quarta-feira, 17 de outubro de 2018

A história do sapo Zé

Capa do Livro infantil "O Sapo Zé".

Elmar Carvalho(*)


Dias atrás veio fazer um trabalho em nossa casa o mestre Ivo Gomes, radicado em Teresina, porém natural de Miguel Alves – PI. Quando, no final do serviço, minha mulher e eu o elogiamos, reconhecendo que ele montara o painel de mosaico com perfeição, ele revelou que passara a noite anterior sem dormir direito, porque a Fátima achara que ele havia errado na ordem de colocação de algumas das peças. Isso demonstra que ele é um operário perfeccionista, meticuloso, o que se percebe ainda no cuidado como ele fez as necessárias emendas, nos locais em que não cabia uma unidade completa.

No decorrer da execução do serviço, ele tomou conhecimento de que eu escrevera alguns livros, que lhes foram mostrados, creio. Ivo, então, nos contou que o seu filho, ainda um menino, era também um escritor. Como lhe indagássemos sobre isso, ele nos contou que o garoto gostava de ler e sempre participava do Salão do Livro do Piauí – SALIPI, tendo publicado um livro infantil por ocasião de uma de suas “versões” anuais.

Falou que o garoto, além do amor aos livros, gostava de desenhar, escrever e era componente de uma banda musical. Acrescentou que o seu filho escrevia desde que tinha cinco anos de idade, sem que ninguém a esse mister o induzisse. Ele próprio fazia as ilustrações das histórias que escrevia.

Perguntei qual a sua idade atual, tendo o mestre me respondido que tinha somente 12 anos de existência. Prometi que, quando ele terminasse o serviço, mandaria uns livros de minha lavra a seu filho, tendo ele me dito que me traria, no dia seguinte, um livro da autoria do garoto. De fato, me trouxe um exemplar, ainda lacrado por invólucro plástico, e, portanto, sem autógrafo, o que parece indicar que o jovem não foi inoculado pelo veneno da vaidade de eventual mosca azul.

O pequeno volume tem o título de “O sapo Zé”, e é todo colorido, da capa à contracapa, o que é conveniente a um livro destinado a público infantil. Li-o com agrado, me recordando dos tempos de minha meninice, em que li com sofreguidão esse tipo de literatura, inclusive vários da autoria do grande Monteiro Lobato, da Condessa de Ségur, de Viriato Correia e vários outros autores, além de inúmeros gibis da marca Walt Disney.

A obra contém belas ilustrações em policromia, que bem retratam o que é narrado, elaboradas por Ângela Rêgo, exímia artista plástica e ilustradora, que já agregou valores a vários livros publicados. Ela é também uma talentosa capista.

Na capa se encontra estampado o nome completo do autor: Railson Cauã Gomes. A pequena nota biográfica informa ainda que ele tem oito anos e que aos cinco decidiu escrever histórias, bem como é estudante de escola pública. Portanto, a história objeto do livro foi escrita, suponho, quando ele tinha apenas essa idade, contudo o livro foi publicado em 2016, conforme folha de rosto. Foi publicado pela Nova Aliança Editora, cujo proprietário é o livreiro Leonardo Dias, coordenador editorial, que relevantes e bons serviços vem prestando à literatura piauiense.

Na pequena nota, a que me referi, é noticiado que o autor “tem o sonho de ser um grande escritor lido no mundo inteiro e por isso continua escrevendo e ilustrando histórias para as crianças se divertirem”. O estilo é claro, direto, objetivo, sem nenhum tipo de rebuscamento, e bem compatível com a idade de Railson Cauã. A história é simples, porém criativa, e apropriada ao público a que é destinada. Por conseguinte, bem diferente de certas histórias infantis, que são, na verdade, uma espécie de contos de terror.

Transcrevo o seguinte trecho, que é revelador de sua inventividade: “O sapo Zé pulava no jardim e a sapa pulava no seu Joaquim.” Nota-se, nesta pequena transcrição, o espírito lúdico e brincalhão do jovem escritor. Por ela se percebe que, se Cauã tiver perseverança e não mudar de planos, continuando firme em sua vocação, em seus estudos e amor à leitura, realizará, decerto, o seu “sonho de ser um grande escritor”.

Afinal, como já dizia Charles Chaplin, “a persistência é o caminho do êxito".    

