sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

A História de Presidente Dutra - (A luta pela sobrevivência) - Parte 23



A agricultura e o extrativismoCostuma-se afirmar que o criador de gado não gosta de trabalhar com atividade agrícola, por a considerarem por demais simplória naquele tempo. Mas os nossos bandeirantes haveriam de cultivar seus próprios alimentos, à falta de mercado onde pudessem obtê-los. Trouxeram consigo a experiência do trabalho com o milho, o feijão, a batata-doce, o inhame, e a mandioca, cultivados à larga em seus estados de origem. E logo alguém vindo das regiões úmidas nas imediações da capital, trouxe também a experiência do cultivo de um cereal que logo cairia no gosto do novo colonizador: o arroz. Sem querer, estavam adotando o costume dos seus homônimos orientais. Lá no Japão, o arroz faz parte da culinária local como alimento básico e insubstituível. Além disto, o caule da planta também é utilizado para a fabricação de esteiras, tatames, chapéus, entre tantas outras finalidades. E nosso Japão, além de se integrar na dieta regional, dado à flexibilidade do seu caule, passou a ser utilizado no enchimento de colchões para dormir.
            Antônio Bernardino Pereira do Lago, tenente coronel português, incumbido por D. João VI, em 1818, de elaborar As Cartas Topográficas da Capitania do Maranhão, afirma que na Província já se cultivava o arroz, não o que conhecemos, branco e gostoso, mas um arroz vermelho, também chamado “arroz da terra”. Discorrendo sobre a cultura que caiu no gosto dos maranhenses, o militar português afirmou: “O arroz era ainda mais antigo, porém vermelho, chamado “da terra”, e alguns querem que seja natural do país; entretanto, em 1765 é que foi introduzida e promovida no Maranhão a cultura do “branco da Carolina”(USA), pelas diligências da Companhia e em 1767 começou logo a exportar 2.847 arrobas”. (pág. 42, 1822).
            Observa-se através do depoimento acima, que o arroz, mesmo o de qualidade ruim, já fazia parte da alimentação do maranhense, daí a sua importância desde o começo da nossa colonização como um dos produtos que compunham a nossa pauta de exportação, e também da dieta maranhense. 
            A terra que produzia alimento em profusão, também aceitava, com vantagens, a plantação do algodão, do fumo e da cana-de-açúcar. Nessa época alguns engenhos foram surgindo e seus proprietários passaram a produzir rapadura, e até mesmo o açúcar que consumiam, o mascavo. O fumo também era industrializado em pequenas unidades familiares em forma de grossos rolos para comercialização, como fazia o pioneiro José Nunes de Almeida em sua fazenda Caiçara(bisavô deste escriba). Todos esses produtos eram vendidos na vila que começava a se formar, mas, em maior escala, eram transportados para as vilas de Caxias, Pedreiras, Barra do Corda e Codó.
            As dificuldades do início da povoação foram assim superadas com muita luta e destemor. Mesmo se situando em uma região com um excelente índice pluviométrico, ainda ocorriam problemas com a má distribuição de chuvas, que vez por outra afetava a produção de alimentos.
Um fato relatado por D. Feliciana Nunes Guterres(falecida recentemente aos cem anos), revela como esses pioneiros ainda haveriam de se defrontar com muitas barreiras até que o mercado se consolidasse perfeitamente. Com a memória ainda muito viva, lembrou que, certa vez, por volta de 1927, o Coronel Diolindo Luiz de Barros passou por um aperto muito grande, como de resto passaram também muitas famílias que ali residiam, quando lhe começou a faltar arroz para o consumo da família. Economicamente remediado, até possuía o numerário para adquiri-lo, mas não encontrava o produto na praça, pois a safra do ano anterior havia sido muito pequena em razão da escassez das chuvas que haviam caído irregularmente.
