sábado, 31 de dezembro de 2016

DOMINGOS DE FUTEBOL NO CURADOR

Central dos anos 80 posando para fotografia no Estádio Adrian Berrospi


José Pedro Araújo

Trato aqui dos jogos disputados lá pelos idos anos sessenta quando as partidas eram disputadas no velho estádio Honorato Gomes (hoje Adrian Berrospi). Modesto campo de futebol que ostentava o nome de “estádio”, cercado de talos de babaçu, bem aparadinhos, juntinhos e em pé para não deixar brechas, em intermináveis cercas de faxina. Era o nosso alçapão no qual, aos domingos, sempre tínhamos time visitante para enfrentar o Central. Nos dias de hoje, fatalmente o chamaríamos de Arena, mesmo não havendo cadeiras para sentar, ou até mesmo arquibancadas, cobertura, essas coisas próprias dos bons estádios de futebol. Assistiam-se aos jogos de pé, disputando espaço na beira do gramado uns com os outros, a cotoveladas.

O campo em si já era uma peculiaridade nossa, pois situado de leste para oeste, possuía uma inclinação um pouco acentuada, ficando a trave ocidental em um ponto muito mais elevado do que  outra. E a grama não era a Esmeralda, plantada em estádios utilizados na Copa do Mundo de 2014, era o nosso resistente Capim-de-Burro, perfeitamente adaptado ao nosso meio. Tão adaptado que nem usávamos o artifício da irrigação para mantê-lo sempre verdinho. Também não possuíamos aquelas máquinas corta-grama para apará-lo. O trabalho era feito pelos jumentos vadios que circulavam aos montes pela região. E a demarcação das suas linhas era feita com cinza. Isso, antes que o estádio fosse cercado. Porque depois disso, o trabalho de aparar a grama era feito pelos desportistas que se utilizavam do instrumento mais conhecido na região: a roçadeira manual. E ficava tudo bem, apesar dos muitos claros que se formavam ao longo das chamadas quatro-linhas. A bola corria macia, e isso era o que importava. Um quique da bola aqui, outro lá; uma matada de canela, ou uma escapulida da gorduchinha, quem se importava!

Outra peculiaridade: não se tirava o par-ou-ímpar para a escolha do lado do campo e de quem sairia jogando. O Central sempre jogava o primeiro tempo na descida, deixando ao adversário a única opção de começar o jogo de baixo para cima, subindo a quase ladeira. E isso se mostrava uma tarefa cruciante. Antes que findasse o primeiro tempo do jogo os jogadores do time visitante já estavam com a língua de fora, estafados. E no segundo tempo, cansados ao extremo, nem mesmo o fato de jogarem na descida era suficiente para trazer de volta a vitalidade perdida. E ainda tinha outra particularidade. Devido à falta de costume de jogar em terreno inclinado, os chutes dados na bola sempre encobriam o travessão, tamanha era a inclinação do terreno.

Outra coisa que eu nunca entendi, era porque o nosso estádio ficava ao lado do cemitério da cidade. E isso me levou a perguntar ao meu pai, certo dia, se era para enterrar os jogadores que morriam em campo. Nem vou relatar a resposta aqui nesse espaço. Sempre fui uma pessoa boba. E aos bobos estão reservadas algumas respostas duras.

Pois bem, como nunca tinha dinheiro para pagar as entradas para assistir às partidas, muitas vezes subia nas árvores que existiam dentro do Cemitério para poder ver o espetáculo que se desenrolava logo ao lado. Mas achar um lugar ali também não era tarefa fácil. A disputa era tão acirrada que tínhamos que chegar cedo para encontrar um lugar bem posicionado. E assim, passávamos horas esperando a partida começar sem descer da árvore.

Certo domingo o adversário era a seleção de Barra do Corda. E esse jogo me chamou a atenção mais que os demais em razão da propaganda que se fez ao longo de várias semanas. Era o “Match of the Century”.  Bom, já que era isso, não deixei meus pais em paz até conseguir o dinheiro para a entrada. E acompanhei tudo antes do prélio começar. Desde a chegada do caminhão com os jogadores barra-cordenses, até o almoço havido na pensão da dona Maria Antônia, na esquina da Magalhães de Almeida com a travessa Nelson Sereno, não perdi um lance. Fiquei por ali ouvindo as conversas dos craques adversários até um pouco antes da saída deles para o estádio. E o que ouvi deles, suas fanfarronices, me deixou aflito: diziam ganhar a partida de goleada. Facilmente. E já no estádio, minhas preocupações somente aumentaram quando vi adentrar ao gramado o time adversário.

