quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

NOTURNO DO CEMITÉRIO VELHO DE OEIRAS






Elmar Carvalho(*)

Cemitério
misteriosamente sem mistério
etéreo
em sua clareza
– mais que clareza, certeza –
de cemitério.

Campo Santo
onde o fogo-fátuo
e o pirilampo
cintilam – destilam suas luzes mortas
nas alamedas sem (en)canto
nas veredas do que é somente
pranto
onde poetas
egressos de outra vida
recitam versos enternecidos
para a imortal amada
inesquecida
onde músicos falecidos
acordam sons delicados
doces como alfenim
das cordas sensíveis
e pulsantes do bandolim.

Ó som de lamentações e de ais,
de lamúrias passionais,
de réquiem e miserere
que dilacera e fere
como não se ouvirá
nunca mais!

Horto sagrado
do que é morto
e é lembrado;
do que é apenas esquecimento
(do que não é nem será
sequer pensamento).
Cemitério
de lápides indecifradas
pelas dentadas do tempo.
De cruzes mutiladas
e braços pensos.
De chumbados anjos sem voo
e de asas decepadas.
De correntes arrastadas
na via crúcis das
almas penadas.
De vultos
queridos da História.
De vultos
diluídos, sem memória ...
De túmulos caiados, caídos,
encardidos pelo tempo.

Cemitério de abandono:
fantasmas sem sono
 abrem os portões
de gonzos gementes, enferrujados,
e vagam pelas
ruas adormecidas
– sombras tênues, diáfanas,
esquecidas.
Cemitério
de uma morte
absoluta e sem fim
como uma música
sublime de bandolim
tangido por dedos mágicos
de Arcanjo ou Serafim ...


(*) Elmar Carvalho é poeta, romancista e cronista, e membro da APL.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

CRÔNICAS VIVIDAS – LÁGRIMAS DIVINAS

Imagem by Pinterest



José Ribamar de Barros Nunes*


Em meus escritos, várias vezes, falei de pranto. Creio que descobri vários e variados tipos de lágrimas, explosivas, escondidas, escandalosas, tranquilas, abundantes, de crocodilo, etc.
Com muita frequência, em momentos diversos, elas brotam barulhentas, silenciosas, caladas, violentas, inesperadas, instantâneas. No pódium, na maternidade, em velório, na rede, na sala, na rua, na praça, na igreja, elas não têm hora nem lugar certo. Na minha vida longeva, já testemunhei tal variedade em muitíssimas ocasiões.
Matutando e divagando, já enumerei dezenas delas. Agora, juntando-as, dou-lhes mais um adjetivo: Lágrimas Divinas. Chego a imaginá-las como um dom dado pelo criador a todas as criaturas. Controladas ou não, o ser humano derrama-as para si, para o próximo ou para a humanidade.
Costumo dizer que diariamente, rio e choro e a explicação é fácil. A mídia e as páginas policiais mostram em abundância fatos, fotos, episódios e eventos tão diversos que revelam toda a complexidade do ser humano, mistura de sentimentos bipolares, de belzebu e do criador.
Dizem que o mestre dos mestres nunca foi visto sorrindo; chorando, porém, muitas vezes. Com essa diversidade tamanha em tudo e todos, a humanidade segue sua marcha inexorável, sorrindo e/ou chorando.

(*) José Ribamar de Barros Nunes é Assessor Parlamentar do Senado Aposentado. Como cronista é autor de “Duzentas Crônicas Vividas”.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

EU QUERO UMA CASA NO CAMPO




José Pedro Araújo

Tempos atrás fizeram uma enquete entre os paulistanos para saber qual o sonho de consumo de cada um deles. Os pesquisadores se surpreenderam com as respostas recebidas. Percentual elevado dos pesquisados respondeu que gostaria muito de possuir uma casinha no campo para descansar das correrias do dia-a-dia na Paulicéia desvairada, onde pudessem criar galinhas e ouvir os pássaros cantar.  O mais surpreendente é que boa parte dos que responderam isso, nunca havia morado no campo. Alguns, sequer descendiam diretamente de família interiorana. Esse atavismo era proveniente de antepassados que se perderam nas brumas do tempo, logo apareceram os especialistas com uma justificativa.
Quando a revista Globo Rural foi lançada, escolheram o poeta Carlos Drummond de Andrade como padrinho da publicação. Nesse período, grande nomes da literatura brasileira foram convidados a contribuir com um texto sobre o que mais lembravam do campo. E eles escreveram sobre pessoas, animais, paisagens, acontecimentos ou, simplesmente, deixaram que a mente navegasse pelo espaço criativo. Literatos como Raquel de Queiroz, Milton Hatoum, Marcos Reis, Dias Gomes, e o próprio Drummond, encheram as páginas da revista com textos repletos de saudosismo. Drummond, por exemplo, logo no exemplar de lançamento da revista, esgotou-se em saudades da fazenda da família em Minas. Sob o título “A Fazenda que Desapareceu do Mapa”, ele relembrou com tristeza “Às vezes me assalta o remorso de, sendo filho, neto e bisneto de fazendeiros, ter contribuído para que morresse a nossa fazenda. No momento em que chegou a minha vez de trabalho no campo, fugi da responsabilidade, alegando falta de jeito para lidar com a terra e com os animais. Cedi a minha parte e fui cuidar de nuvens, no exercício da literatura. Passaram-se os tempos, e a fazenda acabou vendida a uma empresa estatal, que ali instalou uma represa para depósito de rejeito do minério de ferro por ela explorado. Assim terminou, submersa, a Fazenda do Pontal, antiga dos Doze Vinténs, ou Fazenda dos Doze”.
Naquele momento o poeta devia está saturado de tudo o diz respeito à cidade grande. Cansado da violência urbana, do barulho e da fumaça dos veículos; do trânsito retido e das filas intermináveis nos bancos e nas repartições públicas. Assim como ele, quando estou perdido no meio do trânsito ou retido por longos e longos minutos na fila do açougue, como aconteceu hoje, por exemplo, bate-me uma vontade de estar naquele momento sob a proteção de uma árvore no campo ou mesmo à sombra de um alpendre refestelado em uma cadeira espreguiçadeira só acompanhando a passagem do tempo sem pressa.  Já houve um tempo em que pensei diferente, quando ainda morava no meu velho Curador. Encapsulado na juventude dos meus treze, quatorze anos, entediava-me com a calma da cidade pequena e quase sem movimentação. E nesses instantes, imaginava-me fugindo da calmaria e indo residir em uma cidade maior e mais movimentada. Um lugar vibrante, onde houvesse cinemas, estádios de futebol, televisão, bancas de jornal, e meios de transporte que me levasse para onde eu quisesse ir. Cheguei a ficar empolgado quando soube, ao término do ginásio, que esse tempo havia chegado para mim.
Como estava enganado! Hoje, quase não vou ao cinema ou aos campos de futebol. Por sua vez, nas cidades pequenas, o futuro chegou trazendo a televisão digital para mostrar os grandes jogos de futebol, a internet por lá também aportou e disponibilizou aos “matutos”, notícias do que acontece no mundo no instante em que o fato acontece. Até mesmo as TV’s por assinatura e os “streams” com filmes e shows musicais em quantidades mais do que suficiente para suplantar a vontade de qualquer cinéfilo, fez-se presente nos lugares mais remotos. E mesmo que você resida no mais profundo de uma floresta, os sinais de tevê ou a internet chegam até você, pois a energia elétrica pode ser gerada em placas fotovoltaicas instaladas no seu próprio teto.
Muitos citadinos ainda acham que o campo é lugar para bicho-grilo. Meu filho Bruno, por exemplo, afirmou-me diversas vezes não gostar do campo. E arrematava a frase com uma série de argumentos. Senhor da sua verdade, e para encerrar o assunto, dizia-me peremptório até sentir falta da fumaça dos escapamentos dos automóveis. Talvez, algum dia, ele ainda venha a mudar de ideia. Pois em épocas não tão remotas assim, vivia a me atormentar durante as viagens quando colocava no toca-fitas do carro um cassete dos Beatles ou do Creedence. Anos depois, surrupiou-me quase toda a minha coleção de CD de rock dos velhos tempos. Mas sei que não é fácil mudar o pensamento da geração do vídeo game e do RPG.
De minha parte, ando com uma vontade imensa de criar umas galinhas, ordenhar umas vaquinhas e saturar-me de música ouvindo o canto estriduloso da cigarra. Dormir, enfim, ouvindo o coaxar dos sapos e não o som estrondoso dos motores a combustão. E se na casa com alpendre largo e entre árvores sombrosas, puder ligar o meu notebook na internet ou a tevê a cabo para assistir aos jogos do meu time favorito, melhor ainda. Tudo isso enquanto na cozinha, no fogão à lenha, está sendo preparado um belo tira-gosto para acompanhar uma gelada “empoada” extraída do congelador que mais parece uma calota polar. 
Então ficamos assim. Quero voltar para o campo, mas na companhia de algumas modernidades das quais não posso mais me separar. E então cantar como o Zé Rodrix:

“Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar do tamanho da paz...
Eu quero carneiros e cabras pastando
Solenes no meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas”.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

JOVITA FEITOSA - AS GLÓRIAS E OS INFORTÚNIOS DE UMA HEROÍNA

Jovita Feitosa em uniforme militar




(Chico Acoram Araújo)*
A orfandade

                A cearense Antônia Alves Feitosa, morando em terras piauienses, tornou-se uma das figuras mais importante e emblemáticas que o Brasil já conheceu. Ficou conhecida nacionalmente como Jovita Alves Feitosa, a heroína da Guerra do Paraguai, tendo inclusive seu nome inscrito, por força da Lei nº 13.423/2017, no Livro dos Heróis da Pátria, que se encontra exposto no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília. 
Narremos, então, a vida e morte de Jovita Alves Feitosa que se tornou célebre em todo o Brasil, no ano de 1865, ao se alistar como voluntária da Pátria na Guerra do Paraguai, causando perplexidade e admiração de todos os brasileiros. Foi aclamada heroína da Pátria.
                Em Inhamuns, hoje Tauá-CE, um surto de cólera grassava implacavelmente nos anos de 1862 a 1864. O Ceará foi um dos estados do Nordeste mais castigados por essa terrível doença. Na época, Inhamuns tinha uma população de 14.060 habitantes. Do total da população, 510 pessoas foram infectadas, e dessas, 216 vieram a óbito.
Na localidade chamada Brejo Seco, nos confins de Inhamuns, uma família que ali residia chorava a perda de um ente muito querido, uma das 216 vítimas do surto de cólera. Morria d. Maria Alves Feitosa, deixando viúvo o senhor Maximiano Bispo de Oliveira e três filhos, sendo dois homens e uma moça de idade intermediária aos dois irmãos. Seu nome de batismo era Antônia Alves Feitosa, conhecida apenas por Jovita, apelido que recebeu desde quando ainda era criança. Esta nasceu a 8 de março de 1848, no mencionado lugar. A genitora da jovem, segundo os historiadores, era pertencente ao ramo pobre da destemida família dos Feitosa, sobrenome que Jovita recebeu ao ser batizada.
A história do Ceará conta que, durante muitos anos, o sertão de Inhamuns tornou-se palco de sangrentas guerras entre famílias latifundiárias em disputa por terras, notadamente entre os Monte e Feitosa, os Araújo e Maciel, Viriato e Calango, além dos confrontos entre os Cunha e os Pataca.
Nesse ambiente de contínuos conflitos, bem como das dificuldades existentes na obtenção dos meios de sobrevivência em terras com características de semiárido, sempre atingidas por longas estiagens, conviveu Jovita até os seus 16 anos de idade.
Assim, é razoável supor que aquela jovem tenha aprendido com seu pai e os irmãos o manejo adestrado com as armas de fogo com a finalidade defender a família e também sua pequena propriedade, uma vez que na região onde residiam verificavam-se, como foi dito acima, constantes brigas pela posse de terras.
O piauiense Fernando Lopes Sobrinho, jornalista, jurista e poeta, em uma sua crônica intitulada de “JOVITA ALVES FEITOSA, A HEROÍNA FRUSTRADA” (publicado na Revista PANÓPLIA Nº 6, de setembro de 1955, órgão oficial da Associação Profissional dos Jornalistas do Piauí) nos relata que aos 16 anos de idade, falecendo sua mãe, Jovita deixa seu lar, no Brejo Seco. Com as bênçãos do pai, a filha foi residir na cidade piauiense de Jaicós, distante 48 léguas, em companhia de um tio, Rogério Alves Feitosa, conceituado professor de música, que desde muitos anos residia daquela cidade do Sudeste piauiense. Dias antes, o Senhor Rogério chegara a Brejo Seco para uma visita aos parentes. Na ocasião, o pai, em comum acordo, decidiu que Jovita fosse morar com o tio em Jaicós.
No livro 10 MULHERES ANTES DA HORA, organizado pelo conceituado jornalista Fenelon Rocha, a jovem de Inhamuns é reverenciada no capítulo JOVITA FEITOSA -  a guerreira esquecida. Nesse capítulo, em coautoria com a jornalista Katya D’Angelles, Fenelon destaca que, em Jaicós, o professor Rogério Feitosa e sua esposa, sem herdeiros, fazem de Jovita uma verdadeira filha. Do tio, recebeu os ensinamentos da alfabetização e das notas musicais, e até mesmo alguns incentivos no manejo das armas. Com a tia, aprendeu a costurar e passou a ganhar algum dinheiro advindo dos serviços com costuras de camisas, vestidos e outras utilidades domésticas.

