sábado, 27 de junho de 2015

Em um Certo 28 de Junho

Foto by Carlos Magno




          Quando o interventor maranhense Paulo Martins de Souza Ramos, assinou o Decreto-Lei nº 820, vivíamos o penúltimo dia de dezembro do ano da graça de 1943. E foi através deste importante diploma legal que passamos da condição de Vila para a de Cidade. Nascia, assim, o município de Curador, fruto do trabalho incansável de um grupo de nordestinos que vislumbrou, naquele lugar, ares propícios para a construção de um venturoso futuro. Às margens da famosa lagoa fincaram raízes e passaram a erigir a cidade que sonharam para si e para os seus descendentes. Costumo dizer que entre estes pioneiros não tínhamos grandes fortunas, ricos fazendeiros ou empresários poderosos, mas tão somente um povo pobre em busca de um horizonte novo.
          Mas a longa espera ainda não terminaria naquele mês. Somente no dia 28 de junho do ano seguinte de 1944, proceder-se-ia a instalação, de fato, do novo município. A data comemorativa de aniversário da cidade passou a ser a do dia que antecede àquele destinado a um dos santos festeiros de junho, São Pedro. Não demoraria também, e através da Lei 208, de 18 de dezembro de 1948, o município teria o seu topônimo alterado e passaria a se chamar Presidente Dutra, uma homenagem ao Presidente da República, Eurico Gaspar Dutra.
          Na tentativa de resgatar aquele dia festivo para todos os presidutrenses, veio-me a ideia de publicar algumas informações sobre o período em que o auspicioso acontecimento se deu. Se regredíssemos no tempo e pousássemos a nossa nave na Praça da Matriz, logo observaríamos que o nome dela não era São Sebastião, e que em lugar da igreja portentosa que vemos ali, existia apenas uma capela simples, construída em adobe cru. O santo padroeiro também era outro: São Bento. Não encontraríamos ali também o belo prédio do convento das irmãs; nem os edifícios dos correios e da prefeitura antiga estavam lá. O da prefeitura, aliás, também não está mais lá. Com o título “Duas fotografias históricas da Praça São Sebastião”, publiquei aqui, no dia 19 de fevereiro deste, duas imagens que mostram exatamente como era o largo de São Bento naquele dia festivo de elevação da cidade.
          Como já afirmei em parágrafo anterior, a cidade estava sob intenso clima do período junino, e por esta razão algumas famílias mais festivas já arrumavam na parte da frente de casa lenha para as fogueiras em homenagem a São Pedro, festividade que aconteceria no dia posterior. Algumas até enfeitavam trechos de rua com bandeirolas e balões de papel de seda.  Aquela noite seria fresca, como todas as noites de junho, e a lua apareceria Crescente no céu.
          O ano de 1944 foi bissexto, e muito tenso, por conta das notícias que chegavam do continente europeu devastado pela guerra. E a população ficou sabendo de antemão que o interventor Paulo Ramos não se faria presente às festividades de elevação da cidade, por duas razões: primeiro porque não seria politicamente uma boa estratégia, vez que outros municípios foram criados naquele mesmo período e frequentar um apenas não seria justo. Depois, no dia seguinte, estaria inaugurando uma importante obra no rio Mearim: uma ponte flutuante. Enviou, então, um aliado político que ocupava o cargo de secretário da prefeitura municipal de Vargem Grande para presidir a solenidade.