(*) Elmar Carvalho é poeta, romancista, cronista e membro da APL.

sábado, 13 de outubro de 2018

O Curador e a Violência Política

Praça da matriz de São Sebastião com a mureta original(anos 60)


José Pedro Araújo
Desde menino ouço falar que, em época de eleições, os ânimos se acirravam no velho Curador, a ponto de amigos fraternos passarem meses sem se cumprimentar. Pior, período de eleições era época de muito choro e ranger de dentes para algumas famílias ao ver a vida de algum dos seus filhos ceifada precocemente. Por esse tempo, quando ainda trajava calças curtas, comecei a ouvir dizer que o Curador já havia passado por um confronto sangrento entre duas das famílias de maior destaque na região. E que do embate,  a vida de alguns dos seus membros fora subtraída. Tudo pelo poder de mando de uma comunidade perdida nos sertões mais profundos do Maranhão. Ouvi, por exemplo, que homens armados e violentos se apossavam da cidade e transformavam a sua calma sertaneja em um campo elétrico, onde o menor contato entre as partes poderia se transformar em um mar de fogo. Fiquei assustado quando minha mãe me falou que, certo dia, houve um tiroteio tão intenso na Rua Grande, que as pessoas, mesmo abrigadas em suas casas, tiveram que se projetar no chão e buscar a proteção dos pés das paredes. Apavoradas com pipocar das armas de fogo, procuravam escapar das balas perdidas que voejavam à procura de uma vítima.
Em um desses dias em que o cheiro de pólvora se espalhava pelo ar, no que pode ser descrito como o maior dos confrontos entre os dois grupos familiares já citados no parágrafo anterior, um primo desse escriba, jovem, ainda imberbe, foi atingido por um balaço que lhe abreviou a vida ainda em flor. Havia o irrequieto rapaz tomado partido por um dos lados em disputa. 
Nesse tempo, a grita por segurança bateu às portas do Palácio dos Leões na distante capital, São Luís, e o assunto tomou conta das páginas dos jornais por muitos e muitos dias. A cidade ganhou fama de violenta e sanguinária, e para os Ludovicenses, passamos a ser um povo que cultivava a violência. A má fama nos persegue até os tempos que correm. Por muitas e variadas razões, não podemos nos furtar disso.  
Como ninguém mais aguentava tal situação, o interventor de plantão abriu mão do posto a fim de que o governador do estado pudesse nomear outro mandatário com poderes para pacificar os ânimos durante o pleito eleitoral que se avizinhava. O escolhido foi um Tenente-coronel, ocupante de relevante cargo no âmbito do poder estatal. Este, contudo, mal terminou o período concernente às eleições, retornou para a capital e deixou o velho Curador imerso em suas ensandecidas disputas costumeiras.
No inicio dos anos 60 se instalou na cidade o batalhão de Engenharia e Construção do 2º BEC. Tinha por objetivo a conclusão da BR 226 até chegar ao rio Tocantins. Mas os militares fez muito mais que isto. Debelaram a violência na cidade durante os anos em que ficaram instalados na Praça Biné Soares, em local pertencente à família do senhor Celso Sereno. Patrulhas armadas saíam todas as noites pela cidade com o propósito de proteger a cidade e permitir que os presidutrenses pudessem dormir em paz e segurança. Por esse tempo os políticos também se comportaram e respeitaram as mais básicas regras democráticas.
E foi sempre assim a história política do velho Curador até alguns anos atrás. Como no processo político cabe a apenas um grupo o poder de mando, sempre havia um terrível entrechoque entre aqueles que queriam para si essa primazia. Em épocas nem tão distantes assim, a violência tirou a vida de alguns representantes da mais alta estirpe política local, criando um clima de insegurança que muitos pensavam haver ficado soterrado no passado. Foi, talvez, o período mais doloroso e sangrento desde a época em que o município recebeu a sua emancipação.
Ultimamente as coisas se mostram diferentes. Muito bate-boca toma conta da cidade, que já não é tão pequena assim. E as desavenças, no máximo, chegam aos desforços pessoais, e são resolvidas com alguns murros e bofetões. Mas isso acontece em todo o país. No Brasil, a força da palavra não é o bastante para dissipar as nossas diferenças e/ou desavenças.
No pleito que aconteceu domingo passado, o município elegeu um represente para a Assembleia Legislativa estadual depois de muito tempo. Até onde sei, tudo transcorreu na mais perfeita ordem, na mais absoluta paz. Abandonamos a velha prática curadoense e chegamos, por fim, aos tempos presidutrenses. Que seja assim por séculos e séculos sem fim. Amém!