Os jogadores me pareceram muito mais vigorosos do que os nossos. Vestindo uma equipagem composta de camisas alvirrubras, listras vermelhas e brancas, alternadas e na vertical, com calções brancos, tudo novinho em folha, os craques adentraram ao gramado e começaram a brincar com a bola, a fazer firulas, matar no peito e rolar para o colega ao lado, tudo na maior intimidade com a pelota. Ai foi a gota d´água. Temi pela sorte do nosso humilde Central frente a adversários tão confiantes e fortes.

Olhava para os nossos craques com suas surradas camisas e calções encardidos, e já ficava com pena da lavada que iriam levar. Mas ai a partida teve início do jeito que sempre começava, com os visitantes “subindo a ladeira”. Vi também que a intimidade dos barra-cordenses com a bola não era tamanha assim. O lateral e o ponta direita, por exemplo, que corriam rente à torcida que ficava do lado da sombra, mostraram-se uns autênticos pernas-de-pau e logo caíram nas graças da torcida. No sentido pejorativo, é claro. E à medida que as brincadeiras se sucediam, seu pequeno futebol ficava menor ainda. Enquanto o isso, o Central ia marcando gol em cima de gol, enchendo a rede do nosso performático adversário.

Devo dizer que fui um tanto injusto com os nossos craques. Não confiei na sua competência tão largamente já demonstrada nos jogos realizados dentro e fora de casa. Afinal, o nosso craque maior, Chiquinho do Zé Pintor, era um centroavante de faro apuradíssimo para o gol. Com seus petardos indefensáveis, ia derrubando a meta adversária logo no primeiro tempo, e ampliando o placar ao lado do meia-atacante Bolfão. Os dois recebendo bolas açucaradas do meia-armador Albino. Por outro lado, o scratch barra-cordense via suas forças diminuírem a cada minuto que passava e já não conseguia mais atormentar o nosso goleiro como nos minutos iniciais da partida. O segundo tempo foi somente para confirmar a vitória e ampliar o placar conseguido na primeira metade do jogo. Caia no Honorato Gomes mais uma vítima do nosso inclinado campo de futebol de então. 

Lembro-me do resultado da partida como se ela tivesse acontecido hoje: 10 x 1. Os jogadores adversários que chegaram aqui contando tanta vantagem, voltaram para a sua terra mais humilhados que os brasileiros após sofrerem os 7 x 1 para a Alemanha. Outra lembrança que trago comigo daquelas tardes encantadoras de futebol era que as chuvas não nos davam trégua no inverno e caíam com intensidade logo na hora dos jogos. E nessas horas a maior parte da torcida procurava se abrigar nas casas humildes situadas na rua ao lado do campo de jogo. Casas humildes, mas, hospitaleiras, pois recebiam dezenas e dezenas de pessoas, a maioria desconhecidas para eles. E ainda nos serviam água quando pedíamos. Quem pratica atos tão bondosos nos dias de hoje? Somente no velho e bom Curador se podia ver tanta generosidade.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Diário de Um Náufrago (Capítulo X)



DINHEIRO, PRA QUE DINHEIRO? 
José Pedro Araújo

Somente ao chegar ao barraco verifiquei que quase todas as cédulas eram de cem dólares americanos. Os maços, juntos, continham cerca de sessenta delas, seis mil dólares no total. Uma boa quantia, mas, de pouca serventia ali. Ou de nenhuma serventia, melhor dizendo. Mas guardei-as em uma lata com tampa e a coloquei sobre uma pequena prateleira que havia feito próxima ao frechal. 
 
A visão daquele homem morto e sofrendo o ataque de abutres, fez-me refletir sobre a minha situação. Poderia ter se dado o mesmo comigo quando cai ao mar. Mas esse não era o desígnio de Deus. Pelo menos naquela hora. Antes, deu-me mais uma chance, uma sobrevida, mas não se esqueceu de colocar um inimigo de plantão para que eu lutasse por ela. Deu-me também de presente um ambiente luxuoso, mas de difícil sobrevivência, e muitos momentos para refletir sobre a minha vida, sobre o encaminhamento que dei a ela, desinteressado de quase tudo, principalmente das pessoas que me cercavam, ao pensar unicamente no trabalho e em viver dissolutamente. Deste modo, o consultório do meu analista era aquela praia sem saída. E o meu divã uma espreguiçadeira que eu mesmo havia feito para apreciar a passagem dos dias do alpendre coberto com material recolhido nas praias. Bom, tinha também o meu amigo Vincent, o palhacinho sorridente. Mas, desse andei um pouco distanciado nos últimos tempos. Quase não falava com ele.

