sábado, 28 de fevereiro de 2015

Mais duas fotografias antigas

Curador anos 30.

José Pedro Araújo

          A qualidade da fotografia não é boa. Boa, contudo, é a sua história. Produzida em 1930, retrata a população do povoado do Curador naquela época. Mas não somente isso. Mostra também a forma de se vestir, a maioria com chapéus na cabeça, tão comum naquele tempo. O meio de transporte também pode ser vizualizado. Ao invés dos possantes carros de hoje, alguns montavam seus cavalos perfeitamente ajaezados. Por fim, a fotografia também mostrar a esquina da Praça Benedito Soares. A direita, o prédio antigo do sr. Celso Sereno (na parte hoje pertencente à empresa Complast) e logo próximo, ainda com cobertura de palha, a casa do Sr. Salomão Soares. No canto esquerdo, a casa que pertenceu ao Sr. Altino Costa, onde também funcionpou até recentemente um charmoso barzinho, um dos pontos de encontro da juventude do município. 

Presidente Dutra (ex-Curador) anos 60
            A foto acima retrata Presidente Dutra dos anos 60. Rua sem calçamento, posteamento de madeira para sustentar uma fiação elétrica monofásica, apresenta também alguns animais que costumavam circular pelas ruas da cidade. Os dois asininos à direita estavam sendo usados para transportar produtos agrícolas. Era comum também a presença desses animais pelas ruas transportando cargas de lenha para venda à falta do hoje indispensável gás butano. À esquerda é possível ver a residência do meu pai, juntamente com a sua casa comercial. E ao fundo, o primeiro prédio com mais de um pavimento construido na cidade: o Oton Hotel, localizado na Praça Diogo Soares. Na época em que a fotografia foi feita, servia como escritório para o Posto Serigy, pertencente também ao empresário Oton Gonçalves.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O JUDICIÁRIO DE JOELHOS




 
            Esta ouvi de fonte bastante confiável. Entretanto, se algum exagero há não me cabe culpa nesta história. Estou vendendo o peixe pelo mesmo valor que o comprei. E como não me foi pedido segredo sobre o acontecido, repasso aos leitores tudo o que ouvi. Procuro, apenas e tão somente, ordenar a história de forma a torná-la mais entendível.


           Afiançou-me a minha honestíssima fonte, que certo dia se encontrava em audiência com o meritíssimo Juiz da Comarca de Presidente Dutra, que naquele dia despachava preguiçosamente na sua residência situada na Praça São Sebastião, quando um fato pra lá de inusitado aconteceu. Naquele tempo, é bom que se diga, a dita Praça ainda não possuía uma pedra sequer de calçamento, como de resto a cidade toda também não. As ruas ficavam esburacadas no período das chuvas e, logo que vinha o sol, a poeira cobria a todos com um pó avermelhado que se mantinha em constante suspensão, dando ao ambiente um aspecto triste e lúgubre.


            Naquele dia, na Praça mencionada, o capim-de-burro crescia viçoso, atraindo alguns animais vadios que transitavam livres e desimpedidos pelas ruas da pacata cidade, aprontando todo tipo de estripulia, tão peculiares àqueles irracionais.


Pois bem. Naquela tarde modorrenta, despachava a maior autoridade judiciária do município na sala da sua casa, situada ao lado do Convento das Irmãs, enquanto alguns quadrúpedes aparavam alegremente a grama que crescia livre no Largo ainda à espera de uma ação da prefeitura. Aboletado em uma cadeira situada atrás de uma pesada mesa, local costumeiramente usado para as principais refeições diárias, os dois homens conversavam despreocupadamente. Meu confidente se achava sentado no lado oposto e de costas para um corredor estreito e comprido que dava para a porta de entrada. Naquele instante, trajava sua excelência um vistoso pijama de verticais listras vermelhas e azuis, enquanto desfiava a sua agradável e bem articulada verve. O magistrado achava-se particularmente animado naquela tarde que se encaminhava para o fim.


