quarta-feira, 21 de junho de 2017

Diário de Um Náufrago (Capítulo XXXV)




Epílogo 

(José Pedro Araújo)

Sai satisfeito do encontro. A visão daquele touro maligno algemado, humilhado, e depois conduzido pela escada de serviço ao poso de polícia mais próximo, para não chamar a atenção dos outros embarcados, fez-me bem também. Precisava encerrar assim essa etapa sofrida da minha vida. E para isso era necessário também jogar uma pá de cal sobre o passado e seguir em frente. Recomeçar a minha vida do ponto em que ela havia parado abruptamente. A minha família já havia recebido notícias minha, coisa que fiz logo no primeiro dia quando me achei alojado naquele hotel em Cebu. Aliás, não contei quando falei sobre aquele dia, porque temia que as emoções aflorassem novamente. Sofrimento em dobro, não!
Quando liguei para casa no Rio de Janeiro estava em tal estado de excitação que as emoções já começaram a se descontrolar desde quando pedi à portaria que fizesse a minha conexão com o Brasil. E destrambelharam de vez quando ouvi a voz da minha mãe do outro lado da linha. A princípio – sempre acontece assim, é como se todos dessem o caso como consumado - ela achou que se tratava de um trote e ainda iniciou uma descompostura, mas, depois disso, quando a chamei da mãe, ela reconheceu a minha voz e caiu em descontrolado choro. Somente então me recriminei e compreendi que poderia ter sido fatal para ela aquele contato assim sem ao menos lhe preparar o espírito. Mas, enfim, estava feito e eu passei boa parte da ligação tentando controlar as emoções, tanto a dela, quanto a minha. Mas a minha mãe sempre foi uma pessoa de fibra, prática, decidida, e acima de tudo, portadora de altíssima presença de espírito, o que fazia dela alguém que não tardava a tomar de conta de uma situação, por mais difícil que aparentasse ser. E foi assim que ocorreu mesmo ela tendo intercalado momentos de choro com outros de riso frouxo e feliz. E no final do telefonema, estávamos conversando tão animadamente como se nada tivesse interrompido a nossa ligação por longos meses.
Difícil mesmo foi encerrar aquela conversa. Era como se temêssemos que tudo não passasse de um sonho, e que viesse a cessar ao colocarmos os fones do gancho. Essa carga emotiva acumulada e represada por tanto tempo foi a razão principal para ter demorado a conciliar o sono. Depois falta aquele barulho amigo das ondas quebrando na praia.
Depois de desligar me lembrei também que naquela hora já seria dez da manhã no Brasil, haja vista a diferença de fuso horário de doze horas entre os dois países. E na manhã seguinte, já noite no Rio de Janeiro, voltei a ligar para ela. Mas agora a conversa ocorreu de forma mais tranquila, mesmo com alguns períodos de choro intenso. E isso aconteceu somente até a metade dela, pois, agora, sabíamos que tudo era real, que não se tratava de um sonho de uma noite de verão.
Quatro dias depois estava sobrevoando a cidade do Rio de Janeiro a bordo do avião de uma companhia aérea brasileira. O trajeto de Manila a Nova York foi feito em uma estupenda e luxuosa aeronave da Cathay Pacific, luxo tão grande assim não encontramos nas nossas companhias aéreas. Na primeira classe então, o serviço de bordo era algo só encontrável em restaurantes de finíssima estirpe. Foi uma viagem longa, com duas conexões, e que durou mais de trinta e uma horas. Após o contato feito com a minha mãe, já era esperado no Aeroporto Internacional Tom Jobim. Mas não pensei em tanta gente. Só havia visto aquilo na chegada de um artista famoso ou de uma personalidade política de largo poder. Seja como for, a minha volta para casa teve um sabor que nunca havia sentido na minha vida, pois um caldeirão de emoções fervia dentro de mim quando alguém da tripulação anunciou que dali a poucos minutos estaria pousando no aeroporto do Rio de Janeiro. E esse alguém logo despejou agradecimentos por termos escolhido aquela companhia aérea e coisa e tal. Nem desconfiava o quanto eu era quem agradecia o meu retorno para casa!
Meu coração bateu descompassado ao avistar a estátua do Cristo Redentor estendendo os braços sobre a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. O sol da manhã banhava a estátua emblemática e toda a exuberância e beleza da cidade se mostrava na sua plenitude naquela hora do dia. Da minha janela vi também a baia de Guanabara explodindo em seu azul turquesa, e uma vaga lembrança de uma ilha perdida no mar das Filipinas me veio tenuemente à mente. Mais forte, porém, foi a imagem de um certo japonês que gastou a sua vida inteira lutando contra inimigos fictícios, fantasmas de uma guerra que só continuava na sua mente. E lembrei ainda que foi esse inimigo passageiro, e amigo eterno, quem traçou o meu caminho de volta.
Quando ele desenhou aquele mapa que pensei serem as linhas de uma rota de fuga, estava ele, na verdade, e em seus melhores momentos, riscando no papel um jeito de retornar para casa. E isso terminou por cair como uma luva para mim. Quanto bem me fez aquele homem perdido nos seus devaneios em uma escondida ilha do pacífico!?
Mas essa triste lembrança foi logo suplantada pela imensa alegria que passou a habitar o meu interior frente aquela bela visão que se descortinava exuberante e que passou a ocupar todos os meus sentimentos. Eu nunca tinha me sentido tão bem em voltar para casa.

