sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

LUÍS, O FILHO DO CORAÇÃO.



(Chicoacoram Araújo)

            Foi no início do ano 2000. Não me lembro do dia e nem do mês. Recordo-me que era período de um bom inverno. Cheguei em casa, à noitinha, após mais um dia de trabalho e, ao entrar, observei que na sala havia uma rede armada. No seu bojo, uma pequena criança que dormia. Perguntei à minha esposa, Adilina, de quem era o pequenino. A resposta foi um largo sorriso. Não me disse nada.
           Acordado o menino, prestei atenção de que ele respirava com dificuldade, parecia estar com alguma enfermidade. Tossia muito. Escorria o nariz. Algumas vezes, chorava. Noutras, me olhava. E voltava a chorar. Calava-se, olhava para mim. Tinha um ano e meio de idade. Parecia menos. Estava vestido apenas com calçãozinho de cor desbotada.  Pequenino, magérrimo, pálido, barriga grande, glândulas inchadas, pernas frágeis, alguns furúnculos incomodavam aquele pequeno ser. Não era feio. Com as feições bonitas, os cabelos negros e lisos realçavam o seu rosto, que lembrava um curumim. Sua saúde era precária. Necessitava de cuidados médicos. Esse foi o motivo da vinda inusitada do hóspede.
            Contou-me minha esposa, no dia seguinte, que o havia levado ao médico.
       O garoto estava, de fato, muito debilitado. O diagnóstico apontava pneumonia, subnutrição e outros problemas de saúde a mais. Diante desse quadro, o Doutor receitou vários medicamentos e uma boa alimentação rica em vitaminas e proteínas. Tudo isso me foi relatado, à noite, por Adilina. Disse-me ainda que já havia comprado os remédios e alimentado a  criança, na forma recomendada pelo médico. Falou também que, no dia seguinte, levaria a criança de volta para a mãe.
        Mas a mãe da criança era muito pobre. Chamava-se Antônia. Morava em um casebre de taipa, localizado em uma vila, ao redor do bairro onde residia minha família. Tinha outros filhos menores ainda, e trabalhava como doméstica. Assoberbada pelo trabalho, só retornava à noite. As crianças ficavam sozinhas o dia todo, sem alimentação. Os vizinhos, penalizados, eventualmente davam às crianças algum tipo de comida. As condições de vida da mãe e das crianças eram, realmente, paupérrimas.
          Dentre esses vizinhos, estava Maria, irmã de minha esposa, que sempre que podia alimentava aquelas crianças. Esta morava em frente da casa da mãe dos pequenos. Como minha esposa habitualmente visitava sua irmã, em uma dessas visitas ela conheceu as pequenas criaturas, que pelas ruas estreitas da vila perambulavam. Um dia, em uma de suas visitas percebeu a ausência de uma delas, o menorzinho. Indagou da sua irmã Maria onde se encontrava o garoto. Esta respondeu que ele estava muito doente, prostrado em uma velha rede no casebre em frente. Estava sozinho. A mãe tinha ido trabalhar.
            Adilina, vendo que a saúde do garoto era preocupante levou-o imediatamente para o  hospital do bairro, alertando sua irmã que avisasse Antônia.  Depois de a criança ser medicada superficialmente pelo médico, Adilina tomou a decisão de levá-la para nossa casa. Foi assim, que a história do Luís começou.
            No dia seguinte, choveu.  Torrencialmente. Não foi possível levar o garoto para sua casa. Decidiu-se levá-lo no próximo dia, que, por algum motivo, também não foi possível. Vários dias se passaram sem que o pequeno hóspede fosse embora. A mãe, por sua vez, também não apareceu para levar o filho. Fiquei preocupado. Mandei chamá-la. Esta, depois de reiterados convites, enfim veio receber o filho ausente. Nessa cena, ao final da uma tarde de inverno, na calçada da minha casa, encontravam-se, além de mim e a mãe do Luís, minha esposa, a cunhada Maria e meus três filhos adolescentes: Josy, Vitor e Patrícia. 
     No momento da despedida do pequeno hóspede aconteceu um fenômeno extraordinário. Acredito que tudo o que acontece na vida das pessoas tem um propósito. Neste caso, acredito piamente que há um desígnio de Deus. Mas há também um propósito. Ou não?  “O coração tem razões que a própria razão desconhece”, disse alguém. 
  Meus três filhos protestaram veementemente a devolução do Luís à sua mãe. “Papai, você vai deixar essa mulher levar o Luís?” Fiquei surpreso com tal reação. O Luís já havia cativado os corações de todos de casa. Foi aí que compreendi que o Luís era o meu quarto filho. O Luís, o filho do coração. Entendi, também, que a mãe do Luís aceitou a separação do filho convencida que este teria uma boa educação e um futuro auspicioso com a nova família.  E esta é a missão que Deus confiou à minha família: educar o Luís, sem medir esforços, no sentido que ele seja, no futuro, um bom cristão, bom cidadão, e um profissional respeitado por todos.
       Hoje, o Luís está com 13 anos. Chama-se LUÍS HENRIQUE. Nome de Rei. É inteligente, meigo e tem um carisma muito grande junto às crianças. É estudante da 7ª série da Escola São José. Não se dedica muito aos estudos como eu gostaria. Mas é um bom filho.  Tenho a convicção que, com ajuda dos irmãos desta grande Igreja Batista e do grande Pai, Luís Henrique se transformará em um bom estudante, pois atencioso e obediente aos pais que é, logo será uma pessoa da mais alta respeitabilidade na comunidade. Para finalizar, citarei uma frase tirada do livro o “Pequeno Príncipe” que diz mais ou menos assim: “quando tu cativas alguém, tu és responsável por ela para sempre”. Amém.



quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

RÉQUIEM PARA A LAGOA DO PORTINHO




Não me recordo o dia exato da primeira vez que meus olhos pousaram alegres e surpresos sobre as águas verdes turmalina (ou será verde turquesa? – não sou bom nesse negócio de cores) das irrequietas águas da Lagoa do Portinho. A mistura do verde com o azul criou ali uma nova cor, isso é certeza. O choque que senti apagou para sempre o meu passado. Parece até que nasci naquele dia. E como ninguém lembra o dia do seu próprio nascimento, fico sem saber a resposta à indagação. O que me recordo mesmo foi o alumbramento que senti. Ficou registrado também o prazer do mergulho nas águas frias e doces daquele pedaço de paraíso bordejado por dunas brancas e faiscantes naquele sol pós meio dia. Não há como lembrar com exatidão aquele dia se sempre conheci aquele pedaço de paraíso! Os meus melhores sonhos foram ambientados naquela Lagoa Bela. Isso também é certeza. Portanto, vem de longe o nosso acumpliciamento.
Os Tremembé banharam-se por séculos naquelas águas repousantes também. E não lhes cabe um dedo mínimo de culpa pela morte dela. Aproveitaram-se dela, sim! Deliciaram-se nela, sim! E deram vazão às suas brincadeiras milenares como seus ancestrais já faziam, desde quando Tupã determinou que as lágrimas de Ubitã formassem um rio para separar a sua aldeia da taba da sua pranteada Macyrajara. Não alteraram um quê mínimo do ambiente. Mas ai vieram os brancos, os sábios, os senhores do mundo, e expulsaram os índios para bem longe! (a maioria ficou mesmo debaixo da terra, dizem os historiadores). E cagaram tudo (desculpem o termo chulo, mas, foi isso mesmo o que fizemos: cagamos sobre o que a natureza nos deu de graça). E levamos pouquíssimo tempo para cometer o nosso grande desacerto. 2015 poderá ficar na história como o ano em que as águas do Portinho desapareceram.
Qual a idade daquela lagoa? Milhões de anos? Muito menos que isso? Isso também não se sabe, não tem importância. Não quero saber também o dia ou o ano da sua morte, pois me parece que ainda temos tempo para salvar o paciente terminal. Basta querermos que os nossos filhos, os nossos netos, tataranetos e todos os nossos sucedâneos também tenham a imensa felicidade de mergulhar nas suas águas reconfortantes e belas. Basta pensarmos que aquele ambiente idílico seria um bom refresco para aplacar o ardor salgado que nossos filhos trazem nos corpos quando de volta do mergulho colossal nas águas do Mar de Luís Correia.
Mas estamos perdendo-nos em elucubrações outra vez na busca de culpados para o fatídico desenlace. Para quê procurar culpados se ninguém será condenado! Serão mesmo os vendedores de espetinho os únicos responsáveis pelo desaparecimento daquele Paraíso terreal? (eles foram apontados pelos homens que conduzem a política ambiental do município na última Audiência Pública realizada para discutir os problemas da moribunda lagoa. Estavam de brincadeira, não nos parece?). Mas querem-se encontrar culpados? Eles estão logo ali, aqui, acolá. Estão por todos os lados e à vista de todo mundo. Somos nós, quem tanto procuramos. A nossa geração será eternamente responsabilizada pelo desaparecimento da Lagoa do Portinho. Essa é a única verdade que ficará para os que vierem depois de nós. Réquiem para a Lagoa do Portinho! Que descanse em paz, juntamente com a nossa insepulta incompetência. Fiquemos também com a imagem acima. Que ela não permita nunca que a nossa culpa se vá com o tempo.  