           De repente, um barulho ensurdecedor chegou até aos ouvidos dos dois homens, interrompendo aquele agradável e amigável colóquio. Em um instante apenas, já era possível identificar um tropel acelerado avizinhando-se de onde eles estavam. Aquele ambiente fechado agia como um amplificador e elevava às alturas o barulho que aumentava de intensidade à medida que a tropeada se aproximava da sala em que os homens conversavam. Aqui abro um parêntese para lembrar que naquelas inauditas eras, a insegurança e a violência já andavam juntas, de mãos dadas, intranquilizando, sobretudo, as autoridades que, vez por outra, viam-se confrontadas com o cano de alguma arma de fogo empunhada por um truculento pistoleiro de aluguel. Não era para causar espanto, portanto, o pavor que tomou conta do ambiente naquele instante.


Assim, um misto de surpresa e terror estampou-se no semblante daqueles homens no instante em que um casal de jumentos irrompeu furiosamente pela sala, deixando tempo suficiente apenas para o interlocutor do juiz jogar-se de lado e fugir do atropelamento iminente.


           O que aconteceu a seguir abalroou literalmente a autoridade do magistrado encarregado pela aplicação e o respeito às leis do nosso país naquele perdido rincão. Munida da sua condição de animal irracional, enquanto procurava escapar do assédio incontrolável de um jumento degenerado, uma pobre jumentinha adentrou ao primeiro local que considerou mais seguro: a casa do nosso juiz, que àquela hora encontrava-se com a porta de entrada descuidadamente escancarada.


            Em louca disparada o animal penetrou pelo comprido corredor até que se viu impedida de continuar fugindo do seu algoz, pois havia abalroado a mesa de reunião e imprensando o pobre juiz contra a parede. Na animais irracionais não respeitam a lei mesmo!


           A cena que se seguiu foi apavorante para aqueles homens. Enquanto o macho dava vazão à sua incontrolável e bestial tara, os dois homens se achavam em posição desconfortável e humilhante. Caído de lado, aos pés da dupla invasora que naquele momento consumava o ato instintivo e animalesco, o visitante observou que o Magistrado se achava em posição muito pior que a sua. Imprensado entre a mesa e a parede, o Juiz era obrigado a receber no rosto uma baba gosmenta que a vitimada deixava escorrer da boca. Era possível jurar mesmo que dava para ele sentir o ar quente e o cheiro de ervas que saia pelas narinas do animal, tão perto se achava o seu rosto do da seviciada.


          Caos instalado, o visitante conseguiu se levantar e logo cuidou de agir para retirar o juiz daquela situação constrangedora. Diligente, num primeiro momento tentou empurrar os animais usando apenas a força dos braços. Não conseguiu sucesso. Os bichos nem se mexeram. Apelando depois para a ignorância, deferiu-lhes alguns chutes na ilharga. Outra vez os bichos nem se deram conta que ele estava ali. Ai já era demais! O pobre magistrado precisava ser retirado daquele estado de completa humilhação. Então, empunhando uma pesada cadeira meu confidente voltou a espancar ainda outras tantas vezes o animal cobridor, mais ele novamente não arredou do lugar, para desespero seu. Não havia força bruta que interrompesse aquele ato carnal.


          Finalmente, concluído o libidinoso entrevero, o mau caráter desmontou da pobrezinha e tomou o caminho da saída como se nada de grave houvesse acontecido. A fêmea o seguiu tranquilamente, parecia não ter acontecido nada com ela. Ao juiz, que estava com a sua autoridade vilipendiada e, literalmente, pisoteada, só restou vociferar contra aquele lugar mergulhado em tão profundo atraso a ponto de submeter um dos três poderes da república a um vexame tão grande. Descabelado, nosso legitimo representante do judiciário gesticulava furioso enquanto apalpava o próprio corpo para identificar se algum órgão ou osso se achava rompido ou fora do lugar. Literalmente havia o soberbo Juiz se ajoelhado ante uma força maior e mais destemida.      

