sábado, 28 de janeiro de 2017

O FRADE ALEMÃO

Steve McQuen no filme Fugindo do Inferno



José Pedro Araújo

Lá pelos idos dos sessenta apareceu no Curador um padre capucho originário das terras geladas da Alemanha. Boa pinta, louro como a maioria dos seus conterrâneos, alto e pouco dedicado ao mister religioso, até onde eu sei, gostava mesmo era de uma motocicleta, provavelmente uma Zundapp KS, muito utilizada pelos alemães durante os últimos anos da segunda grande guerra. Barulhenta a mais não poder, a velha moto era o brinquedo predileto do frade louro. Já velha, a moto pedia muita manutenção também, e por isso o religioso andava sempre trajando um velho macacão verde escuro e muito folgado, todo sujo de graxa. Nesses dias em que se dedicava ao serviço mecânico, ele descia a Rua Grande, ainda sem calçamento e muito poeirenta, assuntando a garotada com a barulheira ensurdecedora que a máquina em teste fazia. O conjunto esquisito também atraia a cachorrada atrás de si. O velho macacão folgado enchia-se de vento e o transformava em algo igual a um boneco de propaganda inflável, e isso fazia com que os cães corressem atrás dele latindo e aumentando o barulho que tomava conta da cidade modorrenta à sua passagem. Foi a primeira vez que eu vi alguém usando aqueles óculos de motociclista/aviador e o capacete de couro que mal segura seus cabelos louros e esvoaçantes.
Aficionado pelo esporte sobre rodas, dizia-se que na última paróquia em que serviu, a de Barra do Corda, ele passara vinte e quatro horas montado sobre o selim de uma bicicleta rodando na pista do aeroporto da cidade. Recorde nunca superado por ninguém na cidade. Mas o padre chegou à Presidente Dutra precedido de outra fama: a de gostar imensamente de um rabo-de-saia. Talvez por essa razão, as missas matinais rezadas por ele passaram a receber um número sempre crescente de jovens mulheres durante as suas celebrações.
Para uma cidadezinha remota e quase sem novidades como a nossa, o assunto passou a ser tratado em todas as rodas de conversa. E logo, o nome de algumas das jovens mais carolas passou a circular como mais uma conquista do padreco. Era voz corrente que o homem era um terror e não dispensava nada. Falou fino, vestiu saia, ele se interessava pelo assunto. Havia acontecido isso em Grajaú e Barra do Corda, onde deixara uma leva de jovens mulheres saudosas e chorosas quando foi transferido. E agora o velho Curador entrava na sua alça de mira.
Duas jovens já um pouco entradas na idade, mas ainda no viço da idade em amadurecimento, frequências constantes nas missas matinais, passaram a ser alvo os bisbilhoteiros de plantão. E isso se transformou em insidiosa fofoca em toda a cidade. Filhas de uma viúva muito conhecida e respeitada, a situação das moças ficou insustentável quando o religioso foi transferido abruptamente para São Luís. Para muitos, foi apenas a confirmação de que o padre havia feito estrago entre as fiéis da Paróquia de São Sebastião. Não restou alternativa às jovens a não ser partir também, abandonando a cidade que tanto amavam.
Do padre louro não tivemos mais notícias. Deve ter encontrado campo mais fértil na capital, cidade com uma população muitas vezes maior e também menos preconceituosa. A fama de namorador incorrigível não pode ser confirmada. Mas, o enrosco diário do padre com a sua máquina terrível, isso ficou registrado nos anais do município. Por sua vez, a rápida  transferência do religioso para a capital apenas pouco tempo depois da sua chegada ao Curador, serviu de elemento confirmador para os maldosos que costumam ver verdades onde só existem indícios. À falta de novidades diárias nas pequenas cidades interioranas, qualquer suspeita pode se transformar em verdade incontestável na mente dos desocupados que pululam nesses lugares, com tempo ocioso de sobra.
Essa história me veio à mente após assistir a um antigo filme de guerra com o louro Steve McQueen protagonizando cenas memoráveis sobre uma velha e barulhenta motocicleta. Mais do que as lembranças de cenas picantes acontecidas no meu torrão, o que me traz à mente tantas histórias é o ambiente em que elas se davam: as ruas sem calçamento, a poeira vermelha das ruas, a simplicidade do seu povo, tudo isso povoa a minha mente e trazem de volta muitos acontecidos.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Diário de Um Náufrago (Capítulo XIV)



