quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Praia da Pedra do Sal e o Misterioso Subterrâneo dos Jesuítas

Praia da Pedra do Sal (Fotografia extraída de roteirourbano.com)



Reinaldo Coutinho

Escritor e Consultor Ambiental

Dizem alguns pesquisadores que há 3.000 anos os intrépidos fenícios descobriram as terras piauienses, ao chegarem à praia da Pedra do Sal, na Ilha Grande de Santa Isabel, no município litorâneo de Parnaíba. Localizada cerca de 18 km ao norte da cidade de Parnaíba, a praia alia inquestionável beleza natural a incríveis lendas e fenômenos inexplicáveis. É um ambiente místico e revelador...

A exuberante praia tem sua monotonia agradavelmente quebrada por um monumental afloramento granítico em cerca de 3.000 metros quadrados de área, que se destaca da planície aluvionar recente. Muitas porções deste maciço ígneo se desagregaram do corpo principal por erosão, constituindo enormes e belíssimos matacões, que se espalham pela orla. Este aglomerado caótico divide a praia em duas partes e propicia uma feição típica e inigualável naquele prodígio da natureza, decantado por apaixonados poetas. As porções d’água salpicadas pelas ondas, ao preencherem pequenas concavidades da rocha, lentamente evaporam, deixando uma delgada camada de sal, origem da denominação da praia.

            Há um intrigante mistério na Pedra do Sal que evoca antigas e misteriosas civilizações ou, para outros, resquícios da presença jesuítica na região. Trata-se do enigmático Buraco do Djalma, situado ao lado dos matacões. Consta na tradição popular recente que no início dos anos 1950 os raros pescadores residentes nas proximidades presenciaram uma série de inusitados acontecimentos. Vários deles foram contratados por dois senhores da cidade para uma estranha obra: escavar um ponto predeterminado entre algumas pedras. Os empreiteiros eram Cândido (advogado) e Valdemar (Comerciante).

O local da misteriosa escavação foi totalmente cercado por lona e madeira, para não dar margem a observações ocasionais de curiosos. Foi então escavado um túnel de cerca de 10 metros de profundidade e que, a certo ponto, se bifurcava. Na verdade, parece que eles estavam mesmo a desentulhar uma antiga e obstruída rede de subterrâneos artificiais construídos sabe-se lá por quem ou em que época.

Tudo concernente às escavações se passava no mais absoluto sigilo e cercado de segurança. O que procuravam tão avidamente os dois empreiteiros, sob o véu de tantos segredos e árduo trabalho? Nada era explicado aos humildes trabalhadores, que tratavam apenas de executar suas tarefas e receber seus proventos. O local ficou conhecido como Subterrâneo dos Jesuítas ou Buraco do Djalma. Adiante veremos o porquê destes nomes.

As tradições confusas sobre o caso nos levaram a procurar, em fevereiro de 1999, alguma testemunha ocular da escavação. Não foi muito difícil uma pista pelos barzinhos da praia. Ouvimos uma referência a um pescador conhecido pelo apelativo de Seu Mela. Morador do local, não foi difícil encontrar o Sr. Raimundo Roberto da Costa, um caboclo inibido e de pouca fala, de uns 60 anos naquela época. Mesmo sem uma clara noção da época do ocorrido, Seu Mela nos forneceu interessantes dados sobre o mistério do subterrâneo. Explicou-nos que ele e alguns companheiros, contratados por Valdemar e Cândido, quebravam pedras com marretas e explosivos, retirando seus pedaços e areia para a superfície através de baldes.

O mais estranho de tudo é que vez por outra os dois chefes mandavam os trabalhadores saírem do túnel e ficavam a sós lá embaixo. Ninguém sabia explicar o que faziam ou se recolhiam algo nestes momentos. As especulações são variadíssimas e desencontradas. É evidente que, para a mentalidade simples e limitada dos pescadores simples da região, tratava-se de uma botija de tesouro! Ou seria mesmo?

Homem simples e de pobre expressão descritiva, Seu Mela teve dificuldades de nos explicar em que consistia o túnel e o que por lá realmente se passava. Mas conseguimos entender que o trabalho efetuado era mesmo a desobstrução de um antigo subterrâneo artificial, totalmente arruinado. As galerias possuíam altura suficiente para um homem em pé e cerca de um metro de largura. O pescador nos afirmou que ali havia paredes feitas com cimento, o que pode livremente ser entendido talvez por pedras e argamassa.

