quarta-feira, 22 de março de 2017

Diário de Um Náufrago (Capítulo XXII)




“Finalmente Sou Piloto de Caça à Serviço do Meu Imperador” 


José Pedro Araújo

“O primeiro contato meu com um Zero quase me derrubou de emoção. Aquele aviãozinho minúsculo, pintado de verde e com um grande sol vermelho desenhado na fuselagem me deixou deverasmente emocionado. Entrar na cabine de um daqueles pássaros alados era tudo o que eu sempre desejara na vida. Ou, mais precisamente, o que mais desejei nos últimos tempos. E agora eu iria defender a minha pátria sobre as asas de um dos mais modernos e letais aparelhos de guerra.”
“Passei por um treinamento rápido, mas intensivo, como já afirmei. O tempo de preparação precisava ser exíguo porque o país necessitava que o Zuikako voltasse ao teatro da guerra para impor o nosso poderio que tanto amedrontava os nossos inimigos. Aquela belonave portentosa transmitia segurança aos nossos homens também. E por nunca ter sofrido um revés maior, apesar de já estar há anos singrando por esses mares belicosos, funcionava como um talismã, algo que designava sorte e segurança. Era, por fim, a nau capitânia que se impunha somente com a sua presença. Aos inimigos, mas, e principalmente, a nós mesmos. E dessa vez eu estava nele, embarcado que fora com o meu mosquito mortal, nome com o qual batizei o meu Zero.
Passei quase todo o tempo que levamos navegando de volta, junto ao meu aviãozinho, no meu posto de espera sobre o enorme convés, enquanto ele permanecia atado à sua catapulta de lançamento. Esperava, ansiosamente, pela minha primeira missão; apenas a primeira das muitas que eu almejava participar. E ela aconteceu quando o Zuikako foi enviado a participar da batalha de Guadalcanal, nas Ilhas Salomão. Naquela refrega sangrenta em que muitas vidas inimigas foram tiradas, afundamos um dos navios mais importantes da frota naval americana, o USS Hornet. E eu tive participação ativa naquele confronto vitorioso.”
“A volta ao porta-aviões Zuikako se deu em festa. Tínhamos infringido uma das maiores derrotas aos aliados, e tivemos o nosso reconhecimento: fomos convidados para comemorar o feito ao lado do nosso grande comandante, o Almirante Jazaburo Ozawa. Aquele homem magro, rosto impassível, cabelos curtos e grandes entradas, não esboçou um sorriso sequer ao nos receber. Mas, o jeito marcial, e o seu olhar determinado, causou-me ótima impressão. Estávamos em boas mãos sob o seu comando, foi o que pensei. E ele ainda fez questão de me cumprimentar pessoalmente, agradecendo pelo grande trabalho realizado e pelos feitos por mim realizados, informações que me disse ter ouvido do comandante da minha esquadrilha. Fiquei envaidecido com os elogios. Mas era como se tivesse ouvido dele um reparo: “apesar do seu defeito físico, você é um bom piloto”. Pois olhou rapidamente para a minha perna com a prótese mecânica, enquanto tecia seus cumprimentos”.
“Eram muitas as atividades diárias. Constantemente partíamos em missão de reconhecimento ou mesmo para combater alguns inimigos identificados em um largo raio de atuação, posto que estávamos sempre atentos à aproximação de algum deles do nosso poderoso porta-aviões. Isso era adrenalina pura. Mantínhamos um olhar para o céu, outro para o mar, e os ouvidos sempre atentos aos alto-falantes instalados em todos os pontos da nossa belonave. Era um partir e voltar constante, de modo que logo já estava acostumado com aquela pista de pouso e decolagem tão pequena e que precisava de um impulsor para nos arremessar tal qual um estilingue faz”.
“O meu tempo livre e de descanso na apertada cabine era gasto ouvindo as histórias dos pilotos mais experientes e que já estavam há mais tempo na luta. Havia um deles que me chamou a atenção desde o meu primeiro minuto ali, pois tinha participado do ataque japonês a Pearl Harbor, e também porque contavam histórias mirabolantes e empolgantes sobre a sua participação naquele ataque. Passei a considerá-lo como um ídolo. Admirava-me que ainda estivesse vivo e ativo, vivo para contar suas histórias, enquanto parte dos pilotos que haviam participado daquele confronto, sobretudo os ancorados sobre o Zuikako, já haviam perecido em combate. Estavam ainda em atividade menos de cinquenta por cento deles. Não havia dúvidas de que aquela era uma atividade de alto risco. Não havia dúvidas de que aquele homem calmo e sereno merecia ser copiado”.
“Então passei a tomar aulas com ele. Precisava saber como fazia, quais as estratégias que adotava para ainda permanecer vivo, enquanto muitos dos seus colegas haviam sido derrubados pelo inimigo”.
“Ficara muito claro para mim a capacidade de sobrevivência daquele piloto, como de resto era também a do nosso porta-aviões, uma vez que alguns dos nossos portentosos vasos de guerra já haviam ido a pique em ataques realizados pelos nossos inimigos. Como acontecera na terrível e tenebrosa batalha de Midway quando quatro dos nossos porta-aviões foram afundados. E nós ainda estávamos ali, prontos a dar continuidade aos combates que se acentuavam no oceano pacífico.”
“Nesse tempo o meu companheiro de beliche já chefiava um dos subgrupos, e eu o tinha como um talismã também. Apesar de ouvirmos sempre palavras de incentivo; afirmações de que estávamos ganhando rapidamente a guerra, pensávamos, por outro lado, que o custo para nós também estava sendo muito alto. Mesmo nunca se tocando no assunto, soube através desse nosso amigo que o Zuikako era o único dos seis porta-aviões que participaram do ataque a Pearl Harbor que ainda estava em atividade. Os outros tinham sido mandado para o fundo mar pelos nossos inimigos. E eu sabia que, com o aumento da frota inimiga nos mares do pacífico, a guerra estava se intensificando por aqui. E que, mais dia, menos dia, poderíamos sofrer algum revés também. Daí precisar de todas as informações que o meu amigo pudesse me repassar sobre a sobrevivência naquele meio”.
“Já estava há mais de um ano ininterrupto em atividade naquele porta-aviões, quando me aconteceu o primeiro contratempo: em uma das batalhas aéreas contra caças americanos, tive a cauda do meu Zero atingida por uma rajada de metralhadora. Mas, por sorte, consegui voltar para o Zuikako sem maiores problemas. E por causa disso não pude mais participar de algumas das incursões que aconteceram nos dias que se seguiram até que se fizessem os reparos necessários nele. Somente quando a meu aviãozinho foi restabelecido, pude sair em socorro de um grupo de colegas que estava em combate ferrenho não muito distante de onde o nossos navio navegava. Para a minha tristeza, na volta ao porta-aviões pude ver que uma parte considerável dos nossos caças não havia retornado. E que um desses aviões ausentes era exatamente o do meu talismã. Sofri muito com a perda. Mas, não havia muito tempo para ficarmos lamentando. As ações se davam em tempo tão curto que, às vezes, mal tínhamos tempo para reabastecer e logo já voltávamos a voar. Naquele último retorno, em que o nosso herói não voltou, o comandante nos reuniu mais uma vez para falar sobre uma vitória acachapante que havíamos conseguido e para engrandecer o nosso trabalho, marcante, segundo ele, e que infligiu uma derrota inesquecível a um inimigo bem mais numeroso.”