sábado, 17 de junho de 2017

Diário de Fraldas( Parte 15)




(Empolgado com o nascimento da sua primeira filhinha, papai Bruno começou uma brincadeira que logo caiu no gosto de todos: a produção de um diário que ele convencionou chamar de “Diário de Fralda”. Diante disso, o blog resolveu publicar semanalmente o depoimento da Lavínia que, em último caso, vem a ser a netinha do coordenador do Folhas Avulsas).





SEMANA 18 – O céu é o limite!





(Bruno Giordano)


126º DIA: “Tive uma baixa em meu time... quando já estávamos indo em busca da rainha de copas, meu servo careca caiu adoecido... vi seu nariz escorrendo, seus olhos ficando vermelhos e sua temperatura aumentando... definitivamente fora envenenado pelo chá do chapeleiro maluco! Mas em minha equipe, ninguém fica para trás! Podemos aguardar essa conquista até amanhã!" - Lavínia, a verdadeira líder!

127º DIA: “Finalmente meu servo careca está se sentindo melhor! Pelo menos para jogar! Mas nada de lazer servo careca! Volte para sua função de bobo do grupo! Estamos muito próximos do castelo da rainha de copas! Dominaremos todas as cartas e derrotaremos o valete! Seremos rápidos, muito rápidos!” - Lavínia, a flash!

128º DIA: “PAUSA PARA O DIA DA TOALHA! Kkkkk! Como ainda não dominei a arte da Selfie ordenei a meu servo careca de fala engraçada que registrasse esse momento! Ao fundo, as espadas que emprestei ao nobre Legolas para que servisse na comitiva do anel de forma satisfatória! Ao fim de tal empreitada me foram devolvidas! E desde então exibo as lâminas que derrotam vários e vários orcs! Eu teria derrotado o Balrog sozinha, mas deixei que o mago tivesse seu momento épico!” - Lavínia, a Décima da comitiva do anel!

129º DIA: “Finalmente entramos no castelo da rainha de copas! Nem o ÁS, nem o temível valete e nenhum outro soldado foi capaz de nos parar! Tomamos a sala do trono e ela estava vazia! Provavelmente a rainha de copas tinha fugido por medo de ter um fim parecido com o que dava a seus desafetos! Mas eu nunca gritaria 'cortem as cabeças! Agora, como rainha do país das maravilhas, posso voltar aos meus afazes normais! Entre eles, ser a futura medalhista da ginástica olímpica!! Já comecei meu alongamento! kkk!" Lavínia, a nova rainha de copas!

130º DIA: “Estava precisando do final de semana! Muito estressante tomar o país das maravilhas e agora preciso planejar minhas próximas conquistas! Mas acho que vou aproveitar para tirar um cochilo entre uma conquista e outra! Zzzz!” - Lavínia, a cansadinha!

131º DIA: “Como fui ser tão descuidada... depois de meses enrolando o servo careca e minha genitora, fui pega com a boca na botija tentando fugir do berço! Agora que eles sabem que eu sei engatinhar não vai demorar nada para que me mandem de um lugar para outro para resolver as pendências do dia a dia! Mas aviso logo! Não vou pra fila de lotérica nem amarrada! Arrumem outro! Ou mande a Amarula!" - Lavínia, a menina de recados!

132º DIA: “Ao vestir essa jaqueta do hard rock café fui absorvida por duas sensações: a primeira foi uma fome danada para comer Ribs com batatas! Vai entender! Ainda não sei nem o que é isso! A segunda foi de dançar músicas caribenhas! Achei que ia querer o bom e velho Rock and roll, mas não! O Despacito fez meu coração bater mais forte!! Pretendo ir ao fundo nisso! Já pensei em fazer hipnose regressiva e até meditação! Se tudo falhar, irei a Cartagena para buscar pistas desse meu comportamento singular! E enquanto isso, hoje é dia de rock bebê!” ´Lavínia, a dançarina!