O Sr. Acredita que seus dois patrões descobriram mesmo algo de valor ali embaixo?- Indagamos ao pescador.

- Acho que sim, pois gastaram muito dinheiro nas escavações. Os trabalhos duraram muitos meses. Não lembro bem. Tinham que gastar muito dinheiro com marretas, pás, picaretas, cordas, explosivos, lanternas comida e ainda pagar a gente. Eu acho que eles só faziam isso porque tiravam alguma coisa valiosa dali. Mas nem eu nem os outros nunca soubemos o que foi”.

Posteriormente, teriam assumido os trabalhos do túnel os senhores Gastão e Djalma, este tio de Valdemar. Dele se originou a denominação do túnel, Buraco do Djalma. Hoje o local está totalmente plano e entulhado por areia.

Foi tudo o que conseguimos extrair de Seu Mela. Todos os pescadores mais velhos da praia conhecem a história. Há, porém, grande imprecisão nas datas e nos pormenores. Afinal, o caso se tornou lendário...

Nós não nos conformamos com as informações restritas de Seu Mela. Mesmo porque percebemos que ele não nos contava o caso com segurança, aparentando muitas contradições.  Pareceu-nos que o pescado apenas vivenciou a obra como testemunha ocular há 50 anos, quando era um garoto. Publicamos uma página inteira sobre o caso no jornal Meio Norte de Teresina e no ano de 2000 resolvemos voltar à investigação novamente in loco.

Ali, na cinematográfica praia piauiense, nossas novas indagações, mais detalhadas, nos levaram a um antigo pescador, Francisco Gomes de Oliveira, conhecido como Chico Biô. Trata-se de um cidadão na época (2.000) com seus 65 anos bem conservados pela dura, mas saudável vida no mar. E que foi um dos operários do subterrâneo. Deste tivemos atestados incontestes da população local. 

Disse-nos ele em sua casa:

- Trabalhei lá dentro e também fora, na ventoinha. Aqui na Pedra do Sal só quem pode dizer que trabalhou lá foi eu.

- Em que ano foi isso?- Indagamos.

- Acho que foi em 1950... Acho que foi em 1952... Eu sei bem que eu era rapaz. Era o Djalma e o Gastão.

- E o Seu Mela? Ele nos disse que também trabalhou lá. - Interrompemos.

- O Seu Mela não trabalhou lá, não! Da Pedra do Sal e desta encosta quem disser que trabalhou lá pode chamar de mentiroso, e que foi eu, o Chico Biô quem disse. Daqui só o Chico Biô trabalhou lá. Os outros não eram daqui. Eram lá da salina da Amarração. Era o Davi, o Gentil e o Chico-Dente-de-Ouro. Eles trabalharam lá dentro no porão. No começo eu trabalhei lá embaixo. Depois eu subi para trabalhar na ventoinha, lá na boca, pra botar ar pra eles lá embaixo. Eles tiravam a terra com baldes. A gente mergulhava numa passagem por baixo de uma pedra com uma lanterna acesa pra não perder o rumo e largar a cabeça numa pedra.

            - E o que tinha lá em baixo?-Indagamos.

- Olha, lá quando começava a trabalhar, o canalzinho era mais largo do que uma porta como essa aqui. Era uma massa metida dentro. Era feito como uma parede. A gente ia abaixado, meio curvado. Agora, lá mais pra frente tinha mais vaga, que dava pra tirar aquela massa todinha. A gente botava tudo pra fora e às vezes o negócio apertava e a gente trabalhava mesmo era sentado.

- E era uma parede de pedra ou de tijolo?- Perguntamos.

- Era um tipo que eu vi lá uma noite e quando eles paralisavam aquele negócio o Djalma despachava todo mundo dali de baixo. Só ficava um fulano de tal Dente-de-Ouro, que trabalhava mais ele, um cara baixinho. Os outros ele despachava vez por outra e não dava satisfação. Lá tinha uma coisa que ele tirava, abrindo a terra. Lá era um caminho bem feito e dentro era massa e de lado era pedra, bem certinho, bem certinho, como essa parede aqui da minha casa. Eu conto é porque trabalhei lá.

- Mas o que eles procuravam mesmo por ali?- Quisemos saber.

- Diz que lá era um negócio dos frades, que tinham dado pra ele. Ele tinha hora que conversava lá com os encantados; sei lá como era o negócio dele!