NO OLHO DE UM FURACÃO
José Pedro Araújo
A tempestade varria tudo agora e parecia se mover de um lado para o outro da ilha, apontando a sua força tormentosa para onde ficava exatamente a minha choça. Furiosa, desembestada, já estava destruindo tudo, levando de roldão o que encontrava pelo caminho. Deste modo, quase não consigo sair da água. Mas, cheguei à terra firme e fui acossado pela areia em suspensão que, levantada do chão, e formando densa nuvem, cegava-me.
Um pavor crescente tomou conta de mim ao intuir que aquilo, de fato, era só o começo de uma tempestade tropical. No mínimo. Pois poderia se transformar rapidamente em algo pior: um ciclone, um tufão, o diabo a quatro. Não tinha tempo a perder e corri em busca de abrigo. Não estava de plano a morrer naquela ilha deserta. Não mesmo. Não havia lutado até agora para perecer assim. Não havia tentando levar uma vida quase normal ali, apesar da aflição e do desânimo que se abatia sobre mim quando a noite chegava, e que procurava superar afirmando para mim mesmo que tiraria tudo de letra, para sucumbir vítima de um fenômeno natural! Sem testemunhas que pudessem levar notícia aos meus sobre o meu desaparecimento, nunca. Nunca! Sempre pensei em ter os meus amigos e familiares em volta de mim, degustando o último cafezinho na minha presença. Não isso. Não isso!
A ventania, por vezes, quase me elevava do chão, e me esfregava, torcia, retorcia, deitava-me na terra quando parecia que me elevaria ao ar a qualquer instante. Estava me maltratando. Foi um tempo que mais parecia uma eternidade o que levei para chegar até a borda da mata. Mas lá a calmaria passava longe também. As árvores balançavam loucamente e algumas mais finas já estavam deitadas ao solo, tombadas e quase arrancadas pela raiz. Internei-me na mata. Precisava de uma proteção maior contra aquele fenômeno mortal.
Procurava por algo que me parecesse mais resistente, uma árvore grossa o bastante para se manter de pé, uma grande rocha, e melhor, uma pequena caverna. Este abrigo, agora o meu sonho de posse principal, sabia ser algo impossível de obter. E sem algo que me mantivesse atado ao tronco de uma árvore, sabia serem as minhas chances de escapar com vida remotíssima. Mas lutaria por isso. Precisava lutar por ela.
Embrenhei-me naquela selva maltratada, enlameada, desfolhada. Ali havia mais condições de defesa, mas via que o tempo piorava demais. Parecia até que eu estava inserido exatamente no olho do furacão. Conclui que isso que me afligia era, de fato, um furacão. Não havia outra explicação. Aliás, preciso fazer uma pausa aqui para uma explicação.
Há dias vinha imaginando em qual região do mundo se situava a minha ilha. E não tive muito trabalho para chegar a uma resposta que me parecia correta. Era certo que o navio de cruzeiro que me transportava navegava pela Ásia naquele momento, à altura das Filipinas. E, se eu estava certo mesmo, digo isso porque era noite quando me vi jogado ao mar, poderia está em uma das milhares de ilhas que existiam naquela parte do mundo. E o pior: muitas dela eram completamente desertas.
E agora a pior constatação: a natureza nesta região era instável, estava sujeita a toda sorte de problemas naturais, a começar pelas chuvas tropicais intensas e até mesmo aos furacões tenebrosos e mortais. E isso agora eu constatava. E devo acrescentar: era uma coisa horripilante, apavorante mesmo, se achar no centro de um desses fenômenos.
As árvores, como já afirmei, serviam-me de anteparo enquanto procurava um local mais seguro, se é que haveria algum por ali. Mas havia, e a prova disso é que ainda estava vivo, mesmo depois de tantos açoites, tanta areia nos olhos, tanto medo distribuído no corpo todo, mas tanta determinação também que me fazia escapar em meio ao estardalhaço daquele fenômeno estarrecedor. E como não estava enxergando um palmo à minha frente, trombei com algo que me pareceu extremamente duro, imexível: era uma grande rocha, ou um paredão rochoso. E logo senti uma diminuição muito grande na força do vento, mas ainda era grande a quantidade de pedaços de madeira, folhas e areia arremessados sobre mim ou ao meu entorno. A chuva, em especial, desabava a cântaros sobre mim. Tateando o local observei que tinha uma grande pedra a minha frente, algo que passava em muito da minha altura. Então procurei encontrar uma abertura qualquer nela que me pudesse fornecer abrigo, mas não encontrei de imediato. Mas, ao me postar por trás dela observei que me deu relativa proteção, já não sofria mais os efeitos da ventania como antes. Cai sentado no solo arenoso e esperei.