Nos dias subsequentes ouvi barulho de helicópteros lá para o outro lado da ilha e corri até a praia para ver se algum deles passava novamente por ali. Até aviventei as letras do meu pedido de socorro para facilitar a identificação lá do alto, uma vez já estarem tão apagadas, mas eles não passaram nunca pelo lado da ilha que eu estava, a não ser na primeira vez, quando fui acordado por eles. E mesmo nesse momento, ao correr para fora, já estavam longe e por isso não me viram. Com os dias, esse movimento cessou. Talvez estivessem à procura do morto, o tal oriental que eu encontrara na praia. Mas logo desistiram.

Foi um choque para mim. Senti que havia perdido uma chance da sair dali, e talvez demorasse a me aparecer outra, ou nunca mais tivesse outra igual. E pensar que, pelo barulho do motor, aquele helicóptero voava tão baixo! Desesperei-me e passei o restante do dia jogado na minha enxerga imaginando como seria se estivesse lá fora, o resgate,o reencontro com a família, poder dar um beijo na minha mãe, essas coisas que a gente só valoriza quando sente que as perdeu.

No dia seguinte resolvi ir à luta. Agora era comigo, pois, se tivesse acordado um pouquinho mais cedo, teria tido a chance de sair dali. E resolvi encontrar um meio de fugir da ilha a qualquer custo. E só havia um, já sabia: pelo mar, utilizando um barco, ou qualquer coisa que flutuasse comigo em cima. Resolvi construir um. Uma pequena jangada. Felizmente, como já afirmei, havia muito material jogado pelas praias desprendido de embarcações que navegavam por aquelas águas.

Também já havia até preparado um rudimentar martelo de unha, não ficou uma coisa bonita de se ver, mas me servia eficientemente para extrair os pregos que encontrava pregados nas tábuas encontradas por mim. E já tinha um estoque grande deles, de todos os tamanhos. De forma que isso não seria um problema. Quanto a um objeto cortante, uma faca, um serrote, nada disso eu possuía. E, desse modo, a minha embarcação não sairia um primor. Mas, e daí, se não estava concorrendo em nenhum concurso de artes?

Agora vou explicitar o plano que eu tracei para sair da ilha. Como havia visto inúmeras ilhotas do lado contrário ao que me encontrava, uma infinidade delas, planejei escapar por lá. Navegaria de uma para outra, fazendo pequenas escalas para fugir das correntes mais fortes e das ondas mais volumosas, e assim chegar a um lugar habitável. Não era possível que entre tantas ilhotas não houvesse nenhuma com gente. Foi ai assim que coloquei em prática o meu plano e comecei a construir a minha nau. 

A falta de prática dificultava a minha empreitada e, assim, levei uma infinidade de dias para construir algo que pudesse se manter flutuando na flor da água. Depois, providenciei a calafetagem com aquele tipo de óleo quase em estado sólido, muito comum nas praias, mas que só servem para sujar os pés dos banhistas. Aparentemente tudo legal. Mas, depois de concluído, ficou mais parecido com uma banheira, o meu barco. As pontas de madeira desencontradas, umas maiores que as outras, deram um aspecto horrível à nau, mas, parecia que flutuaria, e isso era o que me bastava. Fiz mais de um remo, para o caso de perda de um de deles. Fiz quatro, na verdade. E fixei todos eles nas laterais da minha banheira, digo, da minha embarcação. Agora era só esperar pelo momento propício e me lançar ao mar com muita força e esperança de encontrar uma saída para a minha já demorada estada naquela ilha. Desde a passagem dos helicópteros eu estava com aquela ideia fixa de reagir àquela situação que já perdurava bastante.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Pequena História do Natal

Decoração do Teresina Shopping


 

José Pedro Araújo

O Natal é verdadeiramente uma festa cristã – e essa deve ser a sua verdadeira essência -, mas não é menos verdade que é também a festa do comércio, período em que os empresários vendem como em nenhuma outra época, momento para troca de presentes e de grande felicidade. Atestam os historiadores que o dia 25 de dezembro foi escolhido pelo Papa Júlio I, aí por volta do Século IV, para comemorar o nascimento de Jesus Cristo, transformando uma festa que nasceu pagã em um ato religioso. Inicialmente realizada para coincidir com a Saturnália dos romanos e com as festas germânicas e célticas do Solstício do Inverno, viu a igreja uma oportunidade de ouro para comemorar e divulgar o nascimento do Filho de Deus. E a figura do Papai Noel recaiu sobre uma personagem que, dizem, de fato existiu: o Bispo São Nicolau, nascido na Grécia no século III.