Assim, o arroz que era o principal item da alimentação do maranhense, estava em falta e ninguém tinha para lhe vender. Por conta disso, teve que empreender viagem para a região de São Domingos, povoado que se formava mais ao sul, em busca do produto. Preocupava-o ainda mais o fato de daí a poucos dias estar recebendo um numeroso grupo de parentes e amigos que vinham de Pedreiras para visitá-los. Para sua felicidade, encontrou o que procurava na região da Serra Negra e pode retornar para casa mais tranquilo.
            O fato narrado acima mostra o quanto era difícil a vida dos nossos pioneiros. Qualquer erro de estratégia poderia levá-los a um enorme aperto, senão a contactar novamente com o fantasma da fome, no que pese as condições favoráveis de solo e clima que encontraram na região. 
            Nada disto impediu que logo a região passasse a se destacar como um grande celeiro de alimentos para o nordeste, produzindo também o algodão em larga escala. Foi nesse tempo que se abriram estradas mais seguras e largas, e os primeiros caminhões começara a chegar até a região para o transporte do arroz, do algodão e do babaçu.
            A propósito disto, esta palmácea é um vegetal de múltiplas finalidades. Da amêndoa se extrai um excelente óleo comestível, que durante muitos anos ocupou posição de destaque na nossa pauta de exportação. A palmeira, que é encontrada em abundância no estado, fornece desde a palha para a cobertura dos casebres, ou para a feitura de esteiras e cofos, até talos para a construção de cercas provisórias, e o próprio caule, cilíndrico e grosso, é utilizado para a feitura de currais e pontes primitivas. Da casca do fruto, ou mesocarpo, produz-se um carvão com altíssimo teor calórico que substitui com vantagens o carvão proveniente da madeira.
Foi em razão da presença dessa palmácea, que em Codó, Caxias e São Luís, não demoraria a surgir as primeiras indústrias de extração de óleo, impulsionando a economia da região a uma velocidade fenomenal. Ainda hoje, com menor importância, centenas de famílias pobres têm, na extração do babaçu, um dos principais componentes da renda familiar.
Passando por um período de pouca importância, a renda obtida com o produto não se sobressai mais. Contudo, uma grande quantidade de famílias maranhense continua a retirar dele o óleo  de cozinha para o próprio consumo.  Em outras regiões do estado, quebradeiras de coco, contando com a ajuda de organizações não governamentais, já estão produzindo outros produtos com maior valor agregado, como o sabonete e o shampoo, além de cremes com propriedades terapêuticas para o combate aos radicais livres que provocam o envelhecimento precoce.
O babaçu, indiretamente, contribuiu para abalar negativamente a economia maranhense. Milhares e milhares de trabalhadores que antes laboravam na cultura da cana-de-açúcar na ilha de São Luís, e ribeiras do Mearim e Itapecuru, deixaram os engenho atraídos pela notícia de que na região dos cocais as terras eram livres e ainda contavam com uma palmeira, chamada babaçu, com a qual se poderia tirar boa renda. Assim, o babaçu contribuiu em muito para a ocupação do solo da região do Japão, mas, ao mesmo tempo, teve importância decisiva para a derrocada da cultura canavieira na região mais próxima ao litoral.
Eurico Teles de Macedo, um engenheiro carioca que aqui chegou no início do século XX, para trabalhar na construção da estrada de ferro São Luís-Teresina, relatou em seu excepcional livro O Maranhão e suas riquezas(Coleção Maranhão Sempre - Editora Siciliano), que:

