a construtora responsável pela obra. Pelo menos foi o que ficou acordado na época, uma vez que empresa responsável pela obra alegava um erro na concepção do projeto básico, e  que não era de sua responsabilidade. Não tive mais informações se houve, de fato, ajuizamento da tal ação.
Foram dias muito bons aqueles que passei no Projeto Caldeirão. Sob um inverno tenebroso, as chuvas caiam quase todas as tardes e noites, tornando a estada ali também diferente. A Casa de Hóspedes estava construída sobre uma elevação do terreno, e não a jusante da barragem, como ocorreu no caso da fatídica barragem de Brumadinho, em Minas Gerais, o que ensejou a morte ou desaparecimento de mais de trezentas pessoas após recente colapso sofrido pela barragem. Tínhamos uma vista esplendorosa do açude, o que transmitia grande paz interior ao ficar contemplando aquele poderoso ajuntamento de águas. Bem, menos nas noites chuvosas, quando o vento esbatia sobre as folhagens das acácias plantadas na frente da pousada emitindo um som pavoroso daqueles filmes de terror, e deixando o ambiente com aspecto fantasmagórico.
Voltei ao Caldeirão umas poucas vezes nesses últimos anos. A maioria delas para degustar uma saborosa peixada servida no restaurante que fora antes a Casa de Hóspedes. Entretanto, por esses dias, a imprensa tem explorado muito a questão da falta de manutenção que essa barragem sofreu nos últimos anos, o que levou a formar fissuras preocupantes na estrutura do seu paredão. E isso, levado pelo que aconteceu em Brumadinho, tem apavorado a população da região. O rio Caldeirão é afluente do rio dos Matos, e este passa ao lado da cidade de Piripiri, situada a menos de 10 km de distância. Em caso de colapso da barragem, fatalmente seus efeitos seriam danosos para as populações ribeirinhas situadas logo abaixo.
O termino da construção da barragem(Açude Caldeirão) se deu em  1945, e dez anos depois, em 1956, apresentou graves problemas em sua parede. Corrigidos os problemas, outros voltariam a atacar a estrutura do paredão, liberando água em quantidades alarmantes. As providências tomadas com urgência evitaram um mal maior. E desde então, apenas pequenos problemas foram verificados, pelo que se sabe.
Os problemas surgidos ultimamente na parede de 746m são decorrentes do tempo de construção, do uso, muitas vezes inadequado, mas, principalmente, pela ausência de manutenção. As águas do Açude Caldeirão são usadas hoje para irrigação, mas também como um balneário que conferiu grande importância turística ao município de Piripiri. Erigido em uma região muito populosa, um colapso ocasional poderia causar prejuízos insanáveis a população local. Ou até mesmo a morte de muitos dos que ficam no raio de ação daquele importante projeto.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

NOTURNO DO CEMITÉRIO VELHO DE OEIRAS






Elmar Carvalho(*)

Cemitério
misteriosamente sem mistério
etéreo
em sua clareza
– mais que clareza, certeza –
de cemitério.

Campo Santo
onde o fogo-fátuo
e o pirilampo
cintilam – destilam suas luzes mortas
nas alamedas sem (en)canto
nas veredas do que é somente
pranto
onde poetas
egressos de outra vida
recitam versos enternecidos
para a imortal amada
inesquecida
onde músicos falecidos
acordam sons delicados
doces como alfenim
das cordas sensíveis
e pulsantes do bandolim.

Ó som de lamentações e de ais,
de lamúrias passionais,
de réquiem e miserere
que dilacera e fere
como não se ouvirá
nunca mais!

Horto sagrado
do que é morto
e é lembrado;
do que é apenas esquecimento
(do que não é nem será
sequer pensamento).
Cemitério
de lápides indecifradas
pelas dentadas do tempo.
De cruzes mutiladas
e braços pensos.
De chumbados anjos sem voo
e de asas decepadas.
De correntes arrastadas
na via crúcis das
almas penadas.
De vultos
queridos da História.
De vultos
diluídos, sem memória ...
De túmulos caiados, caídos,
encardidos pelo tempo.

Cemitério de abandono:
fantasmas sem sono
 abrem os portões
de gonzos gementes, enferrujados,
e vagam pelas
ruas adormecidas
– sombras tênues, diáfanas,
esquecidas.
Cemitério
de uma morte
absoluta e sem fim
como uma música
sublime de bandolim
tangido por dedos mágicos
de Arcanjo ou Serafim ...


(*) Elmar Carvalho é poeta, romancista e cronista, e membro da APL.