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

OS MENINOS “GIBIZEIROS” DA PRAÇA PEDRO II


 


A arte de trocar e vender gibis na porta dos cinemas antes do início do filme me parece uma atividade só encontrada em Teresina nos idos dos anos 70. Naquele tempo, jovens amantes da sétima arte se encaminhavam para a Praça Pedro II, nas tardes ensolaradas da nossa capital, em busca da sessão das quatro nos cinemas Rex e 4 de Setembro. Gente de todas as partes desembocava na praça, revistas debaixo do braço, à procura dos “gibizeiros” que faziam seus negócios em frente aos dois cinemas. A troca de revistas ou a sua compra pura e simples, era atividade comum naquela época entre os aficionados pelos filmes de Cowboy e os donos das rudimentares bancas instaladas nas calçadas dos cinemas. As tais bancas, na verdade, não passavam de simples caixas de madeira, outrora depósitos de maçã, produto também muito comercializado na praça. E os empresários, os donos das bancas, jovens que expunham suas revistas sobre caixas de “Manzanas Argentinas” cobertas por um papel de seda roxo, antes envoltório da fruta importada. Nesse ambiente festivo trocavam de mãos as revistas em quadrinhos mais festejadas da época, como as faroestes  Juvenil Mensal, David Crockett, Zorro, Durango Kidd e Roy Rogers, entre tantas outras.

Não me recordo ter visto costume igual a este em outras cidades por onde passei. A presença de dezenas de jovens refestelados nas poltronas dos cinemas, cada um manuseando uma revista em quadrinhos enquanto aguardavam o inicio da sessão da tarde, era um hábito inerente à juventude teresinense. Velhos tempos, belos dias, como diria o também velho e bom Roberto Carlos. Essa sim era uma prática saudável. Diferentemente dos dias atuais, quando se vende de tudo no entorno dos cinemas, desde bebida alcoólica até a tradicional pipoca, antes do inicio das projeções cinematográficas. Atribuo ao hábito da leitura de gibis, o fato de ser hoje um leitor compulsivo de tudo o que me chega às mãos, em especial os clássicos da literatura mundial. Mas, o que me propus, quando iniciei este texto com o título acima, foi falar sobre as pessoas que ficavam do outro lado do balcão improvisado: os vendedores de revistas em quadrinhos que se estabeleceram na Praça Pedro II, os gibizeiros.

Destes, alguns ainda hoje exercem a profissão - agora ampliada e renomeada - de jornaleiro. Pessoas como o conhecido Joel, proprietário das maiores bancas de jornal da cidade, além de Dentinho e do saudoso Thomaz, que passou a sua atividade para um dos filhos. Alguns outros, de quem não me recordo o nome, também comercializam ainda hoje apenas livros e revistas usados. São remanescentes daquele grupo de jovens que iniciou suas atividades comerciais com pequenas bancas improvisadas na frente dos dois cinemas mais frequentados pelos jovens desta cidade.