          Nesse período, como já afirmei, o mundo estava ligado às noticias veiculadas pelo rádio, pouquíssimos rádios, é bem verdade, sobre o prosseguimento da 2ª Grande Guerra, conflito que já se arrastava desde 1938 e que já havia causado a morte de milhões de pessoas. A 06 de junho, por exemplo, os combatentes aliados haviam desembarcado no litoral da França, na região da Normandia, data que passou a ser conhecida como o Dia D. Foi, de fato, um grande feito que principiou a derrocada dos exércitos do bloco inimigo formado por Alemanha, Itália e Japão, os chamados países do Eixo.
          Nesse mês de junho também a população do Brasil inteiro vivia a expectativa do embarque dos primeiros pracinhas brasileiros para lutar na Itália. Quatro dias depois da solenidade de elevação de Curador à condição de município, cerca de 5.096 brasileiros embarcaram no navio americano de transporte de tropas, o General Mann.
          Por aqui, o Maranhão viva momentos de grande aperto financeiro no seu orçamento, é o que se pode ver no relatório apresentado pelo interventor Paulo Ramos ao congresso estadual. Vivia também uma época difícil no quesito exportações, que tinha como principais produtos da sua pauta, o arroz, o algodão, o babaçu, mas também alguns produtos inimagináveis, como peles de Tejo, de Cobra, de Gato Pintado e de Onça, e até mesmo Penas de Aves, Rapas de Sola e Resina de Jatobá, entre outros produtos de somenos importância.
          No campo esportivo, o Moto Clube começaria nesse ano a sua escalada rumo ao heptacampeonato maranhense de futebol, no que pese o Sampaio Correia ter feito um esquadrão de respeito para jogar aquele campeonato.
          Chegado o fim do mês de junho, a novíssima cidade de Curador se agitava freneticamente, e as pessoas acorriam apressadas pelas ruas poeirentas para o local em que seria celebrada a solenidade de elevação. De certo, vestiam-se com as suas melhores roupas. Homens trajando camisas na cor clara, mangas compridas; mulheres envergando vestidos bem abaixo dos joelhos, rendados. Lá encontrariam, além do senhor representante enviado pelo interventor federal, também o prefeito de Barra do Corda, Jamil de Miranda Gedeon, município do qual fomos desmembrado; participava também da solenidade o deputado pelo PR, Manoel Gomes, um dos  representantes da região na câmara legislativa estadual, e também o coletor estadual José Lúcio Bandeira de Melo, que viria ocupar o cargo de primeiro interventor do novo município criado até a nomeação de um político local.
          Dentre os moradores que acorreram ao local do evento, alguns tiveram seus nomes registrados na história ao assinarem o livro de Ata, instrumento que documentou a solenidade de elevação da Vila de Curador à condição de cidade.
São eles:

Virgulino Cirilo de Sousa, Luiz Gonzaga de Sousa, Gil Arruda Léda, Adalberto Macêdo, Pedro Sereno, Antônio Macêdo, Salomão Soares, Gerson Sereno, Antônio Alves Quirino, Arlindo Paulo da Silva, Nacôr Gomes da Silva, Abdon de França, Deusamar Melo Lima, Judite Rios, Delta Falcão, Francisco Barros, Zilda Barros Menezes, Valdir Menezes Silva, Eleusina Carvalho Araújo, Frei Gomes, Joana Lima de Macêdo, Eduardo de Melo Falcão, Josefino Marques Monteiro, Sebastião Gomes de Gouveia, Cícero Macêdo, João de Deus Ferreira, Ilídio Fialho, Anastácio Melo, Nelson Sereno, João Silva, Ataliba Almeida, Ataliba Moreira Lima, Pedro Neto, Miguel Araújo de Carvalho, Valeriano Américo de Oliveira, Áurea Melo Lima, Maria Nogueira, Teresinha Menezes, Jovina Sousa, Maria da Cruz Menezes, Zilda Araújo Melo e Ambrozina Barros.

- Os nomes estão na mesma ordem de assinatura que aprecem na ata lavrada.
        
 É certo também que centenas de pessoas que estavam presente ao ato não quiseram ou não puderam assinar a histórica Ata como testemunha. Mas entraram igualmente para a história ao participar daquele ato cívico de tamanha importância para o Curador.
          No período mais festejado pelos nordestinos: o das “festas-dos-santos-mais-queridos”, o chamado período junino, começava a nossa caminhada solo, isolados agora do município-tronco, Barra do Corda. Foram tempos difíceis, de absoluta carência, faltos de tudo o que era mais urgente para nos tornarmos uma cidade na acepção da palavra. Faltava-nos desde a experiência para instalar um simples modelo administrativo no novel município, e até os recursos necessários para viabilizar a construção dos prédios públicos que abrigariam aqueles a quem escolheríamos para cuidar da administração municipal.
          Carecíamos ainda do instrumental necessário para viabilizar atendimento de saúde aos nossos residentes, e também de prédios escolar de qualidade para ministrar as primeiras letras para os nossos cidadãos mais tenros. E para complicar mais ainda, estávamos a mais de trezentos quilômetros da capital.
          Como construir tudo o que precisávamos sem os recursos necessários para tal, e com um orçamento diminuto e insuficiente? Com determinação e esperança no futuro, logo descobriríamos através dos nossos próprios erros, lançando mão do método simples das tentativas. E logo estávamos com os nossos primeiros prédios públicos construídos. Nossas ruas tomaram um jeito mais urbano, sem aquela feição de caminho para pedestres. Os moradores começaram a cuidar mais das suas moradias, levantando casas com um padrão de qualidade mais apurado, e conforto e habitabilidade visíveis. Em breve a cidade tomaria ares de modernidade.
          Recorro a Fernando Pessoa, o insigne poeta português, para encerrar esta crônica:


DA MINHA ALDEIA vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer.
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura... 

          Terra querida, parabéns pelo seu aniversário! 