A Voluntária da Pátria

 Por cerca de um ano Jovita morou em Jaicós até que, em meado do ano de 1865, tomou uma decisão que viria mudar radicalmente sua vida. Perto de completar seus 18 anos de idade, a jovem resolveu se alistar como voluntária do exército brasileiro para lutar na Guerra do Paraguai. Sobre esse inusitado e nobre gesto patriótico, um jornal maranhense da época publicou uma crônica com o título Jovita Feitosa:

“Jovita Alves Feitosa é um exemplo que mais honra a história heroica dos filhos do império de Santa Cruz. Frágil pelo sexo mas forte e invencível pelo patriotismo, sentio também bater-lhe no coração o apelo da pátria, convocando seous filhos a defendel-a e honral-a.

Lopes Sobrinho enfatiza em sua crônica acima já mencionada que Jovita Alves Feitosa se sente muito entusiasmada ante à notícia de que o Tenente-Coronel José Lustosa da Cunha estaria recrutando homens residentes na vila de Santa Filomena para comporem o 2º corpo de Voluntários da Pátria, com destino à campanha do Paraguai. O maior desejo de Jovita era de participar nas frentes dos combates uma vez que manejava bem as armas de fogo. O jornalista diz ainda que certa noite, às escondidas, a jovem cearense, em companhia de um grupo de rapazes de Jaicós, foge da casa do tio rumo à Teresina, trajando roupas masculinas, cabelos cortados rente, os seios disfarçados com bandagens, e um chapéu de vaqueiro na cabeça. Era 20 de junho de 1865.
                Fenelon Rocha lembra também que, após uma longa e exaustiva viagem de 72 léguas, travestida domo um jovem rapaz, Jovita chega em Teresina no dia 9 de julho de 1865, onde se alista na circunscrição militar do 2º corpo de Voluntários da Pátria, sob o comando do Tenente-Coronel José Lustosa da Cunha, recebendo o registro de combatente com o nome Antônio Alves Feitosa.
Muito feliz por ter sido admitida na corporação, Jovita e outros alistados tiveram a ideia de visitar alguns lugares da nova capital da província do Piauí, fundada no ano de 1852 por Conselheiro Saraiva, então presidente da Província do Piauí. Foram conhecer o mercado da cidade, e quando o cortejo chegou à então Casa da Feira, uma senhora de olhar atento, que por ali estava a fazer compras, observou que um dos soldados era diferente dos demais. Desconfiada, a curiosa mulher aproximou-se um pouco mais daquele militar. Observou que o rapaz tinha altura média, pele morena, de feições indígena, o peitoral um pouco empinado, gestos calmos, e olhos negros brilhantes; de um olhar algo feminino.
Os traços fisionômicos daquele jovem soldado seriam semelhantes aos descritos no livro “Traços Biográficos da Heroína Brasileira Jovita Alves Feitosa”, de autoria do escritor e jornalista José Visconti Coaracy, publicado em setembro de 1965. Fenelon destaca ainda que esse escritor entrevistou Jovita, em 9 de setembro de 1965, quando do seu desembarque no Rio de Janeiro, vinda do Norte a bordo do vapor Tocantins. Nesse livro biográfico, o escritor fluminense descreve a jovem cearense como uma figura de “estatura mediana, maneiras simples e sem afetação”.
O ilustre escritor do Rio de Janeiro acrescenta ainda a respeito da jovem heroína brasileira: “seus olhos negros, cheios de luz, a tornam simpática; seus lábios fechados com alguma graça ocultam dentes alvos, limados e pontiagudos”. Finalizando a descrição biográfica da jovem sertaneja cearense, o escritor destaca: “Uma serenidade d’alma estende-se pelo seu todo, e mesmo lhe assegura uma confiança que a tranquiliza”.
Oportuno lembrar que a José Visconti Coaracy é atribuída também a autoria do livro romance-histórico com o título “JOVITA, A VOLUNTÁRIA DA MORTE”, que narra a vida e a morte trágica de Jovita Alves Feitosa, a grande heroína nacional. Quando foi publicado no ano 1967, o livro apresentava apenas as iniciais J.C. como autor.
Ainda sobre os traços da fisionomia de Jovita Feitosa, o Jornal do Comércio do Rio de Janeiro de 10 de setembro de 1865, publica uma carta particular de um remetente de São Salvador, de 5 setembro daquele mesmo mês, onde em um dos seus parágrafos descreve a nossa heroína assim:

“A sargenta Jovita não é uma beleza, nem a conquistar esse título, mais próprio das pretenções femininas, se distina a sua expedição voluntária para os arraiaes do deus Marte; é porém um typo dessas sympathias raras que se recommendão pela idéa, sem desmerecer pela forma.”
  Mas retornemos então ao incidente ocorrido na Casa da Feira de Teresina. De acordo com a narrativa de Fenelon Rocha, a astuta senhora que bisbilhotava a nossa personagem verificou também que esta tinha as orelhas furadas.  Foi o estopim de uma grande confusão. Apalpando de forma audaciosa os seios do suposto soldado, a indistinta senhora gritou bem alto, dizendo: “esse aqui nunca foi homem; é uma mulher!” Num instante, em torno da acusadora com seu dedo-duro apontando para a acusada, uma multidão se formou. Sobre esse episódio, o notório jornalista complementa:

“A confusão cresceu e dois soldados receberam ordem para levarem Jovita até a polícia, onde chegou acompanhada por uma multidão – mas “livre de ferros sem coação, conforme registrou a imprensa teresinense da época. Foi recebida pelo próprio chefe de polícia, José Manoel de Freitas. O Dr. Freitas convocou o escrivão Raymundo Dias de Macedo para tomar o depoimento do soldado – isto é, da soldado. ”

Chorando copiosamente, a pobre sertaneja declarou que, na verdade, seu nome era Antônia Alves Feitosa. Falou que decidiu vestir-se de homem para ingressar, como soldado, no corpo de Voluntários da Pátria, e lutar nos confrontos da guerra do Paraguai, uma vez que sabia atirar com arma de fogo. Disse ainda, que não queria exercer funções apropriadas às mulheres, como por exemplo no atendimento aos feridos no Hospital do Sangue.
Vendo o seu iminente e sumário desligamento da corporação em razão da sua condição de mulher, Jovita recorre ao então Presidente do Piauí, Dr. Franklin Américo de Menezes Dória - depois Barão de Loreto - que governou a Província do Piauí de 28 de maio de 1864 até 3 de agosto de 1866, suplicando-lhe que a mantivesse como soldado do corpo de Voluntários da Pátria. Sobre esse pedido, o jornalista Fernando Lopes Sobrinho nos conta em sua mencionada crônica:

“A ele, Jovita pede para alistar-se como voluntária da Pátria, dizendo, segundo nos conta Pereira da Costa, na sua “Cronologia Histórica do Estado do Piauí”, “ser o seu maior desejo bater-se com os monstros, que tantas ofensas tinham feito ás suas irmãs de Mato Grosso, e vingar-lhes injúrias ou morrer nas mãos desses tigres sedentos”.”