O tempo e os novos hábitos da sociedade se encarregaram de fechar as portas dos dois cinemas. Mas, ainda é possível ver que esses bravos e aguerridos remanescentes daquela época, continuam a exercer a atividade de jornaleiro nas imediações da Praça Pedro II, retirando das suas pequenas transações comerciais, o honesto sustento das suas famílias.

Algum tempo atrás, um evento importante trouxe de volta a população que lê à velha e querida Praça Pedro II. A presença dos estandes do 7º SALIPI (Salão do Livro do Piauí), naquele espaço antes tão frequentado pela população teresinense, foi o episódio mais marcante da cultura piauiense nos últimos anos. Como foi gostoso ver legiões de pessoas de todas as idades brotando das ruas que desembocam naquele quadrilátero, atraídos pelo evento como abelhas em busca do pólen. Bateu uma saudade imensa daqueles tempos, quando os nossos meninos gibizeiros topavam qualquer negócio, desde que lhe sobrasse algum para fazer frente às suas despesas do dia-a-dia.

domingo, 25 de janeiro de 2015

UM AMOR ETERNO






(Chicoacoram Araújo)

Um amor eterno definhava lentamente, sem carinho.
A volúpia e a paixão ardentes iam-se devagarzinho.
O tempo, alguém disse, é o devorador de tudo,
Um grande amor de luto.

Até se acabar por completo, restando apenas lembranças.
Como aquela viagem que, ao por do sol, passamos sob um belo arco-íris,
Rogamos um matrimônio e um grande amor, bailando danças,
Ao som de músicas de Nana Caymmi e Elis.

Outra lembrança: os discos que retratavam nossas vidas
Perderam-se, de vez, naquela mesma estrada de vindas e idas.
Assim como as canções, nosso amor desapareceu em uma curva obtusa e transversal.
Talvez um dia, seguiremos juntos no mesmo caminho de saudades e, enfim, conjugal.





sábado, 24 de janeiro de 2015

HISTÓRIAS DE BEBUNS, CACHACEIROS E OUTROS BICHOS DA MESMA ESPÉCIE. (2)








Certa época apareceu em Presidente Dutra um homem robusto, alvo de tez, conhecido pela alcunha de Créu. Veio das bandas de Sergipe, me parece, e foi acolhido por importante empresário presidutrense, que o contratou como vigia do seu posto de gasolina. O homem começava também a beber logo que o dia amanhecia, de maneira que quando a noite chegava, já o encontrava completamente embriagado. Nessa ocasião, inflamado pela branquinha, subia na marquise do prédio onde hoje funciona um hotel e despejava sobre a cidade seus discursos intermináveis e furiosos. Por esse tempo, vivia-se o início da ditadura militar que governou o país por mais de vinte anos, período também conhecido como “anos de chumbo”, por óbvias razões. Naquele momento as garantias individuais estavam totalmente suspensas e o cala-te boca era a tônica do momento. Nem mesmo este aspecto era impedimento para o falastrão Créu despejar a sua fúria sobre tudo e sobre todos, nas noites do Curador.

Lembro, entretanto, que seus principais inimigos eram os Comunistas e Integralistas (que ele chamava de intregalistas). Inflamado, atacava os adversários do regime getulista, implantado lá pelos anos 30, e que havia se estendido até o ano de 54. Do alto do seu púlpito improvisado, todas as noites o bebum despejava discursos desconexos, misturando datas e fatos, para desgosto das famílias que moravam no entorno do local da sua oração, incomodadas com a voz forte do orador notívago. Certa noite, depois de alguns anos de zangados discursos, a voz do orador se calou. Assim como surgiu, desapareceu sem deixar um adeus.