 
Vista da Praça pouco tempo depois da solenidade de elevação

terça-feira, 23 de junho de 2015

Barras do Marataoan: O Retorno



(Chicoacoram Araújo)*
                Alguns dias atrás fui a minha cidade natal, Barras do Marataoan. Há muito tempo por lá não ia. A cidade cresceu, inchou; não se desenvolveu.  O comportamento das pessoas mudou. As crianças e jovens não diferem nem pouco dos que moram nas grandes cidades. Perderam a simplicidade interiorana; a violência é marcante. Tudo mudado. Aliás, ultimamente, perdi o encanto em visitar meu torrão. Há quase dois anos não andava por minha saudosa Barras. A última vez estive lá por conta do velório e sepultamento de uma estimada parente. Cabe aqui salientar que o objetivo dessa viagem de agora era apenas para conduzir minha tia de volta à Teresina, conforme tínhamos acertado semana antecedente a sua ida àquela cidade. A viagem fora marcada para o domingo seguinte.
                Acordei cedo no domingo, sem muita vontade; comumente, nesse sagrado dia, levanto-me um pouco mais tarde. Uma preguiça perpétua me abate. Nada, porém, que um bom  banho não possa dissipar.
O dia amanheceu ensolarado; o céu com um azul brilhante, brisa calma e aconchegante. Dia bom para uma viagem, pensei. Despedi-me da esposa, e parti.
                Em pouco tempo já estava na BR-343 rumo à Barras – terra dos governadores, dos poetas e dos escritores; e paraíso das águas. Alguns minutos depois, tomei a PI-113, conhecida como Rodovia do Babaçu, acesso da rota turística chamada de Caminho das Águas. Sozinho no meu carro, absorto em um torvelinho de pensamentos passados, lembrei–me de um certo  janeiro, lá pelo ano de 1961.  Tinha apenas oito anos de idade quando meu pai decidiu morar em Teresina em busca de melhores condições de vida para sua família. Fiquei maravilhado com minha primeira viagem, sobretudo pelo fato de ir em cima de um caminhão, embora apertado entre as velhas tralhas que estavam em cima da carroceria. Naquela época, o percurso entre as duas cidades durava cerca de quatro ou cinco horas. O chão da estrada era de piçarra, o que levantava uma grande poeira avermelhada com o atrito dos pneus do veículo.  Hoje, com a estrada asfaltada, o tempo de viagem é de apenas hora e meia, aproximadamente. Mas, essa história já contei aqui mesmo nesse espaço, em crônica anterior.
                Como todo mundo gosta de contar a história da sua terra querida, peço licença para falar sobre a minha também. A história registra que Barras surgiu a partir de uma fazenda de gado conhecida como Buritizinho, que se tornou povoado alguns anos depois. Nessa localidade construiu-se, em meados do século XVIII, uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, atualmente padroeira da cidade.  Barras do Marataoan, como era antes conhecida (em alusão ao rio que serpenteia e banha a cidade), foi elevada à categoria de cidade pelo Decreto nº 1, de 28/12/1889. A cidade está localizada no centro de seis barras de rios e riachos, daí o nome adotado, Barras. Localiza-se na microrregião do Baixo Parnaíba Piauiense, com uma área de 1.719,798 km², e possui densa vegetação entremeada por babaçu, mas também extensos campos cobertos por gramíneas. Sua população atual beira os 44.850 habitantes; e  barrense é o nome gentílico do habitante do município.
                Barras é conhecida como terra dos governadores e dos poetas. Segundo Elmar Carvalho, notório magistrado e escritor piauiense, o primeiro aposto se devia não só ao fato de Barras ter tido vários de seus filhos na governança do Estado do Piauí, mas também na chefia do Executivo de Pernambuco e amazonas. Ele cita como governadores do Piauí: Gregório Taumaturgo de Azevedo (26/12/1889 a 04/06/1890), primeiro governador republicano do Piauí; Coriolano de Carvalho e Silva (11/12/1892 a 04/07/1896); Raimundo Artur de Vasconcelos (01/07/1896 a 1900); Matias Olímpio de Melo (1924 a 1928); e Leônidas de Castro Melo (03/05/1935 a 09/11/1945), que governou o Estado por mais de dez anos. O emérito Escritor elenca ainda os barrenses Gregório Taumaturgo de Azevedo e Fileto Pires Ferreira como governantes do Estado do Amazonas, enquanto Segismundo Antônio Gonçalves governou o Estado de Pernambuco. O poeta declara ainda que Barras poderia ser chamada, igualmente, de terra dos intelectuais, uma vez que forneceu ao Estado nomeados escritores e poetas.