Não acho que o furacão que se abatia sobre a região fosse de uma categoria acima do nível dois, pois, caso contrário, não estaria aqui relatando a minha história. Podia até ser inferior, ou mesmo uma simples tempestade tropical. Mas era apavorante e parecia não ter hora para acabar. Fiquei ali por um tempo impreciso, mas, caso ainda tivesse comigo o meu relógio Tag Heur, que havia lançado fora assim que dei por mim naquela ilha por se achar já imprestável, ele teria marcado pelo menos seis horas de desespero, chuvas, ventos, e medo, muito medo. E quando a tempestade abrandou, ainda passei um bom tempo encostado naquela pedra salvadora, aproveitando para respirar e para conter a minha angústia.
Como estava com o rosto colado na pedra para evitar ser atingido por algum objeto voador, não vi logo que a escuridão havia dado lugar a uma claridade mortiça que ia aumentando à medida que a chuva ia diminuindo e o vento amainando. Minhas pernas também estavam doloridas e muito pesadas, e quando pensei em retroceder e me descolar da parede pedregosa, cai sentado na terra novamente, não pude mais me sustentar sobre elas. E fiquei assim por um bom tempo, chorando e agradecendo aos céus por ter sobrevivido a mais uma provação naqueles dias.
Trêmulo, depois de algum tempo sentado, levantei-me e comecei a me afastar dali. Entendia que o pior já havia passado, mas a chuva ainda persistia, apesar de agora mais amena. Sai em busca do meu barraco que, esperava, ainda estivesse de pé. Caminhava tropegamente, as pernas doíam intensamente, mas mesmo assim prossegui e logo mais já estava caminhando pela faixa de areia. Ao meu redor estava tudo devastado. O paraíso havia sido quase que completamente destruído e a praia arrasada e reduzida a uma faixa mínima, uma vez que o mar ainda se encontrava com o nível muito alto.
O que encontrava pelo caminho era destruição, galhos de árvores, lama, muita lama encobrindo a areia antes tão clara e limpa. Porquanto avançasse lentamente iam me diminuindo as esperanças de encontrar a minha rude choupana em pé ainda, pois tudo no meu caminho era devastação, sujeira e tristeza. E ao chegar ao local do casebre, vi que lá não mais existia nada. Somente o espaço vazio e revirado. Tudo fora derrubado e lançado para longe. As árvores maiores ainda estavam lá, de pé, mas pareciam agredidas por algo forte e duro que lhe havia açoitado os galhos, tal o estado em estes se achavam, desfolhados e quase todos quebrados. As menores, os arbustos, haviam sofrido mais, e a maioria havia sido arrancado pelas raízes e jogados longe, amontoados uns sobre os outros. Testemunhava uma devastação total. Não possuía mais um lugar para chamar de morada, nem roupa, nem comida, nem livros, nada que aliviasse o meu sofrimento. E isso me deixou mais abatido do que no dia em aqui cheguei. Estava novamente sem nada. Toda a estrutura que eu havia montado desabara, fora destruída em questão de segundos. E o pior. Estava sem fogo novamente. O furacão apagara a lamparina, o meu fogo permanentemente aceso. E não somente isto, levara-a para longe.
Fiquei ali sem saber o que fazer, que decisão tomar. Por horas. Mas, o sol, como se mostrasse para mim que sempre podemos contar com a esperança de momentos melhores, teimava em romper a barreira de nuvens e já lançava os primeiros raios sobre a terra arrasada. E, devo confessar, lançou sobre mim um fio de esperança também. Sempre existe a possibilidade de um recomeço, pensei. Aqueles raios ainda tenros de sol me mostravam isso.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Os Ciganos no Curador