O Presidente Franklin Dória, muito sensibilizado com as súplicas daquela jovem sertaneja, percebeu que esta poderia, como a primeira mulher a entrar em uma corporação militar no Brasil, servir de exemplo de patriotismo na defesa do país contra os ataques covardes de Solano Lopes, o ditador do Paraguai. Com essa estratégia, Franklin Dória imaginou que Jovita poderia servir como uma espécie de garota propaganda de uma campanha de motivação para aumentar o contingente de voluntários da pátria da Província do Piauí. Sabe-se que na época, ao contrário daquela jovem mulher, muitos rapazes fugiam do alistamento militar, assim como o diabo foge da cruz.
O Presidente Dória não teve dúvidas. Além de autorizar a reintegração de Jovita Alves Feitosa no 2º Corpo de Voluntários, ainda lhe concedeu as divisas de 2º Sargento daquela corporação.
O futuro mostraria que Franklin Dória tinha razão em alistar pela primeira vez uma mulher na corporação militar piauiense. Jovita Feitosa, em pouco tempo, tornou-se célebre em todos os lugares aos quais passava, recebendo manifestações de louvores e admirações. Os jornais de todo o país não paravam de publicar matéria sobre essa valente guerreira, com destacadas manchetes. Os fotógrafos esmeravam-se para conseguir reproduzir a imagem da jovem soldado, e ganhar algum dinheiro com a venda das suas fotos.
Em razão disso, a adesão dos piauienses no corpo de voluntários da Pátria foi bastante significativa, chegando a mais de 400 militares. Destes, cerca de 200 advieram da vila de Parnaguá, no Sul do Estado, transportados para Teresina em várias balsas de buriti e um velho bote de madeira; os demais eram oriundos de diversas localidades piauienses.
Sobre isso, dois anos depois, o próprio Franklin Dória confirma a importância que Jovita Alves Feitosa teve, como grande incentivadora, no êxito do processo de recrutamento dos voluntários da Pátria no Piauí.

 “(...). Tolerei, é verdade, que ella usasse das insígnias de 2.º sargento; o que alias, acedendo o enthusiasmo publico onde quer que ella se apresentou, contribuiu para facilitar a aquisição de muitos voluntários.”

O trecho supra consta da carta que Franklin Dória dirigiu aos piauienses, divulgada no jornal “A IMPRENSA”, no ano de 1869, em resposta a um discurso maledicente proferido pelo Deputado piauiense Coelho Rodrigues na Câmara do Deputados, no Rio de Janeiro, e publicado no Jornal do Comércio (RJ), onde este parlamentar manifestava dúvidas sobre as despesas realizadas, em 1865, com o 2º corpo de voluntários do Piauí, bem como a respeito da nomeação da Jovita Alves Feitosa como 2º Sargento, quando Dória ainda era presidente daquela província.

                Heroína, celebridade e glórias

No dia 10 de agosto do ano de 1865 esses bravos guerreiros seguiram rumo ao Rio de Janeiro. Descendo pelo rio Grande dos Tapuias, o nosso Parnaíba, o 2º corpo de voluntários do Piauí chega ao litoral, onde embarcaram no vapor Gurupy. Da Parnaíba o batalhão segue para São Luís, onde o mesmo é recepcionado com muita alegria e satisfação. Jovita Feitosa foi a mais festejada. No grande teatro São Luiz lhe foi preparado um espetáculo de honra e foi lhe oferecido um camarote especial enfeitado com a bandeira nacional. Ali, a heroína recebeu as maiores ovações e ramalhetes de flores, além de um grosso cordão e crucifixo de ouro. Sobre a estadia de Jovita na capital maranhense, um jornal local publica a seguinte notícia:

“Traja calça e saiote,com  fardeta e boné, e o cabelo cortado a escovinha.”
“Os maranhenses tem prestado á heroina todo o apreço e consideração de que ella é credora. A Exm.ª família do Sr. tenente Campos ajudante de ordens da presidencia, em cuja casa se hospedou, tem dado á heroína distincto agasalho, e ahi tem sido a mesma comprimentada por innumeras pessoas. ”

Em São Luís, a tropa piauiense embarcou no vapor Tocantins, embarcação de grande porte, com destino ao Rio de Janeiro, fazendo escalas nos portos de Recife e Salvador, além de outras cidades do Nordeste. Em Recife, o presidente da Província de Pernambuco, o piauiense, Conselheiro João Lustosa da Cunha Paranaguá, recepciona em Palácio do Governo seu irmão e comandante do 2º corpo de Voluntários do Piauí, o tenente-coronel José Lustosa da Cunha, acompanhado da oficialidade do corpo de voluntários e também da 2º sargento Jovita Alves Feitosa, que recebeu todas as considerações de apreço e respeito. Na ocasião, a jovem militar foi muito festejada por uma multidão que ali a esperava. Em Salvador e Paraíba, também não foi muito diferente de São Luís e Recife.  O povo recebeu Jovita com muito entusiasmo e aplausos. Na Paraíba, segundo Fernando Sobrinho, uma comissão de senhores foi a bordo do vapor Tocantins para prestar homenagens à voluntária vinda do Piauí, presenteando-lhe com um rico anel de brilhantes.  
No dia 9 de setembro de 1865, após um mês viagem desde que partiu de Teresina, o 2º corpo de Voluntários do Piauí, a bordo do vapor Tocantins, chega finalmente ao Rio de Janeiro, a então capital do Brasil. Por esse tempo, Jovita já se tornara célebre em todo o país. No cais do porto, uma multidão aguardava a jovem militar. A curiosidade era enorme. Com o desembarque da tropa, muitas pessoas, acotovelando-se, corriam em sua direção para conhecer e cumprimentar a famosa heroína da Guerra do Paraguai.  
Alguns dias depois da chegada à Corte, convicta de que iria para o front de batalhas combater os inimigos paraguaios, Jovita teve uma grande e dolorosa desilusão. O Ministro da Guerra encaminha uma correspondência, datada de 16 de setembro de 1865, ao tenente-coronel José Lustosa da Cunha, comandante do 2º Corpo de Voluntários do Piauí determinando que Jovita Alves Feitosa não acompanhasse seus companheiros rumo às regiões onde ocorriam os confrontos armados, por entender não existir nas leis e regulamentos militares disposições que permitissem as mulheres sentarem praça nos Corpos do exército, e tampouco na Guarda Nacional, ou de Voluntários da Pátria.
 Entretanto, a citada carta permitia que Jovita embarcasse com as tropas para prestar serviços compatíveis com a natureza do seu sexo, como por exemplo, nas atividades de enfermarias, no apoio aos doentes feridos em combates, “cuja importância podem tornar a referida voluntária tão digna de consideração, como de louvores o tem sido pelo seu patriótico oferecimento”, finaliza o Ministro.
Sobre o alistamento de Jovita no Corpo de Voluntários, o Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, publica em setembro de 1865 um texto com o “A heroína brasileira” de autoria de um cidadão que assina apenas com iniciais J.M.C., onde faz severas críticas ao Presidente da Província do Piaui, Dr. Franklin Dória, exigindo-lhe que dissesse “em que se firmou para fazer semelhante aceitação e conferir-lhe o posto que lhe mencionamos” [2º sargento]. Complementa ainda o texto apócrifo:

“Nos exércitos em campanha, muitas mulheres, quer de soldados ou não, acompanhão e prestão reunidas á eles, serviços uteis como sejão, lavar, cozinhar e engomar a roupa dos praças. (...); mas não poderá jamais lançar mão de um sabre e bater-se quando se apresentão as ocasiões. ”

Apesar do tom conciliatório da correspondência do Ministro da Guerra, a brava sertaneja cearense não aceita a proposta de atuar como enfermeira junto ao Corpo de Voluntários, e sim pegar das armas e combater os inimigos na Guerra do Paraguai. Jovita não desistiu do seu objetivo.  Por mais de uma vez, solicitou ao Ministro da Guerra que reconsiderasse tal decisão. Não logrou êxito. Com o seu afastamento da corporação militar do Piauí e a perda da sua insígnia de 2º sargento, sem o devido amparo do Governo, a pobre moça se viu completamente abandonada em terras estranhas. O mundo desabou aos seus pés. Seus sonhos e ideais, tudo acabado. Desiludida, Jovita decidiu voltar para o Piauí. Mas retornar como, se não tinha dinheiro para comprar suas passagens de volta?
Vendo o estado de desolação e penúria em que se encontrava Jovita Feitosa, um grupo de admiradores da valente nordestina, e com o apoio de empresários do setor de teatro do Rio de Janeiro, consegue realizar alguns dramas e espetáculos com a finalidade de arrecadar fundos para ajudar a incompreendida voluntária da Pátria na aquisição de passagem e outras despesas no navio que a levaria de volta para província do Piauí.

A decadência

Em meados de outubro de 1865, Jovita Feitosa, tendo recebido o dinheiro arrecadado por aquela generosa gente, retorna para o Piauí a bordo de um vapor que partia com destino aos portos do Norte. Nos primeiros dias de outubro, Jovita desembarca em São Luís para, em seguida, embarcar no vapor Camossim rumo à cidade de Parnaíba no Piauí. Por motivo ignorado, a ex-voluntária não pode tomar aquela embarcação, tendo a mesma que viajar por terra para o Piauí. Sobre esse acontecido, o jornal PUBLICADOR MARANHENSE, de 16 de novembro, publica um expediente do Governo da província do Maranhão, datado do dia 13 do mesmo mês, com os seguintes termos:

“ – Ao Exm. Presidente da província do Piauhy. – Comunico a V.Exc. que Jovita Alves Feitosa, de que trata o meu officio de 9 do corrente não poude seguir no vapor Camossim para a Parnahiba, com destino a essa capital. Segue porem para Caxias, afim de transportar se d’aquella cidade para essa.”

Chegando em Teresina, Jovita hospeda-se na residência do Sr. Fernando Costa Freire, inspetor da tesouraria de fazenda, em obséquio especial ao Sr. Presidente da Província do Piauí, Dr. Franklin Dória. Aí permaneceu até o dia em que recebeu uma certa quantia que estava aguardando do Rio de Janeiro, como parte do dinheiro arrecadado em campanha a seu benefício. Nesse mesmo dia, a ex-voluntária, a bordo do vapor Paranaguá, parte para o porto de São Gonçalo, hoje cidade de Amarante. De lá, Jovita Feitosa segue, por terra, até a casa de seu tio Rogério Alves Feitosa, em Jaícó-PI.  
Entretanto, a jovem sertaneja cearense não se conservou em Jaicós por muito tempo. Com seu espírito determinado para aventuras, deslumbrada ainda pelas luzes de uma cidade grande, e vendo que os seus dias, na casa do seu Tio Rogério, tornavam-se intensamente monótonos e intermináveis, observa que sua família denotava incompreensões sobre sua conduta recente. Então decide morar em definitivo na Corte. A 18 março de 1866, chega no porto do Rio de Janeiro o vapor “PARANÁ” trazendo a bordo vários passageiros, dentre os quais a nossa célebre heroína Jovita Feitosa. Ao descer do navio, Jovita observou que as poucas pessoas que estavam ali no local, apenas cumprimentavam seus próprios parentes que acabavam de desembarcar. Não houve vivas, aplausos ou louvores para aquela ex-voluntária. Sequer um olhar de curiosidade recebeu. Se recebeu, foi um olhar de indiferença. Jovita Feitosa, o mais que depressa, saiu correndo dali a procura de um lugar para ficar.

Os infortúnios e a tragédia

Daí em diante, quase nada se sabe a respeito Jovita Feitosa, com exceção de outra chegada sua ao porto do Rio de Janeiro, a bordo do vapor “Galgo”, vinda de Montevidéu, capital do Uruguai.
Segundo José Alves Visconti Coaracy, no seu livro “Jovita a Voluntária da Morte”, conta que o motivo da viagem da jovem cearense era empregar-se nos hospitais de sangue, como expiação de suas culpas. Não conseguindo o emprego nessa Capital, Jovita parte para Buenos Ayres. Lá também não obtém êxito. Bastante resignada e com tantas contrariedades, a ex-voluntária volta para o Rio de Janeiro.  Esse retorno, na realidade, ocorreu em 8 de janeiro de 1867, conforme registros de saídas e entradas dos postos da Corte, publicados na edição do dia seguinte do jornal CORREIO MERCANTIL (RJ).
Na metrópole, Jovita viveu alguns amores fortuitos, até conhecer um homem que pensava ser o grande amor de sua vida.
Sobre a vida de Jovita daí em diante, alguns jornais da época fazem graves insinuações a seu respeito. Por exemplo, há citações que Jovita “balda em recursos, sem amparo, deixou-se transviar-se”; ou “era uma das elegantes do equívoco”. Ou ainda “arremessou-se no caminho da perdição e da amargura”, como disse o historiador Pereira de Vasconcelos (Seleta Piauiense).
Entretanto, também se verifica notícias veiculadas em jornais defendendo a honra da sertaneja. Veja, por exemplo, um editorial publicado no jornal A IMPRENSA (PI), do mês de setembro de 1865, que contesta com veemência um artigo do jornal MODERAÇÃO, sob o título de “Escandalo”, onde um jornalista chama a cearense de prostituta sem, contudo, mencionar-lhe o nome. Diz o editorial da A IMPRENSA:

“O artiguista da Moderação, a quem cabe a gloria de ter-lhe substituído a consagração popular de heroína pelo apitheto afrontoso que se cospe na face da mulher perdida, não ignora que a Jovita, aqui chegando ultimamente, de volta do Rio, foi logo hospedada, em obséquio especial ao Exmo. Sr. presidente, em casa do honrado pae de família, o Sr. Fernando Costa Freire, inspector da tesouraria de fazenda”.