- E esse Djalma, já faleceu? - Perguntamos.

- Quando tudo terminou ele foi embora lá pra Teresina e por lá deve ter morrido, pois isso faz muito tempo.

- Mas, afinal, ele achou mesmo alguma coisa no subterrâneo?

- Uma coisa que eu vi lá eu conto. Eu vi lá um monte de coisa dentro de um quartinho de uma casa onde o Djalma morava sozinho. Um monte da altura de um menino. Uns pedaços de coisa. O quarto dele era fechado e ele tinha ido pro buraco e eu ia passando pra cozinha pra beber água e dei fé do negócio. Tava lá no quartinho, o monte. Se era ouro, Ave Maria... Era da qualidade da pedra de carbureto. Também só vi essa vez. Era uns tacos... como dessas barrinhas de sabão que tem. Talvez maiores... Assim arroxeadas, mas umas coisinhas bem cortadas, seu, bem certinhas mesmo. O negócio era assim, da cor de carbureto. Isso eu conto porque eu vi... Era tudo do mesmo tamanhozinho. Quase assim por igual. Eu só sei que ele pesquisava uma coisa importante porque ele passou dois anos por ali.

- O local da escavação era totalmente isolado?- Perguntamos.

- Lá ninguém entrava, não. A boca era ali fora bem perto do hotel de hoje. Mas ninguém entrava. Tudo era cercado e pouca gente morava por ali.

- Conte-nos mais alguma coisa sobre a obra. - Pedimos.

- Olha, lá ficou muito fundo e encheu de água. Agora, eu já não trabalhava mais lá. Aí eles inventaram de cavar de novo e furaram mais adiante, lá onde tem aquela casa, da mãe de Seu Mela. Pois aquela casa é bem em cima de uma boca que eles furaram pra chegar noutro ponto do porão. Lá aconteceu uma coisa séria: O maçarico espocou e assou o Dente-de-Ouro, que estava lá sozinho. Ele botou o maçarico pra queimar a pedra pra arrodear e espocou tudo. O camarada gritou e ficou torrado. Largou o couro todo. Ele morava ali nos Tucuns. Esse camarada acho que já morreu. O Davi e o Gentil eram da Amarração e eu da Pedra do Sal. Era só nós quatro. Ninguém mais!

- Ninguém da Pedra do Sal quis trabalhar lá. Só eu. O povo tinha medo. Tudo era serviço bem feito. Tiravam muita, muita terra lá de dentro. Era uma massa assim traçada. Tiravam e o caminho ficava. Aquilo só pode ter sido feito pela ideia de gente. Porque uma parede era pedra... De lado era pedra... Em riba era pedra... O camarada passava tranquilo por baixo... Era coisa de construção... Agora, ninguém sabe quem fez. E lá na frente eu não trabalhei mais. Saí e fui pescar. Ele me despachou.

- Então lá embaixo tinha corredores? - Foi a nossa indagação.

- Tinha lugar que tinha umas salas grandes assim como essa da minha casa. Você se sentava em riba das pedras conversando com os outros e quem tava na boca é que se arrombava, botando vento lá pra baixo na ventoinha. Botaram eu lá porque eu era novo e forte. Aguentava o rojão... Mas não podia parar. Se parasse o pessoal lá embaixo ficava sem ar. Era uma mangueirona que levava o ar. Às vezes nós trabalhávamos de noite e quando eram certas horas, ele despachava todo mundo. Ele ficava sozinho. Ficava só o Djalma, pois o Gastão não veio mais. Andou também um engenheiro pelo nome Palmeira, que era americano, mas também foi embora. Mas tudo começou com Cândido Oliveira e Valdemar Rodrigues, que era sobrinho deste Djalma.

- Vá falando, vá falando Seu Biô, vá dizendo tudo que lembrar - Insistimos.

- Lá no serviço eu ia buscar ferramentas. Buscava cavias enormes, levava pra amolar e entregava pro Valdemar. Eu trazia tudo numa burra. Amolava três vezes por semanas talhadeiras, de tanto usarem lá embaixo.

- E, afinal o Sr. sabe o que foi feito daqueles objetos esquisitos que o Sr. viu na casa do Djalma?- Perguntamos.