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A viagem









(Chicoacoram Araújo)

Rumo à cidade grande. Quatro ou cinco horas de viagem; cerca de 130 quilômetros. O caminhão partiu levando uma família cheia de esperança. E na carroceria, uma pequena e modesta mobília, e um menino que se acomodara entre os rústicos móveis. Era o mais velho dos quatro irmãos. Tinha oito anos de idade. Sorriu abobalhado em face de sua primeira viagem, sobretudo pelo fato de ser transportado em cima de um caminhão. Este era seu sonho - andar de carro, momentos raros naqueles tempos de infância. Seus pais, as outras crianças e o motorista se apertaram na boleia do veículo. Seguiram viagem, incertos do futuro certamente.
Na estrada empoeirada, o menino encantava-se com tudo o que via. Às margens da rodagem, as árvores pareciam correr em extraordinária velocidade. Viu pássaros que sobrevoavam as matas, destacando-se um bando de periquitos de cor verde e amarelo em patuscada algazarra. Um nambu correndo no mato. Um astuto carcará pousado em cima de um Jatobá espreitando sua presa. Flagrou um fugaz preá que atravessara a estrada rumo ao capinzal. Mais adiante, uma velha palmeira lascada por um violento corisco no meio do babaçual.  Casas de palha e roças plantadas com milho, arroz, melancias e outros legumes, ficavam para trás. Um homem aboiando seu pequeno rebanho de bois também ficou. O sol no poente, resplandecente. O arrebol ao entardecer. Tudo passaria em breve.
Anoiteceu. Não se presenciou mais nada, apenas uma escuridão sem fim. À frente, os faróis do caminhão alumiavam o caminho com sua clara luz ofuscante. Agora, o semblante do menino era de tristeza e de uma profunda melancolia. Lembrou-se da sua casa de adobe às margens do Marataoan, da escola na antiga capela da Boa Vista, dos parentes e dos amigos. Tudo ficou para trás; apenas saudades.
Quatro horas de viagem. A noite era silenciosa e misteriosa. Ouvia-se apenas o barulho causado pelo atrito dos pneus do veículo no chão de piçarra. O garoto sentiu-se cansado e com medo. Para ele, as silhuetas das árvores, na escuridão, transformavam-se em monstros do outro mundo. Tudo era medonho. Cochilou por alguns instantes sobre um velho colchão de palha de milho da cama dos pais. Acordou atordoado quando do balanço do caminhão. Estavam em uma curva.
Recobrado do sono, o garoto não olhou para os lados e nem para trás. Fixou seu olhar firmemente para frente, desejando que afinal a viagem chegasse ao seu destino. Não demorou muito quando, muito além das sombras distantes, avistou clarões que pareciam luzes remanescentes produzidas por relâmpagos em noites de fortes temporais. A claridade expandia-se rapidamente. Então, seu pai gritou lá da cabine, dizendo que estavam chegando à Capital. Começo de uma nova vida; o que se foi não voltará jamais.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Bico do Papagaio – Berço dos conflitos agrários no Brasil






Os conflitos pela posse da terra se arrastam até os dias de hoje no Brasil e, pelo andar da carruagem, não tem data próxima para acabar. Se hoje o assunto divide as pessoas em prós e contras em apaixonado debate, imagine-se o que acontecia lá pelo final da década de 70, quando os militares ainda estavam no poder e abominavam qualquer forma de protesto. O chamado Bico do Papagaio é uma região de solos fertilíssimos, e florestas luxuriantes, encravada entre os rios Tocantins e Araguaia, no norte do estado do Tocantins. A partir dos anos sessenta, e posteriormente à abertura da transamazônica, milhares de famílias de trabalhadores rurais, a maioria expulsa de suas terras nordestinas pela seca inclemente, escolheu essa região de terras férteis e água em abundância para se situarem.

O exuberante rio Araguaia corre à esquerda do Tocantins por centenas de quilômetros no rumo norte até entrar neste último em um ângulo que vai se fechando à medida que um se aproxima do outro. E o desenho formado na aproximação desses dois imensos drenos fluviais, toma um aspecto da cabeça e, finalmente, do bico de um papagaio. Por isso o nome com que a região passou a ser conhecida. E dentro dessa Mesopotâmia, milhares e milhares de hectares de terra boa para o plantio de gêneros alimentícios, mas também para a criação de animais, passou a ser alvo de sangrenta disputa.  