José Pedro Araújo

Situado em uma encruzilhada rodoviária, o Curador sempre foi corredor de passagem para quem transita para muitas partes do estado maranhense. Isso desde quando as rodovias eram somente longilíneos riscos na mata cerrada, caminhos para tropas de burro ou, no máximo, para carros-de-boi. E em meio às tropeadas, também passavam por aqui os ciganos. Geralmente, componentes daqueles grupos paupérrimos e esfarrapados vivam eles do que ganhavam as mulheres com a leitura da sorte dos nativos, mas, e principalmente, dos negócios que efetuavam com a troca de animais. Cláusula pétrea do escambo: só realizavam o negócio se houvesse uma torna em seu favor. Pois era dali que retiravam o sustento.

Quando menino fui testemunha dos muitos grupos de miseráveis e maltrapilhos ciganos que acampavam na entrada da cidade, ao relento, ao mais das vezes sob a copa de árvores. E vinham eles precedidos de má fama. Diziam-se que roubavam crianças, e aí as donas de casa ficavam alerta e apertavam o cerco aos filhos ainda pequenos. Depois, diziam-se que roubavam tudo que se achasse à altura das mãos e por onde passavam. Talvez haja grande excesso de preconceito nessas afirmações, mas, o certo é que eles formavam uma trupe amedrontadora, sobretudo quando cruzavam com outro grupo adversário. Aí a possibilidade de haver confronto era grande, pois sempre haviam rixas a serem resolvidas. E não foram poucas as vezes que do embate alguns cadáveres restaram caídos no pó das estradas.

Para nós, pré-adolescentes, havia outra fama a ser conferida. Dizia-se à boca pequena que as meninas ciganas faziam a sua iniciação sexual ainda bem jovens, e que se ofereciam a troco de qualquer presente. Bem, nunca constatei isso. Mas alguns colegas contavam - de ouvir dizer, é certo - que o fulano de tal havia espalhado que havia se envolvido com uma ciganinha simpática e oferecida nas margens de um riacho em Tuntum quando o seu grupo de viandantes passou por aquela cidade.

Mas não existem apenas bandos de ciganos maltrapilhos. Existem aqueles grupos mais ricos, que transitam em uma frota de veículos automotores, alguns deles em carros de última geração. Estes, acomodam-se também em tendas de grande estilo, lindas de se ver, algumas tão grandes que possuem até mesmo divisórias internas e alpendre.  Do mesmo modo, existem ciganos ricos e semissedentários, que desenvolvem atividades lucrativas e possuem endereços fixos. A história antiga já apontava que em bairros do Rio de Janeiro como o da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, por exemplo, moravam muitas famílias ciganas. E ainda hoje existem muitos deles abastados e que residem na cidade, como de resto em muitas outras pelo Brasil afora.

