sexta-feira, 22 de setembro de 2017

ALDA, A NOIVA DO VESTIDO TINTO DE SANGUE.

Gravura by Google



(Chico Acoram Araújo)*

                A jovem Alda levantou-se muito cedo do dia nove de julho de 1961. O pai e a mãe, também. Alguns instantes depois, todos os moradores da casa estavam de pé. As lamparinas foram acesas. Um murmurinho na casa não demorou.  As vozes dos pais e de seus irmãos confundiam-se no recinto. A barra do sol começava a alumiar no horizonte distante. Assim como as demais noites do mês de julho, a madrugada estava friorenta, em contradição com os dias de temperaturas elevadas do período, clima característico dos munícipios da região Norte do Piauí. Toda a família estava feliz. A alegria era geral. O domingo prometia ser esplêndido.
A moça dirigiu-se para um rústico banheiro localizado nos fundos do quintal da casa da família, próximo ao poço d’água. O líquido que acabara de retirar do poço mantinha-se ainda um pouco morno apesar do frio da noite. Caprichou no asseio pessoal com esmero, ensaboando-se com um perfumado sabonete presenteado pelo seu amado noivo no dia de seu aniversário de dezenove anos de idade que acontecera quatro dias antes. Nesse dia não houve comemoração. A festa, na verdade, seria no próximo Domingo; o dia mais esperado de sua vida: seu matrimônio.
Com ajuda da mãe e amigas vizinhas, Alda vestiu o cobiçado vestido branco de noiva. Este, porém, confeccionado em tecido modesto e sem muitos detalhes. Perfumou-se. Enfim, a moça paramentou-se para a grande cerimônia de casamento a ser realizado logo mais, às oito horas, na igreja de Nossa Senhora da Conceição.
O noivo chamava-se Francisco Gomes, mais conhecido como Chico Gomes. Um moço muito trabalhador e bem-conceituado na comunidade em que ambos moravam. No alpendre da modesta casa de alvenaria, nos finais de semana, o casal de noivos planejava formar um lar, ter filhos e viver dignamente nas graças do Senhor.
Segundo um excelente documentário, em forma vídeo, produzido por alunos do 2º Ano do Ensino Médio do Educandário Santo Antônio, em Barras-PI, nos revela que Alda Rodrigues da Silva, filha de humildes lavradores, nasceu no município de Sobral no Estado do Ceará. O citado documentário relata, dentre outros fatos, que ainda pequena, Alda mudou-se para Barras, no povoado conhecido como Luís de Sousa, localizado na zona rural Leste, não muito distante do perímetro urbano da cidade de Barras do Marataoan. Os pais, Manoel Rodrigues e Maria Francisca Rodrigues Jorge, e todos seus irmãos vieram para o Piauí em decorrência das dificuldades que enfrentavam no vizinho Estado para suprir a família com mantimentos, provavelmente por conta das condições climáticas que atravessava a maioria dos municípios do Ceará. Nessa época, muitos de seus contemporâneos também vieram para terras piauienses em busca de melhores condições de vida.
Antes das seis da manhã, os familiares e amigos já se encontravam montados em seus cavalos em frente da casa de Seu Manoel Cearense, como era conhecido o pai de Alda. Os jovens noivos também estavam a postos, no meio da animada caravana capitaneada pelo Seu Manoel.  Em clima de alegria, vinte e dois cavaleiros e amazonas partiram em pequenos grupos de quatro a seis pessoas, com destino ao centro da cidade que distava do povoado cerca de uma légua e meia.
Enquanto isso, a mãe de Alda e algumas amigas vizinhas ficaram em casa cuidando do grande banquete que seria oferecido aos amigos e convidados. Na noite anterior, o pai da noiva já havia abatido alguns animais da sua criação, bodes, galinhas e porcos para compor o almoço a ser oferecido aos convidados da festa de casamento. Carne de gado, cozidos, assados, baião-de-dois, farofas, café com bolos de goma e outras iguarias faziam parte do cardápio da festa.
 Quarenta minutos depois, o festivo préstito já se encontrava atravessando a velha ponte de madeira sobre rio Marataoan (construída em 1935) em direção a uma residência que ficava a alguns quarteirões da igreja de Nossa da Conceição. Esta casa, ou rancho como era chamada, servia de ponto de apoio ou hospedaria para pessoas do interior que vinham para a cidade. Os animais ficaram alojados em um cercado por trás da referida pousada. Após os retoques finais no vestuário da noiva e das moças acompanhantes, todos se dirigiram para a igreja da Matriz.