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Diário de Um Náufrago (Capítulo XXXIV)




Acerto de Contas!

José Pedro Araújo

Acordei na manhã seguinte com o barulho da cidade. Estava desacostumado com aquilo. Buzinas, barulho de motor, vozes em altíssimo volume, mas não me incomodava, apenas acordaram-me. Tomei outra chuveirada e ao olhar para o espelho observei como estava magro, com o rosto mais fino do que jamais tive, pele muito curtida pelo sol, e uma barba grande e volumosa quase enterrava o meu nariz. Os cabelos também estavam de um tamanho que só estivera nos meus anos de juventude. Mas, o rosto ainda era o meu. Os olhos claros e serenos saltavam brilhantes daquele emaranhado de cabelos. As roupas que havia comprado na véspera me caíram bem, pois, como já falei, estava mais magro, mais esguio.  
Desci para o café às oito horas com aquele sentimento de vitória contra tudo e contra todos. E com o dinheirinho que aquele pobre homem havia me deixado, faria o meu retorno para casa, esperava. Comi como nunca no café da manhã e pedi ao recepcionista que me informasse um salão de beleza próximo. Não foi difícil, pois logo próximo havia um, a pouco mais de três quadras do hotel. Precisava remover a barba e cortar o cabelo. E assim fiz, e admirei-me mais uma vez o meu aspecto, mas magro ainda, após me barbear e tosar os cabelos longos.
Foi somente depois disso que me dirigi ao consulado de Portugal. Não tive dificuldades em ser recebido, o movimento ali era pequeno. Lá a minha história logo passeou de sala em sala, e muitas pessoas deixaram o que faziam e foram me conhecer. O cônsul português manteve contato com a embaixada brasileira em Manila e lá também foi uma surpresa geral. O próprio embaixador disse que queria falar comigo, que a história do meu desaparecimento tinha saído na mídia internacional e que o Itamaraty havia determinado que me procurassem naquelas águas. Agora, depois de ouvir uma súmula da minha epopeia, prontificou-se a enviar ordem para emissão de uma passagem, enquanto preparavam um salvo-conduto para eu poder embarcar de volta para o Brasil, já que não possuía mais qualquer documento.
Nem me dei ao trabalho de falar que podia comprar a minha própria passagem, pois teria que me demorar em explicações de como conseguira aquele dinheiro. As minhas despesas de hotel também foram bancadas pela embaixada e eu embarquei ainda naquele dia, no final da tarde, para Manila.
Naquela mesma noite fui recepcionado pelo embaixador do meu país nas Filipinas. Além de receber um tratamento digno de um hóspede ilustre, pois somente assim poderia me hospedar ali, fez-me ele uma surpresa que me deixou muito contente. Como eu havia rapidamente lhe informado por telefone a forma como acontecera o meu mergulho no mar, a curiosidade de todos na embaixada era enorme. O chefe da embaixada mais uma surpresa: por uma dessas ironias do destino, o mesmo navio em que eu havia embarcado encontrava-se em águas Filipinas e dai há dois dias estaria ancorado no porto de Manila. E mais. Havia contado com a colaboração da empresa norueguesa, sob cuja bandeira navegava o navio, para entrar na embarcação com uma ordem judicial e prender os acusados, caso ainda estivessem a bordo do mesmo.
Aproveitei os dois dias de espera para conhecer alguns pontos turísticos inacreditáveis do país. Tudo com a ajuda da minha embaixada. E no dia e hora aprazados para a chegada do navio, estávamos lá e subimos a bordo. Fomos recebidos reservadamente pelo seu comandante que nos informou ter recebido ordens expressas da companhia para adotar todos os procedimentos para o reconhecimento e prisão dos envolvidos na grave ocorrência. Só pediam sigilo sobre o fato e que nos mantivéssemos longe da imprensa. Por motivos óbvios, é claro. Concordamos, mas deixamos os detalhes para depois. Em uma imensa e reservada sala recebemos a presença de todos os funcionários do navio de sexo masculino, em grupos de dez pessoas. Os que passavam pelo reconhecimento não podiam ter contato com os que ainda iriam passar para não dar a conhecer sobre os reais motivos do chamamento do comandante.
Foi um processo difícil para mim, pois somente sabia ser possível reconhecer um dos meus atacantes, e isto em razão de um detalhe apenas. Os demais, por possuírem, a maioria, origem asiática, tornavam-se todos muitos parecidos. Ademais, temia as consequências de me postar frente a frente com aquele sujeito truculento. Vai que ele quisesse concluir o serviço deixado por terminar! Mas estava decidido a fazer o que tivesse que ser feito. Havia envolvido muita gente nisso, não poderia recuar.
Como já estava prevendo, não foi nada fácil, e somente no terceiro grupo de trabalhadores daquele gigante dos mares, reconheci um dos meus agressores. Exatamente o que eu achava que seria mais fácil. E tudo por conta de uma tatuagem imensa que ele trazia na mão esquerda: a cruz satânica. Aquela cruz e a sua terminação inferior em formato de uma interrogação nunca me saíram da mente quando a minha memória foi completamente restabelecida. Vê-la estilizada e impregnada na sua pele, com aquele rabicho maligno subindo pela sua munheca, fez-me voltar à mente todos os suplícios que passei desde aquele malfadado dia. Aquele homem que a portava foi o que me pegou por trás, laçando-me por baixo dos dois braços para me conduzir para o afogamento na banheira. E como estivesse com as suas mãos entrelaçadas na minha barriga, a direita sobre a esquerda, vi perfeitamente a tatuagem que ele trazia. E ficou fácil a sua identificação agora.
Como eu estivesse com dificuldades para reconhecer seus dois outros parceiros, o comandante o conduziu já devidamente algemado para outra saleta exclusiva e, distante de nós, o fez denunciar os outros comparsas. Em menos de cinco minutos, o chefe daquela embarcação monumental voltava com a notícia de que o caso já estava resolvido e que os três homens desembarcariam ali mesmo em Manila e seriam entregues às autoridades Filipinas.
Mais reservadamente, reforçou o pedido para que eu não levasse o caso ao conhecimento da imprensa. E que, por conta disso, a empresa estava pronta a me reembolsar o dinheiro surrupiado pelos funcionários e me agraciaria com uma viagem com acompanhante para qualquer cruzeiro, e no melhor dos seus navios. Negociei. Achei que a empresa estava se safando por muito pouco. E depois de muita negociação, sai dali com duas vitórias: uma boa soma de dólares, além do dinheiro ganho na máquina caça-níqueis, e a promessa da empresa de instalar um sistema de segurança mais efetivo em favor dos clientes. É certo que fui um louco conduzindo tanto dinheiro para a minha cabine, e foi por isso que não forcei mais ainda a mão para sair do caso com uma grande soma de dinheiro.