- Ali no Porto Salgado, quando ainda não tinha a ponte, o passador disse que atravessou de madrugada umas cargas que vieram do Djalma. Seis burros carregados de umas coisas, mas que o rapaz disse que pesava demais. Ou era pedra ou era chumbo... Doze volumes. E era mais ou menos o objeto que vi no pé da parede. Aquilo só podia ser pedra mesmo.

Não conseguimos obter mais informações sobre o estranho caso da Pedra do Sal. Embora remonte apenas há uns 65 anos parece hoje estar incluso no rol de lendas fabulosas do Piauí. Pelo que pudemos confirmar por testemunhas sérias, Seu Biô realmente trabalhou no subterrâneo. Todos moradores da região atestam sua idoneidade e lembram das aventuras dele no buraco. Quanto a Seu Mela, como dissemos acima, parece que talvez tenha sido apenas uma testemunha da vizinhança. Fala por informações de terceiros ou pelo pouco que presenciou.

Quem realmente construiu o subterrâneo ou Buraco do Djalma? E por que o fez? O que por lá foi secretamente guardado? O local hoje é totalmente plano e recoberto de areia, não apresentando superficialmente a grandeza do mistério que o envolve. Os banhistas descontraídos passeiam displicentemente sobre as catacumbas da Praia da Pedra do Sal.

Lugar místico por natureza, lendas fabulosas é o que não faltam para envolvê-lo na mística dos tesouros cobiçados. Vejamos o que nos conta a Sra. Edmée Castro no Almanaque da Parnaíba (1994):

“Várias lendas também eram contadas sobre a existência de tesouros enterrados nas cavernas sob as pedras. Uma delas dizia que piratas franceses, náufragos ou perseguidos em alto-mar, conseguiram chegar até a praia e esconderam nas pedras o ouro que traziam em seus navios corsários. Outra lenda narrava que certo marinheiro de um barco, que aportara no litoral, teria em seu poder parte de um velho diário de bordo escrito em antigo holandês, descrevendo o local em que se achava escondido um tesouro sobre os blocos de pedra. Além das lendas, inventaram a estória de um marinheiro que contava, em sonho, a um caboclo o lugar exato do esconderijo onde se encontravam umas moedas de ouro. E por incrível que pareça, acreditaram na história do sonho e, numa verdadeira obsessão, levados por ávido desejo, fizeram escavações, próximas aos calhaus procurando a botija lá enterrada. No entanto, foi grande a decepção, nada encontraram”.

Fantasias à parte parece haver algo de estranho nas entranhas da Praia da Pedra do Sal. As descrições por nós expostas parecem se referir a construções artificiais. E os objetos uniformes amontoados vistos por Seu Biô? Alguma coisa parece ter sido construída por ali. Um esconderijo secreto? O alicerce de algo grandioso? Muitos autores já falaram, por exemplo, da presença de navegantes fenícios na praia. Seria o local um depósito secreto de comerciantes de Tiro e Sidon?

Afinal, o que procurava Valdemar, Gastão e Cândido? Gastaram tanto dinheiro e tempo em busca de uma quimera? Encontraram um velho alfarrábio bucaneiro indicando um tesouro? Ou acharam numa biblioteca qualquer um velho manuscrito indicativo dos subterrâneos? Ou se guiaram só por antigas tradições?

Corre uma lenda de que por ali estaria soterrado um tesouro jesuíta. Os membros desta ordem religiosa teriam construído o túnel e por ali enterrado suas cobiçadas botijas. Tudo talvez para resguardar suas posses das perseguições pombalinas à sua ordem em 1759 e 1760. Na vila de Parnaíba viviam apenas dois deles, os quais foram presos e remetidos a São Luís, aonde chegaram a 7 de junho de 1760.

Teriam os padres de Parnaíba antes de suas detenções escavado o subterrâneo e por ali enterrado alguma preciosidade ignota? Teriam tido tempo hábil para tal labor? Teriam mesmo o que enterrar? Ou a galeria já havia sido construída previamente para uma eventual fuga ou refúgio ante ataques de piratas ou corsários estrangeiros? Mas, será mesmo que os membros da ordem possuíam bens tão preciosos? E o náufrago português Nicolau de Resende, não seria um candidato mais provável à autoria da obra do que os jesuítas? Não esqueçamos que ele e seus companheiros de naufrágio passaram muitos anos naqueles rincões. A história deles se perdeu para sempre mas a acreditamos muito rica e atribulada.