Do alto da igreja da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, demolida em 1963 (antiga capela construída pelo fundador de Barras, Cel. Miguel de Carvalho e Aguiar, em meados do século XVIII), entre as duas torres, o Cristo Redentor com os braços abertos saudava os parentes e convidados dos noivos para a celebração do sagrado enlace matrimonial. Os noivos, silentes, em frente ao grande altar-mor da Matriz, ouviam solenemente o ritual do padre que ministrava o casamento. A cerimônia ocorreu de forma célere. Declaro-os marido e mulher, disse por fim, o religioso.
Segundo meu ilustre conterrâneo Dílson Lages, notório professor, poeta, cronista e escritor, em seu livro “O morro da casa-grande” descreve com perfeição o majestoso altar onde foi realizado o sacramento matrimonial de Alda e Francisco: “O altar-mor de Nossa Senhora da Conceição de Barras era um dos lugares mais exaltados pelos fiéis, principalmente em dezembro. ... No retábulo, os nichos eram ocupados com Nossa Senhora ao centro, sobre o sacrário, ladeada nos demais nichos por Jesus ressuscitado, à direita, e São José, à esquerda. Jarros de porcelana, cobertos de flores, sobre o mármore, contrastavam com numerosos castiçais de prata, nos pés dos quais estava a face de cristo. No topo de retábulo, a imagem do coração de Jesus, acima do qual se assentava em decoração a própria face do Messias, embriagava de fé quem orava. O altar-mor, ao fundo, era a luz do templo; uma luz que se enfraquecia e, dali a poucos dias, apagar-se-ia para sempre. ” De fato, em 1963 houve a demolição desse templo religioso de estilo colonial, lamentavelmente. Creio que a decisão mais sensata da autoridade religiosa da época fosse a restauração desse belíssimo templo católico.
 Após a cerimônia de casamento, todos retornaram para o rancho em busca das suas montarias. Em seguida, Seu Manoel Cearense e os recém-casados, acompanhados dos parentes e amigos, seguiram de volta para sua casa onde seria servido um almoço aos convidados. Em grupos, todos pegaram a estrada de piçarra em direção à ponte de madeira sobre o rio Marataoan para, em seguida, pegar o caminho de volta para a comunidade Luiz de Sousa. Alda era a última do seu grupo de cavaleiros, dentre os quais faziam parte o marido e sua cunhada e mais três pessoas.
A poucos metros do acesso à ponte de madeira, um ônibus (chamado na época como misto ou horário) que trafegava com destino a Teresina colidiu com o cavalo em que Alda montava, arremessando-a violentamente no chão de piçarra. A moça caiu inerte; apenas um suspiro de dor, e o vestido de noiva tinto de sangue.  O marido em desespero tentou em vão reanimá-la.  A moça veio a óbito ali mesmo no local em decorrência das graves lesões que sofrera. O clamor tomou conta do local. O causador do trágico acidente nunca foi preso, apesar de se entregar à polícia no mesmo dia do acidente.
A comunidade de Luiz de Sousa toda chorou com o infausto acontecimento. O banquete foi recolhido. O caixão com a jovem morta estava ali no meio da sala da casa sob olhares pesarosos dos familiares e amigos. Apenas tristeza e dor. A família providenciou o enterro em um cemitério da localidade, deixando saudades a todos os entes queridos e amigos.
Quem viaja a Barras ou passa por essa cidade, procedente de cidades do centro e sul do Estado, poderá observar do lado direito da pista, tão logo atravesse a ponte de concreto sobre o rio Marataoan, um memorial em homenagem à falecida Alda Rodrigues da Silva, mais conhecida como Finada Alda. Nesse exato lugar foi que aconteceu o trágico acidente que vitimou a jovem recém-casada, e que comoveu todo o povo do município de Barras. Depois da morte da jovem Alda, surgiram as primeiras notícias sobre possíveis milagres atribuídos a sua alma. O Memorial da Finada Alda é um local muito visitado pelos religiosos não só de Barras como também de outras cidades da região. Hoje, a Finada Alda é considerada um ícone para os praticantes da fé católica na cidade de Barras. 