 O personagem-autor do já citado livro romance-histórico, o amigo e confidente da nossa heroína, narra que Jovita passou por diversos episódios e se afeiçoou muito a um amante. Na verdade, apaixona-se loucamente por um homem, mesmo sentindo da sua parte  habitual indiferença. Na vida real, o amante chamava-se William Noot, um engenheiro inglês que veio trabalhar temporariamente na companhia de esgotos do Rio de Janeiro. Nesse tempo, Jovita morava com uma amiga na rua das Mangueiras nº 36. Já o amante residia em um quarto alugado em uma casa situada na praia do Russel nº 43, não tão distante da casa de Jovita.
Esse cavalheiro da Inglaterra, tendo terminado o contrato com a companhia do Rio, partiu de imediato para a sua pátria. Quando soube da notícia que seu homem tinha retornado para Inglaterra, Jovita, muito surpresa, entrou em estado de choque e comoção; uma profunda tristeza lhe abateu, levando-a a pensar até mesmo tirar sua própria vida. Correu mais que depressa para a casa do amante. Lá chegando, por volta de 3 horas da tarde, foi informada por uma empregada que de fato o rapaz havia mesmo retornado para a pátria distante. Jovita pediu a empregada da casa para entrar no quarto que até então servira de dormitório para o amante e também para seus encontros amorosos. Jovita pede também à empregada papel e tinta. Chegando no quarto, senta-se na cama, e começa a escrever alguma coisa.
Dois dias depois, lê-se no Jornal do Comércio (de Sexta-feira, 11 de outubro de 1867) a seguinte manchete:

"Suicídio"

 “Suicidou-se ante-hontem de tarde, na casa da praia do Russel n. 43, Jovita Alves Feitosa, natural do Ceará, a mesma que viera para esta côrte com o posto de sargento de um batalhão de voluntários d’aquella província, e que tendo depois tido baixa aqui ficou residindo. ”

O Correio Mercantil (RJ) também publica matéria sobre o suicídio de Jovita Feitosa, acrescentando dentre outros detalhes, o seguinte:

“Ante-hontem pelas 6 horas da tarde, a chamado do Sr. tenente-coronel João Frederico Russel, dirigiu-se o Sr. subdelegado da freguesia da Gloria, a uma das propriedades daquelle senhor, na praia do Russel n. 43, [...] e, penentrando, acompanhado do respectivo escrivão, peritos e testemunhas, em um dos quartos da casa, que até á véspera daquelle dia servira de dormitório ao engenheiro da companhia de esgotos William Noot, o qual seguira no último paquete para a Europa, encontrou atravessada sobre uma cama de ferro, com as pernas pendentes ao chão e a face voltada sobre o lado direito, o cadáver da infeliz Jovita, tendo implantado obliquamente da esquerda para a direita e de cima para baixo, na região precordial, um canivete em forma de punhal, com cabo de madreperola.”

Diz ainda a citada matéria que no bolso do vestido de sarja preta que trajava a pobre moça foi encontrado um bilhete, duas fotografias de Noot, alguns escritos deste, entre os quais uma carta em inglês que comunicava à Jovita que estava partindo para a Inglaterra, e também várias poesias manuscritas. A carta do amante nunca foi Lida por Jovita, uma vez que esta não dominava o vernáculo inglês.
No bilhete deixado por Jovita, assim estava escrito:  “Não culpem a minha morte á pessoa alguma. Fui eu que me matei. A causa só Deus sabe”.
Sobre esse suicídio, o Jornal CORREIO MERCANTIL acrescenta em sua notícia que se não fosse a ação de um caridoso senhor de mais de 60 anos, empregado do depósito da Santa de Misericórdia do Rio de Janeiro, ganhando um irrisório salário, o corpo de Jovita Feitosa teria sido enterrado na vala comum do cemitério do Caju. Esse senhor, em cujo peito carrega uma medalha da Independência, chamava-se Francisco Mendes de Araújo, combatente da campanha da Bahia, onde foi ferido nos combates. Esse velho soldado foi quem com suas benfazejas mãos pedira a diversas pessoas uma esmola para que a infeliz ex-voluntária tivesse uma sepultura, embora humilde, mas em cova separada.
“Por mais degradante que tenha sido a existência de Jovita nos últimos tempos, a história de sua vida torna-se digna de compaixão”, finaliza a notícia do o jornal Correio da Manhã, de 11 de outubro de 1867.
Para as considerações finais sobre essa valorosa mulher que veio dos sertões de Inhamuns-CE para transformar-se em um belo exemplo de patriotismo, recorro ao conceituado jornalista e escritor oeirense Bugyja Britto que, com muita propriedade, disse a respeito da sofrida heroína cearense: “Jovita Alves Feitosa, com a sua história triste e épica, deve ser considerada com a mais alta expressão de civismo e de bravura da mulher nortista-brasileira. ”

(*) Chico Acoram é funcionário público federal, contador e cronista

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

BICICLETA!