Mas eu quero aqui me reportar a um grupo nômade que transitiva por esse Brasil imenso com conforto e a bordo de uma moderna frota de veículos. Isso se deu lá pelo fim dos anos sessenta, quando eu ainda residia permanentemente na cidade. Naquele tempo a parte de baixo da Praça do Mercado era um grande vazio e local em que os circos se estabeleciam. Foi lá também que a comitiva de ciganos bem postados na vida ergueu as suas tendas vistosas e coloridas. Logo viraram atração pública. Eu, que na época cursava o ginásio no Colégio Presidente Dutra, a poucos passos dali, também matava a minha curiosidade todos os dias em visitas àquele local. Mas havia outra razão para sempre passar por lá. E isso podia acontecer no horário de ir para o colégio, à noite, mas também em outras horas do dia. A razão da minha atração era um par de moças, das mais lindas que eu havia visto até então. Até parecia que a Gigliola Cinquetti, a Marilyn Monroe, ou mesmo a Audrey Hapburn haviam desembarcado na cidade.

A trupe era composta por ciganos legítimos, daqueles originários de países como a Hungria ou a Bulgária, a julgar pelo aspecto dos homens, dos trajes excêntricos e da fala com forte sotaque estrangeiro. E as duas princesas eram filhas do chefe daquele grupo que negociava com produtos à base de cobre, joias e semijoias finas. Era dali que eles tiravam o sustento. Mas as mulheres também faziam a leitura das mãos, praticavam a dadomancia ou jogavam runas e ganhavam o próprio dinheirinho, como já é praxe no meio em que vivem. E como se tratasse de mulheres finas, bem vestidas e perfumadas, não precisavam sair pela rua em busca de clientes. Permaneciam nas tendas e recebiam uma vasta clientela interessada em conhecer o seu futuro, mas também em matar a curiosidade de conhecer in loco a razão de tanta euforia na cidade.

As duas moças, como já falei, eram lindas de viver. E apesar de irmãs, uma era bem alva, olhos claros, e a outra possuía a pela amorenada, cabelos bem escuros e olhos amendoados. Não dava para saber qual era a mais bonita. Ou melhor, dava. E isso por uma razão simples: o galã da cidade, Remy Soares, fez a corte a mais alva. E dizem que chegou a namorar com ela. Remy era também um rapaz bonito, rico, e muito articulado, que veio depois a ser um dos maiores líderes políticos da terra, sobre quem já escrevi um longo texto e o publiquei aqui nesse espaço. E em sendo assim, a inveja que se abateu sobre todos nós transformou a sua escolhida na mais bonita das duas moças. A disputa foi resolvida simplesmente assim. A mais alva era a mais bonita. Pronto.

E então, as histórias mais criativas começaram a circular pela cidade. Algumas pessoas mais bem informadas afirmavam que as duas moças, juntamente com os pais, foram recebidos pelo casal Salomão Soares e dona Zilda Soares em um lauto jantar na sua bela e confortável residência. O casal de anfitriões era considerado o mais rico da cidade, e a casa de morada que habitavam a mais chique daquele tempo. Daí ter sido assunto mais que tratado nas rodas de conversa. Afirmam também que a eleita pelo jovem conterrâneo recebera de presente uma moderna vitrola (chamávamos radiola). Afirmavam, por fim, que o galã ficou muito triste quando as moças se foram, e que chegara até a propor uma relação mais firme com a sua eleita. Mas, fora alertado que quem se unia a um dos membros daquela família teria que seguir com o grupo, morar com eles e viver da mesma forma que eles. E isso fez com que o rapaz refluísse do seu propósito. Mesmo com grande tristeza instalada no coração.

Bem, deixando para lá essas divagações, posso afirmar mais uma vez que as moças eram de incomparável beleza, altas, esguias, e se apresentavam sempre belas e perfumadas, vestindo-se com aqueles característicos trajes que somente víamos nas telas de cinema: vestimentas com muitos adereços dourados e sapatos belos e encimados por fivelas também douradas. É tudo o que eu me lembro agora, decorridos tantos anos. Deixaram saudade quando foram-se embora. E para uma cidadezinha sem grandes novidades, deixaram um vazio no largo do mercado, até que o próximo circo ali veio se estabelecer e trouxe as suas artistas para alegrar o público saudoso.