* Chico Acoram Araújo é contador, funcionário público federal e cronista 

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Diário de Fralda (Parte 28)



(Empolgado com o nascimento da sua primeira filhinha, papai Bruno começou uma brincadeira que logo caiu no gosto de todos: a produção de um diário que ele convencionou chamar de “Diário de Fralda”. Diante disso, o blog resolveu publicar semanalmente o depoimento da Lavínia que, em último caso, vem a ser a netinha do coordenador do Folhas Avulsas).


SEMANA 31 – Em plena forma física e mental!


(Bruno Giordano)


226º DIA: “Tive que ir para Dagobath para conseguir me reencontrar com a força! Yoda não estava então tive que me contentar com o servo careca como mestre... só achei um exagero ter que correr com ele montado em minhas costas... seria mais fácil com o yoda!” - Lavínia, a mestra padawan!

227º DIA: “Minhas aventuras estão se acumulando! Tanta coisa para descobrir e tão pouco tempo... meu servo careca sumiu novamente num tal de Guanabara ... desse jeito quem vai ser meu motorista?” - Lavínia, a pensativa!

228º DIA: “Já que não tenho a presença do meu servo careca, minha genitora disse que vai me transformar numa boneca! BONECA! Já começo a arquitetar minha fuga desse destino! Kkkkk!” - Lavínia, a boneca!

229º DIA: “Agora que já consigo exercer minha evolução e ficar ereta, estou mais do que pronta para voltar a combater o crime! TãnãnãnãnAãnã nãnãnãnã nãnãnã!” - Lavínia, a menina-morcego!

230º DIA: “Nada melhor que o colo da minha genitora .. com o passar dos tempos meu espírito aventureiro está acalmando e parece que cada vez mais eu quero chamego! Me chamega minha genitora, me chamega!” - Lavínia, a chameguinho!

231º DIA: “Sexta é dia feliz! Nosso time estará completo amanhã com meu servo careca e vamos arrepiar!! - Lavínia, a empolgada!

232º DIA: “A busca por Pokemons lendários nos levou ao Shopping da Ilha Encantada em São Luís! Muitos humanos estranhos, com todo tipo de vestimenta, mas não fiquei intimidada! Arrumei esse Pikachu para completar minha coleção!” - Lavínia, a mestre Pokemon!”