[...] Os engenhos de açúcar, e até mesmo as boas usinas de açúcar, como a de Cristino Luz no Engenho d’Água, próxima a Caxias, viram-se de braços com as maiores dificuldades para produzir safras mínimas, porque o êxodo dos trabalhadores para os cocais se tornou notavelmente elevado e, não fora a cachaça, que encontra grande número de admiradores e gozadores em todo o Brasil, os alambiques teriam secado de uma vez e não mais os engenheiros poderiam sentir o álacre cheiro da cana fermentada, ou do néctar alcoólico...”.(pág. 63, 2001).


            A região da mata do Japão, escolhida pelos pioneiros em razão da riqueza do seu solo, devolveu com abundância cada semente lançada à terra, permitindo o crescimento exuberante das culturas repatriadas de outras terras nordestinas. No solo visguento e rico em fertilidade, as sementes trazidas de outras terras rendiam aqui o dobro ou mais do que produziam lá. O algodão arbóreo, cultivado no Piauí e no Ceará, aqui se transformava, de fato, em árvore de porte avantajado, produzindo plumas tão alvas e fibrosas que logo transformou a região no reduto de maior produção dessa cultura no estado. O milho que emitia espigas pequenas com grãos minúsculos em outras terras, ao ser lançado no massapê dava origem a touceiras muito avantajadas e soltavam espigas fabulosas, com grãos  cheios e a coloração do mais puro ouro.
            A cana-de-açúcar, uma das primeiras culturas a ser implantada no Maranhão, aqui se expandiu com velocidade, dando margem a instalação de muitos engenhos onde se produzia rapadura, cachaça, e até mesmo o escuro açúcar mascavo. Era rara uma propriedade que não dispusesse do seu engenho. No final dos sessenta, início dos setenta, ainda era possível encontrar alguns engenhos funcionado a pleno vapor no município. Como o do senhor Jorge, no São Benedito, o dos Carvalho, próximo à residência do Senhor Basto Ferreira, ou mesmo o do senhor Beltrão Campelo, na Canafístula. Este último talvez tenha sido o maior engenho em atividade durante muitos anos, produzindo uma cachaça amarelada, dourada mesmo, bem ao gosto dos apreciadores do produto. Quando criança, ainda testemunhei a presença de um engenho instalado dentro do quintal da casa hoje pertencente ao senhor Avelino Bezerra, em plena Rua Grande.   
O fumo foi outra cultura que rendeu bons dividendos às famílias advindas de outros estados nordestinos, onde essa cultura era bem cultivada. Aqui se produziam uma grande quantidade de fumo-de-corda, que depois era comercializado em outras regiões, como já afirmei.
Mas nenhuma cultura teve tanta importância econômica quanto o arroz. A orizicultura foi, durante muitos anos, a principal atividade econômica da região. Cultivado em todas as propriedades agrícolas, ensejou a instalação de muitas usinas de beneficiamento no município, algumas ainda hoje em funcionamento. Foi, sem dúvida, a base da economia local, ajudando a formar algumas das maiores fortunas que se tem no município.
            Assim, todas as sementes semeadas respondiam com produção muito acima do esperado, enchendo paióis e formando mesas tão fartas de alimentos que logo a fama da região ganhou mundos, provocando a vinda de novas e numerosas famílias para a terra antes desconhecida. A região passou a ser vista como um celeiro de produtos agrícolas, abastecendo as maiores cidades da região nordestina, tão logo as primeiras estradas foram abertas e permitiu o tráfego de caminhões. 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Operação Pau Brasil