Estacionamento de bicicletas em Amsterdã


José Pedro Araújo

Certa noite, encontrei pedalando pelas ruas de Teresina um grande número de pessoas. Talvez ultrapassasse a meia centena. Em tremenda algazarra, seguiram em frente em passeio que não sei quando acabaria, nem onde. A visão daquela confraria alegre, roupas coloridas de malha, magrelas de todos os tipos e gosto, me fez lembrar uma frase que ouvi certa vez: “é como andar de bicicleta. Quem aprende, não esquece jamais”. E me deu uma vontade louca de me integrar a um desses grupos de ciclistas que aproveitam a noite fresca e calma da cidade para passear pelas suas ruas.
E como gosto sempre de pesquisar os assuntos que transformo em crônica, tomei conhecimento de como surgiu a bicicleta, e em que ano. Fiquei surpreso em saber que o primeiro protótipo inventado tem quase a idade do descobrimento do Brasil: é de 1690. Um francês de nome Siorai construiu a primeira invenção totalmente de madeira, e pôs-lhe o nome de Celerifero(do latim Celer(rápido) + fero(transporte). Sem pedal, o troço não era muito confortável, pois o usuário teria que pôr a invenção em movimento impulsionando-a através dos pés em contato com o chão. A bicicleta com pedal, selim  e pneus, como temos hoje, só surgiu em 1880, também na França, depois de uma acentuada evolução que passou pela mão de muitos inventores. Acredita-se que a primeira bicicleta que se tem registro no Brasil, foi trazida ao país por Antonio da Silva Prado Júnior, um paulista rico que apaixonou-se pela invenção e importou a primeira magrela ainda no último quarto do século 19.
Portanto, desde muito as pessoas vem aprimorando esse invento importante que se espalhou pelo mundo como uma grande sacada, facilitando o deslocamento das pessoas e reduzindo o tempo que levavam, muitas vezes, de casa para o trabalho, e vice-versa. Na Europa, por exemplo, a bicicleta é tão importante que em muitas cidades ocupa uma posição de destaque até mesmo em relação aos pedestres.  Certa vez, transitava pelo centro de Amsterdam, na Holanda, quando o nosso guia nos chamou atenção para o fato de estarmos utilizando a faixa da calçada que era privativa dos ciclistas. Alertou-nos ainda que, caso provocássemos qualquer acidente mais sério com alguém que pedalasse uma das milhares de bicicletas que transitavam pela cidade, teríamos que arcar com as despesas do seu tratamento médico. Ali a lei protegia o ciclista até mesmo em detrimento dos pedestres. A quantidade de bicicletas que víamos estacionadas na cidade era uma coisa que chamava a atenção, tal o seu número alarmante.
Voltando ao nosso caso, fiquei apenas com uma preocupação: será que ainda consigo pedalar uma magrela dessas com destreza? Apesar de pedalar sempre uma bicicleta ergométrica que tenho em casa, nunca mais me dispus a utilizar um artefato desses pelas ruas. E então, como sempre faço, veio-me à mente o tempo em que comecei a aprender a trafegar numa dessas belezuras pelas ruas do Curador. Tudo aconteceu quando, ai por volta dos meus nove ou dez anos, tomei conhecimento que um morador da cidade havia retornado de uma temporada fora do município, e, à falta de um emprego fixo, adquirira dez bicicletas Monark para alugar. O criador da empresa informal, estabelecida na Travessa Pedro Sereno, foi o Carmélio Belisário, de conhecida família presidutrense. E, até onde sei, a ideia gerou bons frutos, pois sempre que íamos em busca de uma delas, tínhamos que esperar que alguém retornasse e e devolvesse uma delas.
Tomei tombos fantásticos até ganhar a destreza necessária para me manter firme na sela, nada que fosse tão dolorido quanto uma vez que fiz um papelão na frente de algumas garotas. Em um passeio de final de tarde, pedalava uma velha bicicleta que havia ganhado do meu pai, lá pelo largo de São Sebastião, quando alguns colegas resolveram circular pelo pátio da igreja, ainda no tempo que o circundava as muretas originais que prestavam uma beleza inigualável ao conjunto arquitetônico que compunha o belo templo. Por lá circulavam algumas garotas, e queríamos mostrar o nosso veículo. Aparecer, como se diz hoje. Mas a minha bicicleta era muito pesada, guidão duro, e ao fazer uma conversão, terminei indo de encontro à mureta e quase me esborrachei no chão. A minha barbeiragem não passou despercebida para uma das garotas ali presentes, exatamente aquela que eu mais queria impressionar. Ela acorreu a mim e perguntou-me se eu estava bem. Envergonhado disse que sim, que eu havia me distraído e havia batido na mureta. Nada sério, no entanto. E ela, não sei se a título de gozação, disse-me que parecia que eu ainda estava aprendendo a pedalar. Suprema vergonha. Sai dali correndo, e nunca mais voltei para tentar outra vez.
Hoje em dia, existem bicicletas que só são acessíveis a poucas pessoas, pelo muito que custam. A mais cara delas, e que empalma o pomposo nome de The Beverly Hills Edition, com o quadro em ouro, custa módicos U$ 1.000.000,00 (hum milhão de dólares). Mas existe uma bicicleta mais baratinha, fabricada pela grife francesa Hermès, a mesma das gravatas e bolsas famosas, a Le Flanneur, que custa a bagatela de 9.077 euros(ou cerca de R$ 30.000,00 reais). Meu filho, Ricardo Araújo, um grande apreciador do produto, possui uma bicicleta para a sua aventura em trilhas da zona rural de Teresina, que me disse valer algo em torno dos R$ 3.500,00 reais. Uma nova custaria algo em torno dos R$ 6.000,00 reais.  Baratinha se comparada com essas que enumerei acima. Aliás, certa vez, em viagem para Piracuruca, no norte do estado, dei carona para ele e outros dois amigos. Pensavam em fazer trilha nas dependências do Parque Nacional de Sete Cidades. Transbike acoplado na traseira do carro, chegamos à cidade ainda cedo. E logo os três jovens retiraram seus transportes, vestiram-se a caráter, completaram a indumentária com o capacete e as luvas, e partiram para a aventura. São 22 km de distância até o parque.
No caminho, ao pegarem um retão muito longo e plano, avistaram outro ciclista que pedalava uma magrela bem usada, dessas muito comuns. Resolveram aumentar a velocidade e acompanhar o rapaz para algumas perguntas sobre o trajeto a tomar. Mas ele, ao olhar para trás e avistar aqueles três sujeitos todo paramentados, forçou o pedal da sua Monark e disparou pela estrada. Por mais esforço que fizessem, os três ciclistas e suas modernas e apropriadas bicicletas não viram mais nem o vulto do colega que eles, pejorativamente, chamam “canela seca”. Ficaram na poeira, desmoralizados.
De outra vez, ao fazerem uma trilha nas imediações da capital, passaram por uma comunidade rural, onde um grupo de homens jogava conversa fora sob a copa de uma árvore. Ao avistarem aqueles jovens ciclistas passarem todos paramentados, bermuda, luvas, camiseta e capacete apropriados para a prática, um deles não se conteve e falou: “óia, aqueles abestados andam tudo enfeitado!”.
Para fechar a crônica, já que uma história puxa outra, meu filho, seguido de um grupo numeroso de amigos, resolveu fazer trilha pelo vizinho município de Altos. Iam em busca de uma cachoeira que fica em outro município vizinho, Alto Longá. E ao chegarem lá, deslumbrados com a água que caia do alto das pedras, resolveram tomar banho. Não demorou e apareceu um grupo de homens em um velho Chevete e anunciaram um assalto. Fizeram uma limpa. Levaram relógios, celulares e carteiras (quase sem dinheiro). Mas nem pensaram em levar com eles as bicicletas que valiam uma fortuna. Melhor para os meninos.
O certo disso tudo, é que pedalar uma magrela dessas é um hábito bastante saudável e que, muito a propósito, vem fazendo sucesso novamente.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Destino final: Brasília