Agora, contudo, estávamos mais exigentes quanto à beleza e a elegância das nossas musas. Não seria qualquer trapezista ou partner de palhaço que iria cair no nosso gosto. Não! Teria que ser bela, vestir-se elegantemente e despejar simpatia a mãos cheias como fizeram as duas ciganas mais belas que o sol do Curador já banhou com seus raios luminosos. Se existiam outras moças naquele grupo? Existiam, sim. Muitas outras, até certo ponto belas também, mas não me recordo de nenhuma delas.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Diário de Um Náufrago (Capítulo XIII)



AO MAR PELA SEGUNDA VEZ
José Pedro Araújo

Passou-se mais de uma semana, e nada mais aconteceu. Foram dias calmos, no princípio, com chuvaradas no fim da tarde, mas algo me dizia que estava para acontecer algo que me tiraria daquela normalidade. Nesses dias aproveitei para por a minha leitura em dia. E quase devorei todo o livro do meu conterrâneo, Jorge Amado. Só não o fiz, porque intercalei a sua leitura com o novo projeto para um barco, que ia rabiscando com um pedaço de carvão em algumas folhas de papel amarelado que arranquei de um dos livros já lidos. No final de alguns dias, já podia dormir mais tranquilo, mesmo sabendo que o meu inimigo poderia me surpreender, pois devia esperar que eu baixasse a guarda. Mas, nem isso me fez sair do meu normal. Não, eu não estava desistindo de lutar. Talvez estivesse me acostumando a viver naquela situação de constante perigo.
Tenho consciência de que reside exatamente ai as grandes oportunidades de sermos pegos desprevenidos. Quando somos tomados pela soberba e nos achamos superior ao nosso inimigo, o perigo é imenso. Sabia disso. Mas, algo me dizia que o meu inimigo havia ficado desapontado comigo. Pois eu poderia ter feito algo contra ele quando o peguei pelas costas, mas não o fiz. E ele certamente estaria pesando isso. Por mais cruel ou covarde que fosse.
Hoje comecei a construir o meu novo barco. Resolvi desenvolver o meu projeto rabiscado e o fiz de forma acelerada. Terá a forma de uma jangada. Ficará mais leve, mais fácil de fazer e não precisará que me preocupe se fará água ou não. A lamentar apenas o fato de não ter as ferramentas adequadas: um serrote, uma pua ou uma plaina, algo que me permitisse deixá-lo com melhor acabamento. Mas, não havia de ser nada. Iria ficar bom assim mesmo, com base no que fiz de errado no outro e que evitarei fazer nele. Teria dois pisos de tábuas, um sobre o outro, e, separando os dois, três longarinas postas no sentido longitudinal para fixar bem os dois tabuados e permitir que a água passe pelo meio deles, diminuindo a resistência e facilitando a navegação.
Enquanto trabalhava na construção do barco observei que o tempo estava muito esquisito, com as águas um pouco mais quentes do que o normal, apesar da umidade reinante ser muito alta. Havia também uma espécie de calmaria muito acentuada, e como já disse acima, senti que algo de ruim estaria para acontecer. Aumentei o ritmo dos trabalhos, de modo que a minha nova nau estava ficando pronta rapidamente. Estava gostando do que fazia, mas, intuitivamente, achava que precisa terminar logo com aquilo. De outro modo, algo me dizia que o meu inimigo me observava, porquanto esperava uma chance de me derrotar. Não tinha dúvidas disso. E ele também sabia o que eu estava planejando.
Talvez fosse isso o que me preocupava no momento. Ou seria aquele tempo parado e de brisa morna, feio e desprovido de alegria, apesar de o sol brilhar tão intensamente? Tempo que mais se parecia com um fruto amadurecido antes do tempo por meios inventados, mas sem aquele gosto divino que têm quando ficam no ponto através dos seus próprios meios? Não sei, talvez fosse isso. O que me desagradava é que eu já estava acostumado à vivacidade do dia naquelas paragens desconhecidas até pouco tempo, na luminosidade fulgurante daquele ambiente paradisíaco, no cantar alegre dos pássaros que agora se achavam mudos.