                Quanto ao epíteto de terras dos poetas, o ilustre Elmar Carvalho destaca entre os intelectuais, poetas e escritores às margens do Marataoan, os seguintes barrenses: David Moreira Caldas, o “Profeta da República”, por ter previsto, em 1873, a Proclamação da República do Brasil no ano de 1989 (ele faleceu 10 anos antes da Proclamação, e em condições precárias, pois a igreja católica lhe negou o sepultamento de cristão, por suas convicções políticas e religiosas. Foi enterrado fora do cemitério, nas cercanias da cidade de Teresina); Celso Pinheiro, o mais importante poeta simbolista do Piauí; José de Arimathéa Tito Filho, que presidiu a Academia Piauiense de Letras durante 23 anos; João Pinheiro, autor da mais notável obra sobre a história literária do Piauí; Matias Olímpio de Melo, Presidente da Academia Piauiense de Letras por dois mandatos. Elmar cita ainda os escritores, Fenelon Castelo Branco, José Pires Lima Rebelo e Wilson Carvalho Gonçalves, sendo este último o autor de uma das mais notáveis obras de divulgação da História do Piauí. Afirma ainda que são considerados barrenses os poetas Leonardo de Carvalho Castelo Branco, Hermínio de Carvalho Castelo Branco e Teodoro de Carvalho Castelo Branco, haja vista que as localidades onde nasceram pertenceram ao município de Barras. Seria injusto não mencionar o barrense Lucílio de Albuquerque, que foi pintor, desenhista e professor brasileiro, de notoriedade internacional. Em 1906, esse ilustre piauiense recebeu o Prêmio de Viagem da ENBA, com a tela Anchieta escrevendo o poema à Virgem.
                Elmar Carvalho, em sua pesquisa, afirma categoricamente que Barras, além de ser a Terra dos Governadores, é também celeiro de marechais e senadores. Entre os primeiros, enumera: Firmino Pires Ferreira, que lutou na Guerra do Paraguai, e Gregório Taumaturgo de Azevedo, que chefiou a comissão de limites entre o Brasil e Bolívia, e fundou a cidade de Cruzeiro do Sul, no Acre, e a Cruz Vermelha Brasileira. Quanto aos senadores, Elmar Carvalho aponta os barrenses Firmino Pires Ferreira, Raimundo Artur de Vasconcelos, Joaquim Pires Ferreira, Matias Olímpio de Melo e Leônidas de Castro Melo, salientando que todos estes foram também deputados federais.
                Aqui cabe um adendo. O emérito magistrado e escritor Elmar Carvalho é barrense de sangue, pois como ele próprio declarou, assim como seu pai, vários dos seus ancestrais paternos são filhos de Barras. Portanto, esse preclaro poeta e escritor é, também, um ilustre barrense, embora tenha nascido na vizinha cidade de Campo Maior.
                Feito a publicidade da minha terra natal, volto novamente meus pensamentos para a Rodovia do Babaçu. Depois que passei por José de Freitas e Cabeceiras, recordo-me de ter visto, durante aquela viagem da mudança de minha família para a Capital, uma revoada de periquitos que sobrevoavam as matas, um nambu correndo no mato, um carcará pousado em uma árvore, um preá atravessando a estrada, uma palmeira lascada por um raio. Lembro-me também, nas margens da rodovia, bois pé duro pastando, algumas casas cobertas de palhas de palmeira, bem como algumas roças cheias de legumes. Esse fantástico cenário bucólico agora não o estou vendo. Tudo mudou; é passado. Meus pensamentos divagavam errantes, em lembranças atuais e remotas. Parece que a solidão provoca no ser humano a capacidade de lembrar fatos e coisas que ocorreram no passado distante, e que, às vezes, a gente nem imaginava a existência deles. Lembre-se que eu estava sozinho e Deus no meu automóvel.
                Chegando à cidade de Barras, um pouco antes, vi a casa grande da antiga fazenda conhecida como “Cantinho”. Nessa localidade, quando criança, tomava de vez por outra uma garapa extraída da cana-de-açúcar, e comia também rapadura quentinha. Observei que aquela vivenda agora estava reformada, mas guardava as características antigas; e que não existe mais a casa de moagem.
                Do “Cantinho” para cidade é pulo; apenas cinco minutos. Enfim, cheguei à Terra dos Governadores e dos Poetas. Porém, antes de entrar na cidade, existe à esquerda da rodovia, em uma curva e um pouco antes da ponte que atravessa o rio Marataoan, um morro que impede a visão panorâmica da cidade. Esse pequeno acidente geográfico está no lugar errado, ou foi a estrada que foi construída no lugar indevido?
                Chegando ao meu destino, fui direto para casa da minha tia que morava do outro lado da cidade, no Bairro Boa Vista. Antes de entrar na rua que dar acesso à residência da referida tia, observei, à direita, algumas pequenas casas e bares que ficavam ao lado de uma grota que escoa água e esgoto. Nesse local, quando o bairro não era ainda muito povoado, existia um perene riacho conhecido como “Riachinho”. Hoje, não existe mais esse córrego em que tantas vezes, quando criança, banhei em suas águas cristalinas.  Por conta desse fato, transcrevo, a seguir, um trecho de poema que escrevi muito tempo atrás:

Onde está meu córrego de nome Riachinho?
Meu pequeno rio de saudades – água preciosa servida em um dourado pucarinho!
Riacho já não mais existe. E a minha Boa Vista
Há muito deixou de ser uma bela vista.

No final do mesmo poema, eu faço um protesto ecológico que diz assim:

Lá se vão mais de meio século de rota,
Época que não volta mais; e eu longe do canto dos pássaros, pela manhã.
Hoje, meu Riachinho é apenas uma grande grota,
Que desemboca no meu rio de saudades, o Marataoan.

                Sigo na minha viagem sentimental e, momento depois, eu chegava em casa da minha tia, que acima já me referi. Esta e a outra tia, que viera do Rio Janeiro visitar parentes, já me esperavam, conforme o combinado na semana anterior, em Teresina. Desde a minha chegada até a hora do almoço houve uma longa e demorada conversa entre os parentes que se encontravam na casa. Lembrávamos acontecimentos do arco da velha; assuntos de toda natureza. Vez por outra, ouviam-se belas gargalhadas. Uma confraternização familiar, enfim. Isso durou até a hora do almoço. O cardápio era costela frita de leitão novo, baião de dois, com o feijão colhido na roça no dia anterior, acompanhado de uma galinha caipira ao molho. Iguarias como estas não existem melhor. Após a ceia, fui cochilar um pouco em uma macia rede branca feita de tecido “sol-a-sol”.  Afinal, ninguém é de ferro!
                Quando o sol baixou, e o calor deu uma trégua, partirmos de volta para Teresina, eu e minha tia; felizes. 
     
* Chico Acoram é funcionário público federal, contador, poeta bissexto, cronista e contista.                           

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Fotografias Interessantes do Álbum da Cidade

Cartão Postal
          Na composição do Álbum da Cidade, hoje publicamos duas fotografias de uma mesma rua, a curtíssima e importante Travessa Doca Sereno. Tal artéria, como a maioria dos leitores deste blog sabe, possui um único quarteirão, hoje completamente tomado pelo pujante comércio que tomou conta do centro. Como liga a praça da matriz ao mercado municipal, esta rua é passagem obrigatória de grande afluxo de pessoas que transitam pelo centro. No passado, o prédio que vemos à esquerda, abrigou o velho Cine Canecão, de saudosa memória. Aqui mesmo neste espaço já discorri sobre ele, em um post dos mais lidos. Na época em que a foto acima foi feita, durante os anos 80, o prédio já abrigava a sede regional da EMATER Maranhão.



Foto by Carlos Magno
          Esta segunda fotografia ilustra a mesma rua, agora em abril de 2015, em sentido inverso. Foi feita do alto da torre da igreja matriz, como é possível notar, e retrata a transformação pela qual passou a Travessa Doca Sereno durante os últimos anos. Possibilita, ainda, uma visão privilegiada de parte da cidade. E como o trânsito de automóveis mudou também! Se na primeira foto, observa-se um ou outro carro na rua, nesta última mostra que estacionar um veículo por ai é coisa para quem tem paciência. Muita paciência.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Atravessando o Parnaíba no lombo da Maria Fumaça

Trem na Estação de Rosário, última parada antes de entrar na ilha(Década de 30)


O poeta e compositor maranhense João do Vale cantou a saudade da sua terra em vasta e gloriosa discografia que está para sempre imortalizada na memória musical do Brasil. Simples nas suas composições, atingia o âmago da alma brasileira ao discorrer sobre temas fundamentais da nossa fauna e da nossa cultura, inserindo-os nas suas letras. Foi assim quando homenageou o Carcará, representante principal das aves de rapina que povoam o nosso sertão, ou até mesmo a Pipira, pássaro encontrado em quase todo o país, sublime apreciador das nossas frutas mais conhecidas. Poeta consagrado, principalmente nos meios universitários da nossa época, discorreu com grande sobrecarga de sentimentalismo as coisas mais corriqueiras da sua terra. Dentre os temas que ele cantou tão bem, me vem à memória um que diz respeito ao meu saudoso pai, José Pedro de Araújo: De Teresina a São Luís. Falava de uma viagem de trem entre as duas capitais mais ao norte da região nordestina. Foi este o trajeto que o jovem Araújo fez no lombo da Maria Fumaça nos idos de década de 40. Tomou o mesmo caminho e o mesmo meio de transporte que o personagem cantado por João do Vale.  