Palácio do Planalto em construção



José Pedro Araújo
Estou lendo o último volume dos três livros que compõe a biografia do grande Juscelino Kubitscheck de Oliveira, intitulado “Meu Caminho para Brasília”. Trata-se de uma obra muito importante e que mostra passagens da vida do grande homem público desde a sua infância pobre em Diamantina, vetusta cidade mineira, até os últimos dias do seu mandato presidencial, em 1961.  Este último volume, que trata sobre o período relativo ao seu mandato presidencial, retrata também, entre outras coisas, a sua obstinada luta para construir Brasília. Do mesmo modo, retrata também a dificuldade encontrada por ele para transferir o poder político do país da bela cidade do Rio de Janeiro para o isolado planalto central do Brasil. De leitura imperdível, sobretudo nesses tempos em que um novo mandatário assume os destinos da nação – e tenta apontar a sua bússola rumo ao progresso -, temos uma noção exata da luta empreendida por um homem destemido para tirar o país do atraso secular em que se encontrava, combatendo quase sozinho contra forças poderosas do coronelismo que mantinha a nação subjugada e agarrotada. 
Certa vez, das muitas que fui a Brasília, visitava o monumento em homenagem ao seu fundador, um belo mausoléu onde o seu corpo está sepultado, quando um jornalista me convidou para assistir a apresentação de um filme original com cenas da construção da cidade. O profissional era um dos muitos remanescentes dos primeiros a chegarem à cidade e agora expunha cenas filmadas por ele por colegas seus. Fiquei extasiado com o que vi. Cenas inesquecíveis das máquinas pesadas rasgando o cerrado virgem inundavam a tela; caminhões despejando na porta das pensões os novos candangos que chegavam à região; esqueletos de prédios que logo ficariam famosos, como as instalações legislativas e os palácios que abrigariam o poder, estavam saindo do chão como por encanto, moldados pelas mãos dos pioneiros. Fiquei mais fã ainda do homem que deu origem a tudo aquilo: Juscelino, o JK.
Nesse período ao qual me refiro, eu era uma criança com pouco mais de quatro anos ou cinco, mas lembro-me bem das notícias animadoras que chegavam até a minha aldeia vindas, sobretudo, do interior de Goiás, onde a nova capital do país estava sendo construída. Por tudo o que li depois sobre o homem do “Peixe Vivo”, realmente fortes ventos progressistas varreram o país naqueles dias levando a esperança para regiões há muito condenadas ao atraso. E o velho Curador não ficou imune aos efeitos desses ventos benfazejos. Cidadezinha escondida no mais profundo hinterland maranhense, sua população debatia-se em meio à pobreza reinante e a desesperança.
E as notícias que chegavam do planalto goiano, davam conta de oportunidades de trabalho, e enchiam de esperança muitos jovens que já se achavam em idade de laborar, mas não vislumbravam qualquer perspectiva de encontrar um trabalho que o remunerasse de modo a fazer frente às suas necessidades mais básicas. Foi como se uma energia contagiante banhasse as ruas poeirentas da cidadezinha e infundisse a esperança naqueles rapazes e moças, de maneira que logo começou uma revoada humana em busca de um futuro melhor. Gente com alguma formação, mas, e principalmente, pessoas sem qualificação mínima, mas com uma vontade imensa de romper as amarras da pobreza e da desesperança. Brasília reservava lugar para todos, e abraçaria aqueles que buscassem uma colocação no serviço público, mas também, e, sobretudo, para aqueles que se dedicariam ao pesado trabalho braçal de erguer uma cidade no meio do nada.  
Também havia possibilidades para aquelas pessoas que tinham por experiência o comércio. Para abrigar essa leva imensa de trabalhadores que chegavam à região, logo surgiu uma cidade, toda ela construída de madeira, chamada Núcleo Bandeirante, ou Cidade Livre, onde foram sendo erguidas as casas simples que dariam guarida às famílias que chegavam, mas também para instalação das mercearias, padarias, farmácias, pousadas, e toda sorte de negócios que sempre surgem quando uma nova comunidade se forma.
Acompanhei a saída de um grupo de três rapazes que iriam à busca do sonho no novo eldorado. A imagem da despedida emocionada, lacrimosa, nunca me saiu da mente.  Abraçados aos amigos (todos bêbados, fruto das comemorações de despedida que se estenderam noite à dentro), e dos parentes, lágrimas de saudades antecipadas escorriam pelas faces dos que ficavam, e também dos que partiam. As despedidas se deram na saída da cidade, no largo que ficaria depois conhecido com Praça da Bomba, onde tomaram o transporte em direção a Porto Franco, cidade encravada na margem do rio Tocantins, de onde seguiriam pela nova Belém-Brasília para o destino final, a nova cidade construída a partir do nada. O meio de transporte era um caminhão, e a estrada que percorreriam ainda estava sendo rasgada na mata virgem, o que diagnosticava um grande desconforto durante os dias necessários até a sua conclusão. Nada que intimidasse aqueles rapazes, porém, visto estarem acostumados a fazer longos trajetos em lombo de animais, à falta de veículos automotores na região. Andar na carroçaria de caminhão, portanto, seria uma tranquilidade.
Anos depois, dois desses rapazes voltariam para a cidade natal e de lá nunca mais se ausentariam por longos períodos. O terceiro jovem fincou residência definitiva na capital do país. De um desses jovens que retornaram, ouvi, certa vez, histórias engraçadas sobre a maneira como se estabeleceram em Brasília. Uma das histórias contada por ele dava conta de que ele e o outro colega que retornou ao Curador, à falta de maior grau de estudo, somente conseguiram trabalho como atendente de serviços gerais do hotel mais famoso de Brasília, naquela começo, o Hotel Nacional. Isso depois de abandonarem os canteiros de obras onde o trampo era pesadíssimo, principalmente para eles que só serviram como ajudante de pedreiro. No hotel também tinham que fazer de tudo, desde o transporte de bagagem dos hospedes até mesmo o carrego de móveis de um aposento para o outro. Nada, porém, que se comparasse com a tarefa de empunhar uma pá ou uma picareta. Vestidos com aquelas fardas características da função, os dois amigos logo encontraram uma maneira mais fácil de tungar uma gorjeta extra dos hóspedes mais importantes. Empresários, políticos, gente da nata empresarial do país se hospedava por ali. Deste modo, os rapazes planejaram, como já falei, uma forma de arrancar umas gorjetas a mais dos hóspedes mais pródigos. A coisa se dava mais ou menos assim: os dois rapazes se postavam em pontos diferentes de um corredor, munidos de uma lata de talco e de uma escova, própria para passar em paletós e remover alguma sujeira que tenha se alojado nele. Assim, quando um hóspede passava por um deles, o rapaz se postava às suas costas e jogava um pouco de talco sobre o paletó escuro da vítima escolhida. Logo mais na frente, o outro se aproximava e mostrava ao sujeito que o seu paletó estava com alguma sujeira. E, incontinente, sacava a escovinha do bolso e aplicava uma bela escovada para remover o pó colocado ali pelo amigo. Agradecido, o hóspede metia a mão na algibeira e sacava uma boa gorjeta e repassava para a mão já estendida do malandro.
A coisa ia muito bem, e tanto fizeram que o gerente do hotel descobriu a trapaça e os pôs no olho da rua. Estavam despedidos sumariamente. Depois dessa, os rapazes resolveram retornar para a terra natal. No que fizeram muito bem. Na terrinha se restabeleceram bem e logo estavam esquecidos dos tempos brasilienses. Valeu muito a experiência adquirida na nova capital. A maioria dos que partiram do Curador, contudo, ficou por lá. Aproveitou bem as oportunidades surgidas na nova capital de todos os brasileiros e formou família, nunca mais retornando ao velho Curador, a não ser a passeio.
As oportunidades também surgiram para os agricultores pobres e sem terra da região também. Com a construção da Belém-Brasília, da floresta amazônica e dos cerrados do planalto central muitas terras livres de títulos de posse foram postas à disposição dos trabalhadores rurais, principalmente do nordeste brasileiro. De povoados agrícolas como o Crioli do Joviniano, por exemplo, dezenas de famílias abandonaram suas casas e foram em buscas de opção ao longo da Belém-Brasília. Muitos se deram bem, outros continuaram a sua saga de pobres ofertadores de mão-de-obra barata.  O fato é que, com a criação de Brasília, e abertura de eixos rodoviários em toda a região norte nordeste, houve uma crescente movimentação migratória de populações. E isso se deu também com o velho e querido Curador.