Em Presidente Dutra, mais precisamente no povoado Canafístula, era fabricada uma pinga que ganhou fama entre os bebedores contumazes, e também entre os apreciadores esporádicos de uma purinha. Sem marca própria, passaram a chamá-la de Beltroina, numa referência ao dono do engenho, o fazendeiro Beltrão Campelo. A Beltroina possuía uma coloração dourada e seus apreciadores diziam ser de uma qualidade extraordinária. Talvez por conta disso, alguns rapazes da cidade se afeiçoaram tanto a aguardente que viviam entornando grandes quantidades dela até beijarem o pó vermelho das ruas. Alguns desses jovens, pertencentes à burguesia local, entrava em tal estado de êxtase que saiam aprontando pela cidade. Um deles, figura conhecidíssima de todos, bonachão, conversa agradável, melava-se com a Beltroina, para desespero dos familiares e amigos. O contato do rapaz com a marvada se tornou tão corriqueiro que era comum encontrá-lo “tangendo galinha” pelas ruas da cidade ainda na parte da manhã. A propósito disto, os amigos de farra, confirmando aquela máxima de que “o macaco não olha para o próprio rabo”, decidiram que o rapaz precisava arranjar uma cara-metade para cuidar dele. Somente assim, conjeturaram, sairia daquele estado constante de embriaguez.

A escolha recaiu sobre uma jovem que já “havia dado os seus tirinhos na macaca”; uma namorada antiga, mas esporádica do nosso bebum. Honesto também é acrescentar que o bico-de-birita não era nenhuma criança também; já estava ultrapassando a casa dos trinta e cinco anos, de modo que se equivaliam no quesito idade. E além do mais, a moça era prendada e de boa família, formada professora - se não me falha a memória. Cuidaria dele muito bem.

Mas o plano só daria certo se a moça concordasse com ele. Aí veio a surpresa. A moça disse não só concordar com o casamento, como afirmou que ainda nutria grande paixão pelo candidato pinguço. Foi a sopa no mel. Uma parte do futuro casal concordava inteiramente com o casório. A outra parte só precisava ser convenientemente preparada!

Mas otimismo tem limites. Foi difícil conseguir convencer a outra parte. Sempre que o assunto era iniciado, o rapaz, naquele momento ainda sóbrio, pulava fora e dizia ao interlocutor poucas e boas, tachando-o de amigo-da-onça. Notaram, porém, que quando o pinguço já havia tomado algumas a mais, o assunto era mais bem recebido, aceito até mesmo com certa simpatia. Combinaram com a noiva realizar o casório quando ele estivesse completamente embriagado. E assim foi feito.

No dia do casório, o nosso Pudim-de-cachaça estava radiante, apesar de não se manter de pé sozinho. Aparentava também não saber do que se tratava aquela solenidade tão animada. Não importava, já que a cachaça estava rolando solta e a felicidade dos amigos era total. Mas no dia seguinte, quando acordou e deu de cara com a nova sócia ali do lado, o homem irrompeu em um choro descontrolado; não podia acreditar que aquilo estivesse acontecendo com ele.

Poucos dias depois, encontrei-o em um sítio da família. Estava sóbrio e ainda muito magoado com a presepada que haviam aprontado pra ele. Mais tarde, depois de relembrarmos o episódio do casamento, julguei ver brotar de seus olhos algumas lágrimas teimosas.    

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Histórias de bebuns, cachaceiros e outros bichos da mesma espécie. (1)

                    
Todos nós temos perdida na mente a lembrança de algum bêbado famoso. O assunto, que pode ser considerado como uma verdadeira tragédia para os familiares do indigitado pé-de-cana, pode se constituir em situações verdadeiramente hilariantes para outros. Da minha infância, guardo a imagem do velho João Tufo a perambular pelas ruas do nosso Curador, amedrontando as crianças com a sua figura suja, corpo cheio de feridas abertas e purulentas. Esse pobre homem andava rua acima, rua abaixo, cambaleante, cofo nas costas, a pedir esmolas mal o dia começava. Na minha ótica, parecia já estar embriagado quando o sol nascia no horizonte. Não sei da sua origem, apesar de dizerem ser ele uma espécie de Quincas Berro D’Água, o rei dos vagabundos da Bahia relatado nos escritos de Jorge Amado. Mas, lembro-me que quando morreu, causou grande comoção na sociedade local, já acostumada com a sua figura inofensiva e bonachona.