Transitando um pouco pela história, vamos encontrar que a fama de bom velhinho do bispo foi ganha quando ele ficou sabendo que certo cidadão da sua cidade, que possuía três filhas, por não ter condições de pagar o dote do casamento delas, resolveu vendê-las à medida que iam atingindo a idade própria para o casamento. Constrangido e penalizado com aquela situação, o tal velhinho foi ter naquela casa, incógnito, e arremessou pela janela uma pequena bolsa de couro cheia de moedas de ouro que caiu justamente sobre uma meia que havia sido posta para secar na lareira. Procedeu da mesma forma com a segunda filha. E o pai das moças, profundamente agradecido por aquele gesto humanitário, ficou na espreita para descobrir quem era o benfeitor que havia impedido que ele praticasse aquele ato que tanto lhe feria o coração. Descoberto a figura de São Nicolau, saiu ele a divulgar o nome desse generoso bom velhinho. Assim, por esse tempo, a imagem que se tinha era a de um velhinho vestido de bispo e não com as vestes em vermelho brilhante como hoje o conhecemos.  

Foram os holandeses, no século XVII, que levaram para os Estados Unidos a tradição de distribuir presentes para as crianças usando a lenda de São Nicolau (Sinter Klaas). Apropriando-se da deixa, dois escritores americanos se encarregaram de impulsionar a fama do bom velhinho, por eles chamado de Santa Claus. O primeiro, Washington Irving, em 1809, escreveu um livro em que enaltecia as qualidades de Papai Noel, um velhinho bonachão, que montava em um cavalo branco voador e arremessava presentes pelas chaminés. O segundo escritor - poeta e professor -, Clement Moore, em 1823, além de enaltecer ainda mais a aura mágica descrita e popularizada por Irving, trocou o cavalo de Papai Noel por um trenó puxado por renas voadoras.  

Mas a figura de Papai Noel, só foi de fato definida quando o desenhista, também americano, Thomas Nest, fez a primeira ilustração do bondoso velhinho descendo pela chaminé, mas ainda do tamanho de um duende, tal qual vinha sendo divulgado desde muito tempo. Somente anos mais tarde, a imagem foi mudando, crescendo, e ficando mais barriguda, com cabelo, barba e bigodes longos e brancos, e a aparecer no polo norte. Mas, o Papai Noel como nós conhecemos hoje, foi inspirado pelo artista Habdon Sundblon, que se inspirou em um velho vendedor aposentado para realizar uma campanha para a Coca-Cola em 1931.  

Em terras do Curador, o nosso Natal começou a ser comemorado de maneira simples e sem muita pompa. À falta de nozes e castanhas, do Panetone e do Peru de natal, as famílias se serviam de iguarias simples baseadas em produtos da terra, como o porco e a galinha caipira. Sem a iluminação feérica das grandes metrópoles, por nos faltar lâmpadas, e também energia elétrica, tínhamos que nos contentar com a luz dos candeeiros e, mais tarde, com a do potente Petromax. Assim, como realizar uma autentica ceia de natal? Com criatividade, alegria e muita devoção ao nascimento de Cristo Jesus, eu mesmo respondo.

Lembro-me, que quando criança, ficava maravilhado com os cartões de natal enviados para a minha família por alguns missionários americanos e canadenses. Mostravam paisagens belíssimas, com a neve cobrindo as casas e os vastos pinheirais, e com Papai Noel voando em seu trenó puxado por renas, cheio de presentes embrulhados em papel brilhante, amarrados por belíssimos e multicoloridos laços de fita. Os cartões vinham com mensagens impressas em inglês, em palavras para mim desconhecidas: Merry Christmas, Santa Claus, Christmas Tree, Jingle Bell, Candle, Candy Cane, Christmas Pudding, Stocking, Gift, Presents, Sleigh, Star, Light e Happy Holydays – tudo escrito com letras em vermelho e verde brilhante.