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

ALGUNS BÊBADOS QUERIDOS DO CURADOR

Ao fundo, antigo prédio do Oton Hotel  que já serviu de palanque


José Pedro Araújo

Todos nós temos perdida na mente a lembrança de algum bêbado famoso. O assunto, que pode ser considerado como uma verdadeira tragédia para os familiares do indigitado pé-de-cana, mas, por sua vez, pode se constituir em situações verdadeiramente hilariantes para outros. Daquele tempo guardo a imagem do velho João Tufo a perambular pelas ruas do nosso Curador, amedrontando as crianças com a sua figura suja, corpo cheio de feridas abertas e purulentas. Esse pobre homem andava rua acima, rua abaixo, cambaleante, cofo de palha nas costas, a pedir esmolas mal o dia começava. Na minha ótica de criança curiosa, parecia já estar embriagado quando o sol nascia no horizonte. Não sei da sua origem, apesar de dizerem ser ele uma espécie de Quincas Berro D’Água, o rei dos vagabundos da Bahia relatado nos escritos de Jorge Amado. Mas, lembro-me que quando morreu, causou grande comoção na sociedade local, já acostumada com a sua figura inofensiva e bonachona.
 Vem da mesma época também outro personagem marcante. Era um negro velho, carapinha branca que nem chumaços de algodão, chamado Preto Olegário. Não sei da sua origem também, mas era figura conhecidíssima na cidade. Passava os dias em total estado de embriaguez, batendo às portas de todos os bares da cidade em busca de quem lhe pagasse um copo da cruel para beber. Era comum vê-lo no final da tarde caído em alguma calçada, abraçado com alguns trapos que sempre carregava consigo. E onde caía, ali passava o resto da noite: ao relento e sob o orvalho; ou banhado pelas torrenciais chuvas que caiam no período invernoso. Vem desse período uma frase racista que se usava quando se colocava uma espiga de milho verde para assar, e ela ficava queimada, deixando à mostra aquela crosta escura: “Ih! o Olegário passou o pé”, afirmavam as crianças, numa alusão à cor da pele do pobre homem. Vez por outra, quando estava incomodando demais, o velho Olegário era recolhido pela polícia e passava a noite em uma das celas da cadeia velha, situada na Praça Diogo Soares. Ali, certa vez, o nosso conhecido “Pé-inchado” dormiu e não acordou mais. Foi velado na própria delegacia, onde o vi prostrado em uma porta de madeira arrancada de um portal. Foi enterrado como indigente. Ninguém veio reclamar o corpo ou chorar por ele.
Certa época apareceu em Presidente Dutra um homem robusto, alvo de tez, conhecido pela alcunha de Créu. Veio das bandas de Sergipe, me parece, e foi acolhido por importante empresário presidutrense, que o contratou como vigia do seu posto de gasolina. O homem começava também a beber logo que o dia amanhecia, de maneira que quando a noite chegava já o encontrava completamente embriagado. Nessa ocasião, inflamado pela branquinha, subia na marquise do prédio onde hoje funciona um hotel e despejava sobre a cidade seus discursos intermináveis e furiosos.
Por esse tempo, vivia-se o início do regime militar que governou o país por mais de vinte anos, período também conhecido como “anos de chumbo”, por democratas de todos os matizes. Naquele momento as garantias individuais estavam totalmente suspensas e o cala-te boca era a tônica do momento. Enfim, as passeatas e os discursos políticos deveriam ser bem pesados para não suscitarem uma reação forte da parte dos donos do poder. Nem mesmo este aspecto era impedimento para o falastrão Créu despejar a sua fúria sobre tudo e sobre todos, nas noites antes calmas do Curador.