 Vem da mesma época também outro personagem marcante. Era um negro velho, carapinha branca que nem chumaços de algodão, chamado Preto Olegário. Não sei da sua origem também, mas era figura conhecidíssima na cidade. Passava os dias em total estado de embriaguez, batendo às portas de todos os bares da cidade em busca de quem lhe pagasse um copo da cruel para beber. Era comum vê-lo no final da tarde caído em alguma calçada, abraçado com alguns trapos que sempre carregava consigo. E onde caía, ali passava o resto da noite, ao relento e sob o orvalho; ou banhado pelas torrenciais chuvas que caiam no período invernoso. Vem desse período uma frase racista que se usava quando se colocava uma espiga de milho verde para assar, e ela ficava queimada, deixando à mostra aquela crosta escura: “Ih! o Olegário passou o pé”, afirmavam as crianças, numa alusão à cor da pele do pobre homem. Vez por outra, quando estava incomodando demais, o velho Olegário era recolhido pela polícia e passava a noite em uma das celas da cadeia velha, situada na Praça Diogo Soares. Ali, certa vez, o nosso conhecido “Pé-inchado” dormiu e não acordou mais. Foi velado na própria delegacia, onde o vi prostrado em uma porta de madeira arrancada de um portal. Foi enterrado como indigente. Ninguém veio reclamar o corpo ou chorar por ele. (Continua no próximo post).

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

LÁGRIMAS



 
(Chicoacoram Araújo)

Chorei, sim! Por temor de uma implosão violenta dentro do peito,
Em face da ruptura iminente de um idílio eterno.
Por pressentir um enorme vazio nas entranhas do meu ser terno,
Longe do teu sorriso e daquele lugar em nosso devassado leito.

Chorei, sim! Por medo de te perder nessa cidade de almas vazias
À procura de carinhos e sofreguidão.
Por imaginar-te nos braços de outro alguém com desejos pungentes, em demasias.
E verter, abundantemente, lágrimas por séculos de solidão.

Chorei, sim! Por sentir a falta do teu corpo viçoso e de teus carinhos, em chamas.
Depois relembrar, sempre triste, os momentos felizes que nos aconteceram.
E por aí vagar a esmo, sem consolo, remoçando teus pujantes ais que em cama clamas.
Enfim, deixar de ouvir tuas vozes loucas em desvarios, que emudeceram.

Sorri, sim! Quando uma réstia de esperança nos teus lábios me encantou,
Como que querendo me dizer: não vá, meu amor.
Então um rio de felicidade do meu corpo brotou,
E em festa brindamos à Afrodite com louvor.




segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

LAMPIÃO NÃO MORREU?


 
Estive recentemente em Serra Talhada, município pernambucano no qual nasceu o rei do cangaço, e verifiquei que a imagem de Lampião está cada vez mais viva, especialmente entre os mais jovens. E se no passado os fãs do rei da caatinga eram pessoas pobres, desprotegidas e acossadas pelos coronéis, hoje seus adoradores são pessoas bem postadas na sociedade, esclarecidas, a maioria portadora de diploma universitário. Um desses cidadãos, Anildomá Wilians de Souza, é escritor e vive da exploração da imagem e da venda de seus livros sobre o maior bandoleiro nordestino. Além disto, percorre os sertões ministrando palestras sobre o seu tema predileto, enquanto continua suas pesquisas por todas as cidades e povoados por onde andou Lampião.