terça-feira, 21 de março de 2017

CRÔNICAS VIVIDAS - SENTIMENTO DE MEDO




José Ribamar Nunes de Barros*

O sentimento do medo domina e penetra o ser humano desde o nascimento até o apagar das luzes na expectativa dolorosa e duvidosa com o além. Os filhotes e os bebês das variadas espécies da natureza diferem muito dos humanos. Geralmente nascem sabendo caminhar, correr, voar, nadar e brincar.
A criança recém-nascida do homo sapiens, ao contrário, depende totalmente dos pais durante anos a fio. E o medo se manifesta em todas as direções: medo de amar, de altura, de elevador, de escuro, de alma, de assalto, até de ser feliz.
Como dominá-lo, vencê-lo, afastá-lo? Existem profissionais e mesmo equipes interdisciplinares que se dedicam a essa dificílima tarefa e nem sempre obtêm o êxito desejado.
Sem dúvida, existem medos e mais medos (algumas vezes chegam a pavor e surto) que ameaçam e assaltam a gente em todo tempo e lugar. O “Xis” do problema nem os matemáticos encontram...
Nos meus devaneios e elucubrações, ao longo da vida, imaginei uma solução, dialogando comigo mesmo e sugerindo repetir continuamente o seguinte bordão:
Meus medos são meus escravos... Outras vezes, digo com firmeza o seguinte: Você não precisa ter medo de nada ou ainda: quem teme fantasmas e outras besteiras é criança...
Impossível, porém, negar que se vive uma “sociedade do medo”. No alto, no chão, na rua, no lazer, na escola, nos estádios em toda parte e a todo momento...
Pensando assim, poetas, filósofos e outros tantos enfatizam que “viver é perigoso”...
Alguém duvida?