No mais tudo é só suposição. Mesmo porque os principais protagonistas da escavação, Djalma, Cândido, Valdemar e Gastão já devem ter falecido há tempos. Com eles certamente se foi parte da elucidação do mistério. A não ser que um novo e empreendedor aventureiro se encante pelo misticismo envolvente dos misteriosos tesouros subterrâneos da praia da Pedra do Sal... 


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Passageiro Clandestino

Imagem meramente ilustrativa


                            José Pedro Araújo


Três da tarde, tempo quente, inverno findando, descíamos a pé a inclinada ladeira do Alto da Balança no sentido da cidade. Voltávamos para casa depois de matar a sede dos animais retidos na quinta localizada depois do rio Preguiça, obrigação de quase todos os dias. Foi ai que avistamos o carro que acabava de passar o Riachinho e se encaminhava sacolejando ao nosso encontro. Era um daqueles caminhões boiadeiros, com grades bem altas, e sobre elas vários homens que se seguravam como podiam, dificuldade aumentada pelos constantes solavancos que o veículo emitia ao rolar pela pista esburacada. Atrás de si, uma nuvem de poeira vermelha o acompanhava como uma fiel seguidora, evoluindo e se dispersando ao sabor do vento morno.  
Ao passar por nós, em começo da ladeira íngreme, o carro diminuiu a marcha e o motor agitou-se agoniado, fazendo força para superar a forte subida. Em meio à poeira que ia ficando para trás, ouvi uma voz chamando pelo meu nome. Era o Zé Pretinho. Mulato simpático e muito amigo das crianças que residiam nas proximidades da casa em que morávamos na Rua Grande. Encarapitado lá no alto das grades do caminhão, agora em marcha cada vez mais lenta, ele acenava para mim.  
Joguei o cabresto que trazia comigo para o meu companheiro e corri em direção ao carro. Havia acabado de decidir me juntar ao grupo que se segurava como podia nas elevadas grades. Ia fazer um passeio de carro. Atrás de mim o colega começou a gritar pedindo que não fosse em frente.  Nem me dei ao trabalho de justificar o meu ato, precisava aproveitar que o caminhão ainda estava próximo.
Subi sem muitas dificuldades e, logo, me encontrava do lado do Zé Pretinho. Perguntei-lhe para aonde iam. Ele me respondeu que iam apanhar algumas cabeças de gado numa fazenda um pouco distante. Dei de ombros e me acomodei no poleiro; não importava para onde estávamos indo, contanto que voltássemos logo. Além do mais, estava gostando daquela aventura que estava só no começo e que, como veremos logo à frente, me traria muitos dissabores.
A fazenda, diferentemente do que afirmara o Zé Pretinho, não ficava muito próximo. De onde apanhei o caminhão até lá ainda levou uns bons dez minutos para vencermos a distância. Ficava quase nos Poços, região belíssima e de terras muito férteis. Mas, acabou aí a beleza da minha aventura. Dali para frente as situações foram se encadeando no sentido de me trazer dissabores. Para começar, não havia embarcadouro por lá. Foi necessário cavar um buraco no chão para que o caminhão pudesse penetrar nele e o para que o gado a ser embarcado tivesse acesso à carroceria. Isso demorou muito tempo. Pelo nervosismo demonstrado pelo motorista vi que aquele serviço não estaria completado antes da noite chegar. Ai quem ficou nervoso fui eu.
Cava daqui, discute dali, vi que a tal rampa estava demorando demais para ficar pronta, apesar do terreno ainda está um pouco úmido. A ferramenta utilizada para escavar o chão também não era muito apropriada, e por isso demorou tanto para aquilo ficar do jeito que o motorista achava que estava legal. Trabalho enfim concluído, ai começaria outro trabalhão: o gado não se mostrava muito satisfeito com a possibilidade de entrar naquela carroceria, e os homens encarregados de conduzi-los até lá pareciam pouco afeitos à tarefa.
A minha preocupação somente aumentava com o passar das horas e com a possibilidade da chegada da escuridão. Finalmente deram por completada a empreitada e começaram a arrumação para a partida. Já era quase noite quando terminaram de colocar o gado sobre o caminhão. Agora parecia que tudo havia terminado. Era só acionar a chave no contato e colocar o bicho para funcionar. Até ai, tarefa cumprida: o motor pegou que foi uma beleza. Nesse momento, meu coração já começava a aquietar-se, pois, mesmo chegando já noite em casa, não deveria ser muito tarde, e talvez conseguisse me safar bem.