Lembro, entretanto, que seus principais inimigos eram os Comunistas e os Integralistas (que ele chamava de intregalistas). Inflamado, atacava os adversários do regime getulista, implantado lá pelos anos 30, e que se estendeu até o ano de 54. Do alto do seu púlpito improvisado, a platibanda do Oton Hotel, todas as noites o bebum despejava discursos desconexos, misturando datas e fatos, para desgosto das famílias que moravam no entorno do local da sua oração, incomodadas com a voz forte do orador notívago. Certa noite, depois de alguns anos de zangados discursos, a voz do orador se calou. Assim como surgiu, Créu desapareceu sem deixar um adeus. As noites do Curador perdeu o seu orador oficial.
Em Presidente Dutra, mais precisamente no povoado Canafístula, era fabricada uma pinga que ganhou fama entre os bebedores contumazes, e também entre os apreciadores esporádicos de uma purinha. Sem marca própria, passaram a chamá-la de Beltroina, numa referência ao dono do engenho, o fazendeiro Beltrão Campelo. A Beltroina possuía uma coloração dourada e seus apreciadores diziam ser de uma qualidade extraordinária. Talvez por conta disso, alguns rapazes da cidade se afeiçoaram tanto aquela aguardente que viviam entornando grandes quantidades dela até beijarem o pó vermelho das ruas.
Alguns desses jovens, pertencentes à burguesia local, entravam em tal estado de êxtase que saiam aprontando pela cidade. Um deles, figura conhecidíssima de todos, bonachão, conversa agradável, melava-se diariamente com a Beltroina, para desespero dos familiares e amigos. O contato do rapaz com a marvada se tornou tão corriqueiro que era comum encontrá-lo “tangendo galinha” pelas ruas da cidade ainda na parte da manhã.
A propósito disto, seus amigos de farra, confirmando aquela máxima de que “o macaco não olha para o próprio rabo”, decidiram que o rapaz precisava arranjar uma cara-metade para cuidar dele. Somente assim, conjeturaram, sairia daquele estado constante de embriaguez.
A escolha recaiu sobre uma jovem que já “havia dado os seus tirinhos na macaca”; uma namorada antiga, mas esporádica do nosso bebum. Honesto também é acrescentar que o bico-de-birita não era nenhuma criança também; já estava ultrapassando a casa dos trinta e cinco anos, de modo que se equivaliam no quesito idade. E além do mais, a moça era prendada e de boa família, formada professora - se não me falha a memória. Cuidaria dele muito bem, afirmavam.
Mas o plano só daria certo se a moça concordasse com ele. Aí veio a surpresa. A moça disse não só concordar com o casamento, como afirmou que ainda nutria grande paixão pelo adorável pinguço. Foi a sopa no mel: uma parte do futuro casal concordava inteiramente com o casório. A outra parte, conjeturavam, só precisava ser convenientemente preparada!
Mas otimismo tem limites. Foi difícil conseguir convencer a outra parte. Sempre que o assunto era iniciado, o rapaz, naquele momento ainda sóbrio, pulava fora e dizia ao interlocutor, poucas e boas, classificando-o de amigo-da-onça. Notaram, porém, que quando o pinguço já havia tomado algumas a mais, o assunto era mais bem recebido, aceito até mesmo com certa simpatia. Combinaram com a noiva realizar o casório quando ele estivesse completamente embriagado. E assim foi feito.
No dia do casório, o noivo estava radiante, apesar de não se manter de pé sozinho. Aparentava também não saber do que se tratava aquela solenidade tão animada. Não importava, já que a cachaça estava rolando solta e a felicidade dos amigos era total. Mas o dia seguinte não bem recebido por ele. Quando acordou e deu de cara com a nova sócia ali do lado, vestido de noiva jogado sobre uma cadeira, o homem irrompeu em um choro descontrolado; não podia acreditar que aquilo estivesse acontecendo com ele: estava casado?
Poucos dias depois, encontrei-o em um sítio da família. Estava sóbrio e ainda muito magoado com a presepada que haviam aprontado pra ele. Mais tarde, depois de relembrarmos o episódio do casamento, julguei ver brotar de seus olhos algumas lágrimas teimosas.
    