José Pedro Araújo

Nada pode ser mais deprimente do que o período que atravessamos hoje no país. A imagem de tantos homens públicos sendo levados para o xilindró é a outra face da moeda em o Brasil aparece com toda a sua miséria instalada. E ao invés de vermos essas “autoridades” envergonhadas ao se verem expostos com reluzentes pulseiras metálicas nos pulsos, envergonhamo-nos nós por termos um dia defendido tais ou quais elementos. É só ligarmos a TV em um dos jornais diários, e lá vem logo um sem número de operações policiais com nomes esdrúxulos. Somente para ficarmos no ano de 2018, escolhi alguns nomes de operações policiais que me pareceram mais instigantes: Operação Pontes de Papel; Operação Tristilla; Operação Philloteus; Operação Prato Feito; Operação Dèjá Vu; Operação Anzol Sem Ponta; Operação Laços de Família; Operação Canário Pistola; Operação Fake Money e Operação Furna da Onça, esta, a penúltima lançada no país pelos indomáveis homens que resolveram passar o Brasil a limpo. E olha que citei apenas dez das quarenta e quatro operações policiais deflagradas no país em 2018, até hoje. Acredito até que seriam necessárias muitas mais, talvez dez vezes mais, para fazer frente ao terrível estado de assalto que os corruptos de norte a sul deste triste país assacaram contra os cofres públicos. Os homens que lutam para frear toda essa roubalheira também perderam a sua liberdade. Já não podem mais sair de casa com a família posto que as ameaças de morte contra si e contra os seus são terríveis e diárias. Pagam um alto preço por tentarem mudar o rumo das coisas; muitos até já se transformaram em mártires tentando limpar a mancha ignominiosa que alguns homens ditos públicos pespegaram sobre as páginas da história brasileira.
Enquanto isto, no legislativo, no executivo, ou nos tribunais de apelação, alguns indivíduos de alto coturno tentam barra-lhes o trabalho invocando toda a sorte de interpretações sobre o pretenso direito dos saqueadores. Termina por se transformar em uma luta quase inglória a batalha travada pelos verdadeiros paladinos da justiça, contra a malversação dos recursos públicos. Chega a ser desanimador. E enquanto isso, aqui na planície, desdobramo-nos para pagar a carga extorsiva de impostos que abastece esses esburacados cofres públicos. Sempre precisam de mais e mais dinheiro para bancar esse assalto gigantesco. Luta inglória também para os pagadores de impostos, portanto. Por mais que aumentem as alíquotas, nunca conseguiremos encher novamente os cofres dessa nação espoliada. O buraco de saída é muito mais largo do que a porta de entrada. Tudo isso porque a competência daqueles que propugnam para retirar o dinheiro do cofrezão é bem maior do que a daqueles que lutam para enchê-lo.
O que foi que deu errado com o nosso país? O Canadá e os EUA, por exemplo, ficam também no continente americano, tem a mesma idade que nós, mas conseguiram fazer dos seus territórios lugares especiais para se viver. Talvez devamos acreditar em uma frase triste, mas verdadeira, que responde a pergunta feita no começo desse tópico: “No Brasil tudo é grande, menos o homem”. Talvez, também, pudéssemos acrescentar algo à frase, para dizer que “Quem deveria ser grande, preferiu enveredar pelo caminho da desonestidade, do saque aos cofres públicos”. É claro que temos gente honesta nesse meio. Temos sim, mas não na quantidade necessária. E mesmo uma fração desses não tem muito zelo com a coisa pública e terminam por se juntar àqueles que são mal intencionados.
Se passarmos uma rápida olhada por tudo o que estão fazendo hoje neste país - do menor município ao maior - chegaremos rapidamente a entender porque não deslanchamos rumo ao progresso; em direção a igualdade entre as diversas camadas da população. Não vai ser com programas sociais do tipo que implantaram no Brasil recentemente, que vamos tirar a fração maior da população da miséria. Isso só será feito quando todos tiveram acesso ao trabalho digno e melhor remunerado. Distribuir dinheiro, simplesmente, sem uma contraprestação de serviço, é uma forma miserável e vergonhosa de popularismo preguiçoso e aviltante, e de transformar quem já é pobre em escravo da sua própria miséria.
Recentemente estive no Uruguai e fiquei impressionado com o desenvolvimento daquele país vizinho. Vi poucos pedintes pelas ruas, uma prova de que o trabalho é encarado como a melhor maneira de superação das dificuldades. A segurança nas ruas permite que andemos por elas a qualquer hora do dia, ou da noite, sabendo que dificilmente irá aparecer alguém com uma arma apontada para nós com o intuito de nos roubar ou suprimir a nossa vida. E isso aqui ao lado. O Brasil é o país que não deu certo. Temos que deflagrar por aqui uma operação policial geral, a Operação Pau Brasil. E começar tudo de novo. Do princípio.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

IDEALIZANDO UM ESPAÇO PARA O LAZER DOS PRESIDUTRENSES

Foto ilustrativa. Lago Verde, Paragominas-PA.


José Pedro Araújo
Quando criança sentia uma enorme falta de um local permanente onde pudesse dar vazão a minha grande necessidade de brincar. Então, não havia um parque infantil na cidade de Presidente Dutra, por mais diminuto que fosse.  As verbas públicas minguadas não permitiam tamanho investimento, diziam-se. E como não possuímos um rio perene, tínhamos que aguardar o período das águas altas para uns providenciais mergulhos no riacho Firmino ou no rio Preguiça, cursos de água semi-perenes que se mantinham todo o restante do ano restritos a pequenas poças individuais e paradas, o que não significava a mesma coisa, pois precisávamos de algo que extravasem fronteiras tais quais as nossas imaginações. Nesses períodos de estiagens tínhamos que nos contentarmos com as peladas disputadas nos terrenos baldios espalhados pela cidade, ou mesmo em empinar pipas, preenchendo com suas múltiplas cores o vazio do céu curadoense.

Depois veio a mocidade e com ela a necessidade de encontrarmos parceiras para tratarmos de coisas relacionadas ao coração. Faltava-nos uma praça, porém, onde as meninas, com as mesmas ânsias que nós, desfilassem objetivando distribuírem charme e beleza para uma plateia sequiosa para apreciá-las. Isso faz parte das necessidades humanas: existe sempre alguém que deseja se mostrar; enquanto outros desejam apreciar, deliciar-se, extasiar-se com a visão do que é belo. Essa praça veio muito mais tarde, quando já não estávamos mais por ali. E hoje, observo triste que os tempos são outros, quase ninguém transita por esses logradouros quando vem a noite.