No final dos anos setenta se estabeleceu na região um religioso italiano chamado Nicola Arpone. Enviado pela CPT para prestar assistência aos trabalhadores rurais acossados pelos fazendeiros e grileiros que ocupavam desordenadamente a região, o religioso logo organizou as comunidades rurais para a defesa de suas posses. Como parte da sua estratégia, passou a estimular a formação de grupos de pessoas que vivam na periferia de São Sebastião do Tocantins, Augustinópolis, Sampaio e Buriti, para procederem à ocupação dos grandes latifúndios existentes na região. Essas terras, normalmente em poder de grupos econômicos de fora do estado, vivam praticamente sem nenhuma exploração e em total descumprimento da sua função social. E por conta dos graves problemas fundiários ali existentes, o governo declarou sub judice uma extensa faixa de terra que ia desde São Sebastião do Tocantins, situado bem no Bico do papagaio, a Porto Nacional, englobando milhões de hectares. O ato suspendia a validade dos registros de todas as terras da região, em razão da grande quantidade de títulos falsos de terra que circulava na região. Os tais grileiros imperavam na região, e a comercialização de terras tomou impulso sem precedentes.

Nicola Arpone se servia da igreja do município e das capelas erigidas nas outras comunidades, para reunir os trabalhadores ao término da missa. A notícia sobre as ações do religioso se espalharam rapidamente e logo a reação dos grandes proprietários e latinfundiários sobre as autoridades constituídas começou a surtir efeitos. Certo dia, quando os sindicalistas faziam uma reunião no povoado Sampaio, um helicóptero do exército sobrevoou o local e disparou rajadas de metralhadoras no largo fronteiriço à capela. Houve grande correria e desespero. Dizia-se na época que mulheres perderam crianças e que muitos velhos morreram de ataque cardíaco. Essas notícias faziam parte da política de informação e contra informação dos envolvidos no conflito que se iniciava. Mas, o certo é que o desespero foi grande naquele dia.  

Retrocedo um pouco no tempo para dizer que cerca de um mês antes deste relato, estive em São Sebastião do Tocantins para observar a movimentação dos ditos sem terra. Num dia de sábado, desloquei-me para o município acima referido para levantar informações sobre as ocorrências que eram de interesse do INCRA. Fui escolhido exatamente porque era um dos mais novos na repartição, e um desconhecido para os sindicalistas da região a ser visitada.   

Chegamos cedo à cidade e, como já havíamos previamente acertado com algumas pessoas conhecidas, nos dirigimos ao rio para tomar banho. O local escolhido foi uma “coroa” no meio do rio, onde algumas pessoas já se encontravam. Conduzíamos um isopor com algumas cervejas e refrigerantes. Era a nossa parte da brincadeira. Aos nativos coube a tarefa de apanhar o peixe no rio e preparar o tira-gosto. Tomei conhecimento naquele dia de uma iguaria muito apreciada pelos ribeirinhos: a carne de uma tartaruga chamada Tracajá. Mas a forma de preparo do quelônio me afastou dele. Pegava-se o bicho vivo, sangrava-o e, em seguida, sem retirar suas vísceras, ele era colocado com o casco para baixo para assar sobre uma fogueira acesa. Depois de considerado pronto é que ele era aberto e tinha as vísceras extraídas. Na cavidade formada, após a retirada das vísceras, ficava um liquido esverdeado. Repugnou-me aquilo. Não conseguiu comer nem um naco da carne branca do anfíbio. Os colegas de farra riram a valer do meu escrúpulo e diziam que eu não sabia o que estava perdendo. Sobrou mais para eles do petisco que comiam com indisfarçável prazer.

Mas o meu objetivo ali era outro. Bebi pouco e comi menos ainda.

À tarde, por volta das duas horas, parte da população acorreu ao templo católico para assistir à missa. Fomos também. O traje não era muito adequado e, por isso, chamamos muito a atenção dos circunstantes. A missa continuou, contudo. Terminada a parte litúrgica daquela tarde, começou a reunião dos presentes com o pessoal do sindicato. O palestrante daquela tarde seria o famoso Nicola Arpone, além de duas religiosas que lhe faziam companhia sempre. Acredito que francesas também. Mal começou a reunião, e o esperto religioso logo deu pela nossa presença. E então mudou completamente o discurso. Até o término do encontro só se ouviu mensagens religiosas. Uma frustração. Voltei para Araguatins sem ouvir o tal discurso inflamado que se afirmava ser a tônica das reuniões do religioso com a comunidade.