Na minha casa não tínhamos o hábito de realizar a ceia à meia noite. Seguíamos todos para a Igreja Cristã para participar de um culto especial, com a apresentação de um auto de natal, que muito nos emocionava. A árvore de natal, ao invés de um pinheiro, planta inexistente em nossas florestas, era substituída por um frondoso galho de pitombeira cheio de cachos com o fruto maduro (o enorme galho só era trazido no dia da festa, para manter as suas folhas vivas e brilhantes). O galho trazido era decorado com luzes e enfeites natalinos. Era uma festa belíssima, bem ensaiada e que, com o tempo, virou atração para a cidade inteira, ocasião em que a comunidade enchia o templo para assistir à linda apresentação que os membros da Igreja Cristã Evangélica de Presidente Dutra dedicavam anualmente aos seus concidadãos na noite de Natal.  

O Natal continua a ser, sim, uma festa cristã, onde as famílias se reúnem para louvar e festejar o nascimento de Jesus Cristo, o Filho de Deus. É também um período para reflexões e de redirecionamento das nossas vidas, substituindo tudo de ruim e mal feito que fizemos no ano que passou, por coisas novas e voltadas para o bem. Tempo para louvar Àquele que deu a Sua Própria vida para salvar os  pecadores e redirecionar o nosso futuro. Tempo, enfim, de Paz, Amor e Alegria no seio das famílias.

Feliz Natal a todos e Um Ano Novo Venturoso e Cheio de Grandes Realizações e Muita Paz no Coração!!!!!!!

  

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Diário de Um Náufrago (Capítulo IX)



O MAR ME PRESENTOU NOVAMENTE

José Pedro Araújo

Em um desses dias de total ensimesmamento, andava pela praia quando dei de cara com uma caixa de madeira bem trabalhada semi-enterrada na areia. Pelo estado dela, parecia já estar por ali há muito tempo, pois os fechos se apresentavam muito enferrujados, o que me forçou a quebrá-los para abri-la. Surpresa. Dentro da caixa comprida estava uma carabina que me pareceu muito bonita. Mas era antiga, daquelas prontas para um único tiro de cada vez. Junto dela, bem protegidos, uma caixa com uma boa quantidade de projéteis. Torci para ainda estarem em condições de serem usados. Fui tomado por uma alegria sem precedentes. Talvez a maior em todos os meus dias nesta ilha. Felizmente havia um manual de orientação de como montar o equipamento, pois eu nunca havia, até aquele momento, colocado as mãos em um objeto desses. E foi fácil montá-lo. Como também usá-lo. E, para a minha maior satisfação, ver que os projéteis estavam aptos ao pleno uso ainda. Em verdade, alguns poucos deles. A maioria não detonou quando tentei. Mesmo assim, em caso de um conflito armado contra o meu oponente agora... Bem, nem é bom pensar nisto.

 É certo que não sou um Robson Crusoé, personagem criado pelo inglês Daniel Dafoe, aquele que teve que inventar quase tudo para prover a sua sobrevivência na sua ilha deserta, pois os tempos são outros hoje, e o mar está cheio de embarcações que transportam toda a sorte de mercadoria que, algumas vezes, caem no mar por algum motivo. E o mar, como já disso, não gosta de ficar com coisas estranhas que lhe são jogadas e cospe tudo nas praias. Sobretudo as coisas que flutuam. Lança muitas coisas ruins, porcarias mesmo, mas, de vez em quando, premia às pessoas com algo de bom também. Não é só punição.

Uma coisa que muito me frustrou foi que quase não ouvia o ronco dos motores dos aviões por ali. E quando isso acontecia, eles passavam tão altos que não era possível vê-los. Mas, mesmo assim resolvi riscar na areia o tal pedido de socorro, o SOS. Desenhei letras grandes, de mais de três ou quadro metros cada uma, para o caso de alguém passar sobrevoando a área e olhar para baixo. Tive que refazer o pedido muitas vezes, pois, ora era apagado pela chuva, ora pelo vento que encobria tudo com areia nova e o fazia sumir. Não gerou nenhum efeito, mas, mesmo assim, continuei com a prática. Era a minha esperança, uma das poucas, e por isso precisava manter o pedido de socorro sempre visível.