Mas qual! Ninguém havia contado com um problema a mais: a carga embarcada ficou muito pesada, e isto fez com que o caminhão começasse a afundar no terreno ainda um pouco molhado logo que o motorista deu a partida. Patina daqui, afunda dali, logo vimos que daquele jeito não conseguiríamos jamais sair dali. E como sair daquele imbróglio, foi motivo de grande discursão. Cada um queria dar uma ideia mais estapafúrdia. Até que decidiram aliviar a carga. Aliviar a carga significava retirar algumas reses e colocá-la de volta no curral. Aliviar a carga também significava demanda de tempo.
Nesse momento, meus nervos já estavam em pandarecos. Agora a coisa estava complicada. Era certo que não chegaria em casa tão cedo. E como ninguém sabia por onde eu andava, imaginei como deveria estar os meus familiares, e como seria a minha recepção na volta.
Retiraram a metade da carga. Os animais até facilitaram. Tudo, desde que saíssem daquele aperto. E com isso, já era possível fazer-se uma nova tentativa. Dessa vez foi o caminhão que se negou a colaborar. Parecia que a bateria tinha descarregado. Porca miséria! Meu desespero chegou ao ápice.
O motorista desceu do carro irritadíssimo, e começou a lançar impropérios para todos os lados. E não tendo outra coisa a fazer, pois na situação em que o veículo estava, era impossível empurrá-lo, voltou para a boleia e mais uma vez deu com a chave no contato. Alvíssaras! Não é que o estúpido pegou! E meu herói do dia conseguiu fazer com que o bichão saísse do buraco de uma só tentativa. Gritos de alegria, palmas, assobios, era certo que ninguém queria passar a noite por ali. Eu, mais que todos.
Mas, ai alguém se lembrou de perguntar como iriamos embarcar o restante da carga retirada. Para isso não encontraram respostas. E o motorista resolveu demonstrar a sua autoridade: não levaria mais do que a carga que já estava embarcada. Pronto. E assim fez. Todos a bordo, enfim!
Ai um desgraçado olhou para mim quando subia na carroceria e falou que eu não poderia ir com eles. Não tinha nada a fazer ali, nem havia ajudado em nada! Meu desespero foi ao limite. Aquele infeliz estava se arvorando de dono de uma coisa na qual ele não tinha outra relação a não ser a de ajudante. Mas o Zé Pretinho me salvou daquela situação. Disse que eu havia ido com ele e que ninguém me impediria de retornar com ele também. O imbecil ainda tentou argumentar, mas foi contido pelo meu amigo ao preço de uma cara fechada, de poucos amigos. Pronto, subi nas grades e me arrumei para partir.
A noite estava muito escura, daquele tipo no qual é impossível se divisar algo a dois metros de nós. Mas, o motorista ligou os faróis, acelerou e foi encurtando a distância para a minha casa. Ou mais precisamente, aumentado a proximidade do meu ajuste de contas com meus pais.
Dai a poucos instantes chegamos perto da travessia do rio Preguiça. Precisávamos passar por uma ponte de madeira, velha e carcomida pelo tempo. E isso era também motivo para preocupação de alguns dos que ali estavam. No presente caso, como diz a Lei de Murphy, “qualquer coisa que possa correr mal, ocorrerá mal, no pior momento possível”. Não chegamos a subir na ponte. O caminhão atolou logo na sua cabeceira. E atolou até o eixo naquele massapé que não deixa dúvidas para ninguém: dali para frente somente um trator resolveria o caso.
Não era o meu dia! Resolvemos completar o trajeto a pé. E fomos, rompendo aquela escuridão tremenda, do tipo que se diz de “meter o dedo no próprio olho”. Já havíamos andado alguns minutos quando eu ouvi uma voz conhecida perguntando se eu não estaria naquele grupo. A voz era de um tio meu. Haviam, finalmente, lembrado de perguntar ao rapaz que me acompanhava quando fomos dar de beber aos animais, conforme mencionei no início deste texto, o que ele sabia sobre o meu sumiço. E ele falou que eu havia embarcado em um caminhão ainda no Alto da Balança. Aquele tio meu foi destacado para investigar o caso e terminou por descobrir que o transporte tinha ido apanhar um gado na fazenda do Senhor Raimundo Claro. Foi como ele me encontrou.
Vou parar por aqui. O texto já está muito longo e eu não vou matar a curiosidade de ninguém. Sei que tem muita gente querendo saber o resultado dessa história. Como foi dolorosa demais para mim, não vou atender a ninguém. Imagina!
  