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O Ineditismo do Futebol de Minha Terra(1)

Imagem by Google


O Maior Placar em um jogo de Futebol.
Mazaniel Almeida(*)

            O futebol do Piauí se não é rico em resultados, se é pobre em craques, se destaca pelo ineditismo. Muitos dos casos fogem do “folclorismo”, do racional, do inimaginável e até do absurdo.
           Poty Velho é o mais antigo bairro de Teresina, localizado na confluência dos Rios Poty e Parnaíba e tinha seu time de futebol amador com o mesmo nome do bairro. Barra das Pombas era um povoado do outro lado do Rio Parnaíba, no Estado do Maranhão. Marcaram um amistoso entre os times das duas localidades que de atrativo não tinha nada, mas uma rivalidade sem controle, daquelas em que se dizia: se vencerem na bola irão perder na porrada. Isso não era apenas força de expressão, pelo menos a emoção estava garantida, não pelo resultado objetivo do placar, mas pelas consequências desse.
            Eu, menino traquino, fui a esse jogo escondido de minha mãe, aproveitando que ela iria para uma procissão religiosa.
            O time do Poty era visitante, num campo de chão batido e graças a Deus sem muros. Jogo sem policiamento, com juiz neutro (pelo menos em tese) e a torcida única armada de cacete. A primeira providência do juiz neutro foi expulsar o goleiro do Poty no primeiro lance do jogo e ainda marcou pênalti a favor do time local. Acreditem se quiser, mas o primeiro tempo terminou: Barra das Pombas 30 x 0 Poty, isso mesmo: trinta a zero. O time do Poty nunca tinha sofrido tantos gols, aliás, time nenhum do mundo passara por aquele vexame. Aquilo era placar de basquetebol.
            A torcida local já nem estava dando bolas paro o jogo, que em dado momento se matou de rir ao ver uma vaca atravessando o campo de jogo na maior malemolência, avacalhando ainda mais um jogo avacalhado.
            O que não se poderia prever, nem o mais estabanado dos gurus do mundo, seria uma reação do time do Poty Velho. Foi diminuído o placar, subindo degrau a degrau realizando o que seria impossível. Inesperadamente, no segundo tempo só os visitantes marcaram gols uns por cima dos outros, de enxurrada até conseguir um empate de 30 x 30, isso mesmo: trinta a trinta.  Faltando cinco minutos para o término do tempo regulamentar, o árbitro no uso de bom senso e bote bom senso nisso, encerrou a partida na iminência de uma virada no placar e com isso aumentar a pancadaria que já não era pouca. Barra das Pombas 30 x 30 Poty Velho, num jogo sem súmula, repleto de testemunhas que entrou para a história do futebol como o maior placar do mundo. Nada visto antes, durante nem depois. Tão surpreendente que, passado mais de meio século, chegando-se à Teresina, desde o mais antigo ancião a um criança de chupeta, caso você pergunte qual o resultado dessa partida, ouvirá as mais escandalosas respostas, coisas como: 100 x 100, 50 x 50, 120 x 120.

(*)Mozaniel Almeida, piauiense, é poeta, cronista e contista.


quinta-feira, 4 de outubro de 2018

LABIRINTO TINTO DE SANGUE

Pintura: Ariadne e Dionísio



Elmar Carvalho(*)

Faço um poema

com o sangue ardente

das nascentes de meus dedos:

vertentes de medos e degredos.

Os versos são fios de esperança

que saem de palpos de estranhas aranhas

construindo labirintos em arabescos

tintos de sangue nos afrescos.

Ariadne recolhe o fio

e Teseu surge intacto

com a espada embebida

do sangue do Minotauro que traz

no peito a rosa sangrenta da ferida.

Com esse fio

Penélope tece e destece

um longo manto ensopado

de pranto e quebranto

e se amortalha das dores

de amor de que padece

– amor que lhe pasta e apetece.

O que conclui desfaz peça por peça

e interminavelmente recomeça.
   

 (*) Elmar Carvalho, Membro da APL é poeta, cronista e romancista.