Minhas cuecas(?) também já estavam em péssimo estado, e logo teria que andar nu pela praia, o que não me agradava. Passou a ser uma das minhas preocupações maiores a procura de roupas pelas praias. Se tinha de tudo na areia, por que não haveria roupas também? E logo a minha preocupação se transformou em fixação, o que me levou a procurar todos os dias por coisas que o mar traz e deixa pela praia.

Certo dia caminhava somente para dar cumprimento ao meu expediente, espingarda às costas, preparado para qualquer ocorrência, quando avistei uma revoada de pássaros. Eram de uma espécie denominada gaivotas-rapineiras. E logo descobri o motivo de tal festança. Havia algo caído sobre a areia, um corpo, foi o que descobri logo de imediato. E um corpo humano, isso identifiquei depois de me aproximar mais. Confesso que fiquei em estado de choque. Nunca havia presenciado uma cena assim, naturalmente, e ver uma criatura ser literalmente devorada por pássaros, não era o que eu gostaria de presenciar naquela manhã. Ou em qualquer outra da minha atribulada vida.

Mas, enfim, era um corpo humano, de homem, e não estava ali há muito tempo, pois apenas parte do rosto, os olhos, principalmente, já haviam sido objeto de repastos das aves. Também ainda não estava em estado de putrefação, o que me levou a intuir que o mar o depositara ali momentos antes que eu o encontrasse.

Cheio de escrúpulos me aproximei do cadáver, ocasião em que os abutres levantaram voo a contragosto, soltando estridentes gritos de protesto, e ficaram a sobrevoar o local como a esperar pela minha partida. O homem morto vestia-se decentemente, e possuía quase a mesma compleição física que eu, pelo que pude ver em decorrência de o corpo se achar em posição decúbito lateral, mas com as pernas um pouco dobradas em direção às nádegas. Ao verificar melhor o corpo, apesar de já não contar com os olhos na cavidade ocular, depreendi que tinha feições orientais, ideia corroborada pelo rosto arredondado e pelos cabelos escuros e lisos. E logo uma ideia me ocorreu: vou sepultar o pobre homem, a despeito do estado de beligerância que identificava naquelas aves que continuavam sobrevoando o local. E assim procurei fazer, sem perda de tempo.

De posse de um pedaço de madeira que possivelmente adviera de alguma embarcação, cavei uma cova rasa, um pouco fora da linha de maré. Conclusão fácil ao observar a pequena elevação que a água sempre deixa na areia, marcando o ponto até aonde vai quando em seus movimentos de maré alta. Depois, sofri um pouco para arrastar o corpo até lá, fato que me fez suar bastante e que me deixou muito cansado. Era uma coisa para corrigir também, anotei mentalmente.

E foi nesse trajeto, quando removia o corpo do infeliz náufrago, que pensei em lhe pedir por empréstimo suas vestimentas, vez que se achavam em ótima situação, e ele não iria mais precisar delas. E lá chegando comecei a desvestir o cadáver, e ai tive outra surpresa: o homem trazia um cinto oculto, preso na altura da cintura. Retirei-o e vi que continha alguns bons maços de cédulas. Eram dólares americanos. Não levava nenhuma carteira consigo, mas deixava a impressão que uma tinha estado em um deles - pois se achava desabotoado – mas agora devia está em algum lugar na água.

Ainda trazia um fino cordão de outro atado ao pescoço, com uma pequena medalha na qual estavam cunhadas as iniciais J.W. E um anel no dedo anular, grande, vistoso, e com uma pedra vermelha incrustada, provavelmente um rubi. As roupas - e o dinheiro - ficaram comigo. Quanto ao pequeno colar, atei-o em uma pequena cruz de madeira que eu finque no solo junto ao pobre túmulo. E o anel ficou no dedo intumescido do morto.

Não preciso dizer que a cueca de seda, comprida, quase um calção, achei que me seria bem mais útil, e levei junto com o restante das roupas para a minha choupana para lavar tudo em muitas águas.  Precisava retirar o cheiro comum de cadáver que elas continham.

Antes de partir, fiz uma oração contrita em favor do morto, pedindo pela sua família, tão aflita quanto a minha naquela hora. Sobre mim, um céu límpido, de um azul quase escuro, com filetes de nuvens espalhadas como fiapos de algodão. Mas, nada dos pássaros. Haviam desistido para procurar outros meios de se alimentar. Mostraram-se muito mais práticos do que o ser humano: não quebravam a cabeça com algo que já consideravam perdido.  Voltei com o produto do meu achado e a me perguntar: mas, afinal, pra que dinheiro?