Pronto, terminei. E fiz uma bela obra diante dos meios de que dispunha. Arrematei tudo com um jiralzinho de tábua corrida, elevado do piso da jangada cerca de oitenta centímetros. Precisava dele para acondicionar as coisas que levaria comigo na travessia. E terminado a obra, não fiz como da outra vez, não a mantive encostada por dias até que me decidisse partir. Ao contrário, passei a praticar com ela por horas a fio. Precisava melhorar a minha condição de remador, aprender a manobrar a minha criação, exercitar os meus braços, praticar, praticar, praticar e... praticar mais, para me aprimorar no ofício. E o fiz por muitos dias até achar que estava no ponto. Treinei até mesmo debaixo de chuva, sob o sol mortiço daqueles dias infindos, sob calor intenso e naquela água morna, meio choca. E, nesse meio tempo, aquelas condições climáticas que já noticiei somente pioraram. E as minhas preocupações aumentaram na mesma proporção também. Acho que me baseava naquela máxima que diz que tempo parado demais, tempo de completa calmaria, antecede a tempestades.
E foi nessas condições que me lancei ao mar pela segunda vez. Como a navegabilidade da minha nau era melhor que a da anterior, demorei-me pouco tempo até chegar ao velho navio ancorado na areia da praia. E o contornei sem maiores problemas, passando-lhe ao largo. Também foi fácil fazer a jangada embicar para o lado que eu precisava ao chegar à ponta da ilha, avançando com velocidade para o ponto de travessia que eu havia escolhido como o ideal. Ao chegar nesse ponto já ia observando detidamente a costa para não ser surpreendido pelo meu inimigo, e deixei a arma de fogo atada ao pequeno mastro que sustinha o meu jirau, presa apenas por um laço facilmente desatável. Mas não vi nada. O que observei foi a mudança brusca das condições de navegabilidade.
Vi foi o aparecimento do vento que andava meio escasso, mas que começou a soprar com força, agitando a água e fazendo a minha embarcação balançar com intensidade crescente. Ao mesmo tempo, nuvens pesadas surgiram como por encanto e grossas bagas de chuva começaram a despencar  do céu provocando ligeiras perfurações na água do mar no ponto que caiam, provocando um tchum, tchum  incessante e barulhento. Até pareciam pequenas pedras atiradas de alturas inimagináveis, tal o barulho que provocavam ao se chocarem com o líquido salgado.
Não tardou e o tempo já estava imprestável à navegação. Não era mais uma chuva o que caia sobre mim, era uma tromba d’água, e o vento, tão sumido naqueles últimos dias, passou a me açoitar doidamente tirando o controle de navegação e ameaçando me levar para mar alto. Ou para lugar pior: o fundo do oceano.
Foi nessa hora que eu entendi que o mar não estava para peixe ou, mais precisamente, para a navegação. Tive que abortar a ideia e abandonar a minha segunda embarcação. A essa altura a ventania chegou a quase me arrancar de sobre a jangada e foi nessa hora que eu resolvi  que não dava para continuar e saltei na água revolta. Ondas grandes e movimentadas quase me engoliram.  Menos mal que o vento soprava no sentido da faixa de areia e empurrava as ondas para lá.  Mesmo assim, vi-me engolfado pela água tormentosa e, a muito custo, nadei até a praia e corri à procura de abrigo. Não tive tempo de salvar nada, nenhum dos meus pertences, preocupava-me apenas com a possibilidade de perecer naquele mar revolto. Perdi tudo que havia juntado naqueles dias, e só não perdi toda a roupa porque estava vestido com a minha indumentária especial, aquela preparada para a minha partida e que era a mesma que eu havia trazido comigo. O resto foi tudo para o beleléu. Comida, arma, mala com outras coisas, inclusive alguns livros que pensava em usar caso o meu estágio em outra ilha fosse prolongado. O mar havia tomado de volta o que era seu. Estava pobre novamente, e lutando para sobreviver contra o que parecia ser uma tempestade tropical ou, na pior das hipóteses, um furacão.