terça-feira, 13 de junho de 2017

CRÔNICAS VIVIDAS - ALEGRIA RENOVADA

Foto ilustrativa by Google




(José Ribamar de Barros Nunes)*

Recordar é viver. Concordo. Acho isso uma verdade incontestável.
Em fevereiro de 1964 vivi um dos dias mais felizes e alegres. E não tenho  vergonha de confessá-lo. Cheguei quase à euforia ao receber minha carteira nacional de habilitação.
O tempo foi correndo. Precisei renová-la diversas vezes. Agora, mais de meio século transcorrido, nem dirigindo mais, fiz questão de renová-la. Não foi muito fácil. Tive de provar vigor físico, mormente oftalmológico.
Confesso que, como naquela longínqua data, vibrei muito com a renovação da carteira e com a satisfação cívica de estar em dia com o DETRAN.
Comentando isso, tenho um objetivo. Relembro a mim mesmo, aos amigos e leitores que a felicidade, desejo inato do ser humano, nem sempre  resulta de grandes vitórias nem de acontecimentos espetaculares ou olímpicos.
Eventos ou fatos simples e até simplórios podem causar felicidade ou renovar alegrias. Além disso, os sábios antigos já proclamavam que os trabalhos e fadigas passados são agradáveis (Acti labores iucundi).
Refletindo bem, observa-se que pequenas cousas, um bom dia, uma palavra, uma frase, um aperto de mão, uma flor, um incentivo, um conselho, um olhar compreensivo podem pesar e tornar momentos felizes, ainda que rápidos.
Muita gente até filosofa afirmando que a felicidade geral e absoluta não existe, existindo apenas momentos felizes. Sou um dos que rezam por essa cartilha do povão. E você?

(*) José Ribamar de Barros Nunes é autor de Crônicas Vividas  e Duzentas Crônicas Vividas.

E-mail: rnpi13@hotmail.com