*José Ribamar de Barros Nunes é autor de Crônicas Vividas e Duzentas Crônicas Vividas.
E-mail: rnpi13@hotmail.com

sábado, 18 de março de 2017

Diário de Fralda (Parte 3)




(Empolgado com o nascimento da sua primeira filinha, papai Bruno começou uma brincadeira que logo caiu no gosto de todos: a produção de um diário que ele convencionou chamar de “Diário de Fralda”. Diante disso, o blog resolveu publicar semanalmente o depoimento da Lavínia que, em último caso, vem a ser a netinha do coordenador do Folhas Avulsas).



SEMANAS 4/5, OU ALGO ASSIM:



25º DIA: “Como todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite, resolvi me preparar para a balada! Bem alimentada, check! Banhada, check! Penteada, check! Roupa nova, check! Sono embelezador, check! Vale night, check! Vamos ver se meu servo careca consegue me acompanhar!”.


26º DIA: “Pra mim chega! Depois de passar a noite acordada na farra com a minha genitora, vem o careca da voz engraçada dizendo que era hora de dormir! Mas só eram 4:15 da manhã! Desse jeito não dá... consegui postergar o soninho até as 5:20! Rá careca! Não consegue acompanhar, né! Não consegue!!! Ps. Essa brincadeira me custou caro... estou pretendendo passar o dia dormindo... as prévias só começaram!! Hahahaha!!! Lavínia, a Arlequina”.


27º DIA: "Ahhh! O final de semana foi ótimo! Balada no sábado! Descanso no domingo! Estou bem disposta para começar a semana! O mesmo não posso dizer da minha genitora e do careca! Parece que eles são véi paia e não aguentam uma balada sem passar o dia bocejando! Hahahaha! Estou matando meu servo careca no cansaço! Vou preparar pra ele meu pacote de fraldas de maldades! Hahahaha! Boa segunda-feira! - Lavínia, a descansada”.


28º DIA: “O inverno está chegando! Já alguns dias que tormentas assolam meu castelo, minha winterfell! Achei que isso só acontecia em Ponta Tempestade, mas talvez os surgimentos dos dragões também tenham alterado o clima dos sete reinos! O servo careca tinha dito que o clima de Teresina era que nem o de Dorne, quente e seco! Como sempre, parece que estava enganado! Acho q o mantenho por perto só para vê-lo exausto! Vamos careca de fala engraçada, prepare meu banho bem quentinho! - Lavínia, a khaleesi”. 


29º DIA: “Esta exploração do mundo exterior vai ser muito proveitosa! Quando eu aprender a me comunicar nessa língua primitiva vou começar a cobrar o careca de fala engraçada por foto! Vou ficar rica! RIIIIICCAAAA!!!" Lavínia, a top model”. 


30º DIA:  “Toda que adormeço, minha genitora ou o servo careca me colocam atrás das grandes, num lugar inóspito que eles chamam 'berço'! Sempre que acordo, lá estou eu na solitária! Eles acham mesmo que eu aceitarei ser aprisionada sem um julgamento adequado!? Que eu ficarei confinada sem dar um pio? Não é assim que a banda toca! Eu vim pra conquistar e não aceitarei esse tipo de tratamento sem reclamar todas as vezes!!! Kkkk sofram ante minha vontade hahahaha! - Lavínia, a Liberta”. 


31 DIA: “Completei um mês aqui no mundo exterior! Minha genitora preparou uma torta da qual não pude provar para comemorar está ocasião! E parecia estar tão gostosa... tudo bem... já estou treinando o servo careca a fazer o contrabando de chocolate! Ps. Devido a toda minha experiência adquirida no decorrer desse mês, já me sinto madura o suficiente para perdoar o servo careca por suas falhas! Vou abrir meu coração e dar-lhe uma segunda oportunidade de me servir adequadamente! - Lavínia, a mensariante”.


32º DIA: “Quando você acha que tudo está sobre controle, que o careca de fala engraçada e minha genitora estão dóceis e acostumados com a servidão, vem o destino e muda tudo! Acordei tarde nesse sábado, como de praxe, e não encontrei minha genitora! Segundo o servo careca ela tinha ido ao shopping! SHOPPING!!! Com que autorização? E o meu banquete?? Se ela acha que vai sair e deixar essa mamadeira mixuruca pra mim está muito enganada!!! Mas ela vai ver! A noite é longa e cheia de horrores hahahahahaha! - Lavínia, a sommelier”. 