Mas a cidade continua necessitando de um espaço público onde crianças e adultos possam se exercitar, divertirem-se. Um parque, por exemplo, com pistas de caminhadas, laguinho no centro, bancos em redor e muita sombra para desfrutarmos nas nossas horas ociosas. Lá poderia ter alguns campos de futebol, quadras poliesportivas, parques infantis e um espaço para exposições artísticas, além de pequenos  quiosques para lanchonetes, e uma construção maior para um restaurante. Pensei até mesmo no local. A lagoa do Curador. Superaríamos a necessidade de um espaço público que engrandecesse a cidade, e ainda salvaríamos, de quebra, o lugar onde tudo começou.

Como angariar recursos para isso, poderia nos perguntar alguém com os olhos voltados para o apertado orçamento municipal. E eu responderia sem titubear. Lançando mão de uma ideia muito em voga por estes dias: as parcerias público-privadas. Aliás, isso tem feito com que muitos governantes se vejam livres do cinto apertado que tolhe os movimentos de quase todos eles,impedindo-os de alçarem voos mais altos.

Sem nenhum interesse que não seja o de contribuir com alguma ideia para o desenvolvimento da cidade, diria que o administrador municipal poderia fazer como fez o prefeito Juscelino Kubitschek quando criou o parque da Pampulha em Belo Horizonte.  Pensando em uma área de lazer para os habitantes da cidade pequena, mas em rápido crescimento, criou um lugar de lazer para o belo-horizontino, mas também um novo e encantador bairro para a população mais abastada. A cidade tinha na época pouco mais de duzentos mil habitantes quando a ideia surgiu. Ele, por sua vez, não tinha nenhum recurso nos cofres do município para bancar a sua ideia. Foi então que pensou em buscar o apoio da iniciativa privada.

As terras que circundam a Lagoa do Curador pertencem a particulares, bem sei. Presidente Dutra, por sua vez, não é nenhuma Belo Horizonte, sei disso também. Daí a necessidade de se buscar a cooperação dos donos desses terrenos. E tenho a impressão que eles veriam com bons olhos a possibilidade de se construir um parque temático no entorno daquela lagoa. Salvar-se-ia aquele espaço histórico do seu desaparecimento iminente e, ao mesmo tempo, isso valorizaria, sobremaneira, os terrenos em derredor. Com um planejamento bem detalhado e aprovado pelo próprio município, dentro de uma proposta maior, loteamentos com toda a infraestrutura necessária seriam realizados no entorno do parque, criando-se um bairro novo a poucos passos do centro da cidade. Ao município caberia a fração do terreno que a lei obriga que seja destinado para obras públicas. Sem se falar que o espaço da lagoa e o seu entorno, são Áreas de Proteção Permanente, não sendo permitida aos donos dos imóveis qualquer alteração na sua feição. Portanto, nenhum prejuízo adviria dai para eles. No entorno da lagoa, diques de proteção seriam construídos para represar e elevar o nível das águas, e sobre eles seriam assentados os passeios e as pistas de caminhada.  Esses recursos poderiam advir do orçamento da própria União, por meio de emendas parlamentar. A cidade ganharia outra cara, mais moderna, e seus moradores um espaço de lazer sem igual na região. Destinaria mais qualidade de vida para seus residentes. E ainda cometeria um belo e histórico gesto. Sonhar não custa nada, não é mesmo?