22 de julho de 1979. Manhã de domingo. Um mês depois. Um helicóptero militar de tamanho avantajado, com uma metralhadora, também de dimensões assombrosas, apontada para fora da aeronave, baixa de repente na praça em frente ao prédio do INCRA em Araguatins. E em meio à poeira levantada, um grupo de militares desembarca dele conduzindo três pessoas algemadas. Já no interior do prédio todos se dirigiram para a sala do executor, chefe do projeto fundiário. E lá procederam ao interrogatório dos prisioneiros.

A imagem de um dos homens que permaneceu no helicóptero, lá fora, era de botar medo. Segurando a metralhadora com suas possantes mãos, o indivíduo encarava a plateia que ia se formando como se fosse disparar a arma a qualquer momento. O homenzarrão tinha o rosto pintado de preto e vestia-se com roupas camufladas de combate, e do rosto saltavam dois olhos vermelhos e ameaçadores. Como se para ampliar o ambiente dantesco, a aeronave continuava com os motores ligados enquanto o restante do grupo se mantinha com os prisioneiros no interior do prédio. A barulheira era infernal, e a poeira tornava o ambiente lúgubre.  

Nunca tive a curiosidade de perguntar para o executor do projeto se tinha havido um contato prévio dos militares com ele. Mas é bem provável que sim, pois quando os homens chegaram, já estávamos na frente da repartição para recebê-los. Poucas pessoas receberam permissão para entrar no prédio naquele domingo. Reconheci entre os três homens conduzidos algemados, o presidente do Sindicato Rural de São Sebastião e o Secretário da entidade. Os três estavam com um aspecto lastimável, pareciam ter sido judiados no rápido trajeto aéreo entre São Sebastião e Araguatins.

Reiniciado o interrogatório, os militares perguntavam-lhes, insistentemente, pelo paradeiro de Nicola Arpone. Nesses momentos os homens negavam saber onde o religioso se encontrava, e recebiam safanões em troca. Depois de alguns momentos de profunda consternação ao vermos a sede da instituição sendo utilizada para outras finalidades menos nobres, vi quando um dos militares aplicou um telefone com as duas mãos em forma de concha nos ouvidos do presidente do sindicato. O golpe surdo me causou revolta e principiei um protesto. Mas rapidamente fui convidado a me retirar do recinto. Recebi ordens para ir para casa.  

Parece que a secção de torturas fez efeitos, pois logo a aeronave levantou voo com todos os que nela haviam chegado. Somente depois, ficamos sabendo que voaram em direção à cidade de Wanderlândia, situada nas margens da rodovia Belém-Brasília.

Lá conseguiram capturar e aprisionar o religioso, retirando-o da casa paroquial. O assunto tomou conta do noticiário nacional e ganhou as páginas da imprensa mundial. Mas, apesar da CPT e da CNBB pressionarem as autoridades pela libertação do religioso italiano, não se sabia ao certo o seu paradeiro. As informações chegadas até nós eram de que o italiano estava sendo levado de um lugar para o outro da floresta enquanto era torturado. Queriam que ele emitisse informações sobre o movimento organizado por ele no Araguaia.

Precisamos lembrar que poucos anos antes, essa mesma região foi alvo de um movimento armado que ficou conhecido como Guerrilha do Araguaia. Dezenas de pessoas perderam a vida em decorrência dos combates entre as forças do governo e os ditos revolucionários. O receio do governo, portanto, era que o problema voltasse novamente a ocorrer, agora sob o disfarce de uma luta pelo acesso à terra. O tempo se encarregou de mostrar que o movimento ali iniciado tinha como objetivo apenas a luta pela ocupação de milhares e milhares de hectares de terras usurpadas por grileiros de todos os lugares que iniciavam uma corrida rumo ao norte do país. E que, enquanto isso, os pequenos trabalhadores rurais que já vinham desbravando a região há tantos e tantos anos, passaram a sofrer pressão para abandonarem a região que haviam desbravado à custa do suor e do sangue dos seus familiares. Região inóspita e insalubre que agora virara objeto da ambição de fazendeiros e madeireiros de todos os cantos do país.