Assim como milhares de nordestinos fazem todos os anos, o jovem de 21 anos tomou o trem de ferro na estação de Teresina e rumou para São Luís do Maranhão em busca de um futuro mais alvissareiro, uma vida melhor do que a que tivera até então.   Dispensado do exército em razão da redução de contingente( orçamento deficitário), tentaria a sorte na Polícia do Maranhão que, segundo ouvira, estava contratando jovens dispensados pelas forças armadas para compor os quadros da briosa polícia maranhense.
Não tinha pressa, contudo. Transpôs o Parnaíba com dor no coração e uma incerteza enorme com relação ao futuro. Enquanto a Maria Fumaça comia brasa e queimava lenha, o jovem aventureiro acalentava seus sonhos mirando a paisagem exuberante através de uma das janelas do vagão de passageiros. Esquadrinhava o horizonte desconhecido com grande surpresa e encantou-se com o verde vivo das matas que ladeavam o velho e cansado trem. Este, vez por outra, soltava seu grito de alerta através do estridente apito para espantar os animais que ocupavam os trilhos de aço por onde deveria passar.

Na primeira parada para abastecer de água a fumarenta locomotiva, o jovem aventureiro olhou para fora e ficou deslumbrado com o que viu: uma simpática fazendola bem ao fundo de uma espaçosa campina. Resolveu descer do trem e contatar com o senhor que via descansando no alpendre da casa grande. Não demorou muito e já voltava correndo para apanhar suas coisas. Suas coisas é o modo de dizer. Todos os seus pertences se restringiam a uma velha mala de couro com algumas poucas peças de roupa. Havia sido aceito para trabalhar alguns dias naquele lugar que o encantara com a sua simplicidade e beleza. “Alguns trocados a mais”, pensou, “seria de bom proveito quando chegasse na capital do Maranhão”.

Passou quinze dias no povoado Engenho D’água e depois retomou sua viagem até São Luiz, deixando para trás alguns amigos.

Mas a viagem seria interrompida novamente. De forma idêntica aconteceu quando chegou à estação de Coroatá. Passou também alguns dias trabalhando na cidade e, no final, juntou os trocados a mais e embarcou rumo à ilha maravilhosa, agora sem paradas. O que lhe aguardava na capital do Maranhão, conto em outra oportunidade.   

Muitos anos depois, quando vim residir em Teresina, morei em uma casa nas imediações da ponte de ferro que liga os dois estados irmãos. Corria o ano de 1970 e naquele tempo o lastro da ponte metálica era de madeira. Vez por outra a Maria Fumaça passava sobre ela fazendo um barulho tremendo no piso solto. E, via de regra, o pessoal da ferrovia corria para apagar o fogo que começava a se alastrar sobre a madeira. A Maria Fumaça era alimentada com carvão fumegante, e às vezes soltava brasas da sua caldeira sobre a ponte, iniciando um pequeno incêndio que logo era interrompido. Todas as vezes que o trem apitava avisando que ia atravessar a velha ponte, trazia-me de volta a recordação da travessia empreendida pelo meu pai no lombo daquele monstrengo de ferro, um dos poucos meios de transporte na época e também o mais barato de todos. Quanta incerteza carregava consigo ao cruzar o limite dos dois estado! Quanta saudade lhe invadia o peito ao observar que ia ficando cada vez mais distante o seu querido solo natal!       

Ah, João do Vale! Ninguém se expressaria tão bem como fizeste ao descrever com tanto sentimento a passagem dos nordestinos sobre o rio Parnaíba em busca de melhor sorte nas terras do grande e receptivo Maranhão! A saudade do que ia ficando para traz era contrastante com a esperança do que iriam encontrar mais afrente. Enquanto isso, o trem seguia engolindo léguas e cuspindo brasa, espalhando o som estridente do seu apito através dos coqueirais, sobre as várzeas e serrotes, até chegar ao estreito dos mosquitos, quando se começava a respirar o ar fresco e salgado da ilha de São Luis.

O velho trem já não é mais o mesmo. Em lugar da lenha, a ruidosa máquina consome óleo diesel. Mas continua a fazer o seu incansável trajeto, levando os passageiros que contam com pouco dinheiro no bolso ou até mesmo aqueles que apreciam aquele meio de transporte e não estão com muita pressa de chegar. O velho trem cantado pelo vate maranhense, já não queima lenha e nem come brasa. Nem queima tanto, mas atrasa.