A bela e pujante cidade de Serra Talhada, assim como outras cidades como Piranhas, em Alagoas, e Angicos, em Sergipe, até já conta com um museu sobre o rei do cangaço. Ali, além de uma monumental exposição de fotos e de alguns adereços do cangaceiro, são também comercializados livros, chaveiros, literatura de cordel e pequenos objetos de cerâmica com a imagem do mais famoso bandoleiro da caatinga. Existe até mesmo uma fundação (Fundação Cultural Cabras de Lampião) cujo objetivo único é perpetuar a imagem do cangaço e de seus principais líderes, notadamente os mais famosos e conhecidos, como Jesuíno Brilhante e Sinhô Pereira, seus precursores, e Lampião e Maria Bonita, Corisco e Dada, seus sucedâneos mais importantes. Esse grupo de divulgação, composto por jovens serra-talhadenses, apresenta-se nas cidades nordestinas do interior, e até mesmo em algumas capitais, paramentado com vestes de cangaceiro e dança o popular xaxado, ritmo musical apreciado pelos bandoleiros na época. Têm feito esses jovens muito sucesso por onde andam.

A minha surpresa foi maior porque, há cerca de trinta e cinco anos, visitei Serra Talhada pela primeira vez e nessa época não ouvi uma só referência ao famoso bandoleiro. Notei até mesmo um misto de repúdio e vergonha quando se citava o nome do conterrâneo famoso. O que mudou daquele tempo para cá? Qual a razão dos jovens de hoje venerarem tanto a figura do rei do cangaço, se não conhecem ninguém que tenha pertencido ao bando dele?  Talvez esteja em andamento um processo para tentar resgatar a imagem do bandoleiro, um processo revisionista sendo construído. Somente assim posso entender por que tantos jovens se interessam hoje pela história do cangaço e de seus principais personagens. Prova cabal desta afirmação, é que em 1991, no dia 07 de setembro, a população de Serra Talhada foi às urnas em plebiscito para decidir uma questão simples: era Lampião herói ou bandido? A pergunta surgiu porque um vereador da cidade queria que o município mandasse erigir uma estátua do cangaceiro. E como estátua só se manda erigir para os heróis, decidiram-se pelo plebiscito para responder à pergunta.
Foram os cidadãos então às urnas.
E, pasmem: 79% dos votantes decidiu que Lampião era um herói das caatingas nordestinas.

Chama atenção nesse assunto, que a quantidade de livros lançados com esse tema vem aumentando muito nesses últimos anos. Pesquisadores famosos como Frederico Pernambucano de Mello, da Fundação Joaquim Nabuco, autor, a nosso ver, do melhor livro sobre o cangaço e suas motivações, intitulado Guerreiros do Sol, tem se dedicado sem descanso em busca de novas pistas e de respostas para o tema que tanto atrai o povo nordestino. Acredito que sejam esses novos autores, que vieram se somar às dezenas de outros mais antigos, a principal razão do florescimento da história do cangaço no seio do público jovem nordestino. É bem verdade que o tema é por demais instigante, uma vez que esses “bandoleiros das selvas nordestinas”, como tão bem cantou o poeta, são parte da nossa história, e sua saga não deve ser esquecida. Antes, deve-se tirar dela exemplos importantes de como não se deve proceder em relação às classes menos favorecidas.

Se fizermos uma comparação com o passado, iremos encontrar também em outros países, bandoleiros famosos que tiveram a sua imagem reconstruída, banhada e enxaguada, até deixarem-na com um aspecto mais aceitável, com um brilho épico. Uma história atraente, por fim. Vejam-se o caso de Robin Hood, bandoleiro que, conforme se passou a divulgar, habitava as selvas da Inglaterra (Floresta de Sherwood). Diz a lenda, que assim como Lampião esse indivíduo entrou para o mundo do crime para vingar a morte do pai, passando a roubar dos ricos para distribuir com os pobres. Billy the Kidd, Jesse James e seus irmãos, além de Bufallo Bill e Doc Hollyday, são bandoleiros famosos que foram incensados pelo cinema americano até se transformarem em heróis da colonização do velho oeste. Viraram mitos.

Do mesmo modo, os nossos historiadores passaram um corretivo na história manchada com muito sangue e transgressão das leis vigentes, para dar nova vida, agora com mais glamour, aos personagens do cangaço. E assim ressuscitaram o velho bandoleiro da caatinga.