PS: Crônica já publicada no Folhas Avulsas com outro título

terça-feira, 12 de setembro de 2017

SELVAGENS EM LAS RAMBLAS?

Imagem by Google



José Pedro Araújo

Na primeira quinzena de maio próximo passado realizei uma viagem há muito desejada: visitamos Portugal e Espanha. Em Portugal, país que já havíamos visitado antes, além de Lisboa fizemos uma viagem pelo interior do país com destino ao norte. Estivemos em cidades históricas, como Santarém, Coimbra, Braga, Porto, e Guimarães, conhecemos alguns mosteiros e castelos históricos, tudo na maior tranquilidade, sem a correria estabelecida pelos guias de turismo. Nós mesmos fizemos o nosso programa, contratamos o transporte que nos levaria a tantos lugares inesquecíveis, controlamos, enfim, o nosso tempo e os nossos relógios. Foi uma viagem incrível, uma das mais apaixonantes entre as que temos realizado. Ao final do trajeto por terra, estabelecemo-nos na cidade do Porto, a bela e aconchegante capital do norte. Correu tudo como havíamos planejado. Nada saiu fora das nossas previsões, nada escapou ao que havíamos planejado.
Terminado o nosso tempo em terras dos nossos antepassados, seguimos para a Espanha. Mais precisamente para Barcelona, a estonteante cidade catalã. Foram cinco dias especiais, tudo transcorrido dentro de um planejamento para nada dar errado. E tudo transcorreu exatamente como prevíamos. Melhor, acima das nossas aspirações. Quando iniciamos as conversações para traçarmos o roteiro da viagem, um dos nossos companheiros, que já tinha estado na cidade de Barcelona, bateu o pé e disse que deveríamos nos hospedar em um dos inúmeros hotéis situados em Las Ramblas, a avenida mais charmosa da cidade. Pesquisando os preços dos hotéis, logo concluímos que os valores praticados naquela artéria eram muito superiores aos cobrados em outras regiões da cidade. Mas o nosso amigo afirmou que valia a pena. E justificou: economizaríamos tempo e o dinheiro do transporte para outras visitas, pois dali dava para fazer a maioria dos trajetos a pé. E foi exatamente isto o que aconteceu.
Las Ramblas, somente para esclarecer para aqueles que nunca ouviram falar dela, ou que nunca estiveram lá, é uma avenida especialmente traçada na região mais bonita da cidade, se é que dá para escolher uma, pois Barcelona é de uma beleza sem par em todos os cantos. A avenida é uma espécie de Boulevard, largo e muito arborizado, onde o pedestre pode caminhar à vontade e apreciar tudo em volta com a maior tranquilidade. Dizem que é a avenida mais festiva do mundo, pois o seu movimento é igual em qualquer hora do dia ou da noite. Não dá para descrever aqui a sensação que nos tomou ao nos vermos sentados sob uma das barracas postadas ao longo daquela linda via, apreciando o vai-e-vem das pessoas que por ali passavam conversando alegremente. Gente de todas as partes do mundo são vistas caminhando e conversando animadamente. Parece uma obrigação local: conversar bastante, gesticular muito e sorrir escancaradamente. Senti-me como se estivesse na esquina do mundo, ponto de encontro de todas as tribos.   Valeu cada centavo de euro ter escolhido aquele ponto da cidade.
Pois foi neste em que gente de todos os lugares da terra se encontra para conversar que foi o alvo do mais triste, covarde e sangrento atentado terrorista mais recente. Era dia 17 de agosto deste ano da graça.
Não pude acreditar no que vi no noticiário. Indivíduos possuídos por um instinto animalesco, haviam atacado com todos os requintes de crueldade a um grupo de pessoas que nunca haviam visto na vida; pessoas que não lhe haviam causado qualquer mal ou lhes feito qualquer ofensa. Mas, foram estas as escolhidas como vitimas do seu bestialísmo. Bestas humanas acolhidas tão generosamente pela cidade, apossaram-se de uma Van e derramaram o sangue inocente sobre a calça receptiva de Las Ramblas, lugar sagrado para os transeuntes de todo o planeta, como já afirmamos. Não vou discutir aqui os motivos de tal chacina, coisa que deixo para aqueles que gostam de encontrar motivação ou defendem assassinos terroristas que saem pelo mundo levando a dor e a tristeza aos lugares mais festivos, e por isso mesmo mais procurados pelas pessoas que sonham a vida inteira conhecer. Somente gente com perfil nefasto provoca uma carnificina como aquela, trucidam inocentes, arrastam seus corpos pelas calçadas, e depois invocam o nome de um pseudo deus. Um falso deus, por que um Deus verdadeiro abomina a maldade, condena o vil assassinato de pessoas em qualquer situação. Milhões de pessoas pelo mundo adoram um Deus com o mesmo nome daquele citado pelos assassinos de Las Ramblas, mas não é o mesmo, com certeza, apenas são homônimos. Os verdadeiros seguidores do profeta Maomé não sujam as suas mãos com o sangue de inocentes, e por isso devem ser respeitados em sua crença.
Quando paro para pensar no acontecido na tarde fatídica de 17 de agosto; quando a minha mente fica tomada pelas imagens dos corpos estraçalhados e jogados na Ramblas, não mais recordo que a menos de trezentos metros do local em frente ao Mercado de La Boquearia, ficava o meu hotel, e em frente a ele costumava-nos nos abrigar sob uma tenda que fazia às vezes de bar e restaurante, instalada em plena avenida. Esqueço-me que lá descansávamos todo final da tarde das canseiras do dia de muita caminhada pelos incontáveis pontos turísticos situados ao redor, e lá degustávamos uma enorme taça de cerveja bem gelada, enquanto observávamos o incessante passar de pessoas para lá e para cá. E como nos sentíamos felizes ao transitar por aquele pedaço de paraíso terreal!  
A pergunta que me faço neste exato momento é como me sentiria se para lá retornasse. Ainda sentiria o mesmo prazer que senti ao me sentar naquelas cadeiras, sob as tendas de toldo branco para observar a movimentação de tantas pessoas felizes que por ali passavam tagarelando? Provavelmente, não mais. Hoje, com muito boa vontade me abrigaria em um ponto que me mantivesse imune ao ataque de bestas sanguinárias. Talvez me postasse sob a proteção do tronco de alguma das inúmeras árvores que enfeitam e dão um aspecto especial à bela avenida catalã. Somente assim me sentiria protegido do ataque de outras bestas humanas.