33º DIA: “Ontem fui apresentada a novos conceitos: corso, farra e ressaca! Sobre o corso, não fui, o careca de fala engraçada bateu o pé! Tirano! Sobre a farra, fui convidada para o aniversário de um amigo e curti pra valer! Talvez até demais... e chegamos ao conceito de ressaca... nem vi o domingo passar... o careca disse que só saio agora quando fizer 18 anos... huuummmm... alguém sabe o telefone de algum mestre das fugas? Lavínia, a adolescente fujona!”. 


34º DIA: “Ouvi dizer que já passou a audição para o the Voice kids! Uma pena. Estava extremamente empolgada em levar a música como um trabalho paralelo à minha vida de exploradora espacial! O servo careca disse que eu tenho muito pulmão e fôlego para atingir as notas mais agudas e prolongadas... não sei como ele chegou a essa conclusão ... deve ser pela maneira como costumo chamá-lo, não sei... só sei que no próximo programa eu vou arrasar! - Lavínia, a artista/cantora/modelo/atriz/exploradora espacial/jedi/rainha dos sete reinos!”. 


"35º DIA: “Aaaahhh! Terça-feira e já estou entediada... não consigo pensar em novas maldades pra aplicar em meu servo careca e na minha genitora... essa brincadeira de gato e rato me cansou! Acho que chegou a hora de vestir a coroa de princesa e ser uma boa garota! Só que não! Hahahahaha! Descobri que toda vez que coloco minha mão na boca minha genitora corre e me dá o que eu quiser!!! Hahahaha! Estou bem perto de meu primeiro carro! E eu quero pink!!! Hahahaha! Lavínia, a Penélope charmosa!”. 


36 DIA: “Quem diria que o meu servo careca estaria aqui no meio da semana! Agora que eu estava me acostumando com suas ausências diárias, de 7 as 17, ele me faz essa surpresa! Fiquei tão lisonjeada que nem me dei ao trabalho de dar trabalho pra ele! Curti um sono embelezador a tarde toda! Mas a noite é longa e cheia de horrores hahahaha!" - Lavínia, a apaziguadora!”.


"37º DIA: “Numa galáxia distante, o império galático governado pelo poderoso sith Darth Careca lutava para encontrar o último dos jedi! Mal sabia ele que eu estava pronta para desafia-lo, e estava bem embaixo do seu nariz! Munida de meu sabre de luz, minha chupeta e meu penteado rebelde, não descansarei até ter obrigado Darth Careca a gastar seus últimos recursos em fraldas descartáveis! Hahahaha! Que a força esteja comigo!" - Lavínia, the last jedi!”. 


38º DIA: “Amanhã começa o carnaval! Se bem que se eu estivesse na Bahia já teria um mês de pura folia... mas não vem ao caso! Negociei com o servo careca sobre o feriado! Disse pra ele que estava com vontade de conhecer o capote da madrugada e daqui voar para o Rio de Janeiro para ver o desfile das escolas de samba! Ele tentou me demover da ideia me oferecendo uma chupeta! UMA CHUPETA! Hahahaha!!! Acho que fiz um ótimo negócio!!! - Lavínia, a foliã!”.


quarta-feira, 15 de março de 2017

Diário de Um Náufrago (Capítulo XXI)




“Decepções Com o Alistamento Militar”
José Pedro Araújo
 
“Deste modo, somente quando o país entrou de fato no conflito, foi que procurei o departamento de aeronáutica para me alistar como piloto. Já estava também envolvido pela propaganda governista, ufanista. E isso se acentuou mais quando a Alemanha conseguiu avançar rapidamente sobre os demais países europeus, quase sem oposição e, por outro lado, o Japão conseguiu derrotar com rapidez e penetrar nas posições inimigas no pacífico e no sudeste asiático. As vitórias das forças imperiais criaram um clima vencedor na minha pátria e eu fui tragado por ele. A posse do território de um inimigo, as suas riquezas, a sua arte  mais valiosa, desde tempos imemoriais, traduzia-se em riqueza para o vencedor e seus exércitos, uma vez que todo o seu patrimônio, as suas obras de arte, o seu tesouro, era levado para o país vencedor. E parte disso ficava com quem lançasse mão disso. E ainda havia as mulheres. Algumas, sobretudo as mais aventureiras, entregavam-se ao vencedor facilmente, outras, belas, às vezes casadas, eram apropriadas à força pelo invasor. E isso tinha um gosto especial, pois inflava a autoestima e elevava o moral da tropa ao passar a ideia de que podiam tudo, eram indestrutíveis e, além de tudo, não precisavam seguir certas regras preestabelecidas”.
“Assim, na minha luta para ser integrado às forças imperiais, nem é preciso dizer que fui reprovado logo que viram em mim um jovem deficiente, um candidato a quem faltava um pedaço de uma das pernas. Insisti um ano depois em outro posto de recrutamento. Não estava satisfeito em acompanhar a guerra somente pelos noticiários, queria está dentro do teatro dela. As notícias que chegavam do front eram bonitas demais, e empolgantes, e isso só fazia aumentar a minha vontade de estar junto dos vencedores. Mais uma vez fui rejeitado, para desespero meu. Por esse tempo a minha mente só comportava isso, e eu não pensava em mais nada.”
“Havia uma animação crescente em meio à população com os primeiros resultados daquele conflito. A imprensa divulgava os feitos dos combates japoneses, e enaltecia, sobretudo, a nossa aviação de combate. E isso me deixava triste e acabrunhado, pois achava que o meu lugar era lá, junto com os meus antigos companheiros. Nem as notícias ruins sobre a morte de algum conhecido em combate, refreavam a minha imensa vontade de estar lá.”
“Ai aconteceram os primeiros reveses - não noticiado inteiramente pelos órgãos de divulgação e propaganda da guerra como derrota, é claro, - mas que ocasionou o retorno do porta-aviões Zuikako, por exemplo, ao estaleiro para recuperação e também para a recomposição da sua tripulação.”
“O Zuikako era o orgulho japonês que singrava os mares para levar a derrota até aos inimigos do eixo onde eles estivessem. Mas agora precisava de reformas e da recomposição da sua frota aérea depois de sofrer uma baixa de quase cinquenta por cento em seus aviões e, evidentemente, no seu material humano. Estávamos em maio de 1942, e eu vi aí uma boa oportunidade de ser aproveitado desta vez. Certamente precisariam de novos pilotos também, e havia tremenda escassez de gente para ocupar os postos vagos.”
“Mas, mesmo assim, não foi fácil convencer os lideres do Serviço Aéreo da Marinha Imperial em decorrência daquele pedaço de perna que me faltava. Sempre aquilo. Não desisti, entretanto. Insisti tanto que, afinal, depois de tanta argumentação, da carência de gente para ocupar o posto de piloto, e também das informações sobre a minha capacidade de pilotar repassada pelo pessoal do aeroclube em que pratiquei por alguns anos, fui admitido. Mas, aqui pra nós, acredito ter sido aceito mais por falta de material humano qualificado do que propriamente pelas minhas qualidades. Mas, em fim, estava dentro do espetáculo como um dos seus protagonistas, e não na plateia para aplaudir. E isso era o que de fato importava.”
“E isso também me fazia um enorme bem. Já estava difícil justificar para os amigos, para a minha família, e principalmente para as minhas amigas, o que fazia eu ali enquanto os jovens do meu país arriscavam as suas vidas em defesa da pátria. E cada vez que isso acontecia, voltava para casa arrasado. Com o tempo, passei a não sair mais de casa. Temia encontrar as pessoas na rua e ter que apresentar sempre as velhas justificativas. Mas, o pior mesmo, era ver no semblante de cada um deles que não acreditavam no que lhes dizia. Se já estavam recrutando até mesmo gente velha e que já passara para a inatividade desde muito tempo, como rejeitariam um piloto competente como eu somente por me faltar um pedaço de um dos membros?”.
“E eles tinham razão em pensar dessa maneira. Afinal, eu também não me conformava com aquilo, se até mesmo jovens imberbes e despreparados estavam sendo rapidamente enviados para repor contingentes perdidos pelo exército e pela marinha imperial”.
“A notícia da minha aceitação me fez voltar às ruas nas poucas horas que eu tive para organizar tudo e partir para um campo de preparação de pilotos para o combate. Sai com as amigas de sempre e posei de herói antes mesmo de subir para a cabine do meu Zero pela primeira vez. E vi que nesse papel a relação com elas ficou muito mais interessante. Ganhei de presente da menina que eu mais admirava no grupo, uma noite de despedidas em um quarto de hotel. E que despedida! No final, já quase manhazinha, pude escolher como desejava me despedir dela. E ela não teve papas na língua para justificar o seu ato: como sabia que dificilmente eu voltaria com vida, precisava de uma última lembrança daqueles momentos. Bem, chega de inconfidências. Afinal, este diário pretende adotar um grau de seriedade e respeito aos leitores dele. Caso tenha algum.”