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Creoli do Joviniano

Velha casa em que residimos no povoado


José Pedro Araújo
As lembranças que guardo desse pequeno vilarejo encravado no centro do território do velho Curador são fortes demais para abandonarem a minha memória já tão carregada de passado. São passagens, paisagens e acontecimentos que teimam em vir à baila quando menos espero. E não poderia ser diferente. Tudo isso acontecia quando ela ainda tão vazia de anamnese, por tão nova que era, ainda estava começando a armazenar os meus acontecidos. E pelo visto possui muitos terabytes de espaço, pois ainda continua a guardar lembranças. A povoação a qual me refiro, era um simpático vilarejo com ruas bem definidas e uma população que extravasava simpatia por todos os poros e para todos os lados. E foi esse local que meu pai escolheu para instalar uma filial da sua loja. Mais que isso. Por gostar tanto do lugarejo, escolheu-o para sua morada temporária, tendo residido lá por quase dois anos.  Papai também representava politicamente a região, elegendo-se por mais de uma vez para a Câmara do município. E foi assim que ele juntou a família, três dos quatro filhos já nascidos - o mais velho(eu, no caso) precisava continuar os estudos na cidade – e realizou a mudança.
A primeira lembrança que me vem da nossa chegada ao Creoli do Joviniano, com a tarde já findando, é a de que alguns amigos do meu pai se reuniram com ele na calçada em uma roda de conversa que entrou noite adentro. Naquele instante, também criei o primeiro problema para ele resolver. Entediado com aquele converseiro sem fim, apanhei um pequeno talo de coco babaçu e comecei a brincar com ele. Foi ai que apareceu o outro protagonista da história, um pinto pelebreu. Manso e crédulo na boa índole dos circundantes, o pintinho subiu à calçada e começou a caminhar por ela. Foi nesse instante que eu, fazendo uso da pequena arte de madeira que eu tinha nas mãos, dei uma traulitada na pobre ave que a deixou prostrada, praticamente morta. Nesse instante, um dos visitantes levantou-se de um salto e reclamou comigo bruscamente. Não sabia que eu era filho do amigo que visitava. Foi um constrangimento total quando o meu pai ralhou comigo e pediu desculpas ao dono do pequeno pinto. Depois, respondi pelo mal feito ,apesar dos meus pouco mais de seis anos.
Mas nem só de lembranças ruins, a minha memória está repleta. A melhor delas diz respeito ao açude que já foi objeto de uma crônica minha também. Era o maior ajuntamento de águas que eu já havia visto. Para mim, com aqueles olhos de menino guloso por novos descobrimentos, era um mar sem fim. Um oceano bravíssimo. Havia ainda uma bela lagoa, dita do Creoli. Cercada por uma vegetação alta e luxuriante, aquele brejo virou local de intensas visitações minha. Todos os dias, saía a passear em volta dela, sob a sua sombra reconfortante, baladeira ao pescoço, à caça de passarinhos. No seu entorno fiquei conhecendo a árvore frutífera que lhe emprestou o nome: o Creoli (Mouriri surinamensis Aubl.). Trata-se de uma árvore frondosa que tem preferência por áreas úmidas e que produz uma frutinha amarela comestível. Essa lagoa ficava muito próxima da minha casa, dai a facilidade que eu tinha de brincar nas suas margens. E possuía, também, uma quantidade de sapos tão grande como jamais vira. As noites escuras do Creoli eram tomadas pela volumosa e estridente sinfonia daquele coral aquático.
A propósito disto, aquele primeiro ano foi marcado por uma temporada de chuvas muito intensas, algo quase fora do normal(vivíamos o ano de 1960). Todas as noites a tempestade se abatia sobre a povoação, e isso provocou um problema adicional para a minha mãe: uma avalanche de rãs invadiu as casas mais próximas à lagoa. E como ela tinha pavor desses bichinhos visguentos e frios, quase não dormiu por um bom período. Os sapinhos surgiam de todos os lugares, se metiam entre as telhas e saltavam para dentro da casa. Como não havia luz elétrica naquele tempo, a escuridão das ruas favorecia o aparecimento dos bichos em profusão, expulsos do alagadiço próximo devido à elevação das águas. Amedrontada, a minha mãe deixava lamparinas acesas em todos os cômodos, mas nem isso impedia que a multidão de rãs pululasse pela casa. Mamãe contava ainda apavorada, muitos anos depois, que algumas delas saltavam sobre as lamparinas e apagavam as chamas. E causavam um verdadeiro transtorno para ela.
Mas o Creoli não era só isso. Era um lugar agradabilíssimo, um local em que imperava a concórdia, e era habitado por de pessoas amáveis e amigáveis. Anos atrás, retornei àquela vila e quase não a reconheci. O açude se achava muito assoreado e tomado por uma vegetação aquática sinalizando que as suas águas também estavam muito poluídas. Quanto à lagoa do Creoli, nem sinal dela. Um desmatamento desenfreado ceifou das suas margens o belo arvoredo, e suas águas fugiram do local para sempre. Até mesmo a velha capela havia sido demolida e mudaram de local. De uma fileira de flamboyants em chamas, posto estarem sempre floridos, que existia em uma das entradas do povoado, não tive notícia. Mas o povoado continua atraente e convidativo. Suas ruas agora estão asfaltadas, e a luz elétrica, e também a água encanada, são serventia para seus moradores.