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Das Amizades Perdidas

Gravura Voltaire & Rousseau


Cunha e Silva Filho, ensaísta, crítico literário, cronista, tradutor, é responsável pelo Blog As ideias no tempo (asideiasnotempo.blogspot.com.br).
          
                                             [...]  
                                  Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
                                  O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
                                  A mão que afaga é a mesma que apedreja.
                                                         [..]
                                  Augusto dos Anjos,  Eu e outros  poemas
                                                       

        Poder-se-iam  citar a  mancheias as causas  das perdas das amizades. Não vou esgotar o tema,  principalmente porque este não é objetivo  dos comentários que farei neste artigo (crônica, sei lá, chamemos apenas “texto” para ficar  ao lado do poeta, tradutor,  ensaísta e crítico  José Paulo Paes (1926-1998).

        Menciono algumas que mais facilmente me à tona, e que se situam no domínio da política, da literatura e mera convivência social, a que pode  estar no condomínio de um prédio,  no açougue,  na loja, na banca de jornal, no trabalho,  na família, entre familiares, nas instituições  culturais, nos clubes   nas academias de letras e assim por diante.

       Vejamos a primeira, que é muito comum em nosso país  e desde tempos bem recuados quando, numa cidade do interior,  dois partidos  dividem  as ambições de assumir a liderança  política local. Inúmeros são os desdobramentos  que de ordinário  surgem em meio às refregas: as famílias da situação e as da oposição  se tornam  inimigas,  por vezes chegam às vias de fato,  por vezes  cometem  desatinos entre si e até ao extremo de  cometer  atos  in desejáveis, como crimes.

     No campo amoroso,  membros das famílias não podem  namorar outros cujos pais lhe são  desafetos políticos. Daí pode  ressurgir, em alguns casos,  tragédia do tipo  Romeu e Julieta,  de William  Shakespeare (1564-1616). Nos anos 1920, 1930, 1940 1950, só para dar  um recorte no tempo,   eram  comuns  familiares  se tornarem  inimigas  quando  seus membros  escolhiam  seguir a  carreira política e se candidatavam a cargos eletivos, prefeitos,  deputados, vereadores. A política no  interior desse mesmo  país, pelo menos  antigamente, assim me contava meu pai,  começava a ser assunto mesmo entre   crianças, de adolescente, os quais  discutiam  suas posições, naturalmente  influenciados pelos adultos.

        Para espíritos muito  inclinados à política  militante,  não necessariamente aquela  voltada para  exercer  mandatos, e meu pai era um exemplo disso,  o fato   era bem  observado  pelos adultos.

    Uma tia-avó materna, a Aurora Cunha e Silva, há muito falecida, a quem chamávamos  carinhosamente de tia Lolosa, professora  primária  muito  respeitada na época em que  lecionou em Amarante, PI, e em Teresina,  certa feita me fez um comentário:  “Não sei, Francisco,   como você  não é chegado à política, seu pai foi, desde bem jovem,  tão interessado por   política, e você não me parece gostar  da discussão política”

      Razão tinha ela,   pois meu pai foi  tão um    jornalista  visceralmente político a vida inteira. Olhei para ela e apenas lhe sorri, sem lhe dar uma resposta nem lhe apresentar argumento algum.

      Isso ficou  na minha  cabeça por muito tempo.  Só com a maturidade me veio  o interesse  político,  não para  ingressar  na política, mas como  campo de  análise, de discussão,  de reflexões  que me levaram logo a  escrever sobre assuntos,  os quais não eram  estreitamente  de cunho  político, no sentido técnico, de aprofundamento nas questões fundamentais  da vida política nacional, contudo estavam  muito  intimamente   conexionados com ela. Ou seja, os problemas que diziam  respeito  à vida do brasileiro, da nossa sociedade começaram a me  chamar a atenção e se tornar  até   temas  recorrentes  meus, o mesmo se estendendo para a situação  do mundo  político internacional, que passou a ser  objeto de minhas   discussões em jornais do Piauí e, depois,  em  meu blog “As ideias no tempo,”   sempre que  afetavam   as condições  injustas  vividas por países tanto das Américas  quanto do mundo em geral.

   Em resumo,  a opção minha  de estimar  o debate político visando à defesa de minhas ideias e posições me custou  a perda de amizades que  supostamente  pensava que fossem verdadeiras,  visto que, quando são genuínas,   profundas,  elas não se   acabam   meramente  por  motivos  ideológicos, os quais – com somos tolos! -  não vão beneficiar nem a mim nem as minhas amizades  perdidas.

    O único beneficiário das polêmicas  entre  contendores é o próprio sistema dominante ou a oposição,  ambos, ao contrário dos humildes  discutidores  de política, ao final e ao cabo,   só lucrando com isso, ao receberem seus votos. Os briguentos – cá no espaço anônimo e  terra-a-terra – de lucros  só tiveram  prejuízos e a perda da amizade. Confuso mundo o nosso.

   Na  perda da amizade por motivações  literárias, o país tem uma longa tradição, sobretudo nos anos 1940, período em que  pipocaram  inúmeros combates nos jornais, muito acirrados dividindo escritores a favor ou contra  determinadas práticas  de visões literárias. O  mais célebre, a meu ver, foi o travada entre o crítico Álvaro Lins (1912-1970) e o crítico  Afrânio Coutinho (1911-2000),  ambos  com  propostas  de militância  na crítica  inteiramente  diferentes, o que redundou  em  discussões  violentas entre eles, sobretudo  da parte  de Afrânio Coutinho, espírito mais    apaixonado  pelos seus ideários de   abordagem  do fenômeno literário, sobretudo  porque  Coutinho  almejava atingir um  alvo: o de  desalojar  da liderança  da crítica de rodapé o  famoso  autor de Os mortos de sobrecasaca(1963)

       Em várias obras, debatendo os seus pontos de vista no tocante à judicatura crítica,  Coutinho defendia   a crítica universitária,  através da qual  os estudos  literários poderiam  encontrar o seu locus  principal  de desenvolvimento  e de atualização  dos estudos  literários entre nós. Afrânio Coutinho saiu, de certa maneira,  vencedor; Álvaro Lins, desgostoso,  foi aos poucos se afastando  dos meios literários,  inclusive da Academia Brasileira de Letras de que era ilustre membro. Para ainda piorar sua vida de escritor, ainda morreu  antes de completar sessenta anos. A polêmica entre os dois  foi  o núcleo central  de minha pesquisa de pós-doutorado na UFRJ concluída em  2014.

       Mesmo tendo pessoalmente me  envolvido em curta polêmica no Piauí,  deploro certos arroubos das polêmicas, sobretudo um lado que reputo deplorável: os ressentimentos  que deixam marcas e que, a meu ver,  só prejudicam  o conjunto da vida literária entre pessoas que,  de outra forma,  poderiam  até, quem sabe,  terem feito boas amizades a fim de  tocar a marcha dos estudos da literatura  em nosso país. Para a literatura, sobretudo quando entram em jogo a objetividade  e seriedade da vida acadêmica,  o uso das citações  bibliográficas tendem a  subtrair  as obras de nossos   inimigos  no campo  teórico e vice-versa, o que é uma perda e um desserviço à mentalidade imparcial que deve presidir  o  trabalho acadêmico. Essa situação assim criada se me afigura uma violência, espécie de  tácita e desonesta   obnubilação do  espírito científico   na investigação  acadêmica. Espécie, em suma,  de crime capital  que ainda grassa  no meio  intelectual  e universitário brasileiro. 

    Quanto às inimizades convencionais que possamos  ter ao longo da vida,  elas também  não trazem  nenhuma vantagem a nenhuma das partes, malgrado reconheçamos que   algumas delas  devam  se manter no  ponto  em que as deixamos  por  absoluta incompatibilidade entre as partes. Outras podem ser refeitas, dependendo dos condicionamentos   que as geraram, os quais, podem, de repente,  por uma circunstância ou outra, se reabilitarem.     



     Porém, é muito pouco provável que haja reconciliações entre as pessoas, dado que o ser humano  é imprevisível,   rancoroso,   preferindo não abrir a guarda,  a qual   seria  a possibilidade da  volta da amizade.  Repito: é quase impossível  que as amizades  perdidas  refaçam o caminho da volta, tão necessário à vida em sociedade, à vida comunitária. A realidade, todavia,  é outra e nada tem a ver   com as nossas  específicas  subjetividades  tão arraigadas estão  ao  nosso  universo